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13.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VI

 



A vida foi retomando o seu ritmo normal. Helena andava muito cansada, o trabalho no hospital era cada dia, mais intenso, pelo que teve que pedir uma reunião com o diretor da clínica, e reduzir o seu trabalho para apenas duas horas, três vezes por semana. 

Com toda essa azáfama, quase tinha esquecido o sinistrado, quando a colega do outro hospital lhe telefonou a informar que o homem tinha  recuperado a consciência. Ela  nunca mais voltara ao hospital desde aquela noite em que falara com a médica,  e lhe pedira para que a avisasse , quando ele saísse  do coma. Como naquele dia, não tinha consultas na clínica, decidiu que ia vê-lo quando terminasse o seu trabalho no hospital.

 Depois de a cumprimentar, a colega, disse-lhe:
-O nosso doente está finalmente livre de perigo. Mas está amnésico. Nem sequer se lembra do seu próprio nome.
- Às vezes acontece depois de um grave acidente. Mas deve ser transitório, não?
- Talvez. Fez hoje uma RM. Vamos esperar os resultados para despistar alguma lesão de maior gravidade a nível cerebral. Vamos vê-lo?
- Claro. E a polícia, não disse nada?
- Apenas que continua a não haver nenhuma queixa por desaparecimento. Esperavam que saísse do coma para o interrogar.
- E já o fizeram?
-Já. Mas devido à amnésia, não deu em nada. Fotografaram-no para verem se a foto dele faz parte dos ficheiros da polícia.

Tinham chegado junto do doente. Pela primeira vez Helena, via realmente o sinistrado. Não teria mais de trinta e cinco anos, talvez nem tanto, era moreno, embora agora estivesse bastante pálido, cabelos pretos, bem curtos, e ligeiramente ondulados, e uns profundos e desorientados olhos pretos. Os traços do seu rosto eram perfeitos, a testa alta e o queixo firme. O pijama meio desabotoado deixava ver um peito bem musculado.

- Como se sente? - perguntou a médica
-Vazio, -respondeu esboçando uma careta que talvez pretendesse ser um sorriso.
- Apresento-lhe a doutora Helena Correia. Foi ela quem o encontrou meio morto na estrada e providenciou para que fosse rapidamente socorrido.
- Obrigada doutora. – Estendeu-lhe a mão, que ela apertou, reparando que era uma mão de dedos longos e bem tratados.





para os novos leitores...
Para dar um pouco de "pica" numa altura em que está quase tudo de férias, 
e sabemos  que este homem, está amnésico e não tem documentos , alguém arrisca um palpite? Quem será ele?  Donde será? E como veio aparecer quase morto  "as portas" de Lisboa? Será "recado" de algum gang? 

4.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE II

 






E passaram quase seis anos. Helena, viveu com os pais, até que o filho fez dois anos, trabalhando num posto médico na aldeia vizinha. Depois achando que o filho estava suficientemente crescido para entrar numa creche, começou a enviar currículos para hospitais e clínicas da capital. 
Pensava que tinha chegado a hora de dar um pulo na profissão, quiçá concretizar o sonho da sua vida. Três meses depois, tinha uma proposta de trabalho muito interessante numa clínica privada, para pequenas cirurgias de ambulatório. Ela gostaria mais de um hospital estatal, mas a proposta era irrecusável, o horário deixava-lhe muito tempo livre, já que estava ocupada apenas da parte da manhã, e quem sabe mais tarde conseguia entrar para um hospital. Afinal ela tinha conhecimento de que havia tantos médicos que trabalhavam em hospitais e clínicas, ou consultórios particulares em simultâneo. Assim mudou-se de armas e bagagens para a capital, alugou um pequeno apartamento, arranjou uma creche para o filho e iniciou uma nova vida.
Com a falta de médicos no país, e com o seu curriculum, não foi difícil conseguir trabalho num dos hospitais da capital. Foram apenas seis meses de espera. Depois teve que conciliar o trabalho no hospital, com o da clínica, reduzindo as horas na Clínica e passando-as para o final da tarde, depois da saída do hospital. Teve que arranjar uma empregada de confiança para ir buscar Diogo à creche, e ficar com ele até à hora em que ela chegava. Felizmente que a lei lhe permitia não fazer turnos, por ter um filho com menos de doze anos a seu cargo.
O seu filho completara cinco anos, no próximo ano entraria para a escola oficial. Ela estava feliz com a sua profissão. Estava no chamado hospital dia, fazia apenas as pequenas cirurgias que podiam ser feitas em ambulatório, mas ainda assim era melhor que o anterior trabalho de médica de família no centro da aldeia.  Na semana anterior, tinha ido a Londres assistir a um congresso. Antes disso foi à terra levar o filho, que deixou com os pais. Podia deixá-lo com a empregada, ela era competente e adorava o menino como se ele fosse seu próprio neto. Mas ela tinha a certeza, de que os pais teriam ficado aborrecidos se o fizesse. Era essa a razão, porque ela se encontrava naquela tarde de domingo, a despedir-se dos progenitores, para empreender a viagem de regresso a casa.
Uma hora depois o carro avariou, e Helena viu-se obrigada a telefonar para a Assistência em viagem e aguardar que mandassem alguém para solucionar o caso.

21.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE IX

 


- E a mim, que sou seu tio e padrinho. Bem sei que não é a mesma coisa que um pai, mas sabes que estarei sempre aqui para ele, e para vocês. O Miguel precisa conviver com outras crianças da sua idade. Sabes tão bem como eu, como isso é importante para o seu desenvolvimento. E tu também precisas voltar ao trabalho o mais rápido possível. Não podes continuar fechada para a vida. Sei como amavas o Quim e que a sua perda te causou uma dor enorme.

Não te peço que o esqueças, sei que ele vai ter sempre um lugar no teu coração, mas não deixes que o ocupe na totalidade. Tens dois filhos amorosos, tens que pensar neles. Tenho a certeza que um coração generoso como o do Quim não ia gostar de te ver assim.

Ele ia gostar que seguisses com a tua vida. Meu Deus, Laura só tens trinta e dois anos, és uma mulher inteligente e linda. Tens que dar uma nova oportunidade ao amor e a ti própria. Mereces isso.

- Fala a voz da experiência, Gonçalo? Quantas oportunidades deste tu ao amor? A Inês Rodrigues andava atrás de ti, como cachorro atrás do dono, a João Guerreiro era capaz de correr uma maratona por ti e a Amália Roque vendia a alma ao diabo, por uma saída contigo? Deste uma oportunidade a alguma delas?

-Um médico não tem grande disponibilidade para relações, mana.

-Não me convences. Quando dava aulas no colégio tinha vários miúdos, cujos pais eram médicos. Mal estava o mundo se ser médico impedisse o homem ou a mulher que o é, de viver uma história de amor e formar uma família. Se assim fosse, decerto seria mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que um médico.

- Mãe, o Miguel cheira mal, - gritou Sara da sala.

- Está bem, a mãe já vai. Desculpa Gonçalo, tenho de ir. De qualquer modo já acabámos a refeição. Se tiveres de ir não levo a mal. Entre mudar a fralda ao Miguel e conseguir que adormeça, vou demorar um bocado.

-Não faz mal. Vou pôr a loiça na máquina e ver se a Sara precisa de ajuda com os TPCS. Como te disse, hoje só vou para o hospital à noite.

Meia hora mais tarde, com Miguel adormecido e Sara no quarto, a estudar para o teste do dia seguinte, os dois irmãos encontravam-se sentados na sala, quando Laura retomou a conversa anterior.

- Não acredito que um homem inteligente e bonito como tu, se sinta feliz sozinho. Estás em Lisboa há mais de dois anos, e passas o teu tempo onde?  Ou no hospital, ou aqui.  De certeza não há no hospital uma médica, ou uma enfermeira com quem gostasses de passar algumas horas fora do hospital?

- E diz isso quem passa o tempo metida em casa, e até as compras faz pela Internet?

- É diferente Gonçalo. Ir às compras com um bebé não é tarefa fácil.

- Acredito. Mas diz-me, quantas vezes vais ao parque com ele? Não devias aproveitar o tempo em que a Sara está na escola para o fazeres? O teu desgosto, não pode estar a atrasar o desenvolvimento do teu filho. Procura uma creche e pelo menos aí ele aprende a conviver com outras crianças.

- Palavra que ainda um dia, descubro como o fazes?

-O quê?

- Cada vez que tento falar da vida que levas, dás um jeito de falares da minha, e não responderes.

-Prometo que da próxima vez, não o faço, se quando o Miguel acordar, formos os quatro ao parque.


21.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXII




Cumprimentou as empregadas, e os poucos clientes que havia aquela hora, e dirigiu-se à cozinha, onde se encontravam Hugo o padeiro, Mário o pasteleiro, e os três ajudantes Maria, Acácio e Alfredo. Depois de os cumprimentar, perguntou:
-Como correram as coisas por aqui durante a minha ausência?
- Se exceptuarmos o maior movimento no sábado por termos fornecido os doces e o bolo de casamento para a Quinta do Marquês, nos outros dias o movimento foi o habitual nesta altura do ano - respondeu Mário.
- Bom, quero dizer-vos que durante uns tempos vou ficar afastada. Daqui a pouco chegará a pessoa que ficará a gerir o negócio. Trata-se da Inês, a minha amiga, que todos conheceis, até por ser filha aqui do Mário. Quero que todos vós, a tratem com o mesmo respeito com que sempre lidaram comigo. Confio em vós, para que esta casa, que de certa maneira também é vossa, já que é o vosso local de trabalho, continue a ser o que tem sido até hoje. Um local de referência para quem a procura. Do seu sucesso, depende o meu e vosso ordenado.
- Vai para fora? – perguntou o padeiro.
- De momento não.
- E vais ter coragem, de não apareceres por aqui, morando a meia dúzia de metros? - perguntou Mário.
- A menos que por qualquer razão me chamem, terei sim. Com a Inês na gerência, a minha presença aqui, pareceria um ato de vigilância, como se não tivesse confiança no seu trabalho. Bom vou para o escritório.
Pouco depois, recolhia e metia num saco, os poucos objectos pessoais, que tinha na secretária. Depois abriu a carta da eletricidade, registou no livro das despesas a importância e arquivou a fatura.
Ligou o computador e verificou o email da empresa, enquanto pensava na decisão que tomara. Ia sentir saudade do movimento na pastelaria. Das conversas com os clientes, de ajudar a estender ou a rechear as massas, do cheiro do pão acabado de sair do forno, que se misturava com o aroma da canela, ou da baunilha, ou o cheiro forte do café. Porém estava convencida que tomara a melhor atitude. Pelo menos durante a gravidez. Apoiou os cotovelos na secretária, e apoiou a cabeça entre as duas mãos abertas, precisamente quando Inês entrava no pequeno gabinete, que servia de escritório.
- Bom dia! Não te sentes bem?
- Bom dia! Estou bem não te preocupes. Estava apenas a pensar, nas saudades que ia sentir do movimento na pastelaria. Foi a minha vida durante vários anos.
- Mas não tens que sentir saudades, moras a meia dúzia de metros, podes estar aqui sempre que te apeteça.
- Eu sei, mas prefiro não vir. Bom senta-te e vamos conversar. Ontem não falámos de ordenados, não sei quais são as tuas expectativas quanto a isso.
- Não as tenho. Tu dirás o que pensas que mereço em relação ao trabalho que irei executar, sem esquecer a minha prática inexistente.
Teresa referiu uma quantia e perguntou:
-Parece-te bem?


20.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VIII




- Muito bem. Esta tarde, organizarei com o Paulo o trabalho, e amanhã de manhã, começarei com o teu caso. Preciso de uma cópia do tal documento que elaboramos aquando da recolha. Outra coisa, como é que está o caso do estagiário que precisamos?
-Estou a tratar disso. Os Recursos Humanos selecionaram três perfis. Já os analisei e qualquer dele parece-me interessante. Vamos fazer um estágio com os três, e vamos ver se correspondem às nossas exigências, e qual deles se adapta melhor ao vosso trabalho. Sendo certo que precisamos apenas de um, se os outros dois forem bons, podemos recomendá-los a algum dos nossos clientes. Tudo depende das provas dadas durante o estágio.
- Muito bem. Passo por aqui ao fim do dia para apanhar o documento. Agora se me dás licença regresso ao trabalho.
-Vai-me pondo ao corrente das tuas diligências sobre o caso.
- Fica descansado. Até logo.
O advogado levantou-se e saiu. Olga preparava-se para sair quando o empresário disse:
-Espera, Olga ainda preciso de ti.
Levantou-se, foi até ao cofre que abriu e retirou um envelope castanho. Fechou o cofre, voltou para a secretária e estendeu a Olga o envelope.
- Tira uma cópia desse documento, para dares ao Afonso quando ele vier à tarde. E volta a trazer-me o original.
Ela saiu e minutos depois estava de volta com o envelope.
-Pronto. Precisas mais alguma coisa?
-Avisa o Nicolau que passarei mais tarde. para ver se resolvemos de vez, o final do jogo.
-Mas, não tinham já finalizado?
- Um jogo, que é uma sequela de outro, que foi um êxito mundial, tem que ser qualquer coisa de excecional, para que suplante o primeiro, sob pena de se tornar um fracasso. O final não me agradava, resolvi fazer uma alteração. Dei ontem o esquema dos códigos ao Nicolau, mas parece que ele não está a conseguir aquilo que quero. Faz-me falta o Carlos. Por falar, nele, quando estará de volta?
- Para a semana. Termina esta sexta feira, o tempo que a lei lhe permite para estar com a família após o nascimento do filho. Porquê?
- Ele está mais sintonizado com as minhas ideias. E o trabalho avança mais depressa e melhor do que com o Nicolau. E não nos pudemos atrasar com o lançamento. Já está tudo programado, vai ser lançado em simultâneo em vários países. A propósito, como está a preparação da festa de lançamento aqui?
- Tudo em marcha, não te preocupes com isso.
- Muito bem. A partir deste momento não me passes nenhuma chamada. Qualquer coisa que tu mesma não consigas resolver, diz que telefonem mais tarde, que eu saí. Preciso de um tempo para assimilar as consequências desta situação.
-Muito bem, ligou o engenheiro Rui, diz que precisa que vás lá à secção de hardware, tem uma coisa para te mostrar. Pareceu-me muito entusiasmado, mas não me quis dizer o que tinha acontecido. Vais fazê-lo hoje?
- Não. Diz-lhe que estou muito ocupado, mas que amanhã vou lá logo de manhã. Ele estava a tentar conseguir fazer um microprocessador com o dobro da potência, e metade do  custo. Esse  entusiasmo provavelmente  quer dizer que o conseguiu.
- Bom, antes de saíres avisa-me: 
-Queres jantar comigo hoje? Preciso de companhia - disse ele
- Mas não vais jantar com a Glória? Queres que lhe ligue?
-Não. Terminei a relação. Dei-me conta de que os meus sentimentos pouco lhe importavam. O que lhe interessava era a minha conta bancária.
- Sendo assim fizeste bem. Conta comigo para o jantar. E para alguma confidência que queiras desabafar.
- Obrigado. És uma mulher excecional. Não percebo porque nunca te casaste. Os homens deste país devem estar cegos.
- Bom se não precisas de mais nada, deixo-te só, tenho muito trabalho à espera.
E Olga saiu fechando a porta, e deixando o empresário a sós com as suas recordações.


23.6.20

ISABEL - PARTE XXX



Aquelas duas semanas, tinham sido muito intensas para Luís, dividido entre o trabalho temporário que estava fazendo, a preparação do lançamento do seu novo livro, que seria já no final do mês, e o acompanhamento sempre que possível do trabalho de decoração da sua nova casa. O trabalho, no centro comercial, nada tinha a ver com jornalismo, nem bem se podia chamar um trabalho, embora ele o levasse a sério, era um favor feito a um empresário amigo do seu pai. Luís precisava de conviver naquele local para observar as rotinas dos empregados, já que as personagens da novela que estava a escrever, estavam ali empregadas, e o amigo de seu pai, fora surpreendido pelo pedido de transferência do seu director comercial, e apesar das várias entrevistas, não tinha ainda encontrado a pessoa com o perfil adequado ao lugar. Assim e com a intervenção do seu pai, tinham chegado a um acordo e Nuno Fraga ocupara o lugar 
Chegava à noite cansado e sem vontade de fazer outra coisa que não fosse, tomar um bom banho e dormir. Escusado será dizer que a promessa de telefonar à mãe e ir jantar com os pais, foi completamente esquecida.
Porém e apesar de tudo, não raras vezes se surpreendia a pensar em Isabel. Por onde andaria ela? Onde viveria, o que faria? Procurara o seu nome na lista telefónica mas não o encontrou, o que não lhe causou qualquer surpresa. Atualmente poucas pessoas dispunham de um telefone fixo. Da próxima vez que o destino os juntasse teria que arranjar maneira de descobrir o número do seu telemóvel.Tentava afastar estes pensamentos, mas eles permaneciam lá como erva daninha sempre pronta a estender as suas raízes.
Naquele dia tinha acabado de preparar com o editor, o lançamento do seu segundo livro, faltava já só dez dias para a data do lançamento.  A sua vontade era continuar incógnito, mas segundo o editor, seria um erro. Os leitores acharam muito interessante um primeiro livro de um autor que queria permanecer incógnito. Mas um segundo nas mesmas condições, podia parecer que se tratava de snobismo, e desprezo por eles, leitores. E isso podia ditar o fracasso do livro. Outra boa notícia desse dia foi a chegada do director comercial para o lugar que ele ocupara até ali. Claro que ele continuaria por lá, mas agora terminada a sua missão, só algumas horas por dia, porque a novela teria que estar pronta no fim de Novembro para estrear em Março.
Acabara por descobrir que escrever uma novela, era muito diferente de escrever um livro. Ele escrevia o livro, e apresentava-o ao editor para a publicação. A novela teria que ser aprovada pela direcção de programas, depois, haveria a escolha do elenco, o que resultava de imensos castings. A escolha do roupeiro e adereços, que compunham cada personagem, os cenários, enfim um mundo de coisas antes de começarem as gravações. Mais tarde a campanha de lançamento e só depois a estreia. Ou seja antes do primeiro episódio ir para o ar eram meses e meses de trabalho intenso. E depois o trabalho continuava, pois depois da novela ir para o ar, eram as audiências que comandavam. Se o sucesso fosse grande, teria que esticar ao máximo a trama, e os duzentos episódios, que lhe tinham pedido inicialmente, poderiam ir até aos trezentos. Se fosse um fracasso, teria que reescrever grande parte da trama, matar alguns personagens, introduzir outros, etc. Percebeu porque se adaptam grandes obras literárias a novelas mas raramente um bom escritor escreve novelas para a Televisão. Na prática o escritor pode ter uma excelente ideia, mas se ela não fizer subir as audiências, ver-se-à obrigado a enveredar por um caminho que não lhe diz nada, apenas para cair no gosto popular.
Na verdade, ele não pretendia dedicar-se a esse tipo de escrita, aceitara fazer aquela, apenas como se fosse um desafio.
Por tudo isso e porque acabara de se mudar para o seu apartamento, finalmente pronto, Luís sentia-se um homem realizado.
Aprestava-se para regressar a casa, quando viu Isabel no centro comercial, prestes a entrar no supermercado. Pensou que ou o destino lhe estava a dar uma ajuda, ou andava a brincar com ele. Reparou que ela não o tinha visto. Aproximou-se.
- Boa noite Isabel, – saudou, pondo-se a seu lado.


E como hoje é vésperas de S. João, festejem-no em casa e não joguem a vossa saúde na roleta da sorte. Para não terem más surpresas.







19.6.20

ISABEL - PARTE XXVIII



foto do google

Isabel não saiu nesse fim de semana. Perdeu-se nas lides domésticas,  tentando esquecer o seu desassossego. E na semana seguinte tinha uma campanha para produzir e entregar o que tornou o trabalho tão intenso, que esqueceu por completo outros pensamentos que não os da campanha publicitária em curso. Foi uma semana de loucos, com o cliente a rejeitar as suas ideias iniciais, o que a fez temer não conseguir cumprir o prazo, mas felizmente conseguiu.
No início da semana seguinte quando Amélia e Luísa chegaram, já a encontraram à secretária embrenhada no trabalho. Ainda não ganhara coragem de contar à amiga, o que se tinha passado naquela Sexta-Feira quando se dirigia para os correios. Por sorte, nessa manhã, Hans telefonou-lhe da Alemanha. Tinha um novo trabalho para ela, desta vez uma coisa diferente e muito especial. Ele e Anne iam casar e queriam a sua presença na cerimónia,  como madrinha. Hans era um grande amigo. Fora ele que a recebera quando ela ganhara, quase em início de carreira, o concurso para novos talentos e fora ele quem já lhe arranjara alguns contratos vantajosos para a Alemanha. Vivia com Anne há alguns anos, mas agora queriam oficializar a relação.

-Não queremos que o Peter nasça antes do casamento.

Isabel ficou maravilhada. Então eles iam ser pais. Apesar de Hans ter feito o convite quase em cima da hora, (faltavam cinco dias para o casamento), aceitou sem hesitar.
 Desligou.
- O Hans vai casar e convidou-me para madrinha, disse com a alegria duma criança a quem prometem um brinquedo novo.
Embora não o conhecesse pessoalmente, Amélia, já tinha ouvido falar muito daquele alemão. Levantou-se e foi até à secretária de Isabel.
-Quer dizer que te vais ausentar de novo? E para quando é o casório?
- Sábado.
- Este sábado?- espantou-se Amélia. - Como é possível? Desculpa mas o teu amigo é doido.
Isabel riu.
- Luísa, liga para o aeroporto e vê se consegues marcar voo para amanhã à tarde ou para Quarta-feira. Amélia, preciso de ti, esta tarde para me ajudares na compra da “fatiota”
- Retiro o que disse. O teu amigo não é doido. Vocês são doidos!
Isabel não respondeu. Afinal aquele convite era como uma bênção divina. Seria maravilhoso rever os amigos e sobretudo sair à rua sem recear encontrar Luís.
Não sabia ao certo se temia o homem ou as emoções que ele lhe despertava. Mas sabia que temia encontrá-lo de novo.
Nessa mesma tarde depois de despachar as coisas mais urgentes saiu com Amélia para escolherem a "toilette" para a cerimónia. Escolheu um vestido longo em crepe cor de vinho,  que punha em destaque a beleza do seu colo, e ombros. Sapatos de salto alto em cetim bordado e uma pequena bolsa a condizer. A empregada da loja disse-lhe que não era necessário ser tudo a condizer, a moda actual permitia jogar com as cores, mas Isabel não estava muito convencida disso, e sentia-se mais confortável assim. Como o clima na Alemanha era diferente, comprou também um bolero em veludo, cor de marfim para o caso de precisar.
Ao vê-la, enquanto se mirava no espelho do gabinete de provas, para ver se o
agasalho ficava bem com o vestido, a amiga disse:
- Se o homem dos olhos cinzentos te visse assim, nunca mais te largava. E se ele for o padrinho?
Estremeceu
- Não sejas tonta Amélia.
- Eu? Já pensaste nas voltas que a vida dá e nas coisas estranhas que nos acontecem?
 -Não tenho pensado noutra coisa nos últimos tempos.
 Quando dois dias depois se despediam no aeroporto Amélia disse-lhe:
 - Um casamento é sempre uma óptima ocasião para se arranjar namorado. Oxalá o padrinho seja interessante.
 Não pode deixar de rir. E retorquiu:
 - Não estou à procura de namorado, muito menos vou lá com essa intenção. Vou porque adoro aqueles dois e estou muito feliz por eles.
 - Pois era bem melhor que estivesses feliz por ti,- resmungou Amélia.


                                             


31.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XX






Vim para Portugal, porque havia informações de que podiam estar a atuar aqui, alguns desses criminosos. O meu trabalho, era identificá-los e denunciá-los à polícia para que fossem presos. Porém quando o meu trabalho foi feito aqui, recebi ordens para avisar a polícia de que devia mantê-los sob discreta vigilância, mas não os podiam prender, pois os cabecilhas estariam em Londres. Se estes fossem presos, os outros deixariam de atuar durante uns tempos, ou iriam para algum casino menos conhecido em algum país noutro continente, o que inutilizaria meses de investigação. Recebi ordens para viajar com urgência para Londres, verificar se a notícia era real, e identificá-los a fim da detenção se fazer em simultâneo nos dois países. Levei três meses para o conseguir. Temos ordens rigorosas de que absolutamente ninguém pode saber a que nos dedicamos. A minha própria família, nunca soube qual era minha verdadeira profissão e nem queiras saber os sermões que me davam quando os visitava. 
- Mas como é que se descobrem esses criminosos?
- Precisamos observar todos os jogadores que perdem grandes quantias, e os que ganham grandes quantias. Temos que descartar os que perdem e ganham em simultâneo. Esses normalmente, são jogadores profissionais, que jogam pelo prazer de o fazer, e não têm interesse. Também descartamos os viciados como o teu marido.  Agora os que perdem todos os dias grandes importâncias sem preocupações, e nunca ganham, são suspeitos, a investigar, especialmente se no mesmo casino, houver outros a ganhar todos os dias grandes quantias. É esse o esquema de lavagem de dinheiro. Só temos que provar, a ligação entre quem perde, e quem ganha.
Tomou-lhe o rosto nas mãos e beijou-a suavemente com carinho. Depois continuou
- Foi o meu último trabalho. Apresentei a minha demissão. Nunca mais me quero separar de ti. Foram três meses horríveis. Tive saudades do teu sorriso, dos teus beijos, do teu cheiro.
- Nós também tivemos saudades tuas, - disse ela pegando-lhe na mão, e pousando-a sobre o seu ventre.
Levantou-se de um salto.
- Queres dizer... que vamos ter um filho? Vou ser pai? – Perguntou redopiando com ela pela sala.
- Pára por favor! Pões-me tonta.
 - Casas comigo? - Perguntou beijando-a com toda a paixão contida naqueles meses de ausência. 

27.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVIII



Três semanas se passaram.
 Eva,  perdeu o sorriso que ultimamente voltara a iluminar o seu rosto.  Saía de casa, para o trabalho e deste para casa. Ainda não tinha tido coragem de ir ao orfanato, e naquele sábado tinha que o fazer, pois a Irmã Madalena, telefonara-lhe na véspera preocupada com o seu desaparecimento. Ficaria decerto mais preocupada quando a visse. 
A jovem, perdera o apetite, emagrecera, e nos últimos dias, todas as manhãs tinha enjoos. Fez as contas, e verificou alarmada que o período já lhe devia ter aparecido há doze dias atrás. Doze dias de atraso, ela que era mais certa que um relógio suíço? Uma gravidez, era só o que lhe faltava agora, para agravar a sua situação. Foi à farmácia e comprou dois testes. Fez o primeiro e o resultado positivo repetiu-se no segundo. Como fora possível ter sido tão inconsciente? Como não se lembrara de que interrompera a tomada da pílula depois de ter ficado viúva? Logo ela que sempre se atormentara com o facto de não conhecer os pais, ia trazer ao mundo um filho sem pai. Sim porque apesar de tudo, nem por um momento pensou em abortar.
Embora sem vontade, obrigou-se a almoçar, pensando no pequeno ser que tinha no ventre. E depois do almoço, meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Estava tão necessitada de colo.
A Irmã Madalena, percebeu isso mesmo, mal a viu. Talvez por isso o abraço com que a recebeu foi mais carinhoso que nunca. Depois no seu gabinete, esperou paciente, que a jovem desabafasse.
- E quando cheguei para almoçar, tinha desaparecido, deixando-me esta carta e os documentos de doação da casa, - terminou ela estendendo à freira a missiva que André lhe deixara.
A freira, leu-a em silêncio e devolveu-lha.
- Isso foi há três semanas, e desde aí, nem uma palavra. Que lhe parece Irmã?
- Sinceramente não sei que te diga, Eva. Ao contrário do que aconteceu quando me apresentaste Alfredo, eu gostei do André quando o conheci. Senti que era de confiança, e descansei pensando que não faria nada que te magoasse. O que fez, devolvendo-te a casa, não é de uma pessoa sem escrúpulos. Na carta diz claramente que te ama. Mas quem ama confia, não abandona sem uma explicação. É nestas alturas que eu gostava de ter uma bola de cristal, que me permitisse ver o futuro. Confia em Deus filha. ELE fará o que é melhor para ti. Se te serve de consolo,  pensa no que podia ter acontecido com a atitude maluca do teu marido. Podias ter caído nas mãos de um crápula, ficares sem a casa, teres desaparecido num qualquer antro pecaminoso. E com a Graça de Deus, nada de grave aconteceu. És jovem, tens a tua casa, e o teu emprego, és livre...
- O pior Irmã, - interrompeu-a a jovem soluçando -  é que… estou grávida.
- Valha-nos Deus! - disse a freira abrindo os braços, onde a jovem se refugiou. 



6.12.19

CONTOS DE NATAL - CARTA AO MENINO JESUS






O Francisco frequentava o terceiro ano de escolaridade com muito bom aproveitamento. Era um miúdo admirável! Já vivera razoavelmente mas, actualmente, sofria as consequências da quase indigência do pai por, no início daquele ano, ter perdido o emprego. Era um bom trabalhador, mas a oficina fechara.
Andava o miudinho muito triste e amargurado porque a fome, o frio e a tristeza eram o pão-nosso de cada dia naquela casa.
Como habitualmente, ao aproximarem-se as férias do Natal, a professora mandou que os alunos fizessem uma redacção sobre essa quadra festiva.
O Francisco debruça-se sobre o papel e, numa letra mais adulta que infantil, intitula a sua composição de APELO e escreve:
«Menino Jesus: não acredito no que tenho ouvido dizer a teu respeito, ou seja, que só dás a quem já tem, e nada dás a quem nada tem! Explico-te porquê: eu sei que são os pais a darem essas prendas e não tu, que tens mais que fazer; se fosses tu, de certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres.»
Sim, eu tenho certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres. Sim, eu tenho a certeza que seria assim, pois nunca te esqueces que também nasceste pobre e pobre morreste.
«Não venho pedir nada para mim. Quero lembrar-me que o meu pai está há um ano sem trabalho e precisa de ganhar dinheiro para nos sustentar. Por isso, não te esqueças de lhe arranjar um emprego. Eu sei que Natal quer dizer nascimento e, olha, nós também nascemos e, com certeza, não foi para que morrêssemos já, sem dar testemunho sobre a terra. Se assim fosse, como é que poderíamos dar os parabéns pelo teu aniversário?! Já agora podes ficar a saber que eu nasci no mesmo dia: nasci no Natal»
Pouco antes de as férias começarem, a professora chamou o Francisco e disse-lhe que tinha arranjado trabalho para o seu pai e, que já poderia começar a trabalhar no princípio de Janeiro do próximo ano. Foi tal a alegria dele que chorou copiosamente e, então, passou a andar tão contente, que os pais não sabiam que dizer. No entanto ele não disse porque é que andava assim.
Na véspera de Natal todos se deitaram cedo, pois a consoada consistiria em sopa e pão, por o dono da mercearia, atendendo ao dia que era, ter condescendido em acrescentar ao rol do livro da dívidas.
O Francisco não adormeceu logo. Depois de ter verificado que toda a gente estava a dormir, foi colocar o seu sapatinho à porta do quarto dos pais, com um bilhete dentro.
No dia de Natal, a mãe, que era sempre a primeira a levantar-se, ao sair do quarto tropeçou no sapato do filho. Baixou-se, pegou nele, e leu o bilhete: "Pai, a partir de Janeiro vai ter trabalho. Foi a minha professora que lho arranjou, por causa da minha redacção ao Menino Jesus. É a nossa prenda de Natal".
Com as lágrimas nos olhos, de contentamento já se vê, aquele casal entrou, pé ante pé, no quarto do filho. Ao vê-lo profundamente adormecido e a sorrir, ambos disseram: eis aqui o nosso Menino Jesus!


Lucas Hernandes  in "Deixe a folha cair"

23.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE V


A mãe de Sara morrera muito jovem, e o pai, por desgosto ou por falta de trabalho no seu próprio país, que lhe permitisse dar uma vida digna à filha, emigrou para França, deixando a menina com a sua mãe.
A jovem, fora então levada para casa da avó paterna, por quem fora criada e para quem era a menina dos seus olhos. Mas o amor de uma velha avó, não é decerto o suficiente para fazer uma criança feliz e formar uma personalidade forte e segura, por muito grande que seja. Certo que materialmente nunca lhe faltou nada, pois o pai mandava rigorosamente todos os meses, a maior parte do que ganhava, a fim de que avó e neta não tivessem necessidades, mas a nível emocional faltou-lhe o apoio seguro dos pais, e isso fez dela uma jovem tímida e insegura.
 Essa terá sido a razão de não ter singrado na carreira de modelo.
Curiosamente essa mesma timidez e insegurança que a fragilizavam e a afastaram de uma possível grande carreira, foram o catalisador que fizeram com que ele se tivesse apaixonado por ela. Não por uma questão de domínio, mas porque ele, tinha desenvolvido um grande sentido de proteção aos mais fracos, e sentia-se feliz amando-os e protegendo-os. Era assim com os seus irmãos, foi assim com Sara.  
Todavia o casamento mudou por completo a jovem Sara. Gil não sabia se tinha sido o seu amor, se a grande visibilidade, que o facto de ter casado com ele lhe trouxera, mas a verdade é que Sara se transformara numa mulher arrogante e convencida, o que o desgostara e fizera arrefecer a relação. Depois vieram as suas lesões, a decisão de se retirar, a recusa em aceitar uma proposta para comentador desportivo na televisão, a decisão de ir para a universidade, e de levar uma vida anónima de empresário em sociedade com o seu irmão, fazendo da pequena loja de artigos desportivos, a maior do país, e conseguindo a representação nacional de algumas marcas. Todavia a machadada final no casamento, acontecera quando Gil  descobrira que a mulher não engravidava, porque contrariamente aquilo que sempre lhe afirmara, andava a tomar a pílula. Ela não queria ser mãe, para não estragar a figura, mas afirmava que o seu ginecologista lhe dizia que estava tudo bem com ela, que nada a impedia de engravidar, passando-lhe a ideia de que se isso não acontecia, a culpa era dele, que talvez fosse estéril.
Sentiu-se traído e decidiu divorciar-se, mas nessa altura a avó dela morreu, e ele decidiu guardar essa decisão, para outra época menos dolorosa.
Para compensar o fracasso do seu casamento, dedicou-se com mais afinco aos estudos. 
Quando era criança, Gil tinha muitos sonhos. O principal, era poder estudar, ir para a Universidade, formar-se e dedicar-se à escrita. Ele tinha consciência que era um sonho irrealizável, pois era o mais velho dos três irmãos, o que se esperava dele, era que arranjasse um emprego e ajudasse a mãe a criar os irmãos. Para esquecer, Gil dedicava o tempo livre a jogar à bola e depressa o seu incrível talento foi notado pelo olheiro de um clube. As promessas de sucesso, fizeram-no desviar-se do seu sonho principal e dedicar-se de corpo e alma ao futebol, conseguindo apenas terminar o secundário. 
Muitos anos mais tarde, com o fim da carreira e o afastamento dos relvados, podia enfim dedicar-se aos estudos e à escrita. 
 Sempre gostara de escrever, e decidiu escrever um livro que contava a história de vida de dez miúdos de uma rua nos arredores da cidade. Embora os nomes e a localidade fossem ficção era uma história autobiográfica, aqueles miúdos eram os seus amigos de infância. Ele conhecia as suas vidas de quase miséria, os sonhos de cada um, as lutas diárias, as desistências da escola, a violência doméstica, a entrega às drogas, o roubo e por fim a desistência da própria vida, como se conhecia a si mesmo. Dos dez apenas dois tiveram sucesso, ele e Raul Flores que graças ao seu enorme talento para a música, e ao interesse de um professor,  conseguira uma bolsa de estudo e a entrada no Conservatório. E atualmente dirigia uma orquestra em Londres. Dos restantes, um suicidara-se com apenas dezasseis anos, outro estava preso, dois morreram com uma overdose, dois emigraram para França, um estava desaparecido há mais de dois anos, e o último, era o seu irmão Marco, apenas dois anos mais novo do que ele.



9.9.19

VIDAS CRUZADAS- PARTE I

Reedição 






A história que hoje aqui se inicia, decorre no final dos anos cinquenta do século passado.  Muitas das coisas que vos relato, seriam impensáveis hoje em dia. Na verdade, penso que nunca em século algum, a história da humanidade evoluiu tanto, como nos últimos sessenta anos.

                                  
                                                 I
Aquele dia, de início de Junho apresentava um sol radioso e quente num céu sem nuvens, quando Pedro saíra do emprego, duas horas antes do horário habitual de saída.
 Era um homem jovem, completara vinte e oito anos no mês anterior. Alto, moreno, de grandes olhos castanhos, e cabelo castanho tão escuro que por vezes chegava a parecer preto, tinha uma boca grande, de lábios carnudos, que ao sorrir mostravam uma fileira de dentes perfeitos e acentuavam a covinha do queixo. Um daqueles homens que fazem suspirar as mulheres, e as põem a sonhar. Ele, no entanto, parecia nunca ter-se visto ao espelho, já que não mostrava dar-se conta do belo homem que era. Saía de casa para o trabalho e deste para casa, onde vivia com a sua velha mãe, que adorava. Na verdade, quando ele nascera, já há muito a mãe tinha perdido as esperanças de vir a ter algum dia um filho, pois já ultrapassara os quarenta e três anos. Fora até aconselhada por algumas vizinhas a não deixar ir adiante uma gravidez tão tardia. Podia ser perigoso. Profundamente religiosa, como a maioria das mulheres da época, sempre respondia, que segundo a Bíblia, Sara era muito mais velha quando ficou grávida, e que a Deus nada era impossível. E a verdade é que a gestação e o parto decorreram sem problemas.
Cinco anos depois dessa enorme alegria, quis Deus chamar o seu companheiro de toda a vida, o seu grande amor, e Alice viu-se sozinha com o filho para criar.
A vida era difícil mas o falecido, que fora militar,  deixou uma boa quantia, fruto de  um seguro de vida que ela nem sabia que ele tinha. Depois, sempre fora uma mulher poupada, tinha amealhado ao longo dos anos algumas economias, e assim Pedro recebeu uma boa educação, e se não foi para a Universidade foi porque não se interessou por isso e preferiu empregar-se logo que fez o quinto ano na Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, no Barreiro, cidade onde vivia.
O jovem adorava a mãe, que ele sabia ter feito todos os possíveis para lhe suprimir a falta do pai, de quem nem se recordava muito bem.
 Quando fora às sortes, entregou os papéis como amparo de mãe, e assim vira-se livre de uma mais que provável ida para o Ultramar. Nunca pedira nada demais à vida, sempre se sentira feliz com o que tinha. Ultimamente porém, algo de estranho se passava com ele.



8.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIX






Nessa noite, enquanto deitava o menino, pensou que se esquecera de avisar Rui, que na semana seguinte entrava de férias. Desde que entrara na firma, sempre deixara metade das suas férias para o fim do ano. Aquela era a época de menos trabalho, e para ela era importante pois o filho entrava de férias e não tinha ninguém de família na cidade, onde deixá-lo. Aquelas férias estavam marcadas desde o princípio do ano. De qualquer modo, a lei diz que em caso de necessidade, as férias podem sofrer alteração e com a restruturação da empresa, isso podia acontecer.
Mal o filho adormeceu, telefonou à amiga.
- Luísa, esqueci-me de avisar o Rui que entro de férias segunda- feira. Crês que vai haver problema?
- Caramba Tê, devias tê-lo feito. Esta tarde, ele disse que no ritmo em que estão as coisas, tudo estará pronto na próxima semana, o mais tardar quinta-feira e depois vai dar férias coletivas ao pessoal até ao início do ano. E tu vais faltar segunda-feira sem avisar?
-São as minhas férias. Estão marcadas desde o início do ano.
- Eu sei. Mas as condicionantes são outras, devias ter-lhe dito.
- Mas não posso ir. Não tenho com quem deixar o Martim.
- O Tiago pode levá-lo para a oficina. O André vai com ele e adora o ambiente da oficina. Pelo menos na segunda, até falares com ele. Depois logo vês.
- E o Tiago não se importa?
- Não mulher. Até vai agradecer. Os dois brincam juntos e deixam-no mais livre para trabalhar. E depois se entrarmos de férias quinta-feira, são poucos dias.
- Obrigada. Não sei que seria da minha vida sem ti.
Disse-lho a meio da manhã de segunda-feira, depois de terem falado com os dois trabalhadores, que tinham em opção para o lugar de chefe da secção B.
- Era para não ter vindo trabalhar. Oficialmente estou de férias até ao fim do ano.
- Como assim? Não me disseste nada.
- Por isso, estou aqui. Esqueci-me de te avisar na sexta-feira.
- Não podes ir de férias agora. Estamos a trabalhar em velocidade supersônica para acabar tudo dentro de três dias. Depois vai tudo de férias,
- Mas assim eu fico prejudicada. Não gozei as férias para as deixar para o fim do ano. São as minhas férias, não és tu quem mas dá.
- Sabes que te daria muito mais do que umas férias, não sabes? – Disse fitando-a muito sério. 
- Ela corou e baixou o olhar incapaz de ver as promessas que os olhos masculinos exibiam
Procurando aparentar uma serenidade, que não existia, disse:
- Voltemos ao trabalho. Já decidiste?




7.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVIII


No gabinete, Teresa deixou-se cair na cadeira sem forças.
O que acontecera não podia ter acontecido de jeito nenhum. Quisera provocá-lo, dar-lhe a entender que podia haver alguém na sua vida, fazer com que sofresse. E bastara o contacto da boca dele na sua mão, para que o cérebro deixasse de fazer o que lhe competia, o coração empreendesse uma louca corrida, e todo o seu corpo reagisse, numa tremedeira inoportuna.  Como podia fugir daqueles sentimentos?  Tinha a certeza que ele sentira aquilo que lhe provocara. Como não? Conhecia-a como ninguém. Estava perdida.
Esperou com ansiedade o fim da manhã, para deixar o trabalho.
Tinha que estar às três na escola do filho. Era a festa de Natal, Martim ia entrar na récita e não cabia em si de tanto entusiasmo.
Tinha-lhe pedido quase a chorar para o ir ver, e não queria causar-lhe uma decepção.
Passou-lhe pela cabeça uma ideia peregrina. Que faria Rui se soubesse que tinha um filho?
Será que se importaria? Quereria conhecer o menino? Assumiria o papel de pai? Ele nunca assumira a relação deles. Nunca lhe falara de si, dos seus sonhos, dos seus anseios. Nunca lhe falara da família, nunca lhe dissera quem eram ou onde moravam. Só se importava com ela, na cama. Aí convertia-se num amante excecional, sempre preocupado em levar a companheira à loucura. Mas nem isso fora suficiente para continuar a seu lado Por fim acabou a manhã de trabalho.
A festa na escola, foi muito emotiva. As crianças cantaram, dançaram, e recitarem pequenos poemas. Estavam no palco com naturalidade e alegria. Por último, recriaram a história do nascimento do Deus Menino.
No fim, todas estavam muito felizes e os pais orgulhosos do talento dos seus rebentos.
Finalmente despediram-se de Tiago e do filho, e saíram pois Teresa ainda queria fazer umas compras, já que faltavam poucos dias para o Natal.
No carro, o garoto não se conseguia calar com as peripécias da festa.
Era uma criança muito extrovertida, muito alegre, fazia amigos com facilidade, e era muito popular. Teresa agradecia a Deus por o filho ser como era.
"Pensa em mim", - dissera Rui naquela manhã. Como podia deixar de pensar nele, se Martim era fisicamente o seu retrato? - Interrogava-se enquanto passava a mão na cabeça do filho, numa terna carícia.


Amigos consegui hoje consulta por causa da dor no braço que me tem deixado louca.
A médica diz que lhe parece ser uma tendinite e mandou fazer 10 dias de anti-inflamatório Naproxene, um relaxante muscular,  Sirdalud, e gelo. e mandou fazer RX à cervical, ombro e braço. E ecografia  tecido moles, ombro e braço. 


6.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVII




Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso. Mário recebeu os relatórios que tinha pedido, analisou-os, aprovou algumas ideias, riscou outras por lhe parecerem não compensar o investimento, e contratou novos empregados, porque verificou que havia alguns que chegariam à idade da reforma no início do ano seguinte e queria que nessa altura os novos empregados já estivessem integrados no esquema de trabalho da empresa. Comprou e mandou instalar duas máquinas novas. Contatou e recuperou dois antigos clientes. Durante aqueles dias, foi várias vezes ao gabinete de Teresa, para acompanhar o processo de admissão dos novos empregados, ou para pedir a opinião dela, noutros assuntos no âmbito da sua gestão. 
Entrava, perguntava o que queria, e saía sem demora. Não voltara a falar de assuntos pessoais, nem de saídas noturnas. Parecia outra pessoa, e Teresa, não pode deixar de admirar a tenacidade, e a crença que o  impulsionavam. 
Mário, todos os dias estava em contacto com os seus homens de confiança, o secretário, e o advogado, que tinham ido para Inglaterra reunir com os seus gerentes, e verificar o bom andamento das suas empresas, pois desistira de viajar enquanto não pusesse a “Tudilar” no rumo certo.
Naquele dia, pouco passava das dez, quando ele chegou ao gabinete. Como sempre impecavelmente barbeado e bem vestido.
- Olá – disse ao entrar.
Assim, como se fosse um amigo, um colega. Começara a tratá-la assim há quase uma semana. Sempre que estavam sozinhos. A princípio ela refilou. Quis impor distâncias. Ele não ligou e acabou por vencê-la pela persistência.
- Olá- respondeu enfrentando o seu olhar
Aos poucos tinha aprendido a dominar as suas emoções. Sentia-se agora  mais segura de si, menos temerosa.
-Já me podes dizer qual dos trabalhadores da secção B pode vir a ser um bom chefe, uma vez que o atual atinge a idade de reforma em breve?
- Estou indecisa entre dois. Creio que qualquer deles possui qualidades e capacidades para o lugar. Queres que os convoque e falas com os dois?
- Pode ser para esta tarde?
- Não. Vou sair ao meio dia. Tenho um compromisso para a tarde.
- Mais importante que o trabalho?
- Muito mais.
Dissera-o com raiva, como se quisesse fazer-lhe pagar por tê-la afastado de si no passado. Ele percebeu-o e engoliu a agressividade com que lhe ia responder.
- Está bem. 
De súbito curvou-se, estendeu a mão, agarrou a delicada mão feminina, e sem deixar de a olhar beijou-lhe os dedos um a um.
Depois soltou-a, e dirigiu-se para a porta.
- Pensa em mim – disse antes de fechar a porta atrás de si.
Pela primeira vez em muitos anos, Mário estava feliz. Tinha percebido que apesar de tudo, continuava a reinar no coração feminino.  E isso soava-lhe a glória, ainda que pela frente tivesse um dura luta, para se redimir pelo passado.