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17.5.22

POESIA ÀS TERÇAS - LUÍS RODRIGUES

                                         Foto e poema de Luís Rodrigues

A minha nudez



Despi-me para mim próprio ___ 

___ no meu todo que conheço 



na contemplação das cicatrizes

compreendi o percurso do corpo 

as imensas colisões do meu corpo

os rasgões passajados

no peito as notícias do passado

no ventre a marca de várias fomes 



da fragilidade dos ossos 

nada pude apreciar

essa é a surpreendente 

resistência do oculto 

do alicerce osso mente ___ 

___ e tudo o mais vive 

ao sabor desta relação estrutural



Despi-me para mim próprio 

e o que vejo é o mapa

de um velho território quase deserto

minas abandonadas

riachos sem fio de água 

árvores de tronco seco



mas de tudo um perfume apaziguador 

e pó 

a minha nudez

em pó.


Luís Rodrigues

Brancas Nuvens negras

 

 


16.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE IX

 


E não tinha mesmo. Foram precisos dois anos para que ela apagasse do telemóvel as mensagens do marido e o seu número do telemóvel. E mais meio ano para que começasse a pensar em pôr o filho numa creche e voltar ao mercado de trabalho.

Entretanto os pais e o irmão iam fazendo pressão sobre ela, dizendo-lhe que era muito jovem, para ficar sozinha o resto da vida, que se devia dar a si própria e ao amor uma nova hipótese.

Laura, não queria pensar em nada mais do que retomar a sua carreira de professora e cuidar dos filhos. A morte repentina do marido deixara-a tão traumatizada que ela não queria voltar a pensar noutro relacionamento de amor que não fosse o maternal.

Ouviu a campainha, e dirigiu-se à porta para a abrir. Sabia que era Fernando que estava de volta, era demasiado cedo para serem os pais.

- Entra. Estava na cozinha, mas não sei o que tens por hábito comer de manhã. Café com leite, sandes ou torradas, iogurtes, sumo de frutas, ou algo mais substancial?

- O que quiseres. Embora saiba que é errado, raramente tomo o pequeno almoço. Bebo um café de manhã, e por volta das dez, ou dez e meia a minha assistente leva-me uma sandes e um galão que pede no café que fica ao lado do consultório. Tu já comeste?

- Comi com as crianças. Tens aí, pão, manteiga, queijo, fiambre e fruta, - disse assinalando a mesa posta. Podes escolher o que te apetecer enquanto eu aqueço o leite e faço o café.

- Enquanto o fazes, vou lavar as mãos. Quando voltar fazes-me companhia, preciso conversar contigo – disse ele afastando-se.

Voltou pouco depois, sentou-se e esperou que Laura se sentasse na sua frente para começar.

- O Gonçalo disse-me que já inscreveste o Miguel  numa  creche, onde entraria  já no início de Outubro. Também me disse que tencionavas recuperar a tua carreira este ano letivo, mas não conseguiste colocação em nenhuma escola perto de casa. E que por isso estavas muito aborrecida. Eu tenho uma proposta a fazer-te que talvez te interesse.

- Uma proposta? De trabalho? Que eu saiba não és diretor escolar, nem dono de nenhum colégio.

-Bom, não se trata de ensino, mas é temporário e podia interessar-te para não estares o tempo todo sozinha em casa a remoer mágoas.

-Do que se trata?

A minha assistente está grávida e vai ter bebé já em Outubro pelo que no fim deste mês vai entrar de baixa, e depois terá a licença de maternidade. Serão seis ou sete meses no máximo de ausência, o que me obrigará a recorrer a uma agência de trabalho temporário para conseguir uma substituta.  

Se estiveres interessada, podes aceitar o lugar, a mim dá-me jeito porque não tenho que trabalhar com uma desconhecida e estarás livre antes do fim do ano letivo para voltares à tua carreira. Que me dizes? 

12.5.22

BELAS FRASES DE SABEDORIA



Ontem estive a manhã toda no hospital do Barreiro à espera de uma consulta de cardiologia, por causa dos picos de hipertensão arterial. 
Todos os exames que fiz estão normais. O médico não encontra razão para o que me acontece a menos que seja stress. receitou Sedoxil. 
Não me admira que seja, os olhos estão cada vez pior, o marido não está bem, a pequena Margarida também tem estado doente.
Esperemos por melhores dias.



11.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VIII



Laura ficou na porta vendo o carro afastar-se, perguntando-se mentalmente porque tinha acedido ao convite que Fernando fizera a si próprio. Fechou a porta agradecendo a Deus que os pais iam chegar daqui a pouco e passar com ela a semana. Assim não teria de voltar a aceitar a visita diária do jovem.

 Não sabia o que se passava com ela, mas não se sentia bem na sua presença, ficava sempre inquieta, como se de algum modo a presença dele a incomodasse. E não devia ser assim, Fernando era o melhor amigo de Gonçalo, quase um irmão e durante toda a sua infância e adolescência, os três estavam sempre juntos, ora na casa deles ora na do Fernando, pois eram vizinhos e os seus respetivos pais amigos de longa data. Mas depois ela foi para a Universidade, conhecera Quim e afastara-se não só do vizinho, mas até da própria família. 

Foi como se os dois tivessem criado um mundo mágico, onde só existiam eles. Mais tarde após o casamento, com a ida para Lisboa essa separação foi ainda mais real.

 Apesar de Fernando continuar a ser um grande amigo de Gonçalo, Laura só o via ocasionalmente quando ia visitar o irmão, já que Fernando foi um grande apoio para Gonçalo após o grave acidente de mota, que quase lhe roubara a vida e o obrigara a longos meses de internamento hospitalar. 

Depois que o irmão recuperou, nunca mais o viu, até à morte repentina do marido.

Aí quando ela julgou endoidecer de dor, Fernando por vontade própria, ou a pedido de Gonçalo, esteve sempre lá, tentando apoiá-la com todo o seu conhecimento e amizade.

Esse apoio manteve-se na altura do parto e nos primeiros meses de vida do Miguel.

Mas um dia ela agradecera-lhe todo o apoio recebido até aí, disse-lhe que estava bem melhor e que desejava ficar sozinha com os filhos. Depois disso Fernando afastara-se e só voltaram a ver-se depois que o irmão encontrara Helena e a filha e começara a preparar o casamento.

Laura, não se lembrava bem de quando descobrira que Fernando tinha por ela um sentimento que nada tinha a ver com a amizade. Não que até à véspera, ele tivesse dito alguma coisa, mas se há coisa que não escapa a uma mulher é o desejo refletido no olhar masculino.

 A princípio ficou sem saber como proceder, o coração ainda cheio da imagem de Quim e da dor da sua ausência. Aceitara a companhia e ajuda de Fernando, como aceitara do irmão, ou dos pais. Nunca lhe passara pela cabeça que o amigo de infância pudesse ter por ela outro afeto que não fora uma amizade profunda de quem foi criado junto, quase como uma irmã.

 Tinha receio de magoá-lo, mas não podia fingir que desconhecia o que acabara de descobrir.  Por isso lhe pedira que não voltasse e ele afastara-se sem sequer tentar contestá-la. 

Talvez por perceber que não tinha qualquer hipótese de que ela viesse a corresponder ao seu sentimento.


10.5.22

POESIA ÀS TERÇAS - EUGÉNIO DE ANDRADE




OS AMANTES SEM DINHEIRO


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


Eugénio de Andrade


9.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VII

 


Fora difícil terminar o curso grávida e longe da casa paterna, pois Quim terminara o curso no ano anterior, não tinha mais família do que o tio e padrinho, advogado em lisboa, que lhe pagara o curso e lhe oferecera trabalho no seu escritório, com possibilidades de chegar a sócio mais tarde. Por isso, contra a vontade dos seus pais, partiram para a capital logo após o casamento. E o facto de terem que viver com os tios do marido durante os primeiros tempos, também não era o seu sonho, mas ainda assim nunca se arrependera.

O marido compensava em amor, as saudades que ela tinha dos pais e irmão.

E também porque não dizê-lo os tios de Quim tentaram com todo o carinho apoiá-los naqueles tempos difíceis. E até mesmo após o nascimento de Sara eles foram para a bebé uns verdadeiros avós.

Quando a bebé fez dois anos resolveram pô-la na creche e ela conseguira ser professora num colégio particular e começaram então a pensar comprar uma casa ali perto, tinham algumas economias e Quim tinha uma boa carteira de clientes. Foi nessa altura que ao regressar do tribunal, Quim entrou no escritório do tio para lhe dar a notícia de mais um caso resolvido com sucesso e o encontrou de cabeça em cima da secretária.

 Inicialmente pensou que o tio se teria deixado dormir e já se retirava, quando alguma coisa lhe fez voltar atrás para o acordar. Embora o corpo ainda estivesse quente o tio já estava morto conforme constatara o pessoal médico da ambulância que Quim chamara. O advogado Jorge Simões sofrera um ataque súbito de paragem cardiorrespiratória consoante o resultado da autópsia relatava.

Deu uma volta na cama e olhou o relógio. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Travou o despertador e com cuidado para não acordar o filho, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho a fim de se despachar com a higiene matinal antes de ir acordar as meninas.

Depois de um duche rápido, vestiu-se e foi chamar a filha e sobrinha, seguindo depois para a cozinha a fim de preparar os pequenos almoços e os lanches para elas levarem.

Às sete e trinta e cinco, as duas garotas já tinham comido os cereais, lavado os dentes, preparado as mochilas, encontrando-se prontas para saírem, quando ouviram o som de um carro chegando.

- É o tio Fernando, temos que ir, -disse Sara dirigindo-se à mãe para lhe dar um beijo sendo imitada pela prima.

Laura acompanhou-as à porta fazendo as recomendações habituais. Fernando que tinha saído do automóvel, aproximou-se e disse:

-Convidas-me para o pequeno almoço? Não tenho clientes de manhã e não gosto de comer sozinho. Vou levá-las e volto, pode ser? – perguntou com uma expressão gaiata.

A jovem não soube como negar, apenas assentiu com um movimento de cabeça.

Fernando agradeceu sorrindo e voltou para o carro onde as jovens já aguardavam ansiosas.