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9.7.24

CAROLINA

 Reedição



A mulher que sentada na beira da cama se  entregava à tarefa de entrançar a sua farta e negra cabeleira, não teria mais de trinta  anos, embora pequenas rugas, a fizessem parecer mais velha.
Era muito bonita, talvez um pouco alta demais para o comum das mulheres portuguesas, mas muito bem proporcionada. Muito morena de cabelos e olhos negros. Na aldeia quando era menina, e as outras crianças por qualquer razão se zangavam, chamavam-lhe farrusca por causa do seu tom de pele. Ela crescera com esse desgosto, mas agora aquela cor começava a estar na moda e não raras vezes ela notava os olhares de inveja que lhe lançavam.
Lançou um breve olhar sobre o berço onde um bebé dormia tranquilamente. Hoje era um dia especial. O menino ia ser batizado. Não haveria festa, o dinheiro era escasso, a vida era muito difícil a meio do século XX. Mas para ela, o dia em que o seu menino ia ser apresentado ao altar e purificado com o sacramento do batismo, seria sempre um dia especial.
Acabou de entrançar o cabelo e enrolou a trança no alto da cabeça prendendo-a com alguns ganchos.
Alisou a saia rodada que lhe chegava a meio da perna, dobrou um velho pedaço de lençol impecavelmente limpo em triângulo como se fosse um lenço, dobrou outro pedaço igual de modo a ficar como uma tira que colocou por cima do anterior, ficando assim com as fraldas preparadas para mudar o menino quando ele acordasse. Debaixo da cama retirou uma caixa que colocou em cima da mesma. Lá dentro repousava o vestidinho de crepe azul que a madrinha entregara na véspera para o batizado.
 Foi até à cozinha, pegou as malgas do pequeno-almoço que tinham ficado a escorrer e guardou no armário. A cafeteira de alumínio foi pendurada na grade de madeira na parede.
A casa era pequena, apenas o quarto e a cozinha, mas apresentava-se limpa. No quintal, separada da casa alguns passos, uma pequena divisão, com uma sanita e um chuveiro. Claro que era aborrecido que não estivesse ligada à casa, especialmente de noite e de inverno, mas ainda assim Carolina achava que tinha muita sorte pois tinha água canalizada, coisa, que na maioria das casas, daquele pátio não existia. Não tinha eletricidade, mas nunca faltara o petróleo para o candeeiro.
Sentou-se de novo na beira da cama, junto ao berço do filho e enquanto aguardava o marido que fora ao barbeiro à Telha, deixou que as lembranças saltassem da gaveta das memórias, onde ela as trancara.
Carolina era a sexta filha de um casal já entrado na idade e que já tinha cinco rapazes entre os vinte e os nove anos. Fruto de um descuido do pai,(1)a mãe que julgava estar na menopausa só se apercebeu da gravidez quando já era demasiado tarde para a “pôr a estudar”.(2)
A mãe falecera poucos meses após o seu nascimento, vítima de complicações surgidas pós parto e o pai culpava-a pela morte dela. Os irmãos não sabiam o que fazer com ela e não fora uma vizinha tomar conta dela, talvez não tivesse sobrevivido. Até porque os tempos eram muito difíceis, a segunda guerra mundial  ainda não tinha acabado e muitos dos bens essenciais eram racionados. Não fora por isso, uma criança desejada e muito menos amada.
Mas como diziam na aldeia, “mal de quem vai, quem cá fica, trambolhão daqui, trambolhão dali, tudo se cria”
Quando Carolina entrou na adolescência mostrava já que iria ser uma bela mulher, e aí começou nova luta, já que os irmãos, diziam que ela estava uma bela "franguinha" e o mundo estava cheio de gaviões. E não a deixavam pôr o pé fora de casa, e ela tinha ânsias de liberdade. Entretanto o pai faleceu, os dois irmãos mais velhos casaram e foram viver para a cidade grande, o terceiro casara e fora viver com o sogro na aldeia vizinha. Na velha casa de família restava ela e um dos irmãos, já que o mais novo emigrara para o Brasil, na esperança de um futuro mais risonho. Farta da vida na pequena aldeia, escrevera aos dois irmãos, pedindo para ir viver com eles na cidade, mas não recebeu resposta.
Então começou a juntar algum dinheirito, do que o irmão lhe dava para as compras da casa, e um belo dia de Verão fugiu de casa rumo a Lisboa. Acabara de fazer dezasseis anos mas o seu corpo era já o de uma mulher.


CONTINUA


Como vêm esta história é uma reedição. Foi publicada em 2014. É uma história de outros tempos,  pequenina só dois posts. Espero que gostem.

(1) Naquela época o único meio que os casais conheciam de evitar uma gravidez era o coito interrompido. Milhares de crianças nasciam porque o homem não era muito hábil na hora, e quando isso acontecia as mulheres diziam que a gravidez era um descuido do marido.

(2) "pôr a estudar" era a maneira como diziam de quando uma mulher provocava a si mesma um aborto, utilizando algumas mezinhas caseiras cujo preparo, passava de mãe para filha. 

8.3.24

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

                                                        


                                                                 É PARA TI, MULHER

 

É para ti, Mulher

Que sonhavas com uma vida de Amor,

Com Respeito, Igualdade de direitos,

a Liberdade,

E a dignidade de seres Mulher.

E és violada, espancada, vilipendiada.

É tua vida, rosa sem perfume

Espinhosa na profissão e no lar.

 

Para ti, Mulher

Que sonhas com um mundo de Paz

E vês o teu mundo, ruir com uma guerra

Que não quiseste, nem entendes.

Mas te obriga a fugir do teu lar destruído

para pores os filhos a salvo 

Deixando para trás o marido que luta

Sem saberes se voltarão a ver-se

 

É para ti, Mulher,

Que sonhas com um mundo melhor

Onde o alimento não falte na mesa

Mas sobrevives à fome

E seguras no peito esquálido

O corpo do teu filho moribundo

Porque nem o teu amor, nem a tua dor,

Lhe alimentaram o corpo faminto.

 

É para ti, Mulher

Filha, irmã, esposa, mãe, viúva,

Quantas vezes carregaste no ventre

Com alegria o Milagre da Vida

Sofrendo todas as dores, com um sorriso

E hoje sobrevives na solidão,

Porque o marido, a morte o levou

E os filhos se perderam, no mar da emigração.

É para ti Mulher

Que carregas dia a dia, a morte no peito

A  minha homenagem, o meu respeito

  

Elvira Carvalho


26.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVII

 


Tiago aproximou-se da mulher que se encontrava de costas e abraçou-a. Baixou a cabeça e depositou um terno beijo no pescoço feminino, enquanto as suas mãos acariciavam a barriga proeminente de quem está em adiantado estado de gravidez. Sentiu como um empurrando e rindo disse:

-Ena começou cedo, os treinos de futebol, hoje o rapaz.

A mulher riu e iniciou o movimento de se voltar nos braços dele, e exatamente nesse momento Tiago despertou um tanto confuso, sem noção de onde estava.

Passou a mão pela testa suada e pensou que o aquecimento do quarto devia estar muito alto, pois não era normal estar a suar em pleno Natal. Ou seria efeito do sonho. Tentou lembrar de mais alguma coisa mas não conseguia recordar. E que quereria, dizer o sonho que acabara de ter? A mulher grávida era sua mulher, isso ele tinha a certeza. Quereria isso dizer que afinal nada grave acontecera com a sua parte sexual e reprodutora?

Depois de na véspera ter acordado com aquela bendita ereção, ele já sabia que a parte sexual funcionava, mas isso não queria dizer que a parte reprodutora estivesse igualmente bem. E podia ter uma vida sexual satisfatória e ser estéril. Então o sonho seria a confirmação do seu inconsciente de que tudo estava bem, ou apenas a resposta ao enorme desejo que ele tinha de um dia poder ter a sua família? E quem seria aquela mulher? E porque estava de costas? O que quereria dizer tal sonho?

-Bom dia, doutor! - Saudou Joaquim ao entrar no quarto arrancando-o aos seus pensamentos.

-Bom dia, Joaquim. Os meus pais já se levantaram?

-Já sim. Já tomaram o pequeno-almoço e saíram para irem à missa das oito. A senhora sua mãe, queria vir ao quarto, mas o seu pai, disse-lhe que era melhor deixarem-no descansar, viriam vê-lo depois da missa, - disse o caseiro enquanto puxava a cadeira de rodas para junto do leito.

-Acreditas em sonhos, Joaquim? Acreditas que eles nos queiram dizer alguma coisa?

- Sonhos? Acredito que existem, pois já tenho sonhado, muito ao longo da vida. Mas nunca entendi se o que sonhava tinha ou não algum significado para mim.   Quem era muito ligada nisso era a minha falecida sogra. Ela dizia que eles sempre passavam uma mensagem, e que a Bíblia, relata sonhos que avisaram reis de vitórias e derrotas, ainda antes do tempo em que Cristo andava pelo mundo. E as pessoas costumavam procurá-la, quando tinham sonhos que as deixavam intrigadas.

- Que pena que já não esteja entre nós, - disse Tiago dirigindo-se à casa de banho. Nos últimos dias ele começara a ir para o banho sozinho, utilizando a força dos braços para movimentar a cadeira.


21.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLI



Na casa o silêncio era rei absoluto. Estendido sobre a cama Tiago pensava em Anabela. Por mais que pensasse, desde que ela chegara à quinta há quase um mês, a vida na casa mudara. Isilda e o marido, falavam dela com carinho e admiração e inicialmente isso exacerbara a sua raiva, pois ele já tinha decidido que mais valia deixar-se cair no abismo da morte, do que lutar por uma vida em que estivesse morto como homem, pois mesmo que recuperasse o movimento total das pernas, nunca se sentiria mais do que um meio homem, um eunuco.

Porém ela conseguira impor a sua vontade e ele não podia deixar de admirar a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Tiago sentia-se perdido entre sentimentos complexos por aquela mulher, que não tendo uma beleza de estrela de revista era na verdade muito bonita. Por um lado havia uma grande admiração, um desejo de ganhar a sua amizade, por outro uma raiva sem fim, porque ele sabia que nunca mais podia aspirar a ter uma vida normal. Afinal tinham passado 5 meses depois do acidente, e nunca mais tinha tido uma ereção, nem sequer quando acordava de manhã com vontade de urinar.

A conversa de dias atrás com Anabela, mostrara-lhe uma mulher muito sofrida, embora ela não quisesse adiantar muito sobre a sua vida, pelo que Tiago telefonara ao tio e conseguira saber que era viúva e que o marido aparecera morto, segundo a polícia por um gangue qualquer.

A noite sem dormir, e o silêncio que reinava na casa, fizeram com que quase sem dar por isso Tiago caísse no sono.

E desta vez não foi o pesadelo que lhe veio ensombrar o descanso, mas Anabela. No sonho ele estava a trabalhar numa clínica onde ela era enfermeira. E não uma enfermeira qualquer, mas a sua assistente, em todas as cirurgias. E mais do que isso, eles estavam apaixonados. Naquele dia ele acabara de a pedir em casamento e de lhe colocar no dedo um lindo anel com uma esmeralda, a pedra preferida dela. E depois eles beijaram-se. O gosto dela era inesquecivelmente doce. O seu cheiro a champô e sabonete enlouquecia-o. E o beijo foi intenso, cheio de amor e paixão como são os beijos de quem está prestes a casar-se.

De súbito, o beijo era na testa, e a voz de Anabela, parecia-se demais com a voz da sua mãe.

-Tiago, meu filho, acabámos de chegar.  Como estás?

A custo ele abriu os olhos para ver a figura da mãe, inclinada sobre ele. Ia responder um tanto irritado, por ter sido obrigado a sair do sonho, quando uma sensação estranha o fez olhar para baixo e abrir os olhos de espanto, ao mesmo templo que estendia a mão e puxava rapidamente a colcha para cima, antes que a mãe se apercebesse da enorme ereção que indiscreta levantava as calcas do pijama.

 

23.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XII

 


Rolou na enorme cama de casal. Quim fora um homem muito apaixonado e talvez porque durante dez anos experimentara as delícias do amor, para ser sincera consigo própria sentia a falta de um companheiro.

Afinal tinha trinta e três anos, era uma mulher jovem e saudável, o seu corpo sentia a falta das carícias de umas mãos e uma boca apaixonada.

Sabia que Fernando a desejava, tinha-o lido nos seus olhos há quase dois anos e por isso mesmo o afastara. Quim tinha falecido há meio ano, ela sentira-se ofendida, como se estivesse a atraiçoar a memória do marido.

Agora Gonçalo tinha-lhe pedido para ele levar as meninas à escola e isso obrigava-a a uma convivência que a estava a desorientar.

Depois havia aquela proposta de emprego temporário. E ela ficara desgostosa ao não conseguir vaga para lecionar naquele ano letivo. Não que ela precisasse de emprego para viver, felizmente a sua situação económica, não era problema. A casa estava paga, e tinham recebido uma herança razoável quando a tia-madrinha de Quim morrera, além das próprias economias do casal. Podia continuar em casa, mas agora que o filho ia entrar na creche a solidão ia ser ainda maior.

Pensando nisso, aquele emprego podia ser uma boa ideia. O pior é que desde que voltara a ver Fernando, todos os dias, e especialmente depois das conversas trocadas, ela sentia-se cada vez mais inquieta na presença dele e receava que essa inquietação aumentasse com a convivência diária no consultório.

Todavia sabia que o psiquiatra tinha fama de ser um dos melhores profissionais da cidade, logo ele não iria misturar os seus possíveis desejos com o trabalho.

 Devia ou não aceitar a proposta de Fernando?  Bom o melhor seria aproveitar os dias que os pais estavam lá em casa, para ir até à clínica, falar com a sua assistente, saber em que consistia exatamente o seu trabalho, ver se o horário era compatível com ir buscar o filho à creche, enfim pesar todos os prós e os contras e só então tomar uma decisão.

Por fim, cansada, acabou por adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde acordou um pouco antes do relógio despertar. Saltou da cama, abriu a persiana e olhou a rua, que não obstante a hora matutinal. já fervilhava de gente que passava apressada, decerto rumo aos seus empregos.

Retirou da comoda um conjunto de roupa interior e do armário, umas calças de ganga e uma T-shirt azul, que levou para a casa de banho, onde procedeu à higiene pessoal vestindo-se em seguida.

Antigamente quando o irmão vinha buscar a sobrinha para a levar à escola, sempre a encontrava de pijama e robe, mas agora parecia-lhe que receber assim o amigo, não seria próprio e daria ideia de uma intimidade que a afligia.

Foi para a cozinha e deu início ao novo dia preparando o pequeno almoço para a filha e sobrinha.

 

8.3.22

8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER



PARA TI, MULHER

 

Para ti, Mulher

Que sonhas com uma vida de Amor,

O Respeito, a Igualdade de direitos

A Liberdade

E a dignidade de seres Mulher.

E és violada, espancada, vilipendiada.

É tua vida, rosa sem perfume

Espinhosa na profissão e no lar.

 

Para ti, Mulher

Que sonhas com um mundo de Paz

E vês teu mundo ruir com a guerra

Que não quiseste, nem entendes,

Mas te obriga a fugir o teu lar em ruínas

procurando pôr os filhos a salvo

Deixando o coração a sangrar pelo teu amor

sem saber se voltarás a vê-lo com vida.


 

Para ti, Mulher

Que sonhas com um mundo melhor

Onde o alimento não falte na mesa

Mas sobrevives à fome

E seguras no peito esquálido

O corpo do teu filho moribundo

Porque nem o teu amor, nem a tua dor

Lhe alimentaram o corpo faminto.

 

Para ti, Mulher

Filha, irmã, esposa, mãe, viúva

Que tantas vezes carregaste no ventre

Com alegria, o Milagre da Vida

Sofrendo todas as dores com um sorriso.

E hoje sobrevives na solidão.

Porque o marido, a morte o levou

E os filhos se perderam, no mar da emigração.

É para ti mulher 

que carregas dia a dia a morte dentro do peito

o meu respeito, 

a minha singela homenagem  

Elvira Carvalho


 

25.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVII



 Enquanto esperava por ela depois de ter pago as suas compras, Nuno observava, o rosto delicado, os cabelos soltos, a figura esbelta. Não tinha dúvidas de que era uma mulher muito bonita. A jovem que ele amara, dera lugar a uma mulher em toda a sua plenitude. Era estranho que estivesse sozinha. Segundo o seu pai lhe dissera, ela estivera casada pouco mais de um ano. Seria que tinha amado tanto o marido, que não queria atraiçoar a sua memória? De qualquer modo isso não lhe interessava. Ele não a deixaria entrar na sua vida, não a deixaria saber do seu acidente, nem a deixaria saber que ele já não era um homem por inteiro.

Não, ele só queria vingar-se de toda a amargura que ela destilara na sua alma. Hoje era só o que lhe restava. Saborear a vingança.
Luísa acabou de meter as compras nos sacos, pagou e saiu.
- Não devias ter esperado. Estás a atrasar-te.
- Não tenho pressa. É sábado. Não tenho urgências este fim-de-semana. E não respondeste ao meu convite. Almoçamos juntos?
- Não posso mesmo.
- E jantar? Não me vais dizer que também não podes. Não estou a pedir nada de especial. Apenas um jantar de amigos.
-Está bem, - concedeu sem se atrever a olhá-lo.
- Há algum sítio da tua preferência?
- Não. Escolhe tu.

Tinham chegado junto do carro dela. Abriu o porta bagagens, e começou a arrumar os  sacos de compras.
- Às oito vou buscar-te. Mas tens que me dizer onde moras.
- Na mesma casa que vivia naquela época. A casa de meus pais.
- Está bem. Lá estarei às oito. Até logo.
Fez-lhe uma leve carícia no rosto, e afastou-se em direção do seu carro.
Luísa, ficou uns segundos a vê-lo afastar-se, depois entrou no carro e manobrou para sair do estacionamento e seguir para casa. Estava perturbada com o encontro. Nuno fora o único homem que amara, e era também o único,  desde a morte do marido, cuja aproximação não lhe provocava pavor.

Mesmo tendo passado catorze anos, e muitas horas de tratamento psicoterapêutico, ela ainda não se sentia muito confortável na presença do sexo oposto. Com Nuno as emoções que ela sentia, não tinham nada a ver com medo.  
Continuava a ser um homem bonito e com uma presença marcante.
Estranho, era não ter casado, pois adorava crianças, e ela lembrava bem dos  projetos que partilharam no passado. Uma casa com jardim, e espaço suficiente para criar três filhos.




9.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XI

 





Nuno entrou em casa, acendeu a luz e fechou a porta atrás de si. Despiu o casaco e jogou-o com displicência para um cadeirão na sala. Foi até ao bar e serviu-se de uma bebida. Sentou-se no sofá e cerrou as pálpebras. Mentalmente reviu a figura de Luísa. Já não era a jovenzinha que ele tanto amara, e que lhe destroçara o coração. Era uma mulher muito bela.
 O amadurecimento tinha-lhe dado um outro encanto. E apesar da raiva que o consumira durante aqueles dezasseis anos, a sua presença mexeu tanto com ele que teve de fazer um enorme esforço para aparentar uma naturalidade, tão falsa como ela própria.
Namoravam há dez meses e ele tinha a certeza do seu amor. Recordou o dia em que a pediu em casamento. Os planos, para um futuro próximo. As juras de amor que ela lhe fizera. Parecia tão sincera, tão apaixonada. Ele estava tão feliz, que deixara de lado o sonho de ir para África. 

Uma semana foi o tempo que durou a sua felicidade. Uma semana e as juras de amor foram quebradas, com a desculpa de que era muito jovem, e não estava preparada para assumir um compromisso sério. 
Devastado, com a atitude da mulher que amava, a tal ponto que estava disposto a renunciar aos seus sonhos, com a alma em farrapos, Nuno partiu para o Zimbabwe, onde esteve durante três anos.

 Foi lá que recebeu a carta do pai que lhe anunciava o casamento de Luísa, com um homem que quase podia ser seu pai. Não tinham passado nem seis meses depois da sua partida. Amaldiçoou-se pela dor que sentia, por não conseguir esquecê-la. E fez uma jura a si próprio, de que mulher alguma no mundo ia voltar a ter poder sobre ele. Nunca mais ia deixar que o seu coração se prendesse.
Integrado numa equipa de Médicos Sem Fronteiras, Nuno tinha chegado a Chitungwiza, nos subúrbios de Harare, a capital do Zimbabwe. Da mesma equipa, fazia parte a doutora, Helena Santos, que desde o início mostrou sentir grande atração por Nuno, apesar de ele nunca ter demonstrado qualquer outro sentimento que não o saudável companheirismo de dois colegas de profissão. Apesar disso Helena mantinha esperança. De tal modo que quando a missão do grupo acabou, e Nuno decidiu ficar, ela fez o mesmo, talvez pensando que acabaria por o conquistar.

Nuno continuou dedicado de corpo e alma às suas crianças, até que farta de esperar, Helena decidiu tomar a iniciativa e declarar-se ao colega. Sentindo-se incapaz de corresponder ao sentimento dela, Nuno despediu-se dos seus pacientes, e rumou ao Bangladesh, onde permaneceu durante dois anos.
Findo esse tempo voltou a África, tendo passado pela República Centro Africana, Eritreia, Burundi,  e Angola, para acabar por voltar ao Zimbabwe,  onde permaneceu até ao maldito acidente.

 Depois foi uma longa batalha consigo mesmo, até vencer as suas limitações e voltar a ser o médico, conhecido e estimado.
O acidente porém causara grande preocupação aos seus pais, que sentindo-se na reta final da existência , temiam não voltar a ver o filho.
Daí, que quando finalmente recebera alta do hospital da Universidade Técnica de Munique, para onde fora enviado após o acidente e onde estivera mais de três meses, regressou a Portugal  onde se candidatou a um lugar num hospital em Lisboa, e se mudou, para um apartamento não longe da casa dos pais. E quando pensava que tinha enfim encontrado a paz de espírito eis que encontrava Luísa e com ela regressava todo o passado. A dor e o ódio, que o acompanharam ao longo de dezasseis anos.

29.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE VI





No início do tratamento, Alzira passou mal. Tinha tonturas, náuseas e até vómitos. Mas o médico tinha avisado que seriam efeitos passageiros e assim foi, já que duraram apenas dez dias.

 O pior é que as melhoras não apareciam e a maldita doença parecia continuar a agravar-se. Ela, já não era a mesma mulher de antes. Os seus olhos tinham perdido o brilho, o corpo ganhou peso, a conversa cessou quase por completo, os movimentos perdiam coordenação. A compaixão que Luís sentia pela esposa, ia se incorporando cada vez mais no amor de outrora.
Voltaram ao neurologista, que resolveu combinar com o inibidor de colinesterase a Memantina.

Mas também este medicamento era um paliativo, pois não havia qualquer certeza de que pudesse melhorar a situação de Alzira. E a verdade é que não melhorou. Ainda assim, na consulta seguinte, o médico disse-lhe que tinha que continuar a fazer o tratamento, pois embora a ciência não conhecesse ainda outros medicamentos, o tratamento poderia evitar um sofrimento maior. e um aceleramento mais rápido da doença.

E tinham-se passado sete anos desde os primeiros sintomas. Agora Alzira,  está totalmente perdida, num mundo onde o marido não consegue chegar. Não faz nada sozinha, desde a higiene à alimentação, é ele quem tudo lhe faz.

Luís sente-se muito cansado.
Não tem irmãos, os seus pais já morreram, não tem filhos. Os cunhados ou já morreram ou estão emigrados, e os sobrinhos desde que a tia perdeu a noção das coisas e deixou de lhes dar dinheiro, nunca mais a foram ver. A mulher que foi tudo para ele na vida, companheira, mulher, amiga, amante, está presa algures, numa qualquer masmorra do seu cérebro doente. 
Sem esperança de se conseguir libertar. 

 E ele interroga-se: -" E se de súbito me acontece alguma coisa? Afinal estou com setenta e quatro anos. O que vai ser de Alzira? Quem cuidará dela?"


Nota:
 Eu sei que esta história é dura. Que mexe convosco. Porque alguns conhecem alguém que é portador da doença, e quase todos, transportamos connosco o secreto receio de vir a padecer dela.  Acredito que seja atualmente a doença mais temida pela humanidade. Esta história é totalmente fictícia. Foi inspirada numa notícia que ouvi onde se dava conta de que a doença aumentava em todo o mundo.
Peço-vos que não deixeis de ler o final na próxima quarta feira, já que dia 1 é dia de Todos os Santos. Talvez se surpreendam e descubram que as histórias de amor não deixam de o ser, mesmo quando a vida nos é madrasta.






7.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVI

 


Gonçalo encontrava-se sentado no sofá da sua sala. A Televisão estava desligada, a garrafa de cerveja, estava quase cheia. Já “morta” pois a Primavera já fazia lembrar o Verão e há mais de três horas que a abrira.  Desde que chegou a casa, apenas tomou banho, enfiou uns bóxeres, pegou numa garrafa de cerveja e sentou-se ali a pensar nos acontecimentos daquele dia. Ainda não acreditava que fora capaz de ir ter com aquela mulher e assim sem mais nem menos dizer-lhe que queria falar com ela.

A mulher devia ter pensado que estava doido. E será que não estava mesmo a enlouquecer? A infrutífera busca de uma lembrança, durante aqueles quase catorze anos, não estariam mesmo a dar com ele em doido?  Ele não a conhecia. Então porque o seu coração disparava quando ela estava perto? E porque é que a filha dela, se parecia com a sua irmã como duas gotas de água? Se a sua sobrinha Sara, não fosse tão parecida com o pai, ele poderia pensar numa troca de crianças na maternidade, mas assim nem essa hipótese era plausível

“Esquece as semelhanças da criança com a Laura, Gonçalo – dizia-lhe a voz da razão. – Estás farto de saber que há pessoas parecidíssimas sem que tenham qualquer vínculo familiar. Nunca ouviste falar em sósias?”

Passou a mão pela testa.. É claro que ele sabia que havia pessoas muito parecidas, e até já vira em revistas e televisão sósias de alguns atores famosos.

Mas não era só isso. Ele viu surpresa e medo no olhar daquela mulher, quando tropeçou nele à porta da escola, antes de fugir a correr. E se não se conheciam não havia razão para essa reação.

Em desespero, apertou a cabeça entre as mãos. E nesse momento o telemóvel tocou. Olhou o ecrã. Fernando Novais. Atendeu.

- Estou…

- Gonçalo, estás de serviço, ou em casa?

- Porquê?

- Lembras-te do Ernesto Vieira, aquele gajo, da Guarda que terminou o curso connosco?

- Lembro-me.

-Encontrei-o hoje por acaso. O tipo está há seis anos num hospital em Londres. Casou com uma inglesa, e foi pai o mês passado. Veio apresentar o bebé aos avós.  Perguntou por ti e pelo Paulo Antunes. Pediu para vos dizer que gostaria de se encontrar connosco amanhã à noite, para beber uns copos e matar saudades. Estás disponível?

- Estou, embora para te ser sincero, não ande muito animado.

- Que se passa, pá? Alguma coisa com a tua irmã?

Notou a ansiedade na voz do amigo.

-Não.

- Ouve lá, precisas de ajuda? Queres que vá até aí? Não tenho nada combinado para esta noite.

Fernando era psiquiatra e um bom amigo. O único aliás que conhecia o seu problema.

- O quê, não tens um programa para hoje? A uma Sexta-feira? Estás a ficar velho, amigo.

- Vai-te lixar, Gonçalo. Precisas ou não de um amigo?

- Acho que preciso mais de um psiquiatra, - respondeu quase num murmúrio

 - Quinze minutos e estou aí – disse desligando.

Gonçalo, pousou o telemóvel, foi ao quarto, enfiou umas velhas calças de ganga e uma T-shirt. Sentiu fome. Afinal não jantara. Mas o Fernando devia estar a chegar. O bom do Fernando, filho único de um casal vizinho e amigo dos seus pais.

Os dois eram amigos e companheiros de brincadeiras desde a mais tenra idade. Apaixonara-se pela sua irmã desde a primeira vez que a viu, era ela apenas um bebé de dois dias de idade. Podia ser um amor fraternal, e provavelmente fora-o, pela menina que punha de lado as bonecas e andava sempre atrás dos dois querendo participar nas brincadeiras deles. Mas à medida que os anos se passavam, esse amor transformou-se numa paixão que ele nunca confessou, primeiro porque Laura era muito jovem e ele tinha receio de a assustar com o seu amor. Resolvera esperar e, entretanto, a irmã conhecera Joaquim e todos os outros homens deixaram de existir para ela.

Gonçalo suspeitava de que o amigo continuava apaixonado pela sua irmã. A campainha da porta tocou e ele apressou-se a ir abrir.

 

21.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE IX

 


- E a mim, que sou seu tio e padrinho. Bem sei que não é a mesma coisa que um pai, mas sabes que estarei sempre aqui para ele, e para vocês. O Miguel precisa conviver com outras crianças da sua idade. Sabes tão bem como eu, como isso é importante para o seu desenvolvimento. E tu também precisas voltar ao trabalho o mais rápido possível. Não podes continuar fechada para a vida. Sei como amavas o Quim e que a sua perda te causou uma dor enorme.

Não te peço que o esqueças, sei que ele vai ter sempre um lugar no teu coração, mas não deixes que o ocupe na totalidade. Tens dois filhos amorosos, tens que pensar neles. Tenho a certeza que um coração generoso como o do Quim não ia gostar de te ver assim.

Ele ia gostar que seguisses com a tua vida. Meu Deus, Laura só tens trinta e dois anos, és uma mulher inteligente e linda. Tens que dar uma nova oportunidade ao amor e a ti própria. Mereces isso.

- Fala a voz da experiência, Gonçalo? Quantas oportunidades deste tu ao amor? A Inês Rodrigues andava atrás de ti, como cachorro atrás do dono, a João Guerreiro era capaz de correr uma maratona por ti e a Amália Roque vendia a alma ao diabo, por uma saída contigo? Deste uma oportunidade a alguma delas?

-Um médico não tem grande disponibilidade para relações, mana.

-Não me convences. Quando dava aulas no colégio tinha vários miúdos, cujos pais eram médicos. Mal estava o mundo se ser médico impedisse o homem ou a mulher que o é, de viver uma história de amor e formar uma família. Se assim fosse, decerto seria mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que um médico.

- Mãe, o Miguel cheira mal, - gritou Sara da sala.

- Está bem, a mãe já vai. Desculpa Gonçalo, tenho de ir. De qualquer modo já acabámos a refeição. Se tiveres de ir não levo a mal. Entre mudar a fralda ao Miguel e conseguir que adormeça, vou demorar um bocado.

-Não faz mal. Vou pôr a loiça na máquina e ver se a Sara precisa de ajuda com os TPCS. Como te disse, hoje só vou para o hospital à noite.

Meia hora mais tarde, com Miguel adormecido e Sara no quarto, a estudar para o teste do dia seguinte, os dois irmãos encontravam-se sentados na sala, quando Laura retomou a conversa anterior.

- Não acredito que um homem inteligente e bonito como tu, se sinta feliz sozinho. Estás em Lisboa há mais de dois anos, e passas o teu tempo onde?  Ou no hospital, ou aqui.  De certeza não há no hospital uma médica, ou uma enfermeira com quem gostasses de passar algumas horas fora do hospital?

- E diz isso quem passa o tempo metida em casa, e até as compras faz pela Internet?

- É diferente Gonçalo. Ir às compras com um bebé não é tarefa fácil.

- Acredito. Mas diz-me, quantas vezes vais ao parque com ele? Não devias aproveitar o tempo em que a Sara está na escola para o fazeres? O teu desgosto, não pode estar a atrasar o desenvolvimento do teu filho. Procura uma creche e pelo menos aí ele aprende a conviver com outras crianças.

- Palavra que ainda um dia, descubro como o fazes?

-O quê?

- Cada vez que tento falar da vida que levas, dás um jeito de falares da minha, e não responderes.

-Prometo que da próxima vez, não o faço, se quando o Miguel acordar, formos os quatro ao parque.


21.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIV


Surpreendido Quim franziu o sobrolho. Porque chorava? Puxou uma cadeira e sentou-se a seu lado.
-Que se passa Sofia? O que foi que eu disse, para ficares assim? Será que te arrependeste?

Arrependida? Ela? Não, de modo algum. Olhou-o por entre as lágrimas.
-Não é o que disseste. É o que vais dizer…
- O que eu vou dizer? - interrogou por sua vez, enquanto pensava que as mulheres, eram bem mais complicadas, do que aquilo que ele gostaria que fossem. Especialmente aquela, que era sua mulher. – Não entendo.
-Disseste que temos que falar do que aconteceu. Calculo que me vais dizer que não devia ter acontecido, que estavas cansado, que não desejavas...

Ele estendeu a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para ele.
- Calculas mal, Sofia. Se eu sonhasse que não seria rejeitado, já teria acontecido há muito tempo.
Tocaram sinos no coração de Sofia? Ela seria capaz de jurar, que ouvia os carrilhões de Mafra, em dias de festa.
- Queres dizer que …
- Que aprendi a amar-te, querida! Foste como um delicioso vinho, cujo aroma se foi infiltrando em mim, até me deixares completamente embriagado - disse acariciando-lhe a face com ternura.

-Ó meu Deus! E porque não disseste nada?
- Porque tu disseste que querias ser livre.  Lembras-te? Disseste-me que aceitaste o casamento, porque era o teu voo para a liberdade. 
- Sim, mas referia-me ao ambiente em que vivia, à vida que tinha levado até aí. Apaixonei-me por ti, quase no primeiro dia. Mas tu disseste que amavas outra pessoa. Pediste-me paciência para te livrares dos teus fantasmas. E nunca mais disseste nada. Ainda ontem, fui eu quem tomou a iniciativa. Como ia adivinhar que me querias? Agora mesmo, imaginei que me ias dizer, que uma vez que os teus tios tinham morrido, não havia razão para manter este casamento. Pensei que ias pedir o divórcio, que ia perder-te.

- E por isso choravas? Mas se eu não tenho feito outra coisa, que demonstrar-te o meu amor. Acaso pensas que me preocuparia em passar contigo todos os momentos livres, se não te amasse? Não percebias, que estava sempre pendente de ti, tentando adivinhar o que te fazia feliz, com receio que um dia já ambientada ao país, me exigisses que te libertasse. 
Nem te passa pela cabeça, as noites que não dormi, pensando que estavas ali no quarto ao lado, e ao mesmo tempo tão longe.  Agora mesmo, com esse choro, pensei que me ias dizer que não me amavas, que o que aconteceu, não se podia repetir. Parece-me Sofia, que temos sido um bom par de tontos. E que já desperdiçamos tempo demais das nossas vidas, quando  há maneiras  bem mais interessantes em que gastá-lo.
E dizendo isto atraiu-a para si e curvando-se aprisionou-lhe a boca num beijo demorado.
- Não sei qual é a tua ideia, mas seja qual for, estou de acordo, - disse ela sorrindo feliz.
Sem responder, Quim pegou-lhe ao colo, e levou-a para a cama.




Ufa! Esta acabou! 
Será? Pensam que sim? Eu aposto que não... 
Vamos esperar para ver na Sexta - Feira?



9.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX

 




Não era pois de admirar que se deslumbrasse com um homem educado e culto, como Quim. E que de seguida se apaixonasse. Por outro lado tinha bem presente a imagem de boneca da mulher loura. Ela não era assim. Não se achava feia, mas reconhecia que não era nenhuma beleza.  

O seu cabelo castanho, era  forte e ondulado, o que sempre lhe desagradou, pois  gostava mais que fosse liso, o corpo um pouco mais alto do que ela gostaria, a sua cintura não se deixava abarcar com duas mãos. Tinha um ar de mulher forte, robusta, o oposto da mulher-boneca por quem ele se apaixonara. Além disso não sabia nada sobre sedução. E se o marido sabia, e ela acreditava que sabia, não o tinha demonstrado, até ao momento.

Três semanas antes do Natal, Sofia ficou doente. Há dois dias que se encontrava constipada, tinha arrepios de frio, não se sentia bem. Mas naquela noite mal tinha passado pelo sono. Tinha fortes dores de cabeça, doía-lhe a garganta, e ardiam-lhe os olhos. De manhã tentou levantar-se mas não conseguiu. Devia estar cheia de febre. Chamou pelo marido, mas ele já tinha saído. 

Voltou a cair num estado de semiconsciência. Não soube quanto tempo esteve assim. Acordou com a necessidade premente de ir à casa de banho. Com grande dificuldade conseguiu levantar-se. Respirava com dificuldade, sentia o corpo todo dorido, como se tivesse levado uma tareia. Tremiam-lhe as pernas e tiritava de frio. Saiu da casa de banho e quase se arrastou até ao telefone. Ligou para o restaurante e pediu ao empregado que a atendeu para avisar o marido de que se sentia doente e não tinha ido trabalhar. Depois voltou para a cama. O esforço deixara-a tão cansada, que lhe parecia que ia sufocar.

Caiu de novo naquele estado letárgico de quem tem muita febre. Não soube quanto tempo passou, não tinha noção das horas.
Sentiu que alguém a chamava.  Abriu os olhos com dificuldade, e viu Quim junto à cama.

-Meu Deus, Sofia, estás a arder em febre, - estava sério, preocupado. - Vou chamar um médico, - disse afastando-lhe o cabelo do rosto.
Voltou pouco depois, com um copo de água e uma aspirina.
- Toma isto, para ver se baixa um pouco a febre, enquanto aguardamos o médico.
Ela tomou o comprimido e fechou os olhos. Cada vez que tossia, era como se lhe rasgassem o peito e as costas.

31.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVII

 




Um mês mais tarde, o “casal” tinha adquirido rotinas e viviam aparentemente felizes. Sofia estava empregada numa loja de moda, ia para o emprego e regressava de metro, jantava no restaurante e aguardava pelo marido para regressarem a casa. Passavam os sábados juntos, já que o restaurante encerrava nesse dia, e ela só trabalhava até à uma. Depois do almoço, davam uma volta pela cidade, e às vezes pelos arredores. 

Quim era um homem culto e um excelente guia e ela gostava de o ouvir. Jantavam em casa. E depois do jantar, iam ao cinema, ao teatro, ou simplesmente ficavam em casa, vendo televisão e conversando.
Ao domingo o restaurante estava aberto, ele ia trabalhar. Ela levantava-se cedo, tratava das tarefas da casa, ia à missa, almoçava no restaurante e passava parte da tarde com a tia Délia.

A tia era simpática e  boa conversadora e Sofia tinha-se afeiçoado a ela.
Pena que cada vez se encontrasse mais debilitada.
Jantava com os tios e só descia à hora que o marido costumava sair. E seguiam juntos para casa.

Decorrido esse mês, Sofia estava completamente apaixonada pelo marido. Cada dia o admirava mais, gostava da paciência com que lhe explicava coisas, que ela nunca entendera, como a politica por exemplo. Tinha aprendido mais com ele naquele mês, do que na sua vida inteira. Sentia-se fascinada pela mentalidade do marido, tão diferente da dos homens da sua aldeia. E cada dia era maior o seu desejo de que ele reparasse nela como mulher.

Por essa altura, conheceu a mulher por quem ele se apaixonara. Encontraram-se num sábado, quando passeavam pelas margens do Sena. Ela estava sentada num café quando os vira. Levantou-se e dirigiu-se a eles. Era uma bela mulher, pequena, de aspeto delicado, tez branca e cabelos loiros. A sensação que Sofia teve foi de que se tratava de uma boneca de porcelana, tal a imagem de delicadeza e fragilidade da outra. 

 Sofia soube imediatamente quem ela era, não porque o marido lhe dissesse. A mão de Quim apertou de forma inconsciente, durante uma fração de segundo, o ombro de Sofia, quando a  viu, e isso foi tudo.
-Olá Quim. Não há quem te veja. Disseram-me que te casaste. É claro que não acreditei, - disse ela pestanejando exageradamente. 
- É bom que acredites Joana. Porque é verdade, - respondera-lhe ele aparentemente calmo.

A “boneca” fez um trejeito com os lábios, como se fizesse beicinho e dignou-se olhar para Sofia. Pendurou-se no braço de Quim e perguntou:
-Apresentas-me?
-Não. E se me dás licença, estamos com pressa.
Sem qualquer espécie de decoro, ela esticou-se, deu-lhe um beijo na face, e afastou-se dizendo:
- Telefona-me.





Esta história voltará depois da Páscoa.  Para todos desejo um resto de boa semana e uma Santa Páscoa, tão feliz quanto possível.