26.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE IX







Saiu do comboio em Lagos e apanhou um táxi para a casa paterna.
O motorista, homem novo e simpático, saiu em direção à cidade, e ao atravessar a velha ponte, chamou-lhe a atenção para a outra ponte metálica e levadiça, que dá acesso à marina, talvez pensando que se tratava de uma turista.
A jovem sorriu e apressou-se a esclarecer, que era natural de Lagos, e conhecia bem a cidade, donde se tinha ausentado apenas há três anos.
Havia muito movimento, o carro rodava devagar, pela longa Avenida dos Descobrimentos, conhecida dos lacobrigenses pela marginal, rumo ao Forte Ponta da Bandeira, donde subiria depois, para a parte alta da cidade, já que era aí a casa paterna da jovem. Reparou que a praça do Infante, em frente à Igreja de Santa Maria estava diferente, e comentou-o com o motorista.
-É o espelho de água inaugurado há dois anos. Do lado de lá, entre o Mercado de Escravos, a Igreja e o Armazém Regimental, fazem-se festas populares, em alguns fins-de-semana, entre Junho e Setembro.
O táxi continuou, a marcha até à Avenida das Comunidades Portuguesas, para depois seguir em direção à Torraltinha, local onde os pais de Beatriz viviam. Aí chegados, a jovem pagou a corrida e dirigiu-se a uma casa térrea, onde tocou a campainha.
A porta abriu-se, e um homem alto, de meia-idade, perguntou:
-Perdeste a chave?
- Não me atreveria a usá-la. Nem sequer sabia se me ias receber, -disse, com as lágrimas rolando pela face.
O pai abriu os braços e ela deixando cair a mala, aninhou-se neles.
- Perdoa-me – soluçou
- Se alguém tem que pedir perdão, esse alguém, sou eu, pela minha intransigência. Nós, os pais, esquecemos muitas vezes, que vocês têm direito a viver a vossa vida, mesmo quando achamos que vão cometer um erro. Entra. E nunca mais penses em tocar à campainha. Esta casa também é tua. A mãe está na cozinha.
Estavam os dois visivelmente emocionados. O pai empurrou-a para dentro enquanto apanhava a mala da jovem e fechava a porta.
Beatriz foi direta à cozinha, e deixou-se cair nos amorosos braços que a mãe lhe estendia.





Sabem de uma coisa? Já tenho pc. E o melhor de tudo, vou-vos contar.
Desliguei todos os cabos e abri-o. Estava a aspirar-lhe o pó, quando reparei numa pilha, redonda, tipo das dos relógios mas maior Retirei-a e pedi ao marido para ir à Vorten, ver se encontrava uma igual. Ele trouxe-a, meti-a lá, fechei a tampa e liguei os cabos. E não é que está a funcionar perfeitamente?   




25.4.17

DIA DA LIBERDADE - 25 DE ABRIL - SEMPRE







LIBERDADE


Ontem
Olhavas e fingias que não vias.
Os órfãos e viúvas de guerras inglórias
O desespero dos emigrantes clandestinos
As terras abandonadas pelo terror da fome
A força sacrifício dos ideais feitos homens
Encerrados e torturados nas prisões do meu país

Acordaste numa manhã de Abril
Espantado
Porque nas nossas mãos
A revolta era cravo rubro
Nas nossas gargantas
O medo era um hino à Liberdade
Nos nossos braços enlaçados
A força da esperança no futuro.
Acordaste...
E como quem muda de camisa
Puseste-te ao nosso lado.

Era o tempo
de fingires ser democrata...

Com a Liberdade por companheira
Entre avanços e recuos
Fomos fazendo a nossa história
Mas como joio insidioso, 
Abafando o trigo
Ias minando a caminhada
Encerrando escolas, 
Fechando fábricas.
Cortando subsídios
Aumentando o desemprego
Empurrando-nos para a emigração
Aprisionando os nossos sonhos, 
No desespero e desencanto.
Fomentavas a descrença
Para desunir o Povo


Podes continuar a tentar.
Tal como a noite tenta todos os dias
apagar o esplendor do sol
Porque hoje
O povo tem mais
Do que o sonho e a esperança
Conhece o sabor da Liberdade
Reconhece o sabor a sal
Das lágrimas
O odor do sangue derramado
Daqueles que por ela, deram a vida.

E não se deixa enganar!

elvira carvalho


E agora deixo aqui o poeminha feito pela minha neta de 8 anos pelo mesmo tema, trabalho feito para a escola.

Portugal, o 25 de Abril, a Liberdade

Portugal é um país
À beira do oceano
Onde o céu é mais azul
E o sol mais brilhante.
As pessoas são alegres
Porque são livres.
Mas nem sempre foi assim.

No século passado
O povo vivia
Em permanente tristeza
Gente sem pão
Sem paz
Sem liberdade.
Os homens
Partiam para a guerra
Ou emigravam
As mulheres esperavam-nos
Saudosas
Ou choravam-lhes a morte.
E as crianças cresciam
Sem pai.
E muitos acabavam presos
Pois não tinham liberdade
Para protestar
Da vida que tinham.

Até que numa madrugada
De Abril
Os militares cansados
Da guerra
Fizeram a revolução
Derrubaram o governo
Acabaram com a guerra
Abriram as prisões
Fizeram novas leis
E o povo soube enfim
O que era a liberdade.



Mariana Carvalho  


Bom Feriado

24.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE VIII






Uma semana depois, Beatriz encontra-se no quarto. Em cima da cama tem uma mala de viagem aberta onde guarda algumas roupas. Durante aquela semana, 
o seu rosto ganhou cor e um aspeto mais saudável. Foi uma semana complicada, entre idas ao banco, às finanças, ao médico e à companhia de seguros, em que se fartou de preencher papéis, mudar o registo da água, luz, gás. E por fim a muito dolorosa ida ao cemitério.
Agora tudo tratado, preparava-se para ir passar uns dias a Lagos com os pais. Recuperar forças e coragem para enfrentar a vida, procurar um emprego, que as poupanças no banco não eram muito grandes, e se bem que não pagava renda de casa, havia todas as outras despesas inerentes à manutenção da mesma, sem falar na alimentação.
Acabou de encher a mala. Da gaveta de mesa-de-cabeceira, retirou a primeira página de um jornal, onde se viam dois carros totalmente destruídos, guardou-a por cima da roupa e fechou a mala. Olhou para o relógio. O intercidades com destino a Faro, saía da gare do Oriente, às dez e dois. Eram nove e um quarto. Ia chamar um táxi. Preferia ir mais cedo do que se atrasar no trânsito e não chegar a horas. Verificou mais uma vez a mala de mão.  Não esquecia  de nada. Desligou as torneiras do gás, e o contador da água, mas não o contador da luz, porque tinha carne e peixe no congelador, tinha que deixá-lo ligado. Telefonou para a central a pedir um táxi, pegou na mala de viagem e na mala de mão e finalmente saiu, para esperar o carro na rua.
Chegou à estação às nove e cinquenta. O comboio já lá estava . Procurou a carruagem a que pertencia o bilhete comprado no dia anterior pela internet, e ocupou o seu lugar deixando a mala de viagem ao seu lado, pois o esforço de colocá-la no lugar correspondente na prateleira superior do comboio, podia ser demasiado perigoso, para a sua recente cirurgia.
Entreteve-se com o movimento dos restantes passageiros que iam entrando, até que o comboio deu sinal de partida. A carruagem tinha bastantes lugares vagos, mas provavelmente ainda iria encher pois efetuava várias paragens. E embora o calendário mostrasse que estavam no final de Janeiro, o tempo estava agradável e os comboios para o Algarve costumam lotar em qualquer época do ano.
Pouco depois o revisor avisou-a, que tinha que sair em Tunes e apanhar a ligação do regional para Lagos.
Estava nervosa. Há quase três anos, que não via os pais. E apesar do que a mãe lhe tinha dito, ela continuava a temer a maneira como seria recebida pelo pai.


Amanhã como já devem calcular, não haverá esta estória, pois a história do dia merece outra postagem. E ela cá estará.




23.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE VII




Limpou as lágrimas, chamou a empregada, pediu a conta e pagou.
- Vamos? – Perguntou pondo-se de pé.
- Claro, - respondeu a amiga, levantando-se e seguindo-a.
Entraram no carro, e enquanto iniciava a marcha, Clara disse:
- Tomei a liberdade de telefonar à tua mãe e contar o que se passou. Deves compreender que o teu estado era muito grave e não se sabia as implicações que podia ter. A tua mãe ficou desesperada, e contou ao teu pai. Saber-te em perigo, deixou-o cheio de remorsos com a sua intransigência. Queriam vir ver-te, mas eu disse-lhes que não valia a pena uma viagem tão longa, tu não estavas capaz para visitas. Tenho-lhes dado notícias todos os dias, mas ontem não lhes disse que já tiveste alta. Queria ver-te um pouco melhor, para que sejas tu a ligar-lhes e a dar-lhes a notícia.
Beatriz não tinha palavras. A emoção sufocava-a. Era a melhor notícia que podia ter recebido. Tinham chegado à dependência bancária.
Desapertando o cinto, voltou-se para a amiga e disse:
- Importas-te de esperar um pouco enquanto lhes telefono?
- Não, mulher. Estes dias, estou por tua conta, - disse sorrindo.
Marcou o número da mãe, e aguardou nervosa:
- Sou eu mãe, -disse engolindo um soluço quando ouviu a voz da mãe, no outro lado. – Fisicamente, estou bem, já tive alta médica, mas estou muito triste.
Calou-se escutando o que a mãe dizia.
- A Clara contou-me. Tenho tantas saudades vossas.
Escutou de novo
- Agora não posso, mãe. Tenho que tratar de várias coisas, banco, seguro, finanças, legalizar a minha situação. Mas assim que trate disto vou aí passar uns dias. Preciso tanto do teu colo. Dá um abraço ao pai por mim… Não mãe, não quero falar com ele pelo telefone. Quero olhar-lhe nos olhos, quando lhe falar. Agora desculpa, tenho de desligar. Beijos, mãe.
Desligou a chorar. Estava demasiado sensível, tudo a emocionava, tudo lhe dava vontade de chorar.
Clara esperou um pouco, e depois estendeu-lhe um lenço.
-Seca essas lágrimas ou vais entrar no banco com os olhos inchados e vermelhos. O pior já passou. Agora é olhar para a frente e enfrentar de novo a vida.

Sem pc e não tendo programadas as postagens automáticas torna-se difícil continuar.
O filhote emprestou-me a sua tablet. Mas a ver até onde sou capaz de ir com isto eu que sou um calhau com olhos com estas tecnologias.
Bom domingo

22.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE VI






Clara chegou às nove da manhã. Mal tocou a campainha, Beatriz vestiu o casaco pegou na mala e saiu.
Saudou a amiga, e entrou no carro.
- Conseguiste descansar? – Perguntou Clara.
- Mais ou menos. Importas-te, se formos primeiro a algum lado onde possa comer alguma coisa. Ontem não tive coragem de ir às compras.
- E não jantaste?
- Bebi um chá e comi duas bolachas.
- Francamente. Precisas alimentar-te como deve ser. Estiveste mal, perdeste muito sangue. Olha, vamos parar aqui. Conheço o lugar, é sossegado e servem bem.
Estacionou o carro e dirigiram-se para o interior da pastelaria. Bastante gente ao balcão, mas apenas duas mesas ocupadas. Escolheram uma junto à janela, um pouco afastada das outras.
Depois de atendidas por uma simpática empregada, Clara perguntou:
- Já decidiste o que vamos fazer hoje?
- Tenho que ir às finanças, e ao banco, mas antes gostava de saber algumas coisas que não batem certas na minha cabeça. Sei que pagaste o funeral do Jorge e do bebé. Já fazemos contas, quando for ao banco. Mas como soubeste do acidente? Quem te avisou?
- Os bombeiros. Lembras-te, que pouco depois de engravidares te disse, que devias por no telemóvel, nos números de emergência, o meu com o do Jorge? Parva o caso de precisares de alguma coisa e ele estar por exemplo em viagem? Foi por isso que os bombeiros me contataram, depois de ligarem o número do Jorge e ouvirem-no a tocar no local. Na verdade quando chegaste ao hospital, eu já lá estava. O Jorge, e a mulher do outro carro só chegaram um tempo depois, tinham ficado encarcerados. O choque foi muito violento. Segundo os bombeiros, o teu marido vinha em excesso de velocidade, não segurou o carro na curva e saiu fora de mão. Tens que contatar o seguro, eu não o podia fazer, só com procuração.
- Meu Deus! E a mulher do outro carro? Sabes alguma coisa?
- Segundo o que vinha no jornal, era professora, e deixa uma filha menor de três anos.
- Pobre criança!
Estava desolada. As lágrimas irromperam nas faces magras e sem cor.
- Coragem, amiga! Precisas de força, não os trazes de volta mortificando-te dessa maneira.
- O jornal, tens o jornal?
- Não. Mas pode conseguir-se, pedindo um exemplar desse dia à redação.



Estou com problemas no pc. Provavelmente vai ter que ir para a oficina. Parece que as férias lhe fizeram mal.
Bom fim-de-semana



21.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE V


Dormiu várias horas seguidas. Acordou com o toque do telefone.
Acendeu a luz e atendeu. Era Clara para saber como ela estava, e se precisava de alguma coisa. Acabaram combinando a hora para se encontrarem na manhã seguinte.
Clara era uma boa amiga. Era da sua terra, tinham sido amigas desde crianças. Depois o pai da jovem, fora trabalhar para Lisboa. A princípio ia todas as semanas ao Algarve. Depois arranjou uma casa na margem sul e a família mudou-se. Porém as duas jovens nunca perderam o contacto. Já adolescentes chegavam a trocar as férias. Clara ia passar duas semanas à casa de Beatriz, e na volta vinham as duas, para que a última passasse o resto do mês em Almada na casa da amiga.
Beatriz, não tinha chegado a conhecer os sogros. Eles já tinham morrido, quando conheceu Jorge. Segundo ele, o pai morrera de ataque cardíaco, a mãe de desgosto, pela perda do companheiro de toda a vida.
Já era noite. Tinha que fechar as persianas. Foi até à janela. Lá fora o céu estava estrelado. Havia poucas pessoas na rua. Quase todas jovens. Fechou a persiana e foi fazer o mesmo nas outras divisões.
Voltou a percorrer a casa. Como se não soubesse bem o que fazia, ou o que fazer. Pensou ligar para os pais. Será que eles tinham sabido da sua situação? Eles não lhe tinham perdoado, o facto de ter fugido com o namorado. O pai, homem rude e de princípios rígidos chegara mesmo a dizer que para ele a filha morrera.
Sem forças para contrariar o marido a mãe limitara-se a chorar.
Não vieram ao casamento, apesar de os ter convidado, mas ainda assim ela mandara-lhe a fotografia do casamento na igreja e o número de telefone.
Algum tempo depois a mãe ligou-lhe. Sem o marido saber. E foi assim nos últimos tempos. Quando a saudade apertava e a mãe estava só em casa, ligava para a filha.
Beatriz nunca o fazia. Tinha receio de provocar a ira do pai.
Se a mãe tinha ligado nos últimos tempos, ela não sabia. Tinha saudades deles. Queria contar o que se tinha passado. Receber o carinho e apoio deles. Mas receava a intransigência do pai.
Era melhor esperar pelo dia seguinte. Aconselhar-se com a amiga.


20.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE IV





Casaram três meses depois. E ficaram a viver  naquele apartamento, que ele tinha herdado dos pais, e que tinha sido remodelado há pouco tempo, pois que pensava vendê-lo antes de a conhecer.
Pouco tempo depois do casamento, já Beatriz se dava conta que o marido, estava mais para sapo do que para príncipe. Jorge tinha tanto de sedutor como de imaturo e irresponsável. E as discussões começaram. Ao fim de dois anos, saturada e convencida, que o marido nunca deixaria de ser um garoto mimado, ela começava a ponderar a hipótese de divórcio, mas nessa altura descobriu que estava grávida e decidiu esperar até a criança nascer. Quem sabe a paternidade fazia de Jorge um homem mais responsável, na vida pessoal, já que profissionalmente parecia outro homem.
Três semanas antes, o marido insistira para que o acompanhasse à festa anual da empresa. Sem muita vontade, e para não arranjar outra briga, ela acompanhou-o. Porém durante a festa, ele bebeu demais, e mesmo na sua presença, não se coibiu de galantear outras mulheres. Magoada, Beatriz pediu para regressarem a casa. Alegou que não se sentia muito bem. Jorge abandonou a festa de má vontade, e mal entraram no automóvel, começou a discussão.
Ela não deu resposta, e isso em vez de o acalmar, exasperou-o.
Não se lembra, de outra coisa depois disso. Apenas dum enorme estrondo, como se um trovão rebentasse sobre a sua cabeça. E mergulhou na escuridão.
Depois só recorda, a voz de Clara, muito distante, conversando com ela, qualquer coisa que não entendia. Com esforço abriu os olhos e a amiga, imediatamente tocou a campainha, a chamar a enfermeira.
Mais tarde veio o médico. Só nessa altura, Beatriz ficou sabendo que o marido chegara ao hospital já sem vida. E que ela fizera uma rotura do baço, tivera que ser operada, tinha várias feridas, perdera muito sangue, e apesar de todos os esforços médicos, fora impossível salvar o bebé. Estivera dezasseis dias em coma.
Levantou-se. Guardou o pote das bolachas, lavou a chávena, e foi à casa de banho, onde lavou o rosto. Olhou-se no espelho. Parecia ter envelhecido dez anos.
Abriu a única porta que se mantinha fechada e acendeu a luz. Era um quarto de bebé, completamente decorado e pronto para receber um bebé que já não ia chegar. Sentia-se perdida. Tinha decorado aquele quarto com tanto amor. Fechou a porta com raiva. Revoltada com a vida, e as suas partidas.



Estou de volta. Agradeço a todos os amigos que passaram por aqui e comentaram durante os 15 dias que eu estive fora. Bem hajam amigos.
Hoje mesmo retomarei as visitas às vossas "casas".
Esta estória, não começou muito bem. Mas às vezes os maus começos dão ótimos fins. Será o caso desta estória?