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3.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVI

 


Dirigiu-se à cozinha, onde Isilda punha o almoço no carrinho que o marido levaria ao doente.

- Joaquim – disse ela, -  se o doente lhe pedir para fechar as cortinas, não o faça. De hoje em diante não mais o quero, no quarto às escuras.

- Está bem, menina. O doutor Azevedo já nos avisou que eram as suas ordens que tínhamos de cumprir e não as do doutor Tiago. Só espero que ele não nos despeça.

- Não poderá fazê-lo. Tudo o que fazemos é em prol da sua recuperação e tenho a certeza de que daqui a uns tempos ele compreenderá isso. Agora pode ir antes que o almoço arrefeça.

-Que lhe disse? – perguntou o doutor Azevedo enquanto se sentavam à mesa.

- Que amanhã iniciaríamos os tratamentos, com ou sem a sua cooperação e que não ia admitir que mantivesse o quarto às escuras.

Creio que nesta fase é necessário contrariá-lo, espicaçar o seu amor próprio, desencadeando-lhe a raiva e o desejo de mostrar que estou errada. Sei que não vai ser fácil e estou preparada para que me agrida verbalmente na tentativa de que faça como as outras profissionais que me antecederam. Quando vir que nada do que me disser me fará desistir, começará a colaborar, quanto mais não seja para que o deixe em paz.

 Oxalá esteja certa. Deixei o plano de tratamentos na gaveta da secretária que está na sala de tratamentos. De qualquer modo, telefonarei amanhã à noite para saber como foi o dia. 

-Pelo que me disse do seu sobrinho, penso que se me mostrar dócil, e me mostrar magoada com a sua atitude, não vou conseguir outra atitude do que aquela que tem tido. E muito menos se perceber que tenho pena dele. Nenhum homem aceita bem a compaixão, muito menos alguém como o doutor Tiago. Ele queixa-se de dores, toma algum tipo de medicação?

-Penso que não. Na última consulta que fez no hospital, receitaram-lhe analgésicos e  antidepressivos. Mas o Joaquim diz que ele se nega a tomá-los. O neurocirurgião, queria enviá-lo para o Alcoitão para a sua recuperação, mas ele recusou e pediu alta. Quanto tempo pensa que ele levará até começar a reagir?

- Não me atrevo a tentar adivinhar. Não será nada fácil. Primeiro ele terá de aceitar o que lhe aconteceu, não só fisicamente, como o fim dos sonhos que teria com a noiva. E entender que a vida segue em frente, só pára quando morremos e que por isso é necessário acompanhá-la. Seria muito mais fácil se ele aceitasse a ajuda psicológica.

Todavia não vi o relatório dos médicos, não sei qual a lesão exata que ele terá. E como o doutor sabe, alguns danos na coluna são irreversíveis, outros são pouco importantes, mas entre os dois existe uma infinidade de lesões mais ou menos graves. Vou dar o meu melhor, mas não posso prometer milagres.

- Os relatórios estão com os pais, mas eu já os li. A cirurgia corrigiu o estrago maior, e segundo eles, não há nenhuma lesão irreversível. Ele tem alguma sensibilidade nas pernas, mas é incapaz de andar, ou mesmo suster-se de pé sem apoio. A opinião do neurocirurgião, é que ele pode recuperar por completo o uso das pernas, mas precisa de muita fisioterapia de estimulação e recuperação além claro, da força de vontade. A fisioterapia que lhe receitei é baseada nessa afirmação.

O resto da refeição, decorreu em silêncio e pouco depois, o doutor despedia-se do sobrinho e partia em direção à capital.


19.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XII



A mesa já estava posta, quando entrou na cozinha. André tinha tirado o avental, e tal como no dia anterior, apressou-se a puxar-lhe a cadeira para que ela se sentasse. Eva pensou que tinha que se acautelar. Aquele homem, com a sua gentileza, o ar travesso, o seu sorriso, era um perigo para o seu coração tão fragilizado. Mentalmente pediu a Deus que a ajudasse. Não se podia apaixonar por ele. Era um aventureiro, uma ave de arribação, que não tardaria a levantar voo.
- Que se passa, Eva? Não gostas do meu  “Spaghetti alla Carbonara”?
Não se atreveu a olhá-lo, como se ele fosse capaz de adivinhar os seus pensamentos.
- Desculpa. Estava distraída.
Saboreou um pouco de comida, e olhou-o surpreendida.
-Está delicioso. 
- Aprendi com a minha “nonna”. Já te disse, ninguém cozinha um "Spaghetti" como ela.
- Disseste que eras meio português. Não tens família cá?
- Tenho. Os meus avós maternos e uns tios. Em Braga, terra da minha mãe. Quando éramos crianças, vínhamos todos os anos, passar o verão em casa dos meus avós. Ainda não fui vê-los desde que cheguei. Quem sabe um fim de semana, queiras ir comigo.
- Eu? – Admirou-se. O que é que eu ia fazer contigo? Não conheço os teus avós. E tentando mudar o rumo à conversa, - disseste “éramos crianças”. Tens irmãos?
- Somos três. Pietro, o mais velho, eu e Giovanna a mais nova. Ambos casados. Entre os dois brindaram-me com cinco sobrinhos.
- E tu? És casado?
- Achas, que tenho perfil de homem casado? As mulheres não gostam de aventureiros como eu. Querem segurança, e eu não me dou com amarras. Ou talvez quem sabe, ainda não tenha encontrado a minha alma gémea.
“Toma juízo, Eva. Avisa o teu coração, que não se deixe enredar”, -pensou ela.
Estavam a terminar a refeição. Eva levantou-se para levantar os pratos e por na mesa a fruta.  Disse:
- Quando estava no orfanato, sonhava com o dia em que tivesse a minha família. Casar, ter filhos, sentir o calor de um lar. Não é que lá, tivesse razões de queixa. As freiras não eram más. Severas na educação, mas também amigas. Especialmente a Irmã Madalena. Mas é triste não saberes de onde vens, se teu pai era um homem bom ou um bandido, se tua mãe, era uma  senhora, ou uma prostituta. Se estão vivos ou mortos. Se tens irmãos. Não tens nada para trás, nem recordações, nem história. Consegues entender isto? É como se fosses a primeira pessoa da história da humanidade. És tu a base da história futura, da tua geração. Quando conheci o Alfredo, pensei que tinha encontrado a minha outra metade. Que juntos, íamos iniciar uma família, ter um lugar na história da vida de que todos fazemos parte. Como pude enganar-me tanto?

  

E porque hoje é o dia do Pai, para todos os que o são, e por aqui passem, o meu desejo de que tenham um dia o melhor possível e que S. José os proteja.

16.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IX



Tinham passado à sala, onde, em cima da pequena mesa, continuava a carta de despedida de Alfredo. Sem uma palavra, Eva apanhou-a e estendeu-a ao homem. Ele leu-a, e devolveu-lha.
- Não te merecia. Um homem como ele não merece mulher alguma. Hoje, conhecendo-te, alegro-me pelo impulso que tive, naquele dia. Porque apesar de tudo, estás segura comigo. Tremo só de pensar o que te podia acontecer se tivesses caído em algumas mãos que conheço. Agora, se me dás licença, vou-me vestir e sair. Tens outras chaves, além das tuas, que me emprestes?
- Vou buscar. Estão com os documentos dele, que a polícia me entregou.
Abriu uma gaveta e retirou as chaves. Estendeu-lhas, e voltou para a sala, enquanto ele se dirigia para o quarto. Pegou num livro e tentou embrenhar-se na leitura. Vinte minutos mais tarde, André, impecavelmente vestido, bem barbeado e penteado, apareceu à porta.
-Até amanhã. Dorme bem.
-Até amanhã. Boa sorte.
Ouviu a porta a fechar-se, e ficou a pensar na volta que a sua vida tinha dado em vinte e quatro horas. No dia anterior ela era uma jovem viúva, com um bom emprego e a sua casa, que podia viver serenamente durante o tempo suficiente para fazer o luto e tentar refazer a sua vida. Agora perdera a casa, a sua auto estima fora jogada e perdida, numa mesa de casino, e até a dor do luto, fora substituída pela raiva. Estava à mercê dum desconhecido, obrigada a viver com ele durante seis meses, sem saber o que lhe ia acontecer durante esse tempo, e depois disso. 
A clínica onde trabalhava, fechava duas horas para almoço. Habitualmente, ela vinha almoçar a casa, já que a clínica ficava perto e sempre aproveitava parte do tempo para adiantar as coisas para o jantar. Nessa noite decidiu que não o faria no dia seguinte. Tinha que ir à instituição, ver a Irmã Madalena. Contar-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, mostrar-lhe a carta de despedida do falecido. Decerto ela saberia aconselhá-la.  
E André? Que pensar de um homem que jura que nunca lhe fará mal, que consigo não corre perigo, e ao mesmo tempo se assume como um aventureiro? Barco sem rumo certo, capaz de mudar de direção ao sabor de um qualquer vento? O que fará ele com a casa, quando se cansar de Portugal? Vendê-la-à? E se assim for, poderá ela conseguir um empréstimo bancário que lhe permita ficar com a habitação? Tantas interrogações, põem-lhe a cabeça em água.
Fechou o livro, e guardou a carta na sua bolsa. Dirigiu-se para o quarto. Escovou os dentes e preparou-se para se deitar. Antes porém, fechou a porta do quarto à chave. Depois fez o mesmo à porta que comunicava com a sala de leitura. Só depois se deitou e apagou a luz.




13.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VIII




Terminado o jantar, Eva começou a retirar a loiça da mesa, perguntando:
-Faço café para os dois?
- Se não te importares! – respondeu observando-a dissimuladamente.
Ela procurou no armário a embalagem de cápsulas, e as chávenas e tirou os cafés.
-A que horas, tens que estar no casino? – perguntou ela.
- Não sou empregado do casino, Eva. Sou jogador profissional sim, mas trabalho por conta própria. Posso ir todos os dias, e geralmente vou, mas posso estar  alguns dias, sem aparecer. Por isso não paro muito tempo num mesmo sítio. Hoje estou aqui, amanhã ou daqui a um mês posso estar na Itália, no Mónaco, ou em qualquer outro lugar do planeta, desde que haja um bom casino. Como te disse sou um cidadão do mundo.
- Mas para isso não é preciso ter muito dinheiro? Ou ganhas sempre?
Ele sorriu divertido com a sua ingenuidade.
- Nenhum jogador ganha sempre, a menos que faça batota, mas isso é crime e é severamente punido.  Eu nunca me arriscaria a fazer batota. Pode-se dizer que nos ganhos há dois componentes que funcionam em pleno. A concentração e a sorte. A condição mais importante para o profissional, é retirar-se da mesa a tempo, quer esteja a ganhar, ou a perder. Porque a verdade é essa, umas vezes ganhamos e outras perdemos.
- Quer dizer que não escolheste essa profissão pensando enriquecer?
- De modo algum. Na verdade nunca desejei ser rico. Sou um bocado aventureiro, desfruto do que a vida me dá. Não sou rico, mas digamos que tenho o suficiente para não me preocupar com o futuro. O dinheiro do jogo, só entra nas minhas contas, no sentido em que o que perco num dia, tem que ser igual ou inferior ao que ganhei no anterior. Essa é a diferença entre um jogador profissional, e um “agarrado” como era o teu marido. Nós jogamos pelo prazer único do jogo, racionalmente, sem emoção. Homens dominados pelo vício são capazes de vender a alma ao diabo, pelo jogo. É uma dependência com a da heroína ou de outra droga qualquer. Nunca suspeitaste que o teu marido era viciado no jogo?
- Não. É claro que as chegadas a casa quase de madrugada e a falta de dinheiro, me fizeram acreditar que alguma coisa não estava bem. Suspeitei que ele me traía, que havia outra mulher na sua vida. No dia em que quis discutir com ele, o nosso casamento, saiu de casa batendo a porta e não voltou. De madrugada, a polícia bateu-me à porta, avisando da sua morte. Pensei que tinha sido um acidente, até que o agente me informou, que ele tinha subido àquele terraço com intenções claras de se matar, e que várias pessoas, incluindo a própria polícia, tinham tentado sem sucesso demovê-lo de atirar-se de lá. 

1.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XX


Um sorriso rompeu no rosto materno, tão luminoso como um raio de sol em dia de chuva. Ela ergueu a mão, e acariciou-lhe os cabelos, com a mesma ternura com que o fazia em criança, quando o filho procurava a sua cumplicidade, nalguma travessura.
- Vai descansar, filho. Já é tarde e tens que levantar cedo. A viagem até S. Pedro é longa. 
Obedecendo, o jovem levantou-se, e dando um beijo na face enrugada, murmurou:
- Boa noite, mãe. Durma bem.
- Deus te abençoe meu filho. Que os anjos velem o teu sono.
Ao regressar à cozinha, Maria deu-se conta de que não tinham jantado. A mesa continuava posta, esperando a hora que já passara há muito. Encolheu os ombros, guardou a janta no frigorífico, apagou a luz e foi-se deitar.


Pedro, acordou na manhã seguinte com o delicioso aroma do café invadindo-lhe o quarto. Enquanto se dirigia para o duche, os acontecimentos da noite anterior, desfilaram na sua mente, como fita em tela de cinema. Adormecera tarde e tinha a sensação de pouco ter dormido.

Deixou que a água resvalasse pelo seu corpo, como se fosse uma carícia revigorante. Depois, com o corpo envolto na toalha, iniciou o escanhoamento do rosto. Enquanto o fazia a imagem de Rita pareceu sair dos seus pensamentos, e apareceu reflectida ao lado da sua, no espelho. Fechou os olhos e imediatamente soltou um queixume. Acabara de se cortar...

Na cozinha, Maria acabara de barrar as torradas. O filho deveria estar a entrar para o pequeno-almoço, cheio de fome pois não tinham jantado. Se bem o conhecia, não devia ter dormido grande coisa. Nunca em toda a sua vida,  vira o filho apaixonado. Namoricos, quando andava na escola, sim. Tivera muitos. Era um cata-vento, muito mais interessado nos rabos de saias, do que nos estudos. Depois subitamente acalmou, e nunca mais o viu interessado em ninguém. Até à noite anterior. Aí, percebera, mais pelo seu tom de voz, do que pelas palavras pronunciadas que o seu menino deixara de o ser, e era agora um homem profundamente apaixonado. Tentou imaginar como seria aquela Rita. Seria uma boa pessoa, capaz de fazer o filho feliz? Não parecia dar muito crédito aos elogios do filho. Tinha idade e experiência suficiente para saber que um homem apaixonado fica cego para tudo, menos para aquilo que ele próprio idealiza.

- Bom dia, mãe. Hum que cheirinho delicioso – disse curvando-se para a beijar.

- Meu ou do pequeno-almoço? - questionou ela rindo.

- Os dois, mãe, os dois – respondeu rindo também.


29.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXVI



A tradicional ceia, de batatas com bacalhau, couves e ovos, acompanhado por um  tinto, Herdade das Servas, decorreu animada.  
Depois, na sobremesa, chegaram os doces tradicionais, que Isabel e a amiga tinham confecionado. Arroz-doce, pudim de ovos, filhós de abóbora, de cenoura e de maçã reineta, azevias de batata-doce, coscorões; o bolo-rei, comprado nessa tarde na pastelaria da esquina, e os frutos secos.
Perto da meia-noite, passaram à sala, e enquanto saboreavam um licor, trocaram os presentes.
O casal ofereceu a Natália, uma bonita echarpe de lã macia, bem própria para a época, e a Artur, um estojo de couro,com um bloco e uma caneta esferográfica, para os seus apontamentos, de detetive. Por sua vez receberam da amiga, um conjunto com duas canecas personalizadas, para o pequeno-almoço, e do amigo um quadro com um poster de uma fotografia que lhes tirara, quatro dias antes no casamento.
Por fim, Isabel ofereceu ao marido, um moderno relógio de pulso e recebeu dele, um fio com o símbolo do infinito.
Pouco depois, Natália disse que estava na hora de se ir embora, e quando Ricardo se preparava para ir levá-la, Artur ofereceu-se para o fazer e ela aceitou com agrado. Despediram-se então até à manhã seguinte, já que o casal os convidara para passarem juntos, o dia de Natal.
Quando eles saíram, Ricardo abraçou a esposa dizendo:
-Ou eu me engano muito, ou aqueles dois, estão a caminho do altar, um dia destes. Vamos, vou ajudar-te a levantar a mesa.
- Não. A mesa fica posta toda a noite. Levamos apenas os pires e copos sujos para a máquina, e colocamos outros limpos na mesa.
- Fica posta para amanhã? – perguntou ele admirado.
- Vê-se que não estás habituado, a passar esta noite em casa- respondeu Isabel. Diz a tradição, ou será uma lenda, não sei bem, que nesta noite, as almas recebem de Deus a permissão para visitarem aqueles que amaram. Assim a mesa fica posta para que eles saibam que os amamos e não os esquecemos.
- Acreditas nisso? – perguntou Ricardo.
- Não importa, se acredito ou não. Minha mãe ensinou-me isto quando eu era pequenita. Ela sempre o fazia, e depois que partiu eu continuei a fazê-lo. A minha parte racional diz-me, que é uma parvoíce, um mito que alguém se lembrou de inventar, mas o meu coração gosta de acreditar que pode ser verdade.  
Enquanto conversavam levaram as loiças sujas para a máquina. Arranjada a mesa, Ricardo abraçou a mulher e beijou-a.
- Agora senhora minha, vamos para a cama? Estou ansioso por te agradecer esta maravilhosa noite.
- Ainda não levei o biberão de leite à Matilde. E se o não fizer, daqui a pouco ela está a chorar, - disse desprendendo-se dos seus braços e dirigindo-se para a cozinha.
Ao colocar o biberão no micro-ondas, deparou com o marido atrás de si.
- Ainda não te contei. Esta noite quando lhe levei a boneca, pela primeira vez a Matilde chamou-me pai. Senti uma tal emoção que nem sei como explicar-te.
- Deve ter sido igual à que eu senti a primeira vez que me chamou mãe, - respondeu Isabel retirando o biberão do aparelho e salpicando uma gota de leite nas costas da mão para experimentar se não estaria demasiado quente. Depois dirigiu-se ao quarto da menina, seguida pelo marido.



As notícias sobre a minha consulta estão no post de ontem.Estou muito grata a todos pelo carinho que me têm dispensado.
Bom fim-de-semana.

E o habitual aviso. Esta história volta segunda-feira.


10.9.18

HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE - O BACALHAU


 Foto da net.  Nela se pode observar o Hortense, o Argus, o do meio que não dá para observar, mas tem 4 mastros e ao fundo o Gazela I.



Na verdade quando nos sentamos à mesa para saborear um bom prato de bacalhau, na esmagadora maioria das vezes não pensamos em como o bacalhau já foi importante na economia portuguesa.
Se a primeira referência à pesca do bacalhau pelos portugueses, data de 1353, a verdade é que noruegueses já vinham buscar sal a Portugal para salgar o bacalhau o que prova que já nessa altura o “fiel amigo” tinha muitos admiradores.
A cura do bacalhau, foi uma revolução na conservação de alimentos, já que passariam ainda alguns séculos até à invenção dos frigoríficos, e os alimentos estragavam-se rapidamente.
Salgar e secar os alimentos, veio garantir que estes não só, se conservavam em perfeitas condições, como mantinham todos os nutrientes e o paladar.
Empenhados nos descobrimentos, cedo os portugueses tiveram conhecimento da Terra dos Bacalhaus, a Terra Nova, e a Gronelândia. e logo pensaram que seria a melhor maneira de combaterem a fome que no séc. XV grassava na Europa. Portugal foi dos primeiros a começar a pesca do Bacalhau, logo seguido pelo resto da Europa.
No séc. XVI Portugal tinha uma frota de mais de 150 navios que partiam em finais de Abril, princípios de Maio e regressavam em Outubro com mais de três mil toneladas de bacalhau.
 Porém em 1580 a perda da Independência para Espanha, parou esta actividade e durante os 60 anos da ocupação espanhola, os franceses e holandeses apoderaram-se daquelas águas.
 Mas foi nos finais do século XIX que a industria da pesca de Bacalhau pelos portugueses teve a sua grande expansão, pela mão da família Bensaúde, que iniciara a sua atividade comercial nos Açores em 1820, como importadora e exportadora de têxteis originários do Reino Unido, e exportadora de cereais e laranjas, criando um grupo de empresas de origem familiar.
Em face do êxito obtido, o grupo foi-se expandindo para novos projetos, e outras zonas de atuação, fazendo investimentos na área financeira e industrial, até que o Açores se tornaram muito pequenos para os seus projetos, e os seus negócios.
Assim em 1870 a Bensaúde & Cª Lda transfere a sua sede para Lisboa, e cria a Parceria Geral de Pescarias, Lda. empresa especializada na pesca do Bacalhau, e a Empresa Insulana de Navegação, que passa a ligar o continente aos Açores e Madeira. A Parceria Geral de Pescarias, situava-se na Azinheira Velha, Barreiro.
O objetivo desta Parceria, era a industria da pesca em todas as águas. A 16 de Março de 1891, a Parceria comprou à Bensaúde todos os seus navios, bem como todos os apetrechos de pesca.
É da Seca da Azinheira, que já apareceu nalgumas das minhas histórias, nomeadamente no Rosa, único livro publicado até ao momento, que vos vou contar tudo sobre o"fiel amigo"
 A Parceria Geral de Pescarias, Ldª possuía quatro veleiros de pesca á linha, a saber, o "Gazela I" cuja foto se apresenta no início do poste, e que fez a última viagem de pesca em 1969. Dois anos depois foi vendido para a América, para Museu Marítimo de Filadélfia, e em 1985, o Gazela foi transferido para Philadelphia Preservation Guild, uma corporação sem fins lucrativos que agora mantém e opera o navio com a ajuda de doadores e voluntários, enviando-a como Tall Ship Filadélfia aos eventos acima e abaixo da costa leste dos EUA onde ainda navega.
 O Creoula, adquirido em 1980 pela Secretaria de Estado das Pescas, e que é hoje o navio escola que todos conhecem na Marinha Portuguesa.

O Creoula.  Foto da net.




 Foto do Argus em Ílhavo, à espera da recuperação. Foto daqui


O Argus, que fez a sua última campanha em 1970 e que foi depois adquirido por uma empresa canadiana. Mais tarde esta mesma empresa vendeu-o para uma empresa de navios turísticos de Miami que o rebaptizou de Polynesia II e o pôs a fazer passeios turísticos entre ilhas no mar das Caraíbas. Posteriormente regressou a Portugal, tendo sido comprado num leilão em Aruba, pela Empresa Pascoal & Filhos, S. A., com sede na Gafanha da Nazaré, que projecta a sua recuperação para o pôr a navegar ao serviço do Turismo. Esta mesma firma já recuperou o Santa Maria Manuela, um lugre gémeo do Argus e do Creoula.  O Hortense, um navio de três mastros parecido com o Gazela. O Hortense foi oferecido ao estado português para um museu marítimo. Semi abandonado no mar da Palha, acabou afundando-se depois de um incêndio que não se sabe como começou.
 E desde 1958 o Neptuno, um navio motor, que efectuou pescas durante 20 anos sendo depois transformado em navio congelador em serviço nos Açores, tendo sido desmantelado em Alhos Vedros em 1992.


 O  navio-motor Neptuno. Foto daqui

Nota:  Este post foi construído com conhecimento próprio e com ajuda dos arquivos do Oceanário de Lisboa




Continua

11.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XIII




- Por mim, -disse pousando o copo vazio, em cima da mesa. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Certo que sou um homem, que desde sempre viveu sozinho, e não é fácil dividir o meu espaço com uma desconhecida. Mas quando faço uma promessa cumpro-a, e eu prometi cuidar de si e ajudá-la. E vou fazê-lo contra tudo, até mesmo contra a sua vontade. Claro que se cooperar, será muito mais fácil para os dois. Fechar-se em casa, horas e horas a chorar, não vai ajudá-la em nada.
Nesse momento a jovem saiu a correr para o quarto. Atirou-se em cima da cama chorando copiosamente.
Miguel deixou-a chorar durante largos minutos. Depois entrou no quarto, sentou na beira da cama e estendeu-lhe um lenço.
- Pronto. Já chega, - disse em voz baixa, num tom carinhoso, como se estivesse a falar com uma criança.
-Tem medo? Acredito que sim. Eu também teria no seu lugar. O futuro pode ser temeroso, mas o passado que se desconhece será bem mais assustador. Se não está preparada, podemos esperar mais uns dias, mas eu no seu lugar ia o mais rápido possível. Já pensou, no sofrimento que pode estar a causar a terceiros? Que os seus pais, irmãos, quiçá o namorado, podem andar por aí desesperados à sua procura?
Calou-se. Mentalmente Miguel interrogava-se. Foi impressão sua, ou sentiu uma estranha tensão no corpo da jovem, quando falou na família?
O silêncio adensou-se. Miguel não sabia que dizer mais para aquietar o coração da jovem. Fez-lhe uma leve carícia na cabeça e deixou que se  acalmasse por esgotamento.
Algum tempo depois, ela levantou o rosto, e olhando-o disse:
- Pode marcar a consulta. Só não sei o que vou dizer ao médico.
-Não se preocupe com isso. Na hora saberá. Agora descanse.
Levantou-se e dirigiu-se ao quintal.
Ai, acendeu um cigarro. Raramente fumava. Mas em horas de grande tensão, era no cigarro que se refugiava. Não conseguia afastar do pensamento a jovem que chorava no quarto. Franziu o sobrolho. E se ela nunca recuperasse a memória? O que ia fazer com ela? Era evidente que não podia mandá-la embora, empurrando-a sabe-se lá para que destino, quiçá de novo para a falésia.
Mas ele também não podia ficar refém dela. Precisava fazer o que sempre fizera. Pintar, viajar, seguir com a sua vida.







2.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE IV


                                          

Numa parede um grande sofá, parcialmente coberto por uma manta alentejana, onde pontificavam algumas almofadas redondas, de croché, amarelas e castanhas, parecendo gigantescos girassóis. Na parece contrária, um grande quadro com dois jovens, vestidos de uma forma esquisita, talvez um traje do século XVIII, ou princípio do século XIX,  e sob ele um aparador. No centro da sala, uma mesa, cujo pé fora um dia, duma máquina de costura. Por toda a sala, quadros espalhados mostravam bem qual a profissão do dono da casa.
Num canto na parede do sofá, uma porta, que Miguel abriu dizendo;
- O quarto.
Depois reparando que a jovem continuava a olhar o retrato acrescentou,
-Eram os meus avós.  
E pegando-lhe na mão disse;
- Venha ver o seu quarto. Como a casa só tem um, enquanto aqui estiver, fica no quarto, eu fico aqui no sofá. Não será por muito tempo, logo vai lembrar de tudo e voltar à sua casa.
Miguel sabia que isso não era certo. A jovem poderia levar muito tempo para recuperar a memória, e ele talvez estivesse a meter-se numa camisa-de-onze-varas, como diria a avó Ermelinda se fosse viva. Mas sem saber porquê, sentia necessidade de animar a jovem, tanto quanto sentia de a proteger.
O quarto era pequeno. Uma cama de ferro, pintada de branco, uma mesa-de-cabeceira antiga com tampo de mármore, sobre o qual um  candeeiro com abajur em bola, e um livro. Havia ainda  um pequeno armário de portas escuras e lisas.
Na parede sobre a cabeceira da cama, um crucifixo de madeira, completava a decoração do quarto.
-Vamos, - disse Miguel, venha ver o resto da casa. Afastou um cortinado junto ao aparador e seguiram por um largo corredor.
Nele em tábuas corridas amontoavam-se dezenas de livros, o que demonstrava o gosto de Miguel pela leitura.
- Esta é a minha biblioteca. Pode ler o que quiser, e quando quiser.
E aqui é a cozinha.
A cozinha como tudo na casa era pequena. Num canto o fogão, e a seu lado uma grade de madeira com algumas panelas e frigideiras penduradas. Encostado à parede interior uma mesa rectangular com duas cadeiras, e sobre a mesa, num nicho na parede, alguns pratos e copos. Na parede que dava para o exterior a um canto uma porta, depois um frigorífico, e quase junto ao fogão, uma janela. Sob esta o lava loiça.

25.6.18

O DIREITO À VERDADE - VI





Alberto Fontes, chegou a casa da sobrinha, passavam exatamente vinte minutos do meio-dia.
Vestia umas calças de ganga e uma camisa preta, cor que nunca mais deixou de usar, desde que meses atrás perdera o seu único filho, num desastre de mota.
Lena que já tinha posto a mesa para os dois, abriu-lhe a porta, recebeu o beijo do tio, e os recipientes com a comida, e encaminhou-se para a cozinha, dizendo-lhe:
-Vai para sala. Vou empratar a comida e já lá vou ter. O vinho, podes levar para a mesa. Já levo o saca-rolhas.
Partiu o frango assado, em vários bocados.  Colocou numa travessa, o arroz de legumes, colocou o frango assado por cima, e temperou a salada de tomate e alface, que previamente fizera.
Com a travessa numa das mãos e a saladeira na outra, dirigiu-se à sala, onde o tio sentado num sofá, lia uma revista já com duas ou três semanas.
- Calculei que trouxesses frango, e fiz uma salada para acompanhar, - disse colocando os recipientes sobre a mesa.  E acrescentou:
- Vamos almoçar, conversaremos depois.
Esperou que o tio se sentasse à mesa e disse-lhe:
-Vai-te servindo, esqueci-me de trazer o saca-rolhas. Vou buscá-lo.
Almoçaram conversando sobre assuntos diversos sem contudo tocar no tema que os juntara ali naquele dia. A certa altura, o tio disse:
- Estive a pensar que é muito importante, que termines os estudos. Tenho algum dinheiro guardado, que fui juntando para dar ao teu primo quando ele se casasse. Posso pagar as tuas despesas até terminares o curso.
- De modo nenhum. Guarda o teu dinheiro, a idade avança e não podes prever o que ainda vais precisar. Voltarei ao Curso quando a vida me proporcionar meios para isso.
E mudando de assunto perguntou:
- Não comes mais?
-Não. Já comi mais do que habitualmente.
- Vou buscar a sobremesa, - disse levantando os pratos.
Foi à cozinha e regressou com duas taças de salada de fruta.
- Não sei se preferias um doce, mas sinceramente eu não sou muito apreciadora, prefiro a fruta, especialmente nesta altura do verão.
-Não te preocupes. Eu também prefiro fruta.
Comeram em silêncio, como se não tivessem assunto. A jovem preferia falar do que lhe interessava depois da refeição, o homem debatia-se com uma questão de ordem moral. Devia ele contar à sobrinha aquilo que tinha jurado à cunhada não contar? Por outro lado, se a cunhada não  destruíra as provas do seu passado, em todos aqueles anos, nem mesmo depois de estar doente, não seria porque ela queria que a filha soubesse a verdade, depois da sua morte?

12.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXVIII


Porque a senhora que costumava ficar com Martim durante as férias se encontrava ausente, para acompanhar a filha, que vivia em Tomar e se encontrava no último mês de gestação, Amélia tinha tirado parte das suas férias para aquela data, a fim de as passar com o filho. Isso ia facilitar muito os preparativos para o casamento. De modo que aquela semana passou quase sem dar por isso. Todas as noites jantavam juntos, e faziam planos para o futuro. Amélia e o filho já tinham ido conhecer a casa de Paulo, que era bem maior do que aquela onde viviam e ficava mais perto do seu emprego, pelo que decidiram ficar a morar nela e Amélia estava a pensar alugar a sua. Uma casa fechada dá despesas e está sempre a deteriorar-se. Por outro lado, como Martim não queria prescindir do seu quarto, tinham que o desmontar e mandar para a casa de Paulo, onde seria instalado no quarto que pertencera a Paulo quando criança. Estas mudanças bem como a escolha da mobília e decoração do quarto de casal, o encontro com a decoradora, tudo isso tinha mantido Amélia numa correria todos os dias.
E chegou finalmente o sábado do jantar com o irmão. Amélia estava nervosa. Esperava que os dois homens se entendessem, mas temia o feitio de Ricardo.
Acabara de desligar o forno, e foi à sala onde Paulo punha a mesa.
Martim estava no quarto, brincando com o seu jogo favorito.
- Muito bem. Não imaginava que sabias pôr uma mesa assim, - admirou-se
Ele enlaçou-a pela cintura, atraiu-a a si e beijou-a.
- Sou um homem muito prendado,- disse sorrindo. Disse-te que trabalhei muito em Paris. Entre muitas outras coisas estive empregado no restaurante de um hotel. O teu irmão deve estar a chegar. Não tens nenhuma foto dele? Não vi nenhuma até agora.
-Tenho várias, em álbuns. Não gosto de ver molduras espalhadas por todo o lado, só tenho do Martim e como vês não são muitas.  
Tocaram a campainha e Amélia foi abrir.
- Boa noite, Amélia - saudaram os recém-chegados
- Boa noite- respondeu beijando o irmão e a cunhada. Entrem, vamos para a sala. O jantar já está pronto, mas suponho que tomem primeiro uma bebida.
- E onde está esse teu noivo? Ainda não chegou?- Perguntou Ricardo entrando na sala.
Paulo que entretanto vinha saindo da sala de refeições, disse nas suas costas.
-Estou aqui.
- Voltou-se e parou surpreendido
- Tu? Que raios… como é que…  - gaguejou nervoso, - os descobriste?
- Não descobri ninguém. Encontrámo-nos por acaso.
- Não acredito em acasos. Sempre foste muito inteligente.
- Não te entendo Ricardo. Parece que estás aborrecido comigo. E eu é que devia estar aborrecido contigo. Porque nunca me contaste que tinhas uma irmã?
As duas mulheres olhavam-nos surpreendidas. Elas não sabiam que os dois se conheciam. E parecia haver entre os dois um certo antagonismo. Tanto que apesar da conversa, os dois não se cumprimentaram, como acontece com duas pessoas civilizadas que se encontram.


E hoje trago aqui uma foto de um Carnaval de outros tempos.  Este foi o único Carnaval na minha vida em que me mascarei. E já agora uma pergunta: Qual destas meninas sou eu?




26.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLI


Sentado à mesa na cozinha, Salvador observava a graciosidade e desenvoltura com que Anete se movimentava na preparação do jantar.
- Tens a certeza de que eu não posso ajudar-te? – Perguntou
- Sabes cozinhar?
- Pouca coisa. Mas posso por a mesa.
-Isso é uma boa ideia. Naquela gaveta, tens os talheres, e na outra ao lado, há toalhas e individuais. Escolhe o que mais te agradar. E na dispensa, deve haver uma garrafa de vinho. Podes abri-la.  
Ele levantou-se e começou a por a mesa.
-Tens falado com os teus pais?
- Quase todos os dias.
- Tens uma família muito bonita. São todos muito simpáticos.
- Espera até os meus irmãos saberem que vens cá a casa jantar, e vais ver como se acaba logo a simpatia, - disse rindo.
-Sei. Foram sempre assim tão protetores?
- Sempre, -disse colocando na mesa a travessa dos bifes, com o arroz branco.
Sentou-se e iniciaram a refeição. Só depois continuou
– Desde que fui para o infantário. Os três não me largavam.
- Os três?
- Os dois e Afonso, o meu ex-marido!
“ Quer dizer que o teu ex-marido, é um amiguinho de infância. Vamos ver se contas mais alguma coisa”
- Já estou a ver três rapazes a assaltarem o castelo para brincar com a princesa, e as suas bonecas, - disse rindo.
- Era mais assim. Três rapazes a arrastarem a princesa para ir jogar à bola, subir às árvores, ou pescar.  Fui crescendo sempre com três sombras. No recreio da escola, nas festas, nas saídas. Era tão frustrante que às vezes chegava a odiá-los. Os dois só me deixaram em paz quando fiquei noiva do Afonso.
- Um noivado com ódio ao noivo? – Perguntou franzindo as sobrancelhas.
- Ó não. Aquele ódio era só raiva de momento, por exemplo quando queria ir à discoteca com as minhas amigas, e só podia ir com os três guarda-costas.
- Então amáva-lo…
-Não. Os pais do Afonso viviam, e a mãe ainda vive, na vivenda ao lado da nossa. Os nossos pais eram amigos, e como andávamos sempre juntos eles começaram a falar em casamento, e nós deixá-mo-nos embalar pela ideia. Quando acordámos estávamos casados.
 Tinham acabado a refeição. Anete levantou-se
- Queres café? Como sabes, é do instantâneo.
- Sim. – Levantou-se para retirar a loiça da mesa, enquanto ela punha a chaleira ao lume e retirava do armário as chávenas e o frasco do café. E voltou à conversa:
- Divorciaram-se em seguida. De comum acordo?
- Não e sim. Não nos divorciámos em seguida, Porque o pai do Afonso ficou doente, e depois da sua morte, a mãe dele teve uma depressão, precisava de todo o nosso apoio e carinho, não era hora de pensar em nós. Mas sim foi de comum acordo e continuamos amigos.
Pôs a água fervente na mesa, e continuou enquanto preparava os cafés.
- Tão amigos, que me veio visitar anteontem, para me contar que está apaixonado, que pensa casar e queria que fosse a primeira a saber disso.
Escureceram os olhos masculinos.
- Tens a certeza, que foi por amizade? Não teria sido mais por retaliação, pelo divórcio?
-Não conheces, o Afonso. Se o conhecesses nem te passava pela cabeça semelhante coisa, - disse colocando a loiça na máquina.
"Que defesa tão acalorada," - surpreendeu-se. "Será que ainda gosta dele"?
Foram para a sala. A chuva continuava a cair fustigando os vidros da janela. A jovem foi até ela e desceu a persiana.
-Agora é a tua vez, - disse ao voltar-se. Nunca te casaste?
- Não.
- Mas decerto já te apaixonaste.
 -Não sei se o teu conceito de apaixonar-se é o mesmo que o meu. Se te referes ao amor, pois sim. Há uns anos, conheci uma mulher que julgava, única, especial. Amei-a tanto que estava a pensar pedi-la em casamento.




3.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XV







Do sítio onde se encontrava, jantando sozinho, coisa rara nele, David viu o grupo que entrava no restaurante, e se dirigia para a longa mesa sobre a qual havia o dístico de reservado.
Lançou sobre o grupo um olhar vago, mas de repente, ficou rígido. Um das mulheres, parecia-se extraordinariamente com Daniela. “Ou era ela?” Interrogou-se mentalmente. Parecia mais nova. E mais bonita, apesar da sua sócia o ser muito. Recostou-se na cadeira, procurando observar o grupo sem dar nas vistas, quando ela virou o rosto para o companheiro, e ele teve a certeza, de que se tratava de Daniela.
Com aquele vestido negro, que lhe moldava o corpo, e o cabelo solto, estava linda. Ficou sem respiração, quando ela se encaminhou para o seu lugar na mesa, e ele pode observar que o vestido deixava a descoberto as costas na sua totalidade. Praguejou baixinho. Como era possível que ela fosse assim para um lugar público?
Quase não comeu, completamente pendente da mulher que se encontrava na outra mesa. Tinha vontade de se levantar, ir até lá, pegar-lhe na mão e trazê-la para junto de si.
Não sabia o que se passava com ele. Desde que a conhecera, nunca mais se interessara por mulher alguma. Só pensava nela, era como uma doença. Queria apertá-la nos braços e beijá-la até a fazer desfalecer de paixão. Amaldiçoou-se. Que raio de sentimento era aquele? Como é que podia ter-se apaixonado por uma mulher que nem sabia se era comprometida?
Daniela estava sentada entre uma mulher e um homem. De onde estava, podia ver que conversava indiscriminadamente com os dois. Logo deviam ser amigos. Se ela tivesse namorado, estaria ali. Pelo menos era o que ele faria se fosse seu namorado.  
De repente soube que queria aquela mulher para ele. Não para uma aventura como costumava ter com as inúmeras mulheres que passaram pela sua vida, mas como a sua mulher, sua amiga, sua amante para o resto da vida.
Sorriu com ironia. Desde quando não sabia o que fazer para conquistar uma mulher? “Desde que te apaixonaste” respondeu-lhe o seu subconsciente.
 De súbito, um homem jovem, alto e louro, aproximou-se da mesa, onde o grupo jantava, e David reparou que Daniela perdia o sorriso. O homem em questão, fez um cumprimento geral, trocou algumas palavras com Daniela, e despediu-se com um aceno.



29.3.17

CRIME DE MORTE



                        notas de mil escudos de 1927


Nota: Esta estória, já aqui a contei uma vez há dois anos. Pelos comentários da época percebi que quem a leu, julgou tratar-se de mais um conto meu. Esta história é verídica, passou-se com minha avó, Maria do Carmo da Silva, e foi-me contada por ela.  Minha mãe e tios também a contavam. A única dúvida é nas notas, ela contou-me assim em 60 quando eu estive a passar um mês com ela. Os meus tios falavam em duas notas de quinhentos. Seja uma ou duas era uma fortuna, em notas que ela nem conhecia, pois nunca tinha visto notas de tal valor.

Passo a contar a estória.


A história que vou contar, passou-se na Trapa, pequena aldeia, do concelho de S. Pedro do Sul, nos gloriosos e loucos anos vinte. Numa pequena casa tipicamente beirã, daquelas de granito que ficavam por cima da “loja” onde se guardavam os animais, se os havia, e os mais pobres guardavam apenas os utensílios de trabalho na terra,  a caruma, e a lenha para o fogo, viviam a Maria e o marido, mais os cinco filhos, dos oito que já tivera. A casa era composta por uma ampla entrada, onde num canto havia uma chaminé, e um pequeno forno de lenha que a Maria utilizava para cozer o pão. Não havia fogão, a refeição era cozinhada numa panela de ferro, com três pés que assentava diretamente em cima da fogueira, que se acendia ao lado do forno, sobre uma placa metálica, assente em cima das pedras, que formavam o chão. Completava a decoração, uma comprida mesa de madeira e dois bancos corridos, que serviam na hora das refeições.
Além desta “sala”, a casa tinha dois quartos. Num dormia o casal, com o filho mais novo, no outro, os quatro filhos mais velhos. Nos quartos, mantas de trapo, sobre enxergas de palha de centeio, serviam de cama, na hora de descansar o corpo. Manuel, o marido trabalhava no campo quando havia trabalho, e quando não, batia as portas das redondezas à procura de ferro-velho que depois vendia na Feira Velha, uma feira mensal que se fazia em S. Pedro a cerca de 9 km que o Manuel fazia com o seu burrico que ele batizou com o nome de Tem Dias. Isto, porque segundo ele o burro tinha dias, em que era obediente à voz do dono e outros em que empancava e não se mexia por mais que recebesse ordens em contrário. Naquele longínquo ano de mil novecentos e vinte e nove, Maria estava de novo grávida. Estávamos no início de Setembro, Manuel não tinha trabalho, e nada havia para comer naquela casa. E se os três filhos mais velhos com nove, dez, e onze anos, já estavam a "servir" em Lourosa, e em Santa Cruz, e já não davam cuidados, os outros cinco tinham fome.  Maria pensou que tinha que arranjar comida para os filhos. O marido só chegaria à noite e quem sabe se traria ou não alguma coisa para comerem.  Deitou o bebé numa canastra que pôs à cabeça, pegou no outro pequeno ao colo, e seguida dos outros três foi em busca de comida. Batia à porta das casas mais abastadas e oferecia algum trabalho em troca de comida para as crianças. Não pedia esmola, tinha vergonha. Mas as pessoas tinham pena das crianças e sempre lhe davam alguma coisa. Naquele dia, numa dobra do caminho deparou com uma carteira. Era uma bela carteira de pele com iniciais gravadas a ouro. A tremer Maria abriu a carteira e viu umas quantas notas. Cada vez mais assustada tirou-as da carteira mirou-as e viu que era uma nota de mil escudos, uma nota de 500 escudos uma  de 100, três de 50, e cinco de 10.
Uma fortuna. Ao metê-las de novo na carteira qualquer coisa caiu no chão e Maria viu que era uma fotografia. Reconheceu o homem. Um doutor de uma aldeia vizinha, homem rico e influente com negócios em Lisboa e Porto. Maria pegou na carteira e foi a casa do tal  doutor. Lá chegada, puxou o sino do portão da quinta e uma mulher de idade, a "criada"  - naquele tempo chamavam-se assim, veio à porta. Maria disse que tinha achado a carteira e vinha entregá-la. A criada pegou na carteira e foi para dentro. Maria ficou à espera que ela voltasse. Quem sabe o homem, lhe daria alguma comida para as crianças. Um palácio daqueles tinha com certeza mesa farta. Porém o tempo foi passando e a criada não voltava. Impaciente e cansada com o peso dos filhos e da barriga, a mulher puxou de novo a sineta do portão. E então a "criada" voltou.
-Entregou a carteira ao seu patrão? Perguntou Maria
- Entreguei - respondeu ela
- E o que ele disse?
-Guardou-a e não disse nada.
-  Por favor, diga-lhe que eu estou aqui, que tenho as crianças com fome, se me pode dar alguma coisa para elas comerem.
-Espere um pouco que eu vou dizer-lhe.
A mulher virou costas e voltou pouco depois com uma corda.  Com lágrimas nos olhos estendeu-a a Maria dizendo.
- Eu fui falar com o senhor Doutor e ele disse que era para eu lhe trazer esta corda. E quando eu perguntei o que lhe ia dizer, ele disse que se enforcasse, porque uma pessoa que tem os filhos com fome, encontra uma fortuna e vai entregá-la, não merece viver. Desculpe, dói-me tanto, mas foi o que ele me disse.
Maria engoliu as lágrimas, pegou os miúdos e virou costas pensando: 
-Que raio de País é este, onde ser honesto merece pena de morte?