14.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XV





- Não eras totalmente um desconhecido. Conheço toda a tua família e lembrava-me de ti, embora estejas muito diferente daquela época, como é evidente. Mas tens razão, sim. Na verdade queria sair da aldeia. Queria conhecer outras pessoas, outros locais. Nunca tive um namorado, nem sequer um amigo. Meus pais não me deixavam ir trabalhar e eu sentia-me sufocar entre quatro paredes. Aceitar a tua proposta, foi o abrir da gaiola, e o meu voo para a liberdade.
- Um casamento nunca é um voo para a liberdade, Sofia.
- Mas era a minha hipótese de ter outra vida, conhecer novos horizontes. Hás-de convir que não tem nada a ver esta casa, e esta cidade, com a nossa aldeia.
- E o amor, Sofia? Onde fica o amor?
- Minha mãe, sempre me disse que o amor vem com a convivência. Que só no dia a dia, enfrentando juntos alegrias e tristezas, se pode chegar ao amor. 
-E tu acreditas nisso?
-Não sei. Como te disse, nunca tive um namorado, só convivi com rapazes da minha idade, enquanto estudava, era uma miúda e nunca me senti atraída por nenhum deles. Ainda não tinha feito dezasseis anos, quando terminei o curso, e desde aí praticamente não saía de casa, a não ser para a igreja. Não tenho razões que me permitam acreditar ou não.
Quim levantou-se e aproximou-se da janela. Ficou olhando na escuridão durante alguns segundos.
- E se te disser que não pensava em me casar? E se te disser que os meus tios me pressionaram até ao limite, para que o fizesse?
A sua voz soou rouca, ao fazer a confissão.
- Não entendo. Estás a dizer que te obrigaram? Porque iriam fazê-lo? E porque o aceitaste?
- Desculpa, se de algum modo te vou magoar, mas quero ser sincero contigo. Apaixonei-me por uma mulher que eles não consideram digna. No fundo eu sei que estão certos, mas como dizem, no coração não se manda. Daí que eles acharam que a maneira de me “meterem juízo na cabeça” seria casarem-me.
Porque é que lhe doeu aquela confissão? Não tinha razão para isso. Não estava apaixonada pelo marido.
- Continuo sem perceber, porque obedeceste. És maior de idade, e por muito que gostes deles, não têm o direito de mandar na tua vida. Nem sequer são teus pais.
- Não entendes. Seria mais fácil se fossem meus pais. Como viste estão velhos, e depositaram em mim todas as esperanças e o amor que teriam dado a um filho. Estou-lhes muito grato e devo-lhes respeito.  Se recusasse teria que deixá-los, procurar outra casa, outro emprego. O trabalho não me mete medo, sinto-me capacitado para trabalhar em qualquer lugar, mas fazê-lo, matá-los-ia de desgosto.
Sofia, levantou-se e caminhou até ele. Pôs-lhe a mão no ombro, e perguntou suavemente:
- E agora? Que pensas fazer?





19 comentários:

✿ chica disse...

Bah! Foi legal que ele abriu logo o jogo, contou, com sinceridade o que se passava. Vamos ver! Estou adorando! bjs,chica

Vera Lúcia disse...


Olá Elvira,

"Casamento por Procuração" está muito interessante. Não perdi nada, pois li todos os capítulos. Surpreendente que Quim fez um casamento por pressão dos tios e que esteja apaixonado por outra mulher. Uma confissão decepcionante para Sofia, apesar dela também ter aceito o casamento apenas para satisfazer seus próprios interesses, sem pensar nas consequências. Resta saber o que a vida vai armar para estes dois.

Gostei muito da leitura.

Ótima semana!

Beijo.

José Lopes disse...

A sinceridade é sempre um bom começo para o entendimento e para o respeito mutuo.
Cumps

Rui disse...

Bom ! A "coisa" complicou-se. Falta agora saber qual o grau de paixão e de envolvimento que ele tem, ou já teria tido, com essa outra mulher cujos tios não a acham digna dele !
Até pode acontecer que continuem a encontrar-se e inclusive que até possa haver um filho. (???)...
Veremos !

O meu pensamento viaja disse...

A intriga adensa-se ...
Beijo

Majo Dutra disse...

Por esta não esperava!
Ótima imaginação!
Beijinho.
~~~~

AvoGi disse...

Afinal estava apaixonado por outra. Será que já tem o relacionamento?
Kis :=}

Prata da casa disse...

Gosto da sinceridade dele para com ela, embora não seja sincero com os tios.
Bjn
Márcia

Tintinaine disse...

Por esta é que eu não esperava!
O que virá a seguir?
Esperar é tudo o que posso fazer.

Roselia Bezerra disse...

Boa noite,querida Elvira!
Interessante a sinceridade dele na hora de efetivar o casamento... foi sincero, gostei!
Espero que se apaixone pela mulher com quem se casou...
Bjm muito fraterno

Pedro Coimbra disse...

Vamos lá ver se a mãe dela tinha razão...
Um abraço

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
penso que com o tempo ela vai fazer com que ele se apaixone por ela, pois só agora eles vão começar a namorar e apesar das contrariedades que possam vir a existir não vai ser um casamento em vão.
vamos esperar para ver .
JAFR

Edumanes disse...

Um casamento contra a sua vontade, só para fazer a vontade aos tios. É porque teria mesmo muita consideração por eles, ao ponto de não se importar de ser infeliz no amor!

Tenha um bom dia amiga Elvira!

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Estou gostando da sinceridade dele.
E ela parece destemida.
Muito curiosa.
Elvira querida, não sei o motivo para a demora da entrada no Blog, meu marido vai verificar, bejinhos.

Rosemildo Sales Furtado disse...

A verdade tem de ser dita, doa a quem doer. O jogo está empatado, cada um marcou um ponto visando o próprio benefício. Aguardemos os acontecimentos.

Abraços,

Furtado

Os olhares da Gracinha! disse...

Dialogar é preciso! Bj

lua singular disse...

O casamento não precisa ser por amor, pois dependendo do caso ele chega devagarzinho
Beijos
Lua Singular

Fernanda Maria disse...

Bem, por esta não esperava!

Admiro a sua imaginação amiga Elvira.

Bjs

Gaja Maria disse...

Ui que este casamento não vai ser fácil...