Seguidores

2.12.21

CONTOS DE NATAL - O PRESÉPIO DE PACO - FINAL



Certo dia, Paco enfeitou a cabana dos Gonzales com hera e arranjou, ninguém sabe onde,

 uma manjedoura. Juanita, a burra, teve de ser presa porque estava constantemente a comer

 a hera. De um pedaço de cartão cortou uma estrela que pregou por cima da porta da cabana.

 Em seguida, Paco lavou-se minuciosamente como nunca se lavara ao longo do ano,

 esfregou todas as nódoas do poncho e escovou o seu belo chapéu.

 — O Paco vai à procura de noiva — troçou a mãe. Mas ele limitou-se a rir.

 Fez das tripas coração e foi à casa do patrão, em frente. Nunca antes estivera em

  casa de Don Alfredo. Bateu timidamente à porta grande. Carlos, o velho criado, veio abrir.

 Ergueu as sobrancelhas, admirado, e olhou para Paco.

 — Preciso de falar com Don Alfredo — disse o rapaz. Como Carlos nada dissesse, Paco

 tirou meio peso de prata que guardara do dinheiro da colheita. Mostrou a moeda e meteu-a

  na mão do criado.

 — É urgente, Carlos. Muito urgente.

 Carlos virou-se e o rapaz seguiu-o pelo átrio grande e fresco.

 Paco só conhecia algo igual das histórias de encantar. O chão estava coberto de tapetes,

  as paredes decoradas com quadros e do teto caía um lustre com milhares e milhares de

 gotas de cristal brilhante. Carlos fez sinal ao rapaz para esperar e desapareceu por trás

 de uma imponente porta escura. Pouco depois, Don Alfredo veio ao átrio e falou asperamente

 a Paco.

 — Isto são modas novas? Vens a nossa casa sem ser chamado e nem tiras o chapéu da cabeça!

 Paco arrancou imediatamente o chapéu e disse, a gaguejar:

 — Eu gostava… eu queria perguntar-lhe… é que eu preciso de um boi, Don Alfredo, com urgência.

 Don Alfredo riu alto e exclamou:

 — Ouçam isto! O rapazinho quer um boi. Como se eu desse um boi, assim, por dá cá aquela palha.

 Abriram-se duas portas ao mesmo tempo e Doña Clara e Doña Esmeralda, a mulher de

 Don Alfredo, foram ver o que se estava a passar no átrio.

 — Ele quer um boi! — exclamou Don Alfredo a rir. — E porque não uma vaca ou uma manada

  inteira?

 — Um boi só, Don Alfredo, por favor. Mas tem de ser um animal forte. Não quero o boi

 de oferta. Só queria pedi-lo emprestado por uma única noite.

 As gargalhadas de Don Alfredo calaram-se.

 — Emprestado? Um boi? Só por uma noite?

 Paco entusiasmou-se e desatou a falar:

 — Quero construir um presépio como Doña Clara contou e o meu burro vai lá estar,

 como Doña Clara contou, e Maria e José, como Doña Clara contou, e também um boi, como…

 — Doña Clara contou — disse Don Alfredo, olhando para a tia, ironicamente. Mas esta

  limitou-‑se a encolher os ombros.

 — Para se poder imaginar melhor aquilo do nascimento em Belém.

 Paco disse a última frase muito baixinho.

 Don Alfredo olhou para o rapaz com um olhar severo. Paco dirigiu-se aos poucos e às

 arrecuas para a porta de entrada.

 — De dia para dia, estes Pacos andam a tornar-se cada vez mais atrevidos — retumbou

Don Alfredo.

 Doña Clara disse então:

 — Ficas prejudicado, querido sobrinho, se fizeres a vontade ao rapaz? Não vais ficar

  mais pobre por isso e, por uma noite, ele vai sentir-se rico como um rei.

 Don Alfredo ainda hesitou, mas acabou por dizer:

 — Oh, por mim… que seja! O Natal está para breve.

 O resto foi muito fácil. Maria Simancar era só um pouco mais velha do que Paco.

 Ia fazer de mãe de Deus porque se chamava Maria e porque tinha uns longos cabelos

  pretos ondulados. Maria queria trazer o irmãozinho, um bebé rechonchudo.

 — Porque ele quase nunca chora — disse.

 Com o São José é que foi mais difícil. Paco teve de convencer Fernando e até prometer-

-lhe uma garrafa de aguardente de agave até ele se dispor a fazer de marido de Maria.

 — Os pastores vão vir… — disse Paco, esperançado.

 — E o anjo? — perguntou-lhe a mãe. Paco hesitou um pouco mas depois disse:

 — Tu, mãe, foi o que pensei.

 O pai riu tão alto, que até o papel que colara sobre o vidro partido se rasgou.

 — Um anjo redondinho de cem quilos — disse em voz muito alta e, de tanto rir, até ficou

  sem poder respirar.

 — Não tenho nenhum vestido branco, Paco — disse a mãe, triste. — Os anjos têm de brilhar.

 — Mas tens uma voz maravilhosa, mãe. Podias ficar atrás da casa dos Gonzales.

 Depois cantas o que todos os anos costumas cantar: “Aleluia, paz e aleluia!”

 O pai ainda se ria, o que irritou a mãe, que disse:

 — Vou fazer isso, Paco.

 À noitinha, Don Alfredo mandou o boi. Um pastor ainda novo trouxe-o à arreata.

  Quando o sol se pôs, saíram quase todos das suas casas e, conversando e rindo,

 dirigiram-se à cabana dos Gonzales. A porta e as janelas estavam abertas de par em par.

  Maria estava sentada em frente à manjedoura e deitara o bebé nas folhas de milho.

  O boi e o burro estavam pacificamente deitados no chão e Fernando, encostado a um cajado,

 em pé, atrás de Maria.

 Paco acendeu uma lanterna. Era uma cena impressionante, a que se via dentro do círculo

  de luz. Todos se calaram e ficaram a olhar. Mais tarde, ninguém soube dizer quem começou,

  mas, de repente, alguém ofereceu um melão maduro, um outro colocou três cestos de milho

 em frente à manjedoura, uma mulher ofereceu uma fralda quase nova…Um jarro de leite e

 um pão fresco foram também entregues na cabana.

 No preciso momento em que Don Alfredo, Doña Esmeralda e Doña Clara chegaram, a mãe

 de Paco, atrás da cabana, começou a cantar o Aleluia com uma voz límpida. Arrefecera

 e Don Alfredo e as duas senhoras tinham-se embrulhado em mantas largas e compridas.

 Abriu-se um caminho à sua frente e entraram os três na cabana dos Gonzales.

 Passando por debaixo da estrela.

 — Ui! — disse Doña Esmeralda. — Não cheira nada bem aqui dentro.

 Tirou da bolsa um frasquinho de perfume. Mas este escorregou-lhe das mãos e

 partiu-se no chão. Um aroma maravilhoso encheu então a cabana. Don Alfredo olhava

 em volta à procura de Paco. Entretanto escurecera, e não conseguia vê-lo à luz fraca

 da lanterna. Colocou pois uma moeda junto das prendas. Brilhava como ouro.

 Doña Clara tinha encontrado Paco.

 — Para que tudo seja como deve ser — segredou-lhe — trouxe uma bolsinha com mirra.

 E, por um instante, ela foi um dos Reis Magos.

 E por algum tempo houve uma grande paz na cabana dos Gonzales.

 Don Alfredo e a mãe, Doña Esmeralda, Doña Clara e Maria, até o próprio Fernando rabugento,

  nenhum deles era pobre ou rico, senhor ou trabalhador, senhora rica e elegante ou mulher

 índia pobre. Naquele instante, todos eram simplesmente homens e mulheres.

 A luz da lanterna apagou-se. Quando começaram a sentir o frio da noite, todos partiram,

 uns para as suas cabanas, outros para a casa senhorial. No entanto, a partir daquela

 noite em que lhes fora dado antever um outro mundo, as pessoas da aldeia passaram

  a contar, até aos dias de hoje, a história de Paco e do seu presépio.

 

 

 

Willi Fährmann

Ein Stern ist aufgegangen

Würzburg, Arena Verlag, 2003

(Tradução e adaptação

 

Recolhida AQUI

 

1.12.21

CONTOS DE NATAL -- O PRESÉPIO DE PACO - PARTE I




 Depois que os Gonzales foram para a cidade, o casebre ficou vazio. Não era um casebre estável, não; era antes um barraco inseguro. Quando o vento soprava forte das montanhas, as tábuas soltas das paredes batiam e o telhado de latão ameaçava voar. Mesmo assim, era um casebre.

Paco morava com os pais a poucos passos do casebre dos Gonzales. Tinha dez anos e era bastante alto para a idade. Na colheita do milho, Don Alfredo tinha-lhe pago metade do salário de um homem. Muito pouco, achava Paco, pois ele trabalhara como um homem inteiro. Mas o que Paco pensava, pouco interesse tinha para Don Alfredo.

Paco tinha dado à mãe o seu salário, todas as noites. O salário quase todo. Mas o dinheiro escoava-se por entre os dedos da mãe.

— É sempre pouco — suspirava, ao voltar da loja de Don Alfredo com algumas coisitas.

— E o dinheiro acaba sempre em Don Alfredo — dizia Paco. — Ele dá e volta a tirá-lo.

Por vezes, Paco também pensava em fazer como os Gonzales, fugir da Hacienda e ir para a cidade. Mas da vida deles lá, não ouvira nada de bom. Os seus amigos Pedro e Alberto davam-se por contentes quando conseguiam limpar os sapatos aos turistas em troco de umas parcas moedas e o pai Gonzales ainda não tinha encontrado trabalho.

E havia ainda Juanita, a burra velha que Paco herdara do avô que falecera no ano anterior. A burra e o maravilhoso chapéu de palha de abas cargas tinham sido a sua parte da herança. O avô também não tinha muito mais para deixar, bem pelo contrário. Na loja de Don Alfredo até ficara com dívidas. Mas Don Alfredo, por vezes, também sabia ser generoso. E riscara simplesmente a dívida. No entanto, observou a burra com atenção mas, como se disse, Juanita era velha e o pelo parecia comido pelas traças.

— Se queres ficar com o animal, por mim, fica — dissera Don Alfredo a Paco.

Depois de dar de comer a Juanita, Paco alojou a burra no casebre dos Gonzales e Don Alfredo não lho proibiu. Sim, às vezes, Don Alfredo era mesmo generoso. Mas o melhor era que tinha autorizado Paco a ir visitar Doña Clara.

Doña Clara era a velha tia de Don Alfredo.

Teimara em ensinar os filhos dos trabalhadores das barracas a ler e a escrever. Paco, contudo, tinha de trabalhar o dia inteiro nos campos e Doña Clara discutira com Don Alfredo por causa disso.

— Paco é o meu aluno mais aplicado — dizia ela. — Já tem dez anos, mas eu queria que ele pudesse ficar na escola. É inteligente.

— As cabeças inteligentes são perigosas, tia — respondeu Don Alfredo. — Primeiro aprendem a ler e a escrever, depois querem um salário maior e, por fim, um pedaço de terreno.

Mas Doña Clara acabara por impor a sua vontade e Paco fora. Do que ele mais gostava na escola era das histórias de Doña Clara. Quando contava, os olhos tornavam-se-lhe grandes e redondos e as crianças ficavam caladas como ratos. Uma das suas histórias foi a que deu origem àquela noite maravilhosa da qual, anos mais tarde, muita gente na Hacienda ainda falava.


********

Doña Clara contara a história de Belém, mas não ficara atrás da secretária. Curvada em frente às crianças, deslocara-se de um lado para o outro fazendo de São José. Depois erguera-
-se e fizera de estalajadeiro a expulsar Maria e José rudemente e com má cara. As crianças tinham gostado muito, principalmente quando fez de anjo. Em pé, de braços abertos, anunciando a boa nova. A cara, radiante, resplandecia como a de um anjo. E quando fizera de boi e de burro e gritara “i-ó”, as crianças tinham rido. Mas a alegria só contagiara realmente todos quando ela, em silêncio e transformada de repente numa jovem, embalava nos braços o Menino Jesus.

Doña Clara conseguia ser tudo: Maria e José, o anjo, os pastores, os animais e os três Reis Magos. Só quando Don Alfredo, inesperadamente, lá ia dar uma vista de olhos, é que tornava a ser a severa professora Doña Clara.

Ora foi precisamente esta história do nascimento de Jesus que se alojou na cabeça de Paco e que ficou a chocar dentro do rapaz …Passado algum tempo, saíram a voar uns passarinhos às cores…


CONTINUA AMANHÃ


30.11.21

POESIA ÀS TERÇAS - PORTA DE ÁGUA -- LÍDIA BORGES

 

                                      Richard Emil Miller
                           Pintor norte americano (1875-1943)



PORTA DE ÁGUA

 Um espelho é uma porta de água.

A parede onde se encosta

está frequentemente perto da ficção.

Podes então mergulhar, 

encetar as viagens  que quiseres.

 

Pode acontecer no regresso

depares com a solidez da parede

atrás da qual o espelho te espera.

Não para te revelar o mistério

das coisas indecifráveis que buscavas

mas o engano das coisas decifráveis

de que fugias.

 

É por aí que às vezes se perde o coração.

 

Lídia Borges


AQUI,  podem encontrar uma pequena biografia da poeta. Mas Lídia Borges, também está  na blogosfera.

AQUI, poderão encontrar o seu blogue.


29.11.21

MENSAGEM PARA OS AMIGOS






 Amigos, a minha participação no Sexta dificilmente voltará antes do próximo ano, pois como é habitual durante o mês de Dezembro serão publicados apenas contos de Natal que vou lendo durante o ano e programando para o próximo mês. Espero que gostem. Eu continuarei a visitar-vos sempre que a saúde e os exames me deixem. E Tintinaine eu sei que os zumbidos são próprios da idade, mas o que me desespera é que os meus mais parecem buzinas e são sempre acompanhados por subidas de tensão arterial. 

28.11.21

DOMINGO COM HUMOR


 

Após campanha no interior profundo do país, o Primeiro Ministro regressa à capital, a meio da noite. A dada altura, o motorista não consegue evitar e atropela um porco. A viatura para e o Primeiro Ministro manda o homem à quinta que se encontrava ali perto para saber se o porco pertencia à quinta, informar do sucedido e perguntar se havia alguma coisa que se pudesse fazer para compensar o dono. Meio a medo, o homem lá vai.

Passada mais de uma hora, o motorista regressa, com o nó da gravata desfeito, camisa por fora com uns botões desapertados, charuto no canto da boca, garrafa na mão, marcas de batom na face e ar nitidamente relaxado. Diz o Ministro:
- Então?! Tanto tempo?! Que se passou?

O motorista:
- Olhe, foi fantástico! O dono convidou-me logo para entrar. Estavam prestes a jantar, de modo que a senhora me serviu e eu lá jantei. No fim a filha deles arrastou-me para o quarto dela e fizemos amor. Quando saí do quarto os pais dela estavam à espera. A senhora ofereceu-me esta garrafa e o homem meteu-me este charuto na boca. Foi fabuloso!

O Primeiro-ministro ainda boquiaberto pergunta:
- Ui… Olha lá, o que é que tu lhes disseste, para eles fazerem isso?

E respondeu o motorista:
- Eu só disse o que me mandou dizer! Cheguei lá e disse: Eu sou o motorista do Primeiro Ministro e acabo de matar o porco…






Joãozinho está à luta na rua com um menino que deveria ter metade da sua idade. Um homem que passava por eles aproxima-se e separa-os.
- Não tens vergonha? – Diz ele dirigindo-se ao Joãozinho.
- Bater num menino bem menor do que tu? Seu covarde!!

E o Joãozinho respondeu:
- O senhor queria o quê? Que ficasse à espera que ele crescesse?



Na aula de biologia, o professor pergunta:
- Joãozinho, quantos testículos nós temos?

Responde o Joãozinho sem pestanejar:
- Quatro Sr. Professor.

Espantado o professor:
- Quatro? Você está doido?

E explicou o menino:
- Bem… Pelo menos os meus dois eu garanto!

27.11.21

PORQUE HOJE É SÁBADO



Andrea Bocelli & Matteo Bocelli - Perfect Symphony - Cud życia   koncert...



Amigos, continuo a fazer exames médicos e com problemas. Um dos que mais me atormenta é um zumbido nos ouvidos que em certos dias atinge uma tal intensidade que chego ao fim do dia completamente desaustinada. O audiograma e o outro exame especial estão marcados para 10 de Dezembro. Bom fim de semana para vós.

26.11.21

JOANA

( Nota, esta historia foi escrita e publicada em 2013. Na altura em dois capítulos. Reedito-a agora num só capítulo.)

De súbito o silêncio no quarto foi quebrado por um entrecortado gemido. Logo de seguida, Joana acordou. Às escuras sentou-se na cama, tentando não acordar o homem que dormia a seu lado.

Passou a mão pela testa, onde gotas de suor atestavam a aflição do pesadelo que acabara de ter. Suspirou. A luz da lua entrava pela porta semiaberta da varanda. Estendeu o braço, apanhou o roupão de cetim, e vestiu-o. Enfiou os chinelos e dirigiu-se à varanda. Sentia-se sufocar. Ficava sempre assim quando tinha aquele pesadelo. Na varanda olhou para baixo. A rua estava deserta.
 
Olhou o céu e pensou vagamente, se o céu da sua terra seria assim.  Ouvia falar muito da beleza das noites de África. Mas ela não se lembrava. Também pudera, tinha dois anos quando se dera a revolução dos cravos e logo depois o pai que era militar, regressou. Por isso Joana não se lembrava da sua terra. E a bem da verdade só muito raramente se lembrava que não era de Lisboa. 

Lançou um breve olhar para o quarto. Lá dentro o marido dormia tranquilamente. Joana suspirou e pensou que era melhor assim. Ela já tinha a noite estragada, não remediava nada se ele acordasse. Na verdade, seria até pior; pois a solicitude do marido só ia fazê-la sentir-se mais inútil, mais culpada.

 Era uma bonita mulher. Quase beirando os quarenta, tinha uma aparência de menina que a fazia parecer bem mais nova. Corpo bem modelado, pele morena. Os cabelos castanhos-claros tinham reflexos dourados que contrastavam com os olhos escuros. Era uma bonita mulher, mas tinha um problema.  Era estéril. O seu ventre, era terra árida, que não dava fruto. Esse era o problema que lhe roubava o sono.

Joana, - recordou como conheceu o marido. Tinha acabado o curso de Administração. Durante os estudos nunca conheceu ninguém que verdadeiramente lhe interessasse. Acabado o curso, e quando procurava uma empresa à qual se candidatara, cruzou-se com um garboso polícia, que lhe chamou a atenção. Ainda hoje não sabe se foi o seu jeito, se o fascínio da farda que lhe despertou a atenção. Uma semana depois, tinha-o à sua espera. Sem a farda, quase nem o reconheceu. Mas falaram-se e apaixonaram-se. Foi tudo muito rápido. Menos de um ano e casavam-se, numa bonita cerimónia numa aldeia lá para os lados da serra da Estrela, donde os seus pais eram naturais.

Tinham combinado que durante um ano não teriam filhos. Era um tempo de conhecimento e namoro que se concediam. E foi um ano de sonho. Ricardo era um homem apaixonado, bem-humorado, além de  partilhar as tarefas caseiras.

Aquele ano passou a correr e logo, logo estavam a fazer planos para o nascimento do primeiro filho. Mas o tempo foi correndo e o filho não vinha.

Desesperada Joana procurou ajuda médica. Ricardo acompanhou-a, e fez com ela toda a panóplia de exames que o médico pediu. E quando os resultados chegaram, veio a confirmação de que ela era estéril. O médico explicou-lhe que talvez não fosse irremediável. Afinal agora havia uma série de medicamentos novos que já tinham resolvido muitos casos como o dela. Joana sentiu que alguma coisa morria dentro dela. Desde pequena que sonhava ser mãe. Sentir dia a dia uma pequena vida a crescer dentro de si. Sentir o fruto do seu amor nos braços.

Quis morrer juntamente com os seus sonhos. Nessa altura Ricardo impôs-se com todo o seu carinho a sua solicitude, e a sua esperança.

"Deixa lá, somos jovens podemos esperar. Desses tratamentos, algum há de resultar, e um dia ainda teremos o nosso bebé" dizia-lhe enquanto tentava esconder o seu próprio desânimo.

E já lá iam dez anos. Dez anos de luta, de tratamentos, de esperança, e desespero. Um dia, um outro médico falou-lhes em inseminação artificial. Apesar de ser caríssimo avançaram para a inseminação. Não resultou à primeira. Raramente resulta - diziam-lhes familiares e amigos. É preciso insistir. 


Todavia  Ricardo decidiu que não se iriam submeter a uma segunda. Era por demais dolorosa, aquela espera, aquele morrer da ilusão.

Foi pouco depois que começaram os pesadelos da Joana. No sonho ela via-se no cemitério a assistir ao funeral do marido. E acordava desesperada. Aconselhada por uma amiga, consultou um psiquiatra. Que lhe disse, que o que ela tinha era um medo inconsciente, de que devido ao facto de não ser mãe, o marido a deixasse. Esse medo era trazido à superfície durante o sono, com o pesadelo da morte do marido. Porque, - disse-lhe o psiquiatra, - a morte era a separação que ela temia. Aconselhou-lhe uma conversa franca com o marido e uma possível adoção.

Joana, não se importava de ter um filho adotivo. Era uma criança a quem ela daria todo o imenso amor que lhe ia no peito. Porém pela primeira vez, Ricardo não esteve do seu lado. Ele negou-se redondamente a adotar uma criança. Disse que se Deus não quisera dar-lhes um filho, que não iam afrontar a Sua vontade, que a amava da mesma maneira e outras coisas que nem se lembra. E desde então voltaram os pesadelos.

Limpou as lágrimas e voltou ao quarto, enquanto num recanto qualquer da memória, ouvia a voz da avó recitando uma passagem da Bíblia.
-Árvore que não dá fruto, corta-se pela raiz...


FIM

Maria Elvira Carvalho

24.11.21

A CORAGEM DE DIZER: BASTA!




A mulher que caminhava pela praia naquele entardecer, era muito bonita, mas trazia nos olhos uma tristeza, que parecia impossível de esconder. Ali perto, duas crianças brincavam na areia, enquanto a mãe sacudia a toalha e a metia no saco, dando por findo aquele dia de praia.

Ela porém, nem se apercebia do que se passava à sua volta. Parecia perdida num outro mar, que não aquele que suavemente lhe beijava os pés. Um mar  de recordações.

Fora num fim de tarde assim, que conhecera Eduardo. 

Ela caminhava pelo parque da cidade, olhando embevecida as crianças que brincavam no escorrega, fazendo grande algazarra. As flores, impregnavam o ar com um intenso, mas agradável aroma.

 Rita, ia tão absorta, que não viu aquela raiz, na qual foi tropeçar, saindo projetada para...os braços dele. Sim porque fora ele. que por ali passava e a segurara, quando se apercebeu que ela ia cair. 

Rita sentiu o olhar intenso e trocista do homem, e sentiu-se envergonhada, mas coisa esquisita, sentiu uma estranha sensação de felicidade. Agradeceu sentindo-se corar sob o olhar masculino. 

Eduardo pelo contrário parecia divertido com a sua atrapalhação. E depois de algumas palavras que ela quase não escutou, combinaram encontrar-se no dia seguinte. Naquela noite, o sono tardou para Rita.

 Ela não conseguia esquecer o desconhecido do parque. E só nessa altura se deu conta que tinha esquecido de perguntar o seu nome. Que faria ele no parque? Passaria ali por um acaso, e a vida teria caprichado naquele tropeço, para que se conhecessem? E se assim era qual iria ser o seu papel na vida dela? Era bonito, pensava ela. E dava voltas na cama, ansiando pelo nascimento do novo dia.

 Pobre Rita! Se ela soubesse o quanto ia sofrer por aquele homem, teria sufocado a sua lembrança, e nunca teria voltado ao parque, para o encontro. Mas ela era muito jovem, tinha a cabeça cheia de sonhos românticos, e ansiava pelo amor.

No início Eduardo parecia ser o homem dos seus sonhos. E o que começou com uma amizade, não tardou em transformar-se numa intensa paixão. Ela vivia cada beijo, cada instante, sentindo-se a mulher mais feliz e mais amada da terra.

Casaram num dia de sol em pleno mês de Maio. Eduardo não quis casar na igreja, e isso foi uma pequena nuvem a ensombrar a felicidade de Rita, cuja fé lhe pedia a bênção no altar. Porém em breve essa contrariedade deixou de ter significado, ultrapassada por outras bem maiores.

Três dias, durou  a lua de mel. 

Três dias como o Carnaval. Carnaval! Estranha associação, pensava enquanto continuava caminhando pela praia solitária.
Mas a verdade é que ao fim de três dias, a ternura dera lugar à prepotência, os beijos, às palavras duras, e sarcásticas. Menos de um mês depois, começaram as ameaças. Começou a pensar, que o homem com quem se casara, era um desconhecido, que usara uma máscara, pela qual ela se apaixonara. Como fora possível iludir-se assim?
 
Nunca mais saíram juntos. Ele saía depois do jantar e voltava tarde da noite, algumas vezes dormia fora, e chegava a casa a cheirar a perfume barato.  

Mas apesar da sua juventude, Rita era uma mulher de coragem e substituído o amor pela desilusão, decidiu pôr um ponto final no casamento.  
E naquela  tarde, passeava junto ao mar, a sua falsa liberdade.
Falsa sim, porque se o divórcio a libertara do casamento, não levara do seu peito, a desilusão e a dor, nem do seu cérebro a amarga recordação do que fora a sua vida durante o casamento.



23.11.21

POESIA ÀS TERÇAS - O AMOR - VLADIMIR MAIAKOVSKI

 


O Amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.


Vladimir Maiakovski    


Biografia AQUI