30.12.14

FELIZ ANO NOVO





Aproveito este pensamento do grande Drummond para vos desejar a todos um excelente 2015.
Ainda que saibamos que nem sempre as coisas são como 
desejamos, tenhamos esperança. 2015 em numerologia 
corresponde ao número 8. E o número oito na dita cuja é o
 número da sorte, da fortuna, das Ciências, da Matemática e
 da Consciência do Universo. O número do infinito. Por isso,
 vamos ter esperança em dias melhores ainda que 2015 seja
 regido por Marte e este não costume ser lá muito benéfico 
para a humanidade. Se bem se lembram Marte é o Deus da
 Guerra, e segundo a astrologia, este planeta pode trazer 
coisas muito boas, na luta pela liberdade, pelos direitos 
humanos,pela saúde, mas também pode trazer lutas,
 dificuldades, problemas difíceis de solucionar.  (A atual crise
 financeira teve o seu início em 2008 ano regido por Marte.)
 Posto isto que todos tenham um bom ano, até porque é ano
 de eleições, e em Portugal em ano de eleições, os políticos 
costumam abrandar um pouco o "jugo" sobre o povo.  Posto
 isto, que todos tenham o ano com que sonham

FELIZ ANO 2015




Resta-me acrescentar que tenho andado afastada, não por

 doença, (graças a Deus) mas porque a netinha de 5 anos

está de férias e ela é tão "absorvente" que não me deixa 

tempo para mais nada. Eu tenho que ser médica, professora,

 mãe, coleguinha, pai, e tudo o resto de que ela se lembra 

de brincar. 

As postagens regressam ao normal, quando recomeçarem 

as aulas.

19.12.14

AVISO AOS AMIGOS

Amigos, esta postagem tem dois propósitos. Primeiro, dar-vos a conhecer que o escritor J. R. Viviani, que decerto conhecem não só pelos seus livros, também pela divulgação de escritores ou blogueiros cuja obra ele admira, e pelos encontros de prosa ou poesia que costuma realizar, e no qual decerto alguns de vós já participou, faz hoje no seu blogue uma divulgação do conto ROSA, e da minha pessoa enquanto autora. 
Segundo, gostaria que os meus amigos, aqueles que gostam do que escrevo, passassem por lá, e se lhes aprouver deixar um comentário estejam à vontade. 
Desde já o meu Bem Haja a todos.
Aqui

E BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS

16.12.14

UMA DESCOBERTA DE NATAL


Presépio da S. C. da Misericórdia do Barreiro.  Foto minha.




Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Meus pais, e meus avós diziam que na noite de Natal o Menino Jesus vinha recompensar os meninos bons e   trazer presentes. Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por 4 casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com 11 metros ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal todos os anos vinham meus avós do Norte e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios. Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. Alguns anos a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar.  Não havia rádio, nem TV, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa 3 candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas" que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros "Pinhas alhas" e o outro respondia "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas se errassem, então tinham  que nos dar tantos pinhões quantos tinham nas mãos. E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém tínhamos que pôr os tamancos de madeira que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano o menino Jesus,deixasse uns brinquedos iguais aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos 60, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez que ainda não andava na escola, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós e chorei tanto que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém,  que era uma tradição dizerem isso porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.





A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta.

13.12.14

PASSEIO DE ESTUDO À CASA FERNANDO PESSOA


 Começo por vos pedir desculpa pela ausência desta semana, que foi um bocado complicada, pois foi a semana de encerramento de aulas antes do Natal e houve imensas atividades, e à noite estava cansada e sem vontade de ler e comentar blogues. Retomo as visitas hoje mesmo, e espero a vossa compreensão.
Assim sendo, eis aqui o registo fotográfico de um passeio de estudo realizado na quinta feira.
 Antes da entrada na Casa em Campo de Ourique
 A entrada para a Casa
 Como sabem Fernando Pessoa se interessou por muitas coisas. Entre elas a astrologia. Eis a sua carta astral.
.Esta arca foi encontrada depois da sua morte cheia de escritos inéditos. Hoje ela contém os escritos rejeitados pelo poeta, encontrados amachucados em cestos de papéis.
 O quarto onde o poeta viveu os últimos 15 anos da sua vida. Sobre a cama o seu chapéu
 Um dos seus fatos e os sapatos
 A sua máquina de escrever
 Alguns dos seus objetos pessoais, entre os quais, os óculos
 O seu retrato 
 Escadas de acesso ao piso superior onde se encontra o sonhatório
 Colegas de estudo subindo as escadas. Por todo o lado imagens e mensagens do poeta
 O seu bilhete de identidade
 O poeta adorava ler e gostava de escrever nos livros as suas impressões.
 O sonhatório. Neste espaço, de computadores, com simples toque de dedos pode ter acesso à vida do poeta, aos seus sonhos e ao seu amor por Ofélia. 
Aqui um curioso gráfico elaborado pelo poeta, sobre as linhas de elétrico que passavam passavam pela casa de Ofélia, e o tempo demorado no percurso.
 Isto porque ele namorava no metro, e  Ofélia tinha hora marcada de chegar a casa depois do trabalho, e nos anos vinte os pais eram muito rigorosos com as filhas. Conhecendo o trajeto mais longo e horários,  eles podiam ficar um pouquinho mais de tempo juntos, antes de apanharem o elétrico, e depois Ofélia desculpava-se que se tinha enganado no elétrico
e tinha apanhado um dos mais demorados


Bom fim de semana

4.12.14

CANSAÇO



                        Aldeia semi abandonada  de Anta. 




  CANSAÇO



Estou cansada
dos homens que adormecem ao sol
como lagartos.
Estou cansada dos ideais esquecidos
condenados sem nenhum recurso
nas mentes abarrotadas de ambição
dos líderes políticos.

Estou cansada
das aldeias semi abandonadas
regadas
pelas lágrimas ardentes
de idosos que vivem e morrem

em completa solidão.
Estou cansada de crianças sem pai
que não sabem rir
porque ainda não têm pão.

Estou cansada
das filas de desempregados
que tornam caricato o pensamento
dum sol que nasce igual para todos.
Estou cansada
das mulheres que não têm noites de amor
desaparecidos os seus homens
no mar da emigração.

Estou cansada
dos operários submergidos no desespero
dos salários em atraso
que nem sabem se chegarão
Estou cansada
dos idosos que sobrevivem à fome
de reformas vergonhosas
que nem chegam a meio do mês.

Estou cansada
das promessas das campanhas eleitorais
e das promessas a longo prazo, dos governos eleitos.
(Tão a longo prazo que morrem antes de nascer)
Estou cansada desta hipocrisia
que corre em linhas de incerteza
nos lábios dos homens sem tempo
nem idade.



Maria Elvira Carvalho.


UM BOM FIM DE SEMANA

29.11.14

ESCUTA




ESCUTA


Escuta
O murmúrio do rio
 De pedra em pedra.
 Não te parece
 Alguém
 Chorando?


Talvez seja
 O choro dorido
 das pobres mães
 A quem
 Falta a comida
 Para matar a fome
 Aos filhos.

Ou quem sabe o lamento
 Do pobre velho
 Abandonado
 Num corredor de hospital
 O corpo doente
 A alma sem forças
 Para lutar.

Ou ainda
O desespero dos jovens,
 Que dia após dia,
 Rompem solas
 E energias
 Na busca de emprego
 Engolindo a raiva
 Contra aqueles
 Que lhes roubam
 O direito ao futuro.


Escuta
 O murmúrio do rio
 De pedra em pedra
 Não te parece
 Alguém
 Chorando?


elvira carvalho

27.11.14

OUTONO






Quem por aqui anda há muito, sabe que eu só tenho a 4 classe ,feita em 54 e que apesar de sempre ter desejado estudar nunca o pude fazer. 
Também sabe que o ano passado entrei para a UTIB (Universidade da Terceira Idade do Barreiro.)
Ora bem, o prof de fotografia pediu seis fotos subordinadas ao tema  OUTONO.
Estas foram as minhas...

22.11.14

NÃO À VIOLÊNCIA

                                

Celeste


Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau ás batatas  e  o sal , quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem á beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água ás batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pera e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.
Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa , com que teve que encobrir, perante a família,  a vergonha e a dor que sentia. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurrá-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam á agua. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
sobe que sobe,
sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...








Maria Elvira Carvalho.

Acabei de saber que mais uma mulher foi assassinada pelo marido. Quando era menina, era frequente  ver os homens baterem nas mulheres. Alguns faziam até gala disso, perante os companheiros de trabalho, como se fosse uma honra.
Nunca pensei que chegaria a velha e continuaria a ver as mulheres serem espancadas e mortas pelos companheiros. Penso muitas vezes se não somos nós as verdadeiras culpadas desta situação. Não somos nós, mães e professoras capazes de os educar no respeito por nós próprias?






17.10.14

INFORMANDO OS AMIGOS




Amigos hoje e amanhã estarei participando do 2º Prosas Poéticas no site do "Vendedor de Ilusão". Peço a todos que se quiserem e puderem ler a minha participação sentir-me-ia muito feliz com a vossa presença .
O IV capítulo de Rosa só sairá amanhã.
Obrigada a todos e até amanhã

26.9.14

AMÉLIA


                                          foto da net

Amélia, engoliu as lágrimas, afivelou a máscara de mulher feliz, e saiu para a rua. O dia estava lindo, o sol aquecia o corpo e era como um balsamo para o seu coração.
Era ainda uma mulher muito bonita apesar de já não ser muito jovem.  Tinha uma farta cabeleira negra, uns doces olhos castanhos, e uma boca bem desenhada. Alta, magra mas bem proporcionada. E era sobretudo uma excelente atriz, embora nunca tivesse subido num palco. Porque ninguém diria, ao vê-la caminhar pela rua, pisando com segurança, saudando com um sorriso um ou outro conhecido, ou brincando com as colegas no emprego que não era uma mulher feliz.
Oriunda de uma família pobre, Amélia estudara até ao final do secundário com grande sacrifício dos pais. Impensável entrar para a Universidade, naquela época, a vida era muito difícil e embora ela tivesse sonhado com mais, viu-se obrigada a procurar emprego. Pouco tempo depois, conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos.
Alexandre, parecia ser um bom rapaz, era alegre, e a sua boa disposição encantou-a. Namoraram e casaram num domingo de Maio.
Ainda nem bem terminara a lua-de-mel, e Amélia já se dava conta de que o marido não era aquilo que ela imaginara. Saía após o jantar, com um “até já vou ali ao café “, mas raramente voltava antes da meia-noite, uma hora. Amélia arrumava a cozinha, preparava os almoços para o dia seguinte, as roupas e finalmente caía cansada na cama, já que no dia seguinte tinha que se levantar cedo. Quando o marido chegava, raramente vinha “sozinho”. A acompanhá-lo vinha um insuportável hálito a álcool. Amélia fingia que dormia, para não iniciar uma discussão altas horas da noite. Na manhã seguinte, quando lhe chamava a atenção, ele era agressivo, dizia que ela era maluca, que estava a insinuar que ele era bêbado e que bêbado tinha ela o juízo. Por essa altura Amélia soube que estava grávida. 
Quando contou ao marido ele ficou muito feliz e durante três ou quatro dias não saiu de casa à noite. Renovaram-se as esperanças de Amélia. Porém, como sol de Inverno, durou pouco, nem deu para que as esperanças da mulher ganhassem raízes.
Quando Amélia desabafou com a mãe, esta que fora criada no conceito de obediência ao marido, disse-lhe:
- Tem paciência filha. Ele é bom marido, isso é o álcool. E depois a tua avó sempre dizia: “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”.
Foi nessa altura que Amélia, afivelou a máscara de mulher feliz e enveredou pela carreira de atriz no palco da vida.
O filho nasceu, foi uma enorme alegria para ela, mas nem o nascimento do filho trouxe um novo comportamento ao marido. Cada dia bebia mais, cada dia estava mais agressivo. Não que lhe batesse, diga-se em honra da verdade que isso nunca fez. Mas os gritos, os nomes que lhe chamava, e até as coisas que partia, era tão mau ou pior do que as agressões físicas.
Quando o filho tinha três anos, depois de uma violenta briga, Amélia tomou a decisão de se separar do marido. Nessa altura o divórcio ainda não tinha chegado a Portugal.
O marido caiu de joelhos, implorou perdão, disse que daí para a frente ia ser diferente, que nunca mais iam brigar, prometeu o mundo e a lua como se costuma dizer.
Pensando no filho, ela decidiu dar mais uma oportunidade ao casamento.
 Alexandre levou uns dois meses sem sair depois do jantar. Estava muito mais calmo, parecia um homem diferente, muito embora algumas vezes parecia que já tinha bebido um pouco, quando chegava do trabalho, mas enfim não seria grande coisa, já que ele se mostrava controlado. Por essa época Amélia engravidou de novo.
Uma malfadada infeção na garganta, uns medicamentos que tomou, que possivelmente anularam o efeito da pílula. Porque ela jurava que a tomara sem falha. Pouco depois o marido voltou a sair à noite e a chegar a casa, não bêbado, mas como se dizia antigamente “atravessado” Quando vinha bêbado, caía na cama, às vezes até vestido e dormia. Quando vinha “atravessado” implicava com tudo, dava pontapés nas coisas, dizia palavrões. O tempo corria, o segundo filho de Amélia, nasceu era uma menina linda que fez o encanto do irmãozinho.
No dia em que a menina fez um ano, o marido fez um escarcéu com ela numa loja de roupas infantis, que a deixou indignada e envergonhada. Era a primeira vez que o fazia em público, e Amélia saiu da loja sem compras e a chorar.
Em casa, pensou seriamente na vida e chegou à conclusão de que para se separar do marido só se fosse para casa dos pais, pois o seu ordenado, não chegava para pagar uma casa, e por comida na mesa para ela e os filhos. Sem falar que havia que pagar à ama dos filhos, ou não poderia trabalhar.
Pensando nisso pegou nos filhos, disse ao marido que ia visitar os pais, e foi sondá-los. Porém não encontrou apoio da parte deles. A mãe voltou com a tal máxima de “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, o pai disse que não lhe arranjara marido, fora escolha dela, por isso era ela que tinha que resolver o problema, “ que entre marido e mulher ele não metia colher”
Voltou para casa, e no dia seguinte antes do marido ir para o trabalho, pôs os pontos nos Is.
 Ela estava farta daquela vida. Ou ele deixava a bebida ou ela deixava de ser sua mulher. A escolha era dele. E como sempre que ela ameaçava separar-se, o marido implorou, fez promessas, teve o desplante de dizer que bebia para perder o medo de a perder, pois não saberia viver sem ela. Amélia, percebeu que ele era doente, e teve pena dele, dela e dos filhos. Dele, porque não reconhecia que era doente e precisava de ajuda, dela porque era jovem e tinha pela frente um futuro de sofrimento, e dos filhos que amavam o pai e não tinham culpa de nada. Mas quando o marido voltou a beber, Amélia comprou um divã e instalou-se no quarto da filha. E nunca mais foi mulher de Alexandre embora vivam na mesma casa. Quando os filhos casaram, Amélia podia enfim pedir o divórcio. Mas nessa altura Alexandre estava muito doente, e nem ela teria coragem de o abandonar, nem os filhos, iam compreender que o fizesse nessa altura, depois de uma vida inteira de sofrimento.
Passaram-se quatro anos. Alexandre conseguiu superar a doença, já não bebe, mas está mentalmente muito envelhecido, quem sabe se efeito do álcool bebido sem regra, durante tantos anos. Ela sofre, porque nada é mais triste do que ver, dia a dia, a degradação mental de uma pessoa.
Hoje, Amélia põe toda a sua felicidade e enlevo nos dois netinhos que os filhos já lhe deram. 
E no emprego que apesar da crise, mantém. O futuro… quem poderá saber o futuro? Há muito que ela vive um dia de cada vez.
Fim

Maria Elvira Carvalho

24.9.14

PIEDADE



                                                           foto da net

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e uma revolução russa. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados. O C.E.P, Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colonias portuguesas tentando defendê-las de algum ataque do inimigo. A Rússia saía do conflito devido à grande revolução, em que se via envolvida, internamente, e em Portugal, acontecia a 5ª aparição em Fátima, envolta pelo controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não era do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e dos constantes embarques de jovens para as colonias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. Piedade, uma ignorante mulher duma aldeia do interior, nem sabia o que se passava por esse mundo de Cristo. O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezadinho, a quem ninguém profetizava uma vida longa. Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, solteiro, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. Piedade não sabia nada de métodos anticoncepcionais. A falar verdade ela se juntara com o pai dos filhos com apenas dezasseis anos quando a mãe morrera. O pai nunca o conhecera. Era filha de pai incógnito. A mãe nunca lhe falara sobre as coisas da vida. Quando Piedade se juntou com o Joaquim, não foi por amor. Foi uma espécie de troca. Ele ajudou-a a pagar o funeral da mãe, e ela pagou-lhe com a sua virgindade. Depois, foi ficando por lá, punha comida na mesa, pagava a renda da casa, e ela satisfazia-lhe os apetites sexuais. Que a falar verdade, duravam o tempo necessário para ele se satisfazer. Piedade “embuchou” uma vez e as despesas cresceram. Quando “embuchou” a segunda vez, Joaquim disse que o primo que estava no Brasil lhe mandara uma carta de chamada, que ia embarcar e quando pudesse a mandava buscar e aos filhos. Joaquim terá ido mesmo para o Brasil? Quem sabe, se partiu ou se apenas se quis livrar de responsabilidades e despesas. A verdade é que estivesse onde estivesse, nunca mais deu notícias.
 Com duas crianças pequenas Piedade arregaçou as mangas e foi à luta. Mas a vida era muito difícil, o trabalho no campo bem duro, e mal pago. Ninguém da atual geração, terá uma noção exata do que era a vida em Portugal na primeira metade do séc. passado.  Quantas vezes, ficou sem comer, para dar de comer aos filhos. Por isso aceitou a ajuda do lavrador, para quem trabalhava. Era  viúvo. Esse facto dava mais coragem a Piedade. Ela não seria capaz de estragar o casamento de ninguém, E Alberto parecia sincero e bom homem. “As aparências iludem” diz o povo e com razão. Quando o homem soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada. Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino, a lembrar o irmão João, porém ao contrário deste era um menino saudável.  Para criar os filhos, Piedade, chorou tudo o que tinha para chorar, deitou com a fome, levantou com a miséria. Trabalhou no campo, até deixar de sentir as costas de tanta dor, lavou roupa no rio, até as mãos sagrarem. Mas homem na sua vida nunca mais entrou.

Fim

 Maria Elvira Carvalho




21.9.14

HELENA - FINAL



Depois do casamento, Inácio não se mostrou o homem romântico e apaixonado que as cartas mostravam. Antes pelo contrário parecia que não tinha desejo por ela. As poucas vezes que faziam amor, era como se ele estivesse a cumprir uma obrigação. No entanto quando saíam ele mostrava-se carinhoso, e toda a gente pensava, que eles eram um casal feliz.
Um dia ele chegou a casa com a novidade. Fora destacado para Moçambique, ia partir em breve.
Foi um choque para Helena. Ela soubera nesse dia que estava grávida e esperava a sua chegada com ansiedade para lhe dar a notícia. Esperava que ele ficasse feliz, mas em vez disso ele mostrou uma completa indiferença, mostrando-se muito mais entusiasmado com a comissão.
Nos dois anos seguintes, os "bate-estradas" chegavam regularmente e Inácio parecia um homem feliz. Muito mais feliz com os colegas, do que com a mulher.
Quando voltou, as esperanças que Helena pudesse ter sobre a conduta do marido dissiparam-se. Ele estava cada dia mais seco, e não lhes ligava nenhuma a ela nem à filha.
Helena que na altura já estava empregada, começou a pensar que aquilo não era vida, e pediu-lhe a separação, já que naquela altura ainda não havia divórcio em Portugal. Inácio, teve uma atitude estranha. Pediu-lhe mais uma oportunidade, prometeu que ia ser diferente, disse que ia arranjar uma casa melhor. E arranjou. Um rés-do-chão num prédio ali perto. Mas a sua indiferença não mudou. Nem sequer quando Lena se desculpou com os medos da filha e colocou uma cama no quarto dela. Os anos foram passando, e Helena vivia apenas para o trabalho e para a filha a quem amava como a mais extremosa das mães. O marido era como um hóspede. Dava dinheiro para a casa e em contrapartida, tinha cama, comida e roupa lavada. Quando a filha terminou a 4ª classe, Helena, aproveitando que nessa altura já era legal, pediu o divórcio ao marido. Este negou-lho dizendo que se ela insistisse, a punha na rua, já que a casa estava em nome dele, e mais, não daria dinheiro algum para a filha. Pior ainda ameaçou bater-lhe.
Helena pensou que o seu ordenado não dava para educar a filha, pagar a renda de uma casa, e comerem. Por amor à filha, desistiu.
Entretanto o marido começou a ausentar-se, vinha de vez em quando, mas quando vinha, por qualquer coisa oferecia pancada à mulher e à filha, chegando às vezes a vias de facto.
Anos e anos de sofrimento. No dia em que a filha se formou, Helena pode enfim requerer o divórcio.  
Hoje ela confirmou algo de que sempre suspeitou. O marido usou-a, por cobardia, porque não tinha coragem de assumir a sua homossexualidade. E descarregava nela e na filha a sua frustração e infelicidade.



FIM

Elvira Carvalho


Bom Domingo

20.9.14

HELENA



                                                 Foto DAQUI



A mulher que caminha apressada pelo parque da cidade, já não é jovem, mas é ainda muito bonita. Morena, de estatura média, como a maioria das mulheres portuguesas, tem uns grandes e belos olhos negros, um rosto oval perfeito, emoldurado por uma farta cabeleira negra.
Helena foi na sua juventude uma mulher muito bonita, mas nem por isso teve uma vida fácil.
Quando ela nasceu ia o século XX a meio, era a segunda filha de um casal pobre que iria ter mais sete filhos depois dela. Os primeiros anos, foram vividos com mais sonhos que comida, coisa comum naquela época entre grande parte da população. Por companheiros de brinquedos, tinha não só os irmãos, como as outras crianças do pátio, e até os primos que viviam perto. Tudo crianças que não sabiam o que era uma boneca, ou uma bicicleta.  Às vezes quando o Bernardino, caseiro da quinta matava o porco, tratava a bexiga do mesmo, e a enchia de ar para dar aos miúdos do pátio. Era uma alegria para os rapazitos. Para as meninas não havia brinquedos. Elas eram instruídas logo de pequeninas para lavarem a loiça, fazer as camas, varrer a casa e cuidar dos irmãos mais novos. As mães trabalhavam ali perto na Seca do Bacalhau. Um trabalho duro que as fazia andar sempre cansadas para tudo, até para pegar num filho ao colo, ou dar-lhes um beijo.
Quando Helena fez a 4ª classe, foi "servir" para a casa do senhor doutor que ia uma vez por semana examinar o pessoal à Seca. Ele já tinha uma cozinheira, e uma criada para a casa, mas precisava de alguém que a ajudasse já que tinha 3 filhos e a criada levava o tempo a queixar-se que não conseguia sozinha tratar da casa e das crianças. E a esposa não tinha paciência para as crianças. Tinha as suas amigas, as visitas à igreja e os chás com as amigas. Aí levou até aos 18 anos como "criada de servir" interna. Dormia e comia em casa dos patrões, e o que ganhava ia quase por inteiro para ajudar a criar os irmãos mais novos.
Num domingo de folga encontrou uma antiga amiga, vizinha do mesmo pátio, onde ambas nasceram. Um pouco mais velha, ela tinha casado e o marido encontrava-se numa comissão no Ultramar. No meio da conversa a amiga disse-lhe que um colega do marido queria uma madrinha de guerra, e a convidou para isso. Helena aceitou e em breve se correspondia com o rapaz que até já lhe mandara a foto e era um belo moço.
Uns meses mais tarde, o rapaz pediu-lhe namoro, prometendo-lhe que se casariam logo que ele regressasse.
Helena estava farta da vida que levava. Alguém que lhe prometia uma vida diferente era tudo o que ela pedira a Deus.  Aceitou o namoro, e mentalmente preparou-se para o casamento e para a vida que ela sonhava.
Quando o rapaz chegou, foi falar com os pais dela, obteve autorização para o casamento e começaram a tratar dos papéis. Arranjaram uma casinha, um anexo num prédio perto da casa dos pais.
Não era o que ela tinha sonhado, mas ele estava na tropa, ela deixara a casa do senhor doutor e ficava a promessa de mudarem para uma casa melhor logo que fosse possível.
O rapaz não tinha família fora criado com uma tia que também não podia ajudar.
Pouco antes do casamento, Helena recebeu a visita da antiga vizinha, que acompanhada do marido lhe fez algumas advertências, dizendo-lhe que o jovem com quem ela ia casar não era bem aquilo que ela pensava, e que deveria conhecê-lo melhor, não fosse sofrer algum desgosto.  Ela porém estava demasiado iludida com a “lábia” do rapaz e não acreditou em nenhum dos avisos.
Casaram-se em Setembro de 69.


Continua


17.9.14

GRAÇA


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Passou por mim. Ia a chorar e nem me viu. Estranhei. Conhecemo-nos desde sempre e sempre nos falamos com a cordialidade duma amizade cimentada nos anos. Interpelei-a:
- O que aconteceu Graça?
-Foi o meu filho, -respondeu num soluço.
Peguei-lhe no braço e perguntei:
- Queres falar?
Ela não respondeu. Mas eu percebi que sim.
-Vem comigo. Vamos tomar um café.
Enquanto nos dirigíamos ao café, recordei desde quando conhecia Maria da Graça. Desde que me lembrava, sempre a conhecera. Somos mais ou menos da mesma idade. Nos anos cinquenta os pais dela vinham todos os Invernos trabalhar para a Seca do Bacalhau. Era um trabalho sazonal, mas vinha muita gente do norte do país, para trabalhar na safra. Chegavam nos últimos dias de Setembro, quando os barcos bacalhoeiros regressavam da Terra Nova e da Gronelândia, e partiam em fins de Março, quando os navios voltavam para a pesca. Maria da Graça vinha com os pais. E brincava comigo e com as outras crianças cujos pais trabalhavam na Seca. Todos os anos era a mesma coisa até que fez os 14 anos. Depois já vinha para trabalhar.
A Graça -eu sempre a chamei assim -nunca foi uma moça muito bonita. Mas era uma jovem vistosa. Alta, forte, bem proporcionada, mas com um rosto um tanto rude e uma voz demasiado forte, o que lhe dava um ar um tanto ou quanto masculino. Boa moça, boa amiga, não tinha muita sorte com os namorados. Talvez que eles se assustassem com ela. Os homens gostam de mulheres de aspecto frágil, porque isso os faz sentir mais fortes, e lhes dá a oportunidade de se armarem em protetores. Com a Graça, isso era impossível. Com 1,75m de altura e 72Kg de peso, assustava a maioria dos rapazes casadoiros.
Tinha dezanove anos quando conheceu Armindo. Armindo era um bom rapaz, trabalhador, e ainda mais rude que ela. Tinha começado ainda menino no monte a guardar gado e não sabia uma letra do tamanho dum comboio como costumava dizer. Mas encantou-se com ela e daí ao casório, lá na igreja da aldeia, foi só o tempo de correrem os "papéis". Até porque ele já tinha ido às "sortes" e estava prestes a começar o serviço militar.
Pouco mais de um ano de casado, morria numa emboscada em Cabinda, enquanto a mulher segurava uma gravidez de sete meses, apesar do desgosto.
Quando o filho nasceu, Graça voltou à vida anterior. A vir fazer a safra do Bacalhau, até porque agora precisava criar o filho, e  se a vida era muito difícil naquela época, por cá, lá na aldeia ainda era pior. Pouco tempo depois da morte do marido, Graça perdeu a mãe, e dois anos mais tarde o pai também se foi. Nessa altura ela decidiu que não ia mais lá para a aldeia. Quando o Bacalhau acabasse havia de arranjar uma casa ou duas para trabalhar a dias. Queria que o filho fosse à escola e estudasse. E se bem o pensou, logo o pôs em prática no fim da safra.
Começou por ajudar no trabalho do campo, numa das quintas da Seca, e assim conseguiu ficar a morar com os caseiros, e não pagar renda. Trabalhava na Seca do Bacalhau desde que os navios chegavam até que voltavam a abalar, e depois na quinta, até que voltavam a chegar. Assim foi ficando  por aqui, e criando o filho que mandou para a escola logo que fez sete anos.
Tinha o filho dez anos, quando se juntou com aquele que ela diz ter sido o homem da sua vida. Fernando era um vizinho que conhecia há muito. Casado, pai de dois filhos, bom marido, bom pai. Graça admirava-o pelas qualidades que todos lhe reconheciam. Um dia porém, a mulher de Fernando enrabichou-se, por um mariola, com pinta de artista e lábia de bom malandro. E de tal forma se apaixonou que desapareceu com ele deixando para trás o marido e os dois filhos. Com pena do vizinho, Graça, começou a tratar-lhe da casa e dos filhos. Mas a pena e a admiração que sentia depressa se transformaram num sentimento muito mais forte. Como Fernando era casado e naquela altura não havia divórcio, juntaram os trapinhos como se costuma dizer. E formaram uma nova família, mas Graça não conseguiu ter mais filhos. Anos mais tarde, depois da revolução de Abril, a mulher de Fernando apareceu a pedir o divórcio, e os filhos.
então ela pôde realizar o sonho de voltar a casar, embora apenas no registo. Mas nessa altura já Maria da Graça tinha um novo e mais grave problema na sua vida. O filho com 18 anos tinha-se ligado a uns amigos esquisitos, abandonara os estudos, não trabalhava, cada vez que saía, voltava estranho, agressivo e depois levava a dormir um dia ou dois seguidos. Droga, começaram a murmurar as vizinhas. O rapaz metia-se na droga. E a mãe levava os dias a chorar, e à noite mostrava um sorriso forçado ao marido, para não o apoquentar. Uma noite, estava ela na cozinha a "fazer horas" a ver se o filho chegava, quando o marido gritou por ela do quarto. O grito da morte, pois quando ela chegou ao quarto estava caído, meio atravessado na cama, como se tivesse tentado levantar-se e não conseguisse. E morto. Maria da Graça, nem queria acreditar. Nem deu pela chegada do delegado de saúde, nem pela ambulância que lhe levou o marido para autópsia. Era como se o espírito se tivesse ausentado do corpo.
Mais tarde soube que tinha sido um ataque cardíaco fulminante. Maria da Graça nunca mais foi a mesma mulher. Mudou de casa, perdeu a alegria, tornou-se uma mulher seca, amarga. Pouca gente sabe que se chama Maria da Graça. Toda a gente a conhece por Maria.
Chegamos ao café e sentando-nos numa mesa mais afastada. Perguntei-lhe então o que se passava.
- Tu sabes -respondeu-me, - que o meu filho é um drogado. Ninguém sabe o que eu tenho sofrido com ele. Por causa da droga roubava-me todo o dinheiro, batia-me, levou-me as coisas de valor de casa e vendeu tudo. Para sobreviver fiz de tudo, até cheguei a ir aos contentores do lixo em busca de comida. Depois arranjei cartões de jogo para vender. Ele ficava-me com a pensão e com o dinheiro que eu ganhava a lavar escadas. E eu ia-me governando com o dinheiro dos cartões. Até ao dia que ele descobriu. E levou-me o dinheiro que eu tinha com a ameaça de que me ia denunciar à polícia por vender jogo clandestino. Desisti. Por medo dele, um dia, mudei a fechadura da porta.  Quando chegou fez um escarcéu para entrar e eu fingi que não estava em casa. A ver se ele se ia embora. E sabes o que ele fez? Deitou-se no chão e ali ficou caladinho.
Quando passado largo tempo abri a porta para ir ao pão, ele agarrou-me as pernas e com um puxão forte fez-me cair. E depois bateu-me. Eu gritei, gritei e os vizinhos chamaram a polícia. Ele foi preso e da esquadra, meteram-no numa casa de recuperação. Esteve lá um ano. Chegou anteontem. Pousou as coisas em casa, saiu e chegou tarde da noite, drogado. Está a dormir há quase dois dias e eu tremo de pensar que ele vai acordar a qualquer momento.
Que Deus me perdoe, mas penso que era uma sorte se ele morresse.
Olhou para mim e disse:
- Ficaste escandalizada? Achas que sou um monstro?
Sem palavras que servissem de consolo, apertei-lhe o braço e abanei negativamente a cabeça.




Maria Elvira Carvalho


14.9.14

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das 3 da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar com aquele casamento. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Mas João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa, não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já. Acabei o curso agora. Nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças. E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável.
-Mas Luísa, nós somos tão novos. Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso nem quero fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomava a pilula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro caracter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois de tão grande desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruiu o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite decorrera na maior normalidade e Luísa acabou deixando o trabalho às 8 da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto abriu-se num sorriso radioso.



Maria Elvira Carvalho