Quase doze anos depois…
O relógio despertou como habitualmente às seis e trinta da
manhã. Helena saltou da cama, calçou os chinelos, e dirigiu—se à casa de banho.
Abriu a torneira, despiu-se e meteu-se por baixo do chuveiro, no mesmo ritual
de todos os dias.
Depois de um duche rápido, secou o cabelo, vestiu-se,
passou um pouco de sombra nas pálpebras que realçavam o dourado dos olhos,
puxou as orelhas à cama e antes de ir para a cozinha bateu à porta do quarto da
filha.
- Está na hora de te levantares, Matilde! Não te demores,
já vou fazer o pequeno-almoço!
Não esperou para ver se a filha de doze anos se levantava.
Ela nunca se atrasava fosse de Verão ou Inverno. Já na cozinha, pôs o avental,
colocou o leite ao lume, para os cereais da filha e colocou duas fatias de pão
na torradeira. Ligou a máquina do café, e abriu uma carcaça. Barrou-a com
manteiga, colocou-lhe em cima uma fatia de queijo. Ia embrulhá-la num
guardanapo, mas desistiu ao sentir as fatias de pão saltarem na torradeira.
Colocou-as num prato, e antes que arrefecessem, apressou-se a barrá-las. Sem se sentar, deu uma trincadela numa, no
momento em que a filha entrava na cozinha com a mochila, já preparada para
tomar o pequeno almoço e ir para a escola.
-Bom dia mãe. Hoje
há a reunião de pais, não te esqueceste, pois não? – perguntou enquanto
despejava o leite quente na taça, sobre os cereais.
- Não, claro que não, - respondeu Helena, dando mais uma
trincadela na torrada, ao mesmo tempo que abria o frigorífico e tirava um sumo
para juntar à sandes que acabara de preparar para a filha levar para o lanche.
Acabou de comer as torradas, meteu uma cápsula na máquina e
tirou um café que bebeu de pé, enquanto lançava um olhar ao relógio.
-Acabei, mãe - disse a filha levantando-se da mesa.
- Guarda o dinheiro para a senha do almoço-- disse estendendo-lhe umas moedas. - E vai lavar os dentes enquanto eu acabo isto.
Matilde agarrou nas moedas, colocou-as na bolsa a mochila e dirigiu-se à casa de banho
A mãe guardou a sandes e o sumo, na pequena lancheira
plástica e esta na mochila, passou a chávena e a taça por água e meteu-as na
máquina.
De seguida limpou as mãos, retirou o avental e dirigiu-se
para a casa de banho, precisamente quando a filha saía dizendo:
-Estou ponta!
-Vê se não te esqueces de nada, eu não demoro.
Escovou os dentes, passou um pouco de brilho nos lábios,
deu uma rápida olhadela ao espelho e saiu. No corredor retirou de uma mesinha
de apoio, o porta-chaves, e o telemóvel, pegou na mala que tinha ali ao lado,
pendurada no bengaleiro e saiu. Fechou a porta e apressou-se a seguir a
filha, que já descia as escadas em direção à porta da rua.
Já instaladas no carro, e antes de ligar o motor,
perguntou:
-Não te esqueceste do passe?
Os magníficos olhos azuis da filha, tão brilhantes que
parecias duas safiras, olharam para a mãe com expressão de aborrecimento,
enquanto respondia:
- Não mãe, está na bolsa da mochila. E já sei, quando sair
apanho o autocarro e vou ter contigo à agência. Não precisas repetir o mesmo
todos os dias, já não sou uma miúda.
Atenta à estrada, Helena não respondeu. A verdade é que a
filha ia a caminho dos treze anos, e desde menina sempre fora muito
responsável, mas o seu coração ficava sempre em sobressalto quando não podia ir
buscá-la.
Estacionou junto ao portão da escola, recebeu o beijo de
despedida da filha, esperou até que ela atravessou o portão e só depois
arrancou e se dirigiu à agência.