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23.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE III




Isabel poisou o prato em cima da mesa da cozinha, retirou o babete à menina e pegando-lhe ao colo tirou-a da cadeira.
- Agora vamos mudar a fraldinha, e a Matilde  vai fazer ó-ó.
Levou a menina para o quarto, mudou-lhe a fralda e deitou-a. Fechou a persiana e saiu.
Lavou e arrumou a loiça do almoço, separou a roupa branca da escura e pôs a máquina a lavar.  Finalmente sentou-se um pouco no sofá. Estava cansada. Fechou os olhos e deixou-se levar pelas lembranças.
Isabel tinha dez anos, quando o pai falecera, vítima de atropelamento, quando regressava a casa, depois de um dia de trabalho, deixando a mãe com duas crianças pequenas. Ela e Susana então com três meses de idade. Fora uma vida de muitos sacrifícios para a mãe, mas apesar de não terem brinquedos caros, nem roupas de marca, nunca lhes faltou o necessário, embora a mãe tivesse que deitar mão a qualquer trabalho extra que lhe aparecesse já que o ordenado como operária numa fábrica de confeções, era curto para alimentar, vestir, calçar e educar duas filhas. Menos mal que o seguro de vida do marido pagou a casa, pelo que tinham um teto para morar e não tinham que se preocupar com a despesa da renda da casa.
Isabel compreendia a situação, e não tinha outro desejo que não fosse acabar o secundário e arranjar um trabalho que lhe desse pelo menos para as suas despesas. Assim quando acabou os estudos empregou-se numa retrosaria e matriculou-se na faculdade a fim de tirar o curso de secretariado e tradução. Mais tarde, pouco antes da morte da mãe, Acabado o curso, serviu-lhe para se empregar como secretária numa grande empresa, com um bom salário.
Susana sempre fora uma criança difícil. Talvez que lhe tivesse faltado a disciplina dum pai. A mãe trabalhava tanto que quase não tinha tempo para ela, e a irmã vivia desculpando a sua rebeldia.  Melhorou depois que foi para a Universidade, e principalmente durante o tempo que namorou com Ricardo.
Isabel não chegou a conhecer o empresário. Susana nunca o convidara a ir lá a casa, e ela suspeitava que a irmã tinha vergonha da casa delas, dos móveis antigos e fora de moda. Depois de repente, o namoro acabou e a irmã ficou ainda mais instável e deprimida. E se a gravidez foi vivida quase de forma apática, a situação piorou bastante depois do nascimento da filha, até que dez meses antes, Susana se suicidara, deixando-lhe aquela carta e a sua filha.
E como um mal nunca vem só, logo após da morte da irmã,talvez por conta do tempo de crise que o país vivia, a empresa onde trabalhava, abriu falência. Agora quase a terminar o subsídio de desemprego, ela precisava com urgência de arranjar um trabalho que lhes permitir-se sustentarem-se.

22.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE II



Mais tarde, Isabel dava o almoço à sobrinha. Matilde era uma bebé de quinze meses, grandes olhos cinzentos, provavelmente herança paterna, já que na sua família todos tinham olhos castanhos. Também o cabelo preto era diferente do cabelo da mãe da mãe e do seu, ambos, castanho-claro quase do tom do mel. No resto, a boca, o narizito arrebitado era semelhante à mãe. Que saudades, Isabel tinha da irmã, que se suicidara dez meses antes, deixando a menina então com cinco meses a seu cargo.
 Susana nunca fora psicologicamente muito forte. Desde menina nunca soube gerir as suas emoções, parecendo viver em constante conflito com o mundo inteiro, e com ela própria. Quando se apaixonara, parecia estar mais forte, mas o descobrir que não passara de uma aventura para o homem que amava, acabara por derrubá-la e entrou em depressão, que se agravara após o parto. Isabel cansara de insistir para que procurasse ajuda especializada, mas Susana sempre se escusara. Até ao dia em que tomou a trágica decisão de acabar com a vida.
Nesse dia, dissera-lhe que ia ter uma consulta, pediu-lhe para cuidar da sua filha e saiu. Quando mais tarde, ela fora ao seu quarto vira em cima da cómoda aquela carta.
Lera-a tantas vezes que a sabia de cor.


“Isabel vou sair daqui a pouco para não voltar. A vida para mim nunca fez sentido e hoje mais do que nunca, sinto que não é aqui o meu lugar. Deixo-te a Matilde. Sei que a amas muito. Na verdade desde que ela nasceu, tu foste muito mais a sua mãe do que eu. E é o imenso amor que sentes por ela, que a salva, pois o meu vontade, era levá-la comigo. Na cómoda do meu quarto está a sua certidão de nascimento. Registei-a com o nome do pai, e peço-te que logo que possas, faças com que se conheçam. Não lhe digas mal dele. Eu não lhe tenho rancor. Apesar de tudo, o tempo que passei com ele, foi o mais feliz da minha vida. Perdoa-me minha irmã, se te faço sofrer, mas acredita que a minha partida, será o melhor para ti e para a Matilde. Eu nunca seria capaz de a amar como tu.
Susana”


Quando acabou de ler a carta, ficou desesperada. Bateu à porta da vizinha, pedindo-lhe se tomava conta da bebé e saiu desaustinada para a rua tentando encontrar a irmã. Procurou nos arredores, telefonou a amigos. Debalde. Ninguém a tinha visto.
Regressou a casa, desalentada. Recriminava-se por não ter insistido mais com a irmã para procurar ajuda médica. A firma onde trabalhava como secretária há quase seis anos ia entrar em falência e ela estava preocupada com a certeza do desemprego que a esperava. Depois chegava a casa e tinha de cuidar da sobrinha de cinco meses, pois a irmã passava os dias na cama, e não ligava nenhuma à filha, que ia crescendo de boa saúde graças aos cuidados dela e de Natália, a vizinha que cuidava da menina enquanto ela estava no trabalho.
Não fora isso, e talvez ela se tivesse apercebido do abismo onde a irmã tinha caído.
-Mãe, não …
-Não queres comer mais, meu amor?
-Não – disse a criança, reforçando a palavra com um gesto negativo da cabeça.


Hoje não houve tempo para visitas. Passei o dia em Lisboa, entre tratar de documentos, ir ver o cunhado (Que teve um  AVC) ao hospital e levar horas retida por causa da greve dos barcos foi um dia complicado.

21.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE I




-Como é que ela se portou?- perguntou a jovem ao entrar em casa.
- Muito bem. É um amor. Não dá trabalho nenhum – respondeu a mulher com um sorriso. – Conseguiu alguma coisa?
-O costume. Darão uma resposta mais tarde. O pior é que já não posso esperar muito mais. Preciso de arranjar trabalho com urgência. O subsídio de desemprego está quase a acabar, o pouco dinheiro que tinha amealhado está quase no fim, e as necessidades dela são cada vez maiores.
- A Isabel sabe, que enquanto eu puder não lhe vai faltar nada, nem a si nem à menina. Não tenho mais família do que um sobrinho do meu falecido marido, que nem sei se ainda é vivo, pois desde que há dez anos emigrou para a Austrália, nunca mais deu notícias. E demais gosto das duas como se fossem realmente da minha família.
- A Natália é um amor, e eu agradeço muito, mas já basta cuidar da Matilde, sem cobrar nada. É uma grande ajuda, pois neste momento não posso pagar uma creche, e não posso continuar à procura de trabalho, com ela ao colo. Guarde as suas economias, não pode gastá-las connosco, nunca se sabe o dia de amanhã. Eu preciso mesmo de trabalhar, nem que seja a ganhar o ordenado mínimo. É apertado, mas desde que dê para as necessidades básicas, já me dou por feliz.
-Desculpe voltar ao mesmo. Mas custa-me vê-la nessa aflição. Não entendo porque a sua irmã não entrou em contacto com o pai da Matilde. Registou a bebé com o nome dele.
- Sabe como era a Susana, não se abria muito, não sei o que aconteceu para terminarem. Só me disse que o encontrou um dia no Vasco da Gama, e ele fingiu não a conhecer. A Susana ficou de rastos. Pôs o nome dele no registo da menina, por entender que a criança tem direito a saber quem é o pai. Penso que a minha irmã sempre sentiu falta do nosso pai, que ela não chegou a conhecer.
-Já me disse isso. Mas continuo a pensar que a Isabel devia procurar o pai da Matilde. Ele tem obrigação de ajudar, na criação da filha.
- E eu vou procurá-lo se não conseguir algum trabalho até ao fim do mês. Já podia ter começado a trabalhar na caixa do supermercado, mas queriam que fizesse turnos e por causa dela, não pude aceitar.
- Credo Isabel, caixa de supermercado com as suas habilitações?
-O que quer, Natália, se não consigo emprego, como secretária, tenho que me sujeitar ao que me aparecer. E ser caixa num supermercado não é desonra nenhuma. Há dez meses que estou inscrita no fundo de desemprego e só tenho feito cursos, e mais cursos, mas trabalho que é bom, nada.
-Claro que não, Isabel. De qualquer modo continuo a pensar que devia esperar um pouco mais, até arranjar uma coisa melhor. Foi uma pena que a empresa onde estava tivesse aberto falência. Já lá estava há tanto tempo!
-Seis anos. Mas enfim não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Vou preparar o almoço. Quer almoçar comigo?
- Sobrou-me uma boa parte do jantar de ontem é só aquecer. De qualquer modo obrigada. A Matilde já dorme há mais de uma hora, deve estar quase a acordar.
-Mais uma vez muito obrigada. Vou preparar-lhe o almoço, porque quando acordar deve estar cheia de fome.
-Então até logo, Isabel. Se precisar de sair é só tocar a minha campainha.
- Até logo Natália. Não conto sair esta tarde, mas se precisar não esquecerei a sua oferta. A senhora é o nosso anjo da guarda.


A quem me perguntou se esta história era uma reedição informo que não.
Fiquei tão baralhada que fui ler o inicio de todas as histórias que já escrevi e a única que tem uma jovem junto de uma falésia no início, é a "Folha em Branco" que começa com um pintor que vê uma jovem sobre a falésia, suspeita das suas intenções e a salva de mergulhar no espaço. Como verão com o avançar da história, o único ponto em comum é uma jovem e uma falésia.


20.5.19

UM PRESENTE INESPERADO





                                                    Prólogo


O dia apresentava-se invernoso naquele final de Novembro. Chovera quase todo o dia e o céu continuava muito escuro. Ao longe no horizonte, um arco-íris, punha uma nota de cor, na negrura das nuvens. O vento soprava forte, e o mar rugia, atirando as vagas de encontro à Falésia, como se estivesse lutando para derrubá-la.
Sobre ela, uma figura solitária, indiferente ao tempo, quiçá até à própria vida, parecia observar fascinada a dança louca das vagas.
Tinha vinte e dois anos, e uma vida de sofrimento atrás de si. Toda a vida foi uma inadaptada. Não conhecera o pai, de quem sempre sentira a falta, e embora a mãe se matasse a trabalhar para criar as duas filhas, ela nunca se sentiu feliz com a vida que tinha. Sentia-se infeliz por não ter roupas bonitas e caras como as suas amigas. Ela tinha que se contentar em usar as roupas que Isabel usara anos antes e que a mãe guardara religiosamente para ela. Tinham dez anos de diferença, quando chegava a vez dela já ninguém vestia semelhantes roupas.
Como ela gostaria de ser como a sua irmã Isabel, que se contentava com a vida que tinha e era feliz. Ela, Susana, vivia corroída pela inveja. Invejava as amigas que tinham o pai vivo, as que iam para a escola de carro, as que usavam roupas de marca, até o feitio manso da irmã ela invejava. E sonhava que um dia tudo ia mudar na sua vida.
Tinha quinze anos quando a mãe morreu e ficou sozinha com Isabel. A irmã assumiu as despesas da casa, e ela continuou a estudar, acabou o secundário e pensou entrar no mercado de trabalho, mas Isabel insistiu que lhe pagaria os estudos e que ela precisava continuar a estudar. Matriculou-se na Faculdade de Ciências, mas numa saída com colegas no segundo ano, conheceu Ricardo de Souto Medina, um empresário, rico e bem-parecido, por quem se apaixonou.
Ricardo, trinta e sete anos, sentiu-se lisonjeado com o fascínio que a jovem tinha por ele. Começaram a sair juntos, mas se Susana sonhava com o amor, e um casamento que lhe desse enfim a vida a que ela julgava ter direito, Ricardo pensava apenas em se divertir e aproveitar o que ela estivesse disposta a dar-lhe. Quando a novidade deixou de o ser, desapareceu, e não deu mais noticias.
Desiludida e deprimida, não queria sair de casa, deixou os estudos. Sentia-se mal, tinha náuseas, não lhe apetecia comer.
Quando Isabel preocupada conseguiu convencê-la a ir ao médico, descobriu que estava grávida de doze semanas. Ficou ainda pior.
A gravidez foi um suplício, dividia-se entre o amor pelo ser que ia dar ao mundo e a raiva por sentir que não tinha condições para criar um filho, nem queria que ele tivesse a mesma vida medíocre que ela tinha.
Um dia quase no fim da gravidez, encontrou Ricardo num Centro Comercial. Sentiu um baque no peito. Quem sabe, ele vendo-a grávida, voltasse para ela? Porque ele tinha de saber que o filho era dele. Dirigiu-se-lhe, mas ele fingiu não reconhecê-la. Ficou de rastos. Uma semana depois dava à luz uma menina, que Isabel adorava, mas de quem ela não conseguia gostar. Aliás ela não conseguia gostar de ninguém, nem sequer de si mesma. A única coisa que lhe apetecia era desaparecer.
Lentamente começou a caminhar na direção da falésia. Lá em baixo o mar agitado parecia chamar por ela. Susana… Susana…
De súbito o seu corpo voou, e por breves instantes sentiu-se livre e feliz. Logo depois foi tragada pelas águas revoltas, enquanto uma gaivota grasnava sobre a falésia.

19.5.19

PORQUE HOJE É DOMINGO




O Sr João, de 87 anos, apareceu na rua com uma muleta. A Dª Rosa, sua vizinha perguntou-lhe o que tinha acontecido e ele queixou-se de uma dor na perna direita.
-É da idade, -sentenciou a vizinha
-Não é não senhora - respondeu de pronto o Sr. João, argumentando - a outra perna tem a mesma idade e anda sem problemas!


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Numa aula de hábitos alimentares saudáveis:
- O melhor leite para os bebés é o leite materno, por três razões: é o mais fresco, o mais nutritivo, e aquele que tem uma embalagem mais atraente.

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O Sr. Zokovitch, grande magnata dos petróleos, contratou uma nova secretária. Jovem, loira e muito bela. Na hora de convocar uma reunião de acionistas, chamou a secretária e disse-lhe:
-Marca a reunião para sexta-feira.
-Sexta escreve-se com x ou com s - perguntou a secretária
-É melhor marcar para quinta-feira - responde o magnata


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As conversas da treta, começam sempre na obra prima do mestre e terminam na prima do mestre de obras


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Dois empresários de calçado, foram a África em viagem de negócios. Aterraram num país onde todos andavam descalços.
Os dois fizeram um relatório sobre oportunidades de negócio.
O pessimista escreveu:
"Andam todos descalços. Não há nada a fazer. Negócio furado"
O otimista escreveu:
"Andam todos descalços. Fantástico. Vamos vender milhões. Negócio de sucesso"


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Num café algarvio estavam numa mesa, um inglês, um alemão, e um português. A certa altura entra um freguês e diz o inglês:
-Aquele tipo é igualzinho a Jesus Cristo. A barba, o cabelo, a túnica...vou falar com ele.
-Dirigiu-se ao homem e tanto insistiu que ele acabou confessando ser efetivamente Jesus Cristo, mas pediu para ele guardar segredo, não queria que ninguém soubesse.
O inglês fez chantagem, e exigiu que Ele o curasse de ser coxo ou contaria a toda a gente.
Jesus Cristo fez o milagre.
O alemão que era cego de um olho ao ouvir o inglês, levantou-se e foi ter com Jesus, exigindo a cura do olho em troca do seu silêncio. O milagre foi feito e o alemão feliz contou aos outros. O português ouviu mas não se mexeu.
Intrigado Jesus Cristo, foi ter com ele e poisou-lhe a mão no ombro. O português levantou-se de um salto gritando-lhe:
- Tira a mão de cima de mim que estou de baixa!

BOM DOMINGO

Os meus parabéns a todos os amigos benfiquistas que passam por aqui..

17.5.19

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE III

Reedição



A partir daí, durante uma semana, todos os dias se falavam pelo telefone, cada um abrindo um pouco mais, a janela da sua alma para o outro.
Na Sexta-feira, da semana seguinte,  Ema anunciou que ia passar o fim-de-semana a Lisboa. Não informou quando chegaria, nem como, apenas pediu para ele ir ter com ela a um conhecido centro comercial,no sábado seguinte, local para onde se dirigia naquela manhã de Domingo.
Nessa noite, Abílio quase não dormiu de tanta excitação. O cabelo embranquecera, o rosto enrugara, mas o coração mostrava-se tão apaixonado, como se tivesse vinte anos. Abriu a velha caixa que o acompanhara toda a vida, mirou e remirou o monte de cartas amarelecidas pelo tempo, presas com um laço azul, sem saber se devia ou não levá-las para o encontro.  No Sábado perto da hora do almoço, sentiu-se mal. Tinha ido à rua buscar o pão e o jornal e de súbito, no regresso a casa, o dia escureceu de repente, o chão fugiu-lhe debaixo dos pés, sentiu que devia segurar-se a qualquer coisa, mas não foi capaz e depois de um estranho bailado acabou estatelando-se junto da porta do vizinho.
Incomodado com o barulho, este abriu a porta, e vendo o que se passava apressou-se a chamar os bombeiros que o levaram para o hospital, onde foi medicado, fez uma série de exames e ficou em observação. Sem ter como avisar Ema, temia que desiludida, ela voltasse para Braga sem se encontrarem. Finalmente já depois das dez da noite, convencidos os médicos, de que tudo não passara de um episódio provocado pela ansiedade e que não havia a temer, nenhum mal maior, foi-lhe dada alta.
Regressou a casa num táxi, e lá chegado mandou uma mensagem a Ema explicando-lhe  o sucedido. Ela respondeu-lhe que relaxasse, dormisse descansado e se encontrariam no mesmo local no dia seguinte às onze horas para almoçarem juntos.
Fosse pela resposta, ou pela medicação tomada no hospital o certo é que adormeceu rápido.
A meio da noite, sentiu que não estava sozinho. Abriu os olhos e a figura à Fernanda envolta num manto tão branco que feria os olhos, sorria-lhe junto da cabeceira da cama.  Transpirando, sentindo que estava a morrer, estendeu-lhe a mão. Mas ela não lhe pegou. Com uma voz doce, disse:
“Não meu querido, ainda não. Ainda tens um pedaço de vida para cumprir. Vim para te libertar desse remorso, que parece querer levar-te,  antes que o teu tempo se cumpra. Sempre soube que no teu coração havia outro amor. Mas nem por isso fui infeliz. Porque apesar disso, do jeito que podias e sabias, sempre me amaste, como amaste os nossos filhos, e nunca em momento algum senti que não estavas comigo. Fui muito feliz contigo, não tens que pedir perdão nem recriminar-te. Agora é hora de te libertares e viveres esse grande amor que já estava escrito nas estrelas, muito antes de eu chegar à tua vida. E quando pensares em mim, que eu seja uma doce lembrança, e não motivo de sofrimento. Agora vou, mas estarei sempre por perto para te proteger. Na brisa que te acaricia o rosto, na espuma que te molhe os pés na praia, no sorriso de uma criança no desabrochar de uma flor. Vai meu amor, vai ser feliz”
Acordou sobressaltado, com um raio de sol sobre a face. Oito horas? Mas como era possível ter dormido tanto? E a presença de Fernanda no quarto, afinal não passara de um sonho? Mas parecia tão real.
Levantou-se, tomou banho, vestiu umas calças de ganga, e uma suéter azul, uns ténis e saiu para a rua. Ia à padaria, mas antes tinha que bater à porta do vizinho para lhe agradecer tê-lo socorrido no dia anterior.
Às onze em ponto, entrou no local combinado para o encontro e o coração acelerou quando a viu. Ema tinha sessenta anos, mas não aparentava mais de cinquenta. Era uma bela mulher, e ao olhá-la, sentiu aumentar os seus receios. Sentia-se como se em vez de cinco anos os separassem vinte. Nesse momento sentiu uma impressão no rosto, como o suave roçar de uma pena, lembrou do que Fernanda lhe dissera no sonho e avançou confiante.
- Desculpa o atraso, querida. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim- disse depositando na bela face um suave beijo.
- Esperei por ti toda a vida, - disse ela sorrindo. Mesmo quando ainda não tinha consciência disso. Que diferença faz, meia dúzia de horas mais?
Sem mais explicações, deram as mãos e afastaram-se de dedos entrelaçados.

Fim


Maria Elvira Carvalho