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25.4.23

POESIA ÁS TERÇAS - 25 DE ABRIL


LIBERDADE

Ontem
Olhavas e fingias que não vias.
Os órfãos e viúvas de guerras inglórias
O desespero dos emigrantes clandestinos
As terras abandonadas ao sabor da fome
A força-sacrifício dos ideais feitos homens
Encerrados e torturados nas prisões do meu país.

Acordaste numa manhã de Abril
E ficaste arrepiado…
Porque nas nossas mãos
O sangue era cravo rubro.
Nas nossas gargantas
O medo era um hino à Liberdade.
Os nossos braços,
Enlaçavam-se na esperança do momento.

Acordaste...
E como quem muda de camisa
Puseste-te ao nosso lado.
Era o tempo
De fingires ser democrata.
Os anos passaram
Com a liberdade por companheira
Entre avanços e recuos,
Fomos fazendo a nossa história
E tu
Como joio insidioso abafando o trigo
Ias minando a caminhada.
Encerrando escolas
Fechando fábricas
Cortando subsídios
Empurrando-nos para a emigração
Aprisionando os nossos sonhos
No desespero e desencanto
Fomentando a descrença
Entre o Povo

Agora largaste a máscara
E ameaças voltar.
Mas hoje
O povo conhece o sabor
Da Liberdade.
Distingue-lhe o sal das lágrimas,
O odor do sangue derramado
Daqueles que por ela
Deram a vida.
E não se deixa enganar!

Elvira Carvalho

6.7.21

POESIA ÀS TERÇAS - LIBERDADE

 


Liberdade

Meu sonho de menina
Na vida suspensa
Nas palavras amordaçadas
Vermelhas como sangue
Derramado
Nos cárceres da ditadura.
Eras a musa sonhada
Pelos poetas deste país
Amordaçado.
Mulher desejada e proibida
Nos sonhos dos homens
Do Minho a Timor.

Liberdade
Eras o farol procurado
Que todos acreditavam
Havia de os guiar
À libertação
Da longa e tempestuosa
Noite fascista.
Mas eras também
Semente a germinar
Coragem.
No corpo e alma das gentes
Do meu país.

À espera do momento certo.

Emergiste em Abril
Determinada
Nas mãos crispadas
Sobre as armas
De homens audazes.
A esperança e o sonho
Nos carros de combate
Rasgando as trevas da noite.
Liberdade
Enfim chegaste
Rubra como o sangue
ensopando
Os campos de batalha.
Pacífica como um cravo
No cano de uma espingarda.

Elvira Carvalho

20.4.21

POESIA ÀS TERÇAS - LIBERDADE





LIBERDADE


Ontem

Olhavas e fingias que não vias.

Os órfãos e viúvas de guerras inglórias

O desespero dos emigrantes clandestinos

As terras abandonadas ao sabor da fome

A força-sacrifício dos ideais feitos homens

Encerrados e torturados nas prisões do meu país.


Acordaste numa manhã de Abril

E ficaste arrepiado…


Porque nas nossas mãos 

O sangue era cravo rubro.

Nas nossas gargantas

O medo era um hino à Liberdade.

Os nossos braços,

Enlaçavam-se na esperança do momento.

Acordaste... 

E como quem muda de camisa

Puseste-te ao nosso lado.


Era o tempo

De fingires ser democrata.


Os anos passaram

Com a liberdade por companheira

Entre avanços e recuos, 

Fomos fazendo a nossa história

E tu

Como joio insidioso abafando o trigo

Ias minando a caminhada.

Encerrando escolas

Fechando fábricas

Cortando subsídios

Empurrando-nos para a emigração

Aprisionando os nossos sonhos

O desespero e desencanto

Fomentando a descrença

Entre o Povo



Agora largaste a máscara

E ameaças voltar.

Mas hoje

O povo conhece o sabor 

Da Liberdade.

Distingue-lhe o sal das lágrimas, 

O odor do sangue derramado

Daqueles que por ela

Deram a vida.


E não se deixa enganar! 


Elvira Carvalho

26.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XV



- Não eras totalmente um desconhecido. Conheço toda a tua família e lembrava-me de ti, embora estejas muito diferente daquela época, como é evidente. Mas tens razão, sim. Na verdade o meu maior sonho, era sair da aldeia. Queria conhecer outras pessoas, outros terras. O facto de ser filha única não me fez mais feliz do que as demais, antes pelo contrário, quase me tornou uma prisioneira, na minha própria casa. Desde que acabei os estudos, nunca mais saí da aldeia. Nunca tive um namorado, nem sequer um amigo. Meus pais não me deixavam ir trabalhar e eu sentia-me sufocar entre quatro paredes. 
Aceitar a tua proposta, foi o abrir da gaiola, e o meu voo para a liberdade.

- Um casamento nunca é um voo para a liberdade, Sofia! 


- Mas era a minha hipótese de ter outra vida, conhecer novos horizontes. Hás de convir, que não tem nada a ver esta casa, e esta cidade, com a nossa aldeia.
Até mesmo a tua mentalidade. Os homens da nossa aldeia, não falam com as mulheres ou com as filhas abertamente, nem lhes dão opção de escolha, como tu o fazes. Eles é que sabem tudo da vida e do mundo, as mulheres servem para lhes dar filhos e para cuidar da casa e da família. Pode ser que eu seja um pouco maluca, mas penso que o horizonte das mulheres na aldeia e talvez no país, não sei, é demasiado negro. Sonhava com uma vida diferente.

- E o amor, Sofia? Onde fica o amor?
- Minha mãe, sempre me disse que o amor vem com a convivência. Que só no dia a dia, enfrentando juntos, alegrias e tristezas, se pode chegar ao amor. 
-E tu, acreditas nisso?

-Não sei. Como te disse, nunca tive um namorado, só convivi com rapazes da minha idade, enquanto estudava, era uma miúda e nunca me senti atraída por nenhum deles. Ainda não tinha feito dezasseis anos, quando terminei o curso, e desde aí praticamente não saía de casa, a não ser para a igreja, e sempre com a minha mãe. Não tenho razões que me permitam acreditar ou não.

Quim levantou-se e aproximou-se da janela. Ficou olhando na escuridão durante alguns segundos.

- E se te disser que não pensava em me casar? E se te disser que os meus tios me pressionaram até ao limite, para que o fizesse?
A sua voz soou rouca, ao fazer a confissão.
- Não entendo. Estás a dizer que te obrigaram? Porque iriam fazê-lo? E porque o aceitaste? És um homem adulto.

- Desculpa, se de algum modo te vou magoar, mas não ficarei de bem com a minha consciência, se não for sincero contigo. Apaixonei-me por uma mulher que eles não consideram digna. No fundo, eu sei que estão certos, mas é como dizem, no coração não se manda. Daí que eles acharam que a maneira de me “meterem juízo na cabeça” seria casarem-me.

Porque é que lhe doeu aquela confissão? Não tinha razão para isso. Não estava apaixonada pelo marido.

- Continuo sem perceber, porque obedeceste. És maior de idade, e por muito que gostes deles, não têm o direito de mandar na tua vida. Nem sequer são teus pais.
- Não entendes. Seria mais fácil se fossem meus pais. Como viste estão velhos, e depositaram em mim todas as esperanças e o amor que teriam dado a um filho. Estou-lhes muito grato e devo-lhes respeito. 
 Se recusasse teria que deixá-los, procurar outra casa, outro emprego. O trabalho não me mete medo, sinto-me capacitado para trabalhar em qualquer lugar, mas  sei que ao fazê-lo,  os mataria de desgosto.
Sofia, levantou-se e caminhou até ele. Pôs-lhe a mão no ombro, e perguntou suavemente:
- E agora? Que pensas fazer?




17.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XI

 



O empregado aproximou-se com a lista. Sem a abrir, Quim fez o pedido e ela ia pedir o mesmo, quando ele disse:
- Dá uma olhada na lista e escolhe o que mais gostas. Não tens que comer o mesmo que eu, a menos que seja realmente aquilo que preferes.
-Mas pediste “Bacalhau à Brás”,  e eu gosto imenso desse prato - respondeu
- Então está bem. Só quero que saibas, que tens liberdade de escolha.  Divides comigo uma garrafa de vinho?
- Não estou habituada a beber.
- Curioso ! Se bem me lembro, quando vivia na aldeia, toda a gente bebia, incluindo as crianças, rapazes ou raparigas.
-Ainda hoje é assim. Mas nunca me habituei às bebidas alcoólicas e  os meus pais nunca me obrigaram a fazê-lo.

Feito o pedido, ele respondeu por fim à pergunta sobre seus tios.
- Voltando aos meus tios. Não, eles não têm filhos. Casaram-se já tarde, e a saúde da tia nunca foi muito boa. Sinceramente não sei, se os não tiveram por opção ou porque não os pudessem ter. O tio Joaquim é o irmão mais velho do meu pai, e é também o meu padrinho. Ele é o responsável por todos me chamarem Quim. 

-Quando vim para cá, cada vez que ouvia chamar por ele, eu acorria julgando que era comigo. Então para evitar confusões, começaram a chamar-me Quim. Cheguei aqui com quinze anos e eles cuidaram de mim como se fosse filho deles. Deram-me casa, uma profissão e o mais importante de tudo, amor. Tudo o que sou, devo-o a eles.

Enquanto ele falava, Sofia apercebeu-se que nas mesas em redor só se falava francês.  
- Pensava que o restaurante era frequentado por portugueses, mas parece que me enganei.
Quim sorriu.
- Se o restaurante fosse para portugueses, estaria como se diz em Portugal, "às moscas", embora estejamos perto de Champigny-sur-Marne,  o "bidonville" onde existe a maior concentração de portugueses. "Bidonville", é aquilo que no nosso país, chamam “bairro de lata”. Eles não têm água, nem luz, nem habitações decentes. Eles não têm nada, a não ser o sonho de uma vida melhor no futuro. Vieram para a França, para fugirem da guerra, do desemprego, do regime político, da miséria. Muitos deles são clandestinos, fizeram a pé mais de dois mil quilómetros, quase sempre de noite para fugirem às forças policiais.

- Talvez se observares as condições em que vivem, te perguntes. Mas haverá maior miséria do que esta? Eles sabem que sim. Há a miséria que não permite sonhos. Que não permite sequer a liberdade de expressar uma ideia.
Aqui têm trabalho. As crianças vão à escola e apesar de esta não ser mais do que uma barraca, eles aprendem.  E contam com o senhor  Louis Talamoni, (1)  Maire de Champigny-sur-Marne, que está a fazer tudo para lhes dar melhores condições de vida, que já mandou instalar alguns pontos de água, luz e esgotos. Que manda distribuir agasalhos no inverno. E que luta por eles, ouve-os e procura ajudá-los. 

-E eles sabem que podem falar livremente das suas vidas e das dificuldades que enfrentam, sem correrem o risco de ir presos. E que os seus filhos não vão acabar mortos numa guerra estúpida. O trabalho diário, o saber que vão ter todos os dias o pão na mesa, e o sonho de uma vida melhor, tornam a miséria atual, mais suportável. 
Acredito piamente que muitos dos que hoje vivem no "bidonville", serão gente de sucesso dentro de vinte, trinta anos. 



1) Quase cinquenta anos depois, emigrantes portugueses e luso descendentes unir-se-iam para mandar  erigir no local deste "bidonville" um monumento ao antigo  Maire Louis Talamoni, que tanto lutou para melhorar as suas condições de vida, naquele local




                                         Monumento a Louis Talamoni



19.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVII






-Muitos anos mais tarde, vi estes numa sapataria, e comprei-os. São semelhantes embora de muito melhor qualidade. Acompanharam-me desde aí como um estímulo, para cumprir a jura que fizera a minha mãe naquele fatídico dia. Mas deixa que te conte tudo.
Os anos foram passando, eu ia crescendo e o ódio que sentia pelo meu pai ia crescendo comigo. Por volta dos dez anos, comecei a tentar enfrentá-lo sempre que ele batia na minha mãe. Consequência direta, foi que passamos a apanhar os dois. 
 Uma noite, tinha feito onze anos há poucos dias,  acordei com os seus gritos, e o choro da minha mãe. Saltei da cama e dirigi-me à cozinha. A mãe tentava proteger o rosto já ferido, de nova pancada. Tentando evitar que continuasse a bater-lhe arremeti contra ele. Como estava bêbado, desequilibrou-se, caiu para trás e bateu com a cabeça na esquina da mesa. Teve morte imediata. A minha mãe assumiu a culpa. Disse a toda a gente que foi ela e proibiu-me de dizer o contrário.
Foi presa, e eu só não fui parar a uma instituição estatal porque os meus tios me foram buscar.
Calou-se, a voz embargada pela emoção, o rosto pálido, todo o corpo terrivelmente tenso. Teresa sentia a dor dele, no seu próprio coração. 
 -Tivéssemos nós dinheiro para um bom advogado, e a minha mãe não teria sido presa. Teria aguardado julgamento em liberdade.  Afinal como o tribunal provou mais tarde, tratou-se de um acidente e em legítima defesa. Mas nós não tínhamos dinheiro para pagar um advogado e assim a mãe esteve em prisão preventiva até ao julgamento. 
Os meus tios coitados fizeram o melhor que podiam enquanto lá estive, mas tinham três filhos, que viam em mim,  uma boca mais a roubar o pouco que tinham. Percebes agora a minha ambição desmedida?
Com catorze anos comecei a trabalhar. E a estudar à noite. Foi uma época muito difícil, a mãe já estava doente. Nunca mais foi a mesma, depois que foi presa. Quase a terminar o secundário, tive que contratar uma pessoa para cuidar dela, e o dinheiro que ganhava não dava para tudo. Durante um ano, tive que interromper os estudos. Depois ela morreu, e voltei a estudar.
Quando nos conhecemos, já eu estava com a vida organizada. Compreendes porque nunca te falei de mim, nem deles?  Queria esquecer o passado e cumprir a jura que lhe fizera em menino, de ser um homem muito rico. Tinha já umas boas economias, além do trabalho no banco, fazia traduções para uma editora,como te deves lembrar. O que tu não sabias, é tinha feito algumas aplicações que me renderam um bom dinheiro, mas na minha louca corrida para a fortuna, o que tinha não me bastava. Queria mais, muito mais.
Quando me convidaste para ir conhecer os teus pais, e passar com eles o Natal, comecei a pensar que me estava a afastar do meu objetivo, e que se fosse contigo estava a assumir um compromisso que me impediria de cumprir o que me propunha. Queria libertar-me, mas não tinha coragem de te deixar. Então disse-te que fosses tu, e aproveitei a tua partida para te abandonar.  Hoje sei que foi uma cobardia, um ato digno do filho do meu pai.
Mas na altura estava cego de ambição. E decidi partir para a Inglaterra.




Notícias.
Hoje o marido vai recomeçar a fisioterapia. Graças a Deus ele está melhor, mas não tanto quanto gostaríamos, embora saibamos que estas recuperações nunca são tão rápidas como desejamos. O meu olho está aparentemente na mesma mas o braço está melhor. Já consigo fazer várias coisas sem aquela dor que me punha maluca.

29.5.19

UM PRESENTE INESPERADO -- PARTE VIII







- Reparou bem nele? – a vizinha repetiu a pergunta assim que ela entrou na cozinha.
-Não. Vê-se que é um homem elegante e bem-parecido, mas só de pensar, que ele podia estar a pensar que o queria enganar, fez com que evitasse olhá-lo. Porquê?
- Ele já tinha tocado à porta antes da Isabel ter chegado. Falámos um pouco e eu reparei nos seus olhos cinzentos, nos cabelos negros e na cor da sua pele. E pensei logo que era o pai da Matilde. Acho-os parecidos - respondeu Natália.
- Estou muito confusa. Ele parecia tão sincero ao dizer que não conheceu a Susana. E diz que vai imediatamente marcar o teste do ADN. Deveria saber que se estiver a mentir, o teste o vai desmascarar. E ele está muito seguro de que o teste vai provar que não tem nada a ver com a menina. A Natália acha possível que a Susana me tenha enganado?
- Não creio. A sua irmã tinha aquelas manias de grandeza, sempre sonhou com a riqueza e sempre se revoltou com a vida que tinha, mas daí a inventar um pai rico para a filha, é demais. E depois, como é que ela ia saber o nome dele e todos os dados que deu para por no registo da menina?
-Bom, o melhor é não pensar mais nisso agora. A Natália pode ficar com a Matilde esta tarde? Tenho que ir ao centro de emprego.
- Claro que fico, pode ir descansada. Entretanto tomei a liberdade de trazer almoço para as duas. É que ontem fiz cozido à portuguesa e nunca fui capaz de fazer cozido para uma só refeição. São tantos ingredientes, que acabo sempre enchendo a panela. Isto se gostar de cozido, como é evidente.
- Gosto muito. E agradeço-lhe, na verdade fez-se tarde e já nem ia fazer almoço.
Durante o almoço continuaram a conversa, sobre os últimos acontecimentos. Natália conhecia a vida daquela família como conhecia a sua, já que os dois casais compraram as casas, com poucos meses de diferença. Isabel era nessa altura uma criança de poucos meses. Viu-a crescer, sempre muito educada e responsável, viu nascer Susana, apoiou a vizinha quando o marido morreu, mais tarde foi a mãe da jovem a retribuir o apoio quando ela também enviuvou.
Anos depois quando Carmo morreu, viu como Isabel assumiu a educação da irmã, aumentando em muito a admiração que já tinha por ela, tanto mais que cedo se apercebeu que Susana era uma jovem rebelde, com a cabeça cheia de sonhos de grandeza, e  desejosa de altos voos. Totalmente diferente da irmã.
Depois da sua trágica morte, Natália aproximou-se ainda mais de Isabel, sempre pronta a apoiá-la, tomando conta da menina enquanto Isabel trabalhava, ou procurava emprego depois que a empresa onde trabalhava fechou.
Por seu lado a jovem via na vizinha uma segunda mãe.


13.3.19

CASTELOS





Castelos

Liberdade
Fraternidade
Paz
Amor!


Castelos de areia
Que em criança
ergui à beira-mar.

Elvira Carvalho



Nota: As dores passaram depois de tomar um Nolotil, e passei a noite razoavelmente bem.
E hoje é dia de consulta de pneumologia no hospital do Barreiro. Isto a gente quando chega a uma certa idade, quando não é do c* é das calcas.
Tenham uma feliz quarta-feira

5.1.19

PORQUE HOJE É SÁBADO


O Meu cavalinho




Num cavalo de cartão
Eu corria à desfilada
Nos campos sem fim
Do sonho
Entre rios de alegria
E montanhas de inocência.

Nas asas da imaginação
Via desfilar
Perante os meus olhos
De criança
Searas de carinho
Pão de liberdade.

E o mundo corria
Pintado de esperança.

Hoje
O meu cavalinho
Jaz morto
Num velho armário
Sepultado
Como velho traste
Sem préstimo.
E diante de mim
Não desfilam mais
Sonhos de esperança
Pão de liberdade
Diluída a alegria
Em dor
Perdida a inocência
De criança
Em verdades de adulto.


Elvira Carvalho



Ontem, com o comentário da Maria João de Brito de Sousa, chegámos aos 38.000 comentários. Muito Obrigada a todos que contribuíram para este número. 



E já agora uma pergunta. Quem de vós vive em Angra do Heroísmo?

16.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE VI


Todos os dias, quando saía do escritório, Ricardo parava num bar para uma bebida, antes de se dirigir a casa, onde a mulher já o esperaria para jantar. Naquele dia não foi diferente.
- Olá. Apraz-me verificar que não mudaste de hábitos.
Ricardo levantou os olhos e mirou o recém-chegado. Tratava-se de um homem alto, moreno de cabelos e olhos escuros, quase tão negros, quanto a roupa inteiramente preta  que vestia. Pousou o capacete em cima do balcão e sentou-se a seu lado.
- Ora viva! Então estás de volta. Cansaste-te de correr mundo?
- Lembras-te do meu tio, António?
- Aquele que tinha uma empresa de camionagem?
- Sim. Morreu e nomeou-me seu herdeiro.
- Ena. Então agora és um homem rico.
-Sabes que o dinheiro nunca me importou. A minha mota e a minha liberdade sim.
- Mas vais assumir a empresa, ou não?
- Vou. Tenho trinta e oito anos, percorri metade do mundo, e talvez quem sabe, tome gosto pelos negócios. Estou contente por te encontrar. Sabes, uma semana depois daquela história, arrependi-me e fui à clinica para anular a doação, mas já não fui a tempo. a inseminação já tinha ocorrido. Desde então, não ando bem comigo mesmo. Desagrada-me saber que há um filho meu, por aí em qualquer parte, sem saber da minha existência, e quiçá precisando de mim.
- Quanto a isso não tens que te preocupar. Não resultou.
-Tens a certeza?
Absoluta. A minha amiga, ficou muito triste, mas mais tarde, apaixonou-se casou e foi viver para a Suíça com o marido.
-Nem sabes o peso que me tiras de cima. Sendo assim, tudo bem. Tenho que ir. Acabei de chegar, vou agora tomar conta da casa. Dentro de dias tenho uma reunião com os advogados da empresa, e ainda queria conhecer a mesma e os funcionários antes dessa reunião.
Pôs-se de pé. Levou a mão ao bolso e pôs sobre o balcão o dinheiro da bebida. Depois poisou a sua mão sobre o ombro de Ricardo, num gesto de despedida.
- Até outro dia, a gente vê-se por aí.
- Adeus, Paulo. Boa sorte.
Pegou no capacete, deu a volta e afastou-se a passo largo deixando Ricardo apreensivo. Nunca pensou que Paulo, levasse dez anos a pensar naquela doação. Tinha acabado por fazer a vontade da irmã, convencendo o amigo, que sendo um homem inteligente e honesto, estava dentro daquilo que a irmã desejava. Além disso, era amigo da aventura e da liberdade, estava apostado em correr o mundo na sua mota, o que decerto o levaria a nunca mais pensar no caso. Nunca lhe passou pela cabeça, que ele se tivesse arrependido, ou que tivesse levado aqueles dez anos a pensar num possível filho. Reconhecia agora que não conhecia tão bem o amigo quanto pensava. Bebeu de um trago o resto da bebida e pediu outra, pensando que não tinha de se preocupar. Paulo não sabia que ele tinha uma irmã, e além disso, com a história que ele inventou, Paulo esqueceria o assunto com certeza. Acabou a bebida, pagou e saiu. Eram horas de jantar e a esposa não gostava que chegasse atrasado


22.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXV


Largou o cortinado. Voltou-se.
- Sabes que sou advogado?- Perguntou encaminhando-se de novo para o cadeirão.
Anete assentiu com a cabeça
- E um dos bons, modéstia à parte. Tenho uma boa carteira de cliente, e estou sempre a pedir à Raquel, que não me agende clientes novos. Raquel é a minha secretária. Há dias, recebi uma proposta de um outro advogado, Santiago Castro, para formarmos uma sociedade de advogados. Santiago é um grande advogado. Talvez até melhor do que eu. Formaríamos uma sociedade por quotas, com mais três ou quatro advogados, que se tornaram bons em determinadas áreas. Não sei se sabes, mas o curso de um advogado compõe-se de várias disciplinas, mas quando começamos a exercer, há sempre uma área em que nos sentimos mais incentivados e mais realizados. De modo que aos poucos vamos tornando-nos cada vez melhor nessa área. Estou a aborrecer-te?
Anete deu-se conta de uma coisa. Salvador tinha algo que o preocupava. Precisava pensar e estava a fazê-lo em voz alta. Ela não entendia nada de advocacia, mas ele não precisava que ela entendesse. Ele queria falar e  necessitava de que o escutasse. E ela estava a gostar de o ouvir.
- Não. Continua.
Na prática somos assim como um médico. Todos são clínicos gerais. Depois alguns escolhem especializar-se em áreas específicas como cardiologia, ou psiquiatria por exemplo. No direito, atualmente já nos podemos especializar em determinada área. Claro depois de termos praticado todas. Outros não chegam a tirar essa especialização pós curso, mas acabam por fazê-lo na prática, aceitando só casos da área em que sentem que são melhores. Eu tenho-me dedicado mais ao direito Empresarial, dando assessoria jurídica a algumas empresas. Já o Santiago tem a maior parte dos seus clientes no Direito Penal. Com mais alguns nos outros ramos do Direito civil, trabalhista, tributário, e outros, podíamos reunir na sociedade todos ou quase todos num só escritório, e não precisávamos rejeitar clientes, porque haveria sempre um advogado para aquele caso específico. Trabalhar em sociedade trás vantagens e dá outro prestígio. Por outro lado, perde-se a nossa liberdade, temos que por a nossa individualidade de parte, e trabalhar em equipa, coisa que nunca fiz. E tenho até ao fim do mês para tomar esta decisão.
- Sei que só querias desabafar, e não estás à espera de conselho meu. E ainda bem que assim é, eu não entendo nada de advocacia, nem de sociedades, mas pelo pouco que te conheço, sei que tomarás a decisão certa, seja ela qual for.
De súbito, ele disse algo que não se ligava em nenhum ponto com a conversa anterior.
- Gosto desta sala. É acolhedora. – Olhou o relógio e acrescentou. – Já é tarde. É melhor ir-me embora, antes que adormeças no sofá.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Ela seguiu-o.
Chegados à porta, pegou-lhe na mão e apertou-a entre as suas, dizendo:
- Obrigado por me teres proporcionado um excelente serão.
E saiu fechando a porta atrás de si.



26.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE V





Tinham passado oito dias desde que o advogado estivera no escritório, dando-lhe conta da cedência de quotas do irmão para o seu cliente e deixando-a de mãos e pés atados, já que o irmão que raramente ia à fábrica, tinha-lhe passado uma procuração e ela geria a empresa, com liberdade absoluta. Reuniam-se apenas uma vez por ano, para apresentação de contas e divisão de lucros nos anos em que os havia. Com a venda da sua parte, o irmão teria anulado a procuração, coisa de que ela não se apercebera, pois não precisara usá-la recentemente. Agora, para qualquer decisão que envolvesse investimento, tinha que esperar pelo novo sócio, e nem sequer sabia por onde ele andava.
Felizmente conseguira acabar a encomenda, a tempo, mas com aquela máquina parada, (segundo o técnico precisava de uma peça que tinha que ser importada,) tivera que pôr o pessoal a trabalhar por turnos, o que ia reduzir a margem de lucro da encomenda. Naquela manhã de terça-feira, acabara a sua volta pela fábrica, e dirigia-se ao seu gabinete, quando ao passar pelo escritório, Madalena a informou de que um cavalheiro a aguardava, precisamente lá. Dissera-lhe que era o novo sócio, e ela introduzira-o no gabinete. Soltou um suspiro. Finalmente resolvera aparecer.
Abriu a porta do gabinete. Um homem alto, de fato cinzento encontrava-se de costas junto à janela.
- Bom dia -. Saudou tentando não dar à voz a entoação agreste que advinha da sua raiva. Afinal de contas, o culpado daquela situação era o irmão, não o desconhecido.
O homem voltou-se. Calmamente. Quase com indolência. Um lampejo de admiração perpassou pelos seus olhos cinzentos, ao encarar a jovem. Encaminhou-se para ela.
- Bom dia. David Ribeiro- disse estendendo-lhe a mão
- Daniela Pinto,- apresentou-se retribuindo o cumprimento.
-Daniela? – Ele repetiu com estranheza
- É. Parece que os meus pais não primavam pela imaginação.
Ele esboçou um sorriso. Olharam-se por momentos fixamente. Como dois opositores estudando-se mutuamente. Depois ela disse:
- Sente-se. Temos muito que conversar.


25.4.17

DIA DA LIBERDADE - 25 DE ABRIL - SEMPRE







LIBERDADE


Ontem
Olhavas e fingias que não vias.
Os órfãos e viúvas de guerras inglórias
O desespero dos emigrantes clandestinos
As terras abandonadas pelo terror da fome
A força sacrifício dos ideais feitos homens
Encerrados e torturados nas prisões do meu país

Acordaste numa manhã de Abril
Espantado
Porque nas nossas mãos
A revolta era cravo rubro
Nas nossas gargantas
O medo era um hino à Liberdade
Nos nossos braços enlaçados
A força da esperança no futuro.
Acordaste...
E como quem muda de camisa
Puseste-te ao nosso lado.

Era o tempo
de fingires ser democrata...

Com a Liberdade por companheira
Entre avanços e recuos
Fomos fazendo a nossa história
Mas como joio insidioso, 
Abafando o trigo
Ias minando a caminhada
Encerrando escolas, 
Fechando fábricas.
Cortando subsídios
Aumentando o desemprego
Empurrando-nos para a emigração
Aprisionando os nossos sonhos, 
No desespero e desencanto.
Fomentavas a descrença
Para desunir o Povo


Podes continuar a tentar.
Tal como a noite tenta todos os dias
apagar o esplendor do sol
Porque hoje
O povo tem mais
Do que o sonho e a esperança
Conhece o sabor da Liberdade
Reconhece o sabor a sal
Das lágrimas
O odor do sangue derramado
Daqueles que por ela, deram a vida.

E não se deixa enganar!

elvira carvalho


E agora deixo aqui o poeminha feito pela minha neta de 8 anos pelo mesmo tema, trabalho feito para a escola.

Portugal, o 25 de Abril, a Liberdade

Portugal é um país
À beira do oceano
Onde o céu é mais azul
E o sol mais brilhante.
As pessoas são alegres
Porque são livres.
Mas nem sempre foi assim.

No século passado
O povo vivia
Em permanente tristeza
Gente sem pão
Sem paz
Sem liberdade.
Os homens
Partiam para a guerra
Ou emigravam
As mulheres esperavam-nos
Saudosas
Ou choravam-lhes a morte.
E as crianças cresciam
Sem pai.
E muitos acabavam presos
Pois não tinham liberdade
Para protestar
Da vida que tinham.

Até que numa madrugada
De Abril
Os militares cansados
Da guerra
Fizeram a revolução
Derrubaram o governo
Acabaram com a guerra
Abriram as prisões
Fizeram novas leis
E o povo soube enfim
O que era a liberdade.



Mariana Carvalho  


Bom Feriado

14.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XV





- Não eras totalmente um desconhecido. Conheço toda a tua família e lembrava-me de ti, embora estejas muito diferente daquela época, como é evidente. Mas tens razão, sim. Na verdade queria sair da aldeia. Queria conhecer outras pessoas, outros locais. Nunca tive um namorado, nem sequer um amigo. Meus pais não me deixavam ir trabalhar e eu sentia-me sufocar entre quatro paredes. Aceitar a tua proposta, foi o abrir da gaiola, e o meu voo para a liberdade.
- Um casamento nunca é um voo para a liberdade, Sofia.
- Mas era a minha hipótese de ter outra vida, conhecer novos horizontes. Hás-de convir que não tem nada a ver esta casa, e esta cidade, com a nossa aldeia.
- E o amor, Sofia? Onde fica o amor?
- Minha mãe, sempre me disse que o amor vem com a convivência. Que só no dia a dia, enfrentando juntos alegrias e tristezas, se pode chegar ao amor. 
-E tu acreditas nisso?
-Não sei. Como te disse, nunca tive um namorado, só convivi com rapazes da minha idade, enquanto estudava, era uma miúda e nunca me senti atraída por nenhum deles. Ainda não tinha feito dezasseis anos, quando terminei o curso, e desde aí praticamente não saía de casa, a não ser para a igreja. Não tenho razões que me permitam acreditar ou não.
Quim levantou-se e aproximou-se da janela. Ficou olhando na escuridão durante alguns segundos.