Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta dinheiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dinheiro. Mostrar todas as mensagens

9.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE III


Uma hora depois, ainda Anabela rolava na cama sem conseguir adormecer, a cabeça cheia de tristes pensamentos.  Os dias de férias estavam a terminar, em breve teria de retornar ao trabalho, enfrentar os olhares de compaixão das colegas. E não sabia se teria coragem para isso. Pensou que o melhor que poderia fazer seria apresentar a demissão e procurar um novo emprego, onde ninguém a conhecesse e não tivesse de suportar os olhares de pena das colegas. Porém conseguir um emprego com rapidez não era fácil e as suas economias não davam para se aguentar por muito tempo.

Tirando a pequenita Patrícia, sua afilhada e os pais da menina, Anabela não tinha ninguém a quem pedir aconchego. Nunca conhecera o homem que lhe dera o ser, pois este abandonara a mãe, antes mesmo dela nascer. A mãe tinha uma enorme sede de carinho, uma ânsia de ter a sua casa, a sua família. 

Isso levara a que durante os seus primeiros anos de vida, Anabela conhecesse uma série de namorados, que a sua mãe arranjava sempre sonhando que aquele é que ia assumir uma relação séria e pôr-lhe no dedo uma aliança.  Mas isso nunca acontecia, os homens conheciam-lhe a fragilidade, aproveitavam-se dela e logo a abandonavam.

Quando a mãe deixou de acreditar na vida com que sempre sonhara, caiu em depressão e foi-se desligando da vida sem se importar com a filha. Anabela tinha onze anos quando a mãe morrera e se vira sozinha no mundo.

Quando no dia seguinte ao funeral da mãe o senhorio se apresentou na humilde residência e a pôs na rua, afirmando que a renda já estava atrasada dois meses, e ele não era seu pai para ter obrigação de lhe dar casa, Anabela pensou que só lhe restava o orfanato onde a mãe fora criada.

Salvou-a de tal destino, dona Arminda, uma vizinha, ex-professora reformada, que a acolhera em sua casa, e se responsabilizara por ela.

Apesar da avançada idade, a senhora que era viúva de um militar e não tivera filhos, tinha tratado a garota como se de uma avó amorosa se tratasse. Com ela Anabela viveu os sete melhores anos da sua vida, embora no último ano, ela se vira numa correria entre a escola onde terminava o secundário, e a casa onde a mulher que amava definhava vítima de cancro.

A “avó” Arminda faleceu no dia seguinte a Anabela ter completado os dezoito anos, como se a velha senhora tivesse esperado a sua maioridade para que ela não enfrentasse dificuldades. E mais, deixou-lhe em testamento tudo o que tinha, algum dinheiro, e a sua casa que embora antiga era grande e estava bem conservada, bem como o terreno que se estendia desde as traseiras da casa até à margem do rio.

Depois do funeral pôs o imóvel e o terreno à venda, na única agência da terra, pois desejava partir para a capital, onde pensava ter muito mais hipóteses de conseguir emprego.


10.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVII


Tentando aparentar uma calma que não tinha, João voltou para o seu lugar e sentou-se.
- Muito bem, Teresa. Suponho que não tenha inconveniente em que nos tratemos pelo nome. Vamos resolver o assunto com calma entre os dois, pelo menos durante a gravidez, de modo algum, quero ser o motivo, de um possível aborto. Deseja tomar alguma coisa?
- Uma água por favor.
Ele carregou no intercomunicador e disse:
- Olga, por favor, traz-me um café. E um copo de água para a dona Teresa!
Enquanto aguardavam pelas bebidas, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Era como se cada um estudasse o outro, na tentativa de descobrir se eram ou não confiáveis.
Pouco depois, Olga entrou trazendo um tabuleiro com as bebidas que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa? – perguntou Olga ao poisar sobre a secretária o tabuleiro com as bebidas.
-Localiza o Afonso e diz-lhe que abandone a missão, e regresse à empresa.
-Sem nenhuma explicação? – perguntou.
-Mais tarde, falo com ele.
Quando a porta se fechou atrás da assistente, João  disse:
- Como deve calcular, quando o Centro Clínico entrou em contato comigo, fiquei revoltado, aquela era a minha única hipótese de ser pai, de ter um herdeiro, que desse sentido ao trabalho, de toda uma vida, de sentir o que é ter nos braços um pequeno ser, a quem amar, proteger e educar. Quero esse filho. Pelo que me disse há pouco, você deseja-o de igual modo, pelo que não vou correr o risco de a ofender, oferecendo-lhe dinheiro para que mo entregue quando nascer. De modo que temos um problema para resolver. O que pensa fazer?
- Como bem disse, é um problema que temos de resolver, mas de momento a única coisa que quero é paz. Quase mal acabei de saber, que o filho que tanto desejara, estava a caminho; e sem ter sequer tempo para festejar, dizem-me que houve um erro, que o pai dessa criança está disposto a tudo para ma tirar, que por causa disso posso ver-me envolvida numa longa batalha judicial, que a imprensa vai levar meses a alimentar-se do escândalo, vai esmiuçar a minha vida até ao meu nascimento, quiçá para além disso. Não preciso do seu dinheiro, tenho mais do que suficiente para criar e educar sem esforço, um ou dois filhos, porém podia precisar muito, trabalhar sem descanso, dia e noite até à exaustão, que não aceitaria nunca dinheiro, para ceder os meus direitos de mãe.
Fez uma ligeira pausa, como que tentando reorganizar os seus pensamentos, enquanto o empresário a olhava admirado com a paixão que ela punha nas palavras, e mentalmente se interrogava, se ela usaria a mesma paixão na intimidade da sua cama. Passou a mão pela testa, tentando afastar tão inoportunos pensamentos, enquanto Teresa alheia aos seus pensamentos, continuava:
- Não sei se sabe, mas a maior parte dos abortos espontâneos acontecem nos primeiros três meses de gravidez, razão porque nós, mulheres, não gostamos de falar do nosso estado, antes de decorrido esse tempo. Compreendo o seu desespero, e em consciência sei que não lhe posso negar o direito de ver, e conviver com a criança, tal como os casais que se separam não o podem fazer. Seria uma crueldade, e eu não sou cruel.


24.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Mas tem que haver alguém, que ficou com  esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe por quem, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu? Foi dele a ideia de me espiares?
- Não! Ele nem sequer sabe que deixei o meu emprego anterior, e que sou agora a sua secretária. E ele não desconfia de ninguém em particular. Fui eu que desconfiei do senhor, quando soube que tinha comprado a parte do seu sócio, pouco tempo depois, e era agora o único dono da empresa.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim - concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar seriamente em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, na segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. Quase quatro anos a lutar contra aquela dor. Anos em que se deitava e se levantava a pensar em como estaria o pai. No dia seguinte era dia de o visitar. Esperava duas semanas por aquele dia  e quando ele se aproximava ficava à beira de um ataque de nervos, por não saber como ia encontrá-lo. Era deprimente e desanimador. E o pior, era ter que fingir que estava tudo bem para que o pai não ficasse ainda mais abatido.
 Por outro lado, ter sido descoberta era como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser apanhada, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar, que só não era total, pela preocupação constante com o pai.
Mas agora tinha outra preocupação. E se Gabriel a despedisse? Atualmente havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de lhe ter dito que desconfiava dele e andara a vasculhar no seu escritório – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou um pouco  sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.



13.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VIII




Terminado o jantar, Eva começou a retirar a loiça da mesa, perguntando:
-Faço café para os dois?
- Se não te importares! – respondeu observando-a dissimuladamente.
Ela procurou no armário a embalagem de cápsulas, e as chávenas e tirou os cafés.
-A que horas, tens que estar no casino? – perguntou ela.
- Não sou empregado do casino, Eva. Sou jogador profissional sim, mas trabalho por conta própria. Posso ir todos os dias, e geralmente vou, mas posso estar  alguns dias, sem aparecer. Por isso não paro muito tempo num mesmo sítio. Hoje estou aqui, amanhã ou daqui a um mês posso estar na Itália, no Mónaco, ou em qualquer outro lugar do planeta, desde que haja um bom casino. Como te disse sou um cidadão do mundo.
- Mas para isso não é preciso ter muito dinheiro? Ou ganhas sempre?
Ele sorriu divertido com a sua ingenuidade.
- Nenhum jogador ganha sempre, a menos que faça batota, mas isso é crime e é severamente punido.  Eu nunca me arriscaria a fazer batota. Pode-se dizer que nos ganhos há dois componentes que funcionam em pleno. A concentração e a sorte. A condição mais importante para o profissional, é retirar-se da mesa a tempo, quer esteja a ganhar, ou a perder. Porque a verdade é essa, umas vezes ganhamos e outras perdemos.
- Quer dizer que não escolheste essa profissão pensando enriquecer?
- De modo algum. Na verdade nunca desejei ser rico. Sou um bocado aventureiro, desfruto do que a vida me dá. Não sou rico, mas digamos que tenho o suficiente para não me preocupar com o futuro. O dinheiro do jogo, só entra nas minhas contas, no sentido em que o que perco num dia, tem que ser igual ou inferior ao que ganhei no anterior. Essa é a diferença entre um jogador profissional, e um “agarrado” como era o teu marido. Nós jogamos pelo prazer único do jogo, racionalmente, sem emoção. Homens dominados pelo vício são capazes de vender a alma ao diabo, pelo jogo. É uma dependência com a da heroína ou de outra droga qualquer. Nunca suspeitaste que o teu marido era viciado no jogo?
- Não. É claro que as chegadas a casa quase de madrugada e a falta de dinheiro, me fizeram acreditar que alguma coisa não estava bem. Suspeitei que ele me traía, que havia outra mulher na sua vida. No dia em que quis discutir com ele, o nosso casamento, saiu de casa batendo a porta e não voltou. De madrugada, a polícia bateu-me à porta, avisando da sua morte. Pensei que tinha sido um acidente, até que o agente me informou, que ele tinha subido àquele terraço com intenções claras de se matar, e que várias pessoas, incluindo a própria polícia, tinham tentado sem sucesso demovê-lo de atirar-se de lá. 

20.12.19

CONTOS DE NATAL - MÚSICA PARA OS MEUS OUVIDOS



Sentei-me em silêncio no banco de trás enquanto regressávamos a casa de uma cerimónia vespertina da igreja, onde tinha ouvido, uma vez mais, a maravilhosa história do nascimento de Jesus. E o meu coração transbordava de alegria enquanto nós os três entoávamos conhecidas canções de Natal vindas do rádio do carro.
Com o nariz achatado contra o vidro do carro, não conseguia tirar os olhos das decorações dos grandes armazéns. À medida que passávamos pelas casas com árvores de Natal iluminadas nas janelas, imaginava as prendas debaixo delas. A alegria própria da quadra estava por todo o lado.
A minha felicidade durou apenas até chegarmos à estrada empedrada que levava à nossa casa. O meu pai virou para o escuro caminho rural onde a casa se erguia há duzentos anos. Não havia luzes de boas-vindas a saudar-nos; não havia árvore de Natal a brilhar na janela. E a tristeza tomou conta do meu coração de menina de nove anos.
Tal como as outras crianças, eu não podia deixar de desejar árvores e prendas. Mas estávamos no ano de 1939, e eu tinha sido ensinada a ser grata pelas roupas que me cobriam e os sapatos que me calçavam, a ser grata por ter alimento e casa — mesmo que muito humilde. Já tinha ouvido, mais que uma vez, os meus familiares dizerem “as árvores de Natal são um desperdício de dinheiro.” E eu supunha que os presentes também deviam ser.

Embora os meus pais tivessem já deixado o carro e entrado em casa, eu mantive-me lá por fora e deixei-me cair sobre os degraus do alpendre — receando perder toda a alegria própria da quadra festiva que tinha sentido na cidade, e desejando que o Natal estivesse também em minha casa. Quando, por fim, o frio da noite trespassou o meu vestido e o casaco de malha, estremeci e coloquei os braços à volta de mim própria, como num abraço. Nem mesmo as lágrimas quentes que me caíam pela face abaixo conseguiam aquecer-me.

E foi então que ouvi. Música. E cânticos.

Ouvi, e olhei para as estrelas que se amontoavam no céu, brilhando mais intensamente que nunca. Os cânticos rodearam-me, animando-me. Algum tempo depois, dirigi-me para dentro de casa para continuar a ouvir o rádio, pois aí estaria mais quente. Mas a sala de estar estava envolta em escuridão e silêncio. Que estranho! Regressei lá fora e ouvi de novo os cânticos. De onde é que aquilo vinha? Talvez do rádio do vizinho? Percorri a pé a estrada comprida, com aquela música maravilhosa a acompanhar-me durante todo o percurso. Mas o carro do vizinho nem se encontrava ali, e a casa deles estava tranquila. Até mesmo a árvore de Natal deles estava às escuras.
A música, contudo, ouvia-se mais alta do que nunca, seguindo-me e ecoando à minha volta. Poderia vir da casa do outro vizinho? Mesmo à distância, eu conseguia ver que também não estava lá ninguém. Ainda assim, percorri os quase trezentos metros que separavam a casa deles da nossa. Mas não havia nada, nem ninguém. No entanto, os cânticos continuavam, cristalinos e puros. Ouvia-os distintamente. E as estrelas, naquela noite, brilhavam com tanto esplendor que eu nem sentia medo de voltar para casa sozinha.
Uma vez chegada a casa, sentei-me de novo nos degraus do alpendre e refleti sobre este milagre. Pois, para mim, era um milagre. Porque eu sentia, no meu coração, que estava a ouvir uma serenata dos anjos.
Já não sentia frio ou tristeza. Agora estava quente e feliz, por dentro e por fora. Enquanto olhava lá para cima, para aquela infinitude, rodeada pelos louvores dos anfitriões celestes, soube que tinha recebido uma linda prenda de Natal – uma prenda vinda diretamente do Alto.

A prenda do amor. A estrela brilhante.

E um Natal eterno.

6.12.19

CONTOS DE NATAL - CARTA AO MENINO JESUS






O Francisco frequentava o terceiro ano de escolaridade com muito bom aproveitamento. Era um miúdo admirável! Já vivera razoavelmente mas, actualmente, sofria as consequências da quase indigência do pai por, no início daquele ano, ter perdido o emprego. Era um bom trabalhador, mas a oficina fechara.
Andava o miudinho muito triste e amargurado porque a fome, o frio e a tristeza eram o pão-nosso de cada dia naquela casa.
Como habitualmente, ao aproximarem-se as férias do Natal, a professora mandou que os alunos fizessem uma redacção sobre essa quadra festiva.
O Francisco debruça-se sobre o papel e, numa letra mais adulta que infantil, intitula a sua composição de APELO e escreve:
«Menino Jesus: não acredito no que tenho ouvido dizer a teu respeito, ou seja, que só dás a quem já tem, e nada dás a quem nada tem! Explico-te porquê: eu sei que são os pais a darem essas prendas e não tu, que tens mais que fazer; se fosses tu, de certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres.»
Sim, eu tenho certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres. Sim, eu tenho a certeza que seria assim, pois nunca te esqueces que também nasceste pobre e pobre morreste.
«Não venho pedir nada para mim. Quero lembrar-me que o meu pai está há um ano sem trabalho e precisa de ganhar dinheiro para nos sustentar. Por isso, não te esqueças de lhe arranjar um emprego. Eu sei que Natal quer dizer nascimento e, olha, nós também nascemos e, com certeza, não foi para que morrêssemos já, sem dar testemunho sobre a terra. Se assim fosse, como é que poderíamos dar os parabéns pelo teu aniversário?! Já agora podes ficar a saber que eu nasci no mesmo dia: nasci no Natal»
Pouco antes de as férias começarem, a professora chamou o Francisco e disse-lhe que tinha arranjado trabalho para o seu pai e, que já poderia começar a trabalhar no princípio de Janeiro do próximo ano. Foi tal a alegria dele que chorou copiosamente e, então, passou a andar tão contente, que os pais não sabiam que dizer. No entanto ele não disse porque é que andava assim.
Na véspera de Natal todos se deitaram cedo, pois a consoada consistiria em sopa e pão, por o dono da mercearia, atendendo ao dia que era, ter condescendido em acrescentar ao rol do livro da dívidas.
O Francisco não adormeceu logo. Depois de ter verificado que toda a gente estava a dormir, foi colocar o seu sapatinho à porta do quarto dos pais, com um bilhete dentro.
No dia de Natal, a mãe, que era sempre a primeira a levantar-se, ao sair do quarto tropeçou no sapato do filho. Baixou-se, pegou nele, e leu o bilhete: "Pai, a partir de Janeiro vai ter trabalho. Foi a minha professora que lho arranjou, por causa da minha redacção ao Menino Jesus. É a nossa prenda de Natal".
Com as lágrimas nos olhos, de contentamento já se vê, aquele casal entrou, pé ante pé, no quarto do filho. Ao vê-lo profundamente adormecido e a sorrir, ambos disseram: eis aqui o nosso Menino Jesus!


Lucas Hernandes  in "Deixe a folha cair"

23.11.19

PARA MEDITAR

Perguntaram ao Dalai Lama...
"O que mais o surpreende na humanidade?"
E ele respondeu:
Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.


Bom fim de semana

16.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE II





Atravessou o átrio do hospital, seguido pelo olhar de enfermeiras e auxiliares. Não era por acaso que Gil Gaspar tinha uma figura tão impressionante. Ele fora nos últimos anos do século passado e nos primeiros deste século, um futebolista famoso, um dos melhores do mundo, pago a peso de ouro. E como tal conhecera bem os efeitos que a fama causava nas mulheres. Elas andavam à sua volta, como abelhas em volta de flores. E ele descobrira, que a fama consegue ser mais afrodisíaca que o dinheiro. E divertia-se com elas, aceitava o que lhe davam, mas não fazia promessas nem prendia o coração a nenhuma. Até que conheceu Sara. Ela parecera-lhe totalmente diferente das outras mulheres com quem se relacionara até à data, com o seu ar tímido e meio envergonhado. E ele ficara tão encantado que em menos de seis meses estavam casados. Fora um casamento feliz durante os primeiros anos. O casal frequentava a alta sociedade, era convidado para tudo quanto era festa, pois todos queriam contar com aquele que há três anos consecutivos, ganhava o titulo, de o melhor jogador do mundo, embora ele não se fizesse presente na maioria desses eventos, porque a vida de um atleta do seu nível, exige uma vida regrada e muita concentração durante grande parte do ano, coisa que não era compatível com uma vida de festas, como era desejo da mulher.
 Gil era perfecionista, muito rigoroso com a sua preparação física e mental, e começara uma nova época de sucesso, quando teve a primeira lesão grave, que o manteve afastado dos relvados durante mais de três meses. Fora operado ao joelho e durante o resto do tempo passara horas e horas no ginásio em exercícios de recuperação e quando chegava a casa só queria atirar-se na cama e descansar. 
Seria normal que uma mulher apaixonada, entendesse o sofrimento do marido e o apoiasse. Todavia a fama tinha dado volta à cabeça da sua mulher. Sara, preocupava-se mais com o facto de que ele não pudesse voltar a ser o mesmo jogador famoso, do que com o seu sofrimento real, embora nessa altura, ele ainda não se tivesse apercebido disso. "O amor é cego", dizem, e nessa época ele estava muito apaixonado. Felizmente todo o seu esforço foi recompensado e Gil voltou aos relvados e voltou a encantar público e críticos com a magia do seu talento, terminando a época de novo em grande. Todavia menos de seis meses depois, Gil voltou a lesionar o mesmo joelho, e o cirurgião que o operara, dissera-lhe que ele jamais seria o mesmo génio com a bola, depois daquela lesão. Poderia recuperar, podia mesmo voltar aos relvados, mas nunca mais conseguiria alcançar o mesmo nível, que tivera até aí. Consciente disso, depois da recuperação, Gil decidiu abandonar o futebol. Queria que, quando se lembrassem dele, se recordassem do extraordinário jogador que fora, e não acabar a carreira arrastando-se pelos relvados, em exibições medíocres como já vira acontecer com outros atletas. 
Sara não aceitou bem a sua decisão. Ela gostava da sensação de se sentir invejada, quando aparecia em público, e era fotografada para tudo quanto era revista, como a mulher do famoso Gil Gaspar, e receava que depois do seu abandono, a vida já não tivesse o mesmo brilho que até aí.  Ele, porém, estava decidido e nada nem ninguém o podia demover. Felizmente estava a poucos meses de terminar o contrato, e, ainda em tratamento de recuperação, informou o seu agente que se ia retirar logo que terminasse o contrato.
Com o futuro não se preocupava, pois acumulara uma boa fortuna, não só como jogador, mas também dando a cara em campanhas publicitárias que lhe renderam muito dinheiro.



20.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVIII


- Em Londres, para cortar todos os vínculos com o passado, pus de parte o Rui, e adotei o meu segundo nome como principal. Com formação em economia, inglês e alemão,  pouco tempo depois, estava empregado numa multinacional, e muito bem remunerado. Continuei a estudar os movimentos das empresas e a investir na bolsa. Ganhei muito dinheiro. Em menos de dois anos mais que tripliquei o meu pecúlio. Era já uma fortuna considerável. Então comprei a primeira empresa. Uma pequena firma de indústria transformadora, em vias de falência. Recuperei-a e fiz dela uma empresa de sucesso. Depois dessa vieram outras. Todas prosperaram e são hoje uma fonte de riqueza. Penso que se fiz alguma coisa de jeito na vida, foram essas reestruturações e revitalizações de empresas. Estavam para fechar, iam despedir todo o pessoal. E graças a mim salvaram-se, e ninguém perdeu os seus empregos. 
Fez uma pausa. Era visível que aquelas recordações lhe provocavam grande sofrimento. 
- Dizem que dinheiro atrai dinheiro, e talvez por isso eu fui capitalizando cada dia mais. Pena que a minha mãe, não tenha vivido o suficiente para usufruir dele. No fundo ela foi a grande vítima. Primeiro do meu pai, e depois do seu amor por mim. Um amor que a levou a assumir uma culpa que não era sua, e lhe deu cabo da saúde e da vida. Por minha culpa.
A voz extinguiu-se-lhe num soluço.
-Não foi culpa tua, Rui, não foi - sussurrou Teresa apertando-lhe a mão.
Após um curto silêncio, ele continuou:
- É tudo Tê. Falta só dizer-te que é bem verdade que o dinheiro não dá felicidade.Sinto-me vazio. A solidão nunca foi uma companheira amorosa. Amarga os meus dias, e aterroriza hoje as minhas noites, quase tanto, quanto o meu pai o fazia outrora. Os dois anos mais felizes da minha vida, foram os que partilhamos. Nunca, nem antes nem depois de ti, uma mulher me fez sentir, tão completo como tu. E ontem, o meu coração quase explodiu de felicidade, quando descobri que me deste um filho. Mas não podia apresentar-me a ele, sem primeiro despir a alma, das negras recordações que carrego. Queria e precisava, ir para ele de espírito limpo. Consegues entender-me? – Perguntou fitando-a com ansiedade.
Ela continuava sem palavras.  Esmagada pelo sofrimento que via nos olhos dele. E ao mesmo tempo maravilhada, pela sinceridade masculina. Limitou-se a um aceno de cabeça.
- Casa comigo, Tê! E se esta ânsia de estar contigo, o resto da minha vida, se este desejo de vos proteger, e fazer felizes não é amor, ensina-me a amar-vos.
Ela tinha-lhe dito que tinha de ganhar a sua confiança.  Mas o que ele acabara de fazer, era a maior de todas as provas de amor. Finalmente, o homem deixara de ser o desconhecido, a quem tudo dera, sem nada receber em troca. Abrira-lhe as portas da sua alma. Mostrara-lhe quão vulnerável e sofrido era. E com isso matara todo o ressentimento, que ela experimentara.  Sentiu que o destino lhes estava a dar uma segunda oportunidade de serem felizes. 
Com os olhos rasos de água, e o coração exultante de alegria, fitou o rosto ansioso dele, e sem deixar de o olhar, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-o.
Maravilhado, ele retribuiu ao mesmo tempo que a abraçava.
Com a emoção à flor da pele, beijaram-se intensa e apaixonadamente. Era o reencontro de duas almas, livres de todos os obstáculos que outrora as mantiveram separadas, querendo apagar todo um passado de sofrimento. Mas quando a boca masculina roçou o pescoço feminino, a a mão dele acariciou o tecido sobre o seu seio, o corpo ansiando por algo mais, ela afastou-o suavemente dizendo:
-Hoje não, Rui. Vem. Vamos buscar o nosso filho.


13.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIII



Rui saiu dali tão trémulo, como se estivesse embriagado. Sentimentos contraditórios, misturavam-se-lhe no peito, apertavam-lhe o coração. Era pai.
E à alegria que enchia o seu coração, sobrepunha-se o remorso pelo abandono a que condenara mãe e filho, por causa da sua ambição.
Percebia agora que agira muito mal. Que Teresa devia ter sofrido muito, com a sua ausência. Afinal era quase uma menina, ainda estudava, e tinha-se visto sozinha com um filho nos braços. Mesmo que tivesse tido a ajuda da família, ( e não era certo que a tivesse tido,) enfrentar uma gravidez e assumir um filho sozinha, teria representado além do sofrimento uma enorme carga emocional e material.
Ela tinha razão. Ele aproveitara-se do seu amor, mas não lhe dera nada de si em troca.
Ah! Se ele pudesse resgatar o passado. Se ele pudesse voltar no tempo.
Passou a mão pela testa.  
Tinham que casar. Ele queria dar ao filho tudo, a que ele tinha direito. O seu apelido, amor, compreensão, dinheiro. Mas se o filho era muito importante, reconhecia agora que Teresa, não o era menos. Ele sabia bem, quantas vezes sonhou com ela naqueles oito anos. Quantas vezes, desejou tê-la a seu lado.  Quantas vezes a buscou nos encontros fortuitos com outras mulheres,que sempre lhe deixavam um travo amargo na boca e uma sensação de vazio na alma. Hoje, tinha a noção da grandeza do seu amor por ela.
Porém conhecia-a bem. Teresa até era capaz de aceitar que ele desse o nome ao filho. Que a ajudasse, pelo bem do menino. Mas isso não significava que lhe perdoasse, muito menos que quisesse casar com ele. E ele tinha consciência de que a vida sem ela, não teria qualquer sentido.
E o filho? Iria entender, porque não tinha tido o pai junto de si, durante aqueles anos?
Como fora estúpido. Trocara  a emoção e alegria do nascimento do filho, o assistir às suas gracinhas, aos seus primeiros passos, às primeiras palavras, às suas risadas e ao choro, pela ambição. 
Deambulou pelas ruas, amargurado. Tinha na sua frente o maior desafio da sua vida. E para grandes males, grandes remédios, era o que sempre lhe dizia a sua mãe. Por fim regressou a casa.
Uma vez em casa, dirigiu-se ao móvel e tirou o saco preto onde guardava os ténis. Retirou também um álbum antigo com capa castanha com desenho de  folhas gravadas. 
Levou as duas coisas para cima da mesa e sentou-se no sofá. 
Abriu o álbum e foi virando as folhas absorto. Como se estivesse olhando muito para além delas, um qualquer ponto, preso no seu passado, mas de forma inconsciente, sempre presente, e  pronto a desabar sobre ele a  qualquer momento.
Que imagens terríveis, ocupavam a sua mente? 
Por fim fechou-o e colocou-o de novo em cima da mesa. Era urgente  fazer a travessia, rumo ao coração de Teresa. Mas para isso, precisava encontrar a saída do labirinto em que se metera.  Recostou-se no sofá. Lentamente a sua expressão de sofrimento foi-se suavizando.
Encontrara o caminho. A decisão estava tomada. 
 E ele sabia que era a mais importante de toda a sua vida.

5.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVI





Abriu a porta, entrou e como era seu hábito, cerrou-a com um toque de calcanhar. Tirou o telemóvel do bolso do casaco, despiu-o e pendurou-o no bengaleiro. Então reparou num papel em cima da mesa de entrada. Aproximou-se, e verificou que se tratava da fatura de uma compra de produtos de limpeza, que a mulher-a-dias lhe tinha deixado.
Há anos que tinha aquela empregada, era pessoa em quem tinha confiança total. Tinha cuidado da sua mãe, e anos mais tarde, quando comprara aquela casa, contratara-a com a certeza de que podia estar descansado que a casa estaria sempre impecável.
Raramente a via, ela chegava sempre depois dele ter saído. Levantava a chave no condomínio e voltava a deixá-la lá, quando se ia embora. No final de cada mês, ele deixava o dinheiro ali, e o recibo que ela assinava e deixava no mesmo sitio. E quando era necessário fazer alguma compra, fazia-a e deixava-lhe ali a fatura. No dia seguinte encontrava o dinheiro. 
Foi até à sala, e deixou-se cair no sofá. Não parecia o homem forte e dominador que geria com mão de ferro, os seus negócios. Dirigiu-se à estante mas não pegou em nenhum livro. Ficou parado durante uns segundos, e depois, abriu o armário que ficava na parte inferior da estante, e retirou um saco de pano preto com uns desenhos circulares em cinzento.
Voltou para o sofá. Abriu o saco e retirou uns ténis infantis, azuis-escuros com estrelas nas laterais.
Durante uns momentos, deu-lhes várias voltas nas mãos. Estava pálido, e o seu rosto estava tão tenso que  dir-se-ia  ser de pedra.
Depois pressionou-os contra a palma da mão, e os ténis faiscaram como se tivessem uma corrente luminosa à volta da sola.
Decorreram largos minutos, com o homem fixando as luzinhas como se estivesse hipnotizado. Finalmente abrandou a pressão, e ao apagarem-se as luzes, como que voltou à terra. Respirou fundo e voltou a guardar os ténis no saco de pano.
Se alguém tivesse presenciado aquela cena, decerto ficaria perplexo. Como é que um homem, que todos conheciam como um implacável homem de negócios, ficava assim emocionado à vista de um simples par de ténis?  Que fetiche era aquele?
 Recostou a cabeça no enorme sofá branco, fechou os olhos, e durante um bom tempo, permaneceu assim, relembrando os dois anos que vivera com Teresa. Agora, à distância, dava-se conta de que aquela época da sua vida  fora a única realmente feliz que vivera. Agora que cumprira as juras de criança, que a ambição de riqueza já estava aplacada, chegava à triste conclusão que toda a fortuna amealhada, não servia para comprar um único dia de felicidade.  E afinal para quê? Se a única pessoa a quem gostaria de dar uma vida de luxo, não tivera forças para viver até esse dia.

13.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVIII




Calou-se por uns segundos, como se passados todos aqueles anos, as recordações continuassem a ser muito dolorosas.
Ela sentiu vontade de se levantar, e de o abraçar fortemente, para mitigar aquela dor. Mas quando se aprestava para o fazer, ele retomou a palavra.
-Há coisas de que um homem não consegue falar, porque a dor lhe trespassa  o coração e a vergonha lhe rasga as entranhas.
Calou-se de novo por alguns segundos, passou a mão pelo cabelo e retomou a palavra.
 E então contou  como após o divórcio, se sentia motivo de troça de todo o bairro, de como isso destruíra a confiança em si próprio e nas mulheres, e dos cinco anos que passou em Luanda, trabalhando que nem um doido, tentando não só esquecer o passado, mas também juntar o máximo de dinheiro que lhe permitisse montar a sua empresa. 
Falou-lhe do seu primeiro carro que tinha de conduzir de dia, enquanto terminava o curso que abandonara quando casara. Falou dos pais, do irmão, da morte dos progenitores, enfim de tudo o que acontecera com ele até ao momento em que recebera no escritório a carta dela.
Mergulhado no mar tenebroso das lembranças, não deu pela aproximação da mulher, senão quando os braços dela o enlaçaram pelas costas e lhe disse:
- Perdoa, não queria fazer-te sofrer.
Voltou-se e segurando-lhe o rosto entre as mãos, disse:
- Não há nada para perdoar, Isabel. Tens razão, sempre a tiveste. Não podemos querer, que alguém retribua o nosso amor, se não deixamos que essa pessoa o descubra e nós próprios fazemos tudo para não acreditar nele .
- O que queres dizer com isso? - perguntou trémula.
-Vem, vamos sentar-nos e esclarecer tudo o que há para esclarecer de uma vez - disse pegando-lhe na mão e reconduzindo-a ao sofá.
Sentaram-se ambos lado a lado, mas não abraçados. Ricardo não queria perder a cabeça, antes de ter mostrado tudo o que lhe ia na alma, para que nunca mais houvesse uma dúvida a separá-los.
- Impus a mim mesmo duas regras de ouro. Nunca mais fazer sexo com ninguém sem proteção, e nunca mais entregar o coração a mulher alguma. Aproveitaria da vida as oportunidades que ela me desse e era tudo. Por isso eu nunca poderia ter-me envolvido com a Susana. Ela estava na idade em que eu fora enganado, e sei melhor que ninguém a marca que um desengano nessa idade pode deixar.
Quando fiz o teste do ADN, e descobri que a Matilde era minha sobrinha, decidi que ela tinha que ser minha. De um modo que não sei explicar, amei-a imediatamente. Era como se aquela outra criança que tanto amei e nem cheguei a conhecer, viesse agora para os meus braços. Porém eu não queria tirar-ta, e tu não te separarias dela. Estava num impasse quando o Artur me aconselhou a pedir-te em casamento. Hesitei. Tinha medo do que esse casamento me podia trazer. Tentei manter o coração à margem e guiar-me apenas pelo desejo que despertaste em mim. Mas ainda assim prometi a mim mesmo que tudo faria para que a nossa relação fosse agradável. Mas tu não ajudaste muito. Não aceitavas nada do que te oferecia, e aos poucos ias-te afastando de mim. Do modo que amavas a Matilde, sempre pensei que querias ter filhos e esperava que um dia me viesses dizer que estavas grávida.
 Eu não sabia que tomavas a pílula, e fazíamos amor praticamente todos os dias, mas nunca engravidaste. Comecei a pensar que era estéril, e mais dia, menos dia, ias descobri-lo. Cheguei a pensar que já o sabias e era por isso que ias perdendo a alegria e a naturalidade. E foi nessa altura que me dei conta de como te amava e de que ficaria destruído se te perdesse. 
  

8.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIV




-Como é que estão as coisas na firma, - perguntou a jovem à madrasta.
-Com dificuldade, mas o Jorge está confiante de que vão melhorar em breve.
As duas encontravam-se sentadas à mesa do restaurante, aguardando que o empregado lhes trouxesse o polvo à lagareiro que tinham pedido para o almoço.
- Tem uma venda já sinalizada e um cliente muito interessado numa propriedade que lhe vai render um bom dinheiro, - continuou Cidália. Entretanto vendi algumas das jóias que ele me foi oferecendo nestes anos, para que pudesse pagar aos empregados este mês. Porque tal como te disse ele foi devolver o cheque ao António Ferreira.
- E como é que ele reagiu? – perguntou interessada.
- Teu pai não me quis contar o que se passou. Só que deixou lá o cheque, e não quis falar mais do assunto.
O empregado chegou com os pratos e as duas aguardaram que ele se afastasse para continuarem a conversa.
-Cidália, se o pai precisar de algum dinheiro nestes primeiros tempos, como te disse eu não tenho muito, mas o que tenho está à vossa disposição.
- Obrigada, mas não será preciso. Sem a maléfica intervenção do António Ferreira, as coisas vão voltar ao que eram. Até porque a crise parece ter terminado, a procura de casas cresce de novo.
Já tinham terminado a refeição, e esperavam o café, quando alguém parou perto da sua mesa dizendo.
-Mas é a nossa amiga Paula!
A jovem olhou e viu Gabi e o marido que se preparavam para se sentar na mesa ao lado. Cumprimentaram-se de modo cordial, e Paula apresentou Cidália, aos novos amigos. Depois perguntou por Pedro.
-Está em Sintra, com o meu irmão. Adora a piscina e o tio.Temos que nos encontrar um dia, tenho tanta coisa para te contar.
- Telefona quando quiseres, - respondeu Paula, pedindo a conta ao empregado que acabava de por na mesa o café.
Pouco depois despediam-se do casal e dirigiam-se ao supermercado onde iam fazer as compras.
- Muito simpática a Gabi. Nem parece irmã de quem é, - comentou Cidália.
- Pese tudo o que ele fez ao pai, o António é uma boa pessoa. Tu não o conheces, mas eu lidei com ele enquanto preparava a festa da irmã, e tive oportunidade de o conhecer.
- Quanto entusiasmo, Paula. Se não te conhecesse diria que estás apaixonada por ele.
-Que disparate. Sabes que tento sempre ser justa. O meu pai foi muito injusto com ele. Mais do que isso, foi cruel. Daí o seu desejo de vingança. Mas como no fundo é boa pessoa, acabou por desistir.
-É isso que me admira. Tanto trabalho para desistir sem mais nem menos. Tens de admitir que é muito estranho.
-Sabes que não foi sem mais nem menos, Fizemos um acordo. Eu cumpri a minha parte, ele a parte dele, como é usual entre pessoas de bem. Já tenho tudo o que precisava. Vamos para a caixa? -  perguntou sem transição.

 



26.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXII




Eram oito e trinta e cinco quando Paula tocou a campainha da casa do pai.
-Bom dia, menina,- saudou a velha empregada que a conhecia desde que nascera.
-Bom dia, Teresa. Como tens passado?
-Como Deus quer e o reumático deixa. Mas entre. Os senhores estão à sua espera?
- Não, mas não te preocupes. Eu conheço bem a casa e os costumes do meu pai. Estão na sala?
- A tomar o pequeno-almoço. A menina toma alguma coisa?
-Não, obrigada. Podes voltar aos teus afazeres.
Esperou que a empregada se afastasse na direção da cozinha e então encaminhou-se para a sala.
- Bons dias, - saudou ao entrar. Avançou para o pequeno Miguel que se voltara na cadeira e lhe estendia os braços.
- Como está o irmão mais querido do planeta, - perguntou abraçando-o. Mas porque estás já levantado? É sábado, não tens aulas hoje pois não?
-A turma vai acampar. A mãe vai levar-me à escola, e daí vamos de camioneta com o professor, - respondeu o garoto,
- Lembraste-te hoje, que tens família? – perguntou o pai  com amargura.
Paula olhou-o e admirou-se. Não voltara a vê-lo desde que estivera no seu escritório, e estava muito diferente. Tinha perdido a arrogância natural, era agora um homem triste, amargurado. 
- Embora não acredites, lembro-me de vós todos os dias. Infelizmente não posso vir sempre que me lembro ou teria de me mudar para cá, - respondeu sentando-se à mesa junto do irmão. -Vim porque tenho um assunto urgente para tratar contigo.
- Hoje é mau dia para tratar de qualquer assunto. Mas enfim, desembucha.
- No escritório, depois de tomares o pequeno-almoço,- respondeu enquanto apertava carinhosamente a mão de Cidália, o que fez com que a mesma calasse a intervenção que se preparava para ter na conversa.
O pai não respondeu. Acabou de beber o café, afastou a cadeira e levantou-se. Sem uma palavra dirigiu-se ao escritório.
- Eu não me demoro, e depois levo-te à escola , - sussurrou ao irmão antes de se levantar e seguir o pai.
- O que tens de tão importante para me dizer, -perguntou o pai assim que ela fechou a porta. – Espero que não venhas pedir dinheiro, estou completamente arruinado.
- E desde quando é que te peço dinheiro?- respondeu
Abriu a mala, retirou o envelope e atirou-o para cima da mesa. 
- Vim trazer-te isto. Reconheces o envelope?
O rosto de Jorge tornou-se lívido. Pegou no envelope, e despejou o seu conteúdo em cima da mesa. Com mãos trémulas, pegou no cheque, verificou a quantia, viu o documento da hipoteca com o carimbo de liquidado e os restantes documentos.
- Que quer isto dizer? – perguntou encarando a filha.
-Quer dizer que a “Casa Nova” é tua de novo. A hipoteca no Banco foi saldada e o cheque é o teu fundo de maneio, para que a empresa volte a ser o que era.
- Vais casar com ele?
-Não.
- Então como o conseguiste? Ele estava cheio de ódio, não te daria isto a troco de nada.
- Podia dizer-te que o bom julgador por si se julga, mas prefiro pensar que a tua capacidade para julgar as pessoas é nula. Bom, vou-me embora. Prometi ao Miguel que o ia levar à escola. Mas um dia ainda vou querer saber, o que lhe fizeste.
- Ele não te contou?
-Não. Disse-me para te dizer, que o resgate da hipoteca e o cheque te indemnizam de todos os prejuízos que possa ter-te causado e que a partir de hoje estás por conta própria, ele não interferirá mais nos teus negócios.
Voltou-se e saiu fechando a porta atrás de si. Quando chegou à sala disse a Cidália.
-Vai ter com ele. Eu levo o Miguel à escola.

3.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVI



Não era verdade. Tinha telefonado à mãe a dizer que a ia buscar às oito para jantarem juntos. E queria relembrar a entrevista dessa tarde. Paula era uma mulher muito bonita, empreendedora e muito frontal. Mas mantivera uma relação de quatro anos estivera de casamento marcado, e a poucos dias do enlace, tudo acabou. Claro, ela devia ter descoberto que estava a ser traída. 
Desde que a vira no Banco, pouco tempo depois do seu regresso, que sempre que imaginava uma companheira para a sua vida, lhe dava o nome e o rosto de Paula. Conseguiria algum dia, fazer com que ela olhasse para ele com amor? Depois do que ele lhe fizera ao pai ? Decerto que não. Mas podia ele esquecer o que tinha sofrido por causa da acusação do pai dela? A mãe, a irmã e o cunhado, pensavam que ele devia esquecer. Afinal se não fora essa acusação ele teria ficado no País, levado uma vida medíocre, não conheceria o Júlio, não teria sido desafiado a jogar e não teria a vida que tinha. A mãe costumava dizer que há males que vem por bem. Talvez tivessem razão mas ele não pensava assim. Como a polícia não encontrara os meliantes que o tinham assaltado nem recuperara o dinheiro, a suspeição ia sempre pesar sobre o seu nome.E um nome sem mácula, era para ele mais importante do que todo o dinheiro do mundo. Olhou o relógio. Quase sete e meia. Fechou o computador, e levantou-se. Vestiu o casaco, verificou se tinha as chaves no bolso, e saiu fechando a porta atrás de si. Os empregados já tinham saído todos. Saudou o segurança ao passar pelo átrio e entrou no seu carro que era o único ainda no parque.
Dez minutos depois tocava a campainha da casa da mãe. Um modesto andar num prédio antigo, a casa da sua infância. Anos atrás, quando regressara, quisera comprar-lhe uma casa nova com outras condições de habitabilidade num bairro mais moderno, perto da filha. Ela porém recusou, como recusou viver com a filha ou com ele. Naquela casa vivera os momentos mais felizes e os mais dolorosos da sua vida. Conhecia-a de olhos fechados. Cada recanto tinha uma memória. Não, ali nascera, ali havia de morrer. Depois de muita conversa lá conseguiu convencê-la a deixar que ele mandasse fazer obras na cozinha e casa de banho de modo a torna-la mais confortável. Também lhe comprou novos sofás e um moderno televisor, mas não conseguiu convencê-la a trocar a velha mobília de quarto.
-Boa noite, mãe. Pronta para sair?- Perguntou abraçando e beijando a progenitora.
- Estou pronta, sim filho, embora não veja a necessidade de ir jantar fora. Podia preparar um dos teus pratos preferidos e ficávamos aqui os dois a conversar.
- Eu sei que a mãe não se importava, - disse abrindo a porta e dando passagem à idosa. Mas eu não quero dar-lhe trabalho. Já trabalhou demais em toda a sua vida, e podemos conversar na mesma no restaurante.
Abriu a porta do carro, esperou que se sentasse, sem no entanto tentar ajudá-la, pois sabia que a mãe era muito independente, e não gostava de ser ajudada. Fechou a porta, quando a senhora já punha o cinto de segurança e só depois contornou o automóvel para se sentar.
Pôs o carro em marcha, dizendo:
- No fim do mês a Gabi festeja o aniversário de casamento. Vou oferecer-lhe a festa que não pôde ter quando casou. Falei hoje com o Eduardo e disse-lhe que lhes vou oferecer a festa e uma semana de lua-de-mel. Ele ficou preocupado por causa do Pedro. A mãe importava-se de ficar com ele uma semana? Claro que eu ia levá-lo e buscá-lo à escola.
- Ter o meu neto comigo é sempre uma alegria. Só penso que em vez de te preocupares com a tua irmã, que já está casada, e é feliz, devias preocupar-te contigo. A vida passa a correr, um dia acordas olhas-te ao espelho e descobres que estás velho. Arranja uma boa mulher e casa-te. Decerto que deves conhecer alguma que te agrade.
- Chegámos, - disse António estacionando junto ao restaurante. Prometo-lhe que vou pensar nisso, depois da festa da Gabi,
Saiu do carro abriu a porta à mãe, e dando-lhe o braço encaminharam-se para a porta do restaurante.


Quanto ao meu olho, ele está a abrir e um dia destes eu mostro uma foto. Mas ainda está muito vermelho, e não vê. a não ser luzes, sombras e vultos difusos.  Tem dias que não tenho dores e outros que é um desespero. Continuo com as gotas de cortisona e orando para que a córnea vá recuperando. Os posts vão continuando a sair há publicações programadas até meados de Maio.  


2.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XV





Eduardo terminara o seu dia de trabalho. Antes de sair perguntou a Susana se o cunhado estava no escritório. Após a confirmação da secretária, abriu a porta e perguntou:
- Posso entrar?
- Entra e senta-te. Queres alguma coisa?
- Eu e o Júlio marcámos a escritura para o dia vinte e seis. Espero que possas ir connosco. Dia trinta é o aniversário do nosso casamento, e prometi à tua irmã que estaria cá nessa altura para uma comemoração especial.
- Bom, a respeito disso temos que conversar. Quero que essa data seja memorável para os dois. Tira uma semana de férias para poderem ter a lua-de-mel que não puderam ter na altura. É o meu presente, uma bonita festa, com renovação de votos, seguida de uma semana de lua-de-mel, no sítio que escolhas. Só gostava que não dissesses nada à Gabi, a fim de que fosse uma surpresa.
- Isso seria maravilhoso, mas e o Pedro? Não pensaste nele?
- Claro que sim. Pode ficar com a avó. Tenho a certeza de que a minha mãe ficaria encantada, e eu me encarrego de o levar e ir buscar à escola.
- É um sonho, mas um sonho muito caro.
-E para que serve o dinheiro senão para realizar os nossos sonhos? Quando vocês casaram, a minha ajuda não passou de uma ninharia. Nem sequer pude vir assistir ao casamento. Vou fazer de conta que se casam agora. Quero ver a vossa felicidade. Amanhã sem falta, traz-me a lista das pessoas que gostarias de ter presente. Decerto terei de acrescentar algumas com quem privamos mais a nível profissional, pois não seria de bom-tom ignorá-las. Não te esqueças, pois fiquei de enviar a lista para a Paula Maldonado amanhã.
- A Paula Maldonado? Meu Deus António, isto faz parte da tua vingança? Porque se assim é, não quero festa nenhuma.
-Não sejas tonto. Contratei-a, ela aceitou. Sou um cliente como qualquer outro.
- Mas arruinaste a sua família. E fizeste uma exigência absurda. Quando ela souber não quer saber de ti.
- Ela sabe. O pai contou-lhe. E disse-me na cara que não está à venda, e que um casamento sem amor é uma espécie de prostituição.
-Santo Deus. E ainda assim vai fazer a festa? Só se for para se vingar de ti, e não nos metas nisto por favor. Quero uma data feliz, não um motivo de sofrimento.
-Fica descansado que tudo correrá bem. A Paula é acima de tudo uma grande profissional, nunca faria nada que lhe arruinasse a carreira.
- Espantas-me. E o pai dela? Sabes que o Jorge Maldonado tem um filho da idade do Pedro?
- Claro que sei, investiguei a vida dele, lembras-te? Mas como sabes tu disso.
-O Pedro apresentou-mo, no dia em que fui buscá-lo à escola. Parece que é o seu melhor amigo.
- Realmente o mundo é uma aldeia. Bom vai-te lá embora, senão a minha irmã acusa-me de te escravizar. E não esqueças a lista amanhã.
-Não vens?
-Não. Ainda tenho trabalho para acabar.