
Após alguns minutos de indecisão, Olga entrou no gabinete
do empresário e encontrou-o de costas junto à janela. Conhecia-o bem demais, para
não saber que era a atitude que tomava quando alguma coisa o incomodava. Não se
atreveu a perguntar sobre a visita do advogado, limitou-se a recolher o
tabuleiro com as chávenas vazias e a perguntar:
- Precisas de alguma coisa?
Sobressaltado voltou-se. Perdido nos seus pensamentos não
dera pela entrada da sua assistente.
- Não. Pousa isso e senta-te. Preciso falar contigo, -
disse encaminhando-se para a sua secretária e sentando-se.
Olga obedeceu e aguardou. O patrão parecia-lhe tão
transtornado, que apesar de toda a confiança que os unia, não se atreveu a
fazer-lhe perguntas. Depois de um curto silêncio ele perguntou:
- Tu tens mais dez anos do que eu, verdade?
- Quase onze, sabes bem disso, - respondeu Olga sem
descortinar a razão de semelhante pergunta.
- E aos dez, onze anos, as crianças já guardam recordações que ficam
para a vida. Sempre moraste naquela casa?
Cada vez mais intrigada, ela respondeu;
-Nasci lá. Meu pai recebeu-a do meu avô, como prenda de
casamento.
- Tu lembras-te da minha mãe?
- Sim.
- Como era ela? Não me refiro ao físico, mas como pessoa.
- Porque queres saber isso agora, se nunca permitiste a
ninguém que te falasse dela? O que aconteceu? Quem era aquele advogado, e
porque é que quando eu entrei vocês pareciam dois galos de combate antes de uma
luta?
- Mais tarde eu te conto, agora por favor, responde à minha
pergunta.
- Sim lembro-me bem da tua mãe. Era uma mulher de sorriso doce
com uns olhos iguais aos teus, mas tão tristes, que pareciam estar sempre cheios
de lágrimas, embora na verdade nunca me lembre de a ver chorar. Devia ser por
causa das brigas que tinha com o teu pai.
- O quê? Ele maltratava-a? – perguntou levantando-se e
encaminhando-se de novo para a janela.
- Queres saber se lhe batia? Penso que não, pelo menos nem
eu nem a mãe, demos alguma vez por ela ter marcas físicas. Nas sabes bem que muitas vezes nem são os maus tratos físicos os que causam mais danos, A minha mãe, dizia
que a pobre vivia enclausurada por causa dos ciúmes doentios do marido. Ela só
saía de casa acompanhada por ele, e não podia falar com ninguém. Mesmo connosco só o fazia, quando ele
estava na oficina. Hoje quando penso nisso, acho que ela tinha chegado a um
ponto que só tinha dois caminhos à sua frente. Ou fugia para onde ele não a
encontrasse, ou acabava com a vida. E nós nunca acreditámos que ela fugiu com
um amante. Isso foi invenção do teu pai. Um dia no fim da manhã, quando cheguei da escola, encontrei a mãe a
dar-te o biberão. Disse-me que a vizinha lhe pediu se ficava contigo enquanto ia
ao posto médico onde tinha uma consulta. Nunca voltou. Mais tarde a mãe disse que desconfiara de alguma coisa, porque se despediu de ti a chorar.
- Meu Deus, e ele sempre me fez acreditar que
ela era uma galdéria, capaz de nos abandonar para correr atrás de um dos seus
amantes. E mesmo na hora da morte, quando me pediu perdão por não ter sido um
bom pai, me disse que a culpa de ele ter sido assim fora dela, que toda a vida a amara e que depois que ela o abandonara se
sentira morto por dentro e talvez por isso não tivesse sabido ser bom pai.
- Talvez ele acreditasse nisso. A minha mãe sempre dizia
que aquilo não eram ciúmes, era doença.
-Mas vocês cuidavam da casa. Eu sempre pensei que eram
amigas dele.
- O teu pai não era homem que tivesse amizade com ninguém.
E nós cuidávamos da casa, das roupas, da comida, por ti. Diz-me quantas vezes
te lembras do teu pai cozinhar para vós? Tu não terás memória disso, mas até quase
aos quatro anos comias e dormias na nossa casa, como se fosses meu irmão. E durante esses quatro anos ele nunca bateu à nossa porta para perguntar como estavas. Um dia, sem qualquer explicação chegou lá, pegou-te num braço, levou-te para casa e nunca mais te deixou ficar connosco passando a levar-te com ele para a oficina. Mas porque nós víamos a pouca importância que ele te ligava, é que lá íamos fazer a comida e limpar a casa. Era por ti, não por ele.
- Obrigado Olga. Vou
sair. Amanhã ou depois conto-te tudo. Tudo isto é muito doloroso para mim. Agora preciso arrumar ideias, respirar ar
puro.
