Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta pessoas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pessoas. Mostrar todas as mensagens

7.10.19

CONVERSA DE AUTOCARRO


Na Sexta-Feira, depois de mais uma sessão de fisioterapia, apanhei o autocarro com de costume para regressar a casa. Na paragem seguinte entram várias pessoas que se vão sentar na parte de trás do autocarro portanto por trás de mim que me encontrava no primeiro banco logo a seguir à porta de saída. Quando o carro arrancou, oiço uma voz forte e mesmo sem querer ouvi o seguinte:
Voz forte : - Só mesmo à chapada.
Voz masculina, mais suave: - Temos que respeitar as mulheres.
Voz forte - Eu respeito as mulheres. Respeito-as mais do que elas se respeitam umas às outras. Só sabem falar da vida umas das outras, a minha vontade quando oiço certas coisas é dar-lhes um par de chapadas.
A voz suave disse qualquer coisa que eu não consegui entender e a voz forte retorquiu:
-Ó pá não me lixes, paciência tem limites.

Na paragem seguinte saiu muita gente, os dois saíram de certeza porque não voltei a ouvi-los. E vim para casa a pensar que há homens com uma noção muito errada do que é o respeito.


                                       *************

Vamos a ver se esta semana consigo pôr as visitas em dia. Por mais que o deseje, a coisa não está fácil. O olho direito anda muito choroso, o esquerdo não vê.  Telefonei ao médico a perguntar se podia pôr as gotas de Frisolona que ponho no esquerdo nos dois olhos, ele disse que não, mandou comprar gotas de Ocular para pôr no direito e mandou-me descansar

15.12.18

A CAMINHO DO NATAL




O inverno tinha chegado e com ele a neve que caía em grandes flocos. A água deixara de correr nos ribeiros gelados, e as aves, empoleiradas nas árvores, já não cantavam, de cabeça recolhida debaixo das asas. Um vento glaciar obrigava as pessoas a manter-se em casa ao canto da lareira.
Naquela terra corria o rumor de que o senhor de um reino longínquo andava à procura de alojamento para o seu filho.
Simão, um mercador rico da cidade, que vivia sozinho com a mulher numa grande mansão, tinha ouvido falar disso. Esse tal rei vem de certeza bater-me à porta, pensava ele, pois a minha casa é a mais linda da região!
E ficou no limiar da porta, à espreita, esperando o coche real.
Mas a rua permanecia escura e deserta.
A mulher de Simão entrou na sala. Caminhava com dificuldade, de costas curvadas, apoiada numa bengala. Tinha imensas dores de pernas. Trazia um castiçal que pousou em cima da mesa.
— Uma vela só é muito pouco! — disse o marido em tom de crítica — Acende todas as lanternas da casa e põe uma em cada janela.
— Tanta luz para quê? — admirou-se a mulher.
— Vai vir um rei a nossa casa! — explicou Simão. — A casa tem de se ver ao longe, de noite. Se ficar cá, receberemos uma bela recompensa. É por isso que deves iluminar as janelas. Despacha-te! E prepara uma boa refeição, digna de um rei. Anda, despacha-te!
A muito custo a mulher deu volta à casa a iluminar todas as janelas. Tinha chegado à última divisão quando alguém bateu à porta. Foi abrir muito devagar.
O recém-chegado trazia um casaco já muito puído e, nos pés, uns sapatos rotos.
— Boa noite, minha senhora — disse ele — Será que poderia alojar o meu filho só por esta noite? Está tanto frio cá fora!
O homem tinha ar de mendigo, mas o seu rosto resplandecia. E os olhos emitiam um brilho estranho que parecia vir do mais profundo da alma.
Mas Simão não deu por nada. Só via os farrapos do pobre.
— Vai-te embora! — disse ele. — Esta casa não é para mendigos!
— A minha recompensa será grande — disse o forasteiro. — E vale mais do que todo o ouro e todas as riquezas deste mundo.
Simão desatou a rir, trocista:
— E onde escondes tu os tesouros? Debaixo desses farrapos ou no teu saco roto?
Entretanto a mulher de Simão tirara o xaile e entregara-o ao mendigo. Também lhe deu uma fatia de pão e uma chávena de leite.
— É tudo o que lhe posso dar! — murmurou.
— Muito obrigado! — disse o forasteiro.
E pegando na bengala em que ela se apoiava, arrumou-a junto do armário.
— Daqui em diante não vai precisar mais dela! — acrescentou, antes de desaparecer na noite. Envolvia-o um halo de luz.
A mulher sentiu-se de imediato livre dos seus sofrimentos. As pernas já não lhe doíam. Endireitou-se e deu alguns passos.
— Estás a andar como dantes! — exclamou Simão maravilhado. — E a bengala?
— Já não preciso dela! — disse a mulher com voz trémula. — Foi um milagre. O forasteiro curou-me…
— Um mendigo que faz milagres? Deixa-te de tolices! — resmungou Simão.
— Aquele desconhecido irradiava uma luz especial… — prosseguiu ela — O Rei é ele, tenho a certeza, um Rei vindo de longe…
Simão ficou pensativo. O desconhecido tinha falado numa recompensa que valia mais do que todo o ouro e todas as riquezas deste mundo. E acabava de realizar um milagre. Então Simão compreendeu…
— O que eu fui fazer! Que miserável sou! — exclamou ele — Depressa, tenho de o encontrar!
Enfiou as botas e o casaco e saiu a correr.
Tinha parado de nevar. O vento glaciar deixara o céu a descoberto, agora semeado de estrelas. No silêncio da noite, Simão ouviu uma voz que o chamava ao longe. Mas não via ninguém. Descobriu pegadas na estrada, e pôs-se a segui-las, descendo em direção à igreja. Ali, encontrou uma mulher a chorar.
— Que te aconteceu? — perguntou ele.
— Tenho muito frio! — gemeu a idosa.
Então, cheio de remorsos, Simão deu-lhe o casaco.
Depois continuou a caminhar, seguindo as pegadas na neve. Um pouco mais à frente, viu um rapaz a soluçar. Também ele tinha frio, descalço na terra gelada, com os pés gretados. Simão descalçou as botas forradas e deixou-as ao miúdo.
— Simão! — chamou de novo a voz. Parecia mais próxima do que da primeira vez, mas Simão continuou a não ver ninguém.
Descalço, pôs-se a andar, guiando-se sempre pelas pegadas da neve.
Mais longe, passou junto de um idoso que tremia, sentado junto de uma árvore. Vestia apenas uma camisa. Simão despiu o casaco e pô-lo sobre os ombros do mendigo. Também ele sentia agora o vento a morder-lhe a pele nua. Então, pela terceira vez, alguém o chamou:
— Simão — disse o Rei, — passaste todas as provas que semeei no teu caminho. Continua a seguir o trilho e chegarás diante de uma pobre cabana. Aí encontrarás o meu filho deitado nas palhas de uma manjedoura. Está à tua espera.
Simão obedeceu.
E as pegadas na neve conduziram-no a um estábulo.
Tal como o Rei dissera, um Menino estava deitado nas palhas de uma manjedoura.
Uma grande luz iluminava aquele lugar e um calor suave aqueceu Simão até ao fundo da alma. Sentiu-se invadido por uma enorme felicidade e uma grande paz encheu-lhe o coração.
Então, ajoelhou e pôs-se a rezar.
E o Menino sorriu-lhe.


Anneliese Lussert ; Loek Koopmans
Sur le chemin de Noël
Namur, NordSud, 1995
Tradução e adaptação


18.6.18

O DIREITO À VERDADE - I


Esta escultura, recebe-nos na entrada do cemitério de S. Gonçalo em Lagos..
Não que esta história se passe em Lagos, mas é um bonito monumento composto por painéis. Chama-se A Passagem e simboliza exatamente isso .
A nossa passagem do mundo real da matéria, visível, para o mundo espiritual, o invisível.  


                                                           I


A urna desceu à terra, na presença de dois grupos distintos de pessoas. Em tamanho e em idade. De um lado, meia dúzia de pessoas de meia-idade. Do outro, um grupo mais numeroso de jovens, na frente dos quais se encontrava uma jovem alta, esbelta, morena, de cabelos e olhos tão negros quanto a roupa que tinha vestido.
Abeirou-se da sepultura, baixou-se e apanhou um punhado de terra. Ergueu-se e jogou sobre a urna uma singela gerbera cor-de-rosa, e de seguida o punhado de terra. Depois virou as costas e afastou-se, enquanto os dois homens pegavam nas pás e começavam s fechar a sepultura. Não queria vê-los, mas sentia no peito cada pá de terra que eles lançavam, enquanto lágrimas silenciosas corriam pelo seu rosto pálido. Sentiu que alguém lhe passava um braço pelos ombros, enlaçando-a em silêncio. Levantou o rosto e olhou o seu tio. Era um homem de sessenta e cinco anos, mas o seu rosto precocemente envelhecido, emoldurado por uma cabeleira totalmente encanecida, faziam com que aparentasse mais idade.
Alberto fora casado, com uma irmã da sua mãe. A sua tia Ana, falecera há dez anos, com a mesma doença que agora levara a irmã. O maldito cancro.
Os homens acabaram o trabalho de sepultamento e colocaram sobre a terra, as coroas, e demais ramos de flores. As pessoas começavam a abandonar o local, não sem antes lhe darem um abraço e algumas palavras de conforto, que não aliviavam a sua dor, mas que ela não deixava de agradecer.
- Vamos, querida, levo-te a casa, - disse Alberto. Já não há nada que a gente possa fazer por ela, a não ser rezar pela sua alma.
Helena concordou com a cabeça. Tinha dificuldade em se expressar. Começara a caminhar para o portão, mas de súbito parou e disse:
- Preciso falar primeiro com o agente funerário. Não sei se é preciso alguma coisa mais.
-Espera aqui, vou lá falar com ele,  - disse Alberto.
Voltou pouco depois.
-Ele diz, que a agência trata de todos os trâmites, com a junta de freguesia, onde nasceu, para assinalar o óbito no registo, e com a Segurança Nacional, para que possas receber o subsídio. Normalmente leva oito ou dez dias até receberem a resposta, e então telefonam-te para te devolverem todos os documentos que lhes deixaste. Agora vamos, Lena. Estás de rastos, precisas descansar.
- Custa-me tanto voltar para casa, tio. Como é que eu vou viver, sem ela?
-Embora agora te pareça que o mundo desabou sobre a tua cabeça, vais encontrar forças para seguir em frente. Com tristeza, com muita saudade, mas continuamos. Como pensas que eu vivo? Há dez anos quando perdi a tua tia, encontrei força no teu primo para suportar a dor de ficar sem a única mulher que amei, Pior foi há três meses, quando o teu primo morreu naquele estúpido acidente.
- Perdoa, tio. Sou muito egoísta. Esqueci-me de que tu também estás com o coração ferido.
- Não te desculpes querida. Eu entendo, - disse abrindo-lhe a porta do carro.

11.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO. - PARTE XXXVI


                                           Igreja matriz de Alvaiázere



Depois que saíram da igreja, que os dois acharam linda,  Paulo disse.
- Vem. Vamos até aquela pastelaria. Lanchamos, ali. Preciso falar contigo.
Escolheram uma mesa mais afastada, e pediram dois cafés e dois pastéis de nata. Depois que o empregado se afastou, Paulo perguntou.
- Vais contar-me o que se passa?
- Nada. Não se passa nada.
- Olha Amélia, talvez eu não seja um homem muito romântico, mas preocupo-me com as pessoas que amo. O teu rosto não é precisamente o rosto de uma noiva feliz. Leio uma certa inquietação nos teus olhos que me põe nervoso. Somando a isso o facto de ainda não teres telefonado ao teu irmão, não me venhas dizer que não se passa nada.
- Já tive uma experiência falhada. É natural que tenha receio. Afinal conhecemo-nos há tão pouco tempo. E se não der certo? O Martim está nas nuvens. Já pensaste como ele vai ficar, se depois de casados verificámos que foi um erro e nos separamos?
- É natural um certo temor quando vamos mudar toda a nossa vida. É humano, todos o sentimos. Uma vida a dois, implica novos hábitos, a que uma pessoa sozinha não está habituada. E é normal que não estejamos de acordo em todas as situações, que se nos apresentem. Afinal somos duas pessoas com personalidades diferentes, e às vezes é preciso fazer cedências, sem que isso signifique uma situação de domínio. Depende apenas de nós, compreender e aceitar o outro. Os casamentos têm altos e baixos, o nosso decerto não será exceção. Mas diz-me uma coisa, deveria a natureza eliminar as rosas, só porque elas têm alguns espinhos?
- Desculpa. Foram muitos anos a racionalizar sentimentos, a construir muralhas à minha volta, e depois apareces tu, e sem cerimónias derrubas todas as minhas defesas, invades-me o coração e o pensamento, e isso assusta-me. Tudo me parece um sonho e tenho medo de acordar.
- Perderás o teu medo, se eu prometer que esse sonho nunca será pesadelo? Tem fé, querida. Confia em mim. E agora promete-me que hoje mesmo, falas com o teu irmão.
- Prometo. Esta noite falo com ele.
Tinham acabado o lanche. Paulo pediu a conta depois de ter perguntado à jovem se queria algo mais e de ter obtido uma negativa por resposta.
- Mais confiante? – Perguntou ele enlaçando-a pela  cintura, enquanto se dirigiam para o carro.
Ela limitou-se a sorrir, mas no seu íntimo sentia-se bem mais segura depois do que ouvira. Afinal ele dissera que se preocupava com as pessoas que amava. E estava preocupado com ela. Se ele a amava, então ela confiava que tudo ia correr bem. E decidiu. Nessa mesma noite telefonaria ao irmão. Sempre queria ver, melhor seria dizer, ouvir a reação do irmão quando lhe dissesse que ia casar dentro de dez dias. Ia pensar que tinha endoidecido. E a verdade é que tinha mesmo. Estava doida pelo homem, que ia a seu lado. Ele não era só bonito, era compreensivo, tinha bom coração, e sabia entendê-la como ninguém a entendera até então.


Nota, Há três dias que estou com grande dificuldade em entrar em alguns blogues que só consigo entrar à quarta ou quinta vez e outros ainda não consegui entrar desde sexta-feira. Esta mensagem de Ops, ocorreu um erro está a aparecer a mais alguém ou é só comigo?




E como estamos no Carnaval aqui me têm hoje em mais uma brincadeira.






16.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX




Eles continuaram o passeio, mas a alegria que Sofia sentira até aí, já não era a mesma. Era como se uma sombra negra pairasse entre eles.
Decorridos uns minutos, ela perguntou suavemente:
-Dói muito?
Ele olhou-a surpreendido. Encolheu os ombros e respondeu.
-Já foi pior.
A resposta deixou-a cheia de esperança.
Talvez ela ainda tivesse hipótese de conquistar o marido.
Aos poucos Sofia ia conhecendo uma realidade muito diferente daquela que conhecera em Portugal. Não só porque fora de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, como pela mentalidade das pessoas, e até pela posição privilegiada de que gozava. Mas o que mais a admirava, era mesmo a diferença de mentalidades. Na sua aldeia, as pessoas viviam presas ao passado, buscando nele, a conformação para o presente. Diziam que apesar das dificuldades, que passavam, não se podiam queixar, porque os seus pais tinham vivido pior. Não fora o medo da guerra, ou da prisão, e a escassez de trabalho, talvez nem houvesse tanta gente a procurar na emigração a solução para as suas vidas. 

14.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XV





- Não eras totalmente um desconhecido. Conheço toda a tua família e lembrava-me de ti, embora estejas muito diferente daquela época, como é evidente. Mas tens razão, sim. Na verdade queria sair da aldeia. Queria conhecer outras pessoas, outros locais. Nunca tive um namorado, nem sequer um amigo. Meus pais não me deixavam ir trabalhar e eu sentia-me sufocar entre quatro paredes. Aceitar a tua proposta, foi o abrir da gaiola, e o meu voo para a liberdade.
- Um casamento nunca é um voo para a liberdade, Sofia.
- Mas era a minha hipótese de ter outra vida, conhecer novos horizontes. Hás-de convir que não tem nada a ver esta casa, e esta cidade, com a nossa aldeia.
- E o amor, Sofia? Onde fica o amor?
- Minha mãe, sempre me disse que o amor vem com a convivência. Que só no dia a dia, enfrentando juntos alegrias e tristezas, se pode chegar ao amor. 
-E tu acreditas nisso?
-Não sei. Como te disse, nunca tive um namorado, só convivi com rapazes da minha idade, enquanto estudava, era uma miúda e nunca me senti atraída por nenhum deles. Ainda não tinha feito dezasseis anos, quando terminei o curso, e desde aí praticamente não saía de casa, a não ser para a igreja. Não tenho razões que me permitam acreditar ou não.
Quim levantou-se e aproximou-se da janela. Ficou olhando na escuridão durante alguns segundos.