Uma hora depois, ainda Anabela rolava na cama sem conseguir adormecer, a cabeça cheia de tristes pensamentos. Os dias de férias estavam a terminar, em breve teria de retornar ao trabalho, enfrentar os olhares de compaixão das colegas. E não sabia se teria coragem para isso. Pensou que o melhor que poderia fazer seria apresentar a demissão e procurar um novo emprego, onde ninguém a conhecesse e não tivesse de suportar os olhares de pena das colegas. Porém conseguir um emprego com rapidez não era fácil e as suas economias não davam para se aguentar por muito tempo.
Tirando a pequenita Patrícia, sua afilhada e os pais da menina, Anabela não tinha ninguém a quem pedir aconchego. Nunca conhecera o homem que lhe dera o ser, pois este abandonara a mãe, antes mesmo dela nascer. A mãe tinha uma enorme sede de carinho, uma ânsia de ter a sua casa, a sua família.
Isso levara a que durante os seus primeiros anos de vida, Anabela
conhecesse uma série de namorados, que a sua mãe arranjava sempre sonhando que
aquele é que ia assumir uma relação séria e pôr-lhe no dedo uma aliança. Mas isso nunca acontecia, os homens
conheciam-lhe a fragilidade, aproveitavam-se dela e logo a abandonavam.
Quando a mãe deixou de acreditar na vida com que sempre
sonhara, caiu em depressão e foi-se desligando da vida sem se importar com a
filha. Anabela tinha onze anos quando a mãe morrera e se vira sozinha no mundo.
Quando no dia seguinte ao funeral da mãe o senhorio se
apresentou na humilde residência e a pôs na rua, afirmando que a renda já
estava atrasada dois meses, e ele não era seu pai para ter obrigação de lhe dar
casa, Anabela pensou que só lhe restava o orfanato onde a mãe fora criada.
Salvou-a de tal destino, dona Arminda, uma vizinha,
ex-professora reformada, que a acolhera em sua casa, e se responsabilizara por
ela.
Apesar da avançada idade, a senhora que era viúva de um
militar e não tivera filhos, tinha tratado a garota como se de uma avó amorosa
se tratasse. Com ela Anabela viveu os sete melhores anos da sua vida, embora no
último ano, ela se vira numa correria entre a escola onde terminava o
secundário, e a casa onde a mulher que amava definhava vítima de cancro.
A “avó” Arminda faleceu no dia seguinte a Anabela ter
completado os dezoito anos, como se a velha senhora tivesse esperado a sua
maioridade para que ela não enfrentasse dificuldades. E mais, deixou-lhe em
testamento tudo o que tinha, algum dinheiro, e a sua casa que embora antiga era
grande e estava bem conservada, bem como o terreno que se estendia desde as
traseiras da casa até à margem do rio.
Depois do funeral pôs o imóvel e o terreno à venda, na
única agência da terra, pois desejava partir para a capital, onde pensava ter
muito mais hipóteses de conseguir emprego.















