O empregado aproximou-se com a lista. Sem a abrir, Quim fez o pedido e ela ia pedir o mesmo, quando ele disse:- Dá uma olhada na lista e escolhe o que mais gostas. Não tens que comer o mesmo que eu, a menos que seja realmente aquilo que preferes.
-Mas pediste “Bacalhau à Brás”, e eu gosto imenso desse prato - respondeu
- Então está bem. Só quero que saibas, que tens liberdade de escolha. Divides comigo uma garrafa de vinho?
- Não estou habituada a beber.
- Curioso ! Se bem me lembro, quando vivia na aldeia, toda a gente bebia, incluindo as crianças, rapazes ou raparigas.
-Ainda hoje é assim. Mas nunca me habituei às bebidas alcoólicas e os meus pais nunca me obrigaram a fazê-lo.
Feito o pedido, ele respondeu por fim à pergunta sobre seus tios.
- Voltando aos meus tios. Não, eles não têm filhos. Casaram-se já tarde, e a saúde da tia nunca foi muito boa. Sinceramente não sei, se os não tiveram por opção ou porque não os pudessem ter. O tio Joaquim é o irmão mais velho do meu pai, e é também o meu padrinho. Ele é o responsável por todos me chamarem Quim.
-Quando vim para cá, cada vez que ouvia chamar por ele, eu acorria julgando que era comigo. Então para evitar confusões, começaram a chamar-me Quim. Cheguei aqui com quinze anos e eles cuidaram de mim como se fosse filho deles. Deram-me casa, uma profissão e o mais importante de tudo, amor. Tudo o que sou, devo-o a eles.
Enquanto ele falava, Sofia apercebeu-se que nas mesas em redor só se falava francês.
- Pensava que o restaurante era frequentado por portugueses, mas parece que me enganei.
Quim sorriu.
- Se o restaurante fosse para portugueses, estaria como se diz em Portugal, "às moscas", embora estejamos perto de Champigny-sur-Marne, o "bidonville" onde existe a maior concentração de portugueses. "Bidonville", é aquilo que no nosso país, chamam “bairro de lata”. Eles não têm água, nem luz, nem habitações decentes. Eles não têm nada, a não ser o sonho de uma vida melhor no futuro. Vieram para a França, para fugirem da guerra, do desemprego, do regime político, da miséria. Muitos deles são clandestinos, fizeram a pé mais de dois mil quilómetros, quase sempre de noite para fugirem às forças policiais.
- Talvez se observares as condições em que vivem, te perguntes. Mas haverá maior miséria do que esta? Eles sabem que sim. Há a miséria que não permite sonhos. Que não permite sequer a liberdade de expressar uma ideia.
Aqui têm trabalho. As crianças vão à escola e apesar de esta não ser mais do que uma barraca, eles aprendem. E contam com o senhor Louis Talamoni, (1) Maire de Champigny-sur-Marne, que está a fazer tudo para lhes dar melhores condições de vida, que já mandou instalar alguns pontos de água, luz e esgotos. Que manda distribuir agasalhos no inverno. E que luta por eles, ouve-os e procura ajudá-los.
-E eles sabem que podem falar livremente das suas vidas e das dificuldades que enfrentam, sem correrem o risco de ir presos. E que os seus filhos não vão acabar mortos numa guerra estúpida. O trabalho diário, o saber que vão ter todos os dias o pão na mesa, e o sonho de uma vida melhor, tornam a miséria atual, mais suportável.
Acredito piamente que muitos dos que hoje vivem no "bidonville", serão gente de sucesso dentro de vinte, trinta anos.
1) Quase cinquenta anos depois, emigrantes portugueses e luso descendentes unir-se-iam para mandar erigir no local deste "bidonville" um monumento ao antigo Maire Louis Talamoni, que tanto lutou para melhorar as suas condições de vida, naquele local
Monumento a Louis Talamoni