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1.12.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... -Interrompeu-se abruptamente.- O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante todos aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

 *****************************************************************************

Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem assistiu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho



27.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVI



Simão permaneceu algum tempo no escritório, tentando acalmar-se. 
Quando saiu procurou a mãe na sala. Francisca fechou o livro e perguntou:
- Contaste-lhe?
Olhou a mãe, surpreendido. Pensava que tinha conseguido esconder de todos os seu segredo.
- Como sabes?
- Uma mãe, sabe sempre o que vai no coração dum filho. Há muito que sei que é esse amor que te mantem longe de nós. A Ana saiu sem se despedir. Nunca o faz. Devia estar muito transtornada. Disseste-lhe?
- Não foi preciso. Ela leu-o nos meus olhos.
- E…
- Ficou indignada. Disse que é uma infâmia. Que somos irmãos.
- Não é verdade! Ela sabe-o, tal como tu.
- Não é verdade, no sangue. Mas é-o nos sentimentos. Ela sente-o assim no coração. Foi assim que sempre me amou. E contra os sentimentos é impossível lutar, - disse amargurado
-Apesar dos seus vinte e seis anos, Ana é uma menina, que sonha com o amor, mas que ainda não o encontrou. Conheço-a melhor que a qualquer de vós. Não quero que sofra. Sei que seria muito feliz contigo, mas como ela mesmo me disse, “o amor é uma fogueira, que não arde só de um lado” Oxalá consigas esquecê-la. Gostaria de te saber feliz.
Acariciou-lhe o cabelo como fazia quando ele era menino.
- Obrigado mãe. Perdoa-me se te faço sofrer.
- Não te atormentes. A vida às vezes leva-nos por estradas sinuosas. Vai cuidar das tuas coisas. Faltam poucas horas para o teu avião.
Não pôde deixar de abraçar a mãe. Admirava-a tanto. Sempre tão serena, tão doce, tão compreensiva.
- Cuida dela mãe. Vou sentir-me melhor se souber que o fazes.
- E não o fiz toda a vida, filho? Vai descansado. E que Deus te ajude.
Ficou a ver o filho afastar-se com uma secreta sensação de culpa. Se eles não tivessem fomentado tanto aquele parentesco. Se os tivessem criado normalmente, sem enfatizarem um laço que não existia na realidade, quem sabe agora não estavam a sofrer daquela maneira.

reedição.
Gente eu sei que não vos visitei a todos mas estou muito cansada, e vou "xonar"

Fica este capitulo agendado para sair daqui a pouco.

29.3.17

CRIME DE MORTE



                        notas de mil escudos de 1927


Nota: Esta estória, já aqui a contei uma vez há dois anos. Pelos comentários da época percebi que quem a leu, julgou tratar-se de mais um conto meu. Esta história é verídica, passou-se com minha avó, Maria do Carmo da Silva, e foi-me contada por ela.  Minha mãe e tios também a contavam. A única dúvida é nas notas, ela contou-me assim em 60 quando eu estive a passar um mês com ela. Os meus tios falavam em duas notas de quinhentos. Seja uma ou duas era uma fortuna, em notas que ela nem conhecia, pois nunca tinha visto notas de tal valor.

Passo a contar a estória.


A história que vou contar, passou-se na Trapa, pequena aldeia, do concelho de S. Pedro do Sul, nos gloriosos e loucos anos vinte. Numa pequena casa tipicamente beirã, daquelas de granito que ficavam por cima da “loja” onde se guardavam os animais, se os havia, e os mais pobres guardavam apenas os utensílios de trabalho na terra,  a caruma, e a lenha para o fogo, viviam a Maria e o marido, mais os cinco filhos, dos oito que já tivera. A casa era composta por uma ampla entrada, onde num canto havia uma chaminé, e um pequeno forno de lenha que a Maria utilizava para cozer o pão. Não havia fogão, a refeição era cozinhada numa panela de ferro, com três pés que assentava diretamente em cima da fogueira, que se acendia ao lado do forno, sobre uma placa metálica, assente em cima das pedras, que formavam o chão. Completava a decoração, uma comprida mesa de madeira e dois bancos corridos, que serviam na hora das refeições.
Além desta “sala”, a casa tinha dois quartos. Num dormia o casal, com o filho mais novo, no outro, os quatro filhos mais velhos. Nos quartos, mantas de trapo, sobre enxergas de palha de centeio, serviam de cama, na hora de descansar o corpo. Manuel, o marido trabalhava no campo quando havia trabalho, e quando não, batia as portas das redondezas à procura de ferro-velho que depois vendia na Feira Velha, uma feira mensal que se fazia em S. Pedro a cerca de 9 km que o Manuel fazia com o seu burrico que ele batizou com o nome de Tem Dias. Isto, porque segundo ele o burro tinha dias, em que era obediente à voz do dono e outros em que empancava e não se mexia por mais que recebesse ordens em contrário. Naquele longínquo ano de mil novecentos e vinte e nove, Maria estava de novo grávida. Estávamos no início de Setembro, Manuel não tinha trabalho, e nada havia para comer naquela casa. E se os três filhos mais velhos com nove, dez, e onze anos, já estavam a "servir" em Lourosa, e em Santa Cruz, e já não davam cuidados, os outros cinco tinham fome.  Maria pensou que tinha que arranjar comida para os filhos. O marido só chegaria à noite e quem sabe se traria ou não alguma coisa para comerem.  Deitou o bebé numa canastra que pôs à cabeça, pegou no outro pequeno ao colo, e seguida dos outros três foi em busca de comida. Batia à porta das casas mais abastadas e oferecia algum trabalho em troca de comida para as crianças. Não pedia esmola, tinha vergonha. Mas as pessoas tinham pena das crianças e sempre lhe davam alguma coisa. Naquele dia, numa dobra do caminho deparou com uma carteira. Era uma bela carteira de pele com iniciais gravadas a ouro. A tremer Maria abriu a carteira e viu umas quantas notas. Cada vez mais assustada tirou-as da carteira mirou-as e viu que era uma nota de mil escudos, uma nota de 500 escudos uma  de 100, três de 50, e cinco de 10.
Uma fortuna. Ao metê-las de novo na carteira qualquer coisa caiu no chão e Maria viu que era uma fotografia. Reconheceu o homem. Um doutor de uma aldeia vizinha, homem rico e influente com negócios em Lisboa e Porto. Maria pegou na carteira e foi a casa do tal  doutor. Lá chegada, puxou o sino do portão da quinta e uma mulher de idade, a "criada"  - naquele tempo chamavam-se assim, veio à porta. Maria disse que tinha achado a carteira e vinha entregá-la. A criada pegou na carteira e foi para dentro. Maria ficou à espera que ela voltasse. Quem sabe o homem, lhe daria alguma comida para as crianças. Um palácio daqueles tinha com certeza mesa farta. Porém o tempo foi passando e a criada não voltava. Impaciente e cansada com o peso dos filhos e da barriga, a mulher puxou de novo a sineta do portão. E então a "criada" voltou.
-Entregou a carteira ao seu patrão? Perguntou Maria
- Entreguei - respondeu ela
- E o que ele disse?
-Guardou-a e não disse nada.
-  Por favor, diga-lhe que eu estou aqui, que tenho as crianças com fome, se me pode dar alguma coisa para elas comerem.
-Espere um pouco que eu vou dizer-lhe.
A mulher virou costas e voltou pouco depois com uma corda.  Com lágrimas nos olhos estendeu-a a Maria dizendo.
- Eu fui falar com o senhor Doutor e ele disse que era para eu lhe trazer esta corda. E quando eu perguntei o que lhe ia dizer, ele disse que se enforcasse, porque uma pessoa que tem os filhos com fome, encontra uma fortuna e vai entregá-la, não merece viver. Desculpe, dói-me tanto, mas foi o que ele me disse.
Maria engoliu as lágrimas, pegou os miúdos e virou costas pensando: 
-Que raio de País é este, onde ser honesto merece pena de morte?



21.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... Interrompeu-se abruptamente. O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

 *****************************************************************************

Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem viu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho


Esta história chegou ao fim. Gostaria que aqueles que me leram assiduamente, ( e penso que terão sido muito mais do que os que comentaram, a acreditar nas visualizações deste conto, que contava desde o primeiro episódio até ontem com 3215.) me dessem a vossa opinião sobre ele no seu todo.
Uma noite de inverno, será a nova história que vos vou contar de segunda até ao fim do mês. Mais pequena, e muito diferente das duas últimas, mas que espero vos agrade.

BOM FIM DE SEMANA

2.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE II







Foi direta à sala, onde sabia que encontraria a mãe a ler. Era o seu lugar favorito. Sentou-se a seu lado. Francisca fechou o livro e olhou para ela na expectativa. Não fez perguntas, e Ana teve a certeza de que a mãe sabia o que lhe ia dizer. A mãe sempre sabia o que se passava com ela:
- Mãe, já não vai haver noivado, muito menos casamento. Acabei tudo com o Paulo.
Se esperava que a mãe dissesse alguma coisa, enganou-se. Francisca levantou a mão, acariciou o rosto da filha, e esperou.
-Eu queria, mãe. Começo a desejar estabilizar a minha vida emocional. Ter a minha casa, marido, filhos. Pensei que com o Paulo, isso ia acontecer. Mas não é assim. Na intimidade, a chama não se acendeu, senti-me estranha nos seus braços. E não quero um casamento assim. Não me basta ter um homem apaixonado ao meu lado. Eu quero alguém a quem eu ame com intensidade.
A mãe abraçou-a como fazia quando ela era criança. Ana deitou  a cabeça no seu regaço, e deu largas à sua desilusão, deixando correr as lágrimas. Francisca sentiu um nó na garganta. Apesar dos anos, tinha bem presente o que fora o seu casamento com Jorge. Sabia bem o que era rolar na cama, depois de ter feito amor, pensando que devia estar feliz, mas sentindo apenas que cumprira uma obrigação, que a envergonhava e lhe deixava um aperto no peito que não a deixava adormecer. De forma nenhuma queria isso para a sua menina. Dos seus filhos, Ana era aquela que mais se identificava com ela. A mais sensível. Sentindo que se acalmara, afastou-a um pouco e olhou-a com ternura.
- Se assim é, fizeste bem, Ana. Um casamento é uma coisa muito séria. Bem sei que na atualidade, o divórcio está na ordem do dia. Mas acarreta sofrimento. Deixa cicatrizes. Já contaste ao pai?
- Eu sabia que me ias entender. No fundo, o que eu queria, era um casamento como o vosso. Essa felicidade que transportam no olhar, esse amor visível em cada gesto. Foi sempre assim, ou isso aprende-se com o tempo?
Francisca sorriu: Continuava a ser uma linda mulher apesar de já ter ultrapassado os cinquenta anos.
-No amor, nada se aprende Ana. Ele é espontâneo e avassalador. O tempo não lhe acrescenta, nem tira nada. Somos nós, com as nossas atitudes que o engrandecemos ou o matamos. Compara-o a uma fogueira. Quando começa, as labaredas são altas, o calor intenso. Mas se não fazes nada, à medida que a lenha vai ardendo, as labaredas vão diminuindo de tamanho, o calor vai enfraquecendo até que da fogueira inicial só restam cinzas.
- E é impossível uma fogueira arder só de um lado, - murmurou a jovem desalentada. Para depois acrescentar.
-Contei ao pai, e ficou furioso. Tenho a sensação de que sentia vontade de me bater.
- Está preocupado contigo. É natural. Não te preocupes. No fundo o que nós queremos é que sejas feliz. Estás com muito trabalho? Devias pedir-lhe que te desse umas férias. Precisas espairecer. Porque não fazes uma viagem?
- Agora? E a vossa festa de aniversário?
- Faltam cinco dias. Podias, aproveitar para pôr em ordem algum assunto que tenhas pendente e partir depois da festa.
-Não tinha pensado nisso, Obrigado mãe, fazes com que os meus grandes problemas se tornem menores e menos dolorosos.
Francisca sorriu quando a jovem se inclinou para a beijar murmurando:
-És um anjo.