31.3.17

A CORAGEM DE DIZER , BASTA!




A mulher que caminhava pela praia naquele entardecer, era muito bonita, mas trazia nos olhos uma tristeza, que parecia impossível de esconder. Ali perto, duas crianças brincavam na areia, enquanto a mãe sacudia a toalha e a metia no saco, dando por findo aquele dia de praia.
Ela porém, nem se apercebia do que se passava à sua volta. Parecia perdida num outro mar, que não aquele que suavemente lhe beijava os pés. Um mar  de recordações.
Foi num fim de tarde como este que conhecera Eduardo. Ela caminhava pelo parque da cidade, olhando embevecida as crianças que brincavam no escorrega, fazendo grande algazarra. As flores, impregnavam o ar com um intenso, mas agradável aroma. Rita, ia tão absorta, que não viu aquela raiz, na qual foi tropeçar, saindo projetada para...os braços de Eduardo. Sim porque fora ele. que por ali passava e a segurara, quando se apercebeu que ela ia cair. Rita sentiu o olhar intenso e trocista de Eduardo, e sentiu-se envergonhada, mas coisa esquisita, sentiu uma estranha sensação de felicidade. Agradeceu sentindo-se corar sob o olhar dele. Eduardo pelo contrário parecia divertido com a sua atrapalhação. E depois de algumas palavras que ela quase não escutou, combinaram encontrar-se no dia seguinte. Naquela noite, o sono tardou para Rita. Ela não conseguia esquecer o desconhecido do parque. E só nessa altura se deu conta que tinha esquecido de perguntar o seu nome. Que faria ele no parque? Passaria ali por um acaso, e a vida teria caprichado naquele tropeço, para que se conhecessem? E se assim era qual iria ser o seu papel na vida dela? Era bonito, pensava ela. E dava voltas na cama, ansiando pelo nascimento do dia. Pobre Rita. Se ela soubesse o quanto ia sofrer por aquele homem, teria sufocado a sua lembrança, e nunca teria voltado ao parque, para o encontro. No início Eduardo parecia ser o homem dos seus sonhos. E o que começou com uma amizade, não tardou em transformar-se numa intensa paixão. Ela vivia cada beijo, cada instante, sentindo-se a mulher mais feliz e mais amada da terra.
Casaram num dia de sol em pleno mês de Maio. Eduardo não quis casar na igreja, e isso foi uma pequena nuvem a ensombrar a felicidade de Rita, cuja fé lhe pedia a bênção no altar.
Três dias, durou a felicidade dela. Três dias como o Carnaval. Carnaval! Estranha associação. Mas a verdade é que ao fim de três dias, a ternura deu lugar à prepotência, os beijos, às palavras duras, e sarcásticas. Menos de um mês depois, começaram as ameaças. Começou a pensar, que o homem com quem se casara, era um desconhecido, que usara uma máscara, pela qual ela se apaixonara. Como fora possível iludir-se assim?
 Nunca mais saíram juntos. Ele saía depois do jantar e voltava tarde da noite, algumas vezes dormia fora, e chegava a casa a cheirar a perfume barato.  Rita era uma mulher de coragem, e substituído o amor pela desilusão, decidiu pôr um ponto final no casamento.  
Daí que naquela  tarde, passeasse junto ao mar, a sua falsa liberdade de mulher, divorciada do homem, mas ainda presa às recordações.



30.3.17

AS APARÊNCIAS ILUDEM...



Aconteceu numa tarde de Julho. O calor apertava, e toda a gente procurava o parque na margem do Vouga, pejado de seculares e frondosas árvores, sob cuja sombra, o ar era muito mais ameno.
Os bancos de madeira, pintados de vermelho vivo, lembravam manchas sangrentas, no meio de tanto verde. Porém naquele dia, de feira de artesanato, não havia onde sentar para ler, ou simplesmente, me refrescar da canícula que me amolecia o corpo.
Procurando um banco livre, cheguei a um pequeno terraço que se erguia sobre as águas, e sob a ponte de aço que atravessa o rio. É um terraço que lembra uma pequena sala, com três bancos dispostos em forma de U.
O banco central de frente para o rio, mesmo por baixo da ponte, era ocupado por um homem e uma mulher. Os dois na lateral estavam vazios. Ocupei o da direita e quase em simultâneo um casal de meia-idade ocupou o da esquerda. Conhecia-os e por isso cumprimentei-os. E voltei a minha atenção para o casal   desconhecido.
O meu lado detetivesco pôs-se a examiná-los e a fazer cogitações.
. Pareceu-me ver um ar de contrariedade no rosto masculino.
A mulher fazia renda, e parecia completamente absorvida pelo movimento da agulha.
Teria perto de quarenta anos, morena, de cabelo escuro, e vestia uma saia justa castanha, que só não lhe mostrava os joelhos, porque em cima destes repousava a renda que fazia. Uma tira larga, decerto para colcha ou toalha. Completava o traje, um camiseiro branco, que parecia saído do anúncio de um qualquer detergente.
O homem, parecia mais velho. Devia beirar os cinquenta, também moreno, cabelo castanho, tinha um ar simpático, vestia calça cinza, e camisa creme. Lançou-me um breve olhar, e voltou a interessar-se, pelos três filhotes de andorinha, que no ninho por baixo da ponte, piavam desalmadamente.
A mulher continuava a olhar o movimento das agulhas como se estivesse hipnotizada.
Estariam amuados?
Comecei a imaginar, uma briga, talvez por ciúmes, o homem além de bem-parecido, tinha um ar simpático e malandro. Imaginei o homem mirando alguma jovem bonita, quem sabe até a jovem da farmácia que tinha os mais lindos olhos azuis que algum dia presenciei, e a mulher sentindo-se humilhada, escondia na renda o seu desencanto.
Pouco depois, a andorinha mãe, passou veloz, num voo rasante junto à cabeça do homem, sentado no outro banco lateral. Assustado disse um palavrão, enquanto a mulher soltava uma sonora gargalhada. E logo disse:
-Está apressada. Os filhotes estão com fome...
-E já falta um. Ontem eram quatro, hoje são só três. Um deve ter caído ao rio - disse o homem do banco da frente.
A mulher nem levantou os olhos, continuando a sua luta com a agulha de renda.
Então o homem levantou-se e foi-se embora.
A mulher levantou os olhos da renda, suspirou e sorriu para nós.
Aí percebi. Afinal todas as minhas conjeturas, não passavam mesmo de imaginação. Provavelmente o homem, não passaria de um conquistador barato, que estaria a incomodar a mulher.
Pouco tempo depois, um outro homem aproximou-se, e dando as boas tardes, beijou a mulher, que sorriu feliz.  Percebi a anterior aflição da mulher. Deduzi pela  indumentária, do homem, demasiado quente para o calor que estava, que ele vinha do tratamento nas Termas, e que a mulher estava ali à espera que ele terminasse o tratamento, quando o outro homem a descobrira. A nossa presença, fez com que se sentisse frustrado e fosse embora, evitando assim um encontro desagradável.
Confesso que fiquei feliz. Afinal o meu passeio pela margem do  rio, tinha sido providencial.





29.3.17

CRIME DE MORTE



                        notas de mil escudos de 1927


Nota: Esta estória, já aqui a contei uma vez há dois anos. Pelos comentários da época percebi que quem a leu, julgou tratar-se de mais um conto meu. Esta história é verídica, passou-se com minha avó, Maria do Carmo da Silva, e foi-me contada por ela.  Minha mãe e tios também a contavam. A única dúvida é nas notas, ela contou-me assim em 60 quando eu estive a passar um mês com ela. Os meus tios falavam em duas notas de quinhentos. Seja uma ou duas era uma fortuna, em notas que ela nem conhecia, pois nunca tinha visto notas de tal valor.

Passo a contar a estória.


A história que vou contar, passou-se na Trapa, pequena aldeia, do concelho de S. Pedro do Sul, nos gloriosos e loucos anos vinte. Numa pequena casa tipicamente beirã, daquelas de granito que ficavam por cima da “loja” onde se guardavam os animais, se os havia, e os mais pobres guardavam apenas os utensílios de trabalho na terra,  a caruma, e a lenha para o fogo, viviam a Maria e o marido, mais os cinco filhos, dos oito que já tivera. A casa era composta por uma ampla entrada, onde num canto havia uma chaminé, e um pequeno forno de lenha que a Maria utilizava para cozer o pão. Não havia fogão, a refeição era cozinhada numa panela de ferro, com três pés que assentava diretamente em cima da fogueira, que se acendia ao lado do forno, sobre uma placa metálica, assente em cima das pedras, que formavam o chão. Completava a decoração, uma comprida mesa de madeira e dois bancos corridos, que serviam na hora das refeições.
Além desta “sala”, a casa tinha dois quartos. Num dormia o casal, com o filho mais novo, no outro, os quatro filhos mais velhos. Nos quartos, mantas de trapo, sobre enxergas de palha de centeio, serviam de cama, na hora de descansar o corpo. Manuel, o marido trabalhava no campo quando havia trabalho, e quando não, batia as portas das redondezas à procura de ferro-velho que depois vendia na Feira Velha, uma feira mensal que se fazia em S. Pedro a cerca de 9 km que o Manuel fazia com o seu burrico que ele batizou com o nome de Tem Dias. Isto, porque segundo ele o burro tinha dias, em que era obediente à voz do dono e outros em que empancava e não se mexia por mais que recebesse ordens em contrário. Naquele longínquo ano de mil novecentos e vinte e nove, Maria estava de novo grávida. Estávamos no início de Setembro, Manuel não tinha trabalho, e nada havia para comer naquela casa. E se os três filhos mais velhos com nove, dez, e onze anos, já estavam a "servir" em Lourosa, e em Santa Cruz, e já não davam cuidados, os outros cinco tinham fome.  Maria pensou que tinha que arranjar comida para os filhos. O marido só chegaria à noite e quem sabe se traria ou não alguma coisa para comerem.  Deitou o bebé numa canastra que pôs à cabeça, pegou no outro pequeno ao colo, e seguida dos outros três foi em busca de comida. Batia à porta das casas mais abastadas e oferecia algum trabalho em troca de comida para as crianças. Não pedia esmola, tinha vergonha. Mas as pessoas tinham pena das crianças e sempre lhe davam alguma coisa. Naquele dia, numa dobra do caminho deparou com uma carteira. Era uma bela carteira de pele com iniciais gravadas a ouro. A tremer Maria abriu a carteira e viu umas quantas notas. Cada vez mais assustada tirou-as da carteira mirou-as e viu que era uma nota de mil escudos, uma nota de 500 escudos uma  de 100, três de 50, e cinco de 10.
Uma fortuna. Ao metê-las de novo na carteira qualquer coisa caiu no chão e Maria viu que era uma fotografia. Reconheceu o homem. Um doutor de uma aldeia vizinha, homem rico e influente com negócios em Lisboa e Porto. Maria pegou na carteira e foi a casa do tal  doutor. Lá chegada, puxou o sino do portão da quinta e uma mulher de idade, a "criada"  - naquele tempo chamavam-se assim, veio à porta. Maria disse que tinha achado a carteira e vinha entregá-la. A criada pegou na carteira e foi para dentro. Maria ficou à espera que ela voltasse. Quem sabe o homem, lhe daria alguma comida para as crianças. Um palácio daqueles tinha com certeza mesa farta. Porém o tempo foi passando e a criada não voltava. Impaciente e cansada com o peso dos filhos e da barriga, a mulher puxou de novo a sineta do portão. E então a "criada" voltou.
-Entregou a carteira ao seu patrão? Perguntou Maria
- Entreguei - respondeu ela
- E o que ele disse?
-Guardou-a e não disse nada.
-  Por favor, diga-lhe que eu estou aqui, que tenho as crianças com fome, se me pode dar alguma coisa para elas comerem.
-Espere um pouco que eu vou dizer-lhe.
A mulher virou costas e voltou pouco depois com uma corda.  Com lágrimas nos olhos estendeu-a a Maria dizendo.
- Eu fui falar com o senhor Doutor e ele disse que era para eu lhe trazer esta corda. E quando eu perguntei o que lhe ia dizer, ele disse que se enforcasse, porque uma pessoa que tem os filhos com fome, encontra uma fortuna e vai entregá-la, não merece viver. Desculpe, dói-me tanto, mas foi o que ele me disse.
Maria engoliu as lágrimas, pegou os miúdos e virou costas pensando: 
-Que raio de País é este, onde ser honesto merece pena de morte?



28.3.17

INSÓNIA

A noite vai alta.

No céu, sem nuvens, as estrelas observam curiosas. Num prédio igual a tantos outros, alguém abre lentamente uma janela. Angustiada a figura masculina,  interpõe-se por momentos, entre a luz da rua, e as sombras do quarto. Perpassam-lhe pela memória os acontecimentos daquele sábado. Como se estivesse no cinema, assiste ao filme da sua vida. Na verdade, ela, a Vida nunca fora fácil para ele. Tudo o que era e o que tinha arrancara dela á força.
O tempo passa, o filme chega ao fim. O sono não veio. Um carro passou rápido, quebrando por momentos o silêncio quase religioso em que a noite mergulhara. Abanando a cabeça, como quem sacode pensamentos dolorosos, o homem deu meia volta e afastou-se da janela. Um raio de luar, veio qual amante atrevido, pousar no corpo da mulher, que nua, na cama, dorme docemente...
Como atraído por um íman, o homem  olha-a. E sobressalta-se. Como se só naquele momento desse pela presença feminina. Ou talvez quem sabe, vê-la assim, nua, banhada pelos raios lunares, qual deusa adormecida, tivesse despertado o Amor, que as preocupações diárias, tinham sepultado no seu subconsciente. A paixão incendiou-lhe o peito, o desejo adormeceu-lhe as preocupações.
Naquele momento deixou de existir o mundo lá fora. Nada além daquele quarto, daquela mulher, e do amor que sentia por ela lhe importava. Ansioso, caminhou para a cama. As suas mãos, frenéticas perderam-se naquele corpo tão conhecido, reinventando carícias, ansiando perder-se nele.
A mulher acordou. Soltou um gemido, e enlaçou o corpo masculino. Não sabia que horas eram, mas que importava isso? O momento era aquele. E deixou-se submergir naquele mar de paixão.
Pela janela, a lua enlaçou os dois amantes, como protegendo aquele Amor.


elvira carvalho

27.3.17

CRISTINA

baseado numa estória real.


Ia a década de sessenta a meio, quando Cristina nasceu. Era a primeira filha, e viria a ser a única de um casal que já não era muito jovem para a época. Hoje os tempos são diferentes, as mulheres são mães mais tarde, mas naquele tempo, raramente uma mulher, era mãe do primeiro filho depois dos vinte e cinco anos. Pouco tempo depois do seu nascimento, o pai perdeu o emprego, e passaram por um tempo de crise, já que o pai com trinta e cinco anos, já era na altura velho demais para a maioria dos empregos.
Enfim conseguiu um emprego e a situação estabilizou, mas o medo do futuro roubou a Cristina a felicidade de ter um irmão.
A menina cresceu assim, com todos os zelos, mimos e confortos que sempre têm os filhos únicos, mas que não compensam a alegria do abraço de um irmão ou irmã, com quem nos podemos zangar, até brigar, mas com quem sempre acabamos por dar um abraço, partilhar uma brincadeira, contar um segredo.
Muito inteligente, foi crescendo, sempre com boas notas, mas com pouca vontade de estudar. Quando completou o Secundário, deu os estudos por terminados e entrou no mercado de trabalho. Era uma jovem muito bonita, alta, morena, grandes olhos escuros e farta cabeleira levemente ondulada, (com o que sempre embirrou pois gostava dos cabelos lisos). Pretendentes não lhe faltavam, mas nunca se entusiasmou com nenhum, vá-se lá saber porquê.
Aos vinte anos Cristina tinha tudo para ser uma mulher feliz. Era bonita, tinha um bom emprego e acabara de comprar um carro. Casamento, filhos, tudo isso estava muito distante, ela tinha uma vida inteira pela frente, tudo viria a seu tempo. Pouco depois de completar vinte e um anos, Cristina adoeceu. Fraqueza muscular, infeção urinária, visão dupla. Recorreu ao médico, fez análises, tomou antibióticos, a infeção cedeu e pouco depois estava bem. Retomou a vida normal, transformou um amigo em namorado, não gostou da transformação, mandou o namorado passear, e foi vivendo o melhor que podia e sabia, dentro dos cânones normais para uma jovem da sua idade, naquela época, com uns pais conservadores.
Dois dias antes dos vinte e três anos, Cristina voltou a adoecer. Novamente a fraqueza muscular, também tremores de movimentos, diminuição da acuidade visual unilateral. Mais uma vez recorre ao médico que depois de repetidas muitas análises lhe diz que não encontra nada, que provavelmente são nervos e lhe receita uns “calmantes fraquinhos”
Duas semanas depois estava bem, e tudo parecia ter voltado ao normal, embora ela notasse que tinha menos força nas pernas. Os anos foram passando, Cristina ia tendo crises cada vez mais frequentes e cada vez mais intensas. Andava de médico para médico, ninguém descobria o que se passava, até que as crises, que inicialmente eram muito espaçadas, começaram a surgir de dois em dois meses, e só passavam com tratamento hospitalar.
Quando naquele dia de Março de mil novecentos e noventa e três, Cristina foi a uma consulta de oftalmologia, estava de novo com visão dupla. Tinha vinte e oito anos e há muito tempo, deixara de ter uma vida normal. O médico depois de a observar, disse-lhe que ela não tinha nada que ele pudesse tratar, mas que ia mandá-la a um neurologista amigo dele, a quem escreveu uma carta que fechou e lhe entregou.
Cristina assim fez. O neurologista depois de ler a carta, fez-lhe imensas perguntas e por fim mandou-lhe fazer uma tomografia, e uma ressonância ao cérebro.
Por essa altura, Cristina namorava já, há uns dois anos, e o namorado acompanhou-a a fazer os exames.
Pouco tempo depois, os resultados ficaram prontos e Cristina foi de novo ao neurologista. Este examinou-os atentamente e depois deu o veredito. Cristina sofria de uma doença auto-imune, a Esclerose Múltipla. 
Ela, nada sabia da doença mas imaginou que não seria nada bom. Pediu esclarecimentos ao médico que lhe disse tudo o que ele próprio sabia. Se hoje não se sabe muito sobre esta e outras doenças autoimunes, imagine-se naquela época.
Cristina chegou a casa, fechou-se no quarto e chorou. Chorou como nunca tinha chorado na vida. Chorou pelos sonhos, que morreram nesse dia, pela incerteza do seu futuro, pela tristeza de seus pais.
No dia seguinte, decidida acabou o namoro. Disse que nunca seria capaz de aceitar o amor de uma pessoa, sabendo que mais cedo ou mais tarde, ia fazer essa pessoa sofrer. Que não queria correr o risco de pôr no mundo um filho, que não sabia se poderia criar. E não houve quem a demovesse.
Durante alguns anos, Cristina manteve o emprego. Depois a empresa faliu e claro que ela não conseguiu novo emprego. Foi reformada por deficiência com trinta e oito anos.
Hoje Cristina, continua a viver com os seus velhos pais. Sofreu muito, cada vez que surgia um novo surto. Há uns anos que com a mudança de medicação, deixou de ter surtos, mas a doença continua a evoluir, embora de forma mais lenta. Apesar disso é ainda uma mulher muito bonita. Vive um dia de cada vez, como costuma dizer. Sorri com facilidade apesar de todas as provações que a vida lhe deu. De todos os sonhos que não realizou, de todas as alegrias que não viveu.


Fim


elvira carvalho


Nota: 
Em Portugal surgem 300 novos casos de EM por ano.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinal e do nervo ótico. Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.


26.3.17

PAULO

(REEDIÇÃO)

Lá fora, a noite dorme em silêncio.
A madrugada aproveita e vem devagarinho, pé ante pé para tomar o seu lugar. No céu, sem nuvens, as estrelas brilham como enfeites de Natal. Algures, em qualquer recanto deste nosso universo, alguém abre lentamente uma janela. É um homem. Um homem jovem em idade, mas carregando no peito uma angústia tão grande, como se fora a própria eternidade. Ele não sabe, porque se sente assim angustiado. Aliás Paulo não sabe explicar nada do que se passa com ele. Sentir sim. Ele sente cada hora, cada minuto amassado na rotina duma vida, que não deseja. Paulo é um homem novo, mas não raras as vezes se sente tão frustrado, como se fora um velho, a quem roubaram todos os sonhos. É um homem culto. Estudou. E completou os seus estudos, na leitura de grandes escritores. Lê muito. E escreve. Escreve belos e amargos textos nos quais deixa impregnado o que lhe vai na alma.
Poeta, apaixonado e sonhador, Paulo enamorou-se do próprio Amor. Na janela, ele olha sem ver a rua, absorto nos seus pensamentos. Na cama Graça, a mulher dorme. Paulo olha para ela, com um misto de amor e pena:
- Coitada, deve estar muito cansada – murmura entre dentes.
Graça é uma boa mulher. Que Paulo ama muito. Tem sido uma boa companheira, e deu-lhe dois filhos. Dois filhos por quem ele daria a própria vida. Graças a eles consegue suportar aquela vida insípida, que por vezes ameaça sufocá-lo.
Mas Graça está longe de ser o amor que Paulo tantas vezes idealizara. Ele sonha com uma mulher apaixonada, que tenha os mesmos sonhos, os mesmos anseios, os mesmos desejos. Graça é uma mulher simples, bonita, boa dona de casa, boa mãe, até mesmo boa amante. Mas com ela, ele não pode discutir aquele livro que o entusiasmou, não pode recitar aquele poema do Torga, que ele sente como se fosse escrito por ele, não pode contar-lhe das vezes, que deixa o seu corpo no emprego, e evade o espírito para outras paragens. Paulo não sabe se existe no mundo uma mulher como ele sonha. Mas tem uma certeza. Ele gostava que essa mulher fosse a esposa. Volta-se e olha-a.
Mais bonita do que nunca, no abandono do sono, os longos cabelos soltos espalhados na almofada.
Encheu o peito de ar, suspirou, e fechou a janela. Dirigiu-se para a cama. Graça, acordou, olhou-o surpresa. Logo sorriu e esticando os braços enlaçou o marido e puxou-o para si. E enquanto se perdia nos braços da mulher, Paulo fez o que tantas vezes fazia no emprego. Deixou que o seu espírito se soltasse e voasse para longe. Para um lugar só dele, um lugar que apenas existe nos seus sonhos de homem insatisfeito.

elvira carvalho


25.3.17

PORQUE HOJE É SÁBADO...









HOJE COMO ONTEM


Hoje como ontem companheiro
Queremos encontrar a verdade,
A saída para esta angústia
Que grassa
As nossas feridas ainda mal cicatrizadas.
Hoje como ontem companheiro
Os homens não são homens.
São brancos, pretos, amarelos
Milionários, remediados ou mendigos,
Exploradores ou explorados.
São chineses e ciganos
Polícias e ladrões
Honestos ou corruptos.
Mas não são homens...
Hoje como ontem companheiro
Temos que encontrar o caminho
Que há lobos esfaimados à nossa volta
Esperando implacáveis o momento
de nos destruir.
Mas hoje como ontem companheiro
As nossas mãos unidas vão mostrar
A nossa força.
Ainda que o medo sele os nossos lábios
Ainda que a raiva cegue os nossos olhos
Ainda que nos queiram algemar o pensamento
Não há força que separe
As nossas mãos unidas.

 elvira carvalho

24.3.17

UM DIA DIFERENTE

 Ontem foi um dia diferente. Porquê? Porque fomos a Leiria, em visita de estudo, complementar do livro de Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro Chegamos à cidade debaixo de chuva intensa.
 Acolhemo-nos debaixo destes toldos de um estabelecimento do largo, para uma primeira explicação. Aqui, fui surpreendida pela  blogger Graça Sampaio  do  picosderoseirabrava, que se deu ao trabalho 
de vir ter connosco com toda aquela chuva, para que pudéssemos conhecermo-nos e trocar um abraço que não o virtual que eu sempre vou espalhando pelos blogues amigos. Não foi um, foram dois abraços molhados e emocionados, quase sem falar para não interromper a senhora que nos dava uma pequena introdução sobre o que íamos ver. 
 E continuamos ainda sob a chuva... Nas paredes algumas pinturas. Quadros de cenas, descritas por Eça no livro.
 Neste azulejo se informa, que Leiria foi a primeira cidade em toda a península a ter escrita impressa.

Aqui a torre do Sineiro, local dos encontros secretos 
 Aqui, Amelinha numa ida à praia de que se fala no livro. 

 Aqui a pensão de S. Joaneira
 A  Sé. E o grupo ouvindo atento as explicações.
Aqui a botica descrita no livro. Hoje fechada.
Antes de iniciar a subida para a torre sineira um pintura do padre Amaro e da Amelinha.

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVII


Lembram-se da crónica feminina? Pois é, procurei uma noiva de 1979, e olhem o que encontrei.




EPÍLOGO

Três anos depois o casal está estabelecido em Aveiro. Quim tinha ajudado os pais, e sogros, na recuperação das velhas casas de família, para lhes dar uma vida de maior conforto, mas a aldeia era demasiado pequena para os seus sonhos. Ele queria montar um bom restaurante, numa cidade,  mas ao mesmo tempo, queria uma zona relativamente perto da aldeia, de modo a que os pais e sogros, pudessem ter uma certa relação de proximidade com os netos.
Dentro desses parâmetros surgiram dois nomes. Aveiro e Viseu. Estudadas as características das duas cidades, o casal optou por Aveiro, pois tinha, segundo a sua lógica, mais condições para atrair o turismo, pela beleza dos seus canais. E passados três anos, o Restaurante Tipico da Beira, é um grande sucesso. 
Catarina tem sete anos e já está na escola, Maria tem dois anos e é o encanto da irmã, pais e avós.
Mas naquele dia o casal está na aldeia. E é Setembro de novo.
Sofia, está em casa da mãe, no seu antigo quarto de solteira, às voltas com um vestido de noiva. As crianças, lindas nos seus elegantes vestidos de damas, entram e saem sem se calarem, excitadas pela novidade, e seguidas pela velha Idalina, que zela para que não mexam em nada que as possa sujar.  Sofia acaba de se vestir de noiva, como há dez anos atrás. E como nessa altura a mãe ajuda-a a prender a tiara e o véu. Mas desta vez a mãe está radiante. Não só porque a sua menina vai receber o sacramento do casamento, (e para as suas convicções religiosas, deixará de viver em pecado,) como porque agora ela sabe que não tem com que se preocupar. A filha é uma mulher feliz. E se alguma dúvida pudesse ter, bastava ver os dois juntos. Como se olham, como estão pendentes um do outro, como se entendem com um único olhar. A ideia do casamento religioso, foi de Quim. Ele queria vê-la vestida de noiva, queria viver a emoção de a esperar junto ao altar.
Ela aceitara. E no fundo, também está muito feliz, apesar de pensar que a cerimonia, não vai aumentar nem diminuir o amor que os une. Mas também ela sente a emoção de se vestir de noiva para ele.
O desejo de se ver refletida nos seus olhos na hora do juramento sagrado. De sentir o calor da sua mão, na troca das alianças. Pequenas coisas que fazem a felicidade de uma mulher, e que ela ainda não vivera.
E depois, ele não lhe tinha dito uma vez que o juramento perante Deus era para aqueles que se amavam muito?

Fim


Elvira Carvalho

22.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVI






Dias depois, Quim foi convocado pelo advogado dos tios para a leitura do testamento. Os tios tinham-lhe deixado tudo. A casa, o restaurante e um bom dinheiro. Exceptuando uma pequena quantia que destinaram à empregada, e uma cláusula em que determinava que ela deveria continuar como empregada da casa.
O casal, mudou-se então para a casa, por cima do restaurante. Quim continuou a ser o cozinheiro, Sofia, tratava de todos os assuntos relativos à gerência. O negócio ia bem, a conta bancária aumentava. Três anos depois, nasceu a  pequena Catarina. E quando esta estava prestes a completar um ano, aconteceu em Portugal, a tantas vezes sonhada revolução, que depôs o regime fascista e colonialista. Era Abril, os cravos floriram e com eles a libertação de um povo, martirizado pela fome e pela guerra.  As imagens correram mundo, e eles viram-nas pela televisão e renovaram as esperanças de poderem voltar a Portugal.
Se a guerra colonial acabasse, Quim podia voltar.  Era o sonho comum do casal. Voltar à terra que os vira nascer, rever parentes e amigos. E então aconteceu. A independência das colonias tornou-se irreversível, mas a paz tão sonhada não. Angola e Moçambique, estavam em guerra, e os portugueses lá residentes fugiram para Portugal. Mais de meio milhão de portugueses, muitos deles nascidos naquelas possessões africanas,chegaram a Portugal, sem emprego, sem dinheiro, sem outros bens, que não a própria vida. Enquanto o governo procurava dar resposta, aquela avalanche de gente, a precisar de pão, roupas, casa, enfim do básico para sobreviver, alguns acolhiam-se ao abrigo de familiares, ou com algum sacrifício, emigravam para outros países, certos que estavam de não terem futuro em Portugal.  
O casal, que na altura planeava vender a casa e o restaurante, e regressar à terra que os vira nascer, e onde tinham os seus familiares, no intuito de se estabelecerem na terra-mãe, receou que a conjuntura do país naquele momento difícil, não lhes fosse favorável, e adiou a decisão.
Porém pouco tempo depois, Sofia voltou a ficar grávida, e então o casal não teve outra opção. Se queriam realizar o sonho do regresso, era aquela a ocasião. Eles não queriam que o nascimento do novo bebé ocorresse em França.  Acreditavam que os filhos, iam crescer e sentir que a França era a sua terra, o seu país. Mais velhos, não quereriam ir viver para uma terra que embora fosse a dos seus pais, eles não conheciam, nem sentiam ser a sua. E os pais, fatalmente iriam ficar onde os filhos estivessem. Por isso era urgente o regresso. Venderam tudo, transferiram para Portugal o seu dinheiro e os três acompanhados de Idalina, a empregada, chegaram à aldeia no mês de Agosto do ano da graça de mil novecentos e setenta e seis.

Este é o post do dia 23. Peço que me desculpem a ausência, neste dia, vou estar fora. 
Se não chegar muito cansada, passo pelos vossos cantinhos à noite. 


CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXV



Surpreendido Quim franziu o sobrolho. Porque chorava? Puxou uma cadeira e sentou-se a seu lado.
-Que se passa Sofia? O que foi que eu disse, para ficares assim? Será que te arrependeste?
Arrependida? Ela? Não, de modo algum. Olhou-o por entre as lágrimas.
-Não é o que disseste. É o que vais dizer…
- O que eu vou dizer? - Franziu o sobrolho, enquanto pensava que as mulheres, eram bem mais complicadas, do que aquilo que ele gostaria que fossem. Especialmente aquela, que era sua mulher. – Não entendo.
-Disseste que temos que falar do que aconteceu. Calculo que me vais dizer que não devia ter acontecido, que estavas cansado, que não desejavas...
Ele estendeu a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para ele.
- Calculas mal, Sofia. Se eu sonhasse que não seria rejeitado, já teria acontecido à muito.
Tocaram sinos no coração de Sofia? Ela seria capaz de jurar, que ouvia os carrilhões de Mafra, em dias de festa.
- Queres dizer que …
- Que aprendi a amar-te, querida! Foste como um delicioso vinho, cujo aroma se foi infiltrando em mim, até me deixares completamente embriagado - disse acariciando-lhe a face com ternura.
-Ó meu Deus! E porque não disseste nada?
- Porque tu disseste que querias ser livre.  Lembras-te? Disseste-me que aceitaste o casamento, porque era o teu voo para a liberdade. 
- Sim, mas referia-me ao ambiente em que vivia, à vida que tinha levado até aí. Apaixonei-me por ti, quase no primeiro dia. Mas tu disseste que amavas outra pessoa. Pediste-me paciência para te livrares dos teus fantasmas. E nunca mais disseste nada. Ainda ontem, fui eu quem tomou a iniciativa. Como ia adivinhar que me querias? Agora mesmo, imaginei que me ias dizer, que uma vez que os teus tios tinham morrido, não havia razão para manter este casamento. Pensei que ias pedir o divórcio, que ia perder-te.
- E por isso choravas? Mas se eu não tenho feito outra coisa, que demonstrar-te o meu amor. Acaso pensas que me preocuparia em passar contigo todos os momentos livres, se não te amasse? Não percebias, que estava sempre pendente de ti, tentando adivinhar o que te fazia feliz? 
Nem te passa pela cabeça, as noites que não dormi, pensando que estavas ali no quarto ao lado, e ao mesmo tempo tão longe.  Agora mesmo, com esse choro, pensei que me ias dizer que não me amavas, que o que aconteceu, não se podia repetir. Parece-me Sofia, que temos sido um par de tontos. E que já desperdiçamos tempo demais das nossas vidas, quando  há maneiras  bem mais interessantes em que gastá-lo.
E dizendo isto atraiu-a para si e curvando-se aprisionou-lhe a boca num beijo demorado.
- Não sei qual é a tua ideia, mas seja qual for, estou de acordo, - disse ela sorrindo feliz.
Sem responder, Quim pegou-lhe ao colo, e levou-a para a cama.




Ufa! Esta acabou! 
Será? Pensam que sim? Eu aposto que não...




21.3.17

21 DE MARÇO - DIA MUNDIAL DA POESIA.... E MUITO MAIS

Comemora-se hoje mais um dia de... E este é pequeno para tudo o que nele se comemora. Senão vejamos. É dia Mundial de poesia. Dia Mundial da Árvore, e da Floresta,  Dia Mundial do Síndrome de Down. Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial. 



Dia Mundial da Poesia

DESILUSÃO 

Quando eu tinha vinte anos
Sonhava construir,
Um mundo melhor
com as minhas próprias mãos.

Queria acabar com a miséria
abraçar a Felicidade.
Acabar com a guerra
e abraçar a Paz.
Estrangular a hipocrisia
e abraçar a Verdade.
Derrotar a opressão
Abraçar a Liberdade.
Sepultar o ódio
Abraçar o Amor.

Quando eu tinha vinte anos
O mundo era terra fértil
Onde plantava
Os sonhos dum mundo
Paradisíaco.


Agora que tenho setenta
tenho as mãos estragadas
de tanta luta inglória.
Tenho os ombros curvados
do peso das desilusões.
Os olhos sem brilho
de tanta lágrima derramada.
E o futuro cheio de pesadelos

E... interrogações


E o mundo?
Esse continua a girar
Na roda

Da fome
Guerras
Drogas,

Corrupção
Hipocrisia.



E já não há sonhos que me valham!


elvira carvalho




Dia Mundial da Árvore e da Floresta


 Toda a gente reconhece o papel das florestas para a sustentabilidade do planeta. Mas todos os anos são imoladas pelo fogo milhões de árvores em todo o mundo, vítimas da ganância, da incúria e da estupidez daquele que se diz, ser o único animal racional à face da terra


Dia Mundial do Síndrome de Down.


                                    Foto da Wikipédia

No mundo atual, não se justifica a discriminação a que as pessoas portadores do síndrome Down ainda estão sujeitas. São pessoas como nós. Com algumas diferenças, algumas limitações, mas não as temos todos nós também? Eu tenho e várias. Quem nos dá o direito de nos julgarmos superior aos outros?




Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial


No dia 21 de março de 1960, na cidade de Joanesburgo, capital da África do Sul, 20 mil negros protestavam contra a lei do passe, que os obrigava a usar cartões de identificação, especificando os locais por onde eles podiam circular.
No bairro de Shaperville, os manifestantes depararam-se com tropas do exército. Mesmo sendo uma manifestação pacífica, o exército atirou sobre a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. Esta ação ficou conhecida como o Massacre de Shaperville. Em memória da tragédia, a ONU – Organização das Nações Unidas – instituiu 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. 

fonte A



20.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIV


Nos primeiros dias de Janeiro, a tia Délia sofreu um  ataque cardíaco, que foi a machadada final na sua frágil saúde. Faleceu no mesmo dia.
Sofia, desdobrou-se no apoio ao marido e ao tio, que estava inconsolável. O restaurante foi fechado durante uns dias, e quando reabriu, Sofia que continuava desempregada começou por dar uma ajuda, já que o tio não saía de casa e definhava dia a dia, mas acabou por assumir toda a parte de gerência do mesmo. Um mês depois, o tio não suportando mais a ausência da mulher que amara, partiu também. Foi mais um rude golpe para Quim. E mais uma vez a mulher esteve a seu lado como um pilar de apoio.
Foi nessa altura, depois do funeral do tio, depois da demonstração de um momento de fraqueza e vulnerabilidade de Quim, que eles se tornaram verdadeiramente um casal. Foi amor? Ela não sabia. Da parte dela, sim, conhecia os seus sentimentos, há muito tempo estava apaixonada pelo marido. Da parte dele, não sabia. Talvez não passasse da necessidade de mitigar a dor da perda daqueles que amara como pais. Talvez fosse um desejo instintivo, próprio de homem, por uma mulher jovem e bonita, que afinal até era sua esposa.
Ela não sabia. E para ser verdadeira consigo mesmo, nem lhe importava. Tinha vinte anos, viviam na mesma casa há mais de quatro meses. Certo que ele lhe tinha confessado amar outra mulher. Que lhe tinha pedido paciência. Mas ela reconhecia que não era muito paciente. Talvez mais tarde se arrependesse, mas naquele momento entregava-se de corpo e alma compensando com amor, a inexperiência que recorria do facto de ser virgem.
Na manhã seguinte, quando acordou, Quim já se tinha levantado. Sentiu-se um pouco desiludida. Tinha sido a primeira noite que dormira com o marido, teria gostado de acordar com ele a seu lado. Encontrou-o na cozinha, e saudou-o envergonhada pela recordação da noite anterior.
-Bom dia.
- Bom dia, Sofia. Preparei-te o pequeno-almoço,-  disse colocando-lhe a bandeja na mesa. E acrescentou: - Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem à noite.
Estava muito sério. Ela sentiu-se gelar. Primeiro acordava sozinha. Depois aquele ar sério do marido. Pensou que ele estava arrependido. Sentiu que alguma coisa se rompia dentro dela. Ia rejeitá-la.
Afinal, casara com ela por causa dos tios, e agora que eles tinham morrido, não havia necessidade de continuar aquela farsa. Pedia o divórcio, e podia enfim, voltar para a sua "boneca". E ela feita estúpida, entregara-se de corpo e alma, sonhando com o seu amor. 
Incapaz de conter a dor que sentia, abriu as comportas do rio interior em que a sua alma naufragava e começou a chorar.




E como hoje se festeja o dia internacional da Felicidade, desejo-vos que a primavera que chegou esta manhã, (para os amigos de além-mar, quem chegou foi o outono). Que ambos venham prenhes de PAZ e FELICIDADE para todos nós.

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIII




E chegou a véspera de Natal. Estavam na casa dos tios de Quim. Sofia e a tia Délia estavam na sala, os homens na cozinha preparando as iguarias para a ceia. A empregada, punha a mesa. Desde que adoecera, Sofia não voltara aquela casa, e preocupou-se com o ar da tia Délia. Estava cada vez mais débil. Mas continuava conversadora e simpática.
- Pareces muito bem, para quem esteve tão doente. É uma vantagem da juventude. A recuperação é sempre fácil e total. E como vai o teu casamento? O Quim tem-se portado bem contigo?
Sem saber bem o que a velha senhora queria dizer, e não querendo falar da sua vida intima, apressou-se a responder.
- Ó sim. Vai tudo muito bem.
- Folgo em saber isso, minha filha. Confesso que já senti remorsos da forma como o obrigamos a casar. Mas ele andava todo enrabichado com aquela serigaita da Joana e se não tomássemos uma atitude acabava por fazer uma asneira que lhe ia dar cabo da vida.
Era a primeira vez que a senhora falava do assunto. Fez de conta que não sabia de nada. A senhora continuou:
- Sabes que já depois de casado ela ainda o andava a rondar? Apareceu algumas vezes no restaurante. E pedia sempre para cumprimentar o chefe. Para o obrigar a ir à mesa. Na última vez ficou frustrada quando o meu marido se apresentou na sua frente. E não voltou a aparecer.
Aquilo, Sofia não sabia. Porque é que ele não lhe dissera? Não se proclamara um homem sincero? Não lhe pedira paciência para se livrar dos fantasmas?
- Ai filha que já falei demais! Desculpa, não queria preocupar-te. O Quim é um homem responsável. Tem sólidos princípios. Nunca te trairá. Mas aquela mulher é um demónio com cara de anjo. Que o diga o seu ex-marido a quem ela arruinou.
Ela acreditava nos princípios do marido. E na sua sinceridade.
Tinha provas disso. Também do seu sentido de responsabilidade.
Só que isso não lhe bastava. Ela desejava dele o que uma mulher apaixonada deseja do homem que ama.
- Não se preocupe tia. O Quim tem sido um excelente marido, - afirmou desejando tranquilizar a velha senhora.
Nesse momento os homens entraram na sala.
- Vamos jantar? Está tudo pronto.
Quim ajudou a tia a levantar-se e deu-lhe o braço para a ajudar a chegar à sala. Ela e o tio seguiram-nos. Junto à mesa, Idalina a empregada aguardava-os. A mesa estava posta para cinco pessoas.
-Hoje a Idalina janta connosco. Desde que ficou viúva, vive connosco, já é quase da família, - explicou o tio.


Amanhã, não haverá esta estória. Festeja-se o dia mundial da poesia e o que mais se verá.
Assim sendo o capítulo de amanhã sairá hoje às 19 horas.
E como a Primavera chega hoje, que ela seja de paz, amena e perfumada para todos nós.