16.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXI




Pela primeira vez desde que se tinha tornado um adulto, Cláudio sentiu que o pai lhe estava a esconder alguma coisa.  Conhecia-o bem. Talvez fosse algum problema com o casal, ou quem sabe o médico dissera-lhe alguma coisa sobre a saúde da mulher que ele não lhe queria contar para não o preocupar. Porque com os negócios não era. Nunca tinham corrido tão bem como no ano anterior, e este ano, a menos que acontecesse uma catástrofe natural, como chuvas intensas ou queda de granizo, que naquela época e com as uvas quase na fase das vindimas seria realmente uma grave perda, o ano ia ser muito profícuo.  Porém o tempo estava bom e o prognóstico do IPMA para os próximos dez dias não podia ser melhor. Teria que telefonar ao seu amigo Doutor Ricardo Souto, para saber se havia alguma coisa de errado com a mãe.
Até ele chegaram as onze badaladas do sino da Igreja. Devia ir deitar-se, tinha muito trabalho no dia seguinte. Mas a noite estava quente, o céu estrelado, e não se ouvia outro ruído que não o cantar dos grilos na sua ária de sedução para atrair a fêmea. E as cigarras. Cláudio gostava de ficar ali em silêncio, a sós consigo mesmo e com os seus pensamentos mais íntimos, que ultimamente tinham um nome. Helena.
Porque teria a jovem fugido dele? Porque não lhe dera, nem dera a si própria a hipótese de se conhecerem melhor? Será que tinha alguém a quem não queria trair? Um namorado, um noivo?
Porque havia ela de ter aparecido na sua vida, se não tinha intenção de ficar? E porque raio ele não conseguia esquecê-la? Mal se abstraía do que estava a fazer e logo ela chegava, e se instalava nos seus pensamentos como dona e senhora.
À noite, sozinho no enorme leito de casal, parecia-lhe sentir o seu perfume, a doçura dos seus lábios. Começava a sentir o peso da solidão. Estava na altura de procurar uma companheira. O pior é que até conhecer Helena, não se interessara por nenhuma, e agora, só a jovem lhe interessava. Mas como encontrá-la? Não podia andar, como os arautos da idade média, de cidade em cidade, gritando o seu nome.
Levantou-se aborrecido consigo próprio. Desde quando, ele, Cláudio Guerreiro, pensava parvoíces, tais como andar de cidade em cidade a gritar o nome de uma mulher? O melhor que tinha a fazer era ir deitar-se e tentar dormir. De dia, com os imensos afazeres, é muito mais fácil esquecer. E talvez a recordação da jovem lhe desse tréguas.
Pouco depois dormia profundamente. Acordou sobressaltado com a sensação de que não estava sozinho. Abriu os olhos e ficou espantado ao ver Helena, envergando uma curta e sensual camisa de dormir. Estava de pé junto à cama e sorria para ele.
"Não é possível, estou a dormir, isto é um sonho,"- pensou enquanto esfregava os olhos, esperando que a visão desaparecesse, mas quando os abriu, ficou espantado ao ver a jovem não só não tinha desaparecido, como naquele momento, se deitava a seu lado.
- Que fazes aqui? – Perguntou estupefacto.
- Chamaste-me e eu vim, - respondeu-lhe num sussurro.
Ainda sem entender como era possível, ele estendeu os braços e ela aninhou-se neles. Começaram a beijar-se. Primeiro docemente, depois com toda a força da paixão que os possuía. Beijavam-se, e despiam-se mutuamente, mãos e bocas percorrendo os corpos em carícias loucas, até que não podendo mais protelar o momento. Cláudio entrou nela e os dois iniciaram a dança mais antiga da humanidade.
No momento sublime em que ela gritou o seu nome, acordou encharcado em suor, deitado sobre a almofada. Acendeu a luz. Quatro horas da madrugada. Sentou-se na cama e procurou os chinelos. Precisava com urgência de um duche. 



Gente estão cansados da história? É que está tudo a falar no final!... E a procissão ainda só está no adro. 


A quem pergunta pela minha saúde, estou a fazer fisioterapia e estou melhor, embora longe de estar bem.
Esta tarde, fui a uma consulta de oftalmologia, pois notei que estava a deixar de ver do olho direito e como a mãe tinha glaucoma e o irmão tem glaucoma e quando descobriu já estava cego da um olho e com apenas metade de visão no outro, fiquei assustada e fui logo de manhã marcar uma consulta.
Pois bem o farol direito está com uma catarata que já me está a roubar 50% da visão. Mas não há nenhum sinal de glaucoma.
Aconselhou a operação até ao fim do ano.

O DIREITO À VERDADE - XXX


Depois do jantar que decorreu animado, Carmo ajudada pela enfermeira foi-se deitar. Como a empregada saíra logo depois de aprontar o jantar, pai e filho, levantaram a mesa, levaram a loiça para a cozinha e meteram-na na máquina.  
Cláudio meteu uma cápsula na máquina de café, e enquanto tirava o café, despejou num cálice, uma pequena dose de Capuchinha, uma aguardente velha, da zona da Bairrada. Com a chávena numa mão e o cálice na outra, foi sentar-se no alpendre onde o pai já se encontrava. Não lhe perguntou se queria café. Sabia que ele nunca o bebia à noite, dizia que lhe tirava o sono.
- Devias deixar de fumar, - disse ao ver o pai lançar para o ar uma baforada de fumo de cigarro. Só te faz mal.
- Não fumo desde a hora do almoço. Não saí um momento de junto da tua mãe. Como é domingo, a Rosa foi-se embora a meio da tarde, e a enfermeira chegou dez minutos antes de tu chegares. Não creio que dois ou três cigarros por dia me façam mal. E um homem tem que aliviar a tensão de algum modo.
- Calculo que esteja a ser muito difícil para ti, a doença da mãe, mas tens que ter paciência. Se adoeceres, só pioras a situação.
- Como é que estão as uvas? – Perguntou o pai mudando de assunto.
- Quase no ponto para a vindima. A maturação tecnológica está praticamente no ponto. Amanhã vou analisar a maturação fenólica. Já falaste com o pessoal e com e Vinícola?
-Já está tudo tratado. Amanhã vem o Manel Carreto para verificar os nossos barris e fazer a queima do enxofre de modo a estarem prontos para a nova maturação. Ainda não falamos da quantidade que vamos fazer, mas penso que não devíamos fazer mais do que nos outros anos. Que pensas sobre isso?
- Por mim o que decidires está bem. Há dois anos que fazemos a mesma quantidade, e tem sido suficiente. Este vinho é só para nós e para oferecer a amigos e aos melhores clientes. Quando conseguir o ponto que quero então sim, vamos lançá-lo no mercado. Vai ser um sucesso vais ver.  Capaz de competir com o melhor dos melhores.
-Acredito que sim. Amanhã tenho de ir a Viseu, - disse mudando de assunto. Podes dar uma assistência ao Manel, se ele precisar?
- Claro. Mas não queres que vá contigo?
- Não. Vou na camioneta das nove e meia. Não sei se regresso antes de almoço. Se almoçar por lá, olha pela tua mãe.
- Não te preocupes. Além de mim está cá a Rosa e a enfermeira. Vais encontrar-te com algum cliente?
- Não.
A resposta soou rápida e seca. Como se o pai não quisesse falar sobre o assunto, ou tivesse alguma coisa a esconder. Cláudio franziu o sobrolho.
- Não estás metido em nenhum sarilho, ou estás?
- Em que sarilho é que eu podia estar metido?
- Não sei. É só uma coisa que me passou pela cabeça. Ainda és um homem jovem, tens saúde, terás os teus desejos. E a mãe está doente há tanto tempo.
- Pensas que eu era capaz de trair a tua mãe? Não me conheces tão bem como eu pensava. Amo a Carmo, mais do que me amo a mim próprio. Seria incapaz de traí-la, - disse zangado.
-Desculpa. Não quis aborrecer-te.
- Mas aborreceste, - disse levantando-se. Vou-me deitar. Até amanhã.
-Até amanhã, pai. Dorme bem.



15.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXIX




Já o sol baixava no horizonte quando Cláudio entrou no alpendre que  rodeava a casa. Limpou os ténis no tapete, mirou-lhes a sola em busca de alguma impureza que fosse sujar a casa e só depois entrou em casa. Pendurou o boné num bengaleiro na entrada e seguiu para o quarto. Vestia umas calças de ganga velhas e sujas, e uma camisa que deveria ter sido branca quando a vestiu, mas que se apresentava suada e suja. Se Helena o visse naquela hora, teria dificuldade em reconhecer o homem elegante, que conhecera há dez dias. Ouviu a voz dos pais que conversavam na sala, mas seguiu para o quarto, e daí passou à casa de banho. Despiu-se, enfiou no cesto, a roupa para lavar, e meteu-se debaixo do duche.  Fechou os olhos e deliciou-se com a frescura da água que lhe acariciava o corpo. Estava cansado. Toda a amanhã, percorrera os vinhedos, verificara o estado de maturação das uvas das duas castas de uvas que a quinta produzia, a fim de decidir o momento certo de iniciar as vindimas.
Porque as uvas não são todas colhidas na mesma época. Há castas que amadurecem mais cedo, e o próprio clima influencia esse amadurecimento. Se elas forem colhidas, antes do seu ponto ideal de maturação, o vinho será mais ácido e menos alcoólico. Se pelo contrário forem colhidas mais tarde, os vinhos terão menos acidez e mais álcool. Em qualquer dos casos nunca será um vinho de primeira qualidade.
Cláudio amava a terra como amava a própria vida. Ele nunca seria um homem de cidade, nunca seria capaz de levar a vida metido num escritório. Claro que  gostava das cidades. Para passear, para relaxar, para um jantar de amigos, (embora não tivesse muitos) para um almoço de negócios, ou mesmo passar a noite com uma mulher bonita, mas a sua vida era o campo, o trabalho na terra, o ver crescer o que plantou. Por isso se formou em Agronomia. Quando era mais novo, acalentou o sonho de ir para África quando terminasse o curso. Ajudar a desenvolver as zonas mais pobres do planeta, explorando a terra e tirando dela tudo o que tinha a certeza ela podia produzir. Com o tempo arrumou o sonho numa gaveta escura da memória. A saúde da mãe era periclitante e ela morreria se ele fosse para tão longe. Por isso mal terminou o curso de Agronomia na Escola Superior Agrária de Viseu,  matriculou-se na Universidade de Trás-os-Montes e alto Douro, único sítio no país onde poderia tirar o curso de Enologia, que o ia ajudar a fazer com que os vinhedos da quinta do pai, produzissem um dos melhores vinhos da região a que pertencia. 
Desde que Cláudio assumira a direção da quinta, a sua produção melhorara imenso e os seus vinhos embora ainda não tivessem atingido a qualidade que ele desejava, eram já vinhos muito bons. 
Acabado o duche, fechou o chuveiro, enxugou-se, e completamente nu, passou ao quarto, onde se vestiu.
Aquela casa também era agora bem diferente do que tinha sido outrora. Quando o pai a comprara, ele não tinha mais do que doze anos. A casa, uma vivenda térrea, com um bom espaço à sua volta, era uma típica casa de agricultores, com boa construção, mas poucas comodidades. Quando o pai comprara a quinta e decidira desistir da agricultura para se dedicar à vinicultura, o dinheiro escasseava, e a casa manteve-se tal como a tinha comprado. Anos mais tarde, já os vinhedos a produzirem bem, ele decidiu então transformar a casa e deixá-la como sonhava. Deixando de pé apenas as estruturas, redimensionou espaços, deitou abaixo algumas paredes,   tornando as divisões maiores, e introduzindo-lhes alterações como nos quartos, em que cada um tinha acesso a uma casa de banho, para uso pessoal do ocupante. Também mandara instalar uma moderna cozinha, e um alpendre no espaço fronteiro à entrada. A casa dispunha ainda de dois quartos de hóspedes, num deles, dormia agora a enfermeira que eles tinham contratado para lhes ajudar a cuidar da mãe, naqueles primeiros tempos, (porque embora os médicos dissessem que hoje em dia uma cirurgia de coração aberto, não oferece o risco de outrora, para os leigos como ele e o pai, era assustador), o escritório que ele partilhava com o pai e uma sala comum à casa de jantar.


14.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVIII




“Senhor, vós sabeis que eu não sei orar. Nunca ninguém me ensinou, como dirigir-me a Ti, mas sempre ouvi que Tu sabes o que vai nos nossos corações. Acredito que assim seja, afinal somos obra Tua. 
Assim sendo, sabes o que a minha mãe fez. Quero dizer-Te que lhe perdoei, e não lhe guardo rancor. Não Sejas muito severo com ela, que já expiou na terra o seu pecado, porque como Sabes, nunca foi feliz.
Senhor, quero agradecer-Te pelo tio que me deste, e pedir- Te que alivias a sua tristeza e a sua dor. E acreditando que Jorge Noronha, é o meu pai, também Te quero dar graças por tê-lo encontrado e por ele ser a pessoa  integra e digna que é. Obrigado meu Deus.
Senhor; quero ainda falar-Te de um homem que conheci há dias e que não me sai do pensamento. Nunca tinha conhecido ninguém que me impressionasse tanto. Como decerto não vou voltar a vê-lo, Faz com que ele seja feliz e que eu o esqueça. Obrigado, Senhor.”
Ficou ainda uns momentos em silêncio olhando a imagem do Sagrado Coração de Jesus, como se esperasse ver algum sinal de que Deus a escutara. Depois persignou-se e abandonou o local. Desceu a escadaria, e olhou o largo e a rua que se seguia. Ao contrário de quando chegara, nos últimos dias de Agosto, em que a cidade fervilhava de gente a toda a hora, agora, terminadas as férias os emigrantes regressaram aos países onde ganhavam a vida, não se via naquele domingo ninguém nas ruas. É verdade que Setembro ia bastante quente, mas ainda assim uma semana antes havia muita gente pelas ruas.
Ali mesmo ao pé da Igreja, na rua do Coval, estava a Casa da Ribeira, um Museu Etnográfico, um espaço de memórias de outros tempos, outras gentes, outros saberes. Helena gostava muito de artesanato, não ia deixar de ver, tanto mais que a visita era gratuita. Encantou-se com as técnicas usadas na fiação e tecelagem do linho. Conversou com a artesã, que estava a tecer uma manta de trapos, num enorme tear manual. Viu como a peça que ela tecia ia crescendo, viu as fotos dos antigos barcos que traziam os romeiros para a Igreja de Nª Srª da Conceição, de onde ela saíra minutos antes. Aprendeu toda a técnica de trabalhar a lã desde a tosquia, até à fiação, passando pela lavagem, secagem, e cardação. Viu as almofadas com o pique e os bilros onde as rendeiras faziam a bonita e delicada renda, como demonstravam as fotos na parede, e também sobre uma mesa algumas rendas já feitas.
 Encantou-se também com os trabalhos de olaria expostos, e pelas fotos viu como era trabalhado o barro, a sua cozedura e todo o processo até finalizar a peça. E ainda belos trabalhos de cestaria, em vários objetos expostos.
Foram quase duas horas em que se esqueceu de tudo, menos do que via e aprendia. Como o Museu tinha uma secção de venda ao público, ela adquiriu uma miniatura de uma estatueta em olaria, que lhe chamara a atenção, como recordação daquela visita.



O DIREITO À VERDADE - XXVII




No domingo depois de almoço, Helena foi visitar a zona da Ribeira nas margens do rio Paiva. A jovem deixara-se envolver pela beleza da zona, quando recebeu uma chamada do seu presumível pai. 
Jorge queria saber como ela estava, pedia desculpa de não ir à cidade estar com ela, mas como lhe tinha dito, a esposa estava doente, e além disso o mês de Setembro já ia na segunda semana, estava-se a entrar na época das vindimas, e havia muito trabalho na quinta. Confirmava o exame de ADN para o dia seguinte, e informava que estaria no hotel às dez para irem ao laboratório.
A jovem ficou feliz com o telefonema. Jorge era um homem conhecido e estimado na terra, segunda as informações que obtivera na Vinícola e no café de Nelas. Fora carinhoso com ela, não duvidara nem por um momento do que lhe contou, e mostrava-se um homem interessado e carinhoso mesmo antes de terem efetuado o teste e ter a certeza se era ou não sua filha. Oxalá fosse, Gostava da ideia de saber, que podia contar com alguém que a amasse, e lhe oferecesse o ombro quando ela precisasse. Claro que ela tinha o tio Alberto, que sempre fora muito carinhoso com ela, e que tinha redobrado de atenções depois que o filho morrera. Coitado do tio, a vida, como as madrastas más da história, roubara-lhe tudo. Primeiro a esposa, quando ele mal completara quarenta e cinco anos, deixando-o com um filho prestes a entrar na adolescência, e recentemente esse mesmo filho. Ela sabia que podia contar com o tio. O envelope que lhe entregara na estação era prova disso. Mas um pai é sempre um pai, e ela que nunca experimentara esse sentimento, rogava a Deus que o exame fosse positivo.
Helena estava agora junto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e resolveu entrar. Não tinha recebido uma educação católica, apesar de ser batizada. Gostava de visitar Igrejas, como quem visita um museu. Para admirar a arquitetura, as pinturas, os retábulos, a riqueza interior. Porém naquele momento a necessidade que a fez entrar na Igreja era outra. Pela primeira vez sentia vontade de estar em comunhão com Deus, de conversar com ELE.
Antes de entrar viu a informação sobre o monumento. Datava do século XVIII, mas sofrera várias transformações a maior das quais no início do século vinte, quando construíram a escadaria que lhe dava aquele aspeto cénico.
Entrou. A Igreja de uma só nave tinha três belos retábulos. O principal, do altar, dedicado a Nª Sª da Conceição. Os outros dois mais pequenos, colocados, um de cada lado do espaço do altar, dedicados ao Sagrado Coração de Jesus, e a Santo António.
Na Igreja estava apenas uma mulher já idosa que ia desfiando as contas de um rosário.
A jovem ajoelhou, um pouco mais atrás e ficou em silêncio, observando o altar, talvez tentando entrar em contato com o divino, ou talvez buscando no seu íntimo as palavras, com que devia dirigir-se a Deus.



13.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVI


- Minha filha! Meu Deus! Como é que a tua mãe foi capaz de semelhante maldade? Nunca lhe vou perdoar que me tivesse roubado a alegria do teu nascimento, as tuas gracinhas, o teu crescimento.
- Sem fazermos o exame não podemos ter a certeza.
- Faremos o exame se isso te deixa mais confiante. Por mim, não é necessário. Se nasceste nessa data, não tenho qualquer dúvida. Eu e a tua mãe éramos muito apaixonados, mas ela era muito insegura, achava que não era merecedora do meu amor e tinha uns ciúmes doentios. Disse que eu a traí, pediu o divórcio e foi para casa da irmã em Lisboa. Nunca mais me quis ver, nem ouvir, apesar dos meus esforços. E juro-te que nunca houve tal traição. É verdade que me viu abraçar uma mulher. Era uma prima em segundo grau que estava de partida para o Brasil, sem data de regresso. Não era um abraço de amantes nem beijo nem nada disso. Era uma despedida, duma familiar, que durou até hoje, pois nunca regressou. Tua mãe nunca aceitou sequer as minhas explicações. Mas conhecendo-a como conheci, sabendo do amor que me devotava, tenho a certeza de que nunca me teria traído. Estou em crer que nunca mais quis saber de nenhum homem.
- É verdade, nunca a vi interessada por ninguém.
- E dizes que faleceu há menos de um mês?
-Sim. Quando fui retirar as coisas do seu quarto para dar a uma instituição, encontrei este envelope. Há aqui também as vossas certidões de nascimento e encontrei também isto, - disse estendendo-lhe a caixa com o anel de noivado e a aliança.
Ele abriu a caixa, olhou as joias e voltou a fechá-la. Devolveu-lha
- Eram dela. Agora são tuas. Mas fala-me de ti, filha. Agora que a Natália morreu, com quem vives? E onde? Quero apresentar-te a toda a gente, levar-te lá para casa, mas tens que me dar algum tempo, a minha mulher tem estado doente, tenho que a preparar para esta notícia. Não posso dizer-lho assim de repente, pode sofrer algum choque não sei.
- Não precisa de me apresentar a ninguém. Eu só queria saber quem era o meu pai, já que a minha mãe sempre me disse que eu tinha nascido de uma aventura e que nem ela mesma sabia quem era o meu pai. Gostaria que fizéssemos o teste o mais rápido possível. Depois regresso a Lisboa, não quero atrapalhar a sua vida.
-Como podes pensar assim? Espero que não tenhas herdado a insegurança da tua mãe. A minha casa é a tua casa. Queres fazer o exame, vamos fazê-lo, embora ele seja desnecessário. És minha filha, e tens o direito a participar da minha vida, a conhecer a minha casa e a minha família. Queres fazer o exame na segunda-feira?
-Não tem que ser marcado?
- Não. Sendo particular penso que não. De qualquer modo eu vou agora passar pela clínica e confirmo. Depois telefono-te. Agora tenho de ir. Meu Deus, uma filha. Eu tenho uma filha linda e não sabia.
Pôs-se de pé. Por momentos ficou indeciso. Depois pediu:
-Posso dar-te um abraço?
Sem responder a jovem refugiou-se nos seus braços. As lágrimas rolavam pelas suas faces morenas. Emocionado, Jorge depositou um beijo na testa da jovem.
- Não chores filha. Tudo vai correr bem, vais ver.
Largou-a, e dirigiu-se à porta. A jovem ficou a vê-lo afastar-se.




Gente, vocês querem que eu continue com esta história o fim de semana? Ou querem descansar?

12.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXV




Três dias mais tarde, Helena recebeu uma chamada de um número identificado, mas que não conhecia. Atendeu.
-Estou!
- Menina Helena?
-Sim.
- Fala Jorge Noronha. Seu tio telefonou-me ontem de manhã, dizendo que tem uma coisa para me entregar. Estou em Viseu. Pode encontrar-se comigo?
-Claro. Estou no hotel Avenida. Pode passar por cá?
- A que horas?
- Quando quiser ou puder. Peça na receção para me avisarem que eu desço.
- Certo. Estou muito perto, dentro de minutos estou aí. Até já.
-Até já.
A jovem desligou o telemóvel, foi à casa de banho, escovou os cabelos, deu uma olhadela ao espelho, meteu na bolsa as certidões e a caixinha com a joia, e desceu para a salinha no átrio. Estava ansiosa e emocionada. Como seria o homem que lhe dera o ser?
Minutos mais tarde, viu entrar um homem de meia-idade, alto e magro. Caminhou com segurança até ao balcão de receção e falou com a empregada. Esta apontou na sua direção e o homem voltou-se e olhou-a. Depois disse qualquer coisa à empregada, que a jovem supôs ser um agradecimento e dirigiu-se para ela. A tremer a jovem via-o aproximar-se sentindo vontade de desatar a correr e ir-se embora. Porém não se mexeu. Os dois tinham direito a conhecer a verdade. O que acontecesse depois, se o homem ia ou não rejeitá-la já era outra história e ela tinha que estar preparada para tudo.
Cumprimentaram-se com um aperto de mão, e sentaram-se.
- Não percebo o que pode ter o Alberto de tão importante para me mandar que não o pudesse fazer pelo correio.
-Já vai entender, - disse a jovem tirando do envelope a certidão de casamento e estendendo-lha.
Ele deu uma olhada rápida ao documento, e franziu o sobrolho.
- Que quer isto dizer? – Perguntou
A jovem não respondeu. Em vez disse passou-lhe o registo do divórcio.
- Cada vez entendo menos. Para que é que o Alberto me mandou isto?
- Não foi o tio que lhas mandou. Fui eu que quis vir. Nessa certidão de divórcio a data é de vinte e oito de Novembro de mil novecentos e noventa e um. É correta essa data?
- Sim, mas continuo sem entender. Quem a mandou vir? A Natália? O que é que ela pretende agora?
- Vim por minha espontânea vontade, senhor. Vai entender se lhe disser que encontrei esses papéis, no quarto da minha mãe, Natália Trindade, exatamente há vinte e cinco dias após o seu funeral.
-A Natália morreu? 
-Vitima de cancro, no dia doze do mês passado. 
-Lamento. Apesar de tudo, não lhe desejava mal. Mas continuo sem entender, porque guardou  esses documentos, durante tantos anos, E porque a menina faz questão de mos entregar.
- Vai entender se lhe disser que eu nasci cinco meses e vinte dias após esse divórcio.
Fez-se silêncio. Um silêncio interminável, enquanto os dois se olhavam. A jovem expiando as reações no rosto do homem, enquanto ele tentava digerir a informação.
- Isso quer dizer que a menina é minha filha, - disse por fim. Era uma afirmação, não uma pergunta.
- Penso que sim. Por isso vim. Para lhe pedir que fizesse comigo um exame de ADN. Ambos temos o direito a saber a verdade.


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