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9.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VII

 


Fora difícil terminar o curso grávida e longe da casa paterna, pois Quim terminara o curso no ano anterior, não tinha mais família do que o tio e padrinho, advogado em lisboa, que lhe pagara o curso e lhe oferecera trabalho no seu escritório, com possibilidades de chegar a sócio mais tarde. Por isso, contra a vontade dos seus pais, partiram para a capital logo após o casamento. E o facto de terem que viver com os tios do marido durante os primeiros tempos, também não era o seu sonho, mas ainda assim nunca se arrependera.

O marido compensava em amor, as saudades que ela tinha dos pais e irmão.

E também porque não dizê-lo os tios de Quim tentaram com todo o carinho apoiá-los naqueles tempos difíceis. E até mesmo após o nascimento de Sara eles foram para a bebé uns verdadeiros avós.

Quando a bebé fez dois anos resolveram pô-la na creche e ela conseguira ser professora num colégio particular e começaram então a pensar comprar uma casa ali perto, tinham algumas economias e Quim tinha uma boa carteira de clientes. Foi nessa altura que ao regressar do tribunal, Quim entrou no escritório do tio para lhe dar a notícia de mais um caso resolvido com sucesso e o encontrou de cabeça em cima da secretária.

 Inicialmente pensou que o tio se teria deixado dormir e já se retirava, quando alguma coisa lhe fez voltar atrás para o acordar. Embora o corpo ainda estivesse quente o tio já estava morto conforme constatara o pessoal médico da ambulância que Quim chamara. O advogado Jorge Simões sofrera um ataque súbito de paragem cardiorrespiratória consoante o resultado da autópsia relatava.

Deu uma volta na cama e olhou o relógio. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Travou o despertador e com cuidado para não acordar o filho, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho a fim de se despachar com a higiene matinal antes de ir acordar as meninas.

Depois de um duche rápido, vestiu-se e foi chamar a filha e sobrinha, seguindo depois para a cozinha a fim de preparar os pequenos almoços e os lanches para elas levarem.

Às sete e trinta e cinco, as duas garotas já tinham comido os cereais, lavado os dentes, preparado as mochilas, encontrando-se prontas para saírem, quando ouviram o som de um carro chegando.

- É o tio Fernando, temos que ir, -disse Sara dirigindo-se à mãe para lhe dar um beijo sendo imitada pela prima.

Laura acompanhou-as à porta fazendo as recomendações habituais. Fernando que tinha saído do automóvel, aproximou-se e disse:

-Convidas-me para o pequeno almoço? Não tenho clientes de manhã e não gosto de comer sozinho. Vou levá-las e volto, pode ser? – perguntou com uma expressão gaiata.

A jovem não soube como negar, apenas assentiu com um movimento de cabeça.

Fernando agradeceu sorrindo e voltou para o carro onde as jovens já aguardavam ansiosas.


23.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXV




Dias depois, Quim foi convocado pelo advogado dos tios para a leitura do testamento. Os tios tinham-lhe deixado tudo. A sua casa, o restaurante e um bom dinheiro. Excetuando uma pequena quantia que destinaram à empregada, e uma cláusula em que determinava que eles deveriam continuar  a mantê-la na casa, já que era quase como família.
O casal, mudou-se então para a casa, que fora dos tios, por cima do restaurante. Quim continuou a ser o chefe, Sofia, tratava de todos os assuntos relativos à gerência. O negócio ia bem, a conta bancária aumentava. Três anos depois, nasceu a  pequena Catarina. E quando esta estava prestes a completar um ano, aconteceu em Portugal, a tantas vezes sonhada revolução, que depôs o regime fascista e colonialista. Era Abril, os cravos floriram e com eles a libertação de um povo, martirizado pela fome e pela guerra.  As imagens correram mundo, e eles viram-nas pela televisão e renovaram as esperanças de poderem voltar a Portugal.
Se a guerra colonial acabasse, Quim podia voltar.  Era o sonho comum do casal. Voltar à terra que os vira nascer, rever parentes e amigos. E então aconteceu. A independência das colonias tornou-se irreversível, mas a paz tão sonhada não. Angola, Moçambique e Guiné, as três maiores colónias, tinham vários movimentos de libertação, e todos queriam o mesmo. Ser o seu movimento aquele que assumiria o poder, e isso teve como consequência que a guerra recrudesceu, levando os muitos portugueses lá residentes a fugiram para Portugal. Mais de meio milhão de portugueses, muitos deles nascidos naquelas possessões africanas, chegaram a Portugal, sem emprego, sem dinheiro, sem outros bens, que não a própria vida. Enquanto o governo procurava dar resposta, aquela avalanche de gente, a precisar de pão, roupas, casa, enfim do básico para sobreviver, alguns acolhiam-se ao abrigo de familiares, ou com algum sacrifício, emigravam para outros países, certos que estavam de não terem futuro em Portugal.  
Quim e Sofia, que na altura planeavam vender a casa e o restaurante, e regressar à terra que os vira nascer, e onde tinham os seus familiares, no intuito de se estabelecerem na terra-mãe, receando que a conjuntura do país naquele momento difícil, não lhes fosse favorável, adiaram  a decisão.
Porém poucos meses depois, Sofia voltou a ficar grávida, e eles ficaram sem outra opção. Se queriam realizar o sonho do regresso, era aquela a ocasião. Quim e Sofia, não queriam que o nascimento do novo bebé ocorresse em França.  Acreditavam que os filhos, iam crescer e sentir que a França era a sua terra, o seu país. Mais velhos, não quereriam ir viver para uma terra que embora fosse a dos seus pais, eles não conheciam, nem sentiam como sua. E os pais, fatalmente iriam ficar onde os filhos estivessem. Por isso era urgente o regresso. Venderam tudo, transferiram para Portugal o seu dinheiro e os três acompanhados de Idalina, a empregada, chegaram à aldeia no mês de Agosto do ano da graça de mil novecentos e setenta e seis.


E continua...

 

22.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VII


Três dias depois, no início da tarde, o telemóvel tocou. Não conhecia o número. Com mão tremente atendeu.
- Estou!
- Isabel Antunes?
-Sim
- Hélder Figueiredo. Está disponível para vir a minha casa, agora?
- Sim, claro. Vou já para aí.

Virou-se para a avó.
- Chamou-me. Não te esqueças que não deves dizer a ninguém, que estou cá.
 -Isto não está certo, filha. As pessoas conhecem-te. Vens para cá todos os anos. 
- Não te preocupes. Desde que não o digas ao casal que vive com ele, não estou a ver ninguém que lho vá dizer.

Pouco depois estava no escritório.
- Boa-tarde, senhor.
- Boa-tarde, Isabel. Se ainda está interessada no emprego, ele é seu. Pode começar amanhã às nove? O meu advogado deve trazer ainda hoje o contrato. Ou talvez amanhã de manhã. Tenho uma boa parte do meu próximo livro, gravado e espero que o consiga redigir rapidamente.
- Darei o meu melhor, senhor.
- Por favor, esqueça o senhor. Trate-me por Hélder.
- Se desejar, poderei começar agora mesmo a redigir, o livro. Não tenho nada para fazer de momento e posso adiantar já. É só dar-me o gravador.

Ele parecia surpreso.
-O gravador está na gaveta da direita.
- Redijo só para documento, ou deseja que imprima também?
- Preciso de uma cópia impressa, além da cópia em documento que deve ficar no computador e guarde outra cópia do documento numa pen drive
- Muito bem

Ela dirigiu-se ao computador que abriu, verificou a impressora, pôs-lhe papel, retirou o gravador e ligou-o. Começou a escrever, aquilo que ouvia. Segundos depois ouviu a porta bater e reparou que estava sozinha no escritório.

Trabalhou sem descanso durante duas horas, e depois deu-se um pequeno descanso. Continuava sem saber o pseudónimo dele, mas o que tinha ouvido era muito interessante, e o estilo lembrava-lhe o do seu escritor favorito, Tomás Reis.

Tomás Reis, o escritor mistério cujos livros eram  “best-seller” mas que ninguém conhecia. Seria Hélder o misterioso autor? Seria pelo facto de ter cegado que não se deixava conhecer? E que acontecera para ter perdido a visão?
 
Teria sido um acidente? Doença? Como ela desejaria saber. Porém de uma coisa tinha a certeza. Se queria manter-se junto dele, não podia fazer perguntas. Teria que ganhar a sua confiança para que as confidências pudessem chegar.
Retomou o trabalho, e ainda teclava quando às sete horas ele regressou ao escritório.

2.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XL



Fala-me de ti, David, e diz-me exatamente o que vieste fazer, - disse João após a saída da sua assistente.

- Bom como já deves ter percebido, meu nome é  David Braizinha Varanda. Tenho vinte e nove anos e sou advogado. Nasci e vivi em Braga até que me formei. Meu pai, morreu muito jovem com um cancro no pâncreas, e minha mãe lutou muito para fazer de mim o homem que hoje sou. Desde sempre, soube que ela era uma mulher sofrida, muitas vezes me abraçava a chorar, mas sempre pensei que era porque eu lhe fazia lembrar o meu pai, de quem tinha muitas saudades. Quando me mudei para Lisboa quis que viesse viver comigo, mas ela não quis deixar a casa onde vivera grande parte da sua vida e tinha tantas recordações. Há dois meses, sofreu um AVC, entrou em coma e morreu uma semana depois.

Interrompeu-se quando Olga entrou no Gabinete com os cafés. Serviu-os e apressou-se a sair pois o ambiente no escritório, continuava bastante carregado.

-O mês passado, comecei a despejar a casa, a fim de a entregar ao senhorio, - continuou o advogado, quando a secretária saiu. -  No guarda-fatos, dentro de uma caixa de sapatos, entrei duas cartas, alguns documentos e fotos, algumas antigas, outras mais recentes. Entre os documentos havia uma certidão de nascimento de alguém, cujo nome eu nunca lhe ouvira; e as cartas, uma era-me dirigida, e a outra para o desconhecido cujo nome estava na certidão de nascimento.

Na minha carta, a minha mãe falava-me com muita mágoa, de um outro filho que tivera antes de mim, pedia-me perdão por nunca me ter falado dele, e suplicava-me que quando ela partisse, eu o procurasse e lhe entregasse o conteúdo daquela caixa.

David abriu a sua pasta e tirou um subscrito fechado, uma certidão de nascimento, e várias fotos que colocou em cima da mesa na frente de João.

Relutante, ele pôs de parte o subscrito sem o abrir, e leu o documento. Era o seu registo de nascimento, com a diferença que ali o se nome constava como João Braizinha Teixeira, nome diferente do que constava nos seus documentos atuais, onde o apelido materno não existia. Também a sua data de nascimento era dez dias antes daquela que constava no seu cartão de cidadão. De algum modo,  o pai conseguira alterar os documentos, destruindo a hipótese de um dia ele querer saber quem tinha sido a sua mãe, talvez efetuando um segundo registo do filho. Depois pegou nas fotos. A primeira, era de uma mulher jovem olhando amorosamente o bebé que tinha no colo. As outras eram todas de um menino, que reconheceu como sendo ele. Fotos desde os três, quatro anos até à idade adulta. Havia ainda alguns recortes de jornais que falavam dele e da sua empresa. 

-Muito bem, David a entrega foi feita – disse enquanto abria uma gaveta da secretária, retirava um envelope grande castanho e metia tudo lá dentro. - Obrigado.

-Não vais ler a carta? – perguntou David

-Agora não, - respondeu. -Toda a vida acreditei que a mulher que me deu à luz, me tinha abandonado como se eu fora uma coisa imprestável. Essas fotos, porém, falam de um acompanhamento à distância, que revelam que afinal, ela se importava comigo. Então, porque nunca se aproximou de mim?

- Não tenho resposta para isso, Todavia é mais uma razão para leres a carta. Decerto ela terá a respostas às tuas interrogações.

- Preciso digerir todas as emoções negativas que acumulei ao longo dos anos, antes de o fazer. Todavia posso dizer-te, que estou muito feliz, por saber que ganhei um irmão. Queres dar-me um abraço? – disse pondo-se de pé.

-Estava a ver que não pedias, - respondeu David levantando-se.

Os dois homens trocaram um longo e emocionado abraço.

- Tens os olhos da nossa mãe, - disse David minutos depois, tentando disfarçar a emoção.

- Como os teus. Chamaram-me a atenção logo que te olhei, quando entraste.  Mas conta-me mais coisas de ti. És casado?

- Não, mas estou de casamento marcado para Dezembro. Um dia destes podemos jantar juntos. Tenho a certeza que vais gostar da Júlia, a minha noiva.

-Marca quando quiseres. Eu, não sendo por negócios nunca saio para jantar.

-Bom, já passa das quatro e tenho um cliente marcado para as cinco, - disse David olhando o relógio.

Tirou um cartão e estendeu-o ao empresário dizendo:

-Liga-me quando e se quiseres.  E não deixes de ler a carta da mãe. Depois se quiseres eu falo-te, da grande mulher que ela foi.

João, tirou do bolso do casaco uma carteira e ao mesmo tempo que guardava o cartão, tirou outro e deu-o a David, dizendo:

Não calculas como estou feliz por te conhecer. Sempre me senti como uma ave solitária. Também me podes ligar quando quiseres.

Ambos se levantaram. João acompanhou o irmão à porta do seu gabinete, e aí se despediram com um caloroso aperto de mão, enquanto Olga trocava um olhar incrédulo com o segurança, que se encontrava junto da sua secretária.

30.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXIX



Eram exatamente três da tarde quando Olga introduziu o advogado David Varanda no gabinete do seu chefe.

David era um homem alto, moreno, de cabelos castanho-claro e olhos cinzentos.

-Boa tarde, -saudou o visitante estendendo-lhe a sua mão direita.

João apertou a mão que ele lhe estendia com alguma curiosidade, tanto mais que lhe pareceu detetar uma certa emoção no olhar do advogado. Então disse:

- Boa tarde, doutor Varanda. Por favor sente-se, e diga-me o que o trouxe cá. Confesso que estou curioso. A minha empresa tem um gabinete jurídico, e é com os meus advogados que todos os assuntos de lei são tratados.

-Eu sei. Mas o assunto que me trás aqui é pessoal, e nada tem a ver com as leis. Confesso que antes de tentar esta entrevista, investiguei o seu historial. Sei que é um empresário de sucesso, a propósito, deixe-me cumprimentá-lo pelo recente lançamento do Survive 2. Sei também que é um homem rico, mas nenhuma destas coisas me fariam visitá-lo, pois me preocupo mais com o carater de um homem do que com o peso da sua carteira.  O que me trouxe aqui, foi a informação de que é um homem que subiu na vida à custa do seu esforço, mas é considerado por todos, clientes e empregados um homem honesto.

Enquanto o advogado falava, João tentava descobrir onde é, que ele queria chegar.

-O nome Braizinha diz-lhe alguma coisa? -perguntou David após uma curta pausa.

João fez um esforço de memória, mas não recordou ninguém com aquele nome.

-Não, nada. Porquê?

-Porque era o apelido de solteira da sua mãe, e pensei que embora não o usasse faria parte do seu nome.

- Mãe? Que mãe? - disse o empresário pondo-se de pé. Eu não tive mãe. Uma mulher que dá à luz uma criança e a abandona para seguir um qualquer macho que lhe aparece na frente, não pode ser considerada mãe de ninguém. Não é mais do que uma…

-Não o digas, - interrompeu David, levantando-se o rosto vermelho e o punho cerrado. Não quero ter de te partir a cara.
Os dois tinham levantado tanto a voz, que Olga se assustou e após uma leve batida entrou no gabinete, onde os dois homens se olhavam numa atitude tão agressiva que ela temeu começassem a lutar como dois miúdos de rua.

-Vinha perguntar se desejam alguma coisa – disse tentando amenizar o ambiente. Um café, uma bebida?

João foi o primeiro a reagir. Virou costas ao advogado e foi sentar-se. Acabara de perceber que só um filho, ou um marido, defenderia assim uma mulher. David era demasiado novo para ser casado com aquela mulher – não conseguia pensar na progenitora como mãe, - logo aquele advogado, que até ao momento nunca vira, só podia ser, seu meio irmão.

- Eu preciso de uma bebida forte. E tu David, queres alguma coisa? Mas por favor senta-te, - disse ao ver que o outro continuava de pé.

- Nunca bebo álcool em horário de trabalho. Aceito um café.

- Então traz-nos dois cafés bem fortes, por favor.

Olga saiu para executar o pedido, completamente atónita. Como era possível que o seu chefe estivesse quase a iniciar uma luta com um homem que lhe dissera não conhecer, e de repente mudasse totalmente de atitude? Que se estava a passar lá dentro? Deveria chamar a segurança para ficar ali de prevenção?

 

25.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXVII

                                                       



Cerca das onze horas, na segunda feira seguinte, Olga entrou no Gabinete de João, que se encontrava embrenhado no trabalho com o seu computador.

Levantou a cabeça e olhou-a arqueando uma sobrancelha.

- Precisas de algo? – perguntou

- Acaba de telefonar o advogado um tal David Varanda, que diz ser advogado. Quer que lhe marque uma entrevista contigo, mas em relação ao assunto, diz que é pessoal e confidencial. É o terceiro dia que telefona, a semana passada,  apresentou-se apenas como David Varanda, eu pensei que era alguém a querer um convite pessoal para a festa. Mas hoje diz-me ser advogado. Insiste em que tem que falar contigo, que é urgente, e que se trata de um assunto pessoal e confidencial.

-O que lhe disseste?

- Que tens a agenda completamente cheia, que ia falar contigo e ver o que podia fazer. Pedi-lhe para voltar a ligar ao fim do dia.

- Muito bem. Telefona para o gabinete jurídico, pergunta ao Afonso se conhece algum advogado com esse nome. E se não conhecer que investigue na Ordem, se ele existe.

- Pensas que pode ter mentido quanto à profissão?

- Sabes como são os jornalistas? Sabem que não recebo nenhum podem ter inventado uma profissão diferente, e um assunto confidencial, a fim de chegarem até mim.

-O que receias?

-Não sei. Não tenho quaisquer assuntos que possam ser tratados por advogados, fora do gabinete jurídico. O Afonso é o meu homem de confiança para todos os assuntos legais. Portanto só pode vir em representação de outro alguém e o assunto não terá nada a ver com a empresa. Mas não consigo descortinar nada.

- Virá da parte da Teresa Sobral?

-Não. A Teresa tem receio de que alguém descubra o que se passa, não quer saber de jornalistas e não teria lógica contratar um advogado, se não deseja que o nosso caso se resolva nos tribunais. 

-E da Glória? Como terminou a vossa relação.

-Com um cheque chorudo! Seria muito estúpida se o fosse gastar com um advogado, sabendo que não lhe tinha feito qualquer promessa. Não, o gato tem que estar noutro lugar. Bom, telefona ao Afonso, e quando tiveres a resposta, resolveremos o que fazer.

Olga saiu. Ele pensou em Teresa. Como estaria? Continuaria a passar mal?

No dia anterior fora a uma florista, comprara um ramo de rosas brancas, a que juntara um cartão, agradecendo o dia de sábado.

Duas horas depois, ela enviara uma mensagem de agradecimento. Ele teria gostado que tivesse telefonado, para poderem conversar um pouco, mas relevou. Sabia que se queria ter sucesso no que se propusera, não podia pressioná-la, teria que ir com calma para ganhar a sua confiança.

O regresso de Olga ao gabinete, desviou a sua atenção.

- O homem é mesmo advogado, o Afonso diz que já se cruzou com ele algumas vezes no tribunal. O que lhe digo quando ele voltar a ligar?

- Marca para amanhã às onze horas.

Olga consultou a agenda.

- A essa hora não dá. Tens uma reunião com o Gustavo Sequeira.

- Bom, é um cliente demasiado importante para desmarcar. E às quinze?

- Nada.

-Então marca para essa hora.

 

24.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIII



- Para ser sincera é bem mais do que tinha pensado. Não creio merecer tanto, nem quero que em nome da nossa amizade, fiques prejudicada.
- Não te preocupes. Pesquisei no mercado, e é o que teria que pagar a outro qualquer profissional que contratasse para o lugar. Vou passar um email para o advogado pedindo-lhe que elabore o teu contrato, por um prazo de um ano, renovável por igual período se quiseres continuar. Ontem dissestes que pensavas arranjar um trabalho apenas por dois anos, pois pensas num segundo filho depois disso. O teu pai vai ajudar-te nos primeiros dias, ele conhece o funcionamento da empresa tão bem ou melhor que eu. De resto estou certa de que em breve estarás dentro de todos os assuntos.
- E tu que farás agora? Sempre adoraste este trabalho.
-É verdade. Porém tenho muitas coisas para resolver. Até passar estes primeiros três meses, vou dedicar-me a descansar, e a ler todos os livros que comprei sobre gravidez e cuidados com os recém-nascidos. Depois tenho que contratar uma empresa, que me desocupe o quarto que era da minha tia, que como sabes tem ligação direta ao meu, mobilá-lo e passar para lá a fim de decorar e mobilar o quarto do bebé onde agora tenho o meu. Espero que me ajudes nisso. Ainda não decidi se vou ou não vender um terreno que tenho na aldeia. Há uma pessoa interessada nele, talvez consiga um bom preço. Tinha sonhado construir lá uma pousada, a aldeia é muito bonita, os ares são maravilhosos, e está situada a menos de um quilómetro de uma das melhores termas nacionais. Era a maneira do meu filho, ou filha crescer em contacto com a natureza. Porém as obras de ampliação da pastelaria, consumiram praticamente todo o meu dinheiro, e eu não quero recorrer a empréstimos. Depois com a situação atual, tudo mudou. Não sei mais o que posso ou devo fazer. A propósito, ainda não sabes, mas ontem à tarde fui à TecnInformática, conheci o João Teixeira e tivemos uma longa conversa!
- Depois que saíste lá de casa? E eu que pensava que estavas em casa a descansar do desgaste emocional. Conta-me tudo!
-Sabes que não consigo dormir sobre os problemas. E viver diariamente com o medo de ser descoberta e de a imprensa criar uma novela à minha volta, não faz de modo algum o meu género. Então meti-me no carro e dirigi-me à empresa.
-Assim, sem mais nem menos, sem sequer um telefonema a marcar uma entrevista?
- Se telefonasse para marcar uma entrevista, provavelmente ia perder a coragem antes da hora dela, isto claro, se ma marcassem, já que teria de ter um assunto muito importante para tratar com ele e não podia dizer pelo telefone a uma secretária desconhecida o que se passava. Claro que corri o risco, de chegar lá e ele não estar na empresa, mas joguei verde para colher maduro como dizem lá na aldeia.
- O que fizeste? – perguntou Inês visivelmente interessada.
-Disse ao porteiro que tinha uma entrevista com ele às dezasseis horas. Se ele não estivesse o empregado ter-me-ia dito e eu inventava uma desculpa qualquer, como ter trocado o dia da entrevista por exemplo e vinha-me embora. Mas ele só me pediu a identificação e mandou-me subir, ao quinto andar onde fica o escritório dele.
Fez uma pequena pausa que Inês não se atreveu a interromper e continuou:
- Até aí tinha corrido tudo bem, mas claro que antes de chegar até ele tinha a parte mais difícil. Convencer a sua secretária a deixar-me entrar sem marcação alguma.
-E o que fizeste?


3.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIV




Terminado o almoço, Gustavo e Teresa passaram ao escritório, onde a jovem pôs o advogado ao corrente de tudo o que lhe foi dito no Centro Clínico onde fizera a Inseminação terminando com as perguntas:
- Ele é mesmo tão poderoso como os médicos me fizeram crer? E se processar o Centro, eles vão revelar o meu nome?
- João Teixeira é um empresário muito importante. E é um homem duro que se fez a si próprio. Começou com a criação de um jogo que se tornou num enorme sucesso, não apenas em Portugal, mas a nível Mundial. Depois desse, outros vieram. Fundou a “TecnInformática”, e rodeou-se de excelentes colaboradores. E em pouco mais de uma década, transformou uma pequena empresa, na maior firma do ramo, na Península. A sua especialidade são os jogos de computador, mas os seus engenheiros produzem software, e hardware, fabricam computadores e telemóveis. E os seus produtos estão ao nível dos melhores do mundo. Isto diz-te quão poderoso ele é.
 Se afirmou que vai processar a Clínica, acredito que o faça. A  lei tem em relação à PMA, ainda muitas falhas, embora já tenha  sofrido quatro alterações, desde que foi promulgada em 2006,  os legisladores vão fazendo alterações à medida que vão surgindo novos problemas para resolver, embora sempre garantindo o anonimato  da identidade de dador e recetora. O problema que se apresenta no teu caso é que ele não é dador. Fez uma reserva para uso exclusivo, que foi utilizada em proveito de outrem. Tem todo o direito de processar o Centro Clínico, mas mesmo em tribunal, o Centro não poderá revelar a tua identidade, já que isso vai contra a lei. Todavia se esse processo chega a tribunal, também chega ao conhecimento da imprensa, que vai começar a esmiuçar e sabes como é, há sempre alguém que se deixa comprar...
- Meu Deus, mas isso vai por a minha vida na praça pública.
- Lamento, mais isso é mais que certo. Gostaria de te dizer para não te preocupares, mas tenho que te ser sincero.
- Outra coisa Gustavo, supõe que isso acontece, os tribunais levam tanto tempo para resolverem os casos, entretanto o bebé nasceu. E uma vez que ele tinha feito a reserva para seu uso exclusivo, o tribunal pode decidir que a criança não é meu filho?
- De modo algum. Isso só seria possível se por esterilidade tivesses recorrido a doação simultânea de material genético dos dois sexos, ovócitos e espermatozóides com fecundação in vitro. Aí, a criança teria o ADN dele e de uma desconhecida, e a lei consideraria o caso como uma gestação  de substituição; aquilo que o povo costuma chamar de barriga de aluguer, e a criança assim gerada, não seria considerada tua. Até porque a gestação de substituição no nosso país ainda só é permitida em casos muito especiais.
 Mas esse não é o teu caso, um exame de ADN pode provar que és a mãe da criança e em princípio os tribunais dão sempre prioridade às mães desde que elas tenham meios financeiros, para criarem a criança, e uma conduta irrepreensível.
-Sei, mas se esse homem é tão poderoso como dizes, pode muito bem comprar testemunhos falsos, que me apresentem perante um juiz como uma pessoa sem integridade moral?  
- Pode tentá-lo, apesar de hoje em dia, já não ser tão fácil assim, uma boa defesa pode apresentar provas em contrário, e desacreditar os falsos testemunhos. O problema é que ele sofreu uma doença grave que o deixou estéril, e esse filho é a única hipótese desse homem vir a experimentar as emoções da paternidade, e dar continuidade ao seu nome. Qualquer juiz vai ter isso em conta, especialmente se o juiz nomeado for homem; quase de certeza vai decretar uma guarda partilhada. E depois pensa nisto, o teu filho será o único herdeiro de tudo o que o homem tem.
-Sabes que isso não me interessa, tenho mais do que suficiente para lhe dar um bom futuro. O que me preocupa, é aquilo que alguns tablóides, que estão sempre à procura de escândalos podem fazer da minha vida.  Tanta gente no mundo que recorre à Procriação Medicamente Assistida,  sem problemas tinha que me acontecer uma coisa destas a mim. Sabes alguma coisa dele, como pessoa?
- Muito pouco. Além da parte profissional, apenas aquilo que a imprensa publica. Que é solteiro, e pouco dado a aparecer em eventos. Lamento Teresa, gostaria de te dizer que não te preocupasses, mas não posso de modo algum escamotear a verdade. E ela é de facto preocupante.  Como já te disse. a própria lei, ainda tem nestes casos muitas falhas. Como todas as situações novas, a que o progresso ou a ciência dão origem, as leis vão sendo criadas e vão sofrendo alterações à medida que os casos se apresentam, e  que eu saiba, um caso destes nunca aconteceu antes.
- De qualquer modo, obrigado. Foi bom falar contigo, fiquei elucidada e posso agir a partir daqui.
-E o que pensas fazer? Vais voltar para a aldeia?
-Talvez. Antes de decidir se vou ou fico, tenho de pensar no que me disseste e talvez tomar alguma providência. Agora vou-me embora, preciso pensar com calma. 

17.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VII





Quinze minutos mais tarde, Olga introduzia o advogado no gabinete e preparava-se para fechar a porta quando João disse:
- Entra e fecha a porta. Quero que oiças o que vou dizer ao Afonso.
- Queres que tome nota …
-Não, senta-te, - disse estendendo a mão ao advogado.
- Boa tarde. Como foi no tribunal?
- Como esperávamos. Condenado.
- Bom, não foi por isso que te chamei. Estás comigo praticamente há quase quinze anos, embora no começo, eu fosse apenas mais um cliente e trabalhasses por conta própria. Já vais perceber, - disse ao ver o advogado arquear uma sobrancelha.  
-Até chegarmos aqui, passamos por muita coisa, de que não vou falar porque decerto recordam bem. E recordarão com certeza, quando há onze anos me foi diagnosticado um cancro no testículo.
Os primeiros tratamentos não resultaram e o médico avisou-me que teria de partir para  outro muito mais agressivo. Disse-me que só não o tinha começado de início, porque  mais de 80% dos homens que o faziam ficavam estéreis. Ele tinha a certeza que com aquele tratamento, me curaria, todavia eu tinha que saber da sua agressividade, e que havia um alto risco de me tornar estéril, pelo que me aconselhou a procurar um centro de recolha e doação de esperma, e fazer uma colheita, para meu uso exclusivo no futuro. Deves recordar-te disso, Afonso, já que te pedi que elaborasses os documentos, que determinavam que aquela recolha não podia ser utilizada nem em doações, nem em experiências laboratoriais e que se destinava ao meu uso exclusivo. Esperava utilizá-lo quando me casasse. Bom, esta tarde, telefonaram-me do Centro Clínico onde reservei a colheita,  informando-me que houve um erro de registo, e que por lapso a minha recolha, foi considerada doação, e já utilizada. Como devem calcular fiquei furioso, tentei que me informassem do nome da recetora, mas afirmam que elas estão protegidas pelo segredo que a lei impõe e nada mais me podiam dizer.
- E tens absoluta necessidade dessa reserva para seres pai? Os testes que fizeste pós tratamento não te disseram que a tua fertilidade não foi afetada?  - perguntou Olga.
- Quando fiz os testes no fim do tratamento, o médico informou-me que não tinha ficado estéril, mas que a mobilidade dos espermatozoides tinha diminuído muito, o que podia tornar muito difícil uma gravidez. Entretanto passaram onze anos,  e, embora repita com frequência, exames de controle, por causa do cancro, testes de fertilidade não voltei a fazer e não sei se agora haverá alguma hipótese de fertilidade. Mas ainda que assim seja, não quero acordar todos os dias, a pensar que algures há um filho meu, que poderá estar em dificuldades e eu sem o poder ajudar.
-E o que vais fazer? – perguntou o advogado. - Podes processá-los, um erro desses é gravíssimo. Ganharás a causa, terás direito a uma indemnização e o centro será multado.
Mas isso não te dá de volta o teu material genético. Além disso será um escândalo, a imprensa vai esmiuçar o caso até à saciedade, a tua vida particular andará na praça pública. Não creio que isso seja bom para ti.
- Eu sei. E espero não ter de chegar a esse ponto, mas se necessário não hesitarei. Quero que vás até lá, e consigas informar-te de tudo, sobre essa mulher. Ameaça-os de uma ida para o tribunal, diz-lhes que estou disposto a lutar até conseguir fechar-lhes as portas, enfim tu és o advogado, sabes melhor que eu o que terás de fazer. Quero um documento escrito da informação que me deram por telefone. Delega no Paulo os assuntos que tenhas em mãos, e durante o tempo que estiveres a tratar deste assunto, qualquer coisa que precises, pede à Olga. Não quero que a tua assistente tenha conhecimento do caso. Pelo menos até ver se conseguimos resolver isto a bem, deve ficar entre nós os três.
- Sabes que existe uma lei que protege o anonimato de dadores e recetores ?
-Sei. Mas será que essa lei se aplica, quando o dador não o é? Estuda o caso, usa os métodos que achares convenientes, mas consegue o nome dessa mulher.
- E se o não conseguir? - perguntou o advogado
-Então partiremos para a denúncia, e para os tribunais e vou fazer tudo para lhes retirar a licença de exercício, e os obrigar a fechar as portas. Porém tenho esperança de que não chegaremos a isso. Há sempre alguma alma caridosa que a troco de uma boa maquia, se esquece dos seus princípios...
- E dá com a língua nos dentes como dizia a minha mãe, - completou Olga.

15.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VI


Visivelmente irritado, João Teixeira, desligou a chamada. Levantou-se e foi até à janela, de onde observou a rua lá em baixo, onde as pessoas se cruzavam em passo acelerado, como formigas em carreiros diferentes.
Depois de uns momentos, voltou para a secretária. Alto, bem constituído, vestia um fato azul, cujo casaco repousava nas costas da cadeira, e camisa branca que acentuava a largura dos seus ombros. Sentou-se e passou os dedos pelos cabelos castanho-escuro, já salpicados por alguns fios brancos, afastando da testa uma madeixa rebelde. Parecia preocupado e irritado.
Carregou no botão que o ligava ao gabinete da sua assistente.
Quase no mesmo instante, ouviu-se uma batida na porta e uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, de cabelo curto e fato creme, entrou no gabinete com um bloco.
- Ainda não acabei o relatório que me pediste, - disse.
-Não foi por isso que te chamei. Liga para o departamento jurídico, e pergunta se o Afonso Cardoso está, e se estiver diz-lhe que estou à sua espera no meu gabinete.
- E se não estiver, pode ser outro advogado?
-Não.
-Pareces irritado. Aconteceu alguma coisa?
- Desculpa, agora não dá para falar nisso. Mais tarde te conto!
- Muito bem, vou ver se encontro o advogado. Não era hoje que ele tinha uma audiência, por causa dos tipos que fizeram aquelas cópias piratas?
- Tens razão. Então é provável que ainda esteja no tribunal. Envia-lhe uma mensagem para o telemóvel, caso ainda não tenha regressado.
- Precisas de mais alguma coisa?
- De momento não, obrigado.
Olga era a sua assistente. Mas era muito mais do que uma secretária, era o seu braço direito como soe dizer-se.  Conheceu-a quando tinha dezoito anos e a cabeça tão cheia de projetos, quanto de sonhos. Era sua vizinha e contrariamente ao seu pai, que levava a vida a insistir com ele, para ir trabalhar na sua oficina de mecânica, e a queixar-se do “madraço” do filho, que estava sempre agarrado ao computador e não queria fazer nada, Olga incentivava-o a aperfeiçoar a sua ideia, e ajudou-o a registar o seu jogo e a  comercializá-lo através de uma reputada distribuidora.  João tinha fé no jogo, mas nem em sonhos, pensou que o seu sucesso fosse tão retumbante, nem que lhe desse tanto dinheiro.
Assim que começou com a empresa, na altura num barracão alugado, convidou Olga para sua secretária. Nessa época, ela estava a trabalhar numa empresa de venda a retalho, mas aceitou imediatamente a sua proposta. Isso, tinha sido há quase dezasseis anos, e desde essa época muita coisa tinha acontecido na sua vida.
Tinha criado um império,  geria um negócio que movimentava muitos milhões, e empregava quase meio milhar de trabalhadores entre engenheiros eletrotécnicos e de computadores, engenheiros de controle, analistas de sistema, especialistas em jogos digitais e toda uma vasta gama de outros técnicos, que produziam não só peças e programas, como computadores e telemóveis, numa empresa que era, no seu género, a maior da Península.
 Ouviu-se um toque na porta e de seguida Olga entrou.
- Aqui tens o relatório que pediste. Telefonou a Rita Sampaio, da Academia Moderna, diz que estão com problemas no programa que lhe instalámos. Não conseguem entrar no stock das sucursais de Almada e Setúbal.  Mandei o Aníbal Guerreiro para lá. E já falei com o Afonso. A audiência terminou há momentos, ele está a caminho.
-Fá-lo entrar assim que chegue.

7.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Mais um mês se passou, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado. 
Gabriel  que viajara para o estrangeiro, já estava ausente há quatro dias, quando o inspetor se apresentou naquela tarde, no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar essas dívidas. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento das mesmas.
- Então e agora? – perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- E isso ainda vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não posso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular, a pedido do Gabriel, de quem sou amigo desde criança. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade, na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E eu só posso contar com o meu ordenado.
- Todavia vai ter que nomear um, para que possa tratar do caso e apresentar ao juiz as provas que inocentam o seu pai. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu lhe entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai vai poder provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até, ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes importantes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me telefone logo que possível.


14.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE II




O advogado chegou e Sandra introduziu-o no gabinete do chefe. A reunião durou pouco mais de vinte minutos, não devia ser nada sério, já que ela não foi chamada, para tomar qualquer nota. Depois saíram os dois.
Sandra terminou os documentos que o chefe lhe pedira e entrou no gabinete para os deixar em cima da secretária.
Com mãos trementes, experimentou as gavetas. Estavam abertas.
Febrilmente foi verificando uma a uma, procurando nem ela sabia bem o quê. Qualquer coisa, que pudesse utilizar como uma prova.
Não encontrou nada. Passou a mão pela testa, e suspirando dirigiu-se para a porta.
Tinha sido uma estupidez, pensar que poderia encontrar alguma coisa ali “à mão de semear”.
As provas, se as havia, e ela acreditava que sim, estariam bem guardadas no cofre, e fora do seu alcance.
Uma lágrima rolou pelo seu rosto, e ela limpou-a com raiva. Lembrou-se do pai. Do seu olhar triste, do tremor das suas mãos, segurando as dela, e jurando-lhe inocência. Ela acreditava nele. Sabia que estava inocente. Mas estava há quase quatro anos, preso por desfalque. Fora condenado a dez anos, tinha ainda quase dois até chegar a meio da pena e tentar ganhar a liberdade condicional. Seu pai, era o contabilista daquela firma quando  desaparecera da mesma,  mais de meio milhão de euros. E os livros tinham sido rasurados, para emendar as contas. O que como era óbvio condenou o pai. Ele jurara que não o tinha feito, mas era evidente que quem o fizera, 
soubera bem como fazer, para o incriminar.  
Sandra sentia-se revoltada, queria provar a inocência do pai, mas não sabia como fazê-lo, por onde começar, nem de quem desconfiar, pois segundo o pai, várias pessoas podiam tê-lo feito. Porém quando soubera que Gabriel Santana, comprara a parte do seu sócio, e era agora o único dono da empresa, começou a pensar, se não teria sido ele, a desviar aquela importância, para fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte. Daí até se candidatar ao lugar de secretária, quando viu o anúncio, foi apenas questão de minutos. Felizmente para ela, a entrevista correra muito bem, sempre foi uma profissional competente e dedicada, como o atestava o seu anterior patrão, e não foi difícil conseguir o lugar.

13.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE I


- Aqui tem senhor!
O homem levantou a cabeça, e olhou a mulher que na sua frente lhe estendia uma pasta. A sua secretária. Caramba, cada vez que olhava para ela, ficava a pensar, o que teria passado pela cabeça do gestor dos recursos humanos, para lhe enviar aquela … ele nem sabia bem como classificar a mulher que estava na sua frente.
- Obrigado. Pode deixar aí, se precisar de si, chamo.
A mulher deixou a pasta em cima da secretária e afastou-se em direção ao seu gabinete de trabalho. Ao chegar à porta, parou e disse.
- Recordo que tem uma reunião com o seu advogado para daqui a meia hora.
Abriu a porta e saiu.
O homem ficou por momentos a olhar a porta fechada. Com tanta mulher bonita, no mundo, porque haviam de lhe ter mandado aquela, como secretária?
No seu gabinete, Sandra retomou o trabalho. Tinha vinte e seis anos, o cabelo castanho arruivado, estava apanhado num coque, e vestia um fato saia e casaco cinzento, que seria considerado o último grito da moda… há mais de cinquenta anos.
No rosto redondo, e sem qualquer tipo de maquilhagem, pontificavam dois belíssimos olhos verdes, a única coisa que chamava logo a atenção nela, mas que talvez sabendo-o, ela mantinha quase sempre meio oculto, como se estivesse permanentemente preocupada com a biqueira dos seus sapatos. Parecia uma figura saída de algum quadro de museu.
Pelo menos era o que Gabriel, o seu atraente chefe pensava. Mas de uma coisa ele estava certo. Jamais tivera uma secretária tão eficiente… no trabalho. A anterior era um desastre como secretária. Parecia que todas as suas aptidões estavam voltadas para a cama.
O homem sorriu ao recordar-se de Lúcia. Deu-lhe um certo trabalho, separar-se dela. Era realmente muito boa na cama. Mas um homem não pode ser escravo dos seus apetites sexuais, e por muito que gostasse de mulheres, não tinha nenhuma vontade de se prender a nenhuma. Pelo menos, Sandra era uma excelente secretária, e com ela não corria riscos.




Bom dia amigos. Espero que estejam todos bem, e com fé de que havemos de vencer isto.  Abraço-vos virtualmente com o mesmo carinho que o faria pessoalmente se isso fosse possível.

26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia? 

17.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE X





Apesar de todas as preocupações, não só conseguiu dormir, como só acordou, quase às oito da manhã. Tomou banho, vestiu-se, arrumou o quarto, e foi para a cozinha, onde fez um sumo de laranja e umas torradas. Contrariamente ao habitual, não ligou o rádio para não acordar o homem que devia estar a dormir no quarto de hóspedes.
Saiu de casa às nove horas. 
Habitualmente ia a pé para o emprego, a clínica não ficava longe de casa, mas como tinha decidido ir ao orfanato ver a Irmã Madalena, na hora do almoço, decidiu levar o carro.
O trabalho na clínica não era fácil de suportar naqueles dias. As pessoas conheciam-na, sabiam do suicídio do marido. Queriam mostrar-lhe que estavam solidárias com a sua dor. Não faziam por mal, mas quando mais falavam, mais a faziam recordar o momento difícil que estava a passar.
Quando a clínica fechou a porta para o almoço, ela meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Comeria alguma coisa depois, se tivesse tempo.
A Irmã Madalena, supervisionava um grupo de crianças, que brincavam no pátio. Abraçou-a com carinho.
-Que bom que vieste, Eva. Tenho estado tão preocupada contigo. Como estás filha?
- Como Deus quer, Irmã. Preciso muito de falar consigo. Não tem ninguém para cuidar dos meninos?
- Claro que sim, filha. Podes ir chamar a Irmã Maria? Deve estar na biblioteca.
Eva encontrou-a, no corredor, antes mesmo de chegar à biblioteca. Transmitiu-lhe o recado e seguiram as duas para o pátio. Depois, a Irmã Madalena levou-a até ao seu gabinete, onde Eva lhe contou tudo o que tinha acontecido depois do último encontro que tiveram no funeral de Alfredo. Por fim estendeu-lhe a carta que o advogado lhe entregara. A Irmã estava espantada. Abriu os braços e a jovem refugiou-se neles.
- Pobre menina. Como deves estar a sofrer! Tu sabes que não me agradou o teu casamento com o Alfredo. Havia qualquer coisa nele que não me agradava. Mas tu estavas tão feliz, que pensei que me tinha enganado. 
-E fui feliz durante uns meses, Irmã. Depois o comportamento dele alterou-se. Passou a sair quase todas as noites, chegava tarde a casa. Às vezes vinha eufórico, mas a maioria das vezes, vinha aborrecido. Perguntava-lhe se o podia ajudar mas ele não se abria. E o dinheiro desaparecia. Ultimamente era com o meu ordenado que governava a casa.
Pensei que ele tinha uma amante. Quis falar com ele, obrigá-lo a confessar. Deixou-me a falar sozinha e foi atirar-se daquele terraço. Nunca imaginei que fosse jogo, muito menos que fosse capaz de jogar a casa e a própria mulher.