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5.6.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LI

 


Intrigada, Anabela arrumou a sala, guardou a ficha do doente, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a empregada, pondo a mesa para o almoço.

- Bom dia, Isilda. Aconteceu alguma coisa especial nestes dois dias que estive ausente?

- Bom dia, Anabela. Bom foi Natal, e os pais do menino Tiago vieram passar o Natal. Porquê?

- O doutor Tiago, parece bem melhor, mais animado, mais conversador…

-Bem, isso está. Há dias que o meu Joaquim me dizia que ele estava bem melhor, já a movimentar a cadeira sozinho, e a tornar-se mais independente. Mas como sabe eu só entro no quarto quando vou fazer limpeza e isso é sempre pela manhã, ou quando está no banho ou nos exercícios de modo que nunca o vejo. Porém nestes dois dias ele veio comer à mesa com os pais, e realmente parecia outra pessoa, muito diferente de há um mês. Conversou bastante com os pais e eles estavam muito esperançosos, de que em breve o filho voltasse a andar. Por que pergunta?

-Porque anteontem quando fui embora, ele continuava com mau humor, e precisou da minha ajuda para sair da maca para a cadeira. E hoje, não só não precisou dessa ajuda, como estava bem-humorado e conversador.

- Ele soube ontem notícias de outro doutor que estava com ele, lá em África e ficou bastante contente. Mas penso que não foi esse o milagre pois ele já se mostrou simpático e bem-disposto na véspera, durante a consoada.

- Bom, vou até ao quarto, preciso mudar de roupa, e já volto para lhe ajudar.

Despejou a mochila em cima da cama, pôs de lado os dois embrulhos e guardou na cómoda a roupa que trouxera.  Depois de ter lavado a cara e o rosto, pegou nos dois embrulhos e desceu.

-Já na cozinha, entregou a Isilda um dos embrulhos, pôs o outro na cadeira onde Joaquim costumava sentar-se dizendo:

-É uma pequena lembrança de Natal.

-Obrigada. Mas não carecia de estar a gastar dinheiro connosco. E demais não comprámos nada para si.

- Mas que mais me podiam dar, se já me deram tanta atenção e carinho durante estas semanas? De resto como disse é apenas uma lembrança.

A empregada rasgou o embrulho e retirou uma bonita camisola de lã, cor de salmão.

- Obrigada. É tão bonita. E macia – disse encostando a malha ao rosto.

Nesse momento entrou Joaquim e a conversa repetiu-se. E depois de rasgar o seu embrulho, retirou um belo pulôver de lã castanho, que ele agradeceu. De seguida perguntou à mulher.

- Tens o almoço pronto para levar ao doutor?

- Tenho. É só preparar o tabuleiro.

Pouco depois ele levava o almoço ao patrão.

 

 Nota: Não estou a conseguir fazer visitas diárias, não só por causa dos olhos, como também por absoluta falta de tempo. Estamos no fim da época escolar e (da Universidade Sénior, que frequento). E até ao dia 15, há ensaios, festas de encerramento,  passeios, almoços, enfim. Por outro lado, este é também o mês em que eu e o marido, temos de fazer os exames de saúde anuais pois temos consultas a 22, 26 e 27. Comentarei sempre que possível. Provavelmente terei que fazer uma nova pausa. 

24.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVI



O resto do dia de Natal passou correndo entre a ajuda à amiga, e as brincadeiras com a afilhada. De vez em quando lembrava-se da quinta e pensava como estaria Tiago a viver aquele dia tão simbólico para as famílias. Continuaria isolado no quarto, ou estaria na sala ou na cozinha, convivendo com a família?

Nos últimos dias, tinha-se estabelecido entre os dois, uma relação doente-tratadora, bem mais agradável do que inicialmente, em que detetava no doente uma agressividade latente, embora Anabela suspeitasse que era mais contra a vida e o que lhe acontecera, do que contra ela. Todavia nos últimos dias parecia menos revoltado e mais disposto a lutar pela sua cura.

Ela soube desde início de que havia alguma coisa por trás do seu desespero e da sua vontade de desistir da vida, que não apenas ter perdido o andar. Provavelmente o desgosto de ter sido abandonado pela noiva, a poucos meses do casamento.

-Estás muito calada, amiga. Saudades do teu doutor?

-Não é o meu doutor, Paula. Nem são saudades. É um doente que eu queria ver a interessar-se mais pela sua recuperação, e que temo não conseguir tratar com êxito. Há qualquer coisa nele que ainda não consegui descobrir, que lhe tirou a vontade de viver e de se esforçar pela sua reabilitação. Talvez seja o facto de a noiva o ter abandonado na cama do hospital, a poucos meses do casamento.

Estavam os três sentados na sala. Patrícia já dormia há muito tempo, e olhando o relógio, Anabela disse:

-Meu Deus, são quase onze horas e amanhã tenho de estar na quinta antes das dez para a sessão matinal de fisioterapia. Vou levantar-me cedo, e como é sábado e vocês não têm de trabalhar, é melhor eu despedir-me já.

Levantou-se e abraçou os amigos, depois disse emocionada:

-Obrigado, por me acolherem na vossa família como uma de vós, e por todo o carinho e apoio que me têm dado. Bem Hajam!

Voltou costas sem esperar resposta, pois receava começar a chorar.

Muito cedo na manhã seguinte, levantou-se, tomou um duche rápido, limpou a casa de banho e arrumou o quarto sempre procurando não fazer muito barulho para não acordar o casal, ou a afilhada. Às sete, sem tomar o pequeno-almoço, que decidiu tomar no caminho ou até na quinta, iniciou a viagem de regresso.

 

19.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XL

 


Nos dez dias que se seguiram, até à antevéspera do Natal, a rotina dos tratamentos mudou muito. Anabela não dava descanso ao doente, mas este respondia amável a tudo o que ela lhe dizia, e por vezes até com algum humor. Anabela estava satisfeita, já via melhoras no seu estado geral e embora ainda fosse demasiado cedo para o pôr na passadeira e tentar que conseguisse dar alguns passos, notava que Tiago movimentava com mais facilidade o braço esquerdo, tinha mais força nos braços, e nas pernas, o corpo não estava tão magro e a musculatura estava voltando a evidenciar-se. Para ela era essencial exercitar e fortalecer a musculatura do doente antes de passar a outro tipo de tratamentos.

Também estava contente, porque segundo Joaquim, o doente mostrava-se mais animado, conversava mais e o empregado acreditava, que mais uns dias e Tiago seria capaz de sair enfim do quarto, quanto mais não fosse para ir tomar as refeições com eles.

Porém no dia seguinte era véspera de Natal, e ela partiria logo após terminar os tratamentos da manhã, pois iria passar o Natal com a comadre em Lisboa, e ainda tinha de comprar os presentes.

Voltaria no dia vinte e seis bem cedinho de modo a estar na quinta à hora do início dos tratamentos de Tiago, pois entendia que parte do êxito ou do fracasso de qualquer doente, estava na persistência e força de vontade com que se encarava o tratamento. 

Por isso antes de se deitar naquela noite separou e colocou numa pequena mala, algumas peças de roupa e objetos pessoais, o necessário para as duas noites que estaria fora, de modo a não perder tempo no dia seguinte.

Anabela ajudara Isilda a decorar a árvore de Natal, e a preparar a casa para receber os pais de Tiago. Não que isso fosse a sua obrigação, ou que alguém lhe tivesse pedido, mas a casa era grande, e mantê-la limpa e arrumada e ainda cozinhar era difícil e muito cansativo para alguém que já deixara os melhores anos da sua vida no passado.

Com a sua ajuda, a empregada ficava com mais tempo livre, para preparar as iguarias natalícias.

 Nessa noite, Tiago não conseguia dormir. Novamente. Mas dava as boas-vindas à insónia, porque era melhor do que sonhar. Sonhos eram uma das poucas coisas que ele não podia controlar. Eles vinham espontaneamente, penetravam seu cérebro e o envenenavam com as terríveis memórias. Pelo menos, a mente consciente estava sob seu comando. Assim depois do pequeno-almoço e antes de iniciar os tratamentos, pegou no Smartphone e mandou uma mensagem ao tio pedindo que lhe indicasse um bom psicólogo para uma consulta.

Pouco depois estava na sala para a sessão de fisioterapia, e logo depois que esta terminou,  Anabela desejou-lhe um feliz Natal, despediu-se com um abraço de Isilda e do marido, entrou no carro e dirigiu-se à cidade.


14.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXVIII

 


Quando às dez horas Anabela entrou na sala de tratamentos, Joaquim acabava de ajudar o patrão a deitar-se na marquesa e afastava-se para encostar a cadeira à parede.

- Bom dia, - saudou

Ouviu um resmungo do doente que supôs fosse a retribuição à sua saudação enquanto Joaquim saía da sala fechando a porta atrás de si.

Levou o aparelho das corrente TENS para junto da marquesa e enquanto colocava as esponjas na placa perguntou:

-Como se tem sentido. Ainda tem muitas dores? Sente ou não alguma melhora com os tratamentos que tem feito? Sei que oito dias de tratamentos, são muito pouco para o seu problema, mas gostaria de ter algo para dizer ao doutor Azevedo quando falar com ele logo.

Tiago manteve-se em silêncio.

Ela retirou-lhe a toalha e aplicou as placas nas costas, voltando a colocar a toalha sobre elas.

-Vou ligar agora, avise quando estiver com a intensidade correta.

- Está bom.

Ela parou de rodar o botão e afastou-se para a mesa de trabalho. Pegou no Smartphone e fingiu estar a falar com alguém:

-Bom dia, doutor:

Depois de um curto silêncio como se estivesse a escutar o que lhe diziam do outro lado, continuou:

- Bom doutor, não sei que lhe diga. O doente não fala comigo, nem para me dizer se tem dores, se sente algumas melhoras, se tem frio, fome, calor. Eu sei que não é mudo, por causa das duas palavras que me diz quando ligo as TENS. Mas não sei se perdeu a memória, e só lembra essas duas palavras, se está em greve de conversa, ou se com a explosão ficou surdo e não ouve as minhas perguntas.

- Não seja tonta, - disse Tiago soerguendo o tronco apoiado nos dois cotovelos, - dê-me o telemóvel que eu falo com o meu tio.

-Um momento doutor, eu ligo mais tarde, -disse ela apressando-se a largar o telemóvel e a correr para a marquesa.

-Deite-se. Não sabe que não se pode mexer, que as placas saem do lugar?

Esperou que ele obedecesse, retirou a toalha e reposicionou as placas no lugar, voltando a cobri-lo com a toalha, dizendo em seguida:

-Quando a sessão terminar vamos conversar. Penso que oito dias são tempo mais que  suficiente para me demonstrar que não gosta de mim e não me quer aqui. Aflige-me que me considere tão estúpida. Mesmo uma criança teria entendido isso em muito menos tempo. Mas quer saber de uma coisa? Isso não me interessa nada. Homens teimosos, com a mania de autossuficiência, com um ego maior, que o Monte Evereste, que não os deixa dar um ai, mesmo quando por dentro estão a sangrar de dor, já conheci muitos na minha profissão e tenho a certeza de que o doutor também. E penso que se deve ter sentido desorientado o suficiente com esses doentes, para saber como eu me sinto consigo.

 

29.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXIV

 




Nessa tarde, depois de ter ajudado o doente a deitar-se, Anabela deu início aos tratamentos isométricos, entregando-lhe dois pequenos pesos e dizendo-lhe:

- Faça duas séries de dez levantamentos. Atenção se sentir dor nas costas ou no braço esquerdo pare imediatamente.

-Deve estar a brincar, fazia cinco vezes esse peso.

-Acredito que sim. Mas o que me interessa não é o que fazia, no passado, mas o que terá de fazer agora. Como médico, o senhor sabe melhor que ninguém o estado em que se encontra, e que qualquer tipo de dor que sinta, vai agravar e não melhorar o seu estado. Por isso faça o que lhe digo e não esqueça de parar à mínima dor. Não é hora de se armar em herói.

-Tudo bem, sargento, - resmungou o doente, enquanto Anabela lhe voltava as costas, para que ele não notasse o seu sorriso.

Ela sabia por experiência própria como eram renitentes os doentes que trabalhavam na saúde, médicos ou enfermeiros. Eles sempre achavam que não precisavam de ajuda, que o que eles pensavam é que estava certo.

Tiago deu-se imediatamente conta de como os seus músculos estavam fracos ao iniciar o tratamento e verificar como era difícil levantar aqueles pesos, quando antes do acidente levantava pesos superiores, apenas com o dedo mínimo. Quando terminou as duas séries grossas gotas de suar perlavam-se a testa.

Anabela retirou-lhe os pesos e sem comentar o esforço evidente que ele fizera durante o tratamento, mandou que durante um minuto apenas inspirasse e expirasse lentamente. Ela sabia que não podia continuar com os exercícios sem que o doente descansasse e restabelecesse o ritmo cardíaco.

Com essa atitude, ganhou da parte de Tiago, que esperava uma observação jocosa sobre o seu cansaço evidente e o que afirmara anteriormente, uma nova atitude de respeito.

Depois de uns minutos, Anabela voltou a aproximar-se desta vez com uns pequenos elásticos.

Agora vamos fazer mais duas séries de dez exercícios com este elástico. Vai estica-lo enquanto se sentir confortável. À mais pequena dor, pare. Quando acabar irei fazer mobilização às suas pernas. Enquanto não fortalecer suficientemente o corpo não poderá usar os elásticos para exercitar com eles as pernas.

Mais tarde enquanto fazia a mobilização às pernas do doente, informou.

-Já dei à Isilda a lista dos ingredientes a incluir na sua alimentação. E quando terminar, vou à cidade comprar vitaminas e proteínas que considero necessárias para o ajudarem a ganhar força que o ajude a restabelecer-se mais depressa.

Ele não respondeu e pouco depois ela dava os exercícios por terminados e ajudava-o a ir para a cadeira de rodas e para a cama.

22.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXII


 


Anabela entrou na sala às dez em ponto. Sobre as calças de ganga e a blusa de malha, tinha vestido uma bata branca. Ao contrário do que esperava, encontrou o doente estendido de barriga para baixo na marquesa, o corpo nu coberto apenas por um boxer preto, enquanto Joaquim arrumava a cadeira com o robe em cima, num canto da sala. Como enfermeira, estava habituada a ver corpos com várias mazelas, mas mesmo assim o que viu deixou-a impressionada.

Bom dia! - disse enquanto abria o armário e retirava algumas toalhas que punha sobre a marquesa, ao lado das compridas pernas masculinas. Abriu uma e colocou-a sobre as costas do doente. Fez o mesmo à segunda e estendeu-a sobre as suas pernas. Se esperava ouvir o doente deve ter-se sentido dececionada, porque ele não respondeu.

- Quando acabar avise-me para que eu venha ajudar o doutor, - disse Joaquim, enquanto dobrava o robe e o punha sobre a cadeira de rodas que já tinha encostado à parede.

-Não é preciso, eu mesmo o ajudarei e o levarei para o quarto - respondeu a jovem.

O caseiro saiu e Anabela puxou uma mesinha com um aparelho de TENS(a) a fim de iniciar o tratamento. Retirou a toalha das costas do doente e colocou várias placas de indução pelas costa e braço esquerdo permitindo-se um olhar mais demorado sobre ele. No dia anterior, quando o vira na cama, não se apercebera de que era tão grande. Tinha de certeza mais de um metro e oitenta, mas estava demasiado magro, e assim seria difícil conseguir ter sucesso em exercícios que visavam estimular os músculos se eles continuavam sem força para reagir.

Já lhe devem ter feito este tratamento enquanto esteve no hospital, de qualquer modo, aviso-o, que ao ligar o aparelho vai sentir uma espécie de formigueiro. Irei aumentando a potência.  Quando achar que está bem, avise-me. Intensidade a mais ou a menos far-lhe-á mais mal que bem.

Tiago tinha decidido, que para a irritar, não lhe daria uma só palavra, mas foi obrigado a fazê-lo.

Enquanto decorriam os minutos do tratamento, Anabela disse:

- Está demasiado magro, e isso não é bom para a sua recuperação. Nunca ouviu dizer que saco vazio não se empina? Se não come o suficiente terá de tomar vitaminas. Vitamina B, Glucosamina e Vitamina D se insistir em não ir à rua. O doutor sabe disso,  melhor que ninguém. O que pretende? Remoer a dor do que lhe aconteceu, fechando-se no quarto até que o coração se canse de bater?

O aparelho desligou-se e a jovem apressou-se a retirar as placas e a trocar o aparelho de TENS, pelo de ultrassons colocou o gel condutor e durante cinco minutos circulou o Ultrassom pelas costas incidindo especialmente nos ombros.

Quando terminou, voltou a cobrir as costas com a toalha, levou a mesinha com o aparelho para junto das outras, e trocou-a pela que tinha o aparelho de ultrassons.

Enquanto espalhava o gel condutor para o ultrassom sobre a pele escura cicatrizada e  áspera. Havia uma cicatriz na zona das vertebras L3 e L4. Ali a pele estava mais lisa e tinha uma cor mais rosada. Era a cicatriz da cirurgia.

Iniciou o tratamento fazendo circular o aparelho sobre os músculos dos ombros e os que sustentavam a coluna, tendo o cuidado de não se aproximar da cicatriz da cirurgia.

Enquanto isso foi dizendo:

- Vou utilizar um esquema de tratamentos alternados. De manhã faremos a eletroterapia e terapia de calor seguida de massagem. De tarde faremos a mecanoterapia. Inicialmente não poderá fazer grande coisa, dada a sua fraqueza geral e sobretudo muscular, mas se quer voltar a andar temos que insistir nos dois tratamentos. É pena que não estejamos no Verão para utilizar a piscina que tem.

-Deve estar doida, - disse Tiago, sem conseguir conter-se. Não me seguro de pé quanto mais ir para a piscina. Só se decidisse suicidar-me por afogamento.


a) TENS A Neuroestimulação Elétrica Transcutânea (TENS, do inglês Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation)  TENS é um dos aparelhos de eletroterapia mais utilizados pelos Fisioterapeutas, sendo conhecido pelo "aparelho dos choques". TENS é uma estimulação elétrica Transcutânea, ou seja, é uma terapia que utiliza uma corrente elétrica aplicada superficialmente na pele através de elétrodos.  .

20.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXI

 



Anabela acordou sobressaltada. Sonhou que depois de muitos meses de luta constante com o doente, sem notar quaisquer melhoras, estava prestes a desistir.

Recusando-se a acreditar que o sonho podia ser um aviso do que ia acontecer, olhou o relógio e viu que eram apenas sete horas.  Saltou da cama, calçou os chinelos, vestiu o robe e foi abrir a persiana. O dia amanhecera de novo com bom tempo. Apesar do sol ainda demorar quase uma hora para aparecer no horizonte, a escuridão ia desaparecendo rapidamente e o céu até onde a serra deixava ver, mostrava um belo tom de azul. Abriu um pouco a janela e logo a fechou arrepiada com a lufada de ar gelado que entrou no quarto.

Decidida a começar a nova fase da sua vida, tomou banho, secou e prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo, vestiu-se, arrumou o quarto, pôs em cima da cama a sua bata branca e desceu ao piso inferior, sentindo o delicioso cheiro a café que impregnava o ambiente. Na cozinha Isilda preparava o pequeno-almoço.

- Bom dia, Isilda.

- Bom dia, Menina.

- Anabela, por favor. Nada de Menina. O doutor já acordou?

-Não sei. O Joaquim foi agora para o quarto, - disse pondo na mesa um prato com torradas. Não sei se gosta das torradas com manteiga ou doce, no jarro tem sumo natural, feito com as nossas laranjas, e há café na cafeteira. Ontem esqueci-me de lhe perguntar o que queria para o pequeno-almoço, mas se me disser o que costuma comer, amanhã já o farei. Agora estou à espera de que o meu homem me dê sinal de que o doutor já foi para o banho, para lhe ir limpar o quarto.

-Está tudo bem, não se preocupe. Na verdade, nunca como muito de manhã. Penso que temos de ver a dieta do doente. Se ele não tem apetite, se não come o suficiente, terá de tomar alguns suplementos vitamínicos.

- Bom dia, Menina. Apressa-te mulher que o doutor já está no banho, -disse Joaquim ao entrar na cozinha.

-Bom dia, Joaquim.  Por favor, trate-me por Anabela. Como está o doente hoje, muito rabugento? – perguntou, enquanto Isilda se apressava em direção ao quarto do doente e o marido se sentava à mesa para iniciar o pequeno-almoço.

- Não sei que lhe diga. Pela primeira vez não disse nada quando abri a persiana e puxei os cortinados para entrar a luz. Aliás não disse nada de nada. Nem sequer respondeu quando lhe disse bom dia.

- Bom, vou apanhar um pouco de ar. Pode levar-me o doente para a sala de tratamentos às dez horas?

- Claro. Mas e se o doutor não quiser ir?

- Estarei lá a essa hora. Se ele se negar a ir, avise-me.


E CHEGOU A PRIMAVERA




6.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVII

 




No resto da tarde, Anabela não se aproximou do doente tal como tinha dito, mas perguntou ao caseiro como ele estava, se tinha comido bem, e se, não se tinha queixado de alguma dor. Satisfeita com a resposta, aproveitou para dar uma pequena volta para conhecer a quinta e a paisagem dos arredores. Findo o passeio, dirigiu-se à sala de tratamentos e verificou as pomadas e linimentos que havia no armário, o gel para os ultrassons, verificando as datas de validade.

Depois abriu a gaveta da secretária e retirou a prescrição dos tratamentos a efetuar, leu-a e voltou a guardá-la.

 Mais tarde, satisfeita por verificar que tudo estava em ordem para o início do seu trabalho no dia seguinte, subiu ao quarto, acabou de arrumar as suas coisas e por fim estendeu-se em cima da cama pensando se a tarefa que ia enfrentar não era demasiado grande para ela. Cansada, da viagem e da longa caminhada acabou por adormecer.

Duas horas depois, acordou sobressaltada com as batidas na porta. Era Isilda informando que o jantar estava pronto. Anabela levantou-se foi à casa de banho, lavou o rosto escovou o cabelo e desceu. Quando ia a entrar na cozinha, Joaquim saía com o carrinho do jantar para o doente.

Ela perguntou:

- Como esteve o doente esta tarde?

- Como de costume, menina. Barafustou quando fui retirar o carrinho após o almoço porque queria o quarto às escuras,  porém seguindo as suas ordens, não o fiz.  Fechei as persianas e corri os cortinados mas só quando começou a anoitecer.

- Claro. As noites aqui são muito frias?

-São sim, menina, mas a casa tem aquecimento que o senhor mandou instalar quando a remodelou antes de ir para África.

-Bom, vá antes que o jantar fique frio.

Anabela jantou com o casal, e no fim disse-lhes que podiam ir para casa. Ela recolheria o carrinho e arrumava a cozinha. Como tinha dormido de tarde, não tinha sono.

Isilda protestou, Anabela estava ali para tratar do doutor, não para fazer aqueles trabalhos, mas a jovem manteve-se firme e eles acabaram por sair.

Ela levantou a loiça da mesa e depois de a passar por água, meteu-a na máquina. De seguida, dirigiu-se ao quarto do doente, para retirar o carrinho com a loiça do jantar, e ver se o doente necessitava de alguma coisa.

- Boa noite, - disse ao entrar no quarto

- Onde está o Joaquim? – foi a resposta obtida

- Foi para casa com a esposa.

- Porquê? Algum deles está doente? O Joaquim não me disse nada.

- Eu dispensei-os.

- Sargento novo, novas ordens na caserna, - resmungou o doente

Fingindo não ouvir, Anabela perguntou:

-Trago-lhe a cadeira para ir à casa de banho?

-Não obrigado.

Ela então estendeu uma toalha sobre a colcha e sobre ela uma bacia, a escova e pasta de dentes. Encheu o copo de água, pegou o jarro vazio, juntou-o à loiça do jantar que estava no carrinho e dirigiu-se para a porta dizendo:

-Volto daqui a pouco com a água e um copo limpo.



Então é assim. A médica de família diz que agora a RM é com o neurologista. Resta saber onde vou ter consulta já que neste momento parece não haver neurologista no Hospital do Barreiro

 

1.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXV




O quarto do doente encontrava-se quase às escuras, apesar de lá fora estar um belo dia de sol, embora frio como são os dias de Dezembro.

- Porque está às escuras? – perguntou a jovem voltando-se para o doutor Azevedo.

- Não sei. Vejo o quarto sempre assim quando o visito, e nunca me deixa abrir os reposteiros.

 Sem mesmo olhar o doente, Anabela dirigiu-se à janela e correu os pesados cortinados, deixando que a luz entrasse no quarto. Depois voltou para junto do médico e aguardou que ele a apresentasse ao doente, que se encontrava meio deitado numa cama articulada.

- Tiago, apresento-te a enfermeira fisioterapeuta Anabela Campos, que a partir de hoje, vai cuidar de ti e da tua recuperação.

- Não te chegou a experiência com as anteriores. Já te disse que não quero nenhuma enfermeira, deixem-me em paz, por amor de Deus.

-Já conversámos sobre isso, mas também já te disse, que nem eu nem teus pais, vamos compactuar com a tua autodestruição. E agora vamos almoçar. Porque não te ajudamos a sentar na cadeira e vais connosco para a mesa?

Tiago soltou uma gargalhada sarcástica e não respondeu.

Anabela fez sinal ao doutor para sair e logo que ficou sozinha aproximou-se da cama e disse:

-Sabe de uma coisa? O Tiago intriga-me. Como é que uma pessoa que sempre se notabilizou por querer melhorar a vida dos outros, não se importando de pôr a sua vida em risco, para salvar desconhecidos, não se preocupa com o mal que está a fazer aqueles que o amam? Imagina o sofrimento dos seus pais e restante família? 

Calou-se à espera de ser contestada, mas perante o silêncio do doente continuou:

Sei que fez a vida negra às enfermeiras que me antecederam e provavelmente está a pensar fazer o mesmo comigo, mas desde já o informo que a única maneira de fazer com que me vá embora, é recuperar a sua vida anterior, que é o mesmo que dizer, voltar a andar. Acredite, se os médicos dizem que o pode fazer, não me vou embora enquanto isso não acontecer, diga você o que disser. Por agora, vou deixá-lo, vou almoçar e só voltarei aqui se me chamar. Mas amanhã logo depois do pequeno-almoço começaremos com os tratamentos. Na sala ao lado se cooperar, ou aqui nesta cama se não o fizer.

Voltou-lhe as costas e preparou-se para sair.

-Feche as cortinas antes de sair, - ordenou o doente.

-Não o farei e mais, darei ordem para que sejam abertas todos os dias de manhã até ao anoitecer. E nem pense em contrariar as minhas ordens, porque tanto o Joaquim, como a mulher, foram avisados de que por agora só a mim devem obediência. 

- E se eu os despedir?

- Porquê? Porque querem o melhor para si? Seria uma injustiça que os jornais adorariam. O homem que todos admiram, o herói que o Presidente da República quer condecorar, não é mais que uma fraude, capaz de despedir empregados, porque não obedecem uma ordem disparatada.  

E sem esperar resposta, saiu fechando a porta atrás de si.

 

27.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXIV


 

 -Venha Anabela, antes de apresentá-la ao meu sobrinho, gostaria de lhe mostrar a sala de tratamento que eu e o meu irmão montámos para as sessões de fisioterapia – disse abrindo uma porta e dando-lhe passagem.

A jovem entrou e parou maravilhada. A sala era maior do que esperava, e dentro dela havia sido montado tudo o que poderia usar nas suas sessões, uma marquesa, recipiente para os calores húmidos, aparelhos de ondas curtas, de ultrassons, botas de pressoterapia, um armário com toalhas, cremes e óleos analgésicos e de massagens. Também barras de alongamento na parede e barras paralelas com base antiderrapante para começar a andar. Em cima de uma pequena mesa, uma agenda com o programa de tratamentos iniciais. Maravilhada, voltou-se para o médico e disse:

-Isto é uma autêntica maravilha. Não falta nada para a recuperação do doente. Assim ele tenha vontade de se curar.

-Vejo que está satisfeita com as condições da sala. Esta era a sala de espera, para os doentes, pois o Tiago esperava dar aqui consulta gratuita, aos doentes mais necessitados, aqueles cujos recursos são tão baixos que evitam a ida ao médico. Claro isso seria apenas no intervalo das suas estadias nas regiões mais inóspitas de África ou Asia, onde algumas ONGS atuam.

 Infelizmente nesta última missão o centro onde trabalhava foi praticamente devastado e ele viu morrer alguns dos seus companheiros, o que o deixou tão mal como as próprias lesões. Depois, ao recuperar a consciência, a noiva rompeu o compromisso no próprio hospital, quando o foi ver,  o que o tornou ainda mais amargo.

Tenho de a avisar que já lhe falei de si e ele não se mostrou minimamente interessado, em cumprir com nenhum tratamento. Parece ter perdido a vontade de viver. Mas como já lhe disse, acredito em si e na sua força de vontade para mudar as coisas. Sei que se alguém pode tirá-lo do fundo do poço onde está, esse alguém é a Anabela.  E agora, vamos vê-lo?

Anabela apenas anuiu com a cabeça. Estava emocionada. Pelo que o doutor Azevedo dizia, Tiago era um herói. Um herói destroçado, com corpo e alma em ferida, mas ainda assim um homem admirável. E ela apercebia-se que ia teria pela frente o maior desafio da sua vida. E naquele momento prometeu a si mesma, que se os médicos diziam que o doente poderia voltar a andar, ela o faria andar ou abandonaria a sua carreira de enfermeira-fisiatra.

13.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XVIII




É uma mais-valia, porque além de enfermeira, a Anabela é fisioterapeuta e essa é na verdade uma condição muito importante na reabilitação dele.  Além disso uma mulher que passou pelo que você passou, que já teve uma faca encostada ao pescoço, não se vai assustar com a diatribe verbal do meu sobrinho.

Se a Anabela aceitar, o meu irmão está disposto a pagar muito bem e você pode continuar com a sua licença sem vencimento, afasta-se daqui, de maus encontros e pode vir visitar a sua afilhada nas suas folgas.

- Mas não seria melhor, contratar um enfermeiro? Ele não se sentiria mais à vontade, com alguém do seu próprio sexo?

-De modo nenhum. Ele seria ainda mais rebelde. Que me diz?

- Preciso pensar. Profissionalmente, tentar fazer com que um doente volte a andar é um desafio que me agrada. Porém sei por experiência que os piores doentes para tratar são aqueles cuja profissão é tratar os outros. Como o doutor acabou de dizer a minha vida tem sido muito dura e a verdade é que queria dar paz ao meu espírito, coisa que acredito, o seu sobrinho não me vai dar.  Ele já foi visto por algum psicólogo?

-Já lá foi um, que é amigo do pai, mas ele negou-se terminantemente a recebê-lo

-E não tem mais ninguém? Está sempre sozinho?

Tem a caseira que lhe faz as refeições e cuida da casa, e o marido dela que o ajuda na higiene diária. No resto do dia não sai do quarto, apesar do meu irmão ter comprado uma cadeira de rodas, ele nega-se a usá-la, está sempre deitado.

- E se eu aceitar, onde ficaria

- A casa fica numa pequena quinta nos arredores da vila. Embora antiga, tem três quartos, e instalações modernas, já que ele a remodelou, quando a herdou há três anos. Escolheria um dos quartos vagos e viveria lá. Por favor, Anabela, acredito que se alguém pode recuperar o meu sobrinho é você.

- Preciso vinte e quatro horas para pensar. Amanhã dou-lhe a resposta.

9.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX

 




Não era pois de admirar que se deslumbrasse com um homem educado e culto, como Quim. E que de seguida se apaixonasse. Por outro lado tinha bem presente a imagem de boneca da mulher loura. Ela não era assim. Não se achava feia, mas reconhecia que não era nenhuma beleza.  

O seu cabelo castanho, era  forte e ondulado, o que sempre lhe desagradou, pois  gostava mais que fosse liso, o corpo um pouco mais alto do que ela gostaria, a sua cintura não se deixava abarcar com duas mãos. Tinha um ar de mulher forte, robusta, o oposto da mulher-boneca por quem ele se apaixonara. Além disso não sabia nada sobre sedução. E se o marido sabia, e ela acreditava que sabia, não o tinha demonstrado, até ao momento.

Três semanas antes do Natal, Sofia ficou doente. Há dois dias que se encontrava constipada, tinha arrepios de frio, não se sentia bem. Mas naquela noite mal tinha passado pelo sono. Tinha fortes dores de cabeça, doía-lhe a garganta, e ardiam-lhe os olhos. De manhã tentou levantar-se mas não conseguiu. Devia estar cheia de febre. Chamou pelo marido, mas ele já tinha saído. 

Voltou a cair num estado de semiconsciência. Não soube quanto tempo esteve assim. Acordou com a necessidade premente de ir à casa de banho. Com grande dificuldade conseguiu levantar-se. Respirava com dificuldade, sentia o corpo todo dorido, como se tivesse levado uma tareia. Tremiam-lhe as pernas e tiritava de frio. Saiu da casa de banho e quase se arrastou até ao telefone. Ligou para o restaurante e pediu ao empregado que a atendeu para avisar o marido de que se sentia doente e não tinha ido trabalhar. Depois voltou para a cama. O esforço deixara-a tão cansada, que lhe parecia que ia sufocar.

Caiu de novo naquele estado letárgico de quem tem muita febre. Não soube quanto tempo passou, não tinha noção das horas.
Sentiu que alguém a chamava.  Abriu os olhos com dificuldade, e viu Quim junto à cama.

-Meu Deus, Sofia, estás a arder em febre, - estava sério, preocupado. - Vou chamar um médico, - disse afastando-lhe o cabelo do rosto.
Voltou pouco depois, com um copo de água e uma aspirina.
- Toma isto, para ver se baixa um pouco a febre, enquanto aguardamos o médico.
Ela tomou o comprimido e fechou os olhos. Cada vez que tossia, era como se lhe rasgassem o peito e as costas.

9.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVI

 


Depois que os dois se sentaram, João estendeu ao irmão a carta da mãe que ele leu em silêncio.

-Uma carta sincera e emotiva tal como ela era. E que diz muito do amor que te tinha e de quanto sofreu a vida toda, por ter de te deixar. Sabendo que vinhas hoje, trouxe-te um álbum de fotografias, - abriu a gaveta, retirou o álbum e estendeu-lho.

João abriu-o e viu na primeira página a foto de uma jovem morena de baixa estatura. Tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt branca. Tinha um ar sério, ou triste.  Depois uma foto dela com um homem alto. O homem sorria abertamente, mas a jovem continuava com o seu ar sério.

-É a única foto que tenho dos meus pais, - disse David. E nem me lembro dele, morreu quando eu era ainda um bebé. Não havia outras fotos dele, e um dia perguntei à mãe porquê. Ela disse-me que logo depois o meu pai adoeceu e nunca mais quis ser fotografado. Queria que eu o recordasse sempre como o homem alegre e feliz desse dia. Até há pouco tempo pensava que essa, fosse a fotografia do casamento deles, mas hoje sei que ela nunca casou. O marido nunca lhe deu o divórcio e como o meu pai já tinha morrido, ela não se preocupou. Depois há essa foto dela grávida de mim. E por último são fotos minhas e dela comigo. Verás que em nenhuma delas, mostra um ar alegre e feliz como é habitual nos momentos de intimidade entre mãe e filho. Lembro-me de escrever um dia, numa composição sobre a mãe, na escola, que a minha mãe, era uma mulher muito triste, porque sentia muitas saudades do meu pai. Hoje ambos sabemos que não era por saudades dele que ela era assim, embora tenha gostado dele, porque ele a amou e lhe deu um lar, evitando-lhe o desespero que a podiam ter matado.

-Obrigado, por me teres deixado ver estas fotografias. Não sei que pensar do meu pai. Quero acreditar que ele era um homem mentalmente muito doente, porque se não foi por doença, então tenho de pensar que ele era um monstro, que me roubou não só o amor dela, mas toda uma infância normal, e me imbuiu o espírito de ideias que me fizeram crescer e tornar-me um homem cético, em relação ao amor e descrente da lealdade das mulheres. Acreditas que me fez acreditar que a mulher o deixou, porque era uma espécie de ninfomaníaca capaz de seguir qualquer um que lhe permitisse satisfazer os seus inconfessáveis desejos? Isso fez com que crescesse a odiá-la. E com que nunca até agora tivesse olhado para uma mulher sem pensar no que ele me dizia.

-Percebo que a tua vida não tenha sido fácil, mas agora que sabes a verdade, tenta esquecer, és jovem, bem parecido, tens uma excelente situação financeira, ainda estás a tempo de encontrar uma boa mulher e te apaixonares.

- Penso que já a encontrei, David. O problema vai ser convencê-la. Ambos temos uma bagagem emocional péssima, e por isso ambos nos tornámos incrédulos em relação ao amor, à lealdade do sexo oposto, e ambos tínhamos decidido que não daríamos a ninguém o poder de nos fazer sofrer.  É uma história complicada que te contarei se tiveres tempo e paciência para me ouvires.

-Sou um homem muito paciente e tenho todo o tempo que precisares  para te ouvir. Levei trinta anos sonhando como seria bom ter um irmão.

E então João contou-lhe tudo. Desde o cancro no testículo, a reserva de esperma para o futuro, na clínica de Procriação Medicamente Assistida, e  o que lhe tinha acontecido ultimamente, desde que recebera o telefonema da clínica, dando conta do erro cometido, até à emoção do dia anterior, quando a médica lhe mostrou os três minúsculos pontos no ecrã e ouviu o bater dos corações dos seus filhos.

 

12.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVIII



Luísa acordou com a cabeça pesada. Dormira pouco e mal, preocupada com o desconhecido, levantando-se algumas vezes durante a noite para verificar o seu estado.
Saltou da cama, tomou um duche vestiu-se e foi à cozinha, precisava de uma dose de cafeína que a despertasse por completo. Depois iria ver como estava o doente. O doutor Fonseca dissera que voltava de manhã e decerto o faria antes de ir para o seu consultório.
Fez um café bem forte e bebeu-o deliciada. Nada na vida lhe dava mais prazer do que um café bem forte pela manhã. Especialmente quando se levantava com dores de cabeça, como era o caso.
Depois foi ao quarto ver como estava o doente. Encontrou-o muito melhor e a querer levantar-se. Era como se com a transpiração que tivera de noite, tivesse expulsado a doença. Pôs-lhe o termómetro e verificou que não tinha febre.
- Graças a Deus está bem melhor. Pregou-me um susto. Mas não se vai levantar enquanto o doutor Fonseca não vier vê-lo, vou preparar-lhe o pequeno almoço para que possa tomar a medicação.
Torradas e café, ou prefere outra coisa?
- Uma torrada está bem. Na verdade, não sinto fome.
- Teve febre alta, é normal que não lhe apeteça comer, mas precisa fazer um esforço. Daqui a pouco o doutor Fonseca está aí e fica zangado se eu lhe disser que não comeu.
Com efeito pouco passava das nove e meia quando o doutor chegou. Depois de um cuidadoso exame ao doente disse:
- Meu amigo, estou francamente admirado. Nunca vi um doente no seu estado que tivesse recuperado antes de três a cinco dias. Estou em crer que o meu primeiro diagnóstico estava incorreto. Apesar dos seus sintomas serem em tudo semelhantes aos de uma gripe, o problema seria antes um resfriado, agravado pelo stress emocional da perda de memória. Só assim se explica o desaparecimento de todos os sintomas em tão curto espaço de tempo.
- Quer dizer que não corro perigo se sair desta cama?
- Talvez. Mas diga-me, continua sem se lembrar de nada?
- Nada, doutor. É como se uma borracha tivesse apagado toda a minha memória.
-E dores de cabeça, náuseas, tonturas, visão dupla. Sentiu?
- Dores de cabeça, ontem até meio da noite. Hoje já não.
- Muito bem. O período mais perigoso para um possível traumatismo craniano já passou, mas até que faça as 72 horas, quero que avise imediatamente a Luísa, se sentir algum desses sintomas. Entretanto pode levantar-se e fazer a sua vida normal. Continue a medicação mais um dia, por precaução. 
O homem esboçou um esgar trocista. Ele sabia lá o que era a sua vida normal. Ele nem sequer sabia qual era o seu nome!
- E continuo a pensar que devia ir ao hospital, e fazer alguns exames para tentar descobrir o que lhe provocou essa amnésia - disse o clínico ao despedir-se.
Saiu, e ele levantou-se em seguida. Precisava com urgência de um bom duche que lhe tirasse do corpo aquele cheiro a suor, que parecia ter-se entranhado na pele. Ouviu que o médico falava com a dona da casa. Ela não era uma grande beleza, mas o seu rosto redondo, os cálidos e expressivos olhos castanhos, a boca bem desenhada, o nariz ligeiramente arrebitado, o corpo pequeno, mas bem proporcionado tornavam-na uma mulher bonita e interessante. Todavia, não era apenas o aspeto físico que a tornavam tão atrativa. Era qualquer coisa de sublime, que transparecia no seu olhar e que ele não sabia identificar, mas que sentia, lhe ia direto ao coração.