21.4.18

SEM NOME -XVII




Emília nunca mais tinha voltado aquele local e pensou que devia sair dali o mais rápido possível. Voltando-se, lançou um olhar à sua volta e arrepiou-se ao notar um corpo caído, quase encostado ao pilar da ponte. Seria alguém que se suicidara atirando-se lá de cima, ou alguém que se sentira mal e caíra ali? Ficou hesitante sem saber se devia dirigir-se para lá, ou correr até à próxima residência e pedir para chamarem os bombeiros.
A tremer aproximou-se do corpo caído e o seu coração bateu mais forte quando reconheceu o jovem. Aflita, ergueu-lhe a cabeça, procurando alguma ferida, mas verificou aliviada que no sítio onde ela batera, não havia nenhuma pedra, apenas terra molhada e algumas ervas ainda cobertas de geada, que teriam amortecido a queda. Afagando-lhe o rosto lívido chamou:
- Carlos, Carlos, por favor acorda.
Como ele não respondeu, tirou o lenço da cabeça estendeu-o sobre as ervas e poisou cuidadosamente a cabeça do jovem sobre ele. Procurou algo no bolso do casaco e encontrou um lenço. Correu à margem do rio e molhou-o. A água estava gelada de tal modo que lhe doeram os dedos, mas não se importou. Torceu-o e com ele molhou a testa do jovem que pouco depois abriu os olhos e viu o rosto que se debruçava sobre ele aflito.
- Meu Deus Emília, ela morreu, não morreu?
- Ela quem, Carlos? Quem é que morreu?
- A Cacilda. Ela estava na camioneta. Eu vi-a. Queria ir com ela na ambulância mas não me deixaram. Mas… o que aconteceu? Para onde foram todos? - Perguntou olhando à sua volta desorientado.
- Por favor acalma-te Carlos. A Cacilda está ótima, o acidente foi há quatro anos. 
-Há quatro anos? – Perguntou mirando-a confuso. Não pode ser! Parecia tudo tão real.
-Sim, foi em Maio, de mil novecentos e sessenta e quatro. Estamos a poucos dias do Natal de mil novecentos e sessenta e oito, - explicou suavemente como se estivesse a falar com uma criança. - Estiveste muito doente, perdeste a memória e por qualquer razão reviveste o acidente. Mas já passou. Vamos ver se  consegues levantar-te. Eu ajudo-te, e depois vamos ao café e conversamos enquanto bebes qualquer coisa quente. Não sei quanto tempo estiveste inconsciente e está muito frio. 
Enquanto falava, passou o braço do jovem pelos seus ombros e abraçou-o pela cintura.
- Vamos lá então. Ou consegues ou és um rato, -  disse sorrindo e repetindo as palavras, que ele lhe dizia quando brincavam em criança.



20.4.18

MANUEL FERREIRA -- 20/4/1918 - MANEL DA LENHA




Se llamava Manuel, nació en España,
su casa era de barro, de barro e caña.
Las tierras del señor humedecían
su sudor y su llanto dia tras dia.

Introduzi a primeira quadra dum belíssimo poema de Joan Manuel Serrat, para falar de um certo Manuel, que não nasceu em Espanha, mas cuja vida foi igualmente sofrida. Chamava-se Manuel, nasceu no interior norte deste país, que para alguns - muito poucos - é um jardim à beira-mar. Quarto filho de uma pobre mulher que nunca conheceu marido, nasceu em Abril, precisamente onze dias depois, do desastre português na batalha de La Lys. 
Nunca frequentou a escola, pois começou a trabalhar ainda menino. Os filhos do patrão, ensinaram-lhe a ler e a escrever. A meninice e a juventude ficaram para trás nessa pequena aldeia, no dia em que migrou para o sul procurando melhor vida. Na margem sul do Tejo, começou a trabalhar numa Seca de Bacalhau. Aí conheceu a mulher com quem casou e que viria a ser a companheira de toda a vida. Sua casa não era de barro, não. Era um barracão de madeira, assente em pilares de cimento à beira-rio, que o patrão lhe tinha cedido e do qual não pagava renda. Tinha teto, mas não tinha água nem luz. Aí lhe nasceram três filhos em menos de três anos. Como se não fosse suficiente o sacrifício, de sustentar uma família com um ordenado miserável, ainda trouxe para a sua casa os dois cunhados mais novos, pouco mais velhos que a sua primeira filha, quando a sogra adoeceu. 
Com autorização do patrão, rompeu ao mato um bocado de terreno para semear alguma coisa que lhe ajudasse a criar os filhos, e os cunhados. Com as próprias mãos, abriu um poço, para regar o terreno e para ter água em casa. Trabalhava dia e noite disfarçando as lágrimas e a revolta em piadas brejeiras, e em brincadeiras carnavalescas. Nunca conheci homem mais divertido. Dizia que a vida levada a sério, endoidecia qualquer um. Adorava futebol. Não tinha rádio, nem dinheiro para o comprar. Com um dínamo, uma bobine fio de cobre e pouco mais, e as indicações do irmão, que era electricista, ele construiu uma engenhoca a que chamava galena,  que lhe permitia com uns auscultadores ouvir os relatos de futebol. Pegou a vida pelos cornos, apesar da sua figura franzina. De estatura pequena, foi o exemplo de que os homens não se medem aos palmos.
 Anos mais tarde, as filhas casadas, a idade da reforma chegou com mais uma provação. A mulher, companheira de sempre, sofreu um AVC e ficou paralisada do lado esquerdo. Era nove anos mais nova do que ele, mas nunca mais conseguiu bastar-se a si própria, muito menos fazer alguma coisa em casa. E Manuel começou uma nova luta. Tratar da mulher e levar para a frente a casa. Com alguma ajuda dos filhos, que apesar de toda a boa vontade, tinham  a sua vida, seus empregos e as suas casas. Uma das filhas inclusive, vivia longe, noutra cidade. Mas ele continuou sempre alegre e brincalhão. De sorriso fácil, e sempre com um chiste pronto, a qualquer hora e situação. Com a paixão pelo futebol, e pela vida, costumava dizer com uma certa graça, que sabia que havia de partir um dia, mas que iria forçado, pois de vontade, a morte nunca o apanharia. 
Porém a vida, madrasta até ao fim, fez com aos noventa anos, a circulação arterial se deixasse de se fazer para os membros inferiores. Resistiu à amputação de uma perna, não resistiu à amputação da segunda, falecendo a menos de um mês de fazer noventa e um anos.
Chamava-se Manuel, nasceu em Portugal, em Abril de 1918, partiu a 28 de Março de 2009.
E eu tenho um enorme orgulho em ter sido sua filha, e uma saudade cada dia maior


Maria Elvira Carvalho

Esta é a minha homenagem ao homem que me deu a vida. Quem leu o Manel da Lenha, ou A história das botas, sabe do meu amor, e da minha admiração por este homem pequeno no tamanho, mas  com um coração do tamanho do mundo. Uma alma talhada e moldada na adversidade da vida. Se fosse vivo, faria hoje cem anos. 

19.4.18

SEM NOME XVI





-Precisa de ajuda, mãe?- Perguntou a jovem pousando a caneca em cima da mesa.
- Não filha. Depois de amanhã, quando começar a preparar a ceia de Natal, sim precisarei, mas agora não. Aproveita o dia que está lindo e vai dar um passeio. Matar saudades que o tempo passa a correr, e logo estamos de partida.
A jovem afastou a cadeira e pôs-se de pé. Vestia umas calças de fazenda de lã pretas, justas ao corpo e uma camisola de gola alta vermelha. Calçava botas. Era morena, de olhos escuros e tinha a farta cabeleira negra, penteada numa trança. Uma mulher jovem e bonita.
- Devias ir vestir outra roupa, filha. A vila é pequena, as pessoas reparam, não estamos em França.
- Ó mãe, que disparate, De resto vou vestir o casaco comprido, e por um lenço. Só se vê um pouquinho das calças.
- Mesmo assim penso que devias vestir uma saia.
-Não, Se quiserem falar que falem, não me importo. De resto daqui a pouco vamos embora de novo.
- Sabes que o compadre António foi ontem buscar o filho ao hospital?
- A Cacilda disse-me.
- E não vais vê-lo?
- Para quê, mãe? A irmã disse-me que ele não se lembra de nada nem de ninguém. Se ele nunca me ligou quando cá estava, pior agora que nem se lembra de mim. Já sofri muito por causa dele. És testemunha do quanto sofri quando disseram que tinha morrido. Não me quero candidatar a novos sofrimentos. Até logo.
-Vai com Deus, filha.
-Fique também com Ele minha mãe.
Saiu. Nem olhou por onde seguia, isso não lhe importava. Há quase um ano tinha emigrado com a mãe, para se juntar ao pai que há seis anos emigrara para a França. Noutros tempos, não teria gostado de deixar a terra onde nascera, e onde tinha as suas amigas. E também o homem que amava, e que esperava conquistar algum dia. Mas ele foi para a Marinha. Esteve em Lisboa, depois foi para a Guiné, e pouco tempo depois de regressar foi mobilizado para Angola. Ela sonhava com o dia em que deixasse a tropa e voltasse a casa, esperançada em que um dia reparasse nela, mas então veio a terrível notícia da sua morte. E com ela, todos os seus sonhos morreram. Então ir para a França foi como um bálsamo para a sua dor. A vida por lá, não era um mar de rosas. Ela e a mãe trabalhavam como domésticas, o pai nas obras. Mas juntavam um dinheirinho que lhes ia permitir construir uma casa maior e montar um negócio quando voltassem. E o tempo fazia com que aos poucos as recordações não fossem tão amargas.
Sem dar por isso, estava junto ao rio, quase mesmo junto ao pilar da ponte nova, onde quatro anos antes se dera um terrível acidente. Sentiu um arrepio ao lembrar-se de quando a camioneta de passageiros se despenhara de cima da ponte, para se quedar numa monte de ferros retorcidos e vidros partidos naquele sítio. Uma tragédia que só não foi muito maior, porque as crianças que ali costumavam brincar, aquela hora já se encontravam em casa, à espera da janta.

Aviso aos amigos. Amanhã não haverá continuação desta história. 
É um dia especial, um dia de saudade. Se meu pai fosse vivo faria amanhã 100 anos. Os mais antigos conheceram-no através da sua história, e sabem do amor e da admiração que tinha por ele.

18.4.18

SEM NOME XV





Começou a andar junto ao rio na direção dos pilares da ponte. Cada vez mais angustiado, mas incapaz de resistir. Apesar do frio, a sua testa encheu-se de suor, e a cabeça começou a latejar. A uns cinquenta metros do pilar da ponte, parou e fechou os olhos. De súbito a sua cabeça encheu-se se gritos, e de sirenes de ambulâncias. Sentiu-se nauseado, e procurou um sítio onde se sentar, mas ali não havia nada. Só o rio e a terra  da margem.
-Meu Deus, por favor, faz com que isto acabe, - murmurou, sacudindo a cabeça.
O som das sirenes era cada vez mais aflitivo, os gritos mistos de dor e horror, eram cada vez mais intensos, e de súbito, Carlos viu-se a si mesmo a correr para aquele mesmo sítio, cheio de uma enorme angústia, seguido por muitos outros populares.  
O espetáculo que se lhes deparou era dantesco. Ali na margem do rio, onde ele brincara tanta vez, quando criança, e onde os miúdos continuavam a gostar de brincar, jazia uma camioneta de passageiros que fazia a carreira entre a vila de Peso da Régua e a cidade de Lamego, terrivelmente amolgada, depois de se ter despistado na ponte, despenhando-se numa queda de trinta metros, desde o tabuleiro da ponte até ali. Lá dentro ouviam-se gritos de dor, enquanto dois bombeiros iam entrando e retirando da camioneta os feridos. Carlos sabia que a sua irmã Cacilda devia estar naquela camioneta e tentava a todo o custo entrar nela para a procurar, mas os bombeiros não deixavam. Entretanto chegavam mais ambulâncias, médicos e enfermeiros de Lamego e da vila, unidos no esforço de prestar os socorros mais imediatos antes de serem levados para o hospital. Finalmente quando Carlos já desesperava um dos bombeiros saiu daquela amálgama de ferros retorcidos, com a sua irmã no colo, e depositou-a numa maca. Estava inconsciente, lívida e coberta de sangue e ele pensou que estava morta, mas afinal só tinha partido uma perna e feito um golpe na testa e outro no ombro e braço direito.
Ele queria acompanhar a irmã ao hospital, mas não o deixaram. Os feridos eram muitos, não havia lugar para acompanhantes, Carlos sentou-se numa pedra e desatou a chorar. Nem se lembrou de ir dizer aos pais o que tinha acontecido. 
Com as pernas a tremer, sentindo-se impotente perante aquela tragédia, mal disposto, e com vontade de vomitar, Carlos estava a reviver toda uma tragédia, pela qual já passara.
Continuava a ouvir os gritos das vítimas, e as sirenes das ambulâncias continuavam a atroar-lhe os ouvidos com intensidade. A dor de cabeça tornou-se insuportável. E de súbito sentiu que a terra se mexia, teve a sensação que uma nuvem negra pairava sobre ele. Levou as mãos à cabeça, tentando protegê-la e mergulhou na escuridão.


Uma explicação aos leitores. Esta minha história, como quase todas as outras, é ficção. Aquelas que eram baseadas em factos reais, eu assinalei e avisei. Todas as outras são ficção embora os locais onde as descrevo sejam reais. Este acidente, aconteceu na realidade, basta pesquisarem na Internet para verificarem isso. Portanto tanto este acidente como o aquartelamento no Leste de Angola são reais. O resto é história, ou estória


17.4.18

SEM NOME XIV




- O pai já foi para o campo?- Perguntou enquanto partia um pedaço de broa
- Claro filho. Sei que contínuas sem te lembrares das coisas, mas aqui o dia começa muito antes de o sol nascer. Porquê?
- Porque gostaria de ir com ele. Poderia ajudá-lo.
- Nem penses nisso, - disse a mãe. Tens que te restabelecer, ganhar peso, pareces um pau de virar tripas.
- Ora minha mãe, a julgar por esta roupa nunca fui muito gordo, - disse despejando o leite do jarro para a caneca.
- Come e vai passear. Agasalha-te que o tempo está frio, apesar do sol brilhar, mas já sabes, sol de inverno não aquece. Eu e o teu pai queremos que passeies pelos arredores. Quem sabe vês alguém ou alguma coisa que te trás de volta a casa, às tuas lembranças, à tua vida passada.
- Começo a perder a esperança de que isso venha a acontecer algum dia, minha mãe.
- Tens pouca fé, meu filho. Deus não ia permitir que te salvasses para ficares o resto da vida assim. De resto, eu já fiz uma promessa a Nossa Senhora dos Remédios, e quero que vás lá comigo em passando o Natal para rezarmos juntos. E Nossa Senhora nunca me falhou.
- Está bem mãe, - disse empurrando a cadeira para trás e levantando-se. É só dizer quando quer ir. Agora vou seguir o seu conselho. Até logo.
Saiu e sem saber como nem porquê, seguiu na direção do rio. Tal como a mãe dissera o dia estava frio, mas não estava vento, e o sol embora não aquecesse, iluminava tudo, fazendo com que os montes se mostrassem em pleno recorte com o horizonte e que os telhados vermelhos sobressaíssem sobre a alvura das casas. Ouviu o apito do comboio, antes de o ver e ficou parado uns minutos até vê-lo aparecer. Depois retomou a marcha. Ia sem destino encantando-se com tudo o que via. Chegou perto do rio e olhou à sua volta. Viu as duas pontes, a velha de ferro mandada construir em mil oitocentos e setenta e dois pelo rei D Luís I, desativada desde mil novecentos e quarenta e nove, devido à degradação do seu tabuleiro em madeira que já não oferecia segurança, e a nova, a Ponte Ferroviária, assim chamada por ter sido criada para ligar Régua a Lamego, por comboio, num ramal que nunca chegou a ser criado. Acabou assim por se transformar em rodoviária e substituir a velha. Claro que ele não se lembrava de nenhum destes pormenores, mas ao olhá-las sentiu um aperto no peito, uma angústia que não sabia explicar, e que ao mesmo tempo o atraía como se fosse um íman.



Será que este episódio marca uma viragem na história?
Como já disse, hoje vou andar por Alenquer. Só voltarei à noite.

16.4.18

SEM NOME XIII



Se no hospital a rotina das manhãs, com os enfermeiros a medir a tensão arterial e a ver a febre, antes da mudança de turno às oito horas, o fazia acordar cedo, ali naquela manhã acordara ainda mais cedo com a sinfonia dos animais do campo, começando logo pelo galo, que acordava ainda de madrugada.
Apesar de ter acordado mais cedo do que esperava, sentiu-se repousado e sem o cansaço da noite anterior.
Sentiu os passos da mãe no corredor e pouco depois os passos pesados do pai.  Acendeu a luz e saiu da cama. Sentiu frio. Abriu o armário e encontrou um grosso casaco que vestiu em cima do pijama. Foi à janela e abriu as portadas de madeira, mas ainda era noite. Voltou ao armário e tirou umas calças de ganga, uma camisa de xadrez em flanela e um camisolão de gola alta azul-escuro.
 Depois abriu o gavetão do armário e encontrou alguns pares de cuecas, meias e T-shirts de algodão. Será que aquela roupa lhe servia? Decerto que sim. Apesar de alto estava muito magro, não sabia se sempre fora assim ou se isso se devia aos longos meses que estivera inconsciente. Pegou na roupa e abrindo a porta do quarto encontrou-se no corredor, dirigindo-se à casa de banho.
- Bom dia, filho – a mãe acabara de sair da cozinha e dirigia-se para ele. - Já a pé? Não devias descansar mais um pouco?
- Já acordei há horas, mãe. O que preciso é de um banho, e de um bom pequeno-almoço.
- Já acendi o esquentador. Vai lá tomar o teu banho que já te preparo o dejejum.
A mãe voltou a entrar na cozinha enquanto ele entrava na casa de banho. Pousou a roupa sobre um banco, abriu o armário sob o lavatório, onde na véspera guardara os seus pertences de higiene, um copo, uma pasta e escova de dentes, uma gilete, um pincel e um frasco de loção Old Spice.
Fez a barba e escovou os dentes, antes de entrar no duche, e depois deste, vestiu a roupa que trouxera e verificou que não só lhe servia como não se ajustava ao corpo na perfeição o que queria dizer que realmente estava muito magro.
Passou a loção no rosto, guardou de novo as suas coisas no armário, levou o pijama para o quarto e dirigiu-se à cozinha.


Não se esqueçam de ir deixando os vossos títulos, para este conto que continua sem nome
E amanhã vou andar em passeio de estudo por Alenquer, pelo que só regressarei à noite.

15.4.18

SEM NOME XII





A chegada do jovem à terra natal, foi uma festa para a família e para os vizinhos que se aglomeraram no pátio da casa, à roda de uma fogueira que mais fazia lembrar o S. João do que a proximidade do Natal. Mas compreendia-se. Estava uma típica noite de inverno, numa zona onde ele sempre muito rigoroso. Mal saiu do carro, todos queriam abraçá-lo, e saber como estava, como se sentia. Emocionou-se com a receção, mas ao mesmo tempo aquela confusão provocou-lhe dores de cabeça. Felizmente não durou muito, o seu pai agradeceu a todos e informou que o filho precisava descansar, Iria estar com eles até ao Ano Novo, haveria tempo para falar com cada um. Os vizinhos acabaram por recolher às suas casas, desejando-lhe as melhoras e ele pôde enfim entrar em casa, enquanto os cunhados apagavam cuidadosamente a fogueira no quintal.
Depois do jantar, com toda a família reunida, a retirada das suas irmãs com maridos e filhos para as suas respetivas casas, permitiu ao jovem retirar-se para o seu quarto. Estava muito cansado. De corpo e alma cansados. A mãe acompanhou-o ao quarto dizendo-lhe que estava tudo como outrora. Apesar da pressão do pai e das irmãs que achavam que era um sofrimento para ela manter o quarto com todas as suas coisas, ela sempre se opusera a que alguém mexesse nalguma coisa. Assim tinha a ilusão de que o filho estava vivo e regressaria um dia.
Por isso a entrada no quarto foi como que um encontro com o passado. Olhou a cama de ferro pintada de preto e coberta com uma colcha de coloridos quadrados em croché, a mesa-de-cabeceira em madeira de carvalho, igual ao armário, liso e sem espelho que estava numa das paredes. Na outra parede junto à porta de entrada, uma estante com vários livros. Por fim, na parede em frente à porta, havia uma janela, que aquela hora tinha cerrado os portais de madeira interiores, meio protegidos pelo fino e vaporoso tecido dos cortinados que caiam em cima do tampo de uma secretária e de uma cadeira, que teria sido posta ali para aproveitar ao máximo a luz exterior nos seus tempos de estudante.
A mãe despediu-se com um beijo, desejando-lhe boa noite e retirou-se deixando-o só no santuário do seu passado, que no entanto não lhe despertou mais do que curiosidade, que deixou para satisfazer no dia seguinte, dado o seu extremo cansaço.



Por  favor continuam a aceitar-se sugestões para o nome deste conto.