12.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIX





Tinham passado três meses desde que se casaram. Muita coisa se passara nesse tempo, a começar pela visita dos avós das meninas no dia seguinte ao do casamento. Visita que muito a preocupara, mas que afinal nem correu nada mal. Depois da surpresa inicial, o casal pareceu aceitar bem a situação  e preocupou-se apenas em que lhes fosse permitido manter as visitas às netas como até aí.
No sábado seguinte, Francisca foi surpreendida por um Afonso que ainda não conhecia. Com umas calças de ganga, uma t-shirt sem mangas e umas alpargatas de algodão, não se parecia nada com o elegante e austero advogado. Depois das crianças tomarem o pequeno-almoço, Afonso disse-lhes: 
- Podem ir brincar para o jardim.
E depois baixando-se pôs a mão sobre o ombro de Simão dizendo:
-Preciso da tua ajuda. Eu e a mãe temos uns trabalhos para fazer. Importas-te de tomar conta dos manos?
O garoto empertigou-se, os olhos brilhando.
-Claro que não.
-Tem especial cuidado com a Ana. Bem vês é ainda muito bebé.
- Não te preocupes. Vou cuidar bem dela.  
- Ganhaste pontos com ele – disse Francisca quando as crianças saíram.
-Ainda vai ser o meu melhor amigo, – riu Afonso. - Mas de qualquer modo, é melhor dizer à Antónia para estar atenta.
Depois, desmontaram as camas, retiraram do quarto pequeno o berço e a escrivaninha, levaram o sofá para a parede da janela, e montaram uma das camas no sítio onde anteriormente estava o sofá. Depois levaram para o sótão, o berço, a outra cama, e a escrivaninha e trouxeram de lá um pequeno armário que montaram na parede fronteira à cama. 
Trouxeram e montaram no quarto grande  a antiga cama de casal.  Tudo pronto, olharam-se.
-Espero que estejas mais feliz agora. Mas tinha dado menos trabalho mudares-te para outro quarto,- disse o homem sorrindo
Francisca, surpreendeu-se a pensar que ele tinha um belo sorriso.
- É verdade. Mas a ideia continua a ser de darmos aos outros, especialmente às crianças, a ideia de que somos um casal normal. Pelo menos era o que pensavas há dias.
-E continuo a pensar o mesmo.
Olhou o relógio. 
-São quase horas de almoço. Queres tomar banho primeiro? Vou um pouco ao jardim ver como estão as crianças, - disse ele afastando-se sem esperar resposta.

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11.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVIII



- Não vai ser uma surpresa agradável para eles, mas desde que manifestaram a intenção de lutarem pela  guarda das meninas, com o argumento de que um homem só, não pode cuidar delas, fiquei sem vontade nenhuma de ser agradável com eles. Amanhã tenho um julgamento não poderei ficar em casa. Logo que eles cheguem apresento-te e deixo-vos. Espero que não sejam desagradáveis contigo, mas se o forem, quero que procedas como dona e senhora da casa e os obrigues a respeitar-te como tal. Não podemos, nem seria justo impedi-los de privarem com as netas. Afinal são o seu consolo, depois da morte da filha. Mas eles têm que nos respeitar.  Eu virei para casa, logo que o julgamento acabe. Vou pedir à Graça que fique por perto se precisares de ajuda.
- Não será preciso. Vai correr tudo bem, não te preocupes. Agora e antes de arrumar as minhas coisas, gostava de te pedir uma coisa. Acabo de descobrir que há um pequeno quarto que comunica com aquele que devemos partilhar. Gostaria de o utilizar  para mim. Percebo o teu argumento sobre as crianças, mas não consigo pensar naquele quarto como meu. Peço-te que te ponhas no meu lugar. Não é fácil partilhar a nossa intimidade com outra pessoa, especialmente se a essa pessoa não nos liga mais que um contrato, ou mesmo um sentimento de gratidão. Desculpa a minha sinceridade, mas sinto-me como se fosse partilhar o quarto com o patrão. 
Estava nervosa, as suas mãos não paravam de gesticular, a sua face estava vermelha.
- Mas aquele quarto é muito pequeno. Era o quartinho das bebés, E nem sequer tem uma cama.
- Tem um sofá. E agora que não há nenhum bebé podemos arrumar o berço noutro lado E pôr ali um armário para as minhas roupas.
- Não confias em mim?
- Claro que confio. Mas tenta perceber a minha posição. Nós tínhamos acordado em quartos separados.
- Bom, se ficas mais descansada, o quarto é teu. Mas hoje não temos tempo para tratar disso e amanhã com a visita dos meus ex-sogros, e o julgamento também não. Prometo que no sábado  trataremos de deixar aquele quarto minimamente confortável. Entretanto fica no principal. Eu fico aqui no escritório. De qualquer modo vou precisar preparar o julgamento de amanhã. E depois este sofá é bastante confortável.


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ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVII

Não abriu a porta. Bateu com os nós dos dedos.
-Entre
Entrou e fechou a porta atrás de si, ficando na expectativa.
Afonso deu a volta à secretária e dirigiu-se para ela.
-Senta-te. – Disse indicando-lhe o sofá. Esperou que ela se sentasse e fez o mesmo. Continuou.
-Deves estar cansada, não é fácil cuidar de quatro crianças tão pequenas. Podias ter aceitado a ajuda da minha irmã.
-A Graça vai embora depois de amanhã. Tenho que me habituar. E depois tenho a ajuda de Simão, – respondeu.
-Reparei que ele não é como o irmão. Parece triste.
-Sempre foi uma criança mais comedida nos sentimentos. E soube há poucos dias, que o pai morreu. Tinha-lhes dito que andava em viagem, mas ele ouviu uma conversa da avó com uma vizinha e questionou-me.  Tive que lhe contar a verdade. É muito responsável e acredita que tem de cuidar de mim e do irmão.
- E eu? Sou um intruso que odeia?
-De modo algum. Mas não esperes que seja tão espontâneo como o irmão. Ele é cauteloso. Tem de sentir que o chão onde põe os pés, é firme. Mas se percebe que assim é e se entrega, é um menino amoroso.
- Bom, sendo assim espero ganhar a sua confiança em breve. A Ana e a Marta, aceitaram-te como se estivesses com elas desde que nasceram.
- É natural, eram tão pequenas quando a mãe morreu que nem devem recordar-se dela. O mesmo acontece com João que só conheceu o pai por fotografia. O Simão é mais velho,  lembra-se, amava o pai, e tinha por ele uma grande admiração.  
Falavam nas crianças, chamando-as pelos nomes. Nem um nem outro se atreviam a dizer “nossos filhos” o que pressupunha uma intimidade que não havia entre eles, mas também não diziam, os teus filhos, os meus filhos, para que o outro não pensasse que não cumpriam a sua parte no acordo. Francisca quebrou o silêncio que se instalara.
- A Graça disse que me querias falar. Passa-se alguma coisa?
- Amanhã, é o dia dos meus ex-sogros virem passar o dia com as netas.
Propositadamente não lhes falei de ti nem das minhas intenções de voltar a casar. 


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10.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVI



O almoço estava delicioso, e foi servido com correcção e esmero pelos dois empregados que ficaram na sala a recolher as loiças quando todos se levantaram.
Francisca, desapertou o cinto da cadeirinha de Ana e pegando-lhe ao colo, disse:
- Agora, vamos todos lavar os dentinhos e dormir a sesta. Pegou na mão de Marta, hesitou um pouco e depois aproximou-se de Afonso, dizendo:- Damos um beijinho ao pai?
Ana esticou os bracinhos e inclinou o corpo para o pai, que a beijou. Em seguida inclinou-se para Marta que se agarrava à sua perna para a beijar.
 Sem que ninguém pudesse prever, João avançou e agarrou-se-lhe à outra perna.
Emocionado, Afonso beijou os dois, mas os seus olhos estavam fixos em Simão que se mantinha um pouco afastado.
O garoto porém virou-lhe as costas e encaminhou-se para o corredor.
- Ajudo-te a deitá-los – disse Graça
- Não. Quero fazê-lo sozinha.
E Francisca seguiu rumo à casa de banho, com as crianças.
Os quartos dos meninos eram iguais e contíguos. Ambos eram espaçosos, tinham uma grande janela que dava para o jardim, duas camas e um grande armário.  E uma pequena zona cheia de brinquedos que naturalmente eram diferente de um para o outro quarto. 
Depois que saíram da casa de banho, abrindo a porta do
  quarto para os filhos, Francisca disse a Simão.
-Cuida do teu irmão. Vou deitar as meninas e já venho.
O garoto assentiu com um sorriso.
Ela sabia que o filho ficava feliz com aquela incumbência. Sempre fora uma criança, com grande sentido de responsabilidade. No outro quarto Francisca abriu um armário, retirou uma fralda e colocou-a em Ana. A criança com quinze meses, já tinha controlo das necessidades acordada, mas a dormir ainda precisava de fralda.
Deitou-a, deu-lhe um beijo, aconchegou a roupa a Marta, beijou-a,  correu a persiana e saiu fechando a porta. Encontrou os filhos já deitados. Aconchegou-lhes a roupa, beijou-os e saiu, não sem antes correr a persiana
Dirigiu-se à sala. Graça lia um livro. Olhou-a e disse:
- Afonso quer falar-te. Disse para ires ter com ele ao escritório.

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ESTRANHO CONTRATO - PARTE XV



Depois do duche e de ter trocado de roupa, Afonso voltou à sala. Foi até à janela e ficou observando o exterior. A irmã, estava no baloiço com a sobrinha, Ana. Marta e João ora subiam as escadas do escorrega, ora se deixavam deslizar pelo outro lado, soltando alegres gargalhadas. Desde o dia em que se conheceram três meses antes, que aqueles dois quando estavam juntos era uma festa. Ninguém diria ao vê-los que não eram irmãos, ou amigos de longa data. Um pouco afastados, Francisca, de cócoras falava com Simão. O menino preocupava-o. Pelo que observara, naqueles três meses, parecia-lhe demasiado adulto para os seis anos que ia fazer em breve. Não tinha a alegria nem a espontaneidade do irmão, nem estava sempre a pensar na brincadeira. Várias vezes observara nele atitudes de protecção com o irmão e até com a própria mãe.
No jardim a conversa continuava, e Afonso pensou que gostaria de saber de que falavam. Será que o miúdo ia ter problemas de integração? Que não ia aceitar o casamento da mãe?
A carrinha do restaurante parou junto ao portão. Antónia, a empregada, saiu para o abrir e lhes franquear a entrada.  Viu as duas mulheres chamarem as crianças e encaminharem-se para casa. O serviço com o restaurante estava tratado, incluindo a presença de dois empregados para lhes servir a refeição, não tinha que se preocupar com isso. Chamá-lo-iam quando tudo estivesse pronto.
O que o preocupava agora era a visita dos ex-sogros, no dia seguinte. Não lhes tinha dito nada que ia voltar a casar. Preferira apresentar-lhes o acto consumado. Desde que lhe disseram que queriam a guarda das meninas, porque achavam que elas estavam muito sozinhas, que um homem só e ainda por cima com tanto trabalho, não teria condições de dar às crianças a atenção que necessitavam, toda a simpatia que lhes tivera desaparecera. Fora por isso que Graça o incentivara a casar. E se a princípio ele achou que semelhante ideia era uma estupidez, depois que a irmã lhe falou da amiga, e sobretudo quando a viu, tímida e envergonhada no seu escritório, a ideia começou a parecer-lhe mais aceitável.  E se ainda tinha dúvidas, depois que ela foi com os filhos, passar o dia lá a casa, e viu a forma carinhosa como tratava deles, e como se deu a conhecer e tratou as meninas, teve a certeza de que era realmente o passo certo.

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9.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIV




Naquele momento Francisca entrou na sala. Trocara o fato do casamento por um conjunto de calça e blusa azul-escuro, de corte simples mas elegante. Sem maquilhagem, a farta cabeleira presa numa trança, de sabrinas, parecia ainda mais jovem.
O homem levantou-se e avançou para ela.  
- Estás mais calma? Não te preocupes, vai dar tudo certo. Ouves as crianças? Estão muito felizes com a brincadeira no jardim. Podes ir até lá, ou vê-las aqui da janela. A Graça está com elas. Tem tanto jeito para lidar com crianças que me admira de ainda não ter engravidado. – Olhou o relógio. São onze e quarenta, encomendei o almoço para o meio-dia e trinta. Vou tomar um duche, e trocar de roupa.
Afastou-se sem lhe dar tempo a responder. Francisca foi até à janela. Viu a cunhada com a pequenita no baloiço. Marta, a mais crescida descia o escorrega, seguida por João, rindo com aquela alegria que só as crianças têm. Abriu a porta e saiu para o jardim.
Simão perdia-se na perseguição de uma bela borboleta. Correu para ela mal a viu.
-Mãe, a “tia” Graça, disse que logo não voltamos para casa dos avós. É verdade que vamos ficar aqui para sempre?
- Sim filho, é verdade. A mãe já te tinha dito que estava a preparar o vosso quarto para ficarem a viver com a mãe.
- Mas não contaste que ias casar com o “tio” Afonso. Nem aos avós.
-Sabes filho, às vezes as pessoas têm segredos que não podem contar às outras. Mas depois vem um dia em que deixa de ser segredo e já se pode contar.
- Então o vosso casamento é segredo? Assim como o pai ser uma estrelinha no céu?
- Sim filho.
O menino com um ar sério disse:
- Fica descansada, não conto a ninguém.
Francisca acariciou-lhe a cabeça sorrindo.
-Vai brincar filho.
A criança não se afastou. Como se alguma coisa o preocupasse.
Perguntou:
- Também vais ser mãe da Ana e da Marta?
-De certo modo, sim filho. Tu sabes que todas as crianças devem ter um pai e uma mãe. A mãe delas, como o vosso pai é agora uma estrelinha no céu. Eu tentarei fazer o meu melhor, para que elas não se sintam tristes.
Naquele momento, chegou o almoço. Graça retirou a sobrinha do baloiço, e Francisca chamou as crianças que estavam no escorrega. Depois todos tomaram o caminho de casa.

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Este Simão é um menino especial, não acham? Fiquem atentos a ele... .

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIII



-Não quero que os meus pais saibam do casamento. Não iam entender. Vou dizer-lhes que me contratou para ama das meninas, e que não se importa que tenha comigo os meus filhos. Não me agrada mentir, mas sei que eles não iriam aprovar o que nos propomos fazer. Mais tarde lhes contarei a verdade. É a minha única exigência.
- Muito bem. Vou telefonar à minha irmã para a vir buscar. Entretanto se me der os seus documentos, mando já fazer as cópias para dar início ao processo de casamento.
Francisca tirou os documentos e estendeu-lhos. Ele abriu a porta e chamando a secretária, pediu que lhos fotocopiasse.
Fechou a porta e voltou-se para ela.
-  Sendo assim pode dizer a seus pais que tem emprego. Amanhã, às cinco espero-a aqui para assinar o contrato  combinado. Traga os seus filhos. Gostaria de conhecê-los. E no fim-de-semana, espero que vão passar o dia connosco. Para que conheçam a casa e as minhas filhas. Será uma espécie de ambientação para eles.
Enquanto o casamento não acontece, a Graça irá buscá-la a fim de tratarem do que pensem ser necessário, para a cerimónia, mas devo dizer-lhe que ela será o mais discreta possível e não haverá festa, nem viagem. Também terão que escolher os móveis e decorar o quarto para os seus filhos.
A secretária bateu à porta e Afonso ordenou:
-Entre.
- Aqui tem doutor, - disse pondo os documentos e respectivas fotocópias em cima da secretária. Mais alguma coisa?
- Não obrigado. Logo que a minha irmã chegue, faça-a entrar. Pode retirar-se.
- Com certeza Doutor.
A secretária retirou-se, não sem antes lançar uma mirada curiosa a Francisca. Desde que trabalhava para o doutor, nunca o vira tanto tempo no gabinete com uma mulher.
Pouco depois Graça chegou.
-Espero que tenham chegado a acordo. Os seus olhos foram de um para o outro interrogativos. – Chegaram ou não?
- Chegámos – respondeu o irmão
- Ufa. Pensei que não tinham decidido nada. Estão com uma cara.
- O assunto é sério Graça. Não querias que estivéssemos a pular de alegria.
- Está bem. Não precisas zangar-te. Já sabes como sou.
Afonso não respondeu. Levantou-se e aproximando-se estendeu-lhe a mão
-Não se aflija. Vai correr tudo bem. Não esqueça, espero-a amanhã às cinco.
Apertou-lhe a mão sentindo a suavidade da mão feminina.
E agora ali estava, casado  e disposto a partilhar a vida com uma quase desconhecida, esperando não ter feito uma grande asneira da qual se pudesse arrepender. Tinha-o feito pelas filhas. Elas eram toda a sua vida e para não as perder, faria qualquer coisa.

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