22.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE I


-Entre.
A porta abriu-se e a mulher que se encontrava de costas, junto à janela voltou-se e encaminhou-se para a secretária.
Cumprimentou o homem que acabara de entrar, e indicou-lhe uma cadeira. Passou a mão pela testa e perguntou:
- Então? Descobriu-o?
O homem, de meia-idade, baixo e calvo, apresentava-se bem vestido, mas parecia incomodado, como se não estivesse habituado a andar de fato e gravata em pleno mês de Julho.
- Sim. Segundo os meus contatos, o nosso homem encontra-se hospedado em Moçambique. Contactei a nossa embaixada, e tenho aqui todos os dados. Está numa Missão em Nampula. Tenho aqui todos os possíveis contatos, morada e telefone da Missão, bem como da Arquidiocese de Nampula, a que a Missão está subordinada, disse estendendo-lhe algumas folhas de papel.
-Muito bem. Por agora é tudo. No escritório dar-lhe-ão o cheque com os seus honorários. Entrarei em contacto consigo se voltar a precisar dos seus serviços.
Ele levantou-se e estendeu-lhe a mão, que ela apertou dando a reunião por terminada.
O homem saiu fechando a porta atrás de si. A mulher, jovem e bonita, vestia um fato de calça e casaco cinza, e prendia os cabelos escuros num coque no alto da cabeça. O seu rosto de traços suaves, tinha no momento um ar crispado, como se estivesse profundamente irritada, ou sob uma grande pressão.
Pegou nas folhas que o detetive deixara sobre a secretária e deixou-se cair na secretária, com um profundo suspiro.
Estendeu a mão e colocando os óculos leu as folhas. Quando acabou recolocou os óculos em cima da secretária, e premiu uma campainha.
Ouviu-se uma leve batida na porta e de seguida ela abriu-se para deixar passar Madalena, a sua secretária. A jovem estendeu-lhe a folha de papel.
- Veja se consegue entrar em contacto com essa Missão. Quando o conseguir passe-me a chamada. Se não o conseguir até à hora de saída, tente de novo amanhã. Preciso de entrar em contacto com alguém de lá com urgência.
- Vou já tratar disso, - disse a empregada


20.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXXI




Levantou o rosto e mergulhou o olhar naqueles olhos cinzentos que tanto a impressionaram desde o primeiro dia. E durante uns momentos permaneceu assim, lendo nos seus olhos a sinceridade do que lhe tinha contado. Por fim, aninhou-se nos braços dele.
Segurando-lhe o rosto ele disse:
-Tenho uma proposta para te fazer.
- Para passar as férias convosco?
- Não. A proposta é, aceitas casar comigo, sabendo que te ofereço de prenda de noivado, uma filha? 
-Preciso tempo para pensar, -disse brincando, para esconder a intensa emoção que se apoderou dela.
- Dez segundos chegam? – Perguntou ele, entrando no jogo.
Não esperou por resposta. Apertando-a contra si, disse, desta vez muito sério.
- Quero que fiques comigo e com a Matilde, o resto da minha vida, mas não como ama. Quero que sejas parte das nossas vidas, que sejas minha mulher, minha amante, minha companheira. Amo-te Beatriz, e vou amar-te todos os dias da minha vida. Prometo-te.
Ela não conseguia falar. Estava afogada pela emoção. Apoiou a cabeça no seu peito e chorou
-Não chores, querida. Não há razão para isso. – Murmurou-lhe ao ouvido
-Eu sei. Mas é que me sinto muito feliz.
-E choras sempre que estás feliz? -Perguntou soltando-lhe o cabelo.
- Não sei. Já não me lembro desde quando não me sentia tão feliz, -declarou com seriedade
César pensou que ela não devia ter sido feliz no anterior casamento. Mas não fez perguntas. Limitou-se a abraçá-la e a beijá-la com paixão.
Beatriz não se retraiu. Retribuiu o beijo de igual para igual, com toda a sua energia e necessidade, apertando o seu corpo contra o dele, de tal modo, que se o desejo fosse pássaro, sairia voando pela sala, tal como voaram as suas roupas, na ânsia de apagar o fogo que os devorava, ali mesmo no sofá da sala. Mais tarde, apaziguado o corpo, aquietado o coração, Beatriz pensava que César tinha chegado até ao mais íntimo do seu ser. Com a sua ternura, com o seu ardor, a sua vontade de lhe dar prazer. Cada carícia, cada toque dos seus lábios, ficara gravada a fogo no seu corpo e na sua alma. Ela tinha sido casada durante quase três anos, e só agora sabia verdadeiramente o que era fazer amor. Pensou que se Jorge fizesse amor com ela, daquela maneira, ter-se-ia sentido destroçada com a sua morte.
- Em que pensas? - Perguntou ele, acariciando-lhe o rosto
- No que aconteceu. César, não pensas que sou uma mulher fácil, pois não?
- Porque havia de pensar isso, Beatriz? És uma mulher jovem, saudável,  é natural que tenhas desejos como eu, ou qualquer outra pessoa. Se te julgasse uma mulher fácil, não me teria apaixonado nem iria casar contigo.
Fez uma breve pausa, durante a qual não deixou de olhá-la nem por um segundo. Depois continuou:
 Quero que saibas, que ficaria aqui contigo o resto do dia, mas minha querida, antes de vir, contei à minha família, que te amava, e vinha tentar convencer-te a casares comigo. E prometi-lhes que te ia levar para jantar.

Epílogo


Casaram no final do ano, na presença de todos os familiares.
Meses antes, César tinha conhecido Clara e Nuno. E não pôde deixar de sorrir, quando a jovem lhe disse, que sempre acreditou, que só se ele fosse cego, não se apaixonaria por Beatriz. E logo ali combinaram que ela e o marido seriam os padrinhos da noiva na cerimonia. Depois, durante as férias, estiveram em Lagos, onde César conheceu os futuros sogros. Ele gostou da afabilidade, com que os receberam, e eles ficaram encantados com a pequena Matilde, e trataram-na como se fossem os seus verdadeiros avós. E agora ali estavam, ele no altar, e a jovem caminhando para ele, pelo braço do pai. E era evidente a felicidade dos noivos, bem como da pequena Matilde, radiante no longo vestido rosa, muito compenetrada no seu papel de menina das alianças.

Fim


Elvira Carvalho

Esta estória termina aqui. Mas não fiquem tristes. Está a sair da forja um Jogo Perigoso, que espero vos agrade. A partir do dia 22



19.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXX


A mulher continuava em coma. Já tinham passado dez dias e os médicos continuavam com prognóstico reservado. Era como se a mulher, não sentisse vontade de viver, e o seu subconsciente, não soubesse se devia partir ou ficar. 
O homem sentiu que alguma coisa se fragmentava no seu peito, com a ideia de que ela se deixasse ir. Sentiu que se tal acontecesse, o remorso ia persegui-lo toda a vida. E então fez aquilo que o seu coração lhe ordenava. Pegou-lhe na mão e suplicou:
- Volta! Não te deixes ir. Por favor, preciso que voltes!
Assustado consigo mesmo e com o que sentia, saiu dali jurando não voltar. Não entendia o que se passava com ele, não achava normal, aquela obsessão por uma mulher, que não lhe saía da cabeça, ao ponto de relegar a memória da falecida esposa. Tentou concentrar-se na sua vida e no sofrimento da sua filha, mas uma semana depois não resistiu a telefonar para o hospital e sentiu uma estranha alegria, quando lhe disseram que aquela jovem tinha saído do coma e que estava a recuperar. 
Convencido que o seu desejo de saber que estava bem, era apenas a vontade de libertar o remorso, pelo seu desejo inicial de vingança, pôs um ponto final naquela estória e dedicou-se de corpo e alma ao trabalho e à filha, que teve de tirar do infantário, pois com a morte da mãe, ela regredira imenso, tinha começado com pesadelos, voltara a fazer xixi na cama, fazia grandes birras e no infantário tornou-se agressiva com os coleguinhas. Com a ajuda da avó a criança ficou um pouco mais calma, mas os pesadelos persistiam.
O homem, quase tinha conseguido esquecer a imagem daquela mulher, quando uma das suas empregadas se despediu e ele pediu ao centro de emprego, candidatas para a substituição. E adivinha quem era, a primeira candidata a aparecer para a vaga.  Ele ficou impressionado. Como era possível, que entre centenas de mulheres inscritas no Centro de Emprego, logo lhe tinham mandado aquela?
Seria obra do destino? Ele não sabia. Mas vê-la ali, na sua frente, despoletou nele um imenso desejo de a conhecer melhor. Saber que tipo de pessoa era na realidade.  A avó da menina, esperava outros netos e tinha de se ausentar em breve. Ofereceu-lhe o lugar de ama da sua filha. Um mês decorrido a menina, deixara de ter pesadelos, e estava de novo feliz. E ele descobriu que ela era uma mulher maravilhosa e apaixonou-se por ela.
As lágrimas rolavam silenciosas pela face de Beatriz. A vida tem estórias que o mais louco dos romancistas não se atreveria a escrever.
Ele abraçou-a com carinho. Com os lábios secou as suas lágrimas, como se ela fosse uma criança.
- Pára de fugir e de te sentires culpada! Primeiro, porque não eras tu quem conduzia o carro naquele dia fatídico, segundo, porque perdeste infinitamente mais do que eu. Os caminhos do destino são sem dúvida misteriosos e eu acredito que os nossos tinham que se encontrar, para seguirem juntos daqui para a frente.


OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIX


-Senta-te. Vou contar-te uma estória. Outrora dois jovens, enamoraram-se e casaram. Ela era professora, ele publicitário. Ele era jovem e estava muito apaixonado. Ela tinha dois amores. Estava tão apaixonada por ele, como pela sua carreira. E a vida de professora não é fácil no nosso país. Durante anos foi colocada em escolas longe de casa, passava a semana toda fora, só vinha a casa aos fins-de-semana, ou de quinze em quinze dias. Ele sentia a solidão, desiludia-se, não era aquela a vida com que tinha sonhado. O amor arrefecia e começava a questionar-se. Não estava preparado para viver uma vida inteira assim. Então decidiu que era tempo de discutir a relação e decidir o futuro. Conversaram, ele não queria continuar a viver daquela maneira, impôs condições, e ela compreendeu as suas razões. Deixou o ensino oficial, e aceitou ser professora no ensino particular num colégio perto de casa. Pouco tempo depois ficou grávida. Teve uma menina. Durante quase dois anos esteve sem trabalhar, mas não era a mesma. Definhava dia a dia. Ela não sabia viver longe das aulas e do ensino. Penso que se tivesse de escolher entre a profissão e o casamento, optaria pela profissão. Procurou um infantário para deixar a filha e retornou à escola. Naquele fatídico dia de Dezembro, ela vinha de uma reunião por causa das notas, do primeiro período quando foi abalroada por um carro em alta velocidade, e contramão. Teve morte imediata. O marido ficou doido de dor e raiva. Procurou saber quem tinha provocado o acidente, jurou vingança. Soube que o condutor do outro carro morrera igualmente no local. Mas ele não ia sozinho. Ia uma mulher com ele. Cheio de ódio, o homem procurou essa mulher. Só pensava em vingança. Foi ao hospital, fez-se passar por irmão dela, conseguiu informações. Disseram-lhe que chegara em perigo de vida com uma hemorragia interna, que tinha perdido o bebé, que  fora submetida a uma cirurgia de urgência, estava em coma e com prognóstico reservado. Atendendo ao facto de ter dito que era irmão dela, deixaram-no vê-la por breves minutos. A visão do sofrimento daquela mulher, de rosto lívido, o cabelo espalhado na almofada, os cateteres, a sonda, a máquina de suporte de vida, toda aquela parafernália de tubos que a envolviam, aplacou a raiva do homem. Saiu dali desorientado, sentindo-se um monstro. O que tinha pensado era uma insanidade. Aquela mulher perdera, além do marido, um filho, e podia até morrer. Pensou, que tamanho teria o seu sofrimento se perdesse a sua filha e a raiva que o consumira, transformou-se em compaixão. Decidiu esquecer a mulher, dedicar-se à filha, tocar a vida para a frente.  Porém nos dias que se seguiram, não conseguia apagar da memória a visão dela abandonada e exangue no leito do hospital. Por isso uns dias depois voltou lá.
 Calou-se por momentos. Ela olhava-o espantada. Não conseguia articular palavra.


18.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVIII







Sonhava que estava casada com César e estavam de férias os três, num local paradisíaco, onde César a fizera sentir-se mulher, em toda a plenitude da sua paixão. Acordou sobressaltada com a certeza de que estava irremediavelmente apaixonada. 
Tentando esquecer passara a manhã, nas limpezas. Depois tomara banho e almoçara. Arrumara a cozinha, e preparava-se para ir passar a ferro, a roupa da semana, quando a campainha tocou. Perguntou quem era. A resposta deixou-a desconcertada. Olhou para si. Tinha vestido umas calças de ganga justas, e um top azul sem mangas. O cabelo comprido, apanhado no alto da cabeça, e os pés descalços. Adorava andar descalça, e em casa durante o tempo quente, andava sempre assim. Não estava propriamente vestida para receber visitas, mas não podia deixá-los à espera enquanto se arranjava. Abriu a porta e ficou surpresa. Não esperava encontrar César sozinho.
-Olá. Posso entrar?
- E a Matilde?
-Ficou em casa da tia com os primos e a avó. Tenho que ir buscá-la para me deixares entrar?
- Entra – disse desviando-se para ele passar, - pensei que vinham os dois.
- Não me atendeste o telefone ontem. Disse-te que tínhamos de falar, e parece que não me levaste a sério. E como precisamos fazê-lo, prefiro assim, tu e eu sem interrupções.
Não respondeu. Voltou-lhe as costas e entrou na sala. Foi até à janela. Não queria olhar para ele. Tinha a certeza que estaria mais corada que pimentão maduro. Disse:
-Não há o que falar. Tu e eu, não temos nada em comum, a não ser o facto de sermos os dois viúvos, e o amor que temos pela Matilde.
Aproximou-se dela, rodeou-lhe a cintura e fez com que se virasse. Os olhos cinzentos mergulharam nos dela.
-És capaz de repetir isso, olhando-me assim? É claro que não, - disse quando ela desviou o olhar. Sei que te sentes tão atraída por mim, como eu por ti.
- Atração, não é amor. Os desejos do corpo, não são sentimentos. E não se pode pensar numa vida em comum baseado nisso.
- É claro que não. Mas a atração e o desejo, fazem parte do amor que sinto por ti.
-Não acredito, que se esqueça um grande amor, em tão pouco tempo. Berta, disse que amavas muito a tua mulher.
-É verdade. Amava, no passado. Laura está morta e o passado, enterrado com ela. Resta uma terna recordação, que me vai acompanhar toda a vida. E uma filha que muito amo. Tu e eu estamos vivos.
Inclinou-se para a beijar. E estava quase a fazê-lo quando ela colocou a mão espalmada entre os dois e disse quase num sussurro.
- Não pode ser! Eu sou culpada da morte dela!
E sem se poder conter, escondeu o rosto entre as mãos e deu livre curso às lágrimas.
O homem não pareceu surpreendido. Esperou em silêncio que se acalmasse. Depois pegou-lhe na mão e puxou-a para o sofá.



Quero agradecer a todos os amigos que vieram ao Sexta durante a minha ausência. Que acompanharam esta estória embora alguns já  se mostrem cansados, pelo que ver se me lembro de deixar as próximas estórias mais curtas. De qualquer modo a história está quase a acabar, estando prometida para amanhã uma surpresa.
Mais uma vez  Muito obrigada a todos


17.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVII




Quase nem jantara. Não conseguia pensar noutra coisa, que não na conversa dessa tarde. Há seis meses atrás quando saíra do hospital, era capaz de jurar, que não queria saber de homens nem de relacionamentos amorosos, nos próximos anos. Três meses depois, conheceu César e a menina. E naqueles três meses as barreiras foram caindo. E não podia ser. É verdade, que a simpatia dele, a gentileza com que a tratava, a confiança que punha nela, foi calando fundo no seu coração. Que já se surpreendera a pensar que pareciam uma família, e como seria bom se isso fosse realidade. Mas não sonhava que ele estivesse interessado nela. E francamente custava-lhe a crer, no contrário. Se era apaixonado pela mulher, e se o acidente fora pouco antes do Natal…
Não podia ser. O mais certo, era ter pensado, que dado o carinho que ela e a filha partilhavam, seria a pessoa certa para fazer o papel de mãe da menina.
Mas isso não chegava para um casamento feliz. E ela já tinha a sua quota de experiência, num casamento falhado.
Tão perdida estava nos seus pensamentos que se assustou com o toque do telemóvel. Era a mãe.
- Olá mãe. Aconteceu alguma coisa?
- Saudades, filha. Eu sei que estás a trabalhar há poucos meses, não terás férias este ano, mas não podias vir passar connosco um fim-de-semana?
- Não sei, mãe, talvez consiga ir uns dias em Agosto. Para a semana digo-te alguma coisa. Dá um beijo ao pai, por mim.
Desligou. Ainda tinha o aparelho na mão, quando tocou de novo. Nem queria acreditar. César? Nunca lhe ligara, sem ser quando estava com a menina.  Não atendeu. Falariam na Segunda-feira. Tinha que ordenar os seus pensamentos, analisar sentimentos. E depois? Dependendo do que decidisse teria que lhe contar quem ela era. Não podia, nem queria ter tal segredo a vida toda. Nunca seria feliz. Porque a vida havia de ser tão complicada? Porque tinha que arranjar trabalho exatamente naquela família? E porque é que ele havia de ser tão interessante? Talvez devesse despedir-se. Mas o pensamento de deixar Matilde, era insuportável. Era como se perdesse de novo o filho. Clara tinha razão. Ela bem que a avisara, que estava a transferir para Matilde, o amor que não pudera dar ao bebé.
Doía-lhe a cabeça de tanto pensar.




Mais logo estarei de volta se Deus quiser, e hoje mesmo visitarei as "vossas casas" 
Agradeço do coração, a todos os que tenham passado por aqui, nestes dias da minha ausência.

16.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVI






Os três dias passaram sem nada de relevante, a não ser a secreta alegria que Beatriz sentiu quando ele regressou. E Julho terminou, numa Sexta-feira, e nessa noite César disse-lhe para ficar mais um pouco precisavam conversar.
- Consegui entregar, o último trabalho que tinha para este mês. Em Agosto vou fechar a agência, e vou de férias. Gostaria muito que viesses connosco, a Matilde gosta muito de ti, vai sentir a tua falta. E …eu também, - concluiu com um entoação que a fez enrubescer até à raiz do cabelo.
Engoliu em seco. Não podia. Cada dia se sentia mais atraída por ele, e viam-se tão pouco, como podia passar um mês na sua companhia?  Sem deixar de a olhar, como se exigisse nesse olhar uma resposta, aproximou-se dela.
- Podemos contar contigo?
- Será uma mudança do meu local de trabalho ?- Perguntou tentando impôr distâncias.
-Tens alguém que o impeça? Um namorado? – Perguntou ele, como se não tivesse percebido.
- Não. Sou viúva!
Não mostrou qualquer surpresa. Como se o soubesse. Ela não lhe tinha dito. E o cartão de cidadão não faz referência ao estado civil. Teria mandado alguém investigá-la? Decerto que sim. Era lógico, doutra forma como se explicaria que confiasse tanto nela? 
- E então? Os dois somos maiores, não temos ninguém a quem prestar contas. Deves ter reparado que me sinto atraído por ti. Vocês, mulheres, percebem isso. A minha filha já te conquistou. Será que me vais dar oportunidade de fazer o mesmo?
Aquilo era uma declaração? Se não era, parecia. Sentiu que lhe faltava o chão.
- Não pode ser. Não pode haver nada entre nós…
- Porquê? Há alguma razão lógica para isso?
Tinha levantado um pouco a voz, e Matilde que brincava com o seu ursinho, veio agarrar-se às calças do pai.
- Por favor César, não é o local nem a hora para esta conversa. Está na hora da Matilde jantar. E também se está a fazer tarde para mim.
Ele pegou na menina ao colo.
- Porque não jantas connosco? Continuamos esta conversa depois. É importante. Depois chamo um táxi para te levar a casa.
-Não. Falamos na Segunda.
E pegando na mala saiu apressada, como se fugisse dos seus próprios sentimentos.