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24.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVI



O resto do dia de Natal passou correndo entre a ajuda à amiga, e as brincadeiras com a afilhada. De vez em quando lembrava-se da quinta e pensava como estaria Tiago a viver aquele dia tão simbólico para as famílias. Continuaria isolado no quarto, ou estaria na sala ou na cozinha, convivendo com a família?

Nos últimos dias, tinha-se estabelecido entre os dois, uma relação doente-tratadora, bem mais agradável do que inicialmente, em que detetava no doente uma agressividade latente, embora Anabela suspeitasse que era mais contra a vida e o que lhe acontecera, do que contra ela. Todavia nos últimos dias parecia menos revoltado e mais disposto a lutar pela sua cura.

Ela soube desde início de que havia alguma coisa por trás do seu desespero e da sua vontade de desistir da vida, que não apenas ter perdido o andar. Provavelmente o desgosto de ter sido abandonado pela noiva, a poucos meses do casamento.

-Estás muito calada, amiga. Saudades do teu doutor?

-Não é o meu doutor, Paula. Nem são saudades. É um doente que eu queria ver a interessar-se mais pela sua recuperação, e que temo não conseguir tratar com êxito. Há qualquer coisa nele que ainda não consegui descobrir, que lhe tirou a vontade de viver e de se esforçar pela sua reabilitação. Talvez seja o facto de a noiva o ter abandonado na cama do hospital, a poucos meses do casamento.

Estavam os três sentados na sala. Patrícia já dormia há muito tempo, e olhando o relógio, Anabela disse:

-Meu Deus, são quase onze horas e amanhã tenho de estar na quinta antes das dez para a sessão matinal de fisioterapia. Vou levantar-me cedo, e como é sábado e vocês não têm de trabalhar, é melhor eu despedir-me já.

Levantou-se e abraçou os amigos, depois disse emocionada:

-Obrigado, por me acolherem na vossa família como uma de vós, e por todo o carinho e apoio que me têm dado. Bem Hajam!

Voltou costas sem esperar resposta, pois receava começar a chorar.

Muito cedo na manhã seguinte, levantou-se, tomou um duche rápido, limpou a casa de banho e arrumou o quarto sempre procurando não fazer muito barulho para não acordar o casal, ou a afilhada. Às sete, sem tomar o pequeno-almoço, que decidiu tomar no caminho ou até na quinta, iniciou a viagem de regresso.

 

10.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVIII




Tiago era, antes de ir para a última missão, um jovem médico de trinta e três anos, um idealista, de um metro e oitenta e cinco, ombros largos e cintura estreita. No rosto moreno, de cabelos castanho-escuro, os olhos azuis, herança da avó materna, pareciam dois pedaços de céu, que faziam suspirar todas as mulheres que o viam. 

Filho único, com pais que o adoravam, com uma namorada que lhe dizia que o amava e que ele sonhava ser a sua companheira de vida e a mãe dos seus filhos e a profissão que sonhou ter desde menino, Tiago tinha todas as razões para se sentir um homem realizado e feliz. Todas menos uma. Não gostava da desigualdade que havia entre os povos africanos, e alguns asiáticos e o resto do mundo.

 Sentia-se um privilegiado e pensava que a sua missão no mundo não era tão egoísta que lhe fizesse ser feliz sem fazer nada, para melhorar de alguma maneira a vida daqueles para quem ela fora madrasta. Fez algumas missões, integrado nos médicos sem fronteiras e nunca se sentiu tão feliz, como ajudando os mais desfavorecidos da sorte.  Na última missão em que se integrou nessa organização, no Malawi, conheceu outros médicos que pertenciam a uma ONG alemã, fez amizade com um deles e disse-lhe que no futuro ainda iriam trabalhar juntos.

A missão correu bem, e no regresso Tiago pediu a namorada em casamento e decidiram casar no ano seguinte. Todavia quatro meses depois, Peter, o médico inglês, com quem fizera amizade no Malawi, telefonou-lhe. Iam partir em breve, para uma missão na República Centro-Africana e perguntou-lhe se ele queria ir.

Tiago não hesitou. Entrou em contacto com a ONG para ser integrado na equipa. Quando o disse à noiva, Sandra zangou-se. A missão acabaria quase na data do casamento e eles precisavam tratar de tantas coisas, não podia deixar todo o trabalho para ela. Tiago respondeu-lhe que os seus pais a ajudariam no que fosse preciso, e de resto a missão terminaria dois meses antes da data marcada, era tempo suficiente para tratarem do que faltasse e não cedeu.

Três meses depois Tiago era atingido pela explosão que o deixou quase morto. Evacuado de avião para o Hospital  na Alemanha,  foi submetido a várias cirurgias, inclusive algumas de origem estética para amenizarem cicatrizes. Esteve quase um mês em coma e mais quarenta e cinco dias até que os médicos decidiram que podia ser transferido para um hospital português.  O rosto não sofrera mais que uma pequena cicatriz na testa e uma maior do lado esquerdo da face que lhe atravessava desde o nariz até à orelha, mas que um cirurgião plástico tinha feito o "milagre" de a transformar em pouco mais de uma linha avermelhada, que provavelmente com o tempo mal se notaria.

A força da explosão apanhara-lhe o lado esquerdo do corpo e as costas. De alguma forma o braço protegera-lhe o peito, mas no ventre, do lado esquerdo as lesões desciam-lhe até à virilha.

Tanto na Alemanha, como em Portugal, os médicos asseguraram-lhe  que voltaria a andar, embora por causa das lesões sofridas no ventre, não tivessem certeza, de que a sua parte genital e o seu aparelho reprodutor voltariam a funcionar. Foi essa afirmação médica, que o deprimiu e lhe tirou a vontade de lutar para recuperar o movimento das pernas. 

De que servia voltar a andar se não voltasse a sentir-se homem. Afinal estava na fase melhor da vida, ia casar, sonhava com filhos. E como ia dar essa notícia à noiva? Não seria capaz. Todavia teria de terminar o noivado e afligia-se com o sofrimento que lhe ia causar. Felizmente, não teve de o fazer, pois Sandra ao saber que estava paralisado, disse-lhe que não tinha jeito para enfermeira, gostava de passear, dançar, era jovem, tinha uma vida inteira pela frente, não se ia prender a um inválido. 

Tirou o anel de noivado, pousou-o na mesa de apoio ao lado da cama e saiu sem esperar resposta, deixando-o a pensar na sua crueldade e em como poderia ter-se enganado tanto com o caracter da jovem.

Certo que ele mesmo já tinha decidido livrá-la daquele noivado, mas nunca o faria da forma tão cruel.




22.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXII




O verão terminou, as folhas das árvores trocaram o verde pelos tons alaranjados e depois começaram a cair, o céu deslumbrava com ocasos que pareciam paletas de cores, apareceram as primeiras chuvas e o sol deixou de aquecer. Era o outono em todo o seu esplendor. O ano aproximava-se do fim a passos largos. Miguel adaptou-se muito bem à creche, todavia começou a fazer perguntas incómodas, como porque é que ele não tinha pai. Laura achava que ele ainda era muito pequenino para uma explicação correta sobre a vida e a morte, então disse-lhe que o pai estava no céu, era uma daquelas estrelinhas que ele via à noite a brilhar lá em cima no espaço. Mas então o menino perguntou porque é que ele não era filho de um homem, e sim de uma estrela. E quanto mais a mãe explicava mais o menino queria saber.

Então Sara, pegou na fotografia do pai e disse-lhe:

- Este é o nosso pai. Lembras do Bobi? Ele adoeceu e morreu. Lembras-te que a mãe abriu uma cova no jardim e o enterrou? Pois bem, o pai também ficou doente, e morreu. Mas como era um homem e não um cão em vez de ser enterrado no jardim foi para o céu e lá transformou-se numa estrela.

 Claro que Sara sabia o que tinha acontecido. Já tinha nove anos quando o pai morrera, estivera no funeral, ia ao cemitério com a mãe de vez em quando, levar flores à campa do pai.

Felizmente o menino pareceu ficar satisfeito com a explicação da irmã e acabou com as perguntas. Até quando ninguém sabia.  

Sara continuava a boa aluna de sempre, e cada vez tinha uma ligação maior à prima. 

Laura também se adaptou muito bem ao trabalho na clínica, estabeleceu uma boa relação de amizade com Diana com quem conversava todos os dias pelo telefone, e gostava de trabalhar com Fernando cuja faceta profissional lhe agradava bastante.

A meio de outubro, Rita a sócia da sua cunhada Helena, deu à luz uma bela menina, e no início de novembro foi a vez de Diana ter um lindo rapagão de quase quatro quilos e meio. Sara e a prima estavam doidas de alegria, queriam ir ver os bebés todos os fins de semana, mas Miguel não mostrava grande interesse, e dizia com uma certa graça:

“Que interesse tem ir ver os bebés? Estão quase sempre a dormir, não falam, não brincam, quando abrem a boca ou é para chorar ou para comer.”

-És tonto, Miguel, -dizia-lhe a irmã a rir. Falas como se já tivesses nascido assim. Há bem pouco tempo eras como eles.

A família também adquirira um novo hábito. Todos os sábados, Laura e os filhos jantavam com o irmão e a família dele. Uma semana na sua casa, outra em casa de Gonçalo. Um sábado, Gonçalo convidou Fernando, e a partir daí a presença dele tornou-se habitual nos jantares de sábado, fortalecendo assim os laços de amizade com as crianças que aliás o adoravam. 

Também ganhara o hábito de ficar um pouco mais com Laura depois das crianças irem para a cama, aproveitando para se despedir com beijos que se iam tornando cada vez mais intensos e apaixonados, a que Laura correspondia cada vez com mais intensidade. Porém apesar de reconhecer que se tinha apaixonado por Fernando, continuava a não querer ouvir falar de casamento.

 Uma semana antes do Natal, que seria celebrado na quinta dos pais de Helena, na aldeia, não só porque a casa era grande e podiam juntar as duas famílias, bem como Rita o marido e a filha, que tanto a cunhada como os seus pais e irmão, consideravam como mais um membro da família. Matilde e Sara estavam radiantes, porque teriam a companhia dos primos, o que lhes permitiria organizar jogos e outros programas sem os mais velhos.

Naquela noite, Laura e a cunhada arrumavam a cozinha enquanto na sala, Gonçalo e Fernando discutiam os problemas da escassez de médicos de determinadas especialidades no SNS.

8.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVIII

 


-O problema é que depois do vosso casamento e desta semana em que o vi todos os dias, dei-me conta de que este Fernando, não tem nada a ver com o rapazito que foi criado connosco, como um irmão.

-É normal, tu cresceste, ele também. Hoje são um homem e uma mulher que foram amigos em criança, se afastaram e hoje se encontram de novo. Sei que o teu irmão e os teus pais gostariam de te ver casada com ele, mas eu penso que deves interrogar o teu coração e descobrir que sentimentos tens por ele.

 E se para isso precisas de conviver mais com ele, talvez que trabalhando juntos seja uma boa maneira de o descobrires. Que ele é doido por ti, todos sabem, até eu que só o conheci há pouco tempo. 

Todavia se descobrires que não há química entre vós, que continuas a amá-lo como um irmão, diz-lho e segue em frente. Um casamento sem amor é uma tragédia. A história de que um pode amar pelos dois, é muito bonito em canção, mas na vida real não existe. Sabes que apesar de nos conhecermos há pouco tempo gosto muito de ti e só quero que sejas tão feliz como eu.

 – Eu também gosto muito de ti e lamento sinceramente a partida do destino que fez com que não nos tenhamos conhecido antes, - olhou o relógio e acrescentou. Meu Deus estamos a conversar há tanto tempo, o teu marido deve estar furioso comigo por te monopolizar. Não devia tê-lo feito, afinal sei bem o que é uma lua-de-mel.

Levantaram-se e regressaram à sala. Ao vê-las aparecer, Gonçalo levantou-se e dirigiu-se-lhes:

-Já estava para vos ir chamar. Desculpa maninha, mas está a fazer-se tarde, viemos apenas vê-los e buscar a Matilde, vamos seguir para Coimbra, a Lena quer ir conhecer o seu novo sobrinho.

Despediram-se e saíram os três, enquanto Laura e os pais, ficavam no alpendre, até que o carro entrou na estrada principal e desapareceu entre o tráfego. No dia seguinte também os pais seguiriam para Braga, deixando-a sozinha com os filhos. Laura sentiu que ia sentir saudades da animação dos últimos dias.

-Filha, - disse dona Teresa ao ver que Laura se dirigia para a cozinha para iniciar o jantar. - Como partimos amanhã, o teu pai e eu pensámos que gostaríamos que tu e as crianças fossem jantar fora connosco. O que dizes.

- Por mim tudo bem, vou tratar das crianças, toar um duche e vestir-me.

- Vai cuidar de ti, - disse-lhe a mãe. A Sara já se sabe arranjar sozinha, eu dou banho ao Miguel e visto-o. Afinal tenho tão poucas oportunidades de o fazer.

Laura dirigiu-se ao quarto, enquanto a mãe pegava no neto ao colo, mas antes de se afastar em direção à casa de banho murmurou ao marido.

“Faz o que combinámos”

 

3.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVI


Para Laura, o resto da semana passou a correr, com a presença dos pais, as crianças e a ida à clínica. Teve oportunidade de ver a versão profissional de Fernando, tanto com as crianças, como com os adultos. Ela sabia que ele era psiquiatra, mas não que seis anos atrás se especializara também em psiquiatria infantil.

Claro nessa época ela estava casada e depois do casamento nunca mais o vira até que a fatalidade a deixara viúva.

Nessa época ela estava de rastos, chegou a pensar que acabaria por perder o filho que ainda estava para nascer. O irmão, mudara-se para Lisboa, para estar junto dela e Fernando passava lá em casa todo o tempo que tinha livre.

Agora, pensando nisso, acreditava que se Sara era uma menina feliz, talvez se devesse ao apoio que ele lhe dera quando perdera o pai.  E na verdade ele também a apoiara muito, mas na altura ela vivia e alimentava-se apenas da dor e do enorme sentimento de vazio que lhe enchia corpo e alma. E tinha corrido com ele, quando um dia lhe surpreendeu um olhar, que não era compatível com o sentimento de irmão que sempre sentira por ele.

Naqueles dois dias, através de Diana, ela aprendera muito sobre o homem, que fora o seu melhor amigo de infância. E criara uma ligação de amizade com a jovem assistente, que não pensara possível em tão pouco tempo.

Na Sexta feira, como não havia consultas de manhã, as duas conversavam quando Diana perguntou:

- Não pensas voltar a casar? Sei que foste muito feliz no casamento e que sofreste muito com a morte repentina do teu marido, mas já lá vão mais de três anos. És nova e bonita, não sentes a falta de um homem a teu lado?

- Para ser sincera comigo mesma, sinto. Embora o Quim continue no meu coração, a verdade é que o corpo sente a falta de um abraço, do calor de outro corpo junto ao meu. Parece-te mal?

- Não. É normal, afinal estas na plenitude da vida. Só não percebo porque não dás uma hipótese ao doutor. E não me venhas dizer que ele é apenas como um irmão, que eu não sou cega e tive a oportunidade de ver ontem a forma como te olha. Ele está apaixonado por ti e de há muito tempo. Porque outra razão teria a tua foto em cima da sua secretária há tantos anos?

-Não quero voltar a amar. Tu não sabes o que é entregares-te a um homem de corpo e alma, e de repente ficares sem ele. Eu tinha vontade de me juntar a ele. Acredita, a única coisa que me impediu de fazer um disparate e me prendeu à vida, foram os meus filhos.  Não quero, não posso passar pelo mesmo.

-Tens medo de amar, porque podes voltar a enviuvar? – perguntou Diana espantada. Perdoa-me, mas isso é uma estupidez. Nunca ouviste dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo local? Nenhum de nós pode prever o futuro. Renunciar ao amor, por medo de voltar a perder o parceiro, é antinatural. Não tiveste acompanhamento psicológico quando o Quim morreu?

-Tive a ajuda da família e também durante algum tempo de Fernando.

-A família, por muito boa que seja apenas pode ajudar fisicamente, não tem capacidade para mais. Precisas de um psicólogo, ou psiquiatra. Porque é que o Doutor se afastou.

-Na verdade fui eu que o afastei.

-Porquê?

-Um dia, surpreendi-lhe um olhar que me deixou chocada. O Quim havia morrido há quatro meses, eu tinha sido mãe havia dois meses e vivia mergulhada na dor. Então disse-lhe que não o queria ver mais, que ele não era da família e que não tinha qualquer direito de ir lá todos os dias. Depois disso só voltei a vê-lo no casamento do meu irmão.

- Olha se queres o meu conselho, procura uma ajuda profissional que te ajude a ultrapassar esse medo.

 

 

9.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XI

 





Nuno entrou em casa, acendeu a luz e fechou a porta atrás de si. Despiu o casaco e jogou-o com displicência para um cadeirão na sala. Foi até ao bar e serviu-se de uma bebida. Sentou-se no sofá e cerrou as pálpebras. Mentalmente reviu a figura de Luísa. Já não era a jovenzinha que ele tanto amara, e que lhe destroçara o coração. Era uma mulher muito bela.
 O amadurecimento tinha-lhe dado um outro encanto. E apesar da raiva que o consumira durante aqueles dezasseis anos, a sua presença mexeu tanto com ele que teve de fazer um enorme esforço para aparentar uma naturalidade, tão falsa como ela própria.
Namoravam há dez meses e ele tinha a certeza do seu amor. Recordou o dia em que a pediu em casamento. Os planos, para um futuro próximo. As juras de amor que ela lhe fizera. Parecia tão sincera, tão apaixonada. Ele estava tão feliz, que deixara de lado o sonho de ir para África. 

Uma semana foi o tempo que durou a sua felicidade. Uma semana e as juras de amor foram quebradas, com a desculpa de que era muito jovem, e não estava preparada para assumir um compromisso sério. 
Devastado, com a atitude da mulher que amava, a tal ponto que estava disposto a renunciar aos seus sonhos, com a alma em farrapos, Nuno partiu para o Zimbabwe, onde esteve durante três anos.

 Foi lá que recebeu a carta do pai que lhe anunciava o casamento de Luísa, com um homem que quase podia ser seu pai. Não tinham passado nem seis meses depois da sua partida. Amaldiçoou-se pela dor que sentia, por não conseguir esquecê-la. E fez uma jura a si próprio, de que mulher alguma no mundo ia voltar a ter poder sobre ele. Nunca mais ia deixar que o seu coração se prendesse.
Integrado numa equipa de Médicos Sem Fronteiras, Nuno tinha chegado a Chitungwiza, nos subúrbios de Harare, a capital do Zimbabwe. Da mesma equipa, fazia parte a doutora, Helena Santos, que desde o início mostrou sentir grande atração por Nuno, apesar de ele nunca ter demonstrado qualquer outro sentimento que não o saudável companheirismo de dois colegas de profissão. Apesar disso Helena mantinha esperança. De tal modo que quando a missão do grupo acabou, e Nuno decidiu ficar, ela fez o mesmo, talvez pensando que acabaria por o conquistar.

Nuno continuou dedicado de corpo e alma às suas crianças, até que farta de esperar, Helena decidiu tomar a iniciativa e declarar-se ao colega. Sentindo-se incapaz de corresponder ao sentimento dela, Nuno despediu-se dos seus pacientes, e rumou ao Bangladesh, onde permaneceu durante dois anos.
Findo esse tempo voltou a África, tendo passado pela República Centro Africana, Eritreia, Burundi,  e Angola, para acabar por voltar ao Zimbabwe,  onde permaneceu até ao maldito acidente.

 Depois foi uma longa batalha consigo mesmo, até vencer as suas limitações e voltar a ser o médico, conhecido e estimado.
O acidente porém causara grande preocupação aos seus pais, que sentindo-se na reta final da existência , temiam não voltar a ver o filho.
Daí, que quando finalmente recebera alta do hospital da Universidade Técnica de Munique, para onde fora enviado após o acidente e onde estivera mais de três meses, regressou a Portugal  onde se candidatou a um lugar num hospital em Lisboa, e se mudou, para um apartamento não longe da casa dos pais. E quando pensava que tinha enfim encontrado a paz de espírito eis que encontrava Luísa e com ela regressava todo o passado. A dor e o ódio, que o acompanharam ao longo de dezasseis anos.

7.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE X





O sol brilhava radiante no azul do céu, no dia em que Luísa teve alta hospitalar. Porém nem a beleza do dia, animava a jovem, que só de pensar em ter de entrar novamente na casa onde vivera os últimos catorze meses, se sentia doente e sem forças.
Marta, a sua boa amiga Marta, fora buscá-la ao hospital, e convenceu-a a ir para sua casa uns dias até estar melhor.

Iriam as duas a casa de Luísa, e trariam o que ela precisasse para aqueles primeiros tempos. Luísa agradeceu. Na verdade ela já tinha pensado ir viver para a casa paterna, que pela morte do progenitor era agora sua, e pôr à venda a quinta e a casa de Álvaro. Mas precisava de ir buscar roupas e objetos pessoais,  à casa que partilhara  com o marido. Esteve  a viver na casa da amiga, até retirar o gesso do braço, e iniciar a fisioterapia. 

Depois regressou à casa onde vivera toda a sua vida até ao casamento.
 Pôs à venda os bens do falecido marido. Inicialmente tinha pensado doar todo o dinheiro com a venda, para instituições de caridade. Marta acabou por convencê-la a não fazê-lo. O dinheiro era dela, sofrera muito às mãos daquele  canalha, merecia cada tostão. Iria precisar de tratamento psicológico, durante sabe-se lá quanto tempo. Podia entrar para a Universidade, ou quem sabe montar um pequeno negócio. Era uma asneira desfazer-se do dinheiro, a vida estava cada dia mais difícil, ninguém sabia o dia de amanhã.

Como sempre, Luísa deixou-se levar pela lógica da amiga. Assim, matriculou-se na faculdade de letras, e entregou-se de corpo e alma aos estudos, apesar de não descurar o acompanhamento com a psicóloga, Fátima Candeia, com quem criou uma relação de grande amizade, que se estendeu ao longo dos anos, mesmo depois de Luísa ter terminado o tratamento, após mais de  cinco anos de consultas, mais ou menos regulares.

De resto Marta e Fátima, eram as duas únicas amigas de Luísa, que se fechou para todas as amizades e divertimentos próprios da idade. Ela só tinha um desejo. Acabar o curso e dedicar-se ao ensino, já que adorava crianças e com tudo o que passara, pensar em casamento, e em ter filhos seus, estava fora de questão.
 Fátima, explicara-lhe, que ela fora vítima de sadismo sexual, uma forma de parafilia, que consiste em que um dos parceiros, não obtém prazer da cópula, mas do sofrimento físico ou psicológico, que infringe ao outro. Também lhe disse, que quando a vítima não consegue fazer a denúncia que o leva à prisão, quase sempre a prática reiterada, leva a um descontrolo do sádico que acaba muitas vezes por matar a companheira.

 Apesar das muitas sessões de psicoterapia, ela sentia que nunca mais seria capaz de partilhar a cama com um homem. Então dedicar-se-ia com todo o seu coração, aos seus alunos. Eles seriam os filhos que nunca teria.
Os anos foram passando, ela terminou o curso, tirou a carta de condução e comprou um pequeno carro utilitário. Candidatou-se a uma vaga no ensino oficial e conseguiu entrar.
 Durante alguns anos andou de escola em escola, primeiro dois anos em Albufeira, depois em Beja, e em Viseu, até que no ano anterior, conseguira enfim um lugar numa escola perto de casa.

Por vezes, na solidão da sua casa, pensava em Nuno. Por onde andaria ele, como estaria? Por certo era feliz, já que trabalhar no meio dos desprotegidos da sorte, sempre fora o seu sonho. Mas teria casado? Teria filhos?
Tinham-se passado dezasseis anos desde que obrigada pelo pai terminou o namoro. Recordava o dia em que lhe dissera que pensara melhor, e decidira que era muito nova para enfrentar um casamento, queria desfrutar da juventude e divertir-se.
Ele levantou-lhe o queixo e obrigara-a a olhar para ele, pedindo que repetisse o que acabara de dizer, olhando-o. Sentindo-se a morrer de tanta dor, ela repetiu cada palavra sem desviar o olhar.
  

31.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE VII







Luísa saiu do banho e envolveu-se numa toalha. Retirou do armário o hidratante e espalhou um pouco na palma da mão direita. Sentou-se num banco e deixou que a toalha escorregasse deixando o seu corpo nu e livre. Começou a espalhar o creme de forma automática. O seu espírito estava lá no passado.  No curto noivado, e no casamento com o vizinho, que o pai lhe impusera. Luísa não gostava de Álvaro, embora ele fizesse todos os possíveis para ser simpático e delicado com ela. A farsa foi intensa, devia ter sido bem estudada. Mas a ela, sempre lhe parecera falso. Com trinta e sete anos, tinha quase vinte anos mais do que ela.
 E depois a primeira esposa suicidara-se. Diziam que fora vítima de uma grave depressão. E que o marido sofrera um grande desgosto. Mas Luísa não conseguia sentir compaixão por ele. Antes pelo contrário, de algum modo desenvolvera uma estranha aversão e um medo, cujas causas não sabia definir.  
Na época, a lei vigente no país só dava a maioridade ao individuo aos vinte e um anos. E ela fizera dezoito. Fora criada pelo pai, um homem rude, com muitas ideias retrógradas em relação ao papel da mulher na sociedade. Não havia como fugir da imposição paterna.
O casamento foi combinado entre os dois homens, para o terceiro domingo de Abril. Nessa noite Luísa chorara tanto que de manhã tinha os olhos inchados. Chorara por ela, por Nuno, pelo seu amor perdido. Se ao menos, ele não tivesse ido para África. Quem sabe, de algum modo, ele pudesse protegê-la.
Porém tudo o que chorou nessa noite, não foi sequer, uma ínfima parte do que choraria nas quatrocentas e vinte e sete noite seguintes. Mil anos que vivesse não esqueceria a sua noite de núpcias. A vergonha que sentiu, quando o marido lhe rasgara a camisa de dormir, e a deixara nua e exposta, sem qualquer ato de carinho ou compreensão com a sua pouca idade. E o medo que sentiu, quando ele tirou da gaveta umas tiras pretas e começou a amarrá-la à cama.
Mordeu os lábios afogando o soluço de terror. Como é que ela podia saber que era principalmente o choro dela, o terror, que o marido queria? Era quase uma menina.
Quando ele a penetrou de forma violenta enquanto lhe batia e lhe  chamava nomes ofensivos, ela dorida, magoada, humilhada, e ingénua ainda teve um pensamento de culpa. Pensou, que homem experiente, ele tinha descoberto que já não era virgem e se sentia enganado. E como ela também não se sentia de bem com a sua consciência por ter ocultado esse facto, tentou perdoar. Cedo porem viria a perceber que não se tratava disso. Na verdade nunca chegou a saber se ele se apercebeu desse facto, já que nunca em todo o tempo de casada fez alguma referência ao caso. O marido, era um doente, que só satisfazia as suas necessidades sexuais, através do sofrimento e da humilhação que lhe infringia. Passaram-se alguns meses, até ela perceber, que quanto maior era o sofrimento dela, maior era a satisfação dele.
Se ao menos engravidasse. Um filho podia ser um bálsamo para a sua dor. Mas ele assegurava-se de que isso não aconteceria. Ele mesmo lhe dava a pílula desde o primeiro dia para que a tomasse na sua frente e só deixara de usar o preservativo, um mês depois dela tomar a pílula. Claro se ela ficasse grávida, não poderia ser a escrava sexual que ele fizera dela.



Peço desculpa pela violência deste e do próximo capítulo. Vão perceber pelas memórias da protagonista, que embora ela nada soubesse sobre o assunto, casou com um homem que sofria de um transtorno que dá pelo nome de sadismo sexual.




24.11.21

A CORAGEM DE DIZER: BASTA!




A mulher que caminhava pela praia naquele entardecer, era muito bonita, mas trazia nos olhos uma tristeza, que parecia impossível de esconder. Ali perto, duas crianças brincavam na areia, enquanto a mãe sacudia a toalha e a metia no saco, dando por findo aquele dia de praia.

Ela porém, nem se apercebia do que se passava à sua volta. Parecia perdida num outro mar, que não aquele que suavemente lhe beijava os pés. Um mar  de recordações.

Fora num fim de tarde assim, que conhecera Eduardo. 

Ela caminhava pelo parque da cidade, olhando embevecida as crianças que brincavam no escorrega, fazendo grande algazarra. As flores, impregnavam o ar com um intenso, mas agradável aroma.

 Rita, ia tão absorta, que não viu aquela raiz, na qual foi tropeçar, saindo projetada para...os braços dele. Sim porque fora ele. que por ali passava e a segurara, quando se apercebeu que ela ia cair. 

Rita sentiu o olhar intenso e trocista do homem, e sentiu-se envergonhada, mas coisa esquisita, sentiu uma estranha sensação de felicidade. Agradeceu sentindo-se corar sob o olhar masculino. 

Eduardo pelo contrário parecia divertido com a sua atrapalhação. E depois de algumas palavras que ela quase não escutou, combinaram encontrar-se no dia seguinte. Naquela noite, o sono tardou para Rita.

 Ela não conseguia esquecer o desconhecido do parque. E só nessa altura se deu conta que tinha esquecido de perguntar o seu nome. Que faria ele no parque? Passaria ali por um acaso, e a vida teria caprichado naquele tropeço, para que se conhecessem? E se assim era qual iria ser o seu papel na vida dela? Era bonito, pensava ela. E dava voltas na cama, ansiando pelo nascimento do novo dia.

 Pobre Rita! Se ela soubesse o quanto ia sofrer por aquele homem, teria sufocado a sua lembrança, e nunca teria voltado ao parque, para o encontro. Mas ela era muito jovem, tinha a cabeça cheia de sonhos românticos, e ansiava pelo amor.

No início Eduardo parecia ser o homem dos seus sonhos. E o que começou com uma amizade, não tardou em transformar-se numa intensa paixão. Ela vivia cada beijo, cada instante, sentindo-se a mulher mais feliz e mais amada da terra.

Casaram num dia de sol em pleno mês de Maio. Eduardo não quis casar na igreja, e isso foi uma pequena nuvem a ensombrar a felicidade de Rita, cuja fé lhe pedia a bênção no altar. Porém em breve essa contrariedade deixou de ter significado, ultrapassada por outras bem maiores.

Três dias, durou  a lua de mel. 

Três dias como o Carnaval. Carnaval! Estranha associação, pensava enquanto continuava caminhando pela praia solitária.
Mas a verdade é que ao fim de três dias, a ternura dera lugar à prepotência, os beijos, às palavras duras, e sarcásticas. Menos de um mês depois, começaram as ameaças. Começou a pensar, que o homem com quem se casara, era um desconhecido, que usara uma máscara, pela qual ela se apaixonara. Como fora possível iludir-se assim?
 
Nunca mais saíram juntos. Ele saía depois do jantar e voltava tarde da noite, algumas vezes dormia fora, e chegava a casa a cheirar a perfume barato.  

Mas apesar da sua juventude, Rita era uma mulher de coragem e substituído o amor pela desilusão, decidiu pôr um ponto final no casamento.  
E naquela  tarde, passeava junto ao mar, a sua falsa liberdade.
Falsa sim, porque se o divórcio a libertara do casamento, não levara do seu peito, a desilusão e a dor, nem do seu cérebro a amarga recordação do que fora a sua vida durante o casamento.



11.10.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXX

 

Aquele domingo de Abril, amanheceu radioso. Helena, o filho e os pais, tinham chegado dois dias antes ao Porto, e hospedaram-se no hotel, onde se realizaria a festa de casamento para os mais de duzentos convidados, que chegaram na véspera.

Helena jamais tinha sonhado com uma festa assim, mas Fernando não esquecia que lhe devia a vida, e quis que ela tivesse um casamento de princesa.
 
Graças à armadilha montada pelo inspetor Morais, e sua equipa, conseguiram irritar Joaquim Salgueiro, que fez exatamente aquilo que eles esperavam. Tentou matar Fernando, o que não conseguiu, graças à pronta intervenção da agente que o acompanhava. Perseguido na fuga, e vendo-se encurralado, acabou disparando contra si próprio, a arma com que tentara alvejar o pianista. Com este desfecho, a polícia convocou a imprensa e contou toda a história.

 Os restantes membros da Orquestra, seus colegas, que se preparavam para regressar a Portugal, terminada que fora a sua digressão, foram então informados pela polícia americana do que se passara. 

Enquanto isso, ele regressara a Lisboa, para a sua doutora. Recuperara os seus documentos, apreendidos numa busca a casa do malogrado facínora, mas não a memória. Isso aconteceria, quinze dias mais tarde, quando numa academia de música, a que Helena o levou, por sugestão do psiquiatra, se sentou ao piano e deu livre curso à sua paixão.

 A Sinfonia nº 40 em sol menor de Mozart, com que devia estrear-se como solista nos Estados Unidos, penetrou nas profundezas da sua mente, e trouxe todo o passado para a atualidade. A magia da sua interpretação, fez com que as pessoas que se encontravam na academia, se fossem dirigindo para a sala, e aplaudissem entusiasmadas no final.

 Recuperada a memória, Fernando só tinha um desejo. Casar e regressar à sua casa na Póvoa, e à orquestra no Porto. Mas Helena, tinha que se despedir da clínica, e tentar a transferência do Hospital de Santa Maria para um hospital no Porto.

 E agora, tudo resolvido, envergando um belíssimo vestido branco, devidamente penteada e maquilhada pelos profissionais do hotel, preparava-se para sair em direção à limusina que a levaria à Igreja da Lapa, onde o noivo a esperava cheio de ansiedade.
Mais tarde, pelo braço do pai avançou pela nave da igreja, confiante e feliz, sem desfitar o noivo, lendo nos seus olhos, as mais belas promessas de amor.

Quando a emocionante cerimónia chegou ao fim, e o padre lhe disse que podia beijar a noiva, Fernando beijou-a com paixão murmurando-lhe depois ao ouvido:
-Amo-te, doutora. Como nunca amei nada, nem ninguém.
Ela respondeu no mesmo tom.
- Amo-te tanto, que nem sei como consigo respirar.

Seguiram-se as felicitações. Primeiro, o próprio sacerdote, depois, o Inspetor Morais e a agente que durante uns dias fora “noiva” de Fernando, e que o noivo fizera questão de ter por padrinhos, Marta e o marido que foram padrinhos de Helena, os pais da noiva, e depois os restantes  familiares e amigos. Por fim os noivos encaminharam-se para a saída, da Igreja,  com Fernando carregando ao colo o pequeno Diogo, radiante por já ter um pai, como os outros meninos.


Fim

30.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXVIII




Casaram cinco meses depois, em setembro, exatamente quando fazia catorze anos que ela recebera a última mensagem dele.

Os cinco meses que antecederam o casamento, foram de muita persistência, companheirismo e apoio, por parte de Gonçalo, que deve ter esgotado todas as técnicas de sedução que conhecia, antes que Helena aceitasse finalmente o casamento. Não que estivesse convencida do amor de Gonçalo. 

Ainda pensava que tudo o que ele fazia, se devia ao facto do enorme desejo que ele sentia de ter uma família e também porque não à intensa atração sexual que os unia. Reconhecia que ele amava apaixonadamente a filha, mas a ela…

Todavia depois de muito pensar resolveu arriscar. Quem sabe acabaria descobrindo que estava errada. E depois ou se casaria com ele ou se condenaria a uma vida inteira de solidão. Não conseguira esquecê-lo durante catorze anos, quando pensava que era um cafajeste, como ia conseguir esquecê-lo agora?

No espaço de tempo decorrido, desde aquele dia em que Helena e a filha foram apresentadas à família paterna, a relação dos dois com as duas famílias fora-se estreitando, com sucessivos fins de semana ora em Braga, ora na quinta entre Alpedrinha e a serra da Gardunha.

A data fora escolhida pelos dois, como um recomeço da história que os uniu no passado. Era como se pretendessem que aquele dia feliz, apagasse das suas memórias o acidente de Gonçalo e a desilusão de Helena.

E sim, foi o casamento mais bonito a que os convidados já tinham assistido.

 

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Dois anos depois…

Mal Gonçalo parou o carro junto da sua residência, a porta abriu—se e dela saíram Matilde, seguida da tia Laura e dos primos Sara e Miguel.

Gonçalo deu a volta ao carro e ajudou a esposa a sair enquanto Laura abria a porta traseira e tiravam os dois ovos onde dormiam os gémeos Rafael e Mariana nascidos por cesariana três dias antes. Matilde, agora uma bela adolescente de quinze anos apressou-se a pegar no ovo onde dormia Mariana, encantada com a bebé loira tão parecida consigo.

 Já em casa, Gonçalo ajudou Helena a deitar-se na grande cama de casal, enquanto a irmã deitava os bebés num enorme berço, onde ficariam os dois no primeiro mês. Depois passariam para o quarto ao lado, onde seriam então separados e cada um teria o seu próprio berço.

- Todos lá para fora agora, - ordenou Laura. Os bebés devem dormir descansados e a mãe precisa descansar.

Matilde aproximou-se da cama e disse:

-A madrinha telefonou a dizer que vinham cá esta noite, para ver os bebés e falar contigo.

Depois baixou-se e deu um beijo na mãe, de seguida beijou o pai e disse:

-Estou muito feliz com os meus irmãozinhos. Obrigado aos dois por esta felicidade.

Saiu do quarto em seguida fechando a porta atrás de si.

Gonçalo sentou-se na beira da cama e segurou a mão da esposa entre as suas.

- E eu também te agradeço querida, por teres acreditado no meu amor, mesmo eu não tendo recuperado a memória e teres transformado a minha vida amargurada e solitária, nesta felicidade que partilhamos.

Curvou-se para a beijar enquanto Helena emocionada fechava os olhos, deixando rolar pela face uma lágrima de felicidade

 

 

 

 FIM


Nota:

A história que se seguirá é uma reedição. Foi publicada a primeira vez em 2016. Os mais antigos já a leram, mas talvez gostem de a recordar. Ultimamente tenho dificuldade em conseguir escrever novas histórias. Além de tomar conta das netas, tenho o problema dos olhos e a saúde da minha outra metade que não tem andado bem.  Com várias consultas e exames este mês, e uma colonoscopia e endoscopia marcada para fins de Agosto, quando este capítulo for publicado já estaremos no Algarve a aproveitar os quinze dias de férias do filho, em que não teremos de cuidar das netas para recuperar e recarregar baterias.

Não tenho internet lá, a não ser no telemóvel, tudo o que sair até ao dia do meu regresso, (15 de Agosto) já está agendado.

 

26.7.21

COMEÇAR DE NOVO- PARTE XXXVI

 


Helena e a filha regressaram a casa no Domingo à tarde. O terceiro período iniciou-se no dia seguinte, mas Matilde teve que faltar às primeiras aulas por ter de ir ao hospital tirar os pontos e ser vista pelo cirurgião.

Entretanto Gonçalo telefonara a Helena contando que os pais tinham viajado de Braga para a conhecer, bem como à neta e que estavam instalados em casa da filha.

Ele desejava levar as duas à casa da irmã, para que se conhecessem. Laura, convidava-as para jantar, e ele acompanhá-las-ia a casa logo após o mesmo, já que a filha não se poderia deitar tarde.

Embora indecisa, por temer que a família do Gonçalo, fosse insistir num casamento que ela não queria, Helena acabou por aceitar o convite, por saber que mais cedo ou mais tarde, a filha teria que conhecer a família do pai, e não havia justificativa para dececionar os avós que tinham feito uma longa viagem só para os conhecer.

Com o apoio de Rita que ainda não conhecera o pai da afilhada, por ter chegado à quinta depois da partida dele, e que fazia parte do clã que desejava vê-la casada, Helena saiu do trabalho logo depois do almoço, foi buscar a filha à escola e seguiram para casa.

Apesar de se estar a caminho do final de abril, a primavera chegar com pretensões a verão e o dia estava bastante quente. Enquanto Matilde fazia os TPCs, a mãe dedicou-se a limpar o pó que se acumulara na semana de ausência.

Terminada a tarefa, tomou banho e ficou indecisa em frente do armário aberto, sem saber bem o que vestir. Por não conhecer a dona da casa e a mãe, e não sabia se optar por uma roupa mais ou menos formal. Acabou escolhendo um dos poucos vestidos que tinha, pois, mesmo os fatos de trabalho eram quase exclusivamente compostos de calças.

Ainda de robe, foi verificar se a filha tinha acabado os trabalhos, para tomar banho. Não se preocupou com a roupa da filha, há quase um ano que ela decidira escolher ela mesma as suas roupas, não só quando saiam para as compras como quando se vestia. E como ela não era uma adolescente rebelde de gostos estranhos e espalhafatosos, a mãe deixara de se preocupar com isso.

Olhou o relógio eram quase quatro horas e Gonçalo ficara de as ir buscar às cinco. Preparou o lanche para as duas e logo que a filha saiu do banho lancharam e depois cada uma rumou ao seu quarto para se vestir. A mãe preocupada com a maneira como a família dele a receberia, a filha encantada por ir conhecer a família do pai.

Helena olhou-se ao espelho. O vestido justo na cintura e de saia levemente rodada, com decote em bico, de alças estreitas, deixava a descoberto, o pescoço parte dos ombros e do colo. Todavia o conjunto era composto por vestido e um casaquinho curto que acabava por esconder o que o vestido mostrava.

Penteara o cabelo num coque preso no alto da cabeça, e fizera uma maquilhagem muito leve. No pescoço um fino fio de ouro com uma pérola em forma de ouro, igual às perolas que adornavam as orelhas. As sandálias de salto e a bolsa completavam o conjunto.

Matilde optara por um macacão curto, azul escuro estampado com minúsculas estrelas brancas. Uma larga fita azul adornava a sua bela cabeleira da cor do trigo maduro. Nos pés umas sandálias brancas.  

Pontual como um relógio suíço Gonçalo chegou sorridente, abraçou a filha e cumprimentou a mãe com um beijo breve na face.

-Estão lindas, - elogiou enquanto elas entravam no carro que ele se apressou a por a rodar

Mal Gonçalo estacionou o carro em frente da porta da vivenda onde a irmã vivia nos arredores de Lisboa, a porta abriu-se e Laura surgiu acompanhada da filha para receber os visitantes e lhes dar as boas vindas.

 

FELIZ DIA PARA TODOS/AS OS/AS  AVÓS QUE POR AQUI PASSEM

23.7.21

COMEÇAR DE NOVO- PARTE XXXV

 




Infelizmente para as suas pretensões, Helena recusou energicamente o casamento, rebatendo todas as suas ideias. Ela não se negava a que ele desse o seu nome à filha, nem a que fosse vê-la, ou sair com ela, sempre que disso tivesse vontade, exceção feita para as noites de segunda a sexta em tempo de aulas. 

Também não recusava fazer um programa com eles de vez em quando, mas por norma não os acompanharia, pois pensava que eles deviam aprender a conhecer-se e a amar-se como pai e filha. 

"E nós?" perguntara ele.

"Neste momento não há nós, Gonçalo. Conhecemo-nos há quase catorze anos. Ambos eramos muito jovens. Os anos não passam em vão, nós vivemos, sofremos, não somos mais aqueles jovens. Esses ficaram lá no passado. Que sabemos nós, hoje, um do outro? Nada. Até há meia dúzia de dias, nem sabias da nossa existência.

 Então tem  alguma lógica casarmo-nos apenas porque acabaste de descobrir que tens uma filha e tens uma noção exagerada do dever. Como amigos, e pais da Matilde, poderemos  conviver e quem sabe no futuro, voltaremos a ter um pelo outro o mesmo sentimento que nos uniu outrora? Quem sabe salta ainda alguma fagulha, das cinzas do passado?"

E foi mais ou menos isso que ela repetiu na sala, depois do almoço para toda a família, quando Sérgio perguntou se já tinham marcado a data para o casamento. 

Com a sua resposta, gerou-se uma certa confusão, toda a família pressionando, especialmente Matilde que acabou por sair da sala gritando que a mãe era egoísta que não pensava nela, indo a seguir fechar-se no quarto amuada. Helena não se alterou, nem mudou de ideia, e no fundo ele admirou-a.  

Gonçalo sabia que ela aceitaria a sua proposta de casamento, se ele jurasse que a amava Todavia ele não poderia fingir que tinha recuperado a memória, e muito menos jurar um falso amor. Uma relação assente numa mentira, não duraria muito e ele queria a estabilidade e uma família de verdade.

Como já perdera a esperança de recuperar a memória,  só lhe restava acreditar que com o tempo e a convivência, ele poderia voltar a amá-la como ela desejava. De momento sentia um grande respeito pela mulher que era e  pela maneira como educara Matilde. E uma enorme atração sexual. 

Pouco depois do almoço, despedira-se de todos, agradecendo aos donos da casa o acolhimento e depois de um apertado abraço à filha e da promessa de que se veriam em breve, regressou a Lisboa.

Pouco antes do jantar, o telemóvel fez-se ouvir, e ao atender a chamada da irmã, esta informou-o que os pais ficaram espantados com o que ela lhes contara e encantados com as fotos da neta desconhecida. Viajariam para Lisboa no dia seguinte, ao fim da tarde quando ela regressaria. Queriam conhecer Helena e a filha e ajudar na preparação do casamento.

Ele aproveitou para afirmar que não iria haver casamento, e contara-lhe o que Helena lhe respondera nessa mesma tarde, quando lhe propusera casamento.

"Sei que a mãe vai fazer pressão para que esse casamento aconteça o mais rápido possível,- respondera a irmã. Afinal há mais de dez anos que anda a tentar casar-te. E eu mesma gostaria de te ver casado, mas se queres saber, penso que a Helena tem razão. No seu lugar eu também não aceitaria um casamento pelas razões que te levaram a fazê-lo."


16.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXII


Por razões diferentes, mãe e filha quase não dormiram nessa noite. Matilde estava radiante com o facto de finalmente ter um pais como as suas amiguinhas. E um pai como o doutor Gonçalo, era algo de que nem todas se poderiam gabar.

Ela tinha ficado encantada com ele no hospital, quando ainda não sabia que era o seu pai. Ele era bonito e carinhoso. A mãe dissera que ele chegaria por volta das onze e ela queria estar junto do portão da quinta para o receber. Queria encontrá-lo sozinha, tinha a certeza de que ia chorar, quando o abraçasse e não queria virar motivo de gozo para os primos.

As preocupações de Lena eram bem diferentes. Ela sentia-se pressionada por toda a família para aceitar o pedido de casamento que Gonçalo lhe fizera.

Muito cedo, antes de se levantar, ouvindo os sons familiares da quinta; os pássaros que saudavam o nascer de um novo dia, a brisa suave que passava por entre as folhas das árvores, o cantar do galo, ela pensava na volta que a sua vida dera e no que ela iria fazer dali para a frente.  

Sabia que Gonçalo tinha sido sincero, mas não era preciso ser psicóloga, para saber que devido aquele terrível acidente, e sobretudo à amnésia que se seguira, a descoberta atual de ser pai, vinha preencher a carência de afetos e de família a que voluntariamente se submetera ao longo dos últimos catorze anos.

 E pelo que conhecera dele enquanto namorara e pelo que agora lhe contara acerca da proteção à sua irmã viúva e aos seus sobrinhos, Gonçalo era um homem de família. 

Debatia-se num mar de dúvidas. Era verdade que apesar de desiludida pelo seu abandono e pensar que não passara de brinquedo de verão para ele, o su coração nunca o esquecera. Afinal fora o seu primeiro e único amor. Também sabia que se não fosse com ele nunca se casaria, pois não queria dar um padrasto à sua filha. 

Mas embora soubesse tudo isso, a razão continuava a dizer-lhe que não podia ceder. Ele não se recordava dela. Conhecera-a há uma semana, e desde esse dia, apenas na véspera estivera com ele várias horas. É certo que havia uma enorme tensão sexual entre os dois, quando estavam juntos, mas um casamento não se sustenta de sexo. O desejo, quando não é parte do amor, morre quando é satisfeito. 

Ela não sabia que fazer e não podia aconselhar-se com ninguém, porque toda a família a empurrava para o casamento. E se telefonasse à Rita. É verdade que tinha pensado contar-lhe pessoalmente, mas se ela só vinha na Sexta à tarde, provavelmente só a veria no sábado e nessa altura com Gonçalo presente não havia lugar para essas conversas. Não, o melhor seria falar com ela logo pela manhã antes que ele chegasse. 

E se bem o pensou, logo o pôs em prática. Logo depois do pequeno--almoço, desculpou-se perante a família, afirmando precisar de fazer uma chamada e recolheu-se no quarto a fim de ligar à amiga.

Assim que Rita atendeu, Helena contou o mais resumidamente possível os últimos acontecimentos, mas ficou dececionada ao perceber que a amiga não entendia as suas dúvidas e entrava no grupo de apoio ao casamento.