31.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XX







Vim para Portugal, porque havia informações de que podiam estar a atuar aqui, alguns desses criminosos. O meu trabalho, era identificá-los e denunciá-los à polícia para que fossem presos. Porém quando o meu trabalho foi feito aqui, recebi ordens para avisar a polícia de que devia mantê-los sob discreta vigilância, mas não os podia prender, pois os cabecilhas estariam em Londres. Se estes fossem presos, os outros deixariam de atuar durante uns tempos, ou iriam para algum casino menos conhecido em algum país noutro continente, o que inutilizaria meses de investigação. Recebi ordens para viajar com urgência para Londres, verificar se a notícia era real, e identificá-los a fim da detenção se fazer em simultâneo nos dois países. Levei três meses para o conseguir. Temos ordens rigorosas de que absolutamente ninguém pode saber a que nos dedicamos. A minha própria família, nunca soube o que fazia. 
- Mas como é que descobres esses criminosos?
- Precisamos observar todos os jogadores que perdem grandes quantias, e os que ganham grandes quantias. Temos que descartar os que perdem e ganham em simultâneo. Esses normalmente, são jogadores profissionais, que jogam pelo prazer de o fazer, e não têm interesse. Também descartamos os viciados como o teu marido.  Agora os que perdem todos os dias grandes importâncias sem preocupações, e nunca ganham, são suspeitos, a investigar, especialmente se no mesmo casino, houver outros a ganhar todos os dias grandes quantias. É esse o esquema de lavagem de dinheiro. Só temos que provar, a ligação entre quem perde, e quem ganha.
Tomou-lhe o rosto nas mãos e beijou-a suavemente com carinho. Depois continuou
- Foi o meu último trabalho. Apresentei a minha demissão. Nunca mais me quero separar de ti. Foram três meses horríveis. Tive saudades do teu sorriso, dos teus beijos, do teu cheiro.
- Nós também tivemos saudades tuas, - disse ela pegando-lhe na mão, e pousando-a sobre o seu ventre.
Levantou-se de um salto.
- Queres dizer... que vamos ter um filho? Vou ser pai? – Perguntou redopiando com ela pela sala.
- Pára por favor! Pões-me tonta.
 - Casas comigo? - Perguntou beijando-a com toda a paixão contida naqueles meses de ausência. 

30.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIX



Passaram- se mais três meses, sem nada de relevante na vida de Eva, a não ser que os enjoos matinais decresciam de dia para dia, os seus seios estavam ligeiramente mais arredondados, a cintura um pouquinho mais larga, e os olhos tinham um brilho diferente. Transformações normais, quando uma mulher está grávida. Novembro chegara ao fim, faltava menos de um mês para o Natal, havia a alegria e azáfama própria da quadra, mas ela sentia-se cada dia mais triste. Continuava sem notícias de André, e a sua única alegria, era para o ser que trazia no ventre, e que já amava de todo o coração. Naquela tarde, pela primeira vez sentira o bebé mexer-se, e isso encheu o seu coração de alegria.
Ficou tão contente, que antes de chegar a casa, passou por uma loja de artigos de bebé, e comprou as primeiras roupinhas. Abriu a porta, e quase desmaiou de susto ao ver André na porta da cozinha.
- Demoraste “cara mia” – disse tentando abraçá-la.
 Afastou-se furiosa.
- O que estás a fazer aqui? Como é que entraste?
- Pela porta. Esqueceste que tenho uma chave? Voltei Eva. Sei que deves estar zangada, mas agora já tudo acabou. Vim para me explicar.  
- Gostava que o tivesses feito antes de partires. Agora já não estou interessada.
 Empalideceu o rosto masculino? Ela diria que sim.
- Não estás a ser justa “cara mia” Se há coisa de que te dei provas, foi do meu amor.
- Pára de me falares em italiano. Sabes quanto tempo esperei por notícias tuas? Mais de três meses. Três meses e três semanas para  ser mais precisa. Dias em que esperei hora a hora, minuto a minuto, um telefonema, um postal, um “e-mail”, qualquer coisa, que me desse a certeza de que não tinha sido um brinquedo para ti - terminou num soluço.
Em duas passadas, estava junto dela e abraçava-a com carinho.
- Eu sei que tens razão, Eva. Mas deixa que me explique. Por favor.
Tirou-lhe o saco da mão, que colocou em cima da mesa, despiu-lhe o casaco,  e empurrou-a suavemente para o sofá.
- Lembras-te que te disse no início, que tinha chegado a Portugal havia pouco tempo, e poderia em breve estar noutro país? Deverias pensar que era um aventureiro e que o fazia de moto próprio. A verdade é que tinha de o fazer por causa da minha profissão.
- A tua profissão? Jogador profissional? Grande profissão, - disse irônica.
- Jogador profissional sim, mas como disfarce. A verdade é que era polícia. Mas não um polícia qualquer. Era  Agente Especial Internacional.
- Agente Especial? Como o James Bond? – Perguntou incrédula, embora desejasse parecer irónica
Ele sorriu encantado com a ingenuidade dela.  
-Não querida, não ando por aí a saltar de aviões de arma na mão, a caçar espiões.
O meu trabalho era descobrir as quadrilhas ligadas aos cartéis da droga, ou da venda de armas, que fazem lavagem de dinheiro nos grandes casinos de todo o mundo.


29.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVIII


Três semanas se passaram, Eva,  perdeu o sorriso que sempre a acompanhava. Saía de casa, para o trabalho e deste para casa. Ainda não tinha tido coragem de ir ao orfanato, e naquele sábado tinha que o fazer, pois a Irmã Madalena, telefonara-lhe na véspera preocupada com o seu desaparecimento. Ficaria decerto mais preocupada quando a visse. Eva, perdera o apetite, emagrecera, e nos últimos dias, todas as manhãs tinha enjoos. Fez as contas, e verificou alarmada que o período já devia ter aparecido há doze dias atrás. Doze dias de atraso, ela que era mais certa que um relógio suíço? Uma gravidez, era só o que lhe faltava agora, para agravar a sua situação. Foi à farmácia e comprou dois testes. Fez o primeiro e o resultado positivo repetiu-se no segundo. Como fora possível ter sido tão inconsciente? Como não se lembrara de que interrompera a tomada da pílula depois de ter ficado viúva? Logo ela que sempre se atormentara com o facto de não conhecer os pais, ia trazer ao mundo um filho sem pai. Sim porque apesar de tudo, nem por um momento pensou em abortar.
Embora sem vontade, obrigou-se a almoçar, pensando no pequeno ser que tinha no ventre. E depois do almoço, meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Estava tão necessitada de colo.
A Irmã Madalena, percebeu isso mesmo, mal a viu. Talvez por isso o abraço com que a recebeu foi mais carinhoso que nunca. Depois no seu gabinete, esperou paciente, que a jovem desabafasse.
- E quando cheguei para almoçar, tinha desaparecido, deixando-me esta carta e os documentos de doação da casa, - terminou ela estendendo à freira a missiva que André lhe deixara.
Ela leu-a em silêncio e devolveu-lha.
- Isso foi há três semanas, e desde aí, nem uma palavra. Que lhe parece Irmã?
- Sinceramente não sei que te diga, Eva. Ao contrário do que aconteceu quando me apresentaste Alfredo, eu gostei do André. Senti que era de confiança, e descansei pensando que não faria nada que te magoasse. O que fez, devolvendo-te a casa, não é de pessoa sem escrúpulos. Na carta diz claramente que te ama. Mas quem ama confia, não abandona sem explicação. É nestas alturas que eu gostava de ter uma bola de cristal, que me permitisse ver o futuro. Confia em Deus filha. ELE fará o que é melhor para ti. Senão pensa no que podia ter acontecido com a atitude maluca do teu marido. Podias ter caído nas mãos de um crápula, ficares sem a casa.
- O pior Irmã, é que… estou grávida, - soluçou a jovem.
A freira, não disse nada. Limitou-se a abrir os braços onde ela se refugiou.



De volta depois de 38 dias de ausência. Quase uma quarentena, em que não atravessei o deserto mas que me levaram a tia Palmira, (os que leram a história do Manel da Lenha, sabem que era a viúva do irmão e padrinho João. A última pessoa daquela geração) e me trouxeram dois novos primos, (os gémeos são bisnetos da tia Palmira) além de me deixarem isolada sem internet, e de uma terrível dor na perna esquerda que me deixou coxa. Penso que nunca mais me afastarei por tanto tempo seguido. Agradeço a todos que tiveram a gentileza de ir passando por este cantinho durante a minha ausência. Bem Hajam!

28.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII







A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem as lâminas, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel escrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Cara”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope tens os documentos da doação que te fiz, logo que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria outra família? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que podia ser tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.


27.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVI





Não saíram de casa nesse domingo. André sabia como levar uma mulher à loucura, e Eva procurava retribuir-lhe na mesma medida. Apesar de não ter grande experiência, era muito intuitiva. Alfredo, nunca fora um bom amante, sabia-o agora. Centrava-se no seu próprio prazer, e não se preocupava com a companheira. Com André era tudo tão diferente, tão intimo, tão partilhado, que era muito mais do que uma relação sexual. Era um amplexo de almas.
. Fizeram amor no quarto, na sala, no chuveiro. Fizeram as refeições entre beijos, sorrisos cúmplices, e por fim adormeceram abraçados no quarto dele.
Na manhã seguinte, ela levantou-se e foi para o seu quarto, tomar banho, e vestir-se para ir para o trabalho. Quando chegou à cozinha, André acabava de pôr as torradas e o sumo de laranja na mesa. Tomaram juntos, o pequeno-almoço e quando ela se preparava para sair, ele apertou-a contra o peito, segurou-lhe o rosto entre as mãos e sussurrou-lhe emocionado:
-“Ti amo, cara ” Aconteça o que acontecer, não te esqueças disso.
Depois sem deixar de olhá-la, beijou-a com intensidade e pediu:
- Diz-mo. Diz-mo de novo, antes de ires. Preciso de o ouvir.
Estava ansioso. Ela não entendia o que se passava, mas percebeu quanto era importante para ele, e disse-lho pondo em cada palavra todo o sentimento que lhe inundava o peito.
- Amo-te André. Amo-te de corpo e alma, como nunca amei ninguém.
Trocaram um último beijo, e ela saiu para o trabalho, com uma sensação esquisita, um aperto no peito, que não sabia explicar.
Mais tarde, na clínica, pensava em tudo o que vivera naquele domingo. Tinha sido um dia de sonho. André era um amante excecional. Com ele aprendeu, que não há carícias proibidas, nem sentimentos de vergonha, entre duas pessoas que se amam. E adorava o jeito dele, misturar palavras em italiano e português quando se emocionava.  
Deveria estar feliz. Mas a verdade é que não estava. Lembrava-se que dias antes, André parecia fugir dela. Porquê? Se a amava, como dissera e lhe demonstrara, porque fugia dela? E depois, a despedida dessa manhã, fora muito esquisita. Era como se estivesse a despedir-se dela. Esperou ansiosa pela hora do almoço. Tinha tantas perguntas para fazer.

26.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XV








Naquele domingo, Eva levantou-se cedo, mas não saiu de casa. Estava decidida a ter uma conversa séria, com André. Tentava entender as razões da mudança de comportamento dele mas não encontrava nenhuma. Estava desesperada. Ela já tinha visto um filme semelhante com Alfredo, e sabia como tinha acabado. Toda a segurança que julgara sentir naqueles três meses de sonho, se evaporara.
Tomou banho, vestiu uns calções brancos, e um top azul-claro. Apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo, e calçou umas sandálias sem salto.
Eram dez horas, quando ele apareceu na cozinha. Vestia calças de ganga pretas e um polo vermelho justo, que punha em evidência a sua musculatura.
- Bom dia. Não saíste hoje?
-Pois, parece que não. Dava-te jeito que tivesse saído? Porquê André? O que foi que aconteceu entre nós? Pensei que éramos amigos. Que podia confiar em ti. E de repente parece que recuei no tempo. Estou a viver o mesmo pesadelo. Interrogo-me se vou acabar de novo, numa mesa de jogo.
Crispou-se o rosto masculino.
- Não te atrevas a comparar-me com o teu falecido marido, - disse com raiva, dando dois passos e agarrando-a pelos ombros.
- Não? Então explica-me a diferença, - desafiou-o. Porque a sensação que eu tenho é que estás a agir exatamente como ele.
Largou-a. Deixou cair os braços ao longo do corpo, e virou-lhe as costas.
- Não posso. Não agora. Tens que confiar em mim, – disse com voz rouca.
- Deus é testemunha que o desejo de todo o coração, - disse encostando o rosto às costas dele, e passando-lhe os braços à volta do peito. Sentiu o tremor do corpo masculino, o retesar dos músculos e teve a certeza de que não lhe era indiferente. Então porque fugia dela? Eram os dois livres e adultos. E ela desejava-o.
De súbito, ele voltou-se, apertou-a contra si e beijou-a. Um beijo intenso, urgente e sôfrego, como se quisesse arrebatar-lhe a própria alma. As mãos masculinas, inquietas, percorriam-lhe o corpo, em suaves e precisas carícias, que acordavam e faziam vibrar o corpo feminino.
-Quero fazer amor contigo, “cara mia” – sussurrou-lhe enquanto lhe mordiscava o lóbulo da orelha, uma mão apertando-a contra si, a outra acariciando-lhe a pele sob o top.
- Sim, André, sim – gemeu ansiosa.
Então pegou-lhe ao colo e levou-a para o seu quarto.




25.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIV







Três meses depois, Eva estava irremediavelmente apaixonada por André. Naqueles três meses, ele mostrou-se sempre um companheiro fantástico. Juntos conheceram Sintra, com os seus majestosos monumentos, os seus românticos recantos, as tradicionais queijadas, os deliciosos travesseiros, Tomaram banho na Praia das Maçãs, encantaram-se com a beleza das Azenhas do Mar, descobriram a histórica Ericeira, Mafra, em cuja tapada passearam, almoçaram e se deixaram enredar pela história de outros tempos, no Convento que inspirou o Nobel José Saramago. Mas também do outro lado da ponte, visitaram o Cristo-Rei, Palmela, a rota dos Moinhos na Serra dos Louros, o Castelo, Sesimbra, Setúbal, a Princesa do Sado, o Parque Natural da Serra da Arrábida, a bela praia do Portinho. Todos os fins-de-semana, desde aquele primeiro sábado partiam à descoberta de uma localidade.
Nesse meio tempo, André fora com a jovem ao orfanato onde conheceu a Irmã Madalena, de que a jovem tanto falava. Curiosamente, ou talvez não, a empatia entre os dois foi evidente.
Se Eva se apaixonara pelo homem que se revelara, um companheiro inteligente e divertido, gentil e cavalheiro, o homem experiente que ele era, ficava doido, com aquela mulher-menina, que mostrava uma inocência difícil de igualar, pese o seu corpo, onde tudo estava no lugar certo, e o seu rosto cuja beleza era indesmentível. A tensão entre eles crescia. Os toques tão naturais no início eram agora evitados a todo o custo, como se ambos soubessem que qualquer toque provocaria um fogo sem limite na paixão que os devorava.
André percebera já a paixão que a jovem tinha por ele. Porém ele tinha jurado que não lhe faria mal. E ele não era livre. Na próxima semana, partiria para Londres. Não sabia por quanto tempo.
Depois disso, sim será livre. Decidiu-o, quando percebeu o sentimento que o dominava. Por isso tem evitado a todo o custo, qualquer situação que não consiga controlar.
E para isso, passou a sair de casa antes dela chegar do emprego. Janta fora, e só volta para casa de madrugada, quando sabe que ela já dorme.



24.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIII


Uma lágrima desceu silenciosa, até desaparecer no canto da sua boca. Ele estendeu a mão e apertou a dela.
- Que é lá isso? Uma mulher de coragem, não chora. Levanta a cabeça, sorri, e vai em frente. És ainda uma menina, Eva. Não pareces mais velha que a minha sobrinha Isabella, e ela só tem dezasseis anos. Tens uma vida pela frente. Queres um conselho? Tira essas alianças do dedo. Esquece que foste casada, e prepara-te para desfrutar o que a vida ainda tem para te dar.
- Falar é fácil. Mas seguir em frente quando tudo à nossa volta ruiu, é muito mais difícil. Como posso não me inquietar, se não sei o que me vai acontecer quando passarem os seis meses e deixar esta casa? Sem o amparo de pai ou mãe, o que me resta? Voltar para o orfanato?
- Daqui por seis meses, “cara mia”? Quem sabe o que pode acontecer até lá. Vive o dia-a-dia, desfruta o presente e esquece as angústias a longo prazo. Em seis meses pode acontecer um terramoto, cair um meteorito, acabar o mundo.  Olha, porque não vamos amanhã até à outra banda, talvez Setúbal, ou Sesimbra, almoçamos por lá, aproveitamos um pouco de praia, ou simplesmente passeamos pela Arrábida? Não trabalhas ao Sábado, pois não?
- Não. Mas queres mesmo sair comigo?
- Porque não havia de querer? Não sou homem de dizer uma coisa quando quero outra. Ou, se preferires, podemos ficar por Sintra, ou Ericeira. Dizem que é muito bonito, e provavelmente será melhor por causa do trânsito na ponte. Não sei, tu decides. Gostava de conhecer um pouco dos arredores de Lisboa. Até agora sempre que estive em Portugal, foi no norte, junto da família da minha mãe.
Sentia-se tentada. Afinal tirando a viagem em lua-de-mel, à Madeira, o que é que ela conhecia do país?
- Está bem. Deixemos a Arrábida e Sesimbra para outra altura. Prefiro ir a Sintra. Há muito tempo, que ando a pensar ir até lá.
Começou a passar a loiça por água e a metê-la na máquina. Ele levantou-se.
- Bom, só falta combinar a hora. Dez horas, é tarde?
- Por mim, qualquer hora é boa.
- Dez horas, então.
E saiu deixando-a só. Meia hora mais tarde saía de casa, despedindo-se com um simples até amanhã, deixando a jovem cada vez mais perplexa. Devia haver ali qualquer coisa que lhe escapava. Aquele homem, era demasiado bom para ser real. E ela já não acreditava no Pai Natal.


23.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XII.


A mesa já estava posta, quando entrou na cozinha. André tinha tirado o avental, e tal como no dia anterior, apressou-se a puxar a cadeira para que ela se sentasse. Eva pensou que tinha que se acautelar. Aquele homem, com a sua gentileza, o ar travesso, o seu sorriso, era um perigo para o seu coração tão fragilizado. Mentalmente pediu a Deus que a ajudasse. Não se podia apaixonar por ele. Era um aventureiro, uma ave de arribação, que não tardaria a levantar voo.
- Que se passa, Eva? Não gostas do meu  “Spaghetti alla Carbonara”?
Não se atreveu a olhá-lo, como se ele fosse capaz de adivinhar os seus pensamentos.
- Desculpa. Estava distraída.
Saboreou um pouco de comida, e olhou-o surpreendida.
-Está delicioso. 
- Aprendi com a minha “nonna”. Já te disse, ninguém cozinha como ela.
- Disseste que eras meio português. Não tens família cá?
- Tenho. Os meus avós maternos e uns tios. Em Braga., terra da minha mãe. Quando éramos crianças, vínhamos passar o verão em casa dos meus avós. Ainda não fui vê-los desde que cheguei. Quem sabe um fim de semana, queiras ir comigo.
- Eu? – Admirou-se. O que é que ia fazer contigo? Não conheço os teus avós. E tentando mudar o rumo à conversa, - disseste “éramos crianças”. Tens irmãos?
- Somos três. Pietro, o mais velho, e Giovanna a mais nova. Ambos casados. Entre os dois brindaram-me com cinco sobrinhos.
- E tu? És casado?
- Achas, que tenho perfil de homem casado? As mulheres não gostam de aventureiros como eu. Querem segurança, e eu não me dou com amarras. Ou talvez quem sabe, ainda não tenha encontrado a minha alma gémea.
“Toma juízo, Eva. Avisa o teu coração, que não se deixe enredar”, -pensou ela.
Estavam a terminar a refeição. Eva levantou-se para levantar os pratos e por na mesa a fruta.  Disse:
- Quando estava no orfanato, sonhava com o dia em que tivesse a minha família. Casar, ter filhos, sentir o calor de um lar. Não é que lá, tivesse razões de queixa. As freiras não eram más. Severas na educação, mas também amigas. Especialmente a Irmã Madalena. Mas é triste não saberes de onde vens, se teu pai era um homem bom ou um bandido, se tua mãe, era uma boa mulher, ou uma prostituta. Se estão vivos ou mortos. Se tens irmãos. Não tens nada para trás, nem recordações, nem história. É como se fosses a primeira pessoa da história da humanidade. És tu a base da história futura, da tua geração. Quando conheci o Alfredo, pensei que tinha encontrado a minha outra metade. Que juntos, íamos iniciar uma família, ter um lugar na história da vida de que todos fazemos parte. Como pude enganar-me tanto?


22.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE XI



- Meu Deus, filha. E vais viver com um desconhecido? É muito perigoso.
- Não vou, Irmã. Já estou.
E Eva contou à irmã a conversa que tinha tido com André antes dele se mudar lá para casa, o juramento de que não lhe faria mal, e a maneira educada e correta como ele a tratara.
- Sinto-me tentada a confiar nele, mas isso não impede que me sinta angustiada com o meu futuro. A casa era a minha segurança e agora sinto-me sem chão.
-Pelo que contas, não parece ser nenhum bandido, mas sabes como às vezes, as aparências enganam. Sabes que se precisares tens aqui sempre uma cama e um prato de comida, não sabes?
Acariciou-lhe a cabeça com ternura.
- Vou rezar por ti. Pedir à mãe do Céu que te proteja.
- Obrigada Irmã. Precisava desabafar. Agora já me sinto mais tranquila.
- Vem sempre que puderes. Fico preocupada contigo. Se puderes, faz com que esse homem te acompanhe, quando cá voltares. Quando se olha o nosso semelhante, olho no olho, dissipam-se dúvidas. Anda, vamos à cozinha. Tenho a certeza de que não almoçaste.
Almoçou no refeitório depois de cumprimentar a cozinheira, e continuando a conversa com a Irmã Madalena.
Meia hora mais tarde despediam-se ao portão. Eva estava mais tranquila. Precisamente o contrário da freira, que de imediato se dirigiu à capela para rezar pela sua protegida.
À tarde, Eva passou pelo Supermercado para fazer algumas compras básicas. Tinha a dispensa praticamente vazia. Porém quando chegou a casa, ficou surpreendida ao encontrar André, na cozinha. Vestia umas calças de ganga justas, um polo azul, tinha posto o avental dela, que dada a sua estatura lhe ficava bem pequeno e lhe dava um ar muito engraçado. E estava descalço.
- Que estás a fazer? – Perguntou-lhe contendo a vontade de rir
- Não se vê logo, -respondeu-lhe com ar trocista. O jantar.
- Tens por hábito cozinhares as tuas próprias refeições?
-Às vezes. Quando me dá saudades da comida da minha "nonna". Sabes que ninguém faz um prato de massa como ela? A propósito, espero que gostes de comida italiana. Estou a fazer para os dois.
-Quem é a "nonna"?
-Minha avó paterna. Não fiques aí parada, o jantar está quase pronto.
Poisou o saco com as compras sobre o balcão, virou costas e foi para o quarto. Tomou um duche rápido, vestiu um macacão de algodão florido, e passou a escova no cabelo, lembrando da cena que acabara de ver na cozinha e perguntando-se se aquele homem existia mesmo, ou se tudo não passava de imaginação sua.






21.8.17

DIVIDA DE jOGO - PARTE X






Apesar de todas as preocupações só acordou quase às oito da manhã. Tomou banho, vestiu-se, arrumou o quarto, e foi para a cozinha, onde fez um sumo de laranja e umas torradas. Contrariamente ao habitual, não ligou o rádio para não acordar o homem que devia estar a dormir no quarto de hóspedes.
Saiu de casa às nove e meia. Habitualmente ia a pé para o emprego, a clínica não ficava longe de casa, mas como tinha decidido ir ao orfanato ver a Irmã Madalena, na hora do almoço, decidiu levar o carro.
O trabalho na clínica não era fácil de suportar naqueles dias. As pessoas conheciam-na, sabiam do suicídio do marido. Queriam mostrar-lhe que estavam solidárias com a sua dor. Não faziam por mal, mas quando mais falavam, mais a faziam sofrer.
Quando a clinica fechou a porta para o almoço, ela meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Comeria alguma coisa depois se tivesse tempo.
A Irmã Madalena, supervisionava um grupo de crianças, que brincavam no pátio. Abraçou-a com carinho.
-Que bom que vieste, Eva. Tenho estado tão preocupada contigo. Como estás filha?
- Como Deus quer, Irmã. Preciso muito de falar consigo. Não tem ninguém para cuidar dos meninos?
- Claro que sim, filha. Podes ir chamar a Irmã Maria? Deve estar na biblioteca.
Eva encontrou-a, no corredor, antes mesmo de chegar à biblioteca. Transmitiu-lhe o recado e seguiram as duas para o pátio. Depois, a Irmã Madalena levou-a até ao seu gabinete, onde Eva lhe contou tudo o que tinha acontecido depois do último encontro que tiveram no funeral de Alfredo. Por fim estendeu-lhe a carta que o advogado lhe entregara. A Irmã estava espantada. Abriu os braços e a jovem refugiou-se neles.
- Pobre menina. Como deves estar a sofrer! Tu sabes que não me agradou o teu casamento com o Alfredo. Havia qualquer coisa nele que não me agradava. Mas depois tu estavas tão feliz, que pensei que me tinha enganado.
-E fui feliz durante uns meses, Irmã. Depois o comportamento dele alterou-se. Passou a sair quase todas as noites, chegava tarde a casa. Às vezes vinha eufórico, mas a maioria das vezes, vinha aborrecido. Perguntava-lhe se o podia ajudar mas ele não se abria. E o dinheiro desaparecia. Ultimamente era com o meu ordenado que governava a casa.
Pensei que ele tinha uma amante. Quis falar com ele, obrigá-lo a confessar. Deixou-me a falar sozinha e foi atirar-se daquele terraço. Nunca imaginei que fosse jogo, muito menos que fosse capaz de jogar a casa e a própria mulher.

20.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE IX


Tinham passado à sala, onde em cima da pequena mesa, continuava a carta de despedida de Alfredo. Sem uma palavra, Eva apanhou-a e estendeu-a ao homem. Ele leu-a, e devolveu-lha.
- Não te merecia. Um homem como ele não merece mulher alguma. Hoje, conhecendo-te, alegro-me pelo impulso que tive, naquele dia. Porque apesar de tudo, estás segura comigo. Agora, se não te importas, vou-me vestir e vou sair. Podias emprestar-me as chaves?
- Vou buscar. Estão com os documentos dele, que a polícia me entregou.
Abriu uma gaveta e retirou as chaves. Estendeu-lhas, e voltou para a sala, enquanto ele se dirigia para o quarto. Pegou num livro e tentou embrenhar-se na leitura. Vinte minutos mais tarde, André, impecavelmente vestido, bem barbeado e penteado, apareceu à porta.
-Até amanhã. Dorme bem.
-Até amanhã. Boa sorte.
Ouviu a porta a fechar-se, e ficou a pensar na volta que a sua vida tinha dado em vinte e quatro horas. No dia anterior ela era uma jovem viúva, com um bom emprego e a sua casa, que podia viver serenamente durante o tempo suficiente para fazer o luto e tentar refazer a sua vida. Agora perdera a casa, a sua autoestima fora jogada e perdida, numa mesa de casino, e até a dor do luto, fora substituída pela raiva. Estava à mercê dum desconhecido, obrigada a viver com ele durante seis meses, sem saber o que lhe ia acontecer durante esse tempo, e depois disso. 
No emprego, tinha duas horas para almoço, costumava vir almoçar a casa. Não o faria no dia seguinte. Tinha que ir à instituição, ver a Irmã Madalena. Contar-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, mostrar-lhe a carta de despedida do falecido. Decerto ela saberia aconselhá-la.  
E André? Que pensar de um homem que jura que nunca lhe fará mal, que consigo não corre perigo, e ao mesmo tempo se assume como um aventureiro? Barco sem rumo certo, capaz de mudar de direção ao sabor de um qualquer vento? O que fará ele com a casa, quando se cansar de Portugal? Vendê-la-á? E se assim for, poderá ela conseguir um empréstimo bancário que lhe permita ficar com a habitação? Tantas interrogações, põem-lhe a cabeça em água.
Fechou o livro, e guardou a carta na sua bolsa. Dirigiu-se para o quarto. Escovou os dentes e preparou-se para se deitar. Antes porém, fechou a porta do quarto à chave. Depois fez o mesmo à porta que comunicava com a sala de leitura. Só depois se deitou e apagou a luz.




19.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE VIII




Terminado o jantar, Eva começou a retirar a loiça da mesa, perguntando:
-Faço café para os dois?
- Se não te importares! – Respondeu observando-a dissimuladamente.
Ela procurou no armário a embalagem de cápsulas, e as chávenas e tirou os cafés.
-A que horas, tens que estar no casino? – Perguntou ela.
- Não sou empregado do casino, Eva. Sou jogador profissional, trabalho por conta própria. Posso ir todos os dias, e geralmente vou, mas posso estar  alguns dias, sem aparecer. Por isso não paro muito tempo num mesmo sítio. Hoje estou aqui, amanhã ou daqui a um mês posso estar na Itália ou na Bélgica. Como te disse sou um cidadão do mundo.
- Mas para isso não é preciso ter muito dinheiro? Ou ganhas sempre?
- Nenhum jogador ganha sempre, a menos que faça batota, mas isso é crime e é severamente punido.  Eu nunca arriscaria fazer batota. Pode-se dizer que nos ganhos há dois componentes que funcionam em pleno. A concentração e a sorte. A condição mais importante para o profissional, é retirar-se da mesa a tempo, quer esteja a ganhar, ou a perder. Porque a verdade é essa, umas vezes ganhamos e outras perdemos.
- Quer dizer que não escolheste essa profissão pensando enriquecer?
- Não. Na verdade nunca desejei ser rico. Sou um bocado aventureiro, desfruto do que a vida me dá. Não sou rico, mas digamos que tenho o suficiente para não me preocupar com o futuro. O dinheiro do jogo, só entra nas minhas contas, no sentido em que o que perco num dia, tem que ser sempre inferior ao que ganhei no anterior. Essa é a diferença entre um jogador profissional, e um “agarrado” como era o teu marido. Nós jogamos pelo prazer único do jogo, racionalmente, sem emoção. Homens dominados pelo vício são capazes de vender a alma ao diabo, pelo jogo. É uma dependência com a da heroína ou de outra droga qualquer. Nunca suspeitaste que o teu marido era viciado no jogo?
- Não. É claro que as chegadas a casa quase de madrugada e a falta de dinheiro, me fizeram acreditar que alguma coisa não estava bem. Suspeitei que ele me traía, que havia outra mulher na sua vida. Quis discutir com ele o nosso casamento, mas saiu de casa batendo a porta e não voltou. De madrugada, a polícia bateu-me à porta, avisando da sua morte. Pensei que tinha sido um acidente, até que a polícia me disse que ele tinha subido aquele terraço com intenções claras de se matar, e que várias pessoas, incluindo a própria polícia tinham em vão tentado demovê-lo de se atirar de lá.

18.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE VII


Quando, duas horas depois André voltou, a primeira coisa que viu quando ela lhe abriu a porta, foi o rosto congestionado, e os olhos vermelhos e inchados da jovem. Sentiu um baque no peito. Era tão jovem. Parecia uma menina e já tão sofrida. Sorriu, tentando animá-la.
- Trouxe jantar para os dois. Calculei que não te apetecesse cozinhar. E uma vez que ia sair do hotel preferi fazê-lo antes do jantar. Vou pôr a mala no quarto e já venho. Queres pôr a mesa? Na cozinha, se não te importas.
Estendeu-lhe o saco, e seguiu com a mala para o quarto. Eva pôs a mesa. Depois abriu o saco, e tirou dele uma garrafa de vinho tinto, um recipiente com frango assado, outro com batatas fritas, um com salada e uma caixa de gelado, que colocou no congelador. Procedia quase como um autómato, pensando quão estranha era a vida. De manhã, ela nem sonhava com a existência de André. E agora ali estava a pôr a mesa, para um jantar a dois, como se fossem um casal, ou pelo menos amigos íntimos. Curioso é que depois do embate inicial, e sobretudo depois da conversa que tiveram horas antes, ela deixou de recear o que lhe podia acontecer no futuro. Confiava nele? Sim, mas não de peito aberto. Como diria a Irmã Madalena, confiava, desconfiando. Muita água teria que correr debaixo da ponte, até que voltasse a confiar em alguém, em pleno, como confiara no marido.
- Espero que gostes de frango. Teria telefonado para te perguntar, mas não tenho o teu número. Pudemos começar? Estou cheio de fome.
Puxou-lhe a cadeira para ela se sentar, e esse pequeno gesto, fez com os olhos femininos, ficassem rasos de água. Durante alguns minutos comeram em silêncio. Depois ele retomou a palavra.
- A tua família já sabe o que se passou?
- Não tenho família!
-Como assim? Ninguém? Nem sequer um parente afastado?
-Não. Fui abandonada à porta de uma instituição católica que acolhe órfãos. E lá vivi até ao casamento. A Irmã Madalena, é o mais parecido que tenho com uma família.
André despejou um pouco de vinho no seu copo, e tentou fazer o mesmo no dela, que o cobriu com a mão dizendo:
-Não obrigada. Prefiro água.
Olhou-a pensativo. Será que estava grávida? Isso justificaria o ter desmaiado no advogado e o não querer bebidas alcoólicas. Ou seria que temia que ele a embebedasse para depois abusar dela?


17.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE VI


Calou-se. Eva estava confusa. O coração dizia-lhe que podia confiar nele, a cabeça lembrava-lhe que o coração já a enganara com o marido. E enquanto ela se debatia com estas contradições, ele virou-lhe as costas e começou a caminhar para a porta.
-Espera – disse ela pondo-se de pé. Vem conhecer a casa. Se quiseres podes mudar-te hoje. Enquanto vais buscar as coisas eu arranjo-te o quarto. A casa não é muito grande. Além desta sala, temos aqui uma sala de refeições, e aqui o quarto principal. É o único com casa de banho integrada, - disse enquanto ia abrindo as portas, para lhe mostrar os respetivos aposentos. Esta parte da casa foi mobilada por nós, antes do casamento. Aqui, é uma salinha de leitura, e aqui o quarto de hóspedes. Estas duas divisões, estão como podes ver mobiladas com um estilo diferente. Clássico, móveis mais antigos, já cá estavam, quando o Alfredo herdou a casa. Aqui em frente temos uma casa de banho e aqui é a cozinha. Podes ficar com o quarto principal, eu mudo as minhas coisas para o outro quarto.
-De modo nenhum. Eu fico no segundo quarto. De certeza que posso vir hoje? Não queres mais um dia ou dois para te habituares à ideia?
- Não. Hoje, amanhã, daqui a um mês, a dor não diminui. Além do mais vai ser uma festa para a vizinhança, a tua presença aqui. Parece que estou a ouvir. Há três dias enterrou o marido e já meteu outro lá em casa. Se calhar foi por causa dela que ele se matou.
- Se te preocupas com isso, podes dizer que sou da família.
- De modo algum. Estou de consciência tranquila.
- Bom, como já te disse, não quero prejudicar-te.  Peço-te que me desculpes se te pareci rude.Penso que estavas à beira de um ataque nervoso e pensei que devia tranquilizar-te.  Agrada-me a casa. Os hotéis são muito impessoais. Devo dizer-te que saio todas as noites e regresso tarde. A minha profissão é noturna. Procurarei não fazer barulho, quando entrar.
- Farei o mesmo de manhã, para que possas descansar. Agora vai.
Logo que André saiu, ela foi até ao quarto de hóspedes, e trocou a roupa da cama. Depois levou toalhas limpas para a casa de banho, verificou se estava tudo em ordem, e só depois pegou na carta do marido. Deu-lhe várias voltas, antes de ter coragem de a abrir.
Por fim decidiu-se. E leu.
“Querida Eva:
Deves estar muito zangada comigo. Sei que fui um canalha, traí a tua confiança, destruí os teus sonhos, pus-te em perigo, e não consigo viver com o remorso do que fiz. Não te peço perdão, porque eu próprio não me perdoo. Tenta esquecer que eu existi. Só assim podes ainda ser feliz. Adeus.”
Escondeu o rosto entre as mãos e chorou amargamente.


16.8.17

OBRIGADA AMOR





OBRIGADA AMOR


Pelos teus
silêncios,
pelos teus
beijos,
Pelo teu
sorriso,
pelo teu
olhar.
Pelas noites
que
adormeci
nos teus braços.
Pelas lágrimas
que
com teus lábios
me secaste.


Obrigada amor


Por seres
o farol
das minhas
noites
de loucura.
O raio de sol
dos
meus dias
sombrios.
O porto seguro
onde
ancorei
os meus sonhos
prestes
a naufragar

elvira carvalho


Porque hoje é um dia especial, não podia deixar de comemorá-lo, com os amigos.



15.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE V




O homem não respondeu. Dirigiu-se para a porta, abriu-a e colocou-se de lado para ela entrar. Depois fez o mesmo e fechou a porta atrás de si. Então a sua mão agarrou-lhe o braço como se fosse uma tenaz, ao mesmo tempo que dizia com voz rude.
- Vamos lá, mocinha, vais levar-me para a sala, que precisamos ter uma conversa séria.
Qualquer coisa na voz dele, levou-a a obedecer, encaminhando-se para a sala. Aí chegados, ele empurrou-a com brusquidão para o sofá onde ela se deixou cair, pálida de medo e raiva. A tensão entre os dois era enorme.
Então ele rompeu o silêncio.
Não sei como era o teu casamento, - disse tuteando-a – a julgar pelo teu marido e pelo vício que o dominava não devia ser muito feliz. Eu chamo-me André Ferreira Angeloni. Meio português meio italiano, tenho trinta anos e sou jogador profissional. Acredites ou não, nunca tinha encontrado um indivíduo tão agarrado ao vício quanto o teu marido. Naquele dia ele tinha gasto todo o seu dinheiro, mas queria a todo o custo continuar. A banca não lhe cedeu mais fichas, provavelmente conheciam-no e sabiam que ele não poderia pagar. Então ele começou a correr as mesas abordando jogadores, oferecendo a casa em troca de quem lhe permitisse jogar. Eu estou cá há pouco tempo. Não conhecia o teu marido, mas não sei que diabo me passou pela cabeça, que me prontifiquei a trocar o que me oferecia pelo que desejava. Uma avultada quantia para continuar a jogar. E claro, voltou a perder. E antes que fiques a pensar, em coisas escusas, eu não joguei com ele. No dia seguinte, ele não foi ao casino e dois dias depois, soube que se tinha suicidado. Nem sequer sabia que ele tinha feito um testamento e que tinha incluído a cláusula de teres que viver comigo seis meses nem porque o fez. A única coisa que tenho comigo, é o documento da dívida e a oferta da sua residência como penhora dela.
Meteu a mão no bolso e tirou o documento, que lhe jogou para o regaço.
-Aí está. Podes verificar a data e as assinaturas. Dirás que a casa vale muito mais. De acordo. Mas de qualquer modo depois do testamento que teu marido fez, isso já não conta. Ele o fez, de livre e espontânea vontade. Sou um cidadão do mundo, cheguei há pouco tempo a Portugal, não sei quanto tempo vou ficar. Estou num hotel. Suponho que esta casa tem um quarto de hóspedes. Vou deixar-te só para que leias a carta do teu marido e prepares um quarto. Amanhã ao fim do dia, trago as minhas coisas. Não precisas ter medo de mim, não te digo que pudemos ser amigos, porque não creio que o desejes, mas não te farei qualquer mal. Juro.



14.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE IV


Ele não respondeu. Limitou-se a segurá-la pelo cotovelo, e empurrá-la suavemente para a porta do elevador que acabava de se abrir.
Com um safanão ela libertou-se.
-Não me toque. Pode ser que o safado do meu marido se tenha julgado no direito de me transformar num troféu de jogo. Ultimamente andava tão esquisito que nada me admira. Posso ter perdido a minha casa, e ser obrigada a viver seis meses consigo. Mas não lhe dou o direito de me tocar.
Brilharam de raiva os olhos cinzentos.
-Oiça, entendo que esteja em choque. Mas não lhe quero fazer qualquer mal. Acredite ou não, o melhor que lhe podia ter acontecido, foi ter sido eu a aceitar a proposta maluca do seu marido. Não lhe passa pela cabeça, o perigo em que o vício dele a colocou. E agora vai dizer-me como veio até aqui?
Pela primeira vez, ela olhou o rosto do homem. Não se podia dizer que era um homem bonito. Interessante sim. E duro. Sem bem saber porquê, teve a sensação, de que aquele homem zangado, podia ser muito perigoso. Talvez fosse pelas maçãs do rosto demasiado salientes, ou pelo queixo quadrado, talvez pelos olhos cinzentos, tão claros que lhe lembraram dois pedaços de gelo, ou quem sabe, pela linha dura da boca bem desenhada.
-Vim de carro.
Começou a andar rumo ao parque e ele colocou-se a seu lado. Caminharam em silêncio até ao automóvel. Em silêncio ele estendeu a mão, e ela entregou-lhe as chaves. Não tentou ser gentil, nem lhe abriu a porta, dirigindo-se diretamente para o lado do condutor e sentando-se ao volante. Colocou o cinto e então olhou-a:
- E a morada é…
Ela disse o nome da rua, e remeteu-se ao silêncio. Estava desejosa de estar sozinha para ler a carta do marido. Maldito fosse ele. E pensar que lhe parecera tão amoroso, quando o conhecera. Razão tinha a Irmã Madalena, quando a aconselhara a prolongar o noivado. Por qualquer razão que ela desconhecia, a freira, não confiava nele. Olhou de relance para o homem a seu lado. Como era mesmo o seu nome? Ela lembrava-se que o advogado o mencionara, mas esquecera por completo.
O carro parou e só então ela se apercebeu de que tinha chegado a casa. Saíram do veículo e ele estendeu-lhe as chaves. Ela guardou-as na mala, e retirou as de casa, que lhe estendeu com  ar provocador.
-Ó desculpe, tenho as chaves da "sua" casa, - disse com ironia.

13.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE III




Acordou alguns minutos mais tarde, deitada no sofá da sala de recepção, com a empregada aspergindo-lhe o rosto, e os dois homens de pé, junto do sofá.
- Sente-se melhor? – Perguntou a empregada, para acrescentar de seguida, estendendo-lhe um copo. – Beba um pouco. É água com açúcar, vai fazer-lhe bem.
Aos poucos a cor voltou ao rosto da jovem.
-Sente-se capaz de continuar? – Perguntou então o advogado.
- Sim. Peço desculpa, não costumo perder os sentidos, mas a surpresa, o calor, não sei.
Levantou-se. Ainda sentia um tremor nas pernas, mas tal como Cristo no Calvário, ela também não podia afastar de si aquele cálice. Logo, era urgente que o bebesse até ao fim. Depois que o advogado acabou de ler o documento, Eva perguntou:
- Esse testamento é legal? Quero dizer, não me refiro ao património que o meu marido deixou ao cavalheiro aqui ao lado. Afinal era herança dele, estava no seu direito. Refiro-me à exigência de que terei que viver seis meses com uma pessoa que não conheço de lado nenhum, que não sei se é boa pessoa, ou um bandido da pior espécie. Perdoe-me o senhor, - disse sem se voltar para o homem que estava sentado a seu lado, - a minha intenção não é ofendê-lo, apenas estou a constatar um facto. É legal uma pessoa dispor em testamento da vida de outra, como se fora um objeto?
- É legal, quando uma pessoa é menor, ou sendo maior é incapaz de sobreviver sozinha, o que como é óbvio não é o seu caso. Mas também o é em algumas ocasiões especiais. Por exemplo numa aposta de jogo, as dívidas de jogo só podem ser revogadas pelo tribunal, o que pelo que julgo saber, é o presente caso. E assim sendo terá que contestar o testamento e preparar-se para uma longa batalha judicial.
- Divida de jogo? Quer dizer que o meu marido, jogou e perdeu a casa e a própria esposa ao jogo? – Perguntou verdadeiramente horrorizada.
- Por favor, doutor, se a nossa presença já não é necessária, eu gostaria de esclarecer os factos com esta senhora em particular. – Pela primeira vez, a voz grave e bem modelada do homem a seu lado, fizera-se ouvir.
-Preciso que me assinem estes documentos para fazer os registos. Até porque suponho o senhor Alfredo Magalhães, deve ter deixado tudo explicado na carta que entreguei à dona Eva, no início desta reunião.
Assinaram os documentos, e depois de cumprimentarem o advogado, saíram do escritório. Já no elevador, ele disse:
- Não sei se tem carro ou veio de transporte público. Gostaria que me permitisse acompanhá-la a casa. Não me parece que esteja em condições de andar sozinha na rua, muito menos de conduzir um veículo.
- Que eu lhe permitisse acompanhar-me? – Perguntou com ironia. – Não estará a inverter os papéis? Afinal a casa é sua, não é verdade?