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18.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE I




Bom, não sei quando terei uma nova história para vos apresentar, dado o estado dos meus olhos, além de outros problemas, como o provocado pelo antibiótico para a infeção urinária que me vai obrigar a procurar hoje mesmo nova ajuda médica e o tempo limitado que posso estar no pc. De modo que vem aí uma outra história das mais antigas. Os leitores de 2016 recordar-se-ão dela, embora haja na história pequenas alterações. Porém os leitores mais recentes, não a conhecem até porque foi uma das que acabei por apagar pouco tempo depois da sua publicação. É uma historia pequenina apenas 7 episódios.



                                                         I
A noite estava muito fria. Era inverno. Lá fora a temperatura devia rondar os zero graus. A um canto junto à janela, a braseira aquecia a sala. As janelas de vidro, estavam abertas, contrariamente às persianas corridas que apenas deixavam passar uma nesga de ar gelado, contudo necessário para a renovação de ar, por causa da braseira acesa.

 Na sala um casal via televisão. A mulher de cabelos grisalhos, e olhar parado, brincava com os dedos como se neles tivesse um qualquer objeto, que mexia e remexia.  Devia ter uns setenta anos, era de baixa estatura, e figura roliça. O rosto ostentava ainda restos do que teria sido um rosto senão belo, pelo menos muito gracioso. Os olhos que teriam sido brilhantes e vivos, eram verdes, como dois 
lagos de águas paradas.

Junto dela, o homem ligeiramente mais velho, alto e magro, calvo, de olhos escuros e barba grisalha. A televisão transmitia um programa de variedades, mas o casal parecia nem dar por isso. O homem olhava a mulher com um misto de amor e piedade. Parecia estar pendente dela, enquanto ela se mostrava totalmente ausente.


Ele conhecera-a nos bancos da escola. Foi a sua primeira e única namorada. Porque fora a única mulher que ele amara na vida, além da sua mãe. Casaram-se muito jovens. Ele estava na tropa em Leiria, quando soube que tinha sido destacado para a guerra nas colónias. Foi um choque, e resolveram casar à pressa, porque ele tinha medo de morrer, sem viver o amor que sentia por ela.

 Tinha vinte e um anos, ela acabara de fazer dezoito.

Dois dias depois de casados, ele voltou ao quartel donde só saiu na hora do embarque com destino a Angola.

Chegou a Luanda num longínquo dia de Março de mil novecentos e sessenta e quatro. Depois de dois dias na cidade, que mal deram para umas cervejas no famoso café Rialto e um passeio pela ilha, lá foi com o destacamento para as margens do Lungué-Bungo, no leste de Angola, e por lá ficou vinte e seis meses, apenas com um mês de férias ao fim de um ano.


Como ele gostaria de ter vindo  à metrópole nesse mês, rever a terra, os amigos, e principalmente a sua amada Alzira. Infelizmente o dinheiro não abundava e teve que se contentar com uma ida até ao Luso, (a cidade mais próxima, do acampamento, embora ficasse a quase 200 quilómetros ), duas ou três idas ao cinema e uns copos com outros camaradas também de férias.

Às vezes sentia a tentação de se deitar com alguma das belas mulatas que viviam perto do acampamento.
Afogar nuns momentos de prazer, as saudades de casa, os medos das emboscadas, a dor da perda de algum companheiro menos afortunado.
Porém, lembrava-se da esposa, e embora não tivesse pretensões de santidade, pensava que umas horas de prazer com uma desconhecida, não substituiriam o amor, nem mitigariam a saudade que tinha, da mulher que amava.

E o desejo, não era mais forte do que ele, que moldara a sua força na anterior vida de pescador, em bravas lutas com mares encapelados...


7.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVI

 


Gonçalo encontrava-se sentado no sofá da sua sala. A Televisão estava desligada, a garrafa de cerveja, estava quase cheia. Já “morta” pois a Primavera já fazia lembrar o Verão e há mais de três horas que a abrira.  Desde que chegou a casa, apenas tomou banho, enfiou uns bóxeres, pegou numa garrafa de cerveja e sentou-se ali a pensar nos acontecimentos daquele dia. Ainda não acreditava que fora capaz de ir ter com aquela mulher e assim sem mais nem menos dizer-lhe que queria falar com ela.

A mulher devia ter pensado que estava doido. E será que não estava mesmo a enlouquecer? A infrutífera busca de uma lembrança, durante aqueles quase catorze anos, não estariam mesmo a dar com ele em doido?  Ele não a conhecia. Então porque o seu coração disparava quando ela estava perto? E porque é que a filha dela, se parecia com a sua irmã como duas gotas de água? Se a sua sobrinha Sara, não fosse tão parecida com o pai, ele poderia pensar numa troca de crianças na maternidade, mas assim nem essa hipótese era plausível

“Esquece as semelhanças da criança com a Laura, Gonçalo – dizia-lhe a voz da razão. – Estás farto de saber que há pessoas parecidíssimas sem que tenham qualquer vínculo familiar. Nunca ouviste falar em sósias?”

Passou a mão pela testa.. É claro que ele sabia que havia pessoas muito parecidas, e até já vira em revistas e televisão sósias de alguns atores famosos.

Mas não era só isso. Ele viu surpresa e medo no olhar daquela mulher, quando tropeçou nele à porta da escola, antes de fugir a correr. E se não se conheciam não havia razão para essa reação.

Em desespero, apertou a cabeça entre as mãos. E nesse momento o telemóvel tocou. Olhou o ecrã. Fernando Novais. Atendeu.

- Estou…

- Gonçalo, estás de serviço, ou em casa?

- Porquê?

- Lembras-te do Ernesto Vieira, aquele gajo, da Guarda que terminou o curso connosco?

- Lembro-me.

-Encontrei-o hoje por acaso. O tipo está há seis anos num hospital em Londres. Casou com uma inglesa, e foi pai o mês passado. Veio apresentar o bebé aos avós.  Perguntou por ti e pelo Paulo Antunes. Pediu para vos dizer que gostaria de se encontrar connosco amanhã à noite, para beber uns copos e matar saudades. Estás disponível?

- Estou, embora para te ser sincero, não ande muito animado.

- Que se passa, pá? Alguma coisa com a tua irmã?

Notou a ansiedade na voz do amigo.

-Não.

- Ouve lá, precisas de ajuda? Queres que vá até aí? Não tenho nada combinado para esta noite.

Fernando era psiquiatra e um bom amigo. O único aliás que conhecia o seu problema.

- O quê, não tens um programa para hoje? A uma Sexta-feira? Estás a ficar velho, amigo.

- Vai-te lixar, Gonçalo. Precisas ou não de um amigo?

- Acho que preciso mais de um psiquiatra, - respondeu quase num murmúrio

 - Quinze minutos e estou aí – disse desligando.

Gonçalo, pousou o telemóvel, foi ao quarto, enfiou umas velhas calças de ganga e uma T-shirt. Sentiu fome. Afinal não jantara. Mas o Fernando devia estar a chegar. O bom do Fernando, filho único de um casal vizinho e amigo dos seus pais.

Os dois eram amigos e companheiros de brincadeiras desde a mais tenra idade. Apaixonara-se pela sua irmã desde a primeira vez que a viu, era ela apenas um bebé de dois dias de idade. Podia ser um amor fraternal, e provavelmente fora-o, pela menina que punha de lado as bonecas e andava sempre atrás dos dois querendo participar nas brincadeiras deles. Mas à medida que os anos se passavam, esse amor transformou-se numa paixão que ele nunca confessou, primeiro porque Laura era muito jovem e ele tinha receio de a assustar com o seu amor. Resolvera esperar e, entretanto, a irmã conhecera Joaquim e todos os outros homens deixaram de existir para ela.

Gonçalo suspeitava de que o amigo continuava apaixonado pela sua irmã. A campainha da porta tocou e ele apressou-se a ir abrir.

 

28.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXVIII



 Teresa encontrava-se sentada à mesa na cozinha. Tinha vestido um leve robe de cor salmão, que deixava ver por baixo uma fina camisa de dormir branca. Tinha na sua frente um copo de leite quase vazio, única coisa que tinha conseguido segurar no estômago,  desde há quase quinze minutos. Toda a manhã tivera vómitos constantes, sentia-se extremamente cansada, sem forças, nem vontade de fazer o almoço. Sabia que algumas mulheres se queixavam daqueles sintomas, o livro também falava neles, mas ninguém a alertara para a violência que vinha sofrendo há quatro dias.

Não sabia se devia recorrer ao médico no Centro Clínico, não desejava fazê-lo, mas telefonara nessa manhã para o consultório da sua ginecologista, e informaram-na que estava de férias só regressaria na semana seguinte, e a continuar assim ela não acreditava que conseguisse resistir até lá. Tinha já emagrecido, pois ao pesar-se nessa manhã, a balança marcava menos quilo e meio do que na semana anterior. As grávidas devem ganhar peso, não perdê-lo.  

Terminou de beber o resto do leite e a custo levantou-se. Levou o copo para o lava loiça e encaminhou-se para a casa de banho. Precisava tomar um duche, tinha transpirado imenso, sentia-se imunda. Depois do banho, apenas tinha vontade de se deitar e dormir, mas obrigou-se a reagir. Vestiu-se, escovou os cabelos que prendeu num rabo-de-cavalo evitando olhar para o espelho, por recear o seu próprio aspeto.

Já na cozinha, ficou indecisa sem saber que fazer para o almoço. “Não há nada pior do que ter que cozinhar quando nada apetece comer” pensou.

Pôs a cozer dois ovos, e água a ferver para cozer esparguete, salteou em azeite e alho, espinafres, tomates, e rodelas de curgete. Com todos os ingredientes fez uma salada, e sentou-se à mesa. Pensando no bebé, forçou-se a comer mesmo sem ter vontade.

Porém pouco comeu, pois logo começaram as náuseas, pelo que guardou a comida no frigorífico, passou a loiça por água e meteu-a na máquina, seguindo depois para a sala, a fim de se estender no sofá.

Sobre a pequena mesa da sala uma jarra com rosas brancas, trouxe-lhe à memória o dia de sábado passado na companhia do empresário.

Passou a mão sobre as pétalas aveludadas das rosas, pegou no comando da televisão, ligou o aparelho e estendeu-se no sofá a ouvir as notícias. Cinco minutos mais tarde, a campainha da porta tocou. Levantou-se e foi atá à porta que abriu depois de ver que se tratava da sua amiga Inês. Cumprimentaram-se com um beijo, e seguiram para a sala.

Inês estava impressionada com o aspeto da amiga, e comadre. Disse assim que se sentaram:

-Aproveitei a hora do almoço para te vir ver. Todos estamos muito preocupados contigo, já que nunca mais apareceste na pastelaria. Por outro lado, sempre que te convido para ires almoçar ou jantar lá a casa, como ontem dás sempre uma desculpa. Agora olhando para ti, vejo que deves estar a passar mal e estás aqui fechada sozinha. Porque não me disseste?

- Não estive assim até à semana passada. Levei um mês praticamente a comer e a  dormir.

-Não me digas, por isso estás tão gorda – disse com ironia.

- É que os últimos dias têm sido muito difíceis. Não aguento nada no estômago. Agora mesmo não sei se conseguirei aguentar o pouco que comi ao almoço. 

Vómitos matinais após o primeiro mês, são normais em muitas grávidas,  mas se acontece após almoço e jantar deves ir ao médico. Vais começar a perder peso e não é bom para o bebé. Se quiseres vou contigo.

- O problema é que só tenho consulta no Centro Clínico dentro de duas semanas. Telefonei para o consultório da minha ginecologista e informaram-me que está de férias. E não acho que seja coisa para ir ao hospital.

-Mas não podes estar assim. Quando chegar à pastelaria, vou telefonar à minha ginecologista. Tenho a certeza de que se não hoje, amanhã ela atende-te. Não te preocupes eu levo-te lá, não te quero a conduzir como estás. Agora vou-me embora. Daqui a pouco já te telefono.  O pessoal manda-te um abraço e diz que tem saudades tuas. E os clientes perguntam por ti todos os dias. Estranham que de um momento para o outro tivesses deixado de aparecer, perguntam-me se comprei a pastelaria.

-Não lhes digas o que se passa. Diz que estou de férias, que fui para a aldeia, qualquer coisa, mas não lhes digas nada da gravidez, até que passem os três meses.

Inês levantou-se, deu-lhe um beijo, e disse:

- Não te levantes, eu sei o caminho.

 


27.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XI




No dia seguinte, à noite. Sandra estava sentada no sofá, as pernas debaixo do corpo, coberto por um robe de seda azul-celeste. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, e olhava sem ver  a televisão, na qual passava um filme. Ouviu ao longe um som de campainha, mas absorta nos seus pensamentos, nem se apercebeu de que não era no filme, já que a TV estava sem som.
A campainha voltou a tocar, desta vez, mais insistente, e ela pôs-se de pé, e descalça dirigiu-se à porta. Abriu-a um pouco sem tirar a corrente, e arregalou os olhos de espanto ao ver Gabriel do outro lado. Voltou a fechar a porta, tirou a corrente e então abriu-a.
- Boa-noite – saudou ele.
- Boa-noite, - respondeu sem atinar com o motivo daquela visita
- Posso entrar? Preciso falar contigo.
Sem responder, ela afastou-se para o deixar passar, fechou a porta e dirigiu-se para a sala.
 - Desculpa, sei que é tarde, mas como disse preciso falar contigo.Liguei-te algumas vezes mas não atendeste, e temos de conversar.
Olhou-a da cabeça aos pés. Onde tinha ficado a mulher rebelde, bela e sensual que ele vira no dia anterior na pista de dança? A mulher que estava na sua frente,  parecia uma miúda perdida e sem proteção.
 Sentiu um desejo estranho de a abraçar, de lhe dar a proteção que ela precisava, mas não se atreveu sequer a estender a mão para lhe tocar. Cerrou os olhos, confuso. Que raio se estava a passar com ele?
- Deve estar no silêncio, não esperava ligações. Quer tomar alguma coisa? Não tenho bebidas alcoólicas, mas um café ou chá, posso fazer num minuto.
-Aceito um café, obrigado.
- Vou buscar.
Afastou-se em direção à cozinha. Ele recostou-se no sofá e cerrou os olhos. Sentia-se bem ali. A sala era pequena, mas confortável, e tinha um não sei quê de lar que lhe agradou. Minutos depois, ela voltou com uma bandeja onde fumegava uma chávena do aromático café, e um açucareiro. Sem usar o açúcar, ele agarrou na chávena.
- Não me acompanhas?
- Nunca bebo café à noite.
Decorreram uns minutos em silêncio. Depois ele perguntou:
- Foste ver o teu pai?
- Fui.
- E como estava?
- Como queria que estivesse? Cada dia mais desmoralizado, - disse sem evitar que uma lágrima lhe rolasse pela face.
- Olha, é por isso que vim. Falei com o Pedro, um amigo meu, que é investigador da Judiciária. Ele diz que oficialmente não pode fazer nada, houve uma investigação e uma acusação, o julgamento foi feito a sentença está a ser cumprida. Para reabrir o processo seria necessária uma nova prova, ou um indício muito forte de erro judiciário.
- Eu sei. Foi o que me disse o advogado.
- Mas o meu amigo, está disposto a ajudar-nos, embora não de forma oficial, sob uma condição.
Ela levantou para ele os seus belos olhos verdes, num olhar interrogativo, mas não fez perguntas.
- Ele está livre amanhã. Quer conhecer-te, falar contigo. Só depois decide se nos vai ajudar ou não. Penso que ele precisa ter a certeza de que tu estás certa da inocência do teu pai, não sei. Sei que foi a condição que impôs. Achas que nos podemos encontrar, com ele, por exemplo às dezasseis horas?
- Sim, claro que sim? Onde?
- Ainda não pensei. Ele sugeriu um local sossegado, onde pudéssemos falar à vontade.
- Aqui?
-Não, aqui não, - respondeu rapidamente sem nem mesmo pensar, porque lhe repugnava a ideia de levar outro homem para a casa dela.  Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vou pensar e telefono-te amanhã perto do meio-dia. Vai descansar. 
E saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a atordoada. Que se passaria com ele? Será que tinha mesmo acreditado na inocência do pai e ia ajudá-la?
Ou era uma manobra para afastar de si as suspeitas? Não sabia o que pensar mas uma coisa tinha ficado clara. Ele não iria despedi-la. E isso dava-lhe uma certa tranquilidade.


26.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XLIII




 No coração de Luísa, a certeza de que aquele amor entre os dois era real, debatia-se com a dúvida de que tudo não passava de uma ilusão criada pelas circunstâncias em que ele chegara à sua vida, e pela solidão a dois vivida durante aquela semana.
Mal chegou a casa, abriu o computador e foi investigar o nome dele.
Durante quase uma hora leu tudo o que encontrou, desde os seus tempos de futebolista famoso até ao momento atual de homem famoso e respeitado no mundo das letras.  Leu sobre suas obras filantrópicas, em especial a Fundação que tinha o nome da sua filha, tomou conhecimento da trágica morte da esposa, e quanto mais lia, mais a insegurança se instalava nela. Como é que um homem com tal poder se podia interessar por ela?
Quando fechou o portátil, lembrou-se que tinha ficado de telefonar à
esposa do médico e ligou-lhe. A senhora estava muito entusiasmada, o advogado de Gil, tinha informado a televisão de que o escritor já tinha dado notícias e estava de regresso. Os repórteres já estavam acampados junto da sua residência e tinham prometido mais notícias sobre a história do seu desaparecimento para os noticiários da noite.
-Mas, minha querida nem a deixei falar. Como foi que ele recebeu a notícia? Já recuperou a memória?
-Já há dias que ele ia tendo flashes da sua vida, especialmente da imagem da filha, embora as recordações aparecessem como peças soltas de um puzzle, a  que faltavam tantas peças que o deixavam frustrado e nada lhe diziam. Ao assistir ao programa, o puzzle compôs-se e a memória voltou. Acompanhei-o à vila para que alugasse um carro e partisse.
- Deve ter sido uma situação muito dolorosa, não só para ele como para a família.
-Penso que sim, mas já acabou. Pedi-lhe para que não dissesse onde esteve nem com quem, não quero que a imprensa perturbe a minha tranquilidade. E queria pedir à minha amiga, que não falasse a ninguém no caso. E claro ao seu marido também.
- Fique descansada que não comentarei com ninguém. E darei conta, do seu pedido ao António, mas ele vai-me dizer que é escusado o aviso, um médico e um sacerdote estão obrigados ao segredo sobre os corpos e almas que cuidam. É o que me costuma dizer.
- Nem sabe como lhe agradeço. Bom vou jantar. Porque não vem amanhã lanchar comigo? A senhora tem sido uma grande amiga, quase como uma mãe. E nesta altura da minha vida,  eu sinto que preciso das duas.
- Claro que sim, Luísa. Estou aí às três. É um pouco cedo para o lanche mas dá-nos mais tempo para por a conversa em dia.
-Muito obrigado. Até amanhã. 
Até amanhã, querida!


7.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE IX


                                               

 Pouco depois, aprestava-se Miguel para sair, quando a jovem disse:
- Queria lavar a minha roupa. Mas não encontro detergente. Não há?
-Sinceramente não sei. Quando cá estou, é a D. Adélia, uma senhora que já trabalhava para a minha avó, quem vem duas vezes por semana, fazer limpeza e tratar das roupas.
- Preferia ser eu mesma a cuidar das minhas.
-Quer que lhe traga um detergente?
-Se fizesse o favor…
- Bom. Mas vou demorar. Ah, e já agora, tinha pensado encomendar uma pizza para o jantar. Gosta?
- Penso que sim, - respondeu a jovem a medo.
- Então até logo. Lamento não ter televisão, mas a única coisa que me interessa para além da pintura, é a leitura. Já lhe disse que pode ler o que quiser?
Ela assentiu com a cabeça e Miguel saiu fechando a porta com suavidade. A jovem foi até à estante e retirou um livro ao acaso.
Sentou-se no sofá e tentou embrenhar-se na leitura.
Enquanto isso, Miguel dirigiu-se à cidade e procurou uma tabacaria, onde comprou dois dos mais importantes jornais diários. Depois procurou um recanto mais sossegado num café e começou a folhear os jornais. Procurava alguma notícia sobre a jovem, mas não encontrou nada. Pensando que talvez já tivesse saído, dias atrás, voltou  à tabacaria, e  perguntou se tinha os jornais dos últimos dias.
-Não. Os que não se vendem num dia, são devolvidos no dia seguinte. Se quiser consultar outros, só na biblioteca.
Miguel agradeceu e dirigiu-se à biblioteca onde durante mais de uma hora folheou os jornais da última semana, sem que tivesse visto alguma notícia que se pudesse relacionar com a jovem.
Desiludido, saiu e foi ao supermercado, onde fez algumas compras. Depois dirigiu-se à loja, onde já estiver de manhã, e pediu à empregada roupa de dormir, para uma jovem.
Torceu o nariz para as peças demasiado reduzidas e sensuais que a empregada, lhe apresentou e pediu algo mais simples, justificando que se tratava de uma prenda para a filha.
A empregada, sorriu, e foi buscar umas caixas onde repousavam uns juvenis pijamas, compostos por top e calções, e umas camisas de dormir, que mais pareciam umas t-shirt, compridas. Comprou também um roupão de algodão acetinado, branco. Efectuadas as compras que achou necessárias, colocou tudo no carro e dirigiu-se para casa, não sem antes passar pela pizzaria.



22.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVI






Dias depois, Quim foi convocado pelo advogado dos tios para a leitura do testamento. Os tios tinham-lhe deixado tudo. A casa, o restaurante e um bom dinheiro. Exceptuando uma pequena quantia que destinaram à empregada, e uma cláusula em que determinava que ela deveria continuar como empregada da casa.
O casal, mudou-se então para a casa, por cima do restaurante. Quim continuou a ser o cozinheiro, Sofia, tratava de todos os assuntos relativos à gerência. O negócio ia bem, a conta bancária aumentava. Três anos depois, nasceu a  pequena Catarina. E quando esta estava prestes a completar um ano, aconteceu em Portugal, a tantas vezes sonhada revolução, que depôs o regime fascista e colonialista. Era Abril, os cravos floriram e com eles a libertação de um povo, martirizado pela fome e pela guerra.  As imagens correram mundo, e eles viram-nas pela televisão e renovaram as esperanças de poderem voltar a Portugal.

16.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVIII


Um mês mais tarde, o “casal” tinha adquirido rotinas e viviam aparentemente felizes. Sofia estava empregada numa loja de moda, ia e vinha de metro, jantava no restaurante e aguardava pelo marido para regressarem a casa. Passavam os sábados juntos, já que o restaurante encerrava nesse dia, e ela só trabalhava até à uma. Depois do almoço, davam uma volta pela cidade, e às vezes pelos arredores. Quim era um excelente guia e ela gostava de o ouvir. Jantavam em casa. E depois do jantar, iam ao cinema, ao teatro, ou simplesmente ficavam em casa, vendo televisão e conversando.
Ao domingo o restaurante estava aberto, ele trabalhava. Ela levantava-se cedo, tratava das tarefas da casa, ia à missa, almoçava no restaurante e passava parte da tarde com a tia Délia.
A tia era uma boa conversadora, Sofia tinha-se afeiçoado a ela.
Pena que cada vez se encontrasse mais debilitada.
Jantava com os tios e só descia à hora que o marido costumava sair. E seguiam juntos para casa.
Sofia estava apaixonada pelo marido. Cada dia o admirava mais, gostava da paciência com que lhe explicava coisas que ela nunca entendera, como a politica por exemplo. Tinha aprendido mais com ele naquele mês, do que na sua vida inteira. Sentia-se fascinada pela mentalidade do marido, tão diferente da dos homens em Portugal. E cada dia era maior o seu desejo de que ele reparasse nela como mulher.
Por essa altura, conheceu a mulher por quem ele se apaixonara. Encontraram-se um sábado, quando passeavam pelas margens do Sena.

15.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVII





- Calculo que sim. Mas sempre ouvi dizer que a vida aqui é cara, e que para se ter alguma coisa são precisos sacrifícios. Quero ajudar, contribuindo para as despesas. Talvez tenhas que me dar algum dinheiro, preciso fazer algumas compras, se o meu enxoval demorar a chegar. No avião deixam trazer tão pouca coisa.
-Não é problema. Disponho de três horas livres todas as tardes, posso acompanhar-te. Mas amanhã não. Prometeste ir lanchar com a tia.
-Sim. Mas vens-me buscar? 
-Venho buscar-te antes de começarmos a servir os almoços. Procura estar pronta, não poderei demorar. Almoças lá e depois sobes e ficas com a tia. Depois de amanhã, é o dia do descanso de pessoal, o restaurante está fechado, poderemos ir comprar o que quiseres, e irei mostrar-te parte da cidade, para que não estejas sempre em casa com medo de te perderes.
Durante uns momentos ambos ficaram em silêncio, cada um preso aos seus pensamentos. Depois Quim retomou a conversa.
- Vou ligar a televisão, são horas de notícias. Se tiveres sono, podes ir deitar-te. Usa o quarto principal, eu fico no mais pequeno.
- Obrigada. Não tenho sono e gostava de ver um pouco de televisão. Em Portugal a televisão ainda é um luxo, que a maioria não conhece.  Na nossa aldeia, só existe uma no café. E isso porque tem um gerador. Como deves saber a eletricidade ainda não chegou lá. 


28.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - FINAL



Luís sente-se muito cansado.
Não tem irmãos, os seus pais já morreram, não tem filhos. A mulher que foi tudo para ele na vida, companheira, mulher, amiga, amante, está presa algures, numa qualquer masmorra do seu cérebro doente. Sem esperança de se conseguir libertar.  E ele interroga-se: