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14.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXI

Ficou triste. Mais do que isso, sentia-se irritada. Gostava do emprego, tinha-se esforçado por ser uma boa empregada e não tinha tido culpa de ter adoecido.
- Não fiques triste. Não é nada pessoal, acontece a qualquer um. E é melhor assim, precisas pôr-te boa e ainda vai levar um tempinho até que voltes a sentir-te como antes, - animou-a Quim.

-Eu sei. Mas não consigo evitar. Gostava do trabalho e as colegas eram uma simpatia. Também estou preocupada contigo, passas os dias comigo, não tens ido trabalhar…
-Não te preocupes. Nesta época a afluência ao restaurante baixa sempre de forma drástica. Por isso costumamos fechar oito dias antes do Natal, e reabrimos dois dias antes da passagem de ano. Natal é tempo de recolhimento, de família, mas no ano novo é diferente, é sempre dia de muito movimento. 

Faltam poucos dias para o Natal. Gostaria de cear com os tios. Achas que estarás bem até lá?
- Espero que sim. Estou cansada desta imobilidade.
Uma sombra de tristeza ensombrou o seu rosto. Ele reparou. Estava sempre atento.

- É a proximidade do Natal? Sentes saudades? - perguntou
- Sim. É o primeiro Natal que passo longe dos meus pais. Da nossa terra.
Sentia vontade de chorar, mas não o queria fazer na frente dele. Já lhe bastava o sentir-se feita um trapo velho, o rosto macilento, o cabelo sem brilho, o corpo sem forças pela doença. 

O carinho com que Quim a tratava, fazia com que cada dia gostasse mais dele. Mas com aquele aspeto, era impossível provocar algum sentimento nele que não fosse compaixão. 
Será que ele ainda pensava na Joana-Boneca? Ela sempre pensava na outra, como uma boneca, não conseguia imaginá-la como uma mulher a sério.
No dia seguinte, escreveu uma longa carta para a mãe. Falou da cidade, da casa, do marido. Disse-lhe que não estivesse preocupada, que ela era muito feliz. Mas não disse que estava doente, nem falou das saudades que tinha de casa.


Desculpem a ausência. O dia 13 foi complicado. O marido foi extrair um dente, e teve uma hemorragia que nos obrigou a ir ao hospital para levar uma injeção hemostática. Isto aconteceu porque como já teve um AVC, faz medicação anticoagulante que não pode parar.    

22.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIII





O empregado voltou com a lista das sobremesas.
-Aconselho-te o pudim de pão. É muito bom.
Fizeram o pedido.
- Não tens saudades dos teus pais e irmãos? – perguntou curiosa.
- Claro que sim, - respondeu com tristeza. Tenho cunhados e sobrinhos que nem conheço. Mas não posso voltar. 

-- Não enquanto Portugal mantiver uma guerra colonial, com a qual não concordo e que considero injusta. Quando vim, sabia que me estava a despedir deles para sempre. A menos que um dia haja uma reviravolta política, que acabe com a guerra e a colonização.

- E acreditas que isso vai acontecer algum dia?
- Acredito que sim. Mais dia, menos dia, a juventude vai acordar e dizer basta. 
Terão que ser os jovens, já que os outros, ou estão demasiado comprometidos com o regime, ou estão paralisados pelo medo, ou sem forças para lutar. Tinha grandes esperanças no General Humberto Delgado. Penso que se ele tivesse chegado ao poder, poderia ter mudado o curso da história. Mas os esbirros do regime, não deixaram.

- Voltarias para Portugal, se o regime mudasse? 
-Para ficar? Não! Pelo menos enquanto os tios forem vivos. Talvez tu não entendas o que sinto por eles. É amor, respeito e gratidão. Estão velhos. Sei que precisam de mim. Mas decerto que iria a Portugal sim. Para abraçar os meus pais e irmãos. Para conhecer os cunhados e sobrinhos; família que ainda não conheço. Para rever a nossa terra, os lugares onde passei a minha meninice, os amigos de infância, se é que por lá está algum.
E não é engraçado, que me lembre dos teus pais e não me recorde de ti?

-Não admira. Era uma criança, de nove anos, quando partiste. Eu sim, lembro-me de ti. Eras um magricela alto, só tinhas pernas.
Riram os dois.
Aos poucos o restaurante fora-se esvaziando. Eles também tinham terminado, e Sofia sentiu pena de que assim fosse. A noite tinha sido maravilhosa, a refeição deliciosa, e tinha adorado as explicações do marido. Mas as horas corriam e o momento de maiores intimidades aproximava-se. E sentia um aperto no peito.



20.12.20

CONTOS DE NATAL - O NATAL E A POESIA

 


Uma Estrela com Luz de Poesia
De repente, passou uma pequena nuvem de tristeza sobre os olhos de Francisca. A avó Josefa partira há dois anos para um sítio de onde ninguém costuma mandar notícias. Antes da partida ainda sofreu muito, e tão depressa a queria junto de si, para sentir o calor do seu carinho, como a queria longe, para não se aperceber dos rostos que o sofrimento pode ter.
Francisca ainda era pequena mas nunca mais esqueceu a dor daquela perda. Foi como se o mundo, naquele dia, tivesse decidido mostrar-lhe o seu lado negro e atemorizador, como se o sol se tivesse zangado com a claridade dos dias e como se até as lágrimas se recusassem a sair para não verem como dói ser infeliz.
Era Dezembro e, lá em casa, nesse ano, ninguém quis festejar o Natal, porque não havia vontade de dar nem de receber presentes e porque todas as conversas se encaminhavam no mesmo sentido, que era o da tristeza e do desconsolo.
Antes de partir, a avó Josefa dissera a Francisca:
— Uma noite, quando já estiver habituada à minha nova morada, hei-de dar-te sinal para que saibas que estou bem e que penso em ti.
Francisca lembrou-se sempre dessas palavras e encontrou, nos poemas que lia nos livros da escola palavras mágicas e belas que eram iguais às que a avó Josefa usava quando queria mostrar-lhe que, por vezes, a beleza de uma coisa pode estar na forma que usamos para a nomear.
— Pode dizer-se de uma coisa — explicava a avó Josefa — somente aquilo que os olhos vêem. Mas também se pode acrescentar qualquer coisa que a torne mais bonita e mais agradável de ver. Isso, minha filha, chama-se Poesia.
Quando Francisca lhe pediu para explicar melhor o que queria dizer, ela deu-lhe alguns exemplos:
— Podemos dizer: “isto é uma árvore”, mas também podemos dizer: “esta árvore está triste porque tem sede” ou “esta árvore é alta e elegante como uma girafa num dia de Primavera”.
Francisca percebeu sem esforço as palavras da avó Josefa e, a partir desse dia e desses exemplos, compreendeu que a Poesia havia de ajudá-la a estar sempre perto da avó, estivesse ela onde estivesse, por maior que fosse a distância que as separava.
Tinha passado um ano e a família preparava-se para festejar mais um Natal. Tinham-se distribuído tarefas e cada um dava o melhor que podia e sabia para realizar bem a que lhe coubera. Uns ajudavam a mãe a pôr a mesa, outros verificavam se os ornamentos da árvore de Natal estavam todos no lugar certo, outros ainda colocavam os presentes nos lugares certos para poderem ser localizados na hora de serem distribuídos, quando fosse meia-noite.
Francisca também cumpriu as suas tarefas, que não eram nem mais fáceis nem mais difíceis que as dos outros, mas nem mesmo estando ocupada conseguia disfarçar a tristeza que as saudades da avó Josefa lhe punham nos gestos e nos olhos.
Todos sabiam qual era a razão dessa tristeza, mas estava assente que, naquela noite, ninguém falaria no assunto. A avó Josefa, que não tinha rival na forma de organizar a festa de Natal, seria lembrada por todos em silêncio, pois as palavras mais belas tinham viajado com ela para muito longe.
Quando se ouviram, na torre da igreja, as doze badaladas da meia-noite, Francisca sentiu que uma lágrima lhe escorria pela face como se fosse uma pérola de um tesouro antigo e secreto.
Foi então que um dos irmãos, o Afonso, lhe disse, tentando animá-la e distraí-la:
— Francisca, há uma estrelinha no céu, lá muito alto, que parece estar a chamar por ti.
Francisca correu para a janela, limpou a lágrima, olhou para a estrela e conseguiu ver no seu brilho intenso o rosto da avó Josefa sorrindo para ela como nos tempos em que lhe contava histórias estranhas e belas para a convencer a comer a sopa.
Quando chegou o momento de se distribuírem os presentes, coube a Francisca, para além de muitas coisas que lhe deram grande satisfação, um belo livro de poemas sobre árvores, rios e animais, ilustrado com muita imaginação e cores muito vivas.
— Quem foi que me deu este livro? — quis saber Francisca. Mas ninguém lhe respondeu.
— Vá, digam lá, quem foi que me deu este livro tão bonito? — insistiu ela, mas continuou a não obter resposta.
Então Francisca pegou no livro, foi para junto da janela e recitou baixinho o mais belo poema que encontrou, como se estivesse a conversar com a avó. Ninguém comentou o seu gesto ou o achou estranho. Lá fora, a pequena estrela brilhava ainda com maior intensidade, como se quisesse encher de luz, de uma luz cintilante e rara, aquela festa de Natal.
E quando Pedro, o irmão mais novo de Francisca, na manhã seguinte lhe perguntou do que mais tinha gostado na festa de Natal, ela respondeu de uma forma breve e simples:
— Do que eu mais gostei foi da Poesia.
— E o que é a Poesia? — perguntou Pedro.
— É uma estrelinha perdida na noite a querer dizer-nos que está sempre alguém connosco quando nos sentimos tristes e temos saudades de quem já partiu.
Também Pedro nunca mais se esqueceu de como pode ser bela a palavra Poesia.

José Jorge Letria

2.6.20

ISABEL - PARTE XV


foto  minha



- É claro que vamos ter saudades vossas. Mas quando estivermos instalados mando a morada, e depois Braga não é no fim do mundo. Fico muito feliz por terem vindo. O Paulo gostava de convidar o seu sucessor para jantar. Mas acontece que não vive em Lisboa e ainda não chegou. Na verdade não nos lembramos dele. Os pais são nossos amigos, mas o filho parece que é um tanto aventureiro. Viajou muito. As visitas aos pais são esporádicas e rápidas. A mãe disse-me há dias que tinha esperança que ele agora assentasse. Coitada é mãe. 
Fez uma pausa e acrescentou:
- Bom, deixemos o homem em paz e vamos para a mesa.
O jantar decorreu com a animação própria de amigos que se estimam e sentem prazer em estar juntos.
Isabel falou das recentes férias, da cidade que não conhecera até aí, e de tudo o que nela lhe agradou. Contou, que visitara as grutas da Ponta da Piedade, recentemente consideradas no estrangeiro como um local "Tão bonito que até dói", e que a deixaram maravilhada.  E terminou.
- Incrível como viajamos tanto para o estrangeiro e temos localidades tão bonitas no nosso país que não conhecemos.
- Lá isso é verdade. Conheceste a história do mês que há-de vir? - perguntou Paulo.
- Mês que há-de vir? Não. Mas contaram-me porque é que lá chamam condelipas às conquilhas.
- Condelipas? - estranhou Amélia. Tens que me contar essa.
- Depois. Fiquei curiosa com essa história do mês que há-de vir. Podes contar Paulo?
- A Maria conta. Foi ela que nos contou.
Conta, conta – pediram todos.
A jovem não se fez rogada:
-Parece que em tempos remotos, havia em Lagos o costume, de sempre que chegava o mês de Maio, as damas da cidade, darem a um cavaleiro, todas as suas jóias de ouro para que as passeasse pela cidade. Um certo dia um cavaleiro menos honesto, e mais amigo do alheio,  fugiu com todo o ouro. Consta que alguns mais desconfiados diziam que estava a ir longe demais, e outros mais crédulos respondiam. “Quanto mais longe mais brilha”. Quando perceberam que tinham sido roubados, ficaram tão envergonhados que nunca mais ousaram falar do mês de Maio. Desde então em Lagos, a seguir a Abril, é o mês que há-de vir.
Hoje já quase ninguém  fala disto, mas a história foi contada na televisão pelo Professor José Hermano Saraiva, e imortalizada no livro "À descoberta de Portugal" 
- Não conhecia essa história - disse Isabel
- Pudera. Não deve ser coisa de que se orgulhem - comentou Afonso.
Todos riram e Amélia insistiu:
-Agora conta lá isso das conquilhas serem... conde quê?
- Condelipas.
-Isso.
Isabel contou a origem do nome e a conversa mudou de rumo. Até porque a refeição chegara ao fim.
Marta levantou-se.
- Vamos para a sala – disse. Tomaremos lá o café, e conversamos mais um pouco
Pouco depois Isabel perguntou pousando a chávena vazia sobre a mesa.
- Quando partem?
- Por mim íamos amanhã mesmo – respondeu Marta. Mas o Paulo ainda vai ter que reunir com o seu sucessor para o pôr ao corrente de tudo. E ainda não sabemos quando chega. Mas esperamos partir na  próxima semana.
-E essa Avis-rara, se é como dizem tão aventureiro, decerto é solteiro, - disse Amélia baixando a voz e depois de olhar de soslaio para Afonso, não fosse ele ouvi-la.
- Decerto que sim, - riu Marta. Ou a mãe não estaria tão ansiosa para que o rebento assentasse.
Riram as quatro.
Pouco depois despediam-se. Absorta nos seus pensamentos Isabel estremeceu quando Amélia disse.
- Que se passa? Onde estás que não nos ouves? Isto é muito estranho em ti. Tanto mais que toda a noite te senti meio ausente. Acho que anda mouro na costa. Amanhã, vais ter de me contar tudo.
O carro estacionou à sua porta e Isabel apressou-se a sair.



8.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVIII


Gabriel chegou nessa noite, e foi direto para casa dela. Estava cheio de saudades. Fizera todos os possíveis para a esquecer, durante aqueles dias, procurara divertir-se com outras mulheres, mas nenhuma conseguiu romper a armadura com que aquele novo sentimento o revestira. Tinha que reconhecer que estava irremediavelmente apaixonado pela sua secretária. Uma mulher admirável, com uma alma grandiosa, que por lealdade ao amor filial era capaz de tudo, até de se arriscar a ser presa. E ele queria essa capacidade de amar e de se dar, para ele. Mais do que querer. Necessitava-o com toda a sua alma. Resistira. Claro que resistira, nunca pensara em casamento, nunca sentira aquela necessidade de ter, e de se dar a uma determinada pessoa. Nos seus relacionamentos anteriores, nunca esteve nada em jogo, que não fosse o sexo, quanto mais prazeroso melhor. Com ela foi diferente desde o primeiro momento, e não porque não lhe despertasse a libido. Durante aqueles meses, tomara mais duches gelados do que em toda a sua vida. Mas sempre soube, que no dia em que se deitasse com ela, não se contentaria com menos do que o resto da sua vida. E era disso que ele tinha medo. Disso que fugira. Aqueles dias de ausência, acabaram com toda a sua resistência. Estava ansioso por chegar, por apertá-las nos braços e beijá-la até se cansar. Até se cansar? Tinha a certeza de que nunca se cansaria. Apanhou um táxi no aeroporto, e deu a morada dela. Ansioso por a ver, tocou a campainha, uma, duas, três vezes.
Sandra franqueou-lhe a passagem, surpresa com a mala que carregava. Ele entrou, largou a mala, e pegando-lhe num braço puxou-a para si, baixou a cabeça e beijou-a. Um leve toque na boca, como que um roçar de ave, que a fez suspirar e entreabrir os lábios, e logo ele a invadiu num beijo urgente e desesperado, que os deixou sem fôlego. Sandra apertava o seu corpo contra o dele, numa entrega que o enlouquecia. Finalmente afastou-a um pouco, sem deixar de a fitar, nem de a abraçar.
- Amo-te Sandra. Sabes isso, não sabes? – perguntou a voz enrouquecida pela paixão.
Ela confirmou com um gesto mudo, tentando esconder o rosto no peito masculino.
Gabriel levantou-lhe o queixo e perguntou preocupado com a sombra de tristeza, no rosto dela.
-Também me amas, mas…? 
-Não pode haver futuro para nós, enquanto o nome de meu pai, não for reabilitado. Não quero que os meus filhos saibam que o avô esteve preso, acusado de ter roubado a empresa do pai.
- Sandra, eu acredito na inocência dele. Mas não sei se conseguiremos prová-lo ao fim destes anos todos. Por favor, não condenes tu também o nosso amor.
- Talvez não seja tão difícil assim. O inspetor Pedro procurou-me hoje. Acredita que descobriu quem fez o desfalque, e pediu para arranjar um advogado e o por em contacto com ele.


24.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLII





- Mas tu és um homem famoso e muito rico. Como podes querer alguma coisa comigo? Não tenho mais que este pedaço de chão, esta casa, e a minha arte, que se me dá para viver não me deu fama, nem fortuna. Nem sequer sou uma beleza, como as mulheres com quem decerto estás habituado a conviver.
- Subestimas-te querida. Embora digas que não és uma beleza, és uma mulher muito bonita. O que acontece é que nunca te preocupaste muito com a tua aparência.  Tenho a certeza, de que bastará um pouco de maquilhagem, um novo penteado, e um tipo de roupa diferente, para que o patinho feio que julgas que és, se transforme num cisne esplendoroso, capaz de deixar qualquer uma dessas mulheres de que falas, cheia de inveja.
E para que saibas, um homem não procura só beleza na mulher dos seus sonhos, embora isso ajude muito numa primeira impressão. A minha falecida esposa, era uma mulher de grande beleza e nunca me fez feliz.
Agora chegou a hora da despedida. Conversei com a minha irmã, contei-lhe o que se passou e expliquei-lhe porque não dei notícias. E pedi-lhe para informar a polícia. Levas-me até à vila? Lá alugarei um carro que me leve a casa. Estou ansioso por ver a minha filha, mas já parto com saudades tuas.
Com dois dedos levantou-lhe o queixo e baixando a cabeça apoderou-se da sua boca, pondo naquele beijo toda a paixão que ela lhe despertara.
Ela enlaçou-lhe o pescoço e retribuiu com a mesma intensidade. Quando por fim ele a afastou, ela murmurou baixinho escondendo o rosto no seu peito.
- Faz amor comigo.
Ele afastou-a e mergulhou o olhar cheio de desejo nos doces olhos castanhos.
-Tens a certeza de que é isso que queres?
-Sim - balbuciou voltando a enlaçar-lhe o pescoço, o rosto corado, os olhos brilhantes de desejo. 
Então ele pegou-lhe ao colo e levou-a para o quarto.
Horas depois, despediam-se numa rua da vila.
-Vou manter-me em contato. E aguardar ansioso pela tua resposta.
Agora mais do que nunca, tenho a certeza dos meus sentimentos, e de que quero que faças parte da minha vida.
- Telefona-me esta noite. Quero saber como te sentes depois de reveres a família - respondeu Luísa abraçando-o.
As mãos dele afagavam-lhe os cabelos, os dedos roçando-lhe os lóbulos das orelhas. No seu olhar o desejo misturava-se com uma imensa ternura.
-Amo-te Luísa. Não te quero pressionar, mas por favor não me faças esperar muito!
Então os seus lábios desceram sobre a sua testa, num terno beijo de despedida.
Depois largou-a e afastou-se em direção a uma praça de táxis. Ela sentou-se ao volante, e ficou quieta, olhando como que hipnotizada para as costas do homem que falava com o motorista. Viu como abria a porta e a fechava depois de entrar. Viu o táxi arrancar na direção contrária em direção a Coimbra, e só quando ele desapareceu numa curva da estrada, limpou os olhos à manga da camisola, ligou o motor, fez a manobra de inversão de marcha e regressou a casa.




12.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXII



Noite de Sábado. Teresa acabara de deitar o filho, quando o telefone tocou. Estranhou. Não conhecia o número.
- Olá - a voz rouca surpreendeu-a. Tardou em responder.
-Ficaste sem voz?
- Não. Não, estava à espera que telefonasses.
- Tenho saudades tuas. Olha, ainda não são dez horas. Vamos sair?
- Não. Não quero sair.
- Está bem. Mas continuo com saudades. E se não te apetece sair, vou a caminho da tua casa.
- Não – quase gritou.
Ele já não ouviu. Desligara a chamada. E antes que ela tivesse tido tempo de pensar em qualquer coisa a campainha da porta tocou. Ficou a pensar que  já devia estar à porta do prédio quando telefonou.
Abriu a porta mas não lhe deu passagem.
-Estás doido? Com que direito é que me vens incomodar na minha própria casa?
- Com o direito de ser o teu futuro marido.
- És muito engraçado.
De súbito, reparou que o rosto masculino, ficava extremamente pálido, enquanto olhava um ponto atrás de si. 
Voltou-se e ficou sem ação ao ver Martim em pijama de pé no corredor.
- Quem é mamã?
- Um amigo. – caminhou até ele. – Vai para a cama filho. A mãe já lá vai dar-te um beijo de boas-noites. Agora tenho que falar com este senhor.
O homem permanecia à porta, sem se mexer. Parecia petrificado.
- Entras, ou sais? – Perguntou sarcástica
Entrou. Agarrou-lhe num braço.
 - Porque não me contaste? – Perguntou  com a voz embargada pela emoção
- Não tinhas que saber. Não é teu filho.
- Não digas disparates. Vê-lo ali assustado no corredor, foi como recuar  trinta anos, e ver-me a mim mesmo. Não tinhas o direito de mo esconder.
- Direito? Mas que direito? - Interrogou agastada. -  Lembras-te que te pedi para irmos passar o Natal à terra, com a minha família? Disseste que não podias, que eu fosse sozinha. Foi lá que descobri que estava grávida. Regressei ansiosa, para te contar imaginando que ias ficar feliz. E adivinha o que aconteceu? Encontrei a casa vazia, sem um bilhete de despedida, que me desse sequer a ilusão, de que tinha significado alguma coisa na tua vida.
- Contra isso nada posso fazer. Reconheço que  me portei como um canalha. Sei que o meu arrependimento, não te retira o sofrimento que passaste. Se te serve de consolação, devo dizer-te que nunca o teria feito, se passasse pela minha cabeça, a ideia de que podias estar grávida. Mas tinhas-me dito que tomavas a pílula.
- E tomava. Mas lembras-te que estive doente, um tempo antes e que tomei alguns medicamentos? O médico disse-me depois, que um deles pode anular o efeito da pílula, devíamos ter tomado outras precauções. Mas na altura eu não sabia.
- Ouve, quero que amanhã digas ao menino que eu sou seu pai. Quero vê-lo crescer, passear com ele, acompanhá-lo à escola. Quero fazer parte da sua vida.
- Quero, quero, quero. É só isso que sabes dizer. Como se nós fossemos mais uma empresa, uma máquina ou um carro, que te dispões a comprar.  Somos gente e sentimos como tal. Não estamos à venda.  E se eu não lho disser? E se eu não quiser que ele te veja?- Estava cada vez mais exaltada.
- Vais fazê-lo, Tê. Tenho esse direito e juro-te que o vou conseguir, nem que seja através dos tribunais. 
Apertava-lhe o braço zangado, o rosto pálido. Ela nunca o tinha visto assim.
Curiosamente a fúria dele, acalmou-a.
-Vai. Amanhã falamos. Estamos os dois nervosos, precisamos pensar com calma.
E empurrou-o para a porta.




22.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VI






-O que há com a empresa? É mau negócio? O Júlio estava entusiasmado.
-Eu sei, e pelo que ele diz parece ser um bom negócio, mas não acho bem que te desligues do assunto. Porque não vais até lá?
- Não confias no Júlio?
-Deus me livre e guarde disso, António. Até porque eu estarei lá na altura da compra e todos os documentos passarão pelas minhas mãos. Porém gostaria que fosses comigo. Não que seja necessário, pois com a procuração que tenho posso representar-te em qualquer negócio. Mas era uma maneira de te tirar deste escritório e libertar a tua cabeça dessa obsessiva ideia de vingança. Pelo menos por uns dias.
- Está bem. Quando será feita a escritura da compra?
- Dentro de dias. O Júlio tem estado à espera que tu te decidas a ir até lá. Parece que ele confia mais em ti do que em si próprio. A propósito, sabes que ele vai casar?
- Não. Não tenho estado com ele ultimamente. Quando aceitei fazer sociedade com ele no negócio dos carros deleguei nele toda a responsabilidade dessa parte dos negócios. Os restaurante e principalmente a imobiliária, ocupam-me todo o tempo. 
- Claro. Diz-me uma coisa. Há quanto tempo não vais ver a tua mãe?
- Há duas ou três semanas. Porquê? Passa-se alguma coisa com ela? Está doente?
- Não. Mas está muito triste. Disse à Gabi que sentia saudades tuas. Que se sente muito só e que lhe parece que continuas em França, tanto tempo leva sem te ver. Como sabes eu e a tua irmã quisemos que fosse viver connosco, mas ela prefere estar lá na casa onde viveu toda a vida e que diz está cheia de recordações. Diz que dali só sai morta. Devias ir vê-la. Caramba um homem não pode virar escravo dos seus negócios.
-Tens razão, mas que queres, foram muitos anos a trabalhar catorze a dezasseis horas por dia. E depois há sempre tanta coisa para resolver.
- Arranja dois ou três bons gestores. Eles podem fazer a maioria do teu trabalho. Não vais à falência por isso e ganhas em qualidade de vida e saúde. Nem sei como tens aguentado tudo isto sozinho.
- Tenho-te a ti, e à secretária que me recomendaste e que é uma excelente profissional. E mais três empregadas no escritório, e uma dúzia de gerentes nos restaurantes. E o Júlio tem-se mostrado bastante competente com o setor automóvel. Logo que resolva este problema com a integração ou não da Imobiliária “ Casa Nova”, prometo tratar disso. Gostava de trazer para a empresa o Rui Martins, mas duvido que ele queira deixar a atual empresa. Enfim, quando chegar a hora se verá.
- Quando é que terás a resposta do Jorge Maldonado?
- Dei-lhe oito dias.
- Acreditas que ele convença a filha?
- Não sei. Se bem que para te ser franco gostaria que não o conseguisse. Conheces a filha dele?
- E quem não conhece a Paula Maldonado? É uma excelente profissional, a sua empresa de eventos é uma das melhores do país, está constantemente a ser requisitada. Terminou há pouco um relacionamento de quatro anos, quando todos esperavam que mais dia, menos dia, marcaria a data do casamento. Não deve estar com vontade de se comprometer com ninguém, mesmo que seja para salvar o pai da ruína. Estás apaixonado por ela?
- Não. Mas um dia terei que casar. E o que sei dela agrada-me. Mas repito, espero que ela não aceite.
- Confesso que não te entendo. Se ela te agrada, porque não tentas uma aproximação e esqueces essa maldita vingança? E como esperas que não aceite se dizes que te interessa? Sabes que mais? És demasiado complicado para mim. Bom, tenho que ir. Combinei com a Gabi que ia buscar o Pedro à escola, uma vez que a esta hora ela tem uma consulta no dentista. Até amanhã.
-Até amanhã Eduardo.


16.12.18

O PRESÉPIO



Havia quase um ano que estava na loja, mercearia num bairro escuro, em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa. Com doze anos, que saudades tinha da aldeia, da família, dos antigos companheiros de escola, dos cães amigos que ladravam de noite a vigiar a casa! Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!... Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto do cabeço. É que o deslumbrava a ideia de Lisboa, de que tantas maravilhas grandes lhe contavam. Ainda agora partia, e já se via de volta na aldeia, de relógio e cadeia de ouro, a falar de alto, a puxar o bigode, a dar enchente, como o Januário, que lhe arranjara o lugar.
Com o seu examezinho de instrução primária, marçano de uma tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador. Tinham sido consultados o mestre-escola, o prior, o senhor Freitas, lavrador muito importante que arrastava tudo nas eleições, o Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se tinham mostrado de acordo: não havia como Lisboa para fazer um homem. Era ver o Januário que tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no tijolo resplandecer aureolas, que giravam como o fogo de vistas pelas festas.
Ah estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam deitar, a morrer de calor no Verão, no Inverno a morrer de frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces. Os primeiros dias tinham passado muito lentos. A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro tinham-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa. Pai, mãe e mestre-escola nunca lhe tinham batido. Atreveu-se uma vez a declará-lo. Foi pior. Chegou o Verão. As festas de São João e São Pedro aumentaram-lhe a tristeza. Reviu nesses dias mais intensamente a alegria da  aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada por quem queimasse uma alcachofra, a quem cantasse umas quadras falando de estrelas e de flores.
A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixara dormir. Cada bomba era uma pancada no coração. Um sol-e-dó que passou tocando arrancou-lhe lágrimas de imensa saudade. Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior. Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva. O mau tempo irritava o patrão, porque lhe afugentava fregueses. Na loja, com recantos muito negros, acendiam-se muito cedo os candeeiros, e o Manuelzito tinha pena da sombra em que se acolhia com maior amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe. — Acorda, ralaço! — gritava-lhe o patrão. Estava a chegar o Natal. Que lindo era o Natal lá na aldeia!
Andavam na rua a abrir um cano; quase ninguém ali passava; os passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso. Então o pequeno teve uma ideia.
Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa. Todos os dias, muito a medo, enquanto o patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas. Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixa de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita de foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareceriam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação. Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver. Um dia, engraxando as botas do patrão, lembrou-se de engraxar um dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos.
Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar de festa que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio, e no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora. Levou nisso parte de Novembro e Dezembro todo, até ao Natal. Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de vez em quando, revia-se na obra.
 O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto. Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como o não tinha dourado onde recortasse a estrela, fez em papel branco uma meia Lua; vinha quase a dar na mesma Aquele mês passou correndo. Era a véspera do Natal. As dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu. Que alegria estar só! Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo começou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos.Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se tinham de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite. Deram onze e três quartos. Ajoelhou. Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste. Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinhos se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes...Rezava-lhes... Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão muito atarefado ia, vinha... Meia noite! Acendeu os fósforos e ficou embasbacado! Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora! Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:

 Andava nessas campinas, 
Esta noite, um querubim.

Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abrir a porta, entrar na loja, chegar ao desvão. Acordou-o do êxtase um pontapé. — Isso... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo! E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura. O bruto continuava aos pontapés. — Vá?... Vá! Mas quando se deitou, encontrou na enxerga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele... Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.




 D. João da Câmara.

Contos tradicionais Portugueses


Muito obrigada pelo vosso carinho e mensagens de apoio. ou melhorando tão lentamente que às vezes fico na dúvida se estou realmente a melhorar ou se é a minha vontade de que isso aconteça que me faz julgar que estou melhor.
Bem Hajam

14.11.18

ESTRANHO CONTRATO PARTE XXIV



Empurrou a porta. A secretária estava ao telefone. Por sinais Graça perguntou-lhe se o irmão estava só. Luísa acenou afirmativamente. Bateu suavemente na porta e sem esperar resposta, entrou. O irmão levantou-se surpreendido
- Boa tarde Afonso!
- Boa tarde. Que surpresa. Quando chegaste? O Eduardo também veio?
-Vim sozinha, - respondeu enquanto abraçava o irmão. Tinha muitas saudades dos miúdos. Já vi a Ana, está muito crescida.
- É verdade. E ficas até os outros saírem da escola?
- Claro. Pois se morro de saudades deles. E gostam da escola? Não estranharam a mudança de ambiente, as regras?
- Não. Adoram a escola, já só falam nos amigos que lá têm. A Francisca não te contou?
- Não falámos disso.
-Ah! E suponho que não me vais dizer de que falaram.
- Claro. São coisas de mulheres. E tu? Já esqueceste a Olga? – Perguntou mudando de assunto
- Porquê?
- Porque vejo que a retiraste desta moldura, - disse agarrando no porta-retratos, e mirando a foto de Francisca sentada com a pequenita Ana ao colo, tendo Simão à sua direita e Marta e João, brincando à sua frente.
-É muito mais fácil retirar a foto de uma pessoa da nossa frente, do que retirar a pessoa do nosso coração, apagar da memória anos de amor, que partilhámos com essa pessoa.
- Calculo. Mas tu sabes que não pudemos viver toda a vida de lembranças. Não acredito que um homem da tua idade se contente com isso. Que não tenha projectos para o futuro, e que não sonhe com uma presença feminina.
- Não pretendo convencer-te de nada. Importas-te de mudar de assunto?
- Por acaso importo-me. És o meu único irmão, e custa-me ver-te sofrer. Diz-me uma coisa. Já algum dia reparaste que tens uma mulher linda em casa?
- Claro que sim. A Francisca é muito bonita, reparei nisso no primeiro dia. E é uma excelente mãe. As crianças adoram-na.
- E…
-Que estás a insinuar? Sabes perfeitamente que a Francisca também vive de recordações. Nem eu nem ela esquecemos o passado.
- Será?  Bom, vou fazer umas compras. Daqui a pouco estamos no Natal. Como não fico para jantar, despeço-me já de ti.
- Convence o Eduardo a virem passar o Natal connosco. – Disse o irmão enquanto se despediam. 


reedição








4.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XIX




Mais tarde Clara pensava como era surpreendente o laço que se criara em tão pouco tempo, entre Ricardo e o seu irmão.  Enquanto as crianças dormiam a sexta, os dois mantinham longas conversas, nas quais ela nunca se imiscuía. Era como se, toda a vida se, tivessem conhecido.
Era uma reação compreensível da parte de Tiago. Afinal o irmão era muito pequeno quando o pai morrera, e provavelmente sentia falta de uma presença masculina na sua vida. Surpreendente era a maneira com que Ricardo o tratava. Havia uma tal cumplicidade entre os dois, que parecia, terem vivido, juntos a vida inteira.
Quando Ricardo contara aos filhos que dentro de poucos dias ia viajar, as crianças ficaram tristes, queriam saber porque não podiam ir com ele. Com carinho explicou-lhes, que ia ter muito trabalho, não poderia estar com eles. Além disso em breve iriam entrar para a escola, teriam novos amigos, com quem aprender e com quem brincar. E em casa ficavam Antónia e o marido, Clara e Tiago, que gostavam muito deles e estariam sempre perto para o que precisassem. E terminou dizendo que os amava muito e nunca os esqueceria.
-Nós, também te amamos muito, pai - disseram em coro abraçando-o.
 Depois dessa conversa, Clara procurou manter-se sempre em segundo plano, cada vez que os três estavam juntos, de modo a que pai e filhos, vivessem o tempo que lhes restava até à partida, em completa união.
Enquanto isso ela pensava, que gostaria de preparar alguma coisa com as crianças, para que elas pudessem surpreender o pai na hora da despedida. Poderiam comprar-lhe alguma coisa, um perfume, um porta-chaves, quiçá uma caneta. Mas não era isso que ela queria. Queria alguma coisa mais pessoal, qualquer coisa que lhe chegasse ao coração. Mas o quê? Uma moldura com as fotos deles? Não. Ele devia ter o telemóvel cheio delas. Um desenho? Era uma ideia, mas não era bem o que desejava. E se pedisse ajuda a Tiago? Quem sabe ele tinha uma boa ideia?
E logo que teve oportunidade expôs a ideia ao irmão.
- Porque não fazes um vídeo com eles? Qualquer coisa como uma mensagem de amor em vídeo, que depois pões numa pendrive, para eles lhe oferecerem na hora da partida.
-Que boa ideia! Obrigada. Ajudas-me a fazer isso?
-Claro. Mas só quando ele voltar ao quartel. Senão, adeus surpresa.
- Segunda-feira.
- Combinado, maninha!
E assim decorreu o resto da semana. Na Segunda-feira, Ricardo voltou à unidade, onde decorriam os últimos preparativos para a partida, três dias depois.
De manhã, logo que ele saiu de casa, Clara perguntou às crianças se elas gostariam de fazer um presente, para dar ao pai na hora de partida. Tinha que ser uma coisa pessoal, ditada pelos seus corações, nada que se comprasse na loja. 
Claro que queriam, Ficaram encantados com a ideia, mas o quê? Então Clara explicou-lhes que iam gravar uma mensagem, em que cada um devia dizer o que sentia pelo pai, e recordar uma história, de algum momento passado com ele, em que se sentiram muito felizes. Depois, ela passaria o vídeo para o computador, e daí para uma pen que eles entregariam ao pai, no momento da partida.
-Porque – explicou-lhes. - O vosso pai vai estar muito longe. Alguns dias não poderá comunicar convosco e vai ter muitas saudades.
- O que são saudades? - Perguntaram em coro.
- Saudades, é a vontade de estar junto de vós, de vos falar, beijar e abraçar, e não poder fazê-lo

Amanhã. dia 5 de Outubro não haverá nenhum episódio desta história. Bom Feriado

31.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXIX


- O que deve fazer uma mulher que ama um homem, para que ele perceba?- Perguntou de súbito Mariana
Maria riu-se.
-O quê? Não me digas que não sabes. Vais dizer-me que nunca tiveste namorado?
-Amigos sim, namorado só o primeiro coleguinha quando fui para a escola.
- Mas tu és linda, tens bom gosto, és simpática. Por onde tens andado?
 -Por aí. Mas não me respondeste.
- Insinua-te. Se ele não for parvo, percebe.
- Insinuar? Como?
-Isso é lá pergunta que uma mulher faça? Mariana, tu não deves estar bem. Deixa cá ver se tens febre, - brincou Maria tentando colocar-lhe a mão na testa.
-Não sejas tonta. E vamos às compras que ainda gostava que me ajudasses a decorar a árvore de Natal.
Na loja Mariana escolheu um par de calças de ganga, e uma camisola de gola alta vermelha,
-Gostas?
-É um conjunto muito bonito.
-Então vai experimentar. É para ti. Prenda de Natal.
- Para mim? Oh! Obrigado. És um anjo, - disse quase arrancando-lhe as peças da mão, esfuziante de alegria.
Quando saíram, Mariana perguntou à amiga:
-E agora? Sapatos ou botas?
- Posso escolher?
Acenou afirmativamente
-Botas.
Entraram na sapataria, e Maria escolheu umas botas de cano alto, sem salto, muito práticas.
Quando regressavam a jovem disse quase chorando.
-Este ano, não esperava ter outra prenda que não a do Luís. Desde que o pai morreu, o dinheiro lá em casa, é muito pouco. Nem quero pensar o que teria sido de nós, se a minha mãe não tivesse vindo trabalhar para a tua casa.
- Não é a minha casa. É do Miguel.
- Mas tu vives lá. Porquê?
- Porque meu pai morreu, e eu estava doente, como sabes.
Calou-se. Maria percebeu que a jovem não queria falar da sua vida, e mudando de conversa disse:
-Tenho tantas saudades do meu pai!
-Também eu Maria ! Também eu!- Repetiu com tristeza.