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18.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE VII

 



Uma hora depois, Anabela saía de Lagos em direção à capital. Enquanto conduzia, as recordações dos últimos doze anos, passavam-lhe pela mente como uma fita cinematográfica. Lembrou de quando finalmente conseguiu o emprego na clínica. Acabara despedindo-se de dona Ema e do marido com tristeza, pois nos dez meses que levara na sua casa, o seu coração sedento de carinho, fora conquistado pelo trato familiar com que os idosos sempre lidaram com ela.

Infelizmente, o emprego não lhe permitia continuar a dar-lhes a assistência que eles precisavam, mas permitiram que ela ficasse lá em casa até que arranjasse um quarto, coisa que aliás conseguiu rapidamente, pois três dias depois, no seu novo emprego.

 Em conversa com Paula, a colega da receção, soube que esta vivia num apartamento que dividia com uma enfermeira, e uma estudante de enfermagem.

 Porém no mês anterior, Joana, a enfermeira, casara e fora-se embora. E a renda ficara  mais onerosa, para as duas. Por isso preparava-se para pôr um anúncio para alugar o quarto livre. Claro que Anabela imediatamente aproveitou a oportunidade, e no fim de semana seguinte despediu-se do casal e mudou-se para o apartamento.

Porém durante os anos seguintes, enquanto o casal foi vivo, Anabela não deixou de os visitar, pelo menos uma ou duas vezes por mês. Porque ela era agradecida a todo o carinho com que sempre a trataram.

 Na nova morada, rapidamente se ajustou com a rotina de uma casa habitada por três pessoas, sem outros vínculos, que o companheirismo. A empatia entre ela e a colega Paula foi quase instantânea. Com Matilde a jovem estudante de enfermagem, foi um pouco mais demorada, mas ao fim de seis meses, as três eram amigas e confidentes. Matilde terminou nesse ano os estudos e pouco depois estava a trabalhar num hospital particular.

Anabela gostava do seu trabalho, mas queria mais. Gostaria de passar da receção para o tratamento das pessoas. Depois de falar com alguns colegas, e saber tudo sobre o curso, decidiu matricular-se na Universidade, no Curso pós-laboral pensando dedicar-se de alma e coração aos estudos.

A meio do terceiro ano do Curso de Fisioterapia, a agência imobiliária conseguira finalmente vender a casa, precisamente a uma empresa que se dedicava ao turismo rural.

Quando assinou a escritura e se viu dona de tanto dinheiro, ela que nunca tivera nada, decidiu aplicar uma boa parte desse dinheiro em ações de empresas que lhe garantiam um bom ganho, bem como em títulos do tesouro. O restante deixou numa conta à ordem, decidida a iniciar o Curso de enfermagem no próximo ano letivo.

Afinal a saúde era a sua área de preocupação, e tratar dos outros a sua vocação. No ano seguinte acabaria o Curso de Fisioterapeuta, os dois cursos tinham algumas disciplinas iguais e se ela não trabalhasse e se dedicasse inteiramente aos estudos, poderia iniciar o Curso de enfermagem diurno ao mesmo tempo que terminava o outro de noite. Afinal nos testes ao QI que a “avó” Arminda insistira para ela fazer, no último ano do Secundário, não lhe disseram que o seu QI era de 140?

Contou os seus sonhos às duas amigas e companheiras e tanto Paula, quanto Matilde a encorajaram a realizá-los.

6.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVII

 






No fim de semana Laura andou num redopia entre a ansiedade de Matilde, cujos pais regressavam da lua-de-mel, a persistência da mãe, que insistia em que era mais que tempo de terminar o luto e dar um novo rumo à sua vida, a chegada dos noivos, o jantar de comemoração num restaurante da moda, oferecido pelo padrinho e a preparação mental para a separação do filho, Miguel, que ia para a creche no início da semana, além do emprego que ia iniciar e que a ia por em contacto diário com Fernando com quem toda a família parecia querer vê-la casada.

No Domingo, teve oportunidade de uns momentos a sós com a cunhada, com quem desabafou um pouco das suas preocupações.  Na verdade, ela e Lena, sentiram uma empatia imediata, no dia em que se conheceram e depressa se tornaram amigas.

- Não vejo razão para estares preocupada, - disse-lhe a cunhada. Afinal o trabalho é decerto bem mais fácil do que preparar uma aula para mais de vinte alunos. E, segundo sei vocês conhecem-se de toda a vida, o Fernando pelo que tenho observado é educado e simpático. Do que tens medo? Dele ou de ti?

- Na verdade, não sei. Como dizes conheço-o de toda a vida, fomos amigos de brincadeiras, sempre o olhei como um irmão. Quando fiquei viúva, ele foi um apoio muito importante, principalmente para a Sara, que adorava o pai e a quem eu, devastada pela minha dor, reconheço não ter apoiado tanto quanto devia. Um dia, surpreendo o Fernando olhando-me de uma forma estranha. 

Olhava-me como um homem olha para uma mulher que deseja. Fiquei escandalizada e disse-lhe a Sara já estava melhor e que o Miguel precisava de toda a minha atenção e pedi-lhe que não voltasse.

 Ele afastou-se, mas de súbito os meus pais e o teu marido, começaram a dizer-me que tinha de tentar esquecer o Quim e recomeçar a minha vida, que os meus filhos precisavam de uma figura masculina, que o Fernando era uma ótima pessoa e seria um bom pai para os meus filhões etc. E quanto mais a família insistia nisso, mais eu me agarrava às memórias do Quim e mais raiva desenvolvia em relação ao Fernando. Consegues compreender-me?

- Caro que sim. Afinal eu vivi apenas um mês com o teu irmão, pensei que ele me tinha abandonado porque nunca me amara, e não consegui esquecê-lo nos catorze anos que não soube nada dele. Felizmente os meus pais sempre respeitaram a minha decisão de não querer saber de outro homem até à maioridade da Matilde. 

Talvez isso fosse uma desculpa porque lá bem escondido num cantinho do coração eu tivesse o sonho de voltar a encontrar o Gonçalo e recuperar o amor que nos tinha unido. O teu caso é diferente. Por muito que tenhas amado o Quim sabes que está morto, e não tens a ilusão da sua volta. Podes e deves seguir em frente, refazer a vida, com o Fernando ou com qualquer outro, se apenas consegues ver o Fernando como irmão. Afinal tens apenas trinta e três anos.   

- Que às vezes me parecem sessenta…

-Eu sei, o sofrimento faz-nos sentir assim.

23.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XII

 


Rolou na enorme cama de casal. Quim fora um homem muito apaixonado e talvez porque durante dez anos experimentara as delícias do amor, para ser sincera consigo própria sentia a falta de um companheiro.

Afinal tinha trinta e três anos, era uma mulher jovem e saudável, o seu corpo sentia a falta das carícias de umas mãos e uma boca apaixonada.

Sabia que Fernando a desejava, tinha-o lido nos seus olhos há quase dois anos e por isso mesmo o afastara. Quim tinha falecido há meio ano, ela sentira-se ofendida, como se estivesse a atraiçoar a memória do marido.

Agora Gonçalo tinha-lhe pedido para ele levar as meninas à escola e isso obrigava-a a uma convivência que a estava a desorientar.

Depois havia aquela proposta de emprego temporário. E ela ficara desgostosa ao não conseguir vaga para lecionar naquele ano letivo. Não que ela precisasse de emprego para viver, felizmente a sua situação económica, não era problema. A casa estava paga, e tinham recebido uma herança razoável quando a tia-madrinha de Quim morrera, além das próprias economias do casal. Podia continuar em casa, mas agora que o filho ia entrar na creche a solidão ia ser ainda maior.

Pensando nisso, aquele emprego podia ser uma boa ideia. O pior é que desde que voltara a ver Fernando, todos os dias, e especialmente depois das conversas trocadas, ela sentia-se cada vez mais inquieta na presença dele e receava que essa inquietação aumentasse com a convivência diária no consultório.

Todavia sabia que o psiquiatra tinha fama de ser um dos melhores profissionais da cidade, logo ele não iria misturar os seus possíveis desejos com o trabalho.

 Devia ou não aceitar a proposta de Fernando?  Bom o melhor seria aproveitar os dias que os pais estavam lá em casa, para ir até à clínica, falar com a sua assistente, saber em que consistia exatamente o seu trabalho, ver se o horário era compatível com ir buscar o filho à creche, enfim pesar todos os prós e os contras e só então tomar uma decisão.

Por fim, cansada, acabou por adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde acordou um pouco antes do relógio despertar. Saltou da cama, abriu a persiana e olhou a rua, que não obstante a hora matutinal. já fervilhava de gente que passava apressada, decerto rumo aos seus empregos.

Retirou da comoda um conjunto de roupa interior e do armário, umas calças de ganga e uma T-shirt azul, que levou para a casa de banho, onde procedeu à higiene pessoal vestindo-se em seguida.

Antigamente quando o irmão vinha buscar a sobrinha para a levar à escola, sempre a encontrava de pijama e robe, mas agora parecia-lhe que receber assim o amigo, não seria próprio e daria ideia de uma intimidade que a afligia.

Foi para a cozinha e deu início ao novo dia preparando o pequeno almoço para a filha e sobrinha.

 

28.4.21

CRISTINA

 baseado numa história real.



A década de sessenta, rinha começado há pouco, quando Cristina nasceu. Era a primeira e viria a ser a única de um casal que já não era muito jovem para a época. Hoje os tempos são diferentes, as mulheres são mães mais tarde, mas naquele tempo, raramente uma mulher, era mãe do primeiro filho depois dos vinte e cinco anos. Pouco tempo depois do seu nascimento, o pai perdeu o emprego, e passaram por um tempo de crise, já que naquela época, um homem com trinta e cinco anos, já era velho demais para a maioria dos empregos.
Enfim conseguiu um emprego e a situação estabilizou, mas o medo do futuro roubou a Cristina a felicidade de ter um irmão.
A menina cresceu assim, com todos os zelos, mimos e confortos que sempre têm os filhos únicos, mas que não compensam a alegria do abraço de um irmão ou irmã, com quem nos podemos zangar, até brigar, mas com quem sempre acabamos por dar um abraço, partilhar uma brincadeira, ou um segredo.
Muito inteligente, foi crescendo, sempre com boas notas, mas com pouca vontade de estudar. Quando completou o Ensino Secundário, deu os estudos por terminados e entrou no mercado de trabalho. Era uma jovem muito bonita, alta, morena, com grandes olhos escuros e farta cabeleira levemente ondulada, (com o que sempre embirrou pois gostava dos cabelos lisos). Pretendentes não lhe faltavam, mas nunca se entusiasmou com nenhum, vá-se lá saber porquê.
Aos vinte anos Cristina tinha tudo para ser uma mulher feliz. Era bonita, tinha um bom emprego e acabara de comprar um carro. Casamento, filhos, tudo isso estava muito distante, ela tinha uma vida inteira pela frente, tudo viria a seu tempo. Pouco depois de completar vinte e um anos, Cristina adoeceu. Fraqueza muscular, infeção urinária, visão dupla. Recorreu ao médico, fez análises, tomou antibióticos, a infeção cedeu e pouco depois estava bem. Retomou a vida normal, transformou um amigo em namorado, não gostou da transformação, mandou o namorado passear, e foi vivendo o melhor que podia e sabia, dentro dos cânones normais para uma jovem da sua idade, naquela época, com uns pais conservadores.
Dois dias antes dos vinte e três anos, Cristina voltou a adoecer. Novamente a fraqueza muscular, também tremores de movimentos, diminuição da acuidade visual unilateral. Mais uma vez recorreu ao médico que depois de repetidas muitas análises lhe disse que não encontrava nada de anormal, que provavelmente seriam nervos e lhe receitou uns “calmantes fraquinhos”
Duas semanas depois estava bem, e tudo parecia ter voltado ao normal, embora ela notasse que tinha menos força nas pernas. Os anos foram passando, Cristina ia tendo crises cada vez mais frequentes e cada vez mais intensas. Andava de médico para médico, ninguém descobria o que se passava, até que as crises, que inicialmente eram muito espaçadas, começaram a surgir de dois em dois meses, e só passavam com tratamento hospitalar.
Quando naquele dia de Março de mil novecentos e noventa e três, Cristina foi a uma consulta de oftalmologia, estava de novo com visão dupla. Tinha vinte e oito anos e há muito tempo, deixara de ter uma vida normal. O médico depois de a observar, disse-lhe que ela não tinha nada que ele pudesse tratar, mas que ia mandá-la a um neurologista amigo dele, a quem escreveu uma carta que fechou e lhe entregou.
Cristina assim fez. O neurologista depois de ler a carta, fez-lhe imensas perguntas e por fim mandou-lhe fazer uma tomografia, e uma ressonância ao cérebro.
Por essa altura, Cristina namorava já há uns dois anos, e o namorado acompanhou-a a fazer os exames.
Pouco tempo depois, os resultados ficaram prontos e Cristina foi de novo ao neurologista. Este examinou-os atentamente e depois deu o veredito. Cristina sofria de uma doença autoimune, a Esclerose Múltipla. 
Ela, nada sabia da doença mas imaginou que não seria nada bom. Pediu esclarecimentos ao médico que lhe disse tudo o que ele próprio sabia. Se hoje não se sabe muito sobre esta e outras doenças autoimunes, imagine-se naquela época.
Cristina chegou a casa, fechou-se no quarto e chorou. Chorou como nunca tinha chorado na vida. Chorou pelos sonhos, que morreram nesse dia, pela incerteza do seu futuro, pela tristeza de seus pais.
No dia seguinte, decidida acabou o namoro. Disse que nunca seria capaz de aceitar o amor de uma pessoa, sabendo que mais cedo ou mais tarde, ia fazer essa pessoa sofrer. Que não queria correr o risco de pôr no mundo um filho, que não sabia se poderia criar. E não houve quem a demovesse dessa decisão.
Durante alguns anos, Cristina manteve o emprego. Depois a empresa faliu e claro que ela não conseguiu novo emprego. Foi reformada por deficiência com trinta e oito anos.
Hoje Cristina, continua a viver com os seus velhos pais. Sofreu muito, cada vez que surgia um novo surto. Há uns anos que com a mudança de medicação, deixou de ter surtos, mas a doença continua a evoluir, embora de forma mais lenta. Apesar disso é ainda uma mulher muito bonita, apesar dos seus quase sessenta anos. Vive um dia de cada vez, como costuma dizer. Sorri com facilidade apesar de todas as provações que a vida lhe deu. De todos os sonhos que não realizou, de todas as alegrias que não viveu.


Fim


elvira carvalho


Nota: 
Em Portugal surgem 300 novos casos de EM por ano.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinal e do nervo ótico. Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.

Fui chamada para a vacina ontem, mas não ma deram.  Porque como já fiz um choque anafilático, disseram-me que só me dão a vacina com uma declaração por escrito do meu alergologista, em como a posso levar.

Para terminar o dia à beira de um ataque de nervos, uma cena de violência doméstica no terceira andar , que pareciam querer deitar o prédio abaixo e que obrigou à intervenção da polícia. Nem sei se vou conseguir dormir.

24.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Mas tem que haver alguém, que ficou com  esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe por quem, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu? Foi dele a ideia de me espiares?
- Não! Ele nem sequer sabe que deixei o meu emprego anterior, e que sou agora a sua secretária. E ele não desconfia de ninguém em particular. Fui eu que desconfiei do senhor, quando soube que tinha comprado a parte do seu sócio, pouco tempo depois, e era agora o único dono da empresa.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim - concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar seriamente em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, na segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. Quase quatro anos a lutar contra aquela dor. Anos em que se deitava e se levantava a pensar em como estaria o pai. No dia seguinte era dia de o visitar. Esperava duas semanas por aquele dia  e quando ele se aproximava ficava à beira de um ataque de nervos, por não saber como ia encontrá-lo. Era deprimente e desanimador. E o pior, era ter que fingir que estava tudo bem para que o pai não ficasse ainda mais abatido.
 Por outro lado, ter sido descoberta era como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser apanhada, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar, que só não era total, pela preocupação constante com o pai.
Mas agora tinha outra preocupação. E se Gabriel a despedisse? Atualmente havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de lhe ter dito que desconfiava dele e andara a vasculhar no seu escritório – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou um pouco  sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.



5.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE II


Naquele dia, Eva levantara-se cedo. Quase não conseguira dormir, de nervosa que estava. Tinha pedido dispensa, no emprego, a fim de tratar de alguns assuntos relacionados com a sua recente viuvez, e para ir ao escritório de advocacia. Depois do banho matinal, tomou o pequeno-almoço, meteu a mala e o saco com as roupas do falecido no carro e dirigiu-se à instituição onde ia deixá-las. Depois passou pelo orfanato onde sempre vivera, a fim de se aconselhar com a Irmã Madalena com quem sempre tivera uma relação especial, e que foi para ela aquilo que mais se assemelhava com uma mãe. 
Na verdade a jovem freira apaixonara-se por aquela bebé tão pequenina e frágil, e a tomara sob a sua proteção desde o primeiro dia. Às vezes Eva pensava, que o amor da Irmã Madalena, fora a causa de nunca ter sido adotada.
Mais calma, regressou a casa, e entreteve-se com uma breve limpeza, enquanto fazia o almoço. Mais tarde, depois da refeição, vestiu uma saia preta, que se lhe ajustava ao corpo, delineando-o na perfeição, e um camiseiro branco. Completou o conjunto com umas sandálias de salto alto e uma bolsa em tons de bege.
Não tinha por hábito, a maquilhagem que usava muito raramente em ocasiões especiais, e naquele momento não achou necessária. Demorou a encontrar lugar para estacionar, pelo que entrou na sala de recepção do escritório, apenas dois minutos antes da hora marcada. Na sala, além da recepcionista, encontrava-se um homem, de pé junto à janela, que se voltou  ao ouvi-la entrar.
Eva, identificou-se com a empregada, que pelo telefone interno falou com o advogado, e disse de seguida.
-Podem entrar. O doutor espera-os.
Surpreendida ela lançou um breve olhar para o homem que se dirigia para a porta.
Era alto, vestia umas calças de sarja bege, e uma camisa desportiva branca, cujas mangas tinha arregaçado até ao cotovelo. Não se atreveu a olhar-lhe para o rosto, mas se já estava nervosa, pior ficou naquele momento. Quem seria aquele homem e que tinha a ver com o falecido Alfredo?
Entraram no escritório, onde atrás da secretária se encontrava um homem de aproximadamente cinquenta anos, meio calvo, que depois de os cumprimentar, os mandou sentar. Abriu a pasta, e tirou de dentro dela uma carta, que entregou a Eva, dizendo-lhe que a deveria ler, após a leitura do testamento. Depois deu início à leitura do mesmo. Eva não queria acreditar naquilo que ouvia. Como fora possível que o marido tivesse deixado a sua casa, aquele desconhecido? E que raio de cláusula era aquela de que devia viver com ele, durante seis meses? Que loucura era aquela? Sentiu que uma onda de mal-estar lhe invadia o corpo, que um garrote lhe apertava a garganta impedindo-a de respirar, e teria caído no chão, não fora a pronta intervenção do homem a seu lado.


6.12.19

CONTOS DE NATAL - CARTA AO MENINO JESUS






O Francisco frequentava o terceiro ano de escolaridade com muito bom aproveitamento. Era um miúdo admirável! Já vivera razoavelmente mas, actualmente, sofria as consequências da quase indigência do pai por, no início daquele ano, ter perdido o emprego. Era um bom trabalhador, mas a oficina fechara.
Andava o miudinho muito triste e amargurado porque a fome, o frio e a tristeza eram o pão-nosso de cada dia naquela casa.
Como habitualmente, ao aproximarem-se as férias do Natal, a professora mandou que os alunos fizessem uma redacção sobre essa quadra festiva.
O Francisco debruça-se sobre o papel e, numa letra mais adulta que infantil, intitula a sua composição de APELO e escreve:
«Menino Jesus: não acredito no que tenho ouvido dizer a teu respeito, ou seja, que só dás a quem já tem, e nada dás a quem nada tem! Explico-te porquê: eu sei que são os pais a darem essas prendas e não tu, que tens mais que fazer; se fosses tu, de certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres.»
Sim, eu tenho certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres. Sim, eu tenho a certeza que seria assim, pois nunca te esqueces que também nasceste pobre e pobre morreste.
«Não venho pedir nada para mim. Quero lembrar-me que o meu pai está há um ano sem trabalho e precisa de ganhar dinheiro para nos sustentar. Por isso, não te esqueças de lhe arranjar um emprego. Eu sei que Natal quer dizer nascimento e, olha, nós também nascemos e, com certeza, não foi para que morrêssemos já, sem dar testemunho sobre a terra. Se assim fosse, como é que poderíamos dar os parabéns pelo teu aniversário?! Já agora podes ficar a saber que eu nasci no mesmo dia: nasci no Natal»
Pouco antes de as férias começarem, a professora chamou o Francisco e disse-lhe que tinha arranjado trabalho para o seu pai e, que já poderia começar a trabalhar no princípio de Janeiro do próximo ano. Foi tal a alegria dele que chorou copiosamente e, então, passou a andar tão contente, que os pais não sabiam que dizer. No entanto ele não disse porque é que andava assim.
Na véspera de Natal todos se deitaram cedo, pois a consoada consistiria em sopa e pão, por o dono da mercearia, atendendo ao dia que era, ter condescendido em acrescentar ao rol do livro da dívidas.
O Francisco não adormeceu logo. Depois de ter verificado que toda a gente estava a dormir, foi colocar o seu sapatinho à porta do quarto dos pais, com um bilhete dentro.
No dia de Natal, a mãe, que era sempre a primeira a levantar-se, ao sair do quarto tropeçou no sapato do filho. Baixou-se, pegou nele, e leu o bilhete: "Pai, a partir de Janeiro vai ter trabalho. Foi a minha professora que lho arranjou, por causa da minha redacção ao Menino Jesus. É a nossa prenda de Natal".
Com as lágrimas nos olhos, de contentamento já se vê, aquele casal entrou, pé ante pé, no quarto do filho. Ao vê-lo profundamente adormecido e a sorrir, ambos disseram: eis aqui o nosso Menino Jesus!


Lucas Hernandes  in "Deixe a folha cair"

26.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVI


– Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho licença, nem atestado médico, - disse pedindo mentalmente perdão pela mentira, mas não podia dizer a verdade à tia.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto Palmira, empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca ninguém saiu sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de se encontrar Rita, nem queria que ela o visse partir.

Chegou a casa ao anoitecer. Abriu a porta e sentiu o peso da solidão. A primeira coisa a fazer, era telefonar à mãe e pedir para ela regressar no dia seguinte. Teria que dar uma desculpa convincente, para aquele regresso inesperado pois nessa mesma manhã, quando lhe telefonara, não dissera que tencionava regressar e ele conhecia bem a mãe. Se desconfiasse que alguma coisa não estava bem era capaz de abalar de noite a caminho de casa.
Mais tarde ligaria à tia, para que as duas mulheres dormissem descansadas. Depois das chamadas, estendeu-se em cima da cama e deixou-se dormir.

9.9.19

VIDAS CRUZADAS- PARTE I

Reedição 






A história que hoje aqui se inicia, decorre no final dos anos cinquenta do século passado.  Muitas das coisas que vos relato, seriam impensáveis hoje em dia. Na verdade, penso que nunca em século algum, a história da humanidade evoluiu tanto, como nos últimos sessenta anos.

                                  
                                                 I
Aquele dia, de início de Junho apresentava um sol radioso e quente num céu sem nuvens, quando Pedro saíra do emprego, duas horas antes do horário habitual de saída.
 Era um homem jovem, completara vinte e oito anos no mês anterior. Alto, moreno, de grandes olhos castanhos, e cabelo castanho tão escuro que por vezes chegava a parecer preto, tinha uma boca grande, de lábios carnudos, que ao sorrir mostravam uma fileira de dentes perfeitos e acentuavam a covinha do queixo. Um daqueles homens que fazem suspirar as mulheres, e as põem a sonhar. Ele, no entanto, parecia nunca ter-se visto ao espelho, já que não mostrava dar-se conta do belo homem que era. Saía de casa para o trabalho e deste para casa, onde vivia com a sua velha mãe, que adorava. Na verdade, quando ele nascera, já há muito a mãe tinha perdido as esperanças de vir a ter algum dia um filho, pois já ultrapassara os quarenta e três anos. Fora até aconselhada por algumas vizinhas a não deixar ir adiante uma gravidez tão tardia. Podia ser perigoso. Profundamente religiosa, como a maioria das mulheres da época, sempre respondia, que segundo a Bíblia, Sara era muito mais velha quando ficou grávida, e que a Deus nada era impossível. E a verdade é que a gestação e o parto decorreram sem problemas.
Cinco anos depois dessa enorme alegria, quis Deus chamar o seu companheiro de toda a vida, o seu grande amor, e Alice viu-se sozinha com o filho para criar.
A vida era difícil mas o falecido, que fora militar,  deixou uma boa quantia, fruto de  um seguro de vida que ela nem sabia que ele tinha. Depois, sempre fora uma mulher poupada, tinha amealhado ao longo dos anos algumas economias, e assim Pedro recebeu uma boa educação, e se não foi para a Universidade foi porque não se interessou por isso e preferiu empregar-se logo que fez o quinto ano na Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, no Barreiro, cidade onde vivia.
O jovem adorava a mãe, que ele sabia ter feito todos os possíveis para lhe suprimir a falta do pai, de quem nem se recordava muito bem.
 Quando fora às sortes, entregou os papéis como amparo de mãe, e assim vira-se livre de uma mais que provável ida para o Ultramar. Nunca pedira nada demais à vida, sempre se sentira feliz com o que tinha. Ultimamente porém, algo de estranho se passava com ele.



20.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVIII


- Em Londres, para cortar todos os vínculos com o passado, pus de parte o Rui, e adotei o meu segundo nome como principal. Com formação em economia, inglês e alemão,  pouco tempo depois, estava empregado numa multinacional, e muito bem remunerado. Continuei a estudar os movimentos das empresas e a investir na bolsa. Ganhei muito dinheiro. Em menos de dois anos mais que tripliquei o meu pecúlio. Era já uma fortuna considerável. Então comprei a primeira empresa. Uma pequena firma de indústria transformadora, em vias de falência. Recuperei-a e fiz dela uma empresa de sucesso. Depois dessa vieram outras. Todas prosperaram e são hoje uma fonte de riqueza. Penso que se fiz alguma coisa de jeito na vida, foram essas reestruturações e revitalizações de empresas. Estavam para fechar, iam despedir todo o pessoal. E graças a mim salvaram-se, e ninguém perdeu os seus empregos. 
Fez uma pausa. Era visível que aquelas recordações lhe provocavam grande sofrimento. 
- Dizem que dinheiro atrai dinheiro, e talvez por isso eu fui capitalizando cada dia mais. Pena que a minha mãe, não tenha vivido o suficiente para usufruir dele. No fundo ela foi a grande vítima. Primeiro do meu pai, e depois do seu amor por mim. Um amor que a levou a assumir uma culpa que não era sua, e lhe deu cabo da saúde e da vida. Por minha culpa.
A voz extinguiu-se-lhe num soluço.
-Não foi culpa tua, Rui, não foi - sussurrou Teresa apertando-lhe a mão.
Após um curto silêncio, ele continuou:
- É tudo Tê. Falta só dizer-te que é bem verdade que o dinheiro não dá felicidade.Sinto-me vazio. A solidão nunca foi uma companheira amorosa. Amarga os meus dias, e aterroriza hoje as minhas noites, quase tanto, quanto o meu pai o fazia outrora. Os dois anos mais felizes da minha vida, foram os que partilhamos. Nunca, nem antes nem depois de ti, uma mulher me fez sentir, tão completo como tu. E ontem, o meu coração quase explodiu de felicidade, quando descobri que me deste um filho. Mas não podia apresentar-me a ele, sem primeiro despir a alma, das negras recordações que carrego. Queria e precisava, ir para ele de espírito limpo. Consegues entender-me? – Perguntou fitando-a com ansiedade.
Ela continuava sem palavras.  Esmagada pelo sofrimento que via nos olhos dele. E ao mesmo tempo maravilhada, pela sinceridade masculina. Limitou-se a um aceno de cabeça.
- Casa comigo, Tê! E se esta ânsia de estar contigo, o resto da minha vida, se este desejo de vos proteger, e fazer felizes não é amor, ensina-me a amar-vos.
Ela tinha-lhe dito que tinha de ganhar a sua confiança.  Mas o que ele acabara de fazer, era a maior de todas as provas de amor. Finalmente, o homem deixara de ser o desconhecido, a quem tudo dera, sem nada receber em troca. Abrira-lhe as portas da sua alma. Mostrara-lhe quão vulnerável e sofrido era. E com isso matara todo o ressentimento, que ela experimentara.  Sentiu que o destino lhes estava a dar uma segunda oportunidade de serem felizes. 
Com os olhos rasos de água, e o coração exultante de alegria, fitou o rosto ansioso dele, e sem deixar de o olhar, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-o.
Maravilhado, ele retribuiu ao mesmo tempo que a abraçava.
Com a emoção à flor da pele, beijaram-se intensa e apaixonadamente. Era o reencontro de duas almas, livres de todos os obstáculos que outrora as mantiveram separadas, querendo apagar todo um passado de sofrimento. Mas quando a boca masculina roçou o pescoço feminino, a a mão dele acariciou o tecido sobre o seu seio, o corpo ansiando por algo mais, ela afastou-o suavemente dizendo:
-Hoje não, Rui. Vem. Vamos buscar o nosso filho.


29.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE X


Quando naquela manhã, Teresa chegou a casa de Luísa, a amiga viu logo que a noite não tinha sido benévola para ela.
Teresa, saudou Tiago e entregou-lhe o filho, de quem se despediu com um beijo e as habituais recomendações. 
Depois entrou no carro da amiga, que já a esperava para seguirem para o emprego.
- Estás pálida. Não conseguiste dormir?
Teresa que apertava o cinto de segurança, retorquiu:
- Tu dormirias se estivesses no meu lugar? Hoje mesmo vou começar a procurar emprego. Não será fácil, mas não posso continuar na “Tudilar”
- Porquê? Amaste-o tanto que ainda mexe contigo passados todos estes anos?
- Nem devias perguntar isso. Tu, melhor que ninguém, sabes que o amei mais do que tudo no mundo. Sofri muito. Não foi só o seu abandono, foi a falta de uma qualquer explicação, o que implica uma rejeição total ao meu amor e à minha pessoa. Tenho medo de não ser, suficientemente forte, para que não se reacendam sentimentos antigos. E não quero voltar a passar pelo mesmo.
- Já pensaste que pode ter casado?
- Não. Não acredito que alguém o tivesse interessado a esse ponto. Teria que ter mudado muito.
- Chegamos. Vamos lá a ver como corre o dia. Almoçamos juntas?
- Claro.
Separaram-se à porta do escritório. Teresa seguiu para o seu gabinete no outro extremo da empresa. Tirara o casaco e preparava-se para o pendurar quando o telefone interno tocou.
- Teresa? – Era a voz de Luísa
- Já tinha saudades de te ouvir – disse rindo. Até ela chegou o riso da amiga. Depois…
- Tê, ele deixou uma nota em cima da minha secretária. - Não precisava nomear quem deixara. As duas sabiam-no. - Quer todos os chefes de secção na sala de reuniões às 11 horas. Estou nervosa. Será que vai haver despedimentos?
- Não fiques. Logo se verá. Já avisaste mais alguém?
- Não. Vou fazê-lo agora. Até logo.
Desligou e ficou pensativa. Que quereria ele? Todos sabiam que a firma  estava quase na falência. Será que ele ia despedir pessoal?
Trabalhava naquela empresa, há quase seis anos. Quando lá entrou, a situação era bem diferente do que estava hoje. Havia muitas encomendas, exportavam muito, mas também vendiam bem para o mercado nacional. Depois veio a crise, as encomendas começaram a diminuir, o preço dos o materiais subiram, e a situação começou a deteriorar-se.


Peço desculpa se continuo um tanto ausente, não está fácil conseguir tempo para blogar, enquanto os problemas atuais se mantiverem. Tenham no entanto a certeza que sempre que puder estarei convosco.



26.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE VIII




Todos os dias, Teresa, saía de casa de manhã, com o filho e dirigia-se a casa de Luísa. Aí, deixava Martim com o padrinho, Tiago, o marido de Luísa, e o filho deles, André.
Tiago trabalhava por conta própria, tinha flexibilidade de horário, pelo que se encarregava de levar os meninos à escola e ir buscá-los à tarde.
Teresa deixava o carro junto à casa da amiga e ia com ela, para o emprego. Por vezes trocavam, era ela quem levava o carro e a amiga.  O regresso era feito também em conjunto. Assim naquele dia, quando Teresa, desceu ao estacionamento já a amiga estava no carro à sua espera.
- Então? O que te pareceu? - Perguntou Luísa, iniciando a marcha, mal a amiga entrou no veículo,
-É o Rui. – Respondeu quase sem voz
- O Rui?- Perguntou com estranheza. Que Rui? Perguntava-te o que te pareceu o novo dono da empresa, Mário Silveira.
- Sim. Antigamente chamava-se Rui.
A amiga travou a fundo, fazendo com que o carro se imobilizasse, com um longo lamento dos pneus. Olhou para ela e só naquele momento reparou na palidez da jovem, e no tremer das suas mãos.
- Queres dizer que é… o pai do Martim?
Assentiu com a cabeça
- Caramba Tê, não tinhas dito que era milionário.
- Não era. Ou se o era, eu não sabia. Bem na verdade, eu nunca soube nada dele. Apenas que trabalhava num Banco e que fazia traduções para uma editora. Nada mais. Tinha pouco mais de vinte anos, era uma miúda loucamente apaixonada, e isso era tudo o que me importava.
- E agora?
-Agora é melhor que ponhas o carro a trabalhar. Se nos atrasamos as crianças ficam impacientes.
- Tens razão, - disse obedecendo. E acrescentou:
- Vais contar-lhe do Martim?
- Não. Nunca. Não quero que saiba. É meu filho.
Fez-se silêncio. Depois…
- Achas que te reconheceu?
- Para meu sossego e do Martim, gostaria de dizer que não. Mas tenho a certeza de que me reconheceu. Outra coisa, Luísa, por favor, não contes nada ao Tiago.
- Claro que não. Fica descansada.
Tinha acabado de estacionar. Tiago já estava à porta com as crianças. Martim despediu-se com um até amanhã, e correu para a mãe, que se baixou para o abraçar.
 Depois, despediu-se dos amigos, entrou no carro, e seguiram para casa.
Como sempre Martim não se calava, contando as peripécias do dia escolar. Porém Teresa tinha a mente ocupada com outras coisas



10.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLV


Nessa mesma tarde saiu do emprego com o ramo de rosas na mão e o presente para o marido na mala, e como sempre  ele já a esperava à porta.
Cumprimentou-o com o habitual beijo rápido e ele pôs o carro em movimento.
-Obrigada pelas rosas, São lindas.
-Fico feliz por teres gostado. Na verdade, gostava de te comprar uma jóia, não tens nada além da aliança e do fio que te dei pelo Natal, mas receei que não aceitasses. Sei que gostas de flores, mas só alegram o momento, dois dias depois estão mortas e vão para o lixo.
- Nas minhas recordações, sempre que me lembrar deste dia, elas vão estar tão bonitas como estão agora, e a sensação de felicidade vai ser igual à que hoje me proporcionaram.
Ele lançou-lhe um breve olhar e logo voltou a sua atenção para a estrada. Uns segundos depois disse:
- Nunca conheci ninguém como tu.
Ela não respondeu. Porque não tinha nada para dizer, ou porque acabavam de chegar ao prédio onde viviam. Ele acionou o comando da porta da garagem e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Saíram cada um pela sua porta, e dirigiram-se para o elevador.
-Pensei que a exemplo do dia de casamento, não quisesses sair. Encomendei o jantar, vêm entregar, - olhou o relógio – dentro de meia hora. Temos tempo para um banho, o dia esteve muito quente. Podemos tomá-lo juntos, - disse num sussurro ao ouvido dela.
-Não! – A negativa saiu tão brusca que se assustou a si própria. – Desculpa, mas realmente preferia fazê-lo sozinha.
Se ficou aborrecido, não o demonstrou. Na verdade, já tinha decidido, que nessa noite teriam que discutir a relação. Não suportava mais a tristeza que notava no olhar feminino. Esboçou um sorriso.
- Sem problema. Ficas com a suite, eu uso a outra casa de banho.
Entraram em casa, e imediatamente o olfato detetou um perfume floral. Sobre a mesa da entrada estava um bonito arranjo de rosas vermelhas. Isabel foi à cozinha buscar uma jarra para colocar o ramo que trouxera do escritório, e viu  sobre a mesa da cozinha, outro arranjo igual ao da entrada. Pensou que devia haver flores em todas as divisões da casa e deixou a jarra em cima do balcão.
Quando passou pela casa de banho, no corredor, ouviu o chuveiro. O marido já estava no banho. Ela chegou ao quarto, abriu a cómoda para tirar a roupa interior que vestiria a seguir ao banho, deu a volta e abafou um grito de surpresa, ao ver um tapete de pétalas vermelhas, que ia até à cama,e se estendia sobre a colcha, e pela mesa-de-cabeceira. Refugiou-se na casa de banho, e fechou a porta. Não sabia que pensar. Aquilo era obra de um homem apaixonado. Pelo menos, assim era nos livros e nos filmes. Mas ele não estava apaixonado por ela, não acreditava no amor, tinha o coração seco. Então porquê aquele teatro?
Tomou um duche rápido, enxugou-se, vestiu as duas minúsculas peças íntimas, enfiou um roupão e sentou-se a secar o cabelo. Depois penteou-o todo para um dos lados do rosto e entrançou-o.
Foi ao quarto retirou uns calções brancos e uma T-shirt. De súbito, lembrou-se da mesa posta na noite do seu casamento, e pensou que aquela roupa não seria adequada, se ele tivesse preparado uma mesa igual, o que era quase certo olhando para o resto da casa.
Voltou a guardar a roupa, e tirou do guarda fato o vestido comprido preto que comprara para o casamento de Natália, e vestiu-o. Calçou umas sandálias de salto alto, desmanchou a trança e escovou o cabelo mantendo-o na mesma posição. Olhou-se ao espelho. Talvez tivesse exagerado no traje, talvez Ricardo estivesse vestido desportivamente. Encolheu os ombros, pegou no embrulho de presente e saiu em direção à sala.



15.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXIV



Aquela semana foi muito complicada para Isabel. Primeira semana num emprego novo, sem conhecer ninguém, e com muito trabalho atrasado, pois a jovem que fora substituir, há dez dias que já estava de baixa.
Chegava a casa cansada, e ainda tinha que dar o banho à menina, o jantar, e adormecê-la, além de fazer o seu jantar.  Natália insistia em querer ajudar, mas ela pensava que o ficar com a menina todo o dia e fazer-lhe as refeições já era uma grande ajuda. Assim chegava ao fim do dia tão cansada que só desejava cair na cama e dormir. Todavia o seu esforço foi recompensado na sexta-feira, e o seu desempenho elogiado pelo chefe.
No sábado, entre o ir às compras e as limpezas, foi de novo um dia muito cheio. E mais uma vez foi Natália quem cuidou da menina. Às vezes, Isabel pensava que apesar de tudo tinha muita sorte. A sua vida seria bem mais complicada, se não tivesse Natália sempre pronta a ajudá-la como se fosse uma mãe atenta.
No Domingo, depois de organizada a semana que se apresentava e enquanto Matilde dormia, pode enfim descansar um pouco e refletir na proposta que Ricardo lhe fizera.
É verdade que ele era um homem muito atraente, e parecia ser boa pessoa. Mas às vezes as aparências iludem. Se o seu irmão era um traste capaz de enganar uma menina cheia de sonhos, não seria ele” uva da mesma cepa”? Por outro lado a vida estava cheia de famílias de gente boa, que tinham um elemento, cujas ações, os faziam morrer de vergonha. E se assim era, seria injusto julgar Ricardo pelos desmandos do irmão. Além disso, se decidisse casar com ele, o futuro da menina estaria assegurado.
E isso não valia o seu sacrifício? Não é isso o que todas as mães estão programadas para fazer? O que mais a assustava era pensar que depois de casada, teria de partilhar a cama com ele. Ela tinha trinta e três anos e ainda não conhecera os segredos do sexo. Namorara apenas três meses e sem grande intimidade. Na altura, era muito jovem, trabalhava de dia, estudava de noite, e nos tempos livres tinha que cuidar da mãe doente e da irmã adolescente.  Depois a mãe morrera e Tiago afastara-se quando soubera que ela não desistia da irmã e a queria levar para a sua casa quando resolvessem casar. Os dois pretendentes seguintes nem passaram disso mesmo. E depois que a irmã se suicidara deixando-lhe a filha, resolvera dedicar-se inteiramente à menina e pôs de parte o sonho de um casamento.
Pensou em tudo de mau que lhe podia acontecer, com o casamento, com um quase desconhecido, e sonhou com tudo de bom, que ela gostaria de encontrar naquela relação, e por fim tomou uma decisão.
Levantou-se, pegou no telemóvel e marcou um número.
- Ricardo? Tomei uma decisão – disse rápida antes que se arrependesse. – Podes vir cá a casa, logo à noite? 
-Claro que sim, a que horas?
- Às nove horas, a Matilde já está a dormir e podemos falar.
- Muito bem. Até logo.

E esta história volta segunda feira.

31.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE X



No dia seguinte, encontraram-se no laboratório, fizeram o teste e separaram-se quase sem se falarem. O resultado demoraria uma semana, e ele não pensava voltar a vê-la antes disso.
Ricardo seguiu para a sua empresa um tanto atónito. Tivera ocasião de ver a criança enquanto esperava para fazer o teste, e sentira-se impressionado com os seus olhos cinzentos, o cabelo negro e a cor morena. Não se parecia nada com a mulher, fosse ela tia, como dizia, ou mãe, como a criança lhe chamava.  Ele continuava muito desconfiado em relação aquela história. No entanto para ser sincero, diria que a criança se parecia bem mais com ele, do que com ela. Apesar disso estava de consciência tranquila. Não que ele não tivesse as suas aventuras, Mas nunca se envolveria com uma ninfeta, por muito bonita que fosse. Ele gostava de mulheres mais velhas. E além disso, tinha uma regra de ouro, que nunca, em circunstância alguma, quebrava. Nunca fazia sexo sem preservativo, ainda que a mulher lhe jurasse que tomava a pílula ou tinha o DIU. Podia estar com uma mulher muito bonita, e muito excitado,  mas se não tivesse um preservativo com ele, arranjava qualquer pretexto, ia para casa e tomava um banho gelado. Depois do que Ivone lhe fizera, ficara vacinado. Relembrou aquela história, que condicionou todo o seu futuro e ainda hoje, lhe doía. 
Na altura em que a conheceu, tinha apenas vinte anos, era "um miúdo" com as hormonas em ebulição e nenhuma experiência de vida.  Ivone, era tão linda quanto pérfida. Era apenas três anos mais velha, mas sabia mais da arte de sedução que muitas mulheres aos quarenta. Resultado, dois meses depois ela comunicou-lhe que estava grávida, e ele ficou louco de felicidade e pediu-a em casamento. Na altura, ainda nem tinha terminado os estudos, não tinha emprego, nem sabia como ia sustentar uma família, mas estava completamente fascinado por ela, de tal modo que o seu pai, propôs-lhe fazer o casamento e assumir as despesas com a sua casa, em troca dele ir trabalhar para a oficina e terminar os estudos à noite.
Porém logo depois de casados, Ivone deixou cair a máscara. Queria sair quase todas as noites e clamava que ele nunca estava disponível para isso e que se sentia como ave numa gaiola. Uma noite ainda não tinham dois meses de casados chegou a casa e não a encontrou. Sem saber onde a procurar esperou o seu regresso. Ela chegou quase à uma da manhã. Veio acompanhada por um casal, mas ainda assim ele não gostou de que tivesse saído e tiveram a primeira discussão séria. Depois dessa vieram outras, a sua vida transformara-se num inferno que ele só suportava por causa do bebé.  Seis meses mais tarde, já nem estranhava quando chegava à casa depois das aulas e não a encontrava. E estava tão cansado, que raramente dava pela sua chegada. Com a desculpa de que a gravidez a incomodava e não lhe dava qualquer prazer a intimidade, ela fizera com que ele fosse dormir para o sofá da sala. E já quase não se viam. Ele levantava-se cedo para ir trabalhar, almoçava com o pai, e no fim do dia quando ia a casa tomar banho e mudar de roupa para ir para as aulas, ela já não estava em casa. Por vezes sentia tanta raiva que lhe apetecia partir tudo. Outras ficava completamente indiferente. Às vezes surgia-lhe a ideia peregrina, de que tudo aquilo eram humores de grávida e que a situação mudaria quando o bebé nascesse e ele terminasse o curso. Teriam mais tempo um para o outro e a chama voltaria a acender-se. Por essa altura o casamento já tinha acabado há muito, só a sua ingenuidade ainda lhe dava esperanças.
Até que numa noite, ao ir deitar-se encontrou no sofá uma carta de Ivone. Nela lhe informava que ia partir com o homem da sua vida, o pai do seu filho. Dizia-lhe que nunca o amara, mas estivera três meses sem notícias do namorado, que se tinha ausentado do país. Ela pensara que ele a tinha abandonado. Como estava grávida, precisava de um pai para o seu filho, e dada a sua ingenuidade, não tinha sido difícil convencê-lo que o filho era dele.



E aqui temos o primeiro bocadinho da minha recente visita ao Algarve.  Se estiverem interessados em saber o que andei a fazer, vão até lá

13.5.19

AMÁLIA

Amália, engoliu as lágrimas, afivelou a máscara de mulher feliz, e saiu para a rua. O dia estava lindo, o sol aquecia o corpo e era como um balsamo para o seu coração.
Era ainda uma mulher muito bonita apesar de já não ser muito jovem.  Tinha uma farta cabeleira negra, uns doces olhos castanhos, e uma boca bem desenhada. Alta, magra mas bem proporcionada. E era sobretudo uma excelente atriz, embora nunca tivesse subido num palco. Porque ninguém diria, ao vê-la caminhar pela rua, pisando com segurança, saudando com um sorriso um ou outro conhecido, ou brincando com as colegas no emprego que não era uma mulher feliz.
Oriunda de uma família pobre, Amália estudara até ao final do secundário com grande sacrifício dos pais. Impensável entrar para a Universidade, naquela época, a vida era muito difícil e embora ela tivesse sonhado com mais, viu-se obrigada a procurar emprego. Pouco tempo depois, conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos.
Alexandre, parecia ser um bom rapaz, era alegre, e a sua boa disposição encantou-a. Namoraram e casaram num domingo de Maio.
Ainda nem bem terminaram os primeiros seis meses, de casamento, e Amália já se dava conta de que o marido não era aquilo que ela imaginara. Saía após o jantar, com um “até já, vou ali ao café “, mas raramente voltava antes da meia-noite, uma hora. Amália arrumava a cozinha, preparava os almoços para o dia seguinte, as roupas e finalmente caía cansada na cama, já que no dia seguinte tinha que se levantar cedo. Quando o marido chegava, raramente vinha “sozinho”. A acompanha-lo vinha um insuportável hálito a álcool. Amália fingia que dormia, para não iniciar uma discussão altas horas da noite. Na manhã seguinte, quando lhe chamava a atenção, ele era agressivo, dizia que ela era maluca, que estava a insinuar que ele era bêbado e que bêbado tinha ela o juízo. Por essa altura Amália soube que estava grávida. 
Quando contou ao marido ele ficou muito feliz e durante três ou quatro dias não saiu de casa à noite. Renovaram-se as esperanças da jovem. Porém, como sol de Inverno, durou pouco, nem deu para que as esperanças da mulher ganhassem raízes.
Quando Amália desabafou com a mãe, esta que fora criada no conceito de obediência ao marido, disse-lhe:
- Tem paciência filha. Ele é bom marido, isso é o álcool. E depois a tua avó sempre dizia: “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”.
Foi nessa altura que a jovem, afivelou a máscara de mulher feliz e enveredou pela carreira de atriz no palco da vida.
O filho nasceu, foi uma enorme alegria para ela, mas nem o nascimento do filho trouxe um novo comportamento ao marido. Cada dia bebia mais, cada dia estava mais agressivo. Não que lhe batesse, diga-se em honra da verdade que isso nunca fez. Mas os gritos, os nomes que lhe chamava, e até as coisas que partia, era tão mau ou pior do que as agressões físicas.
Quando o filho tinha três anos, depois de uma violenta briga, Amália tomou a decisão de se separar do marido. Nessa altura o divórcio ainda não tinha chegado a Portugal.
O marido caiu de joelhos, implorou perdão, disse que daí para a frente ia ser diferente, que nunca mais iam brigar, prometeu o mundo e a lua, como se costuma dizer.
Pensando no filho, ela decidiu dar mais uma oportunidade ao casamento.
 Alexandre levou uns dois meses sem sair depois do jantar. Estava muito mais calmo, parecia um homem diferente, muito embora algumas vezes parecia que já tinha bebido um pouco, quando chegava do trabalho, mas enfim não seria grande coisa, já que ele se mostrava controlado. Por essa época Amália engravidou de novo.
Uma malfadada infeção na garganta, uns medicamentos que tomou, que possivelmente anularam o efeito da pílula. Porque ela jurava que a tomara sem falha. Pouco depois o marido voltou a sair à noite e a chegar a casa, não bêbado, mas como se dizia antigamente “atravessado” Quando vinha bêbado, caía na cama, às vezes até vestido e dormia. Quando vinha “atravessado” implicava com tudo, dava pontapés nas coisas, dizia palavrões. O tempo corria, o segundo filho de Amélia, nasceu era uma menina linda que fez o encanto do irmãozinho.
No dia em que a menina fez um ano, o marido fez um escarcéu com ela numa loja de roupas infantis, que a deixou indignada e envergonhada. Era a primeira vez que o fazia em público, e Amália saiu da loja sem compras e a chorar.
Em casa, pensou seriamente na vida e chegou à conclusão de que para se separar do marido só se fosse para casa dos pais, pois o seu ordenado, não chegava para pagar uma casa, e por comida na mesa para ela e os filhos. Sem falar que havia que pagar à ama dos filhos, ou não poderia trabalhar.
Pensando nisso pegou nos filhos, disse ao marido que ia visitar os pais, e foi sonda-los. Porém não encontrou apoio da parte deles. A mãe voltou com a tal máxima de “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, o pai disse que não lhe arranjara marido, fora escolha dela, por isso era ela que tinha que resolver o problema, “ que entre marido e mulher ele não metia colher”
Voltou para casa, e no dia seguinte antes do marido ir para o trabalho, pôs os pontos nos is.
 Ela estava farta daquela vida. Ou ele deixava a bebida ou ela deixava de ser sua mulher. A escolha era dele. E como sempre que ela ameaçava separar-se, o marido implorou, fez promessas, teve o desplante de dizer que bebia para perder o medo de a perder, pois não saberia viver sem ela. Amália, percebeu que ele era doente, e teve pena dele, dela e dos filhos. Dele, porque não reconhecia que era doente e precisava de ajuda, dela porque era jovem e tinha pela frente um futuro de sofrimento, e dos filhos que amavam o pai e não tinham culpa de nada. Mas quando o marido voltou a beber, Amália comprou um divã e instalou-se no quarto da filha. E nunca mais foi mulher de Alexandre embora vivam na mesma casa. Quando os filhos casaram, ela podia enfim pedir o divórcio. Mas nessa altura Alexandre estava muito doente, e nem ela teria coragem de o abandonar, nem os filhos, iam compreender que o fizesse nessa altura, depois de uma vida inteira de sofrimento.
Passaram-se quatro anos. Alexandre conseguiu superar a doença, já não bebe, mas está mentalmente muito envelhecido, quem sabe se efeito do álcool bebido sem regra, durante tantos anos. Ela sofre, porque nada é mais triste do que ver, dia a dia, a degradação mental de uma pessoa.
Hoje, Amália põe toda a sua felicidade e enlevo nos dois netos que os filhos já lhe deram. 
E no emprego que apesar da crise, mantém. O futuro… quem poderá saber o futuro? Há muito que ela vive um dia de cada vez.

Fim

Maria Elvira Carvalho