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5.10.21

POESIA ÀS TERÇAS - VERDADE - LAURA RIDING


VERDADE



Sempre procuramos a Verdade.
Ela tem medo de ser pega.
Livros são gaiolas.
Verdade não é um canário
Para ciscar palavras com paciência
E morrer depois de comer todas.

A verdade não gostaria de viver
Na cabeça ou na garganta ou no coração de alguém.
Não tente acha-la ali.

A verdade não é dríade pra ser punida numa árvore
A verdade não é nenhuma náiade.
A verdade certamente se afogaria numa fonte.

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silencio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite.
A verdade não pode ser vista.

Deixe a curiosidade ficar em casa.
Ela pode se perder.
(A verdade frequenta antros estranhos.)
Se, criança, o segredo se calça,
Um dia será imprudência.

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.
.



- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.



Gente, estamos em Outubro. Olhem ali para o vosso lado esquerdo e por favor não esqueçam. A prevenção pode ser a diferença entre a vida e a morte.

15.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIV






Duas semanas depois, os médicos decidiram que era chegada a hora de fazerem Mariana nascer.  Estava com trinta e duas semanas, tinha boas hipóteses de sobreviver sem qualquer sequela, e a situação no útero da mãe começava a tornar-se mais complicada à medida que a situação materna se ia deteriorando.
Gil fora avisado de véspera e por isso logo de manhã, dirigiu-se ao hospital com a mala de roupa que preparara com a ajuda da Celeste, pois a falar verdade não tinha a noção do que devia escolher entre a quantidade de roupinhas que enchiam as gavetas da cómoda, no quarto que seria o da filha.
No hospital, foi-lhe dada autorização para assistir à cesariana, e para isso teve de se despir e vestir a bata esterilizada bem como a touca e sapatos cirúrgicos que a enfermeira lhe deu.
E foi com enorme emoção e algum receio que segurou a filha quando uma enfermeira lhe desapertou a bata e lhe encostou o recém-nascido e minúsculo corpo da menina ao seu próprio peito nu. Nada nem ninguém podia ter preparado Gil para a intensa emoção que acelerou os seus batimentos cardíacos, e lhe pôs um nó na garganta que lhe impediu qualquer palavra. Limitou-se a segurá-la com carinho, e a tentar fazer-lhe sentir toda a força do seu amor, através do bater acelerado do seu coração.
Como se isso a tornasse mais forte e mais apta a sobreviver. Mas logo a enfermeira a levou, para a pesar, vestir, ser vista pelo médico e levada para a incubadora, até que lhe fosse dada alta.
 Mil anos que ele vivesse, jamais esqueceria a emoção que sentira no momento em que pegou na filha recém-nascida ao colo e sentiu o frágil bater do seu pequeno coração
Pouco depois, uma enfermeira fê-lo sair do bloco de partos, enquanto o informava que as máquinas que mantiveram Sara artificialmente viva, iam ser desligadas. O médico iria passar a certidão de óbito, e ele poderia iniciar com a agência funerária os trâmites para o funeral.
Um pouco mais tarde, já vestido abraçava o irmão, que chegara ao hospital, no momento em que ele ia para o bloco operatório, e aguardara na sala de espera, por notícias.
- Foi emocionante, Marco – disse Gil respondendo à muda interrogação dos olhos do irmão. – Segurar nos braços aquele pedacinho de carne, sentir o seu coraçãozinho bater no meu peito, nem consigo descrever o que senti.
- Ela está bem de saúde? E o que vai acontecer agora? – perguntou o irmão.
-É muito pequenina, mas fisicamente é perfeita e tem bons pulmões. Se visses como chorou enquanto a limpavam. Agora vai ser examinada por um pediatra e levada para a incubadora.
Uma enfermeira virá avisar quando a Mariana esteja na incubadora. Vais comigo, vê-la?
-Posso?
- Segundo me informaram, só  vamos vê-la através de um vidro. O médico acabou de me informar que vão desligar as máquinas que mantinham a Sara em vida artificial. Tenho que telefonar ao pai dela, e saber se a família vem 
despedir-se dela, e se assim for, conseguir passagens de avião para eles.
- Vamos tratar de tudo juntos, não te preocupes. Enquanto telefonas para o teu sogro eu vou ligar para a Laura. 








25.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XV




Depois daquela tarde, era frequente encontrar os dois jovens juntos. Primeiro como dois amigos, depois já com um pouco mais de intimidade,   passeavam-se pela beira do rio, olhos nos olhos, dedos entrelaçados, sempre na companhia do pequeno Pedro. Era como se intimamente ambos tivessem assumido um amor, que nenhum dos dois se atrevia a mencionar.
Uma tarde, recebeu um telegrama da mãe, dizendo que como a sua irmã tivera de regressar a casa, ela resolvera ir também, e estava agora na casa da tia Rosa em Santarém.
 Pedro sentia-se perfeitamente bem. Nunca mais se sentira cansado, tinha perdido a palidez com que chegara, dormia bem e até engordara um pouco. Recordando a sua doença, e o que o médico lhe dissera, ele não se atrevia a fazer promessas a Rita. Às vezes lembrava-se de ter ouvido a mãe falar nas "melhoras da morte". Melhoras que muitos doentes terminais experimentam pouco antes de morrer. E angustiado, perguntava-se se era isso, o que lhe estava a acontecer. E os dias sucediam-se, e nada de novo acontecia. Uma tarde Rita disse-lhe:
- Estamos a acabar as férias. A mãe acaba sexta-feira,  a segunda série de tratamentos. Só pode fazer mais para o ano. No domingo chega o meu pai e regressamos a casa.

Pedro sentiu um aperto no peito, pois percebeu que Rita esperava que ele tomasse uma decisão relativamente ao futuro dos dois. Coisa que ele não podia fazer. Como ia dizer-lhe que se aproveitara da sua presença para tornar menos amargos os seus últimos dias? Era cruel demais.
Então decidiu que tinha de regressar. Precisava ir ao médico. Talvez fazer outros exames. Tinham-se passado mais de dois meses, e a verdade é que se sentia melhor que nunca. Todavia não se atrevia nem se permitia fazer projetos para o futuro sem voltar ao médico, e fazer novos exames. Era um grande risco que não faria a jovem correr.

Ela estranhou o seu silêncio. E quando nessa tarde ele voltou ao jardim não a encontrou. Apenas a dona Célia e o pequeno. A senhora olhou-o com um certo ar de reprovação, quando a cumprimentou, e o pequeno soltou a língua.
- Zangaste-te com a minha irmã?
 – Não. Porquê?
 – Porque ela não quis almoçar e foi para o quarto a chorar...
Sentiu-se um canalha, por ter feito chorar a jovem. Mas consolava-o o facto de que se ela soubesse a verdade iria sofrer muito mais. Despediu-se da senhora, fez uma festa na cabeça do pequeno e regressou a casa da tia. Aí chegado, foi direto para o  quarto, abriu o guarda-fatos e colocando a mala em cima da cama, começou a meter nela as roupas de qualquer maneira.
Logo de seguida batiam à porta do quarto.
- Entre.
A figura da tia perfilou-se no umbral, seguida da fiel empregada.
- Vais-te embora filho? Aconteceu alguma coisa grave com a tua mãe?

13.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE V


No dia seguinte fez os exames que o médico lhe prescrevera. E ficou aguardando que passassem os dez dias para saber o que na verdade se passava consigo. Quando o dia chegou, passou no laboratório de manhã a apanhar o envelope com os resultados,  antes de ir para o emprego e à tarde quando saiu, foi ao consultório levá-lo ao médico. Desta vez, talvez porque já fosse tarde, a sala de espera estava vazia. Apenas a assistente do médico se encontrava na sua secretária folheando uma revista esperando por certo, que o médico desse o dia por terminado ou quem sabe esperasse ainda por algum retardatário . 
- Boa tarde. O senhor doutor está? Tenho aqui o resultado das análises que ele me pediu.
- Boa tarde, – respondeu a assistente. - Espere um pouco. Vou ver se o doutor o pode atender agora.

Afastou-se e entrou no consultório depois de ter batido suavemente à porta. Segundos depois saía.
Pode entrar, - disse afastando-se para o deixar passar e fechando a porta nas suas costas.  
 Já na sala, Pedro cumprimentou o médico e estendeu-lhe o envelope. Como da primeira vez, olhou à sua volta com desconfiança enquanto o médico abria o envelope e se embrenhava no resultado das análises.
Pensou que a sua desconfiança se devia ao facto, de em criança, ter caído e ficado com um enorme corte, num joelho, que teve que ser cosido. Porém desta vez, ao olhar o médico, foi invadido por um receio maior. Teve a certeza que qualquer coisa de muito grave se passava consigo. Foi algo que leu, no olhar receoso que o médico lhe lançou.
- Então Doutor, o que dizem as minhas análises?
 – Bem, tem que fazer repouso absoluto. Vou receitar-lhe umas injeções e umas cápsulas. E também...
 – Doutor, – interrompeu Pedro, certo de que o facto de o médico não responder à sua pergunta, configurava um caso muito grave. – Não sei o que vi nos seus olhos, mas tenho a certeza de que não é nada bom. Não será com repouso que resolvo o meu problema, e o Doutor sabe-o. Quero saber a verdade. Tenho direito a isso. Vivo com a minha mãe, que já ultrapassou os setenta anos e para quem sou tudo o que tem na vida. E é por ela, que preciso saber a verdade.
- Meu jovem, pede-me a verdade e esta por vezes é muito cruel. Quisera dizer-lhe que está enganado, que nada do que pensa é verdade, mas infelizmente só posso dizer-lhe que às vezes os milagres acontecem.





E porque hoje é Sexta-Feira 13 quem quiser conhecer uma história verdadeira é só carregar no link 

11.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE III

- Está nervoso? - perguntou Pedro, mais para aquietar o outro do que por curiosidade.
- É a primeira vez que venho ao médico – respondeu o jovem – sempre fui saudável, mas ultimamente não sei o que tenho. Faltam-me as forças, canso-me a andar, não me apetece comer, e durmo mal. Não é normal na minha idade. E você?
 – Bem, a mim acontece-me mais ou menos o mesmo. - respondeu Pedro. É por isso que aqui estou. Também é a primeira vez.
- Pedro Medeiros chamou a assistente do médico.
Ele levantou-se mais nervoso ainda. Seguiu a assistente por um curto corredor, e atravessou a porta do consultório que ela lhe abrira.
Na sua frente estava uma sala com uma enorme secretária, atrás da qual se encontrava um homem dos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos, e uns olhos que se escondiam atrás dos óculos de grossas lentes. Vestia uma bata branca. Ao lado da secretária um biombo branco escondia talvez alguma maca, ou marquesa, como dizia a sua mãe. Ao canto um aparelho grande, branco. "Deve ser o tal da radioscopia," - pensou.
- Sente-se, - disse o médico de mão estendida, apontando a cadeira vazia na frente da secretária. A assistente, poisou a ficha do doente na frente do médico e saiu
 fechando a porta atrás de si.
- Ora então diga-me lá, de que se queixa, senhor... - olhou para a ficha e continuou - Pedro Medeiros, não é verdade? 
O jovem assentiu com a cabeça, em vez de responder. Sentia-se intimidado. Engoliu saliva e a custo, explicou os sintomas. Quando acabou, o médico levantou-se, colocou o estetoscópio e disse:
- Passe ali para trás do biombo e dispa a camisa:
Pedro levantou-se e fez o que o médico lhe mandara. Este aproximou-se dele e fez um demorado exame, ao mesmo tempo que lhe mandava respirar fundo, e tossir. Depois  dirigindo-se à secretária pegou no 
esfigmomanómetro e mediu-lhe a tensão arterial. Por fim mandou-o deitar, apalpou-lhe a zona do fígado, do estômago, do apêndice. Mirou-lhe os olhos e mandou-lhe pôr a língua para fora. Endireitou-se e disse:
- Agora venha aqui a este aparelho.
Pedro seguiu-o cada vez mais nervoso, e foi fazendo o que o médico lhe pedia. Uns minutos depois o clínico deu o exame por terminado e dirigindo-se para a secretária disse:
- Pode vestir-se.
E começou a rabiscar algo. Quando ele se sentou já vestido, o médico disse:
- Não lhe encontro nada de nada. Mas para afastar qualquer hipótese, e ver se descobrimos a razão dos seus sintomas, vai fazer umas análises e volta quando tiver os resultados.
E dizendo isto estendeu-lhe a folha onde antes estivera a escrever.
Pedro, pegou na folha e balbuciando um obrigada dirigiu-se à porta e saiu. Antes ainda ouviu a última recomendação do médico:
- Dê uns passeios e distraia-se.


16.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVI




Ficámos muito ricos, voltamos a Portugal, criamos vários negócios e aumentámos em muito a nossa fortuna. Mas eu continuava com a obsessão de me vingar daquele homem, e não descansei enquanto não o arruinei. Pareço-lhe um monstro?- Perguntou fixando os seus olhos negros no rosto afável do Padre.
- Apenas humano. Mas acredito que não encontrou na vingança, a satisfação com que sonhou durante todos esses anos.
- Acabei por não a levar até ao fim, embora ele pense que sim. O homem em questão é o pai da jovem que acabou de sair. Não tem sido nada fácil para mim, Padre. Tenho vivido os últimos cinco anos dividido entre o amor que sinto por ela e o ódio pelo pai. Agora estou decidido. Vou devolver-lhe tudo no final do mês, embora ele ainda não saiba. 
- Porque lhe perdoou, ou por causa da jovem?
- A verdade é que não sei. Durante anos, odiei-o e só sonhava com o dia em que me pudesse vingar dele. Acreditava que o meu pai morrera, por sua causa, apesar de saber que a saúde dele já estava muito periclitante quando tudo aconteceu. Minha mãe sempre me disse que o médico já a tinha alertado para a possibilidade de uma recidiva fatal, logo após ele ter tido o Acidente Vascular Cerebral. Ela sempre acreditou que a sua morte nada teve a ver com o facto de eu ter sido despedido por suspeita de roubo. Hoje interrogo-me se ela não estaria certa. 
Por outro lado, não fora a atitude cruel daquele homem, eu nunca teria emigrado, não teria conhecido o Júlio, não teríamos feito aquele boletim,e provavelmente hoje teria uma vida medíocre, e sem interesse.
- Já é bom que tenha conseguido compreender isso. Mas existe alguma coisa que ainda não está muito clara no seu espírito, não é verdade?
- Trata-se da jovem que esteve aqui há pouco, e que é filha desse homem.  Estou profundamente apaixonado por ela,talvez até tenha estado a vida inteira, pois nunca me interessei verdadeiramente por outra mulher. E parte da raiva que sentia por esse homem, era também por ela, e pelo desinteresse com que ele a tratava. Todavia penso que posso ter destruído as hipóteses de a conquistar, por causa da minha sede de vingança contra o seu pai. Que me aconselha, Padre?
- Esqueça o passado e foque-se apenas no presente. Por muito que faça, nunca conseguirá mudá-lo. E corre o risco de estragar o presente e o futuro. Seja sincero consigo mesmo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder. Mas se assim não for, esqueça e procure ser feliz com outra pessoa. O amor conquista-se, não se compra, por muito dinheiro que o amigo tenha. Já viveu grande parte da vida, preso a más recordações e a sentimentos de vingança. Liberte o coração de rancores e permita-se ser feliz.
-Obrigado, muito obrigado por me ter escutado, Padre. Acredite que me sinto bem melhor agora do que quando aqui entrei.
-Volte quando quiser. Estou sempre por aqui e estarei pronto a escutá-lo quando sentir necessidade de falar com alguém.
Estendeu-lhe a mão, que António apertou calorosamente, sentindo que mais do que um padre, tinha encontrado um amigo.
Saiu da Igreja e dirigiu-se ao carro, pensando que o sacerdote tinha razão. Aquela vingança não tinha sentido.
Pôs o carro em movimento, mas em vez de se dirigir à empresa, foi direto para casa. Precisava meditar sobre o que acontecera naquele dia e por as ideias em ordem.


28.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XI



Paula chegou ao escritório no dia seguinte, pelas catorze horas.
Tinha trabalhado no dia anterior até às dez da noite e toda a manhã daquele dia,  mas estava tudo pronto para a festa.  Agora só tinha de se preocupar em estar presente no início da festa, e assegurar-se que ela ia decorrer sem nenhum incidente que lhe roubasse o brilho. Era sempre assim. Ela estava presente em todas as festas, mas só até se assegurar que tudo estava a correr como ela planeara. Depois despedia-se dos anfitriões e regressava a casa. Não se sentia bem naqueles ambientes tão cheios de hipocrisia. Ela era muito frontal. Gostava da verdade acima de tudo. Saudou Irene e dirigiu-se para o seu gabinete, seguida pela secretária.
- Já terminaste a decoração do salão?
- Trabalhei ontem até às dez e esta manhã, mas está tudo pronto.
Falta-me confirmar data e hora com a empresa de segurança que vai estar presente. Podes fazer isso em seguida. E o “rei” da Cozinha Portuguesa, sempre vem?
- Tal como te disse ao telefone ontem à noite, telefonaram de novo à tarde para saber a resposta e eu marquei para as quinze.  Estou muito curiosa. Não é costume que os futuros clientes, queiram marcar uma entrevista contigo. Por norma, sempre nos contactam por telefone, ou correio eletrónico. E só já quase em cima do evento é que aparecem. E às vezes nem chegam a aparecer, são as secretárias ou os agentes que tratam de tudo. Não estás curiosa?
- Nunca ouviste falar em milionários excêntricos? Ou maníacos do trabalho?
- Dos primeiros já ouvi falar, mas nunca conheci nenhum. Maníacos do trabalho, tenho uma na minha frente. Bom se não tens nada urgente para mim vou para o meu lugar.
Dirigiu-se para a porta, mas antes de a abrir voltou-se e batendo a mão na testa disse.
- Ah! Já me esquecia. Chegou a resposta do Ferraz. Aprovou a primeira opção. A festa vai ser ao estilo dos gloriosos anos vinte. Vou encomendar os endereços.
  Irene saiu e Paula olhou o relógio. Catorze e vinte e cinco. Levantou-se e foi até à janela. No céu sem nuvens o sol brilhava aquecendo tudo à sua volta. Estava-se na Primavera, mas os dias já anunciavam o Verão que se aproximava. Na rua não andava muita gente. Não era para admirar, quem não estava a trabalhar, não saía aquela hora. Voltou para a secretária. Estava nervosa. A situação da sua família preocupava-a. Nunca fora muito chegada ao pai, talvez porque ele também não se tivesse preocupado em criar laços de carinho, quando ela mais precisava. Mas gostava muito da madrasta, e adorava o irmão. E depois havia aquele homem que ela não conhecia, e que o pai dizia que o podia salvar da ruína, em troca de se casar com ela. Tinha cabimento uma coisa assim? Retirou da mala, um pequeno espelho e olhou-se, tentando descobrir o que poderia ter levado aquele homem a semelhante disparate. Os seus cabelos negros como asa de corvo, estavam penteados para trás e presos num coque. O rosto moreno era na sua opinião vulgar. O nariz não era grande nem pequeno nem sequer arrebitado. A boca pequena era cercada por lábios grossos que seriam mais bonitos se os realçasse com um batom atraente. Porém só usava maquilhagem quando se deslocava às festas. Tinha um bonito sorriso, mas vulgar. A única coisa que reconhecia, ter muito bonitos, eram os olhos.  De um verde intenso e límpido como esmeraldas, quando estava calma, ou verde escuro como jade, quando alguma coisa a tirava do sério. Voltou a olhar o relógio. Catorze e cinquenta e cinco. Estava cada vez mais nervosa. Ligou o computador e abriu o esboço da festa do Ferraz.


25.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XII


Três dias depois, Ana encontrava-se no escritório, estudando um processo de um divórcio litigioso, quando o pai lhe perguntou se ia nessa noite ao aeroporto despedir-se de Simão.
Sentiu raiva. Então o irmão ia-se embora nessa noite, e não lhe dissera nada? Verdade que não voltaram a encontrar-se depois da festa, mas ainda assim, ele podia ter-lhe telefonado. Não era justo que não o fizesse. Afinal fora ele a levantar as hostilidades, era ele quem tinha de pedir desculpas. De todos os irmãos, Simão sempre fora o seu preferido. Porque era o mais velho? Porque sempre tratava as irmãs com todo o cuidado como se elas fossem delicadas flores de cristal? Porque estava sempre perto dela, para a acalmar e a proteger de todos os perigos imaginários? Não sabia.
E agora? Tinham sido cinco anos sem o ver. Tinha saudades dele. Teria desejado contar com o seu apoio, e a sua compreensão, para lhe ajudar na fase de desilusão em que se encontrava, com a recente desilusão amorosa. E ele não só não lhe ligara nenhuma, como até se mostrara desagradável.  E agora ia-se embora assim? Ah! Não. Não ia ser assim tão fácil. Arrumou o processo:
- Pronto pai está aqui o processo que me pediste e todos os apontamentos necessários para a elaboração da defesa. Sempre posso contar com os quinze dias de férias que me prometeste?
- Claro. Vais viajar?
- Vou. Hoje mesmo vou marcar passagem. Preciso afastar-me. Espairecer. Pensava começar amanhã. Dispensas-me esta tarde? Preciso tratar de muitas coisas.
- Está bem, Ana. Porque não vais lá a casa, almoçar connosco? A mãe ia ficar contente de te ver, e se não vais logo ao aeroporto, aproveitavas para te despedires do teu irmão.
- Está bem.
O resto da manhã decorreu quase sem dar por isso, empenhada em deixar em ordem todos os processos que tinha entre mãos. Separou aqueles que pela proximidade das datas, não poderia tratar e combinou com os colegas, quem os ia assumir.
Quando chegaram a casa, a mãe e a irmã, mostraram grande alegria por vê-la. Mas não viu o irmão.
Ouviu o pai perguntar:
- O Simão não almoça connosco?
- Disse que sim. Deve estar a chegar. – Respondeu a mãe.

reedição







18.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXI









Afonso foi até ele. Dobrando os joelhos para ficar à altura da criança, perguntou:
-Estás triste? O Pai Natal enganou-se no presente?
-Não. Estou confuso.
- Queres dizer-me o que te faz confusão?
- Um menino na escola disse-me que não há Pai Natal. Que os presentes são os pais que os dão. No entanto tu estiveste sempre aqui. E o Pai Natal veio trazer os presentes. Tento perceber onde está a verdade.
Desde o primeiro momento, Afonso considerara Simão um menino muito especial.  Era muito precoce no entendimento das coisas, muito responsável, ele diria até que demais para a sua idade.
- Queres saber a verdade? E depois guardas segredo?
- Claro.
Afonso falou-lhe então, da lenda do Pai Natal. Disse-lhe que os irmãos acreditavam na sua existência e eram felizes com isso. Mas a verdade é que eram sim os pais que compravam os presentes. Depois pediam a alguém de confiança, que se vestisse de Pai Natal e fosse entrega-los naquela noite. Mas agora ele tinha que guardar segredo. Um dia quando os irmãos fossem maiores também iam descobrir a verdade. Mas por enquanto iam ficar muito desiludidos se perdessem aquela magia.
O menino sorriu feliz.
- Fica descansado. Sei guardar um segredo. E sabes uma coisa? Gosto muito de ti. 
-Também gosto muito de ti, filho – respondeu emocionado, abraçando o menino.
Por fim a noite chegou ao fim, as crianças recolheram aos quartos.
Mariana e Matilde, as gémeas, ficaram na cama de Ana, e esta foi dormir com a irmã. Os adultos trocaram então os presentes, com os pais de Francisca a retiraram-se logo a seguir, pois estavam habituados a dormir cedo. Na sala, Afonso conversava com o cunhado, e Graça aproveitou a ida de Francisca à cozinha, para a seguir.
- Ainda não tive oportunidade de falar contigo. Vejo que vocês se entenderam. Há muito tempo?
-Há dois dias.
-Por isso esse ar atarantado dos dois. Estão em lua-de-mel.
-Oh! Nota-se assim tanto? - Perguntou corando.
- Como não? – Vocês devoram-se com os olhos.
- Meu Deus que vergonha!
- Não sejas tonta, amar não é vergonha. Fico feliz por saber que vocês o são. Merecem-no bem. Estava preocupada convosco. Era evidente para mim que vocês estavam apaixonados um pelo outro. Mas são tão teimosos que temia, nunca viessem a reconhecê-lo.  

reedição




16.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXVII





Afonso, chegou a casa, à hora de jantar. As crianças que ouviram o carro vieram ao seu encontro, mal abriu a porta. Era um ritual que se repetia diariamente, e que lhe aquecia o coração. E apesar de naquele dia não ser diferente, ele notou algo estranho. João, sempre tão alegre, tão extrovertido, estava sério. Parecia ter chorado. Inquietou-se. 
- Meninas vão brincar. Quero falar com os manos.
Baixou-se e agarrou o menino.
-Que aconteceu? Choraste?
João respondeu com outra pergunta.
-Vais continuar a ser meu pai? Não vais virar estrelinha como o outro?
Percebeu o que acontecera. Inconscientemente pensou como reagiriam as filhas, quando soubessem a verdade sobre a mãe biológica.  Abraçou o menino com carinho.
-É claro que vou ser, sempre teu pai, filho.
- Obrigado, pai.
Sentiu um nó na garganta. Não fora João quem falara, mas sim o irmão. Era a primeira vez que Simão lhe chamava pai, depois de conviverem há quase um ano, e de ouvir o irmão, a chamar-lhe assim, quase desde o primeiro dia.  Passou-lhe a mão pela cabeça, numa caricia e disse:
- O pai ama-vos muito. Mas agora vão chamar as manas, e lavar as mãos, para irmos jantar.  
Ergueu-se emocionado. E só então reparou em Francisca.
-Ouviste? Chamou-me pai. Finalmente.
Acenou afirmativamente
- Sempre soube que o faria. Tinha-te dito, que tinhas de ser paciente. Compraste o que querias?
- Sim. Está tudo no escritório.
Olhou-a e sussurrou:
-Estás linda.
Estremeceu. Era a primeira vez que Afonso lhe elogiava a beleza. E fazia-o de uma forma apaixonada, intima. Que se passava? Era uma consequência da emoção anterior, ou o homem finalmente reparara nela?
As crianças, voltaram e todos foram para a mesa. O jantar decorreu animado como sempre. Quando se sentem amadas, as crianças esquecem depressa  qualquer coisa mais desagradável. E depois João  nascera após a morte do pai, nunca o vira a não ser por foto, apesar da mãe sempre lhe ter ensinado a amá-lo.
Depois do jantar, enquanto Francisca levantava as loiças da mesa e as punha na máquina, Afonso foi para a sala ver a árvore, e os garotos contaram ao pai, como tinham ajudado a decorá-la. Estavam entusiasmados com a festa que se aproximava, e a perspectiva das prendas que iriam receber. Mais tarde, Francisca reuniu-se-lhes dizendo que eram horas de ir lavar os dentes e dormir.
- Ajudo-te, - disse Afonso levantando-se e seguindo-os.

reedição



9.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XI



Depois que Miguel saiu, a jovem apertou a cabeça entre as mãos, como se quisesse alcançar a memória perdida.
Quando ele mencionara o facto de poder ser seu pai, ela sentira como se uma corrente eléctrica, lhe percorresse o corpo. Era uma sensação estranha e dolorosa que ela desconhecia. Que se passava com ela? A ser verdade que tentara matar-se, como Miguel dissera, ( e não tinha razão para duvidar da palavra de um homem, que até ali se portara como um cavalheiro) que fizera ela de tão grave para desejar a morte? Ou quem lhe tinha feito tanto mal, ao ponto de a levar àquele desespero? Porque não conseguia lembrar-se  de nada? A sua cabeça era como uma folha em branco, que ela não conseguia preencher. Soltou um gemido e de novo deu livre curso às lágrimas. Mais tarde, preparou-se para dormir.
Antes de se deitar, hesitou. Fechava ou não a porta à chave? Miguel tinha mostrado ser um homem íntegro. Não podia imaginar que se aproveitasse da sua fragilidade. Não fechá-la era a prova de que confiava nele. Por outro lado ele mesmo lhe dissera para o fazer. Então decidida, deu a volta à chave e deitou-se.
Levou horas para adormecer. Por fim, cansada, entregou-se nos braços de Morfeu.
Acordou sobressaltada a meio da madrugada. Sentiu passos na sala ao lado. Depois os passos no corredor, uma porta que se abria.
Minutos depois, a porta fechava-se, os passos firmes voltaram a ouvir-se pelo corredor até à sala. Logo em seguida, apagou-se a luz e o silêncio reinou na casa. E ela voltou a adormecer
Acordou cedo. Saltou da cama e num movimento mecânico, certamente efectuado ao longo de anos, fez dançar o pé direito debaixo da cama em busca de algo. De repente lembrou que não tinha visto nas coisas que Miguel lhe comprara, uns chinelos. Ia retirar o pé, quando encalhou em qualquer coisa. Eram os chinelos do dono da casa. Enfiou-os. Eram enormes, mas à falta de melhor serviam. Vestiu o robe, rodou a chave lentamente, e saiu procurando não acordar o homem que dormia vestido no sofá.
Coitado! Esquecera-se de retirar do quarto a roupa para dormir, e ela, presa à sua dor, nem pensara nisso.



6.8.18

FOLHA EM BRANCO- PARTE VIII


                                      


Enquanto a jovem arrumava a cozinha, na sala, Miguel foi testando as telas e juntando as que já estavam secas, tentando libertar um pouco o espaço. Nunca se tinha preocupado com isso, pois nunca levava ninguém lá a casa, e ele próprio pouco parava por lá. Agora era diferente.
Tinha de sair. Esquecera de comprar roupa para a jovem dormir. 
Se ela quisesse sair, podiam ir às compras.
Minutos depois apareceu na cozinha.
- Quando acabar, podemos sair. Quem sabe se recorda de alguma coisa algum lugar.
- Não,- quase gritou a jovem. Depois mais calma acrescentou:
Se não se importa, eu prefiro ficar. Pelo menos hoje. Tenho medo do que posso encontrar. Por favor!
-Você é que sabe. Mas não pode encerrar-se num casulo e ficar a hibernar. Mais cedo ou mais tarde terá que enfrentar o seu medo, e procurar encontrar o seu passado.
- Eu sei. Mas como fazer isso se não me lembro de nada?
- Pode encontrar alguém que a conheça. Que lhe diga quem é.
- E terei que viver segundo o que me dizem, sem saber se é verdade ou mentira? O senhor mesmo, disse que não me conhece e não sabe quem sou. Mas, eu estava sozinha consigo, quando acordei. Como fui lá parar? Quem me levou? E como é que o senhor não viu nada?
- O que lhe disse é verdade, mas parece-me que não confia em mim. A única coisa que posso acrescentar, talvez sirva para a pôr mais confusa ainda. Por isso não lho disse antes. Mas talvez o devesse ter feito. Você preparava-se para saltar da falésia. Eu impedi que o fizesse, desmaiou e quando acordou foi o que sabe. Não há mais nada que eu saiba, ou que esteja a esconder.
Ante a palidez da jovem, calou-se, ajudou-a a sentar-se e preparou-lhe um copo de água com açúcar.
-Eu… eu, ia matar-me? - Balbuciou incrédula.
- A menos que tivesse algum paraquedas escondido, -brincou Miguel tentando desanuviar a tensão da revelação.
- Mas porquê? O que é que eu fiz de tão errado, para querer acabar com a vida?
- As vezes, não fazemos nada. A vida é alegria e dor, e às vezes a dor é tão grande que acaba com a própria existência. Um dia saberemos o que aconteceu, não se martirize mais.
 - O senhor é um anjo.
-Longe disso, menina, longe disso. E por favor, o meu nome é Miguel.
A jovem levantou para ele os olhos rasos de água, e murmurou
- Obrigado Miguel.






20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

10.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XII




João marcou o número da empresa, que anunciava pela Internet, disponibilizar serviço de enfermagem ao domicílio.
- Enfermagem domiciliar, boa noite.
- Boa noite. Fala João Santos. Estive aí esta tarde para contratar os vossos serviços de enfermagem ao domicílio. Fiquei de ligar agora para confirmar, a contratação Confirmo tudo o que foi tratado esta tarde, inclusive a hora. Nove horas.
- Muito bem. Pode ficar descansado.
-Obrigado.
Desligou o telefone e ficou pensativo. Talvez não fosse certo forçar a volta de Odete, chantageando-a assim. Mas a verdade é que ele a amava, como nunca pensou que alguém pudesse amar. E a sua volta era a única esperança que lhe restava de recuperar o seu amor.
Estava cansado. Aquele dia fora complicado. Antecipando a resposta da mulher, ele tinha contratado os serviços de enfermagem para as vinte e quatro horas, de modo a que a sogra não ficasse sozinha até ir para o hospital. Depois falou com o diretor do hospital particular S. Francisco, um amigo dos tempos de estudante, especializado em cirurgia cardíaca, a fim de internar a sogra o mais depressa possível. Ele mostrou-se recetivo e ficou de lhe telefonar no domingo com a confirmação ou não do internamento imediato.
Foi até à cozinha, preparou duas sandes e abriu uma garrafa de cerveja. Sabia que tinha o jantar no frigorífico, a empregada deixava-lhe sempre a refeição pronta antes de sair, mas não lhe apetecia jantar.
Mais tarde, depois de ter comido, foi para a sala, procurou o DVD com um filme que tinha comprado há uns meses e ainda não tinha conseguido ver, decidido a fazê-lo naquele dia antes de se deitar. Porém a meio do filme desinteressou-se. Não percebia porque o filme atingira tanto sucesso. A história era banal. E os atores, eram muito fracos para o seu gosto. Especialmente o elemento masculino. Desligou o televisor, apagou a luz e foi para o quarto, onde depois de se despir e escovar os dentes se deitou. Como sempre desde a partida de Odete, a cama parecia-lhe demasiado grande, para a sua solidão, e demasiado pequena para albergar as recordações das noites de amor que ali viveu. Havia uma série de perguntas que estavam na ponta da sua língua, mas que ele não iria fazer.
- Onde estivera Odete, durante aquele tempo? Como e onde vivera? Sozinha ou acompanhada? E sobretudo, porque chegara à conclusão que o casamento tinha sido um erro, se sempre se mostrara tão apaixonada?


5.3.18

A TRAIÇÃO .- PARTE V


Naquela tarde não acordou com o habitual beijo da esposa. Chamou-a mas ela não respondeu. Levantou-se e sentiu um arrepio. Parecia que tinha voltado uns anos atrás, quando a casa lhe parecia demasiado fria e a solidão era companhia diária. Olhou à sua volta e então viu a carta, na cómoda entre a jarra de flores e a moldura com a foto do seu casamento.
Sentou-se na cama, e leu.
“Desculpa João, mas não aguento mais. O nosso casamento foi um erro muito grande. Nenhum de nós é feliz. E se tu não tens coragem de mo dizer, e por isso te afogas no trabalho, eu não tenho receio de enfrentar a verdade, e não quero um amor de mentira. Acredito que mereço e tenho direito, a viver um amor de verdade, e assim, vou-me embora. No cofre estão as jóias que me deste, não quero nada teu, foi suficiente tudo o que vivi nestes três anos. Levo apenas algumas roupas. Quando quiseres o divórcio o teu advogado que entre em contacto com o meu. Neste momento não te deixo o nome porque ainda não falei com nenhum, mas dentro de dias, envio-te o nome e endereço de um.
Desejo que sejas tão feliz, como eu tenho a certeza que hei-de ser.
Odete.”
João ficara sem chão. Vestiu-se e foi a casa dos pais dela, pensando que a encontraria lá. O sogro estava em viagem de trabalho, e a sogra disse-lhe que não sabia de nada, a não ser que a filha passara por lá para se despedir dizendo que ia viajar, e ela  acreditou que iam os dois. Ficou claro para ele que a sogra estava a mentir, mas não tinha como obrigá-la a dizer a verdade.
Saiu dali e procurou-a por todos os hotéis da cidade, mas o seu nome não estava registado em nenhum deles.
Regressou a casa com a alma em pedaços, pensando como era possível um homem enganar-se tanto com uma mulher. Ele seria capaz de jurar que a mulher o amava. Mas se assim fosse, ela não  o teria abandonado. Devia ter conhecido algum tipo da idade dela, e decidira ir viver com ele. Provavelmente alguém colega de estudos. Só podia ser isso.
Três dias depois recebeu uma mensagem com o nome de um advogado. Esperançado em saber notícias da esposa, foi ao seu escritório. Mas o advogado negou-se a dar-lhe qualquer informação sobre o paradeiro da sua mulher.



21.2.18

ENTRE DUAS DATAS - PARTE V







- Não digas isso meu filho. És jovem, e algum dia esquecerás, embora isso hoje, te pareça impossível. E eu? Será que não pensas em mim, filho da minha alma?  
Havia lágrimas na voz e nos olhos da idosa. Estivera bastante doente, e ainda andava com dificuldade, razão porque chegara tarde.
- Eu também fiquei sem o meu homem, e Deus sabe como lhe queria. Mas que seria de ti, se eu me deixasse levar pelo desespero? Por ti tive de viver. Sofri muito meu filho. Santo Deus como sofri. E hoje, queres acabar comigo, acabando contigo?
Tinha-o apertado nos braços, e choravam. Mãe e filho abraçados comungavam da mesma dor. Clara ficou a olhá-los enternecida. Na verdade sempre tivera um fraquinho por Pedro, mas ele escolhera outra na hora de formar família.
- Mana, olha toda a gente já foi embora - disse a pequenita, puxando-lhe a saia.
Era verdade. Clara que só tinha olhos para o homem que amava, nem se apercebera.
- Mãe, mãe, perdoe-me. É que sofro tanto!
 A frase saíu entrecortada, como se quisesse engolir o soluço que lhe apertava a garganta. 
- Mas olhe minha mãe, não se preocupe. Eu julgava que tinha perdido tudo e não é verdade. A mãe precisa de mim e eu vou viver para si. Que Deus me perdoe a minha insensatez.
- Vamos Pedro. Já todos se foram embora. A tua mãe esteve doente, e ainda não pode abusar das suas forças. Vamos andando.
- Vamos sim, filha. E tu, meu filho, dá-me o teu braço e ampara este velho corpo cansado.
Deram-lhe o braço, e cada qual do seu lado, ajudaram-na. Na frente dos três a irmãzita de Clara, tentava apanhar uma borboleta, cantarolando com a inocente alegria das crianças.


Esta história termina amanhã.