Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta fantasmas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fantasmas. Mostrar todas as mensagens

29.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVI

 




- Nada. Ainda não me conheces, mas garanto-te que sou um homem de princípios. Apesar de tudo o que te disse, não me casaria, se soubesse que não tinha forças, para acabar com uma relação, e fechar a porta ao passado.
 Quis que o soubesses, para que me entendesses, e não te sentisses rejeitada. Porque não me vou deitar na tua cama, a pensar noutra mulher, nem te vou pedir que me ajudes a esquecê-la. É tarefa minha. Peço-te paciência, enquanto me livro dos meus fantasmas.

Finalmente voltou-se. Olhou-a fixamente, tentando adivinhar o que lhe ia na alma. Virando-lhe as costas, Sofia voltou para o sofá.
-Agradeço a tua sinceridade. Lembro-te que estamos casados pelo registo e pelo que sei, aqui existe o divórcio.
- Não me entendeste, Sofia. Nunca pediria o divórcio, do mesmo modo que nunca te vou atraiçoar, porque ainda que aqui dentro, sejamos apenas bons amigos, fora deste apartamento, és a minha mulher e como tal, sempre te respeitarei.  Sou  homem que honra os seus compromissos.

- Bom. Depois do que acabaste de me contar, pensei que tinhas pedido o casamento pelo registo, a pensar num possível divórcio.
-Não. Talvez esteja errado, mas penso que um juramento perante Deus, não se deve fazer de ânimo leve. Penso que só dois seres que se conhecem bem e se amam de corpo e alma, devem casar pela igreja. E não é o nosso caso.

- Então, agora que esclarecemos a situação, o que vamos fazer? - perguntou a jovem, sem bem saber o que pensar.
- Não sei. Não disseste que o amor vem com a convivência? Podemos ser amigos, partilhamos a casa, conhecemo-nos. Depois se verá o que o futuro nos reserva.  Parece-te bem?
- Sim.

O silêncio caiu sobre eles. Intenso. Ela não sabia se estava feliz, se desiludida. O que sabia, é que o seu desejo de sair da aldeia, a tinha metido numa "camisa de onze varas" como costumava dizer o pai. Resolveu mudar de assunto.
-É preciso alguma coisa especial, para procurar trabalho aqui? Inscrever-me em algum lado?

-Não. Na Segunda-feira, temos que ir tratar da tua legalização no país. Nada que acarrete problemas, afinal somos casados, e ainda que o não fossemos, a França permite a legalidade sem grandes problemas. E em que gostarias de trabalhar? Disseste que tens o Curso Comercial. Se falar com o tio, talvez pudesses ajudá-lo com a contabilidade do restaurante.

-Não. Não quero trabalhar contigo ou com o teu tio. Pelo menos por agora. Tenta compreender. Quero qualquer coisa, onde me sinta uma empregada como outra qualquer, não a sobrinha do dono. Entendes?
- Sim. E tens alguma ideia do que gostarias de fazer?
- Neste momento, e dado a diferença de moda entre o que vi aqui e o que se usa  na nossa terra, o que gostava mesmo, era de uma loja de roupas.
- Podemos ver os anúncios no jornal. Mas não precisas ter pressa. Tenho  algumas economias. E um bom salário.

11.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXI





Teresa gostou realmente do restaurante. O edifício situado na marginal, com o bar e a esplanada estendendo-se pela rocha, como que entrava no mar delimitando a fronteira entre as praias da Rainha e da Conceição. A sala de refeições era muito agradável, com largas janelas para a praia. A mesa que lhes estava reservada situava-se precisamente junto a uma dessas janelas, donde se podia observar o vai e vem das ondas, transmitindo uma sensação de calma que acabou descontraindo a jovem.

-Preferes carne ou peixe? - perguntou João enquanto consultava a carta. A especialidade aqui são os pratos à base de peixe ou marisco, mas o Bife Tártaro do Mâitre, ou o Carré de borrego assado com maçãs, também são uma delícia.

- Vou escolher o Robalo no forno à Portuguesa, pois receio que os pratos mais elaborados de carne me enjoem e te faça passar vergonha.

- Muito bem, vamos para o robalo. E entradas? Gostas de Ostras?

- Não sei, nunca comi, mas também não será hoje que vou experimentar. Além do receio de enjoar, habitualmente não como muito e se começo com as entradas receio já não comer mais nada. Mas tu, pede o que te apetecer, não tens que te preocupar comigo.

-Desculpa, mas não estou de acordo. És a convidada, portanto a pessoa mais importante nesta mesa. Se receias enjoar com a carne ou com as entradas então não as pedimos. Desejo que relaxes e saboreies a refeição.  E se possível, que te esqueças do papel, que ambos desempenhamos nesta peça, em que a vida nos meteu. Imagina que sou um amigo de longa data, que não vias há muito tempo. Será mais fácil para os ti.

Os olhos de Teresa tinham um brilho húmido, como se estivesse a reter as lágrimas. João estendeu a mão e apertou a dela. Recordou que ela lhe dissera estar sozinha na vida, e sentiu toda a sua fragilidade como se fora a sua própria. Sabia bem o que era sofrer, e não sentir o consolo de um abraço, ou simplesmente uma palavra de ânimo de pai ou mãe. Em silêncio jurou a si mesmo, que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para a proteger.

O empregado chegou, eles fizeram o pedido, e durante breves segundos mantiveram-se em silêncio observando o vai vem das ondas, cada um perdido sabe-se lá em que mundo, presos de que fantasmas. Depois Teresa levantou-se dizendo:

-Desculpa, tenho que ir à casa de banho.

E afastou-se. Mais do que uma necessidade fisiológica, própria do seu estado, Teresa queria esconder dele as lágrimas que não conseguia reter por mais tempo. Precisava dois minutos de solidão para lavar o rosto e recompor-se da emoção que aquele homem lhe provocara. Era aquele o homem, que Gonçalo e o médico do Centro Clínico, lhe descreveram como um homem duro, capaz de tudo para atingir os seus fins? A ela parecia-lhe mais o Príncipe de um conto de fadas. Enxugou o rosto e abanou a cabeça. Não! Não se deixaria iludir. Os Príncipes não existiam na vida real. O que existia eram sapos, capazes de boas representações.

Regressou à mesa no momento em que o empregado se aproximava com o pedido

 

25.5.20

ISABEL - PARTE IX


                                          Rua da Barroca - Foto minha


Encolheu os ombros, levantou-se e iniciou o regresso a casa, desta vez subindo a rua da Barroca. 
Apesar de se ter deitado cedo nessa noite, Isabel custou a adormecer.  O que mais lhe desagradava naquela cidade eram as noites demasiado barulhentas para o seu gosto. Contudo ela não costumava sofrer de insónias, e quase sempre depois de dez minutos de leitura estava pronta a entregar-se nos braços de Morfeu. Todavia naquele dia, a noite há muito entrara pela madrugada, e ela continuava a dar voltas e voltas na cama sem adormecer. As lembranças surgiam como fantasmas, avançando traiçoeiras a coberto da escuridão nocturna.
Nunca em vinte anos, elas a tinham atormentado, durante tanto tempo seguido, como nesse dia. Talvez porque estava de férias, ou quem sabe o seu cérebro estava a fazer uma catarse para se livrar de todas as mágoas que ela acumulou e guardou durante metade da sua vida. Talvez quem sabe para abrir lugar a novas emoções.
Recordou o dia em que terminou o Curso, a alegria dos seus velhos pais, apesar do ar cansado da mãe. Há dias que ela andava assim, mas quando Isabel perguntava se tinha alguma coisa, sempre respondia sorrindo. “Nada filha, não é nada. Ou melhor, é o peso dos anos”.
Bem cedo no dia seguinte, o pai bateu-lhe à porta do quarto, pedindo para ela ir ver a mãe que não acordava.
 Isabel saltou da cama, e ao chegar ao quarto dos pais,  logo se apercebeu de que algo grave tinha acontecido com a mãe. Chamou uma ambulância e preparou-se para a acompanhar  ao hospital.
Antes de sair, bateu à porta da vizinha e pediu se podia acompanhar o pai até que ela voltasse. Tinha medo de o deixar sozinho, mas só uma pessoa podia seguir na ambulância.
No hospital, depois de vários exames, foi-lhe dito que a mãe tivera um AVC, fruto talvez de uma diabetes descontrolada. Tinha sido feito tudo o que era possível, mas a mãe estava em coma. Informaram-na, das horas a que eram dadas as informações sobre os doentes na UCI e da hora a que podia vê-la durante escassos minutos. Agradeceu, agarrou no saco que uma enfermeira lhe trouxe com as roupas da mãe e chamou um táxi para regressar a casa.
Não sabia como dar a notícia ao pai. Ele estava quase a fazer oitenta anos, e estava casado há mais de cinquenta. Desde que se lembrava de ser gente, Isabel sempre notara o imenso amor que os unia. Na troca de olhares, no roçar das mãos, nos sorrisos cúmplices, no adivinhar de certas frases apenas afloradas por um e respondidas pelo outro, estava patente esse amor. E ela? Estava preparada para a possível perda da mãe? Nunca ninguém está preparado para semelhante facto, mas ela era nova e forte. O pai sim preocupava-a. E tinha razão para isso.
Durante os quarenta dias que a mãe esteve no hospital, foi muito difícil conseguir que o pai comesse alguma coisa. Felizmente a mãe saiu do coma, e embora ficasse com o lado esquerdo paralisado, mentalmente estava lá, e isso foi muito importante para todos.
Nada pior do que ter fisicamente presente um familiar, cuja memória se perdeu por estranhos labirintos, dos quais não há esperança de retorno.
Isabel tinha muitos projectos para a sua vida, após ter terminado o curso. Ia montar um escritório com duas amigas e começar uma vida totalmente diferente daquela que tivera até ali. Mas... e agora? O que fazer? A mãe precisava dela.
Foi a própria mãe que a encorajou a realizar os seus sonhos. Ela precisava de cuidados sim. Mas contratariam uma pessoa para cuidar dela e ajudar a tratar da lida da casa. O pai como sempre estava de acordo.
Foi assim que passados uns dias, contrataram Ermelinda, uma senhora de meia-idade, forte e trabalhadora, que não só cuidava da sua mãe, como cuidava da casa e refeições.
Foi uma grande ajuda para Isabel atarefada com a montagem do escritório, no andar em que inicialmente ela e mais duas amigas iam ter os seus escritórios  e que acabou sendo só para ela e Irene que se tinha formado em advocacia, já que Patrícia, acabara resolvendo voltar para a Guarda, cidade de onde era natural, para ficar mais perto dos pais. Depois da montagem era necessário contactar possíveis clientes, dar-se a conhecer.
E foi bem difícil abrir caminho num mundo que se fechava a tudo o que era inovação.


NOTA: Para aqueles amigos que gostam de um bom blogue, informo que O SINO DA ALDEIA  está de volta, depois de uma ausência de vários anos

9.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE LI


Encostou-se mais a ele, o corpo tremendo, mais de ansiedade que de medo. Insistiu
- Não te atormentes mais, nem me tortures. Deixa de lutar contra fantasmas que só existem na tua cabeça.  Eu sou real, e o meu amor por ti, é tão real, quanto esta tempestade.
 Segurou-lhe o rosto entre as mãos, e aproximou o seu do rosto dele, até quase se tocarem. Insistiu:
- Beija-me. Agora. Ou não te perdoarei nunca.
Incapaz de resistir, por mais tempo, ele obedeceu.
E, tal como um rio, que no auge da tempestade, galga  margens e arrasta tudo à sua passagem, assim o beijo que os uniu, despoletou tal paixão, que destruiu  medos e inseguranças, deixando apenas um homem e uma mulher que se amavam, e se entregavam às primícias desse amor.
Lá fora chovia torrencialmente. Aos poucos a tempestade afastava-se, e a trovoada, ficava cada vez mais distante.
Mais tarde, quando a luz voltou, ela sussurrou:
Tens fome?
-Só de ti, - respondeu ele com paixão
Ela riu baixinho. E de novo as bocas se procuraram ansiosas, as mãos  se perderam nervosas, em carícias  delirantes,  e os corpos se envolveram na ancestral dança do amor.





************************************** - EPÍLOGO -******************************** 



Já se passaram mais de quatro anos, desde aquela noite de Dezembro.   Tempo em que muita coisa aconteceu na vida dos dois protagonistas desta história. 
Mariana recuperou os seus documentos, bem como a chave da sua casa.Continuou com as sessões de psicoterapia, durante algum tempo, até interiorizar que o sentimento de culpa, que quase a endoidecera, não tinha razão de ser.
 Casaram numa manhã de sol,no início da primavera. Numa cerimónia, simples e íntima, na presença de Luísa, da filha e do namorado desta, e de alguns amigos do noivo.
 Mariana, voltou à universidade e terminou o curso. Por seu lado, Miguel era cada dia mais respeitado por público, e críticos. O seu quadro,  " Folha em branco"., que retratava Mariana, naquele dia, entre a vegetação da falésia, tal como ele a vira, fizera o maior sucesso, e fora alvo de vários estudos, e muitas ofertas, mas Miguel não o vendeu. Tinha lugar de destaque na sua sala.  
Tinham vivido na casa dela, enquanto remodelavam aquele apartamento, e quando as 
acabaram voltaram para ali, e venderam a outra casa.
Mantinham Luísa como empregada. E Maria continuava a ser, a  sua melhor amiga, embora ela tivesse recuperado a antiga amizade de algumas colegas da Universidade.
Mariana estava cada dia mais bela, mais mulher, mais madura.
Irradiava felicidade.
Por vezes, ao olhá-la, voltava a insegurança de Miguel, o temor de a perder, o medo de que a jovem o trocasse por alguém da sua idade. Tinha esse medo enraizado no peito, muito embora lutasse contra isso todos os dias. Mas às vezes, era maior que as suas forças. Ensombrava-se-lhe o rosto, entristecia-se-lhe o olhar.
Atenta, Mariana afastava essa dúvida, com todo o amor que sentia pelo marido.
Ela sabe, que essa, é uma nuvem,  que ainda vai demorar a sair do horizonte de Miguel.
Mas  hoje é um dia especial. Miguel faz cinquenta e um anos. Daqui a pouco descerá do estúdio, sairão para jantar, e festejar com alguns amigos.  
Mariana acaba de se arranjar e espera ansiosa pelo marido. Ela tem uma prenda especial para ele.
Quando ele desce, ela enlaça-o e murmura-lhe  algo ao ouvido.
 -Verdade?- pergunta ansioso, mergulhando o olhar, naqueles olhos castanhos que tanto ama.
Acena afirmativamente  com a cabeça.
 Sentindo um nó na garganta, o coração batendo desenfreado no peito, ele aperta-a contra si, e murmura emocionado:
-Bendita sejas, Mulher!


FIM


 Elvira Carvalho.




14.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVI





- Nada. Ainda não me conheces, mas garanto-te que sou um homem de princípios. Apesar de tudo o que te disse, não me casaria, se soubesse que não tinha forças, para acabar com uma relação, e fechar a porta ao passado.
 Quis que o soubesses, porque não me sentiria bem comigo mesmo, se te enganasse. Não me vou deitar na tua cama, a pensar noutra mulher, nem te vou pedir que me ajudes a esquecê-la. É tarefa minha. Peço-te paciência, enquanto me livro dos meus fantasmas.
Finalmente voltou-se. Olhou-a fixamente, tentando adivinhar o que lhe ia na alma. Virando-lhe as costas, Sofia voltou para o sofá.
-Agradeço-te a sinceridade. Lembro-te que estamos casados pelo registo e pelo que sei, aqui existe o divórcio.
- Não. Nunca pediria o divórcio, do mesmo modo que nunca te vou atraiçoar, ainda que sejamos apenas amigos. Perante os outros, és minha mulher, devo-te respeito. Sou homem que honra os seus compromissos.
- Bom. Depois do que acabaste de contar, pensei que tinhas querido o casamento pelo registo, a pensar num possível divórcio.
-Não. Talvez esteja errado, mas penso que um juramento perante Deus, não se deve fazer de ânimo leve. Penso que só dois seres que se amam muito devem casar pela igreja. E não é o nosso caso.
- Então, agora que esclarecemos a situação, que vamos fazer?
- Não sei. Não disseste que o amor vem com a convivência? Podemos ser amigos, partilhamos a casa, conhecemo-nos. Depois se verá o que o futuro nos reserva.  Parece-te bem?
- Sim.