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30.11.17

MARIA - PARTE IV

RE-EDIÇÃO

 A mãe da Maria



Naquela noite custei a adormecer. O reencontro com Maria trouxe à tona sentimentos, que na azáfama diária, a gente até esquece. Em tempos houve entre nós uma grande amizade e uma certa cumplicidade. Eu via em Maria a filha que o destino não me quisera dar. Ela via em mim… bom, sei lá o que na verdade ela via em mim. Talvez uma irmã mais velha, talvez a mãe que ela gostaria de ter, talvez tão só, uma amiga muito especial, a quem se confiam segredos, que são só nossos.
Elisa, a mãe de Maria era a única rapariga dos sete filhos que seus pais tiveram. A última quando a sua mãe já desesperava com tanto rapaz. Naquele tempo, sabia-se pouco sobre controle de natalidade, 
os avós de Maria, praticavam o coito interrompido, razão porque a avó sempre dissera que a filha, nascera por um “descuido” do marido, porque a verdade é que na aldeia se dizia que sete filhos rapazes, o mais velho ou o mais novo seria lobisomem, e a pobre da mulher, levou os nove meses, até ao parto, a pedir a Deus que fosse uma menina. Fez até uma promessa de ir a Fátima a pé se obtivesse essa graça. Por isso quando Elisa nasceu foi uma alegria e um alívio sem tamanho.
A menina cresceu, sempre cercada dos cuidados dos irmãos, que a tratavam como se ela fosse uma jóia preciosa e a protegiam de tudo e todos, como se o simples aproximar de alguém lhe pudesse roubar o brilho. Nunca foi brincar com outras crianças, a não ser no pátio da escola, sempre debaixo do olhar protector de um dos irmãos. Já adolescente, não saía de casa, onde a mãe a ensinava a costurar, e a fazer lindos panos de renda, que haviam de ser para o seu enxoval. Aos poucos, os irmãos foram deixando a aldeia, rumo à capital em busca de uma vida diferente. Elisa também sonhava com esse dia, mas como deixar a aldeia? Os pais não deixavam, era o que faltava, uma mulher solta no mundo. Só se fosse casada. Porém os rapazes escasseavam na aldeia. Não foram apenas os seus irmãos, que foram em busca de nova vida. Quase todos os rapazes jovens, o fizeram. Alguns foram até para o Brasil. De modo que Elisa, foi ficando em casa dos pais, e as esperanças de uma vida diferente, iam-se desvanecendo com o passar dos anos.
Um dia, o pai de Elisa sofreu uma trombose e em poucas horas morreu. A mulher enlouqueceu. Os vizinhos diziam que fora do desgosto, os filhos também acreditavam nisso, mas a filha sabia bem, que há largos meses vinha notando, atitudes na mãe, que denotavam a caminhada rumo à demência. A morte do marido, fez com que a caminhada fosse mais rápida, e aquilo que até aí, só a filha notara, passou a ser visto por toda a aldeia.
Elisa cuidou da mãe até ao último momento. Se antes da morte do pai, ela não podia sair, nem ter amizades, porque lhe era proibido, depois ainda que o quisesse, também não o conseguiria. As pessoas olhavam-na com desconfiança e murmuravam entre dentes.
“Coitada, vai acabar louca também”
Depois do funeral da mãe, Elisa arrumou as suas poucas roupas, numa maleta e veio com os irmãos para Lisboa. Tinha vinte e nove  anos de uma vida de repressão e clausura e nenhuma experiência de vida.
Quando dois meses depois, o irmão lhe disse que um amigo queria casar com ela e que ela devia aproveitar, pois em breve envelheceria e já não teria oportunidade de arranjar marido, Elisa aceitou correndo, ansiosa por conhecer uma vida diferente, por ter a sua casa, a sua vida.
Alberto, era um homem bom, trabalhador, que a amou e lhe deu uma vida como ela nunca teve.
Ensinou-lhe a tirar partido da sua beleza, ensinando-lhe como se vestir, para realçar o seu corpo delgado, mas bem proporcionado. Levou-a a um salão, onde lhe cortaram a trança, fazendo-lhe um corte que a rejuvenesceu e lhe tirou aquele ar provinciano, que ostentava quando casou. Também lhe ensinaram como usar um batom e uma sombra para realçar a boca e os olhos, que já de si eram muito bonitos.
Em pouco tempo nada restava da Elisa que a aldeia conhecera. Pelo menos na aparência.
Alberto gostava de sair com a mulher, que exibia aos amigos com orgulho, e a quem fazia todas as vontades, especialmente quando Elisa lhe disse que ia ser mãe.
Porém Alberto não chegou a ver esse bebé nascer. Morreu uma tarde de Julho, quando regressava do trabalho, colhido por um comboio, na passagem de nível, sem guarda.
Elisa julgou enlouquecer de dor e raiva. Dor porque aprendera a amar o marido, e raiva contra o destino que parecia não querer que ela fosse feliz.



Continua





29.11.17

MARIA - PARTE III

 RE-EDIÇÃO


Foto minha, tirada da minha varanda. Ao fundo, o pinhal donde se desce para o rio.


Uma velha amiga

-Boa tarde – saudei ao reconhecê-la. Não me diga que veio ver o pôr-do-sol.
-Olá amiga – respondeu enquanto nos cumprimentávamos. Nem a tinha visto. Estava aqui numa de recordar o passado.
- Às vezes recordar é viver. Veio sozinha? – Perguntei intrigada.
- Estou sozinha, amiga. A minha vida deu uma volta que às vezes nem eu própria acredito. Vamos andando que lhe conto tudo. Na verdade tinha vontade de passar por sua casa. Mas receava incomodar, e por isso vim para aqui.
- Incomodar? Isso nem parece seu. Vamos embora. E janta connosco.
No silêncio que se seguiu dei-lhe o braço e encetámos a caminhada até minha casa. Eu aguardava que ela falasse. Há quanto tempo não a via? Oito, dez anos, talvez. E admirava-me vê-la sozinha. E o marido? Porque não estava com ela?
- Estou divorciada.
Parei. Era surpreendente. Maria sempre tivera esse dom. Adivinhar os meus pensamentos. Quando criança, era uma espécie dum jogo, depois foi transformando-se num hábito. Quantas vezes pensei dizer-lhe alguma coisa, e ela me respondia antes que eu concretizasse a pergunta? Tantas que lhe perdi a conta. Era como se para ela os meus pensamentos estivessem escritos na testa. O contrário também acontecia por vezes. Mas era muito raro.
Naquele momento a minha surpresa era pelo teor da informação.
Conheci-a há quarenta anos atrás. Ela era uma menina e eu mulher feita e casada. Gostei dela assim que a vi, com aquele instinto maternal que nós mulheres temos e que nos faz olhar as crianças e pensar nelas como se fossem um pouco nossos filhos. Ela também se afeiçoou a mim e foi crescendo e alimentando a amizade que nos unia.
Maria não era uma mulher de grande beleza embora fosse considerada uma mulher bonita. Rondaria o metro e sessenta de altura, de corpo esbelto, rosto oval, olhos verdes rasgados e boca bem desenhada, que mostrava ao sorrir uma longa fileira de dentes alvos. Testa alta, cabelo curto e liso, escuro. O nariz, um pouco comprido, destoava e retirava grande parte da beleza do rosto.
Estava casada há quase quinze anos e ela e o marido formavam um dos casais mais apaixonados que eu conhecia. Por isso a sua informação me surpreendeu tanto. Caminhámos em silêncio, eu esperando a confidência, ela perdida nos tortuosos caminhos das suas recordações.
- Não sabe o quanto tenho sofrido. A minha vida desandou e eu fui caindo, caindo até bater no fundo. Agora estou tentando voltar a sentir gosto pela vida. Mas está difícil.
Chegámos a casa, onde o meu marido já me esperava para jantar. Também ele ficou surpreso com a presença da minha amiga, mas discreto não fez perguntas.
O jantar decorreu numa animação forçada. Maria esforçando-se por mostrar uma alegria que não tinha, e nós fingindo que acreditávamos. O serão decorreu sem qualquer confidência da sua parte, talvez pela presença do meu marido, e combinamos encontrar-nos no dia seguinte, para ela “lavar a alma” palavras suas, ditas baixinho, enquanto me abraçava na despedida.

Continua



28.11.17

MARIA - PARTE II

RE-EDIÇÃO


A Surpresa


A praia fica uns dois metros abaixo do nível da Quinta. Por isso as águas do rio, nunca iam até às oliveiras, mesmo nas marés vivas de Agosto, ou quando estava mau tempo no Inverno. O mesmo não se passa do outro lado da azinhaga onde começa a Seca que ali naquele sítio está ao nível do rio.Daí que um pouco mais à frente onde as cassas e armazéns da Seca começam, o arame farpado dê lugar a uma parede de cimento que nós chamávamos muralha.  Mas ali naquele canto, onde hoje apenas se vêm ervas, existia o grande barracão de madeira onde meus irmãos nasceram e onde habitámos durante toda a nossa infância. Por isso ele estava assente em pilares de cimento, com mais de mais de um metro de altura. Para que não acordássemos em dia de marés grandes, dentro de água.

Atravessei a azinhaga e mergulhei os pés na faixa de areia, agora bem pequena, e transportada para lá por camiões da Câmara, já que a areia original da praia, desapareceu toda com o empurrar do rio para o lado de cá pelos aterros da Siderurgia Nacional. Fui caminhando lentamente. As águas de tão calmas pareciam artificiais. O sol estava prestes a desaparecer no horizonte e deixava nelas um rasto avermelhado, como uma estrada de fogo.
Sentei-me na areia entre dois tufos de junco, e perdi-me nas minhas recordações. Lembrei-me daquela vez em que saí de casa para apanhar amoras naquelas silvas do outro lado da cerca, e fiquei presa nelas sem conseguir desenvencilhar-me dos picos que me prenderam a saia. Não me recordo que idade tinha, mas era muito pequenina. Chorei tanto com medo que ninguém me encontrasse. E os meus pais aflitos percorrendo a margem do rio pensando que eu teria ido para lá e quem sabe estaria afogada.

“Vi” o meu irmão, brincando sozinho com a areia, abrindo poços e fazendo construções, e a minha irmã escondendo-se com medo dos GNR, que vinham de vez em quando a cavalo até à Seca, onde se reuniam com a Guarda-fiscal, cujo posto ficava no topo norte da malta das mulheres. “Vi” o grande barracão lá bem no cantinho, encostado à cerca, e o portão que aí havia e que a minha mãe abria todas as manhãs para o pessoal que vinha do Barreiro a pé pela Caldeira do Alemão para trabalhar na Seca. Quando passava a última pessoa, a minha mãe fechava o portão e ia com ela para o trabalho na Seca. À noite saía um pouco mais cedo e vinha na frente para abrir o portão.

Lembrei do quintal enorme que meu pai cultivava, do feijão verde, que nós comíamos cru sempre que alguma vagem nos chamava a atenção, ou quando tínhamos fome e os pais ainda não tinham vindo do trabalho, os tomates as cenouras, e até as cebolas que comíamos, com um pouco de sal.

“Vi” o meu pai encostando uma escada de madeira ao barracão, subir ao telhado e colocar lá a bandeira do seu clube, naquele ano em que o Porto foi campeão na década de 50. Era tão raro naquela altura o F.C.P. ganhar alguma coisa.

O sol desaparecera no horizonte, o dia prestava-se para dar lugar à noite, e decidi regressar a casa.

Ao chegar à Quinta quedei-me surpreendida. Na minha frente levantava-se a mulher que me intrigara uma hora antes. E era afinal uma velha conhecida…


Continua

27.11.17

MARIA - PARTE I


 RE-EDIÇÃO
                                              foto minha


Regresso ao passado

Foi num fim de tarde de Setembro, quando o Verão caminha já ao encontro do Outono. O dia estivera bonito, um sol radioso, mas já sem aquele calor abrasador do pino do Verão.
Aí pelas seis da tarde, a saudade invadiu-me o peito e aos poucos foi-se instalando, qual erva daninha, alastrando na horta. Saudade dos meus tempos de menina, vivendo à beira-rio, do pôr-do-sol tingindo de vermelho as calmas águas, do cheiro a limo, do bater dos remos dos pescadores.
Eu não sou mulher de ficar remoendo a saudade, quando estou numa situação privilegiada para ir até lá passear um pouco na praia, molhar os pés na água, e quem sabe encetar uma viagem ao passado das minhas recordações e aos meus tempos de menina.
Peguei nas chaves, e num livro. Não porque estivesse a pensar ir ler para a beira-rio, quando o entardecer se apressava, mas porque sempre considerei um livro como um amigo, e ter um amigo por perto sempre foi um amparo para as minhas emoções.
Desci os dois lances de escada, atravessei a estrada, e entrei na quinta que me ia levar à margem do rio Coina, uns metros adiante. Enquanto caminhava pela quinta, que de quinta apenas tem o nome, pois se trata de um descampado de uns quatrocentos  metros ao fundo do qual um pinhal dava inicio à descida acentuada que terminava lá bem na margem do rio, uns trezentos metros adiante.
Desci quase correndo levada pela urgência das recordações.
No fundo a todo o comprimento da quinta, uma fileira de oliveiras que as pessoas utilizavam como sombra, quando no Verão procuravam a praia. Em tempos, aquela quinta era chamada a Quinta do Xavier, e da parte de cima das oliveiras, havia imensas figueiras, com cujos frutos os meus irmãos, e todas as outras crianças pobres do sítio se deliciavam. Porque aquela quinta sempre foi pública. Uma azinhaga servia de caminho para quem descia da Telha para a praia. E no Verão aquela praia ficava tão povoada como a melhor praia da actualidade. A extensa fieira de oliveiras, e as imensas figueiras serviam de sombra para as pessoas acamparem por baixo e fazerem belos piqueniques sob a sua sombra. Claro que isto foi há muitos anos atrás,  antes da Siderurgia Nacional se ter instalado no Seixal, o que empurrou o rio para a Quinta do Xavier e roubou a bela margem de areia da praia. Também o progressivo desenvolvimento do Barreiro, com o consequente aumento de esgotos para o rio, transformou a ótima qualidade de água, em qualquer coisa, imprópria para o banho.
Do outro lado da azinhaga, a cerca de marcos com arame farpado, que delimita a antiga Seca do Bacalhau da Azinheira Velha. Mesmo junto à cerca, ficava o barracão onde vivi a minha meninice, e onde nasceram meus irmãos. Parei ali por momentos, olhando para o passado, ouvindo o som da briga dos meus irmãos, o barulho da corrente do cão, correndo pelo arame, quando ele corria, dum lado ao outro do barracão.
De súbito, voltei ao presente com um leve som, e fiquei surpresa ao notar que não estava sozinha. Ali ao lado debaixo de uma oliveira, sentada no chão, uma mulher que me pareceu ainda jovem, mas que escondia a cara nos joelhos fletidos. Parecia que não tinha dado por mim e como eu também não estava interessada noutra coisa que não aquele regresso ao passado, resolvi afastar-me em direcção à água, não sem antes ter lançado um novo olhar à figura e me ter parecido achar-lhe qualquer coisa de familiar.


Continua

AVISO AOS LEITORES:


Nesta história, tudo o que escrevo na primeira pessoa, é verdade, faz parte da história da minha vida.
A Maria não existe , é a parte de ficção da história. 
O engraçado é que quando publiquei a história, há quase quatro anos, recebi um e-mail de alguém que me perguntava se eu a conhecia, porque me garantia que a sua história era igualzinha à que eu descrevera. Espero que essa pessoa esteja bem.

26.11.17

CONVERSANDO CONVOSCO.




Ontem chegou ao fim mais uma das minhas histórias. Foi a décima terceira escrita este ano.  De momento não tenho nenhuma outra escrita. Começaram as aulas e as atividades da Universidade Sénior, e o tempo escasseia, até porque dia 10 do próximo mês volto para o Algarve e lá não tenho internet. 
De modo que pensei reeditar um dos contos mais antigos. Tenho alguns leitores fiéis que me acompanham há anos e para esses pode ser aborrecido, se ainda se lembrarem da história, mas também tenho muitos novos leitores que decerto gostarão de ter uma outra história para ler. Depois daqui a pouco começam os post natalícios e uma história nova só chegará em Janeiro
Assim sendo aí vai a pergunta:
Quem quer a reedição?
Termino com um muito obrigada pelo vosso carinho e companhia.

Ainda se lembram das histórias deste ano?


UMA HISTÓRIA DE AMOR
UMA NOITE DE INVERNO
LONGA TRAVESSIA
CASAMENTO POR PROCURAÇÃO
OS CAMINHOS DO DESTINO
JOGO PERIGOSO, 
NA HORA EM QUE O GALO CANTOU
SONHO AO LUAR
SINFONIA DA MEMÓRIA
 DIVIDA DE JOGO
À MÉDIA LUZ
A RODA DO DESTINO
ARMADILHAS DO DESTINO


NÃO VOU REEDITAR NENHUM DESTES QUE SÃO MUITO RECENTES . MAS UM COM TRÊS OU QUATRO ANOS.


PARA TODOS VÓS UMA EXCELENTE SEMANA

25.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXX



Muito tempo depois, Nuno acariciava com o polegar o contorno do rosto feminino.
- Estás feliz? – Perguntou
- Sim. Tão feliz que tenho receio de que isto não passe de um sonho do qual vou acordar a qualquer momento. E tu?
- Tenho nos braços a mulher que sempre amei, que acabou de me demonstrar, que me quer com igual intensidade, sem se importar nada com a minha deficiência. Como não hei-de estar feliz? A sensação que tenho, é que andei à deriva durante longos anos e acabo de chegar a um porto seguro.
A mão dela, pousou no peito dele, iniciando uma carícia que o fez estremecer. Nuno pousou a sua mão sobre a dela:
- Pára. Assim não consigo raciocinar e preciso de te perguntar uma coisa.
- Achas que serias capaz de viver aqui?
Fez uma pausa, para um breve beijo e continuou:
- Ouve-me com atenção. Tens que saber que há um determinado número de coisas que nunca vou conseguir ultrapassar. Por exemplo, não podes contar comigo para ir contigo à praia, ou para te carregar ao colo, para a cama. Sabendo isso, aceitas casar comigo?
- Agora mesmo se fosse possível. Não preciso de que me carregues ao colo para a cama, já o fizeste há muitos anos, quando eu era uma menina sonhadora.  A praia não me fez falta até agora, também não me fará no futuro. Podemos sempre passear pelo campo, pela cidade. Compreendo que ainda estejas traumatizado, o acidente é relativamente recente. Com o tempo vais encarar essa tua limitação com naturalidade e vais arranjar maneiras de rodear as dificuldades, e eu estarei sempre a teu lado, com todo o meu amor. E sim viveria feliz nesta casa, ou em qualquer outro local, porque o lugar não me importa desde que esteja a teu lado.
Em resposta, ele beijou-a apaixonado. As mãos perdendo-se no corpo amado em carícias cada vez mais ousadas, que ela retribuía com igual paixão, cada um desfrutando do corpo do outro, no ritual mais antigo do universo



Epilogo



Um ano mais tarde, Nuno apertava a mão de Luísa, pronunciando palavras de amor e incentivo, quando de súbito se ouviu o choro de um bebé.
- É um rapagão, - disse a médica que fizera o parto, entregando o bebé à enfermeira que o colocou nos braços maternos, sob o olhar embevecido do pai.
- É lindo, o nosso filho, não é verdade?- Perguntou Luísa olhando amorosa o marido.
- É o bebé mais bonito que vi em toda a minha vida, meu amor, - sussurrou ele emocionado.
Uns minutos mais tarde, a enfermeira interrompeu-os.
- Pronto, mãe, preciso levá-lo agora, o pediatra vai examiná-lo, e precisamos cuidar dele e vesti-lo, - disse a enfermeira, tirando-lhe o recém-nascido dos braços. – Já lho trago, daqui a pouco.
- Está tudo bem, podem levá-la para o quarto, - disse a médica retirando as luvas. E voltando-se para Nuno, acrescentou. Parabéns colega. Acompanha a sua esposa ao quarto, ou quer ir até à sala onde o pediatra examina seu filho?
-Vou com a minha esposa. Confio plenamente no colega que o vai examinar. Gostaria que no-lo trouxessem logo que tenham acabado.
Pouco depois no quarto, quando a enfermeira os deixou a sós, enquanto esperavam pelo filho, Nuno beijou a esposa com ternura.
- Descansa querida, deves estar cansadíssima. Dez horas a sofrer, é uma tortura muito grande. Esquece os nossos sonhos de três filhos. Nunca mais te quero ver a sofrer assim.
Cansada,  mas feliz, ela respondeu:
- Nunca se desiste dos sonhos, amor. E sabes de uma coisa? Quando a enfermeira me pôs o João nos braços esqueci tudo, excepto que nos amamos e que aquele pedacinho de gente era o fruto do nosso amor.
Emocionado ele murmurou com devoção
-Minha vida! Meu amor!



Fim

Elvira Carvalho


ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIX





- Vamos guardar as tuas coisas? - Perguntou Nuno estacionando o carro uma hora mais tarde frente a um moderno edifício. 
Pegou na maleta, entraram no átrio e subiram no elevador, até ao primeiro piso. Nuno abriu a porta, e deu passagem à jovem fechando a porta atrás de si.
Encostou a mala à parede, e pegando-lhe na mão, disse:
- Vem conhecer a casa. Aqui temos a sala, é aqui que passo algum do meu tempo livre, ouvindo música ou vendo televisão.  Ali ao canto é a zona de refeições não tenho uma divisão específica para elas, como nunca recebo visitas, acabo sempre por comer na cozinha.
Voltaram ao vestíbulo onde ele apanhou a mala dela e abriu a porta em frente  mostrando um quarto, onde a enorme cama de casal se destacava..
-Aqui é o quarto principal, - disse pousando a mala dela  ao lado da cama - É o único com casa de banho integrada..Mandei fazer-lhe  algumas adaptações na cabine do duche, para me facilitarem a vida. Agora vem conhecer o resto da casa. No vestíbulo abriu outra porta.
- Aqui, é o escritório e biblioteca. É aqui que tenho os meus livros de medicina, que leio ou estudo, e que comunico com médicos de outros países, sobre as mais recentes descobertas científicas. Tenho mais duas divisões,- disse fechando a porta do escritório. Abriu outra em frente - Este como vês, é um ginásio, com os aparelhos necessários ao tipo de exercícios que preciso, - fechou a porta e abriu a seguinte, - e aqui o quarto de hóspedes  que nunca foi usado, vivo aqui há pouco tempo.  Aqui ao lado fica a casa de banho, e a porta mais à frente, é o meu laboratório como verás em seguida. 
- E não tens cozinha? - perguntou Luísa espantada
- Claro que sim, -  disse ele rindo. Chamo-lhe o laboratório porque gosto de me entreter a inventar receitas, nos meus tempos livres.
Abriu a porta e Luísa entrou na cozinha, maravilhada com o seu tamanho e funcionalidade.
- A casa é toda ela muito bonita. Mas  esta cozinha então, é o sonho de qualquer mulher. A minha casa como sabes é muito antiga. Fiz obras e modernizei a cozinha, mas é pequenina como viste.
Voltou-se e ficou presa nos braços dele, que estava mesmo atrás de si. Nuno inclinou a cabeça e os seus lábios aprisionaram a boca feminina, num beijo que se queria doce, mas que a paixão transformou num beijo intenso. A sua língua invadiu a boca feminina, com a mesma paixão de outrora. Ela levantou os braços, acariciando-lhe a nuca. As mãos de Nuno passeavam pelo corpo feminino,ora acariciando-lhe os seios através do fino tecido do camiseiro, ora descendo às ancas. Os seus corpos, procuravam-se como atraídos por um íman. Por fim, Nuno largou-a e voltou-se. Luísa percebeu que tinham voltado os seus receios. Pegou-lhe na mão e disse:
- Se tens algum carinho por mim, se ainda me desejas, vamos para o quarto. Agora. Acabemos de vez com esta agonia, que nos consome. Porém se não me queres, se não me desejas, diz-me e eu vou-me embora agora mesmo.
- Se não te quero? És a única mulher que amei em toda a minha vida. Meu Deus, nunca desejei nada com tanta intensidade na minha vida, como te desejo.
-Então vem.
Entraram no quarto, entre beijos apaixonados, Nuno começou a despi-la, sempre procurando nos olhos femininos algum sinal de medo ou rejeição. Porém Luísa, não sentia medo, sabia que o homem que a acariciava era incapaz de lhe fazer mal.
Completamente nua, deitou-a na cama dizendo:
- Dá-me uns minutos, enquanto vou à casa de banho, retirar a prótese.
Recostada nas almofadas, Luísa viu-o regressar uns minutos mais tarde, apoiado nas duas canadianas, o rosto pálido, os belos olhos escrutinando o rosto feminino, temeroso do que ela pudesse estar a sentir. Ela sorriu-lhe. Um sorriso terno, amoroso, de quem acolhe alguém que ama, e lhe dá
as boas-vindas. Mais confiante, ele retribuiu o sorriso. 



24.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVIII


Afastou-se deixando-o só. Olhou à sua volta. Nervoso, sem vontade de se sentar, dirigiu-se para a janela, de onde podia observar o movimento na rua. Ensimesmado, nem se apercebeu do tempo decorrido.
-Demorei? - Perguntou Luísa, à entrada da sala.
- Não.
Caminhou até ela, olhando-a com admiração. Passou um braço ao redor da sua cintura, atraindo-a suavemente.
- Penso que podíamos passar o fim-de-semana, juntos. Queres?
- Sim,- respondeu trémula, sem deixar de o olhar.
- E não queres ir buscar algumas coisas pessoais?
- Não queres ficar aqui?
- Não. Prefiro o meu apartamento.
- Então vou pôr algumas roupas numa maleta.
Ele soltou-a e ela afastou-se, voltando pouco depois, com uma pequena mala, que pousou no chão. Foi à cozinha fechar a torneira do gás, ele pegou na maleta e dirigiu-se para a porta da rua.
Saíram. Ele colocou a mala na bagageira, enquanto ela fechava a porta e se dirigia ao carro. Entrou e colocou o cinto de segurança, ao mesmo tempo que ele se sentava ao volante, e fazia o mesmo. Voltou-se para ela.
- São horas do lanche. Conheces algum sítio sossegado, onde o possamos fazer?
- Podemos ir à Padaria Portuguesa. Tem uma grande variedade de sandes em pães de diferentes massas, e se preferires bolos também não falta por onde escolher.
- É longe?
- Não. Nos segundos semáforos, viras à esquerda.
- Então vamos lá, - disse pondo o veículo a trabalhar.
Rodaram em silêncio durante alguns minutos. Depois…
- O Dinis já retomou as aulas? Tem-se portado bem?
- Sim, claro. É muito ajuizado, ou tem muito medo de voltar ao hospital. O certo é que tem imenso cuidado. Graças a Deus o avô melhorou, e a avó pode dedicar-se mais a ele.
Tinham chegado à pastelaria. Nuno estacionou um pouco mais à frente pois junto do estabelecimento não havia qualquer lugar vago.
- Acreditas que estou extremamente nervoso? – Perguntou enlaçando-a, e dirigindo-se ao estabelecimento.
- Porque não havia de acreditar? Estou na mesma. Apesar disso acredito que vai dar tudo certo. Sabes, penso que não pode ser por acaso que voltamos a encontrar-nos tantos anos volvidos e tanto sofrimento passado.
- Gostava de ter essa mesma fé, Luísa. Mas vamos em frente. Pode ser que, como diz o poeta, hoje seja o primeiro dia do resto das nossas vidas.



NOTA 
Parece que estão todos ansiosos por ver o fundo ao tacho, que é como quem diz ler o fim deste conto.
Para os que todos os dias me apressam, Tenham calma, a história acaba amanhã à noite.
Bom fim de semana para todos.

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVII


Telefonou pouco antes das quatro da tarde, quando estava a acabar o turno. Ela atendeu ao segundo toque.
- Sim.
- Olá, como estás?
- Esperando…
- Estou a ligar por isso, Vou sair agora. Estás na escola?
- Ouves a campainha? As aulas estão a terminar agora.
- E vais para casa?
- Vou.
- Vou lá ter contigo. Pode ser?
- Penso que fui muito clara naquele dia, Nuno. 
- Está bem. Até já. Beijo.
Desligou sem esperar resposta.
Luísa ficou uns segundos a olhar para o telemóvel. Depois apressou-se a guardar o material que estivera a usar. Pegou na mala e levantou-se para sair, no momento em que a auxiliar entrava na sala para a limpeza da mesma.
Na saída saudou a outra auxiliar que ao portão impedia as crianças de saírem sem antes identificar o familiar que as viera buscar e entrou no carro.
Estava nervosa. Tinha noção de que algo na sua vida ia mudar muito em breve, fosse qual fosse a decisão que Nuno tivesse tomado. Dentro de dias, faria trinta e cinco anos. Alguns diriam que estava na plenitude da vida. Porém não era assim que ela se sentia.
A verdade, é que a vida teimara em ser para ela, como as bruxas más dos contos de infância. Tempos atrás, pensando que Nuno tivesse casado e fosse feliz, ela só pensava nas suas aulas, nas suas crianças, e era feliz. Mas o reencontro com o homem que sempre amou, o saber que ele não tinha qualquer compromisso de ordem amorosa, despoletou o vulcão adormecido no seu peito. As aulas, as crianças, as reuniões com as colegas, já nada lhe bastava. Ela precisava de algo mais que a completasse. Algo que ela pensou ter morrido, com a má experiência do passado, mas que renascia agora mais forte que nunca.
O que ele lhe contara no último encontro, chocara-a. Como não? Saber que uma pessoa, perde um membro por causa de uma mina, que os senhores da guerra deixaram esquecida como objeto inofensivo choca sempre. Mas isso não alterou em nada o que sentia por ele. Ou talvez sim, pois a admiração que sempre sentiu por ele era agora bem maior.
Mas e ele? Conseguiria algum dia livrar-se daquele sentimento de inferioridade, que a mina lhe deixou no lugar da perna?
Tantas interrogativas passavam pela sua cabeça, enquanto conduzia a caminho de casa. Precisavam fazer amor. Luísa sentia que era a única coisa que podia por tudo nos seus devidos lugares, para o bem ou para o mal. Só nesse momento intimo, ela saberia se o amor que sentia por Nuno, era maior do que o medo das lembranças que o acto em si, despoletaria. Acreditava que acontecesse o mesmo com ele.
Finalmente chegou ao estacionamento do seu prédio. Nuno já tinha chegado. Saiu do carro mal ela estacionou o veículo. Deu a volta ao carro, e abriu-lhe a porta.
- Olá, – disse saudando-a com um leve roçar dos lábios, pelos seus. - Tive tantas saudades tuas. Vim buscar-te. 

- Olá. Está um trânsito  infernal. Onde vamos? - Perguntou abrindo a porta de casa. Sem esperar resposta, acrescentou.
- Espera-me na sala. Vou tomar um duche e mudar de roupa. Não me demoro.



23.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVI


Acordou encharcado em suor, com uma tremenda dor na perna esquerda. Cerrou os punhos, grunhindo uma maldição. Sabia que estava a ser vítima da DMF, a dor do membro fantasma. Tinha-a sentido várias vezes ao longo daqueles quase dois anos, primeiro com frequência, depois mais espaçadamente. Como médico sabia que na maioria dos casos a DMF desaparece por volta dos dois anos e ele estava quase a fazer dois anos que tinha sido amputado, daí que pensava já ter passado essa fase.
As picadas eram horríveis, sentia como se lhe estivessem a coser a perna a sangue frio.
Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e retirou um comprimido que engoliu mesmo sem água. Depois mergulhou a cabeça na almofada para abafar os gemidos. Maldita dor.
Meia hora depois, a dor cessou. Nuno sentou-se na cama. Dormira nu, as noites estavam quentes, e ele sempre gostara de dormir assim. Pegou nas canadianas e dirigiu-se à casa de banho. Tomou um duche enxugou o corpo, e colocou a prótese que todas as noites tirava, desinfetava e deixava na casa de banho, pronta para usar após o duche matinal 
Habitualmente fazia uma hora de ginásio antes do duche. Para isso tinha montado aparelhos especiais numa das divisões do apartamento, de modo a cumprir um plano de fortalecimento muscular adaptado ao seu caso.
Porém naquele dia, por causa da DMF, não foi ao ginásio. Vestiu-se e saiu. Era sexta-feira, dia de consultas externas, não tinha cirurgias marcadas, só precisaria ir ao bloco se aparecesse alguma urgência. Tomaria o pequeno-almoço, na pastelaria perto do hospital, pois também era à sexta-feira, que a sua mãe chegava logo de manhã para receber o pessoal da empresa de limpezas, que lhe tratava da casa e das roupas, e ele evitava sempre encontrar-se em casa a essa hora.
No dia seguinte fazia quinze dias que literalmente tinha fugido da casa de Luísa, e ainda não tinha tomado uma decisão embora estivesse cheio de saudades dela. 
Pensava que o ser humano é muito complexo. Durante anos ele vivera, amaldiçoando  a jovem e sem qualquer desejo de a reencontrar.
Mas bastou encontrá-la, saber que ela não terminara com ele por ser uma leviana como ele julgara, nem por vontade própria, que o que acontecera tinha sido uma armadilha do destino, na qual os dois acabaram presos, para esquecer todo o rancor acumulado, todo o sofrimento, que o fizera expor-se ao perigo com absoluto desprezo pela vida, e apenas desejar estar junto dela, amá-la e protegê-la.
Mas e ele? Quem o protegeria, da compaixão ou até quem sabe se de sentimento pior, da parte dela, quando visse o seu coto em vez da perna? Não aguentava aquela tensão. Até ao fim do dia, ia tomar uma decisão. A vida não espera, nem se pode adiar.


22.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXV





Levantou-se e foi até á janela. Por momentos o silêncio pesou sobre eles. Depois Luísa levantou-se e foi até ele. Pôs-lhe a mão no ombro.
- Olha para mim, Nuno. Olha-me bem nos olhos e diz-me o que vês? É por acaso compaixão? Eu olho para ti e vejo o homem maravilhoso que sempre foste. Um homem bom, um idealista que pôs toda a sua vida ao serviço dos outros, salvando dezenas ou centenas de vidas. Um excelente médico que ainda há pouco tempo salvou a vida dos meus alunos. Um homem que apesar de tudo ainda me olha com amor. Isto é o que vejo, e será o que qualquer pessoa verá. A prótese? É mais um testemunho da excelente pessoa que és.
-É fácil falar assim. Estás a ver-me vestido, e graças a Deus que me adaptei bem, nem sequer claudico, ninguém imagina que não estou inteiro. Mas já me imaginaste na intimidade, quando formos para a cama? Já te imaginaste a fazer amor com um aleijado?
- Parece-me que o aleijão está mais na tua cabeça do que na perna. Imagino que o teu orgulho, não te deixou ter acompanhamento psicológico. Desde quando um homem é, ou deixa de ser inteiro, por uma perna ou um braço amputado? Se tivesses uma doença mental, que não fosses capaz de reconhecer o bem do mal, que fosses incapaz de sentir qualquer sentimento, aí sim, dir-se-ia que não estavas inteiro. Tens medo de ir para a cama comigo? Acaso pensas que eu também não tenho medo? Que eu não penso se tudo o que passei não me tornou numa mulher frígida? Disseste há pouco que o amor que nos uniu, ainda está latente entre nós. Eu sei que sempre te amei, embora tivesse perdido as esperanças de algum dia voltar a encontrar-te. Mas a vida se encarregou de nos conduzir a esta encruzilhada, e só vejo dois caminhos a seguir. Ou  damos uma hipótese, ao amor que ainda nos une, fazendo renascer os sonhos que tivemos em comum, de sermos felizes, ou nos recolhemos cada um à sua toca e levamos o resto da vida a lamber as próprias feridas.  
Calou-se. Ficaram assim frente a frente, fitando-se, olho no olho, durante largos minutos.
- Tens coragem para arriscar? – Perguntou ele com voz rouca
- Pensas que te abriria o coração desta maneira se assim não fosse? Mas não se trata apenas de mim. Nem tu, nem eu sabemos como vou reagir na intimidade. Tu também tens muito a arriscar.  Agora é melhor que te vás. Pensa em tudo o que falámos, aqui, esta noite. Esquece os teus complexos. Interroga o teu coração e a tua mente, e vê se tens coragem para arriscar a única hipótese que ainda temos de ser felizes. E quando tiveres a certeza do que queres, sabes que estou sempre aqui.
Ele não respondeu. Encaminhou-se para a porta. Aí chegado, rodeou-lhe a cintura com um braço e puxou-a para si. Lentamente baixou a cabeça, e aprisionou a boca feminina, num beijo  que ele desejava fosse uma terna despedida, mas que se tornou intenso e apaixonado ao encontrar correspondência.
Subitamente largou-a, e saiu batendo a porta.




21.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO- PARTE XXIV



- Deixa-me pelo menos levar-te a casa. Precisas de um chá ou talvez uma bebida mais forte. Toma, enxuga o rosto, - disse estendendo-lhe um lenço. De seguida pôs o carro a trabalhar e conduziu direto à casa dela. Estacionou junto à porta, e apressou-se a dar a volta ao carro para a ajudar a sair.
- Dá-me a chave. Eu abro a porta.
Procurou a chave na mala e deu-lha. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. Ela acendeu a luz enquanto ele fechava a porta.
- Diz-me onde é a cozinha e vai para a sala. Tenta acalmar-te e lembra-te que não tens que dizer mais nada, a não ser que o queiras fazer.
- Eu sei. Mas preciso de o fazer. A cozinha é por trás dessa porta.
Entrou na sala e sentou-se no sofá. Recostou a cabeça e cerrou os olhos. Pouco depois Nuno entrou na sala com um tabuleiro com duas chávenas de chá, que colocou em cima da mesa. Estendeu-lhe uma chávena e pegando na outra sentou-se no cadeirão em frente.
- O homem com quem meu pai me casou, já era viúvo. A primeira mulher de Álvaro suicidou-se. Dizia-se que sofria de uma depressão grave. O que não era de admirar se como acredito, passou pelo mesmo que eu.
Luísa falava devagar em voz baixa, quase como se estivesse esquecida do homem que estava na sua frente, e falasse consigo mesma.
- Foram quatrocentas e vinte e sete noites de terror, contadas uma a uma, como o condenado, que espera o dia da execução. Estava desesperada, só pensava em morrer. Sabes que me tentei matar? Não aguentava mais e atirei-me do carro em movimento. Penso que foi a minha atitude,  que fez com que Álvaro se descontrolasse, e perdesse o controlo do carro. Ele saiu da faixa em que seguia e foi embater num camião que vinha em direção contrária. Todos os dias agradeço a Deus a sua morte. Tive acompanhamento psicológico durante anos, mas continuei com medo dos homens. Isolei-me e dediquei-me unicamente aos meus alunos. Hoje foi a primeira vez que saí, e não sei porquê, não senti medo de ti, nem sequer quando me abraçaste no carro.
- Meu Deus, Luísa! Quanto sofrimento. Comparado com isso, aquilo  por que  passei não foi nada. Penso que não tens medo de mim, porque o amor que nos uniu, ainda está latente dentro de nós. Meu Deus, como eu gostava de te tomar nos meus braços, e apagar todo esse sofrimento. Mas não posso. Porque ainda há algo que precisas saber. Há dois anos, no Zimbabwe, chamaram-me para ir ver uma criança num musseque nos arredores de Harare, que estava muito mal. e verifiquei que ela tinha que ser operada de urgência pois corria o risco de uma peritonite. Tinha que a levar para o hospital. No Zimbabwe como em Angola existem milhares de minas terrestres espalhadas pelos campos. Nunca cheguei ao hospital com aquela criança. Fui vítima de uma mina. Perdi a perna esquerda até à parte de cima do joelho. Estive mal. Não apenas no físico, mas também psicologicamente. Não conseguia aceitar. A minha perna esquerda não existe. É uma prótese. Só os meus pais o sabem, mas nem eles nunca me viram sem roupa. É por isso que não te posso oferecer um futuro. Não sei viver com a compaixão, não suportaria ver pena nos teus olhos, quando me visses nu.





ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIII




O resto da refeição decorreu quase em silêncio.
-Está uma noite demasiado bonita para irmos já para casa. Queres ir dar uma volta? Podíamos ir pela marginal, talvez até Belém, o que achas? – Perguntou Nuno quando saíam do restaurante.
- Já te disse que não costumo sair à noite. Confio em ti. Vamos onde quiseres desde que não chegue muito tarde a casa.
- Tens medo que a carruagem se transforme em abóbora?
- Não. Tenho medo de sonhar. Nem eu uso sapatos de cristal, nem tu és um príncipe apaixonado.
Fora direta. Ele engoliu em seco. Não podia responder de igual modo. Os seus sentimentos estavam confusos. A barreira que erguera à sua volta, explodira em milhares de bocados, como se fora de cristal. Ficara a lembrança do seu corpo macio, dos seus beijos ingénuos e simultaneamente apaixonados. Da confiança com que se lhe entregava. Sentiu que o seu corpo reagia aquelas lembranças. Passou a mão pela testa, como se assim eliminasse aquelas imagens.  Conduziu até Belém e estacionou no jardim em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Voltou-se para ela:
- Vamos conversar, Ser diretos e expurgar de uma vez o passado. Precisamos disso, como do ar que respiramos. Eu pelo menos preciso. Começas tu ou eu?
- Começas tu. 
- Muito bem. Já me disseste que o teu pai te forçou a acabares comigo e te marcou o casamento com outro homem. Lamento sinceramente que não tenhas tido a coragem de me dizer a verdade. Teria tentado demover o teu pai, dessa ideia, e ainda que o não conseguisse não teria levado anos a amaldiçoar-te, julgando-te uma leviana que tinha troçado dos meus sentimentos. Por não teres tido a coragem de seres sincera, perdi a confiança nas mulheres e renunciei à hipótese de formar uma família, ter filhos. Calculas o que foi a minha vida durante estes dezasseis anos? Não te será estranho que quando pensava em ti apenas sentisse raiva e desejos de me vingar provocando-te o máximo sofrimento. Cada vez que te imaginava casada, dando a outro o que já tinha sido meu, sentia vontade de te matar. Graças a Deus que estava longe. Se estivesse aqui, talvez agora estivesse numa prisão.  
As lágrimas corriam silenciosas pelas faces de Luísa, quando tomou a palavra.
Não penses que sofri menos do que tu. Também não vou dizer que sofri muito mais, o sofrimento não se mede a metro. Mas tu eras maior e livre. Pudeste partir e de certa maneira estavas a realizar o sonho da tua vida, decerto de algum consolo isso terá servido. Eu não tinha ninguém. Meu pai casou-me com um monstro. O meu casamento durou catorze meses, mas para mim foram mais que catorze anos. Uma infinidade de tempo, em que o sofrimento era tanto que quase enlouquecia.
De súbitos desabotoou os botões do casaco e abrindo-o, expôs aos olhos do homem a parte superior do corpo, apenas coberto pelo sutiã de renda e cheio de cicatrizes.
-Olha para o meu corpo Nuno. É assim que o recordas? – Perguntou com voz rouca. - Estas são as marcas da felicidade que o meu marido me deu.
Voltou a abotoar o casaco, e continuou
- Não penses que são apenas estas. Todo o meu corpo ficou marcado. Meu Deus, tenho vergonha e nojo de mim mesma, cada vez que penso no que passei.
Por momentos Nuno ficou sem fala. Poderia ter imaginado tudo, menos aquela barbaridade. Sem se poder conter, Nuno puxou-a para si, e abraçou-a com carinho.
- Acalma-te, não quero saber mais nada, não quero que recordes essas atrocidades. Perdoa-me.
- Não. Deixa-me continuar. Tu mesmo disseste que precisamos expurgar o passado.


20.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO. PARTE XXII






- E se deixássemos de lado o passado, e desfrutássemos desta magnífica refeição? – Perguntou Nuno
Não lhe agradava a tormenta que adivinhava nos olhos femininos, cujo azul se apresentava quase negro. Desde que falara com o pai que estava a por em causa, tudo o que pensara sobre ela durante anos.
Luísa não respondeu. Limitou-se a pegar no talher e iniciar a refeição.
Uns minutos depois ele quebrou o silêncio.
- Segundo sei, as tuas aulas acabam em breve. O que costumas fazer nas férias? Viajas?
- Não. Passeio pela cidade, visito museus e igrejas. E aproveito para ler. Não tem graça viajar sozinha. Não se tem com quem partilhar emoções.
- Às vezes encontram-se boas companhias em viagens.
-É possível. Mas os meus livros também me levam a viajar e são excelentes companhias.
- Claro que sim. Mas…chega-te? O que quero dizer é que és uma mulher jovem e bonita, estás na plenitude da vida. Não tens desejos de algo mais? Uma família, por exemplo?
- Não.
- Gostaria de te perguntar porquê. Mas penso que não tenho o direito de entrar na tua intimidade.
- E eu gostaria que tu soubesses porquê, sem precisares perguntar.
- O que nos remete de novo para o passado.
- E temos alguma coisa em comum que não seja o passado?
- Acredito que sim. Senão vejamos. Ambos adoramos crianças, ambos escolhemos profissões que nos põem ao serviço delas completando-se. Tu abres-lhes a mente com os teus ensinamentos, eu abro-lhes o corpo para lhes restituir a saúde. Ambos gostamos de ler, e… de caldeirada de marisco – completou sorrindo.
- E de vinho Rosé - disse Luísa, agora menos tensa.
- A propósito de crianças, aquele miúdo que ainda está no hospital, vai perder o ano? Pedi novos exames para segunda-feira, e se estiver tudo como espero, vou dar-lhe alta, mas será que consegue recuperar as aulas perdidas?
- Claro que sim. Tenho feito as lições com ele, todas as tardes no hospital, -respondeu Luísa.
- Devia calcular que não o ias deixar para trás. Se vais todos os dias, sabes que com a fisioterapia está a fazer grandes progressos. Mas depois de ter alta precisa de especial cuidado. Uma queda, ou pancada naquela perna, pode ser muito grave.
- Dentro da escola, não terá qualquer problema. Cuidarei dele o tempo todo. Mas as aulas estão quase a terminar, os pais estão emigrados e ele vive com os avós, que já não são novos e têm problemas de saúde especialmente o avô.
- Então provavelmente o melhor é aguentá-lo mais uma semana no hospital. Não sei se sabes, mas aquele osso teve várias fraturas, estava praticamente todo fragmentado foi necessário recorrer placas metálicas para o reconstruir.
-Sabia que tinha sido grave, mas não imaginei semelhante quadro.
Tinham acabado a refeição, e o empregado aproximou-se para recolher os pratos e entregar-lhes a ementa dos doces.



19.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXI



Às oito horas, Nuno tocava à campainha da casa de Luísa. A porta abriu-se, e a jovem saiu. Envergava um conjunto de calça e casaco em seda azul e umas sandálias de salto alto. Os cabelos não muito compridos caíam sobre os ombros e no rosto uma leve maquilhagem. Estava muito bonita.
- Continuas a ser pontual, - disse ao chegar junto dele.
- Há coisas que fazem parte de nós,- respondeu apertando a mão feminina entre as suas. E acrescentou de seguida. – Estás linda.
- Obrigado. Tu também não estás mal, - disse entrando no carro.
Nuno pôs o carro em marcha. Fez-se um silêncio estranho, pesado.
Ele mantinha-se atento à estrada, ela perdida nos seus pensamentos. Tanta coisa que gostaria de lhe perguntar. Tanta coisa que gostaria de lhe dizer. Precisava arranjar coragem. Não podia encarar o futuro sem esclarecer o passado.
-É estranho, que morando na mesma cidade e relativamente perto não nos tenhamos encontrado mais vezes. Regressaste há muito?
- Pouco mais de três meses. E provavelmente o único local que ambos frequentamos, é o supermercado. Não me encontrarás em locais noturnos, só saio à noite quando estou de serviço no hospital.
- Também não frequento esses locais.
- Não? Não deve ser por falta de convites, - disse mordaz
Ela lançou-lhe um rápido olhar e virou a cabeça para olhar a rua por onde circulavam
- Este jantar, é a minha primeira saída noturna,- se é que se pode chamar noturna, quando o sol ainda brilha radioso,- desde há catorze anos.
Ele estacionou o carro junto ao restaurante. Ela abriu a porta, e saiu sem lhe dar tempo a que ele tivesse qualquer ato de cavalheirismo.
Colocou-lhe o braço sobre os ombros e entraram. Deu o nome ao empregado que os recebeu e ele levou-os até uma mesa discreta, de onde retirou um retângulo onde se podia ler, “reservada”.
Sentaram-se e logo apareceu outro empregado que colocou algumas entradas sobre a mesa, e lhes entregou a ementa.
Escolheram caldeirada de marisco acompanhada por um rosé Quinta Romaneira, e só depois que o empregado se retirou, Nuno perguntou:
- Porquê, Luísa?
- Porquê, o quê, Nuno?
- Disseste que eras muito jovem, querias viver a vida e no entanto casaste poucos meses depois. O que é que ele tinha de especial para mudares de ideia?
- Queres mesmo saber? Não achas uma perda de tempo, passados todos estes anos?
- Sim e não respondendo às duas questões. 
Às vezes precisamos escarafunchar na ferida, para retirar tudo o que não a deixa cicatrizar.
- Era muito nova, ainda nem tinha feito dezoito anos. Meu pai obrigou-me a romper contigo, ameaçando mandar-me para casa dos meus avós numa aldeia esquecida no Minho. Ele tratou do meu casamento com o Álvaro, e eu não soube como impedi-lo
- E não te ocorreu seres sincera comigo? Tu que juravas amar-me, não confiaste em mim para me dizeres a verdade? Que grande amor era o teu – disse amargo.
- Esqueces que eu era quase uma menina – defendeu-se. E não teria sido diferente. Eu era menor, precisava da autorização dele para me casar. Ele tinha cancro, sabia que tinha pouco tempo de vida, e tinha medo de que fosses para África e me levasses contigo. Tinha medo que eu tivesse uma vida de privações por causa do teu idealismo. Por isso me casou com um homem mais velho que ele conhecia há muito tempo e julgava que me faria feliz.
-E fez?
- Não. - A resposta saiu seca e rápida como um tiro.
A chegada do empregado com o pedido, interrompeu a conversa