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30.9.22

LENDAS DE PORTUGAL - A LENDA DA CELINA


     Castelo da Sertã. A lenda é um pouco grande mas muito interessante


As lendas são como os bons vinhos: quanto mais velhos, mais saborosos. Assim é o caso da lenda da vila da Sertã, que remonta ao ano 74 antes de Cristo, quando Sertório, esse romano expulso de Roma por desavenças políticas e adorado pelos Lusitanos com justificado acerto, fundou nos Hermínios  mais uma pequena povoação e nela começou a edificar um castelo. Não lhe dera ainda nome seguro.

Mal começara a povoar-se e as preocupações de ordem militar nesse tempo eram tremendas. As lutas sucediam-se. E tudo porque a Lusitânia era muito cobiçada e Sertório tinha o ódio de Sila, adversário de Mário, por quem o caudilho romano combatera. Então Sila jurara não dar descanso a Sertório nem às gentes lusitanas. Preparou uma expedição e enviou-a, comandada pelo pretor Lúcio Domício. Nesse encontro foram os romanos derrotados. Exasperado, Sila enviou Manilo.

De novo Sertório mandou reunir forças, colocando à frente delas o seu questor Hirtuleio. E em breve os homens de Sila eram derrotados. A raiva de Sila aumentou mais ainda; e logo urdiu nova trama, que ao longo de vinte e um séculos se foi envolvendo nos fumos luminosos da Lenda…

A passo pesado, caindo sobre a terra seca, o exército de Sertório levantava no ar nuvens de pó. Embora vitorioso, o regresso não era feito em ritmo de alegria. Os homens vinham cansados e desejosos dos dias de folga que o chefe lhes prometera. Sonhavam já com as suas casas, as suas famílias e a recompensa que lhes fora anunciada.

A meio da hoste, um rapaz alto, de olhar vivo e ombros largos, destacava-se dos outros. Era bastante moreno e dir-se-ia o menos cansado de todos. Olhava com evidente interesse para as casas dessa pequena aldeia que iam atravessando. De súbito, soou um grito de alegria, pronunciando um nome:
— Marcelo!…

O rapaz olhou na direcção do chamamento. Uma jovem, também alta e de ombros bem lançados, corria já ao seu encontro.
— Marcelo! Finalmente chegaste!
Sem parar, ela enlaçou-lhe a cintura e continuaram caminhando.
— Celinda!
Ela falou-lhe quase ao ouvido:
— Soube que as tropas regressavam vitoriosas e vim ao teu encontro.
Sempre caminhando com a jovem a seu lado, Marcelo declarou com entusiasmo:
— Sertório é um grande chefe!
Ela teve um trejeito de amuo.
— É possível que o seja. Mas estou farta de tantas lutas! Quando é que ele te deixa descansar?
— Talvez agora. Vou ser apresentado ao próprio Sertório!
— Porquê? Nunca lhe falaste?
— Quem nos comandou, por ordem de Sertório, foi Hirtuleio. E ele vai falar-lhe de mim.
— De ti? Porquê?
— Depois te explicarei. Agora vai para casa. Dentro de poucos dias estarei de volta.
— Diz-me só se o que vão dizer de ti é bom ou é mau.
— É bom.
— Fizeste alguma coisa digna de distinção honrosa?
— Parece que sim.
Ela quase o abraçou.
— Meu querido herói! Tinha já tantas saudades tuas!
— Também eu. Mas agora volta para casa. Não te quero misturada com todos estes famintos de caras bonitas…
Celinda riu alto, demonstrando a excitação que a dominava. Ele insistiu:
— Vai. Juro-te que não demorarei.

E desembaraçando-se carinhosamente da jovem que lhe passara o braço pela cintura, seguiu sempre no seu posto, perdendo-se numa nuvem de pó.

Celinda ficou ainda por uns momentos parada, vendo o noivo sumir-se no horizonte. Depois, com o coração a pular de alegria, voltou para casa na mesma corrida com que viera esperar Marcelo ao caminho.

Alguns dias passaram. Celinda contava as horas numa impaciência crescente. Pensava com certo desespero: «Se Marcelo está vivo e são, porque não vem ele ter comigo…?» Porque não sentia o desejo que dela se assenhoreara, de estarem juntos sob o mesmo tecto?… Atormentada com uma ausência que lhe parecia inexplicável, deitava as culpas a Sertório.

E imaginava já o seu Marcelo a caminho de novos combates…
Porém, dez dias depois da sua chegada, o jovem montanhês entrava em casa da bela Celinda. Ao vê-lo, a jovem temeu ser vítima de uma alucinação.

— És tu, realmente, Marcelo?
— Sim, minha Celinda, sou eu!
— Até me parece mentira!
— Porquê?
— Receei que esse homem não te deixasse voltar.
— Que homem?
— Sertório!
Marcelo rodeou-lhe os ombros com um dos seus braços fortes.
— Não digas tolices! Se soubesses o que Sertório faz por nós…
Ela encarou o noivo, cheia de curiosidade.
— Por nós?… E que fez ele?
O jovem sorriu contente.
— Deu-me um prémio em dinheiro, por o ter ajudado a pôr em prática um dos seus planos de combate, e ainda fez mais…
Ardendo no desejo de saber o que se passara, ela quase suplicou:
— Conta-me tudo, Marcelo!
— Pois bem: deu-me dinheiro e confiou-me a guarda do castelo desta povoação!
Os olhos grandes de Celinda abriram-se mais, num espanto.
— Tu?…
— Sim, eu! Ou antes: nós.
— Nós?
— Claro! Vamos casar…
Num ar gaiato, Celinda lançou os braços em torno do pescoço do noivo.
— Marcelo! Tudo o que me contas parece-me um sonho! Habituei-me todo este tempo em que estiveste longe a conversar contigo em pensamento.
Ele riu.
— E como fazias isso?
Celinda encolheu os ombros.
— Ora! Fazia perguntas e dava eu própria as respostas.
— Assim, não houve ocasião para desavenças…
Ela tornou-se gaiata.
— Enganas-te: andávamos sempre à bulha…
— Porquê?
— Porque tu só te interessavas por Sertório! Só ele era o teu senhor…
— Ciumenta!
Celinda pôs-se subitamente séria.
— Ouve, Marcelo. Tens a certeza que ele não voltará com a palavra atrás?
O jovem soldado olhou-a de frente.
— Celinda! Lembra-te que Sertório está aqui porque nós, Lusitanos, o chamámos para que nos ajudasse a expulsar os Romanos. E ele veio de África e trouxe com ele o seu exército. Sertório luta por nós, compreendes? Confia nele, Celinda!
A jovem baixou a cabeça, não plenamente convencida. O noivo tornou:
— Porque não gostas dele?
A resposta veio rápida:
— Porque é romano!
Marcelo meneou a cabeça.
— Um romano que expõe a vida por nós… é um amigo!
Celinda respirou fundo. Sentia que a sua atitude desagradava a noivo. Tentou encorajar-se.
— Talvez tenhas razão. No fundo, devo aborrecê-lo apenas porque me afasta de ti.
Marcelo voltou a sorrir.
— Mas agora é ele quem nos aproxima. Tens de fazer-lhe essa justiça.
E o resto da tarde gastaram-no os jovens enamorados a fazer projectos para o futuro.

Celinda e Marcelo casaram-se. No castelo que o jovem guerreiro lusitano guardava, reinava a paz e a alegria. Celinda era uma cozinheira de grande fama e Marcelo adorava ver os seus melhores amigos sentados à sua volta, à hora das refeições. A alegria deles contagiava-o. E todas as frases elogiosas dirigidas a Celinda ele as tomava cor orgulho de um esposo apaixonado.

Ora, certa vez, Celinda esperava Marcelo e alguns amigos para a refeição do meio-dia, quando um desses amigos chegou correndo e ofegante perguntando por Marcelo. Aflita, a jovem indagou:
— Que há? Vens coberto de suor e pó!
O interpelado fechou os punhos como que indeciso da atitude a tomar e respondeu apenas:
— Preciso falar com o teu marido.
Então, resoluta, Celinda abanou-o por um braço.
— Que aconteceu? Não me escondas nada!
O recém-chegado persistiu no seu propósito.
— Preciso falar com Marcelo. Diz-me onde o poderei encontrar.
Celinda mordeu os lábios para não gritar a sua impaciência. Mas vendo que Marcelo se aproximava, indicou-o:
— Vem ali.
O homem que viera de fora precipitou-se sobre o amigo.
— Marcelo! Os teus homens esperam ordens. Os romanos voltaram a atacar-nos!
Subitamente pálido — única nota de emoção no rosto do valente guerreiro — Marcelo indagou com aparente serenidade:
— Onde estão agora?
— No vale. Mas dirigem-se para aqui!
— Reúne os melhores guerreiros! Vamos sair ao seu encontro!
O outro admirou-se.
— Sair? E se nos apanham nos desfiladeiros?
— Havemos de os subjugar, como temos feito sempre. O que é necessário, é evitar que tomem o castelo.
— E as mulheres? Onde ficam?
— Aqui reunidas. Celinda tomará conta delas.
— Celinda?
Mas a jovem castelã, já ao lado do marido, mostrava uma serenidade semelhante à dele.
— Não receies. Se esses malvados ousarem subir até aqui, encontrarão uma mulher capaz de os ensinar!
Marcelo sorriu-lhe para a encorajar, embora no íntimo estivesse mais inquieto do que desejava. Sacudiu a cabeça num gesto quase imperceptível, como a afastar os pensamentos desencorajadores que tentavam assediá-lo. Tomando uma decisão brusca, exclamou:
— Vamos, não há tempo a perder! É necessário não dar ocasião a que o inimigo saia do vale!

Reuniu os seus melhores homens, teve um leve gesto de despedida para a sua jovem esposa e encetou a descida com os cuidados requeridos. Porém a pouco mais de meia penedia começaram a surgir as emboscadas. Os romanos haviam conseguido deixar o vale e subiam a caminho do castelo. O combate tornou-se duro e incerto.

Embora os homens de Marcelo combatessem com mais brio e saber, o certo era que o número de romanos se mostrava sensivelmente maior. As pedras choviam de um e outro lado, caindo com fragor e rolando juntamente com corpos ensanguentados. Jaziam lado a lado soldados lusitanos e soldados romanos.

A vitória parecia inclinar-se para o lado lusitano quando Marcelo foi gravemente ferido. Visto o caso por vários contendores dos dois exércitos em luta, o medo acobardou os soldados de Marcelo, dando novas forças aos romanos. E a subida da montanha para o castelo foi reencetada.

Quase sem forças pela perda de sangue, Marcelo falou ao seu lugar-tenente:
— Reúne os homens… e segue… para o castelo… que deves defender… até ao fim…
O amigo do bravo castelão mostrou-se inquieto.
— E tu? Não posso deixar-te aqui… tão ferido…
Quase sem fôlego, Marcelo insistiu:
— Não penses… em mim… corre… passa à frente deles… e avisa Celinda…
O jovem lusitano sossegou o seu chefe.
— Irei à frente! Mas antes destacarei dois homens para que te transportem.
E sem mais escutar, porque o tempo urgia, o lugar-tenente de Marcelo numa ordem rápida, ordenou que transportassem o chefe e seguiu por atalhos, escondendo-se sem dar luta, a fim de chegar lá acima primeiro que o inimigo…

Quando Celinda avistou o lugar-tenente do marido, correu para ele num sobressalto.
— Onde está Marcelo?
Pálido e trémulo, o jovem não escondeu a sua aflição.
— Marcelo foi ferido. Dois dos nossos homens vão trazê-lo para aqui.
Gritando, sem dominar os nervos, ela perguntou:
— Porque o abandonaste?
— Foi ele que me pediu para vir à frente avisar-te de que os romanos não tardam!
Celinda abriu os seus lindos olhos numa expressão que a tornou quase feroz. A sua voz gritante tornou-se quase rouca.
— Pois que venham! Que venham os meus inimigos! Eu os receberei!
Era tal a expressão da jovem castelã, que o amigo de Marcelo sentiu receio da sua razão. E suplicou:
— Acalma-te, Celinda! Preciso que estejas bem lúcida para me ajudares a aguentar o castelo até que cheguem reforços.
Ela perguntou então:
— É esse o desejo de Marcelo?
— É.
— E donde esperas reforços?
— Mandamos um emissário a Hirtuleio.
— E o meu marido conseguirá chegar até aqui?
— Ninguém o sabe!
Ela cerrou os dentes, rangendo-os. Depois deixou sair uma praga:
— Malditos romanos!
Ficou um momento parada, como se tudo estivesse dormindo à sua volta. Depois sorriu. O amigo de Marcelo assustou-se.
— Celinda, por que sorris? Sentes-te bem?
Ela sorriu mais ainda.
— Não te preocupes comigo! Vai para o posto indicado pelo teu chefe. Eu ficarei no meu! Estava a preparar a refeição que comemoraria a vitória. Afinal, são eles, os meus inimigos, que chegam!
E numa voz quase surda:
— Pois que venham! Dar-lhes-ei do nosso almoço!
Julgando-a louca, o lugar-tenente de Marcelo mostrou-se aflito.
— Celinda! Que estás a dizer?… Marcelo ordenou que não os deixássemos entrar!
Ela teve um risinho seco, de semilouca.
— Não queres que eles entrem? Pois olha para ali! Não os vês, tu? Já chegaram! Corre para o teu posto, que eu vou para o meu.
Como ela se afastasse, o jovem gritou-lhe:
— Que vais fazer, Celinda?
A mulher ordenou com firmeza.
— Abre essa porta!
Ele gritou-lhe mais:
— Estás louca!
De facto Celinda parecia a personificação da própria loucura. Ria.
— Se não a abrires, eles acabarão por entrar mesmo sem pedirem licença…
— Morreremos primeiro!
— Nunca sem me vingar!
— Que vais fazer?
— Defender o castelo até ao fim e lavar no sangue deles o sangue de meu marido!
E, pegando na enorme sertã cheia de azeite a ferver onde fritava ovos, gritou ainda:
— Abre a porta! O azeite para fritar os ovos poderá fritá-los a eles!

E conta então a lenda velhinha que a jovem esposa de Marcelo, com a força e destreza que lhe davam o ódio e o desejo de vingança, se dirigiu furiosamente ao encontro dos romanos. Um a um, à medida que entravam no castelo, deitava-lhes para os olhos o azeite a ferver, cegando-os ou matando-os. Quando o azeite terminou, foi com a própria sertã ao rubro que ela deu cabo do resto dos seus inimigos, sem que estes tivessem tempo de compreender bem o que estava a acontecer.
Alarmados pelo halo de morte que se fazia à volta dessa estranha mulher, os outros assaltantes afrouxaram o ímpeto e deram tempo a que os lusitanos se recompusessem, pondo-os depois em debandada.
Por este feito heróico de uma mulher lusitana que defendia o seu território, foi dada à povoação o nome de Sertã, como lembrança de tão retumbante vitória… alcançada mercê duma grande sertã em brasa.

Ficha de Património Imaterial | N.º de inventário: STGL_011 | Domínio: Expressões orais e escritas | Categoria: Lendas | Denominação: Lenda da Celinda | Autor: Desconhecido | Fonte bibliográfica: Gentil Marques, Lendas de Portugal, volume II, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997, pp. 69-75 | Contexto social: Habitantes da freguesia da Sertã | Contexto territorial: Local – Freguesia da Sertã | Concelho – Sertã | Distrito – Castelo Branco | País – Portugal

29.9.22

LENDAS DE PORTUGAL - A CONHEIRA DA LAGOA

 



A Conheira da Lagoa

Uma das lendas mais conhecidas da aldeia do Caratão é a da “Conheira da Lagoa”.



Reza essa lenda que as moiras encantadas usavam esta Lagoa mágica para obterem ouro de aluvião.

Não há dúvidas que esta crença assenta num fundo verídico porque os romanos utilizaram as águas desta Lagoa para extração de ouro aluviar, processo que consistia em lavar repetidas vezes os terrenos de aluvião de forma a separar o ouro dos inertes.

Esses terrenos são constituídos por sedimentos de areia, cascalho e lamas que trazem consigo partículas de minérios que se depositam no leito das ribeiras ou nas suas margens em virtude das constantes e intensas correntes fluviais ou de inundações provocadas por chuvas torrenciais, durante longos períodos de tempo.

A Lagoa da Conheira fica situada junto da estrada CM 1275, no cimo de uma encosta, de onde se avista, ao longe, a aldeia do Caratão concelho de Mação, distrito de Santarém

Em tempos recuados, teria sido alimentada por uma caudalosa ribeira, que hoje se encontra seca. A água que atualmente possui é a das chuvas.

Nesta lagoa ainda se pode ver uma estrutura que, em tempos recentes, serviu para fazer a lavagem de inertes destinados à construção e se supõe que as ruinas próximas a esta estrutura podem estar ligadas ao funcionamento de uma antiga exploração aurífera dos romanos.

A Conheira está instalada por toda a extensa ladeira, para baixo e para cima da Lagoa, e é constituída por grandes acumulados de pedras ovalizadas, os “conhos”, que terão sido assim moldadas provavelmente porque foram arrastadas em longas distâncias por violentas enxurradas, quando, em tempos longínquos, a região estava quase totalmente submersa.

Mas o povo acredita noutras versões.

Dizem que alguns dos conjuntos de pedras, umas sobre as outras como se começassem a descrever um arco, se destinavam à construção de uma ponte pelos mouros.

No entanto, na noite em que a obra deveria começar pôs-se um cerrado nevoeiro que não permitiu que os trabalhos se iniciassem e, quando isso se tornou possível, fez-se imediatamente de dia. E, como a ponte era para se construir naquela noite sem que a obra fosse vista, os mouros não a fizeram.

Uma outra crença que existe é a de que aquelas pedras foram retiradas de uma mina de extração de minério.

Diz-se também que há, escondidos junto da Lagoa, um capote, um carneiro e uma candeia, tudo de ouro, e que houve um homem que deu uma esmola a um mouro e este, agradecido, confidenciou-lhe o local onde se encontrava o capote, mas que ele não poderia dizer isso a ninguém.

Próximo do local, quando o homem já avistava o capote, encontrou um amigo que lhe perguntou onde ia e ele disse que ia buscar o capote de ouro, mas, nesse instante, deixou de o ver, tendo sofrido este castigo por não ser capaz de guardar o segredo.

FONTES

UNIV ALGARVE, CEO, Os Mouros do Caratão, informante Olinda Vitorino Gueifão (F), 16 https://lendarium.org/

BiblioVASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966 , p.746-747

28.9.22

LENDAS DE PORTUGAL- LENDA DA MOURA DA PONTE DE CHAVES

 Lenda da Moura da Ponte de Chaves









Reza a lenda de Chaves que no século XII, uma jovem moura ficara noiva do primo, Abed, filho de um guerreiro mouro que virara alcaide. A jovem, apesar de ter aceitado o noivado, não amava o futuro marido. Anos mais tarde, os cristãos voltaram para reconquistar Chaves, e a jovem moura foi tomada refém por um guerreiro cristão. A moura e o cristão apaixonaram-se e viviam felizes, enquanto o seu prometido e o seu tio fugiram de Chaves. Os cristãos ganharam a guerra e restabeleceu-se a paz.

Abed, que sabia do caso, nunca perdoou, e voltou à cidade vestido de mendigo, para se vingar. Esperou-a na ponte e, quando a viu, pediu-lhe esmola. A moura, que lhe estendeu a mão, cruzou olhares com ele e o mouro rejeitado rogou-lhe a praga: “Para sempre ficarás encantada sob o terceiro arco desta ponte. Só o amor de um cavaleiro cristão, não aquele que te levou, poderá salvar-te.” A moura desapareceu como por magia, e só umas poucas damas cristãs foram testemunhas.
O amado procurou a sua moura por toda a parte e nunca a encontrou, acabando por morrer de tristeza e saudade. E a moura encantada da ponte nunca mais foi vista. Anos mais tarde, diz o povo que, numa noite de S. João, passava um cavaleiro cristão pela ponte quando ouviu murmúrios e socorros. Então, uma voz de mulher lhe pediu para descer ao terceiro arco da ponte e dar-lhe um beijo. O jovem cristão, com medo, fugiu. Assim, ficou a moura da ponte de Chaves encantada para sempre. Agora, nas noites de S. João, é possível ouvir os lamentos da moura encantada, que está eternamente castigada por se ter apaixonado.

27.9.22

POESIA ÀS TERÇAS - JUANA M. RAMOS

 



 RIO

Com riso estridente:
Rio
mergulho a memória
em suas águas
para regressar, outra.
Rio,
pai da árvore perseguida.
Eu choro sob sua sombra
haste em sua casca
a flecha envenenada.
Rio que soa
arrasta lapidada a integridade
naufraga a aflição em seu canal.
Transborda a vida,
confina com a morte,
passo certeiro até as sombras.
Ah desse rio!
Por mais que a busca
não encontre o mar.


Biografia AQUI


NOTA: Fui ontem 26 á tarde a um novo oftalmologista, já que as dores nos olhos se vinham acentuando de dia para dia, já se estendendo por vezes às parietais. Diz que não tem nada a ver com as cirurgias mas com uma inflamação, e receitou Fluorometalona para fazer durante um mês três vezes ao dia. Vamos ver no que vai dar.

26.9.22

LENDAS DE PORTUGAL - A LENDA DE SANTO ANTÓNIO DA CHARNECA

A LENDA DE STº ANTÓNIO DA CHARNECA

foto da Igreja de Santo António da Charneca


jardim com a imagem do Santo como terá sido visto pelo escravo

(Como não podia deixar de ser começo estas lendas por uma aqui da minha zona)





Lenda do Santo António da Charneca 
Havia no Alentejo um rico proprietário que tinha feito a sua fortuna nas Índias, de onde trouxe uma filha e um escravo.
 D. Aires de Saldanha tinha um feitio difícil e ideias fixas: obrigava o seu escravo Macumba a ir todos os dias recolher lenha por serras distantes e guardava bem fechada no seu solar a sua bela filha Ana. 
A partir de um certo momento, o escravo Macumba passou a cruzar-se com um frade franciscano que provocava uma estranha perturbação nos bois que puxavam o carro de lenha: os bois tremiam e curvavam-se diante do frade em obediência ritual. A princípio o escravo irritou-se mas quando descobriu que se tratava de Santo António tremeu de emoção e julgou-se indigno da sua presença. Macumba deveria transmitir ao patrão o desejo de Santo António de ver construída uma capelinha e de dizer à jovem Ana que esta sofria porque não tinha fé suficiente. 
Quando Macumba contou a Ana o sucedido esta não acreditou nele e impediu-o de falar com o seu pai. Então, Santo António falou com Ana e transmitiu-lhe o seu desejo e também que ela realizaria em breve o seu sonho de se casar.
 No dia seguinte, e segundo as instruções de Santo António, os bois foram largados e no lugar onde pararam e começaram a escavar a terra surgiram cal e areia. A população construiu nesse mesmo lugar a capelinha mais bonita de toda a região. Ana casou-se com um mensageiro que na semana seguinte chegou ao solar e Macumba, agora homem livre, dedicou-se para sempre ao culto do seu santo protetor.


Fonte

 Fonte: http://lendasdeportugal.no.sapo.pt/distritos/setubal.htm 



NOTA: Finalmente consegui ontem dia 25 restabelecer todos os links dos vossos blogues. Infelizmente só consegui  comentar um blogue e depois de tentar várias vezes. Voltou a mensagem de erro a toda a força. Vamos ver se mais logo consigo melhor sorte.

25.9.22

DOMINGO COM HUMOR



 




Na aula de português, a professora  pergunta:
-Na oração "O marido chega a casa de surpresa e encontra a esposa no quarto", onde está o sujeito?
Levanta-se o Joãozinho e diz:
-Se não estiver dentro do guarda-fato, está debaixo da cama!


A professora pergunta aos seus alunos:
-Quem quer ir para o Céu?
Todos os alunos levantam a mão menos o Joãozinho. Intrigada a professora pergunta:
-Joãozinho, o menino não quer ir para o Céu?
-Eu até queria, professora. Mas a minha mãe diz que é para ir direto para casa, quando sair da escola.


Um bêbado sai da igreja e pega na bicicleta. Diz-lhe o padre:
-Vai com Deus meu filho e que São Pedro, Santa Luzia, Santo António e Nossa Senhora te acompanhem.
O bêbado montou na bicicleta e abalou. Uns metros mais à frente caiu. Levantou-se com dificuldade dizendo:
- Eu sabia que tanta gente na bicicleta não ia dar certo...


Na escola a  professora pergunta:
-Joãozinho o que o menino quer ser quando crescer?
-Milionário, gastar dinheiro a rodos, ter uma Kenga só para mim, vou dar um cartão de crédito sem limite para ela, um carro importado...
-Basta! Que coisa feia - diz a professora irritada. 
E voltando-se para uma menina pergunta:
-E você Mariazinha o que vai querer ser quando crescer?
-Eu queria ser médica, mas agora quero ser a Kenga do Joãozinho.



Dois amigos conversam.
- Minha mãe nunca gostou de nenhuma das minhas namoradas. Uma era alta demais, a outra baixa de mais, uma burra demais, a outra inteligente demais, uma magra demais, outra gorda demais, uma falava demais, a outra calada demais. Finalmente achei a mulher ideal. Ela se parece com a minha mãe, fala como a minha mãe, anda como ela, enfim é uma cópia exata da minha mãe.
- Mas não pareces muito feliz -diz o amigo. Qual é o problema?
-O meu pai. Desta, quem não gosta é o meu pai!

23.9.22

CONVERSANDO COM O LEITOR - REEDIÇÂO


Bom dia amigos.

Como sabem acabou ontem a história que estava a ser publicada. A nova história está mais ou menos a meio. Podia começar a publicá-la, mas faltam dois meses para dezembro o que iria mais ou menos até onde está agora. Como em Dezembro apenas publico contos de Natal, a história seria interrompida até Janeiro. Então ocorreu-me saber o que vocês preferem. Tenho contos de há 5 ou 6 anos que os mais antigos conhecem, mas que os leitores de datas posteriores não. Como são reedições poderiam ser publicados todos os dias( exceto sábados e domingos) de modo a terminar no fim de Novembro. Estão nesse caso:

MARIA    -   2017

A RODA DO DESTINO - 2017

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES  - 2016   5 VOTOS

JOGO PERIGOSO  -  2017

LENDAS DE PORTUGAL    16 VOTOS

Ou, como Portugal é um país rico em Lendas, poderia passar os próximos dois meses publicando lendas.

 Vocês decidem, VOTANDO naquilo que preferirem. O que tiver mais votos no final de Sexta-feira será o que postarei a partir de Segunda.

Obrigado a todos.

Teremos então que a partir de segunda neste espaço Lendas de Portugal, mantendo-se as rubricas habituais de Poesia à terça, de música ou dança ao sábado  e de anedotas ao domingo.

BOM FIM DE SEMANA, UM FELIZ OUTONO

21.9.22

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXXI

 



Levantou o rosto e mergulhou o olhar naqueles olhos cinzentos que tanto a impressionaram desde o primeiro dia. E durante uns momentos permaneceu assim, lendo nos seus olhos a sinceridade do que lhe tinha contado. Por fim, aninhou-se nos braços dele.

Segurando-lhe o rosto ele disse:
-Tenho uma proposta para te fazer.
- Para passar as férias convosco?
- Não. A proposta é, aceitas casar comigo, sabendo que te ofereço de prenda de noivado, uma filha? 
-Preciso tempo para pensar, - disse brincando, para esconder a intensa emoção que se apoderou dela.
- Dez segundos chegam? – perguntou ele, entrando no jogo.
Não esperou por resposta. Apertando-a contra si, disse, desta vez muito sério.

- Quero que fiques comigo e com a Matilde, o resto da minha vida, mas não como ama. Quero que sejas parte das nossas vidas, que sejas minha mulher, minha amante, minha companheira. Amo-te Beatriz, e vou amar-te todos os dias da minha vida. Prometo-te.

Ela não conseguia falar. Estava afogada pela emoção. Apoiou a cabeça no seu peito e chorou
-Não chores, querida. Não há razão para isso. – murmurou-lhe ao ouvido
-Eu sei. Mas é que me sinto tão feliz!
-E choras sempre que estás feliz? -perguntou soltando-lhe o cabelo.
- Não sei. Já não me lembro desde quando não me sentia tão feliz, -declarou com seriedade

César pensou que ela não devia ter sido feliz no anterior casamento. Mas não fez perguntas. Limitou-se a abraçá-la e a beijá-la com paixão.
Beatriz não se retraiu. Retribuiu o beijo de igual para igual, com toda a sua energia e necessidade, apertando o seu corpo contra o dele, de tal modo, que se o desejo fosse pássaro, sairia voando pela sala, tal como voaram as suas roupas, na ânsia de apagar o fogo que os devorava, ali mesmo no sofá da sala. 

Mais tarde, apaziguado o corpo, aquietado o coração, Beatriz pensava que César tinha chegado até ao mais íntimo do seu ser. Com a sua ternura, com o seu ardor, a sua vontade de lhe dar prazer. Cada carícia, cada toque dos seus lábios, ficara gravada a fogo no seu corpo e na sua alma. Ela tinha sido casada durante quase três anos, e só agora sabia verdadeiramente o que era fazer amor. Pensou que se Jorge fizesse amor com ela, daquela maneira, ter-se-ia sentido destroçada com a sua morte.
- Em que pensas? - perguntou ele, acariciando-lhe o rosto
- No que aconteceu. César, não pensas que sou uma mulher fácil, pois não?
- Porque havia de pensar isso, Beatriz? És uma mulher jovem, saudável,  é natural que tenhas desejos como eu, ou qualquer outra pessoa. Se te julgasse uma mulher fácil, não me teria apaixonado nem iria casar contigo.
Fez uma breve pausa, durante a qual não deixou de olhá-la nem por um segundo. Depois continuou:
 Quero que saibas, que ficaria aqui contigo o resto do dia, mas minha querida, antes de vir, contei à minha família, que te amava, e vinha tentar convencer-te a casares comigo. E prometi-lhes que te ia levar para jantar.

Epílogo


Casaram no final do ano, na presença de todos os familiares.
Meses antes, César tinha conhecido Clara e Nuno. E não pôde deixar de sorrir, quando a jovem lhe disse, que sempre acreditou, que só se ele fosse cego, não se apaixonaria por Beatriz. E logo ali combinaram que ela e o marido seriam os padrinhos da noiva na cerimonia. Depois, durante as férias, estiveram em Lagos, onde César conheceu os futuros sogros. Ele gostou da afabilidade, com que os receberam, e eles ficaram encantados com a pequena Matilde, e trataram-na como se fossem seus verdadeiros avós. E agora ali estavam, ele no altar, e a jovem caminhando para ele, pelo braço do pai. E era evidente a felicidade dos noivos, bem como da pequena Matilde, radiante no longo vestido rosa, muito compenetrada no seu papel de menina das alianças.

Fim


Elvira Carvalho