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30.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXIV



Caminhavam lado a lado em direção às traseiras da casa, onde estava montada a tenda e onde se faria a festa propriamente dita.
- Se era isso que te preocupava, podes ficar descansado. Se queres saber a reação do meu pai, desculpa não quero falar disso. Mas quero que saibas, que te estou muito grata por teres desistido da tua vingança. Não por mim, recebi a minha parte da herança da minha mãe, que me serviu para montar a minha empresa, e é do meu trabalho que vivo. Mas pela Cidália e pelo Miguel.
- Pelo teu pai, não?
-A minha ligação com o meu pai nunca foi muito boa. É meu pai e como tal o respeito, mas ele nunca fez nada para ganhar o meu amor. Por isso fui viver sozinha. Mas não vamos falar disso agora. A tua irmã já sabe da festa.
-O Eduardo ia dizer-lhe ontem à noite. Ele contratou os serviços de um salão de beleza para que fossem cuidar dela esta manhã, e teve que lhe explicar porquê. Devem chegar daqui a pouco, almoçam connosco e vestem-se aqui, a loja já mandou entregar a roupa há dias.
- Sem ela escolher? Vocês não estão bons da cabeça. Isso não vai dar certo.
- Ela escolheu. O Eduardo levou-a à loja com o pretexto que era para o meu sócio fazer uma surpresa à noiva. Mas a minha irmã, não é parva e deve ter entendido logo que era uma prenda para o aniversário. E se não tinha a certeza, teve-a ontem quando ele lhe contou da festa. Só ainda não sabe que vai de lua-de-mel para a República Dominicana.
Conversavam enquanto Paula ia pondo nas mesas, os arranjos florais. Ninguém diria que três semanas antes, ela achava o homem arrogante e odioso. Pareciam amigos de longa data. Pareciam, mas na verdade não passava de aparência, cada um tentando esconder do outro os seus verdadeiros sentimentos.
- Está tudo pronto, não é verdade? - perguntou quando ela colocou o último arranjo na mesa que faltava.
-Por agora sim. O resto não depende de mim.
-Então vem comigo ao escritório. Preciso conversar contigo.
Afastou-se em direção à casa, sem esperar para ver se o seguia. Ao chegar à porta, voltou-se e verificou que ela continuava no mesmo lugar. Ficou parado, indeciso sem saber se continuar, ou voltar atrás. Só então Paula avançou.
-Aconteceu alguma coisa?- perguntou quando ela chegou junto de si.
- Estava a pensar se foste sempre assim, mandão e prepotente, ou se é só comigo. Por acaso ocorreu-te pedir-me para te acompanhar, ou ser delicado não faz parte da tua personalidade?
-Desculpa. Reconheço que por vezes sou um tanto rude, mas não tive qualquer intenção de te menosprezar.  A verdade é que preciso falar contigo. Queres acompanhar-me?
-Assim está melhor. Sou um tanto rebelde, não gosto de receber ordens. Essa é uma das razões que me levaram a fundar a minha própria empresa.
Tinham chegado ao escritório. Ele abriu a porta e afastou-se para a deixar passar. Entrou atrás dela e fechou a porta.
-Queres fazer o favor de te sentares. É quase meio-dia, a Gabi o marido e o filho devem estar a chegar e depois vamos almoçar. Gostava de falar contigo antes que eles cheguem.
-Bom, tu dirás.
-Daqui a pouco na festa, vou apresentar-te o meu sócio, Júlio Correia, e a sua noiva. Júlio vai casar dentro de oito dias. Eu vou ser o padrinho. Como não sou casado, nem tenho compromisso, querem apresentar-me uma prima da noiva para meu par. Não estou interessado em conhecê-la, nem em ter por par, uma pessoa que não me interessa.  Gostaria que me acompanhasses ao casamento.
Levantou-se nervosa. Acompanhá-lo ao casamento, passar o dia a seu lado, sem ser em trabalho, dançar com ele? Era demasiado perigoso, tendo em conta a descoberta recente do sentimento que ele lhe inspirava. O que ela queria era que aquela festa acabasse depressa para se afastar e tentar esquecê-lo.
-Não. Não me podes pedir semelhante coisa.
-Porquê? O que tem de mal? Não somos amigos?
- Amigos? Conhecemos-nos há quinze dias!
- Conheces-me há quinze dias. Eu conheço-te desde que tinhas este tamanho, - disse apontando com a mão a altura da sua anca. – Além disso, há quem acabe de se conhecer e fique amigo para a vida inteira. Diz antes que continuas a pensar que sou um ser odioso e vingativo, como disseste na primeira vez que nos encontrámos.


O Sexta, pede-me para vos agradecer a presença na sua festa. Diz que vocês são fantásticos, e que sem vocês ele simplesmente deixaria de existir. Bem Hajam



E porque amanhã é o 1º de Maio, esta história volta na Quinta-feira. A propósito, ainda se lembram como começou? É que o primeiro capítulo foi publicado a 14/3


29.4.19

FELIZ ANIVERSÁRIO SEXTA.




Atravessando o  Casario do Ginjal,  ia  a bela  Janita com os nervos À Flor da Pele envolta no seu Xaile de Seda, a caminho do Largo da Memória, onde se situava o Refúgio dos Poetas, para assistir a mais uma tertúlia de poesia que ali se ia realizar.
Estava um pouco atrasada, entretivera-se na Esquina da Tecla, onde  Esteban Blog, Zé Povinho, Pessanga, e Leoeosseus, todos Amigos de Portugal, se divertiam com um Palhaço Poeta, que Brincando com as palavras era capaz de escrever Coisas do Arco-da-velha. Uma Lua singular, despontava no horizonte e punha Reflexos de prata no Cantinho da Gaiata,  uma boutique, onde expostos na montra, os dedais de Francisco e Idalisa,  se mostravam desafiantes, aos maravilhados  Olhares da Gracinha que sempre com a Mania das fotos, não parava de os fotografar.
Os Brilhos da Moda não ofuscavam a mulher simples de beleza natural, que afirma com orgulho, Nasci no Alentejo.  
Acredita que é protegida pelo Anjo Azul e gosta de afagar a alma, com O cheiro da ilha, trazido pela brisa de verão. No seu Andarilhar, por este Meu mundo azul, aprendeu A Vivenciar a vida Fincando raízes nas coisas belas ao seu redor. 
No refúgio dos poetas, já se encontravam a São , a Eliane Lacerda e o Jorge Sader Filho, poetas convidados para apresentarem a tertúlia naquela noite.
Nestes eventos, Existe sempre um lugar vago, à espera dos retardatários, e ela apressou-se a ocupá-lo. Pegou no programa e foi lendo o titulo dos poemas, que dentro em pouco, iriam ser declamados pelos três convidados. 




Ano Sabático
Aqui se Grita
Art and Kits
Arte & Emoções
Ausente do Céu
Blog dos Forninhense
Blog da Tais Luso
Blog Veredas
Brincadeiras de poetas
Caminhando e Fraseando
Caminhos percorridos
Cantinho da Casa
Canto-Meu
Céus e Palavras
Ciranda de Frases
Coisas de uma vida
Coisas da Fonte
Começar de novo
Conversa Avinagrada
Das mãos da Gracinha
Devaneios a Oriente
Divagar sobre tudo um pouco
Dona Redonda
Duas cabeças
Ecos e Reflexos
Espiritual-idade
Existe um olhar
Figueira minha
Filhos do desespero
Fragmentos poéticos
Lerias
Letras que se Movem
Magia de Donetzka
Metamorphosis-mussitografias
Meu velho baú
Meusegredos Bell
Mi pasión, la poesia
Momentos e inspirações
Não, não sou estranho
No meu silêncio
Numero de matricula - 16429
O Berço do Mundo
O Guardião
O meu pensamento viaja
Olha o Tejo
Olhares em tons de maresia
Ontem é só memória
OQMDNT
Pensamentos de uma Gaja
Picos de roseira brava
Pinta Amores
Poeta porque Deus quer
Portate-mal
Receber e Dar
Rio sem margens
Rol de leituras
Sem pés nem cabeça
Serra, rio e mar
"Só pra dizer"
Uma Nova Cubata
Verdades & Bobagens
Vida e Plenitude




E dito o último poema, eis que todos estão convidados a fazer a festa aproveitando Os petiscos da Gracinha que são sempre deliciosos.






Obrigada a todos, pelo carinho com que me brindaram ao longo destes 12 anos.
Bem Hajam

E acaba de chegar mais um bolo para a festa. Obrigada Noname



28.4.19

PORQUE HOJE É DOMINGO


Um Padre passeia pelas ruas da aldeia, quando encontra  o sr. Lucas deitado na valeta completamente bêbado. Caridoso o Padre tenta levantá-lo, mas o homem é pesado e as forças do Padre já não são as mesmas da juventude, e assim acabam  por cair os dois por terra. O senhor Lucas acorda, vê o padre deitado a seu lado e diz:
- Ai senhor Padre, como nós estamos!

                                                             ****


Um Padre muito triste encontra outro  e confessa:
- Não entendo como é que a mesma coisa em contextos diferentes, dá resultados opostos.
- Estás a referir-te a quê? - pergunta o outro
- Refiro-me ao meu sermão de ontem. Para o preparar não dormi três noites; comecei a dizê-lo e adormeceram todos!


                                                            ****

Após o 25 de Abril, o sr. António, presença habitual nas missas deixou de ir à igreja. Preocupado o Pároco chamou a esposa à sacristia e perguntou-lhe:
-Diga-me com franqueza, senhora Maria. O seu marido deixou de vir à Missa por marxismo, leninismo, agnosticismo,ou ateísmo?
Responde a senhora Maria:
-Foi por uma coisa bem mais grave Sr. Padre. Foi por reumatismo.


                                                       
                                                               ****

O velho monge estava às portas da morte e o Reverendo Superior do Convento, foi à sua cela prepará-lo para a Passagem. Disse-lhe:
- Meu caro Padre, prepare-se pois chegou a hora de partir para o banquete celestial, oferecido por Deus, com pratos suculentos!
Numa voz sumida, o velho monge responde:
Vá o Senhor a essa boda, que eu estou sem apetite nenhum.


E não esqueçam amanhã a festa do SEXTA

27.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXIII


Paula levou o irmão à escola, cumprimentou o professor e aguardou que o autocarro partisse. De seguida foi a casa, buscar o seu vestido para a festa dessa tarde. Depois seguiu para Sintra. Embora a festa fosse às dezasseis horas, os convidados deveriam começar a chegar uma hora antes, e ela tinha que verificar se não se esquecera de nada. Também colocar as flores que tinha encomendado para adornar todo o espaço. Na véspera, ela e Margarida tinham deixado tudo pronto. Exceto os arranjos florais que só seriam colocados no sítio, umas horas antes da cerimónia a fim de se manterem viçosos.
Introduziu o código que lhe permitia a entrada e estacionou junto à garagem. Saiu do veículo e dirigiu-se à casa. Preparava-se para tocar quando a porta se abriu, e encontrou-se na presença do anfitrião.
-Bom dia, -saudou.
- Bom dia, Paula. Vieste cedo, - disse afastando-se para lhe dar entrada. Não lhe tocou com qualquer cumprimento que não fosse oral.
- Preciso colocar as flores para adornar o espaço e dar uma última olhada para ver se não me esqueci de nada. A propósito, sabes se a florista, já veio trazer as flores?
-Uma carrada delas. Estão na tenda nas traseiras. Já te ajudo a levá-las mas antes quero apresentar-te a minha mãe.
Colocou-lhe a mão no ombro e empurrou-a suavemente para a sala.
A senhora que se encontrava na sala a ler, levantou a cabeça encanecida, e olhou com certa surpresa, ao ver o filho entrar com uma jovem desconhecida. Pôs-se de pé, e a jovem pode observar que era de baixa estatura e magra. O seu rosto, de tez morena, mostrava-se bastante enrugado para a idade que Paula calculava tivesse a mãe do empresário. Notou que a única semelhança com o filho eram os olhos negros. Enquanto a mãe tinha um ar frágil que inspirava simpatia, o filho era a antítese. Alto, forte, tão seguro de si, que roçava a arrogância.
- Mãe; venho apresentar-te uma amiga, Paula Maldonado. É a responsável pela organização da festa de hoje. Paula, esta é a minha mãe, Teresa Ferreira.
Paula adiantou-se para cumprimentar a senhora, e esta abriu os braços para acolhê-la. Abraçou-a com carinho, dizendo:
- É um prazer conhecê-la. Fez um trabalho magnífico. A minha Gabi nunca mais vai esquecer este dia.
-Obrigada. A senhora é muito gentil. Agora se me dá licença, tenho um monte de flores para colocar nas jarras,- disse tentando esconder a emoção, que a calorosa acolhida da senhora despertara nela.
Dirigiu-se à tenda, para tratar das flores. Tinha pedido à florista a elaboração dos ramos, e a quantidade de flores por ramo, e se estivesse tudo certo, era só colocar um ramo em cada recipiente, que já tinha deixado nos lugares onde iam ficar.  Examinou os ramos e sorriu satisfeita. Pegou em alguns de braçada, e voltou-se para deparar com António que chegava naquele momento.
-São para levar para o local de cerimónia?
- Só os ramos, e os três arranjos brancos. Os restantes são para as mesas aqui.
-Está bem. Já tos levo.
Ela afastou-se dando volta à casa, para se dirigir ao jardim, onde estava montado o altar. Aí chegada, foi metendo os ramos nos jarrões colocados no caminho junto às cadeiras dos convidados.
Minutos depois, chegou o empresário com os restantes ramos.
-De que te ris, -perguntou poisando os ramos na beira do lago.
-Parecias uma jarra, com pernas, -respondeu sorrindo ao mesmo tempo que recolhia os ramos e os colocava nas restantes jarras. Levou depois os três pequenos arranjos para a mesa que serviria de altar, virou-se, analisou o local e deu-se por satisfeita.
- Bom, aqui está tudo em ordem, falta o outro lado. Estás muito pensativo, - disse ao chegar perto do anfitrião que continuava perto do lago.
-Entregaste o envelope? - perguntou ele.
-Sim claro. Logo de manhã.


Porque amanhã é domingo, e na Segunda, o Sexta faz anos, esta história continua no dia 30,



26.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXII




Eram oito e trinta e cinco quando Paula tocou a campainha da casa do pai.
-Bom dia, menina,- saudou a velha empregada que a conhecia desde que nascera.
-Bom dia, Teresa. Como tens passado?
-Como Deus quer e o reumático deixa. Mas entre. Os senhores estão à sua espera?
- Não, mas não te preocupes. Eu conheço bem a casa e os costumes do meu pai. Estão na sala?
- A tomar o pequeno-almoço. A menina toma alguma coisa?
-Não, obrigada. Podes voltar aos teus afazeres.
Esperou que a empregada se afastasse na direção da cozinha e então encaminhou-se para a sala.
- Bons dias, - saudou ao entrar. Avançou para o pequeno Miguel que se voltara na cadeira e lhe estendia os braços.
- Como está o irmão mais querido do planeta, - perguntou abraçando-o. Mas porque estás já levantado? É sábado, não tens aulas hoje pois não?
-A turma vai acampar. A mãe vai levar-me à escola, e daí vamos de camioneta com o professor, - respondeu o garoto,
- Lembraste-te hoje, que tens família? – perguntou o pai  com amargura.
Paula olhou-o e admirou-se. Não voltara a vê-lo desde que estivera no seu escritório, e estava muito diferente. Tinha perdido a arrogância natural, era agora um homem triste, amargurado. 
- Embora não acredites, lembro-me de vós todos os dias. Infelizmente não posso vir sempre que me lembro ou teria de me mudar para cá, - respondeu sentando-se à mesa junto do irmão. -Vim porque tenho um assunto urgente para tratar contigo.
- Hoje é mau dia para tratar de qualquer assunto. Mas enfim, desembucha.
- No escritório, depois de tomares o pequeno-almoço,- respondeu enquanto apertava carinhosamente a mão de Cidália, o que fez com que a mesma calasse a intervenção que se preparava para ter na conversa.
O pai não respondeu. Acabou de beber o café, afastou a cadeira e levantou-se. Sem uma palavra dirigiu-se ao escritório.
- Eu não me demoro, e depois levo-te à escola , - sussurrou ao irmão antes de se levantar e seguir o pai.
- O que tens de tão importante para me dizer, -perguntou o pai assim que ela fechou a porta. – Espero que não venhas pedir dinheiro, estou completamente arruinado.
- E desde quando é que te peço dinheiro?- respondeu
Abriu a mala, retirou o envelope e atirou-o para cima da mesa. 
- Vim trazer-te isto. Reconheces o envelope?
O rosto de Jorge tornou-se lívido. Pegou no envelope, e despejou o seu conteúdo em cima da mesa. Com mãos trémulas, pegou no cheque, verificou a quantia, viu o documento da hipoteca com o carimbo de liquidado e os restantes documentos.
- Que quer isto dizer? – perguntou encarando a filha.
-Quer dizer que a “Casa Nova” é tua de novo. A hipoteca no Banco foi saldada e o cheque é o teu fundo de maneio, para que a empresa volte a ser o que era.
- Vais casar com ele?
-Não.
- Então como o conseguiste? Ele estava cheio de ódio, não te daria isto a troco de nada.
- Podia dizer-te que o bom julgador por si se julga, mas prefiro pensar que a tua capacidade para julgar as pessoas é nula. Bom, vou-me embora. Prometi ao Miguel que o ia levar à escola. Mas um dia ainda vou querer saber, o que lhe fizeste.
- Ele não te contou?
-Não. Disse-me para te dizer, que o resgate da hipoteca e o cheque te indemnizam de todos os prejuízos que possa ter-te causado e que a partir de hoje estás por conta própria, ele não interferirá mais nos teus negócios.
Voltou-se e saiu fechando a porta atrás de si. Quando chegou à sala disse a Cidália.
-Vai ter com ele. Eu levo o Miguel à escola.

25.4.19

25 DE ABRIL - DIA DA LIBERDADE







Liberdade
Meu sonho de menina
Na vida suspensa
Nas palavras amordaçadas
Vermelhas como sangue
Derramado
No cárcere da ditadura.
Eras a musa sonhada
Pelos poetas deste país
Amordaçado.
Mulher desejada e proibida
Nos sonhos dos homens
Do Minho a Timor.

Liberdade
Eras o farol procurado
Que todos acreditavam
Havia de os guiar
À libertação
Da longa e tempestuosa
Noite fascista.
Mas eras também
Semente a germinar
Coragem.
No corpo e alma das gentes
Do meu país.
À espera do momento certo.

Emergiste em Abril
Determinada
Nas mãos crispadas
Sobre as armas
De homens audazes.
A esperança e o sonho
Nos carros de combate
Rasgando as trevas da noite.
Liberdade
Enfim chegaste
Rubra como o sangue
Derramado
Nos campos de batalha.
Pacífica como um cravo
No cano de uma espingarda.

Elvira Carvalho


24.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXI




Levantou-se como se desse a visita por terminada. Não parecia o empresário brincalhão que conheceu no primeiro dia, tão-pouco o homem com que lidou no seu escritório, quando duvidou da sua palavra. Muito menos o homem seguro de si, envolvente e sedutor, que conheceu em Sintra. Nem sequer aquele, que ultimamente lhe ligava todas as noites, para lhe perguntar se estava bem, como fora o seu dia, ou como iam os trabalhos de preparação da festa. Parecia mais velho, acabrunhado. Como se algo muito doloroso o tivesse envelhecido de repente. Paula sentiu um aperto no peito. Obedecendo a um impulso perguntou:
- Já jantaste? Não tenho grande coisa para te oferecer, mas se gostares de “pizza” tenho uma na cozinha que podemos partilhar.
Ele estendeu a mão, e segurou-lhe o queixo olhando-a intensamente.
- Sabes que o que desejo partilhar contigo não é uma pizza. De qualquer modo agradeço a tua oferta, mas hoje preciso estar sozinho, fazer uma séria reflexão do que tem sido a minha vida, contabilizar o deve e o haver entre o que me deu e o que me tirou. Amanhã é um dia especial, pretendo tomar algumas decisões importantes para o futuro e quero estar de alma lavada. 
Largou-a e encaminhou-se para a porta.
- Então encontra-mo-nos em Sintra antes da festa, - disse abrindo-lhe a porta.
Ele parou como se fosse dizer alguma coisa, depois colocou-lhe as mãos nos ombros e atraiu-a a si, abraçando-a. Não a beijou. Apenas a abraçou com força, como se necessitasse do calor do seu corpo para viver. Paula não se atreveu a falar. Limitou-se a ficar quieta, sentindo o seu coração bater acelerado. Depois ele largou-a e saiu sem uma palavra. Paula fechou a porta e foi sentar-se à mesa da cozinha com as pernas a tremer. Acabava de reconhecer que se apaixonara pelo empresário. Descobrira-o durante o tempo que durou aquele abraço. Santo Deus, como desejara que ele a beijasse.
“Raio de sorte”,- murmurou entre dentes. “Era só o que me faltava. Depois de um homem mentiroso e traidor, tinha que me apaixonar por outro rancoroso e vingativo. Decididamente, tenho um coração sem juízo”
Afastou a caixa da “pizza”. Tinha perdido o apetite. De súbito lembrou-se do envelope. Foi até à sala e abriu-o. Verificou o conteúdo. Estava tal como naquele dia em que fora aos escritórios, confrontá-lo. A única diferença era um cheque de cem mil euros.Voltou a guardar os documentos no envelope e foi guardá-lo na mala. Foi à cozinha, encheu um copo de leite, e bebeu-o. Apagou a luz e foi para o quarto. Tinha que estar na casa do pai antes do progenitor sair de casa. Depois ia para Sintra, e o dia ia ser muito longo. Despiu-se, enfiou o pijama, foi à casa de banho, escovou o cabelo, lavou os dentes e foi-se deitar.
Uma hora depois continuava às voltas na cama, presa numa inquietação que não a deixava dormir. Temia o dia que se avizinhava. Como ia ela encarar o empresário sem deixar transparecer os sentimentos que acabara de descobrir? Felizmente, depois daquele evento, provavelmente não o veria com frequência, e talvez conseguisse esquecer aquele sentimento, antes que ele criasse profundas raízes no seu coração. O novo dia já adentrava pela madrugada quando extenuada acabou por adormecer.


Como é que ele sabia a morada dela? - pergunta a Susana. Foi dito por duas vezes em episódios diferentes que ele investigou a vida dela.


Porque amanhã é o 25 de Abril, esta história continuará dia 26. Será de novo interrompida a 27 para continuar dia 30. 28 é domingo e 29 o Sexta é aniversariante.

23.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXX


Tomou um duche, que a revigorou. Enrolou uma toalha no corpo, escovou os belos cabelos e deixou-os soltos sem os secar. Vestiu um curto e florido pijama de algodão, enfiou um robe azul, calçou uns chinelos, e foi para a cozinha. Abriu o frigorífico, procurou alguma coisa para cozinhar, mas os dias de trabalho intenso, tinham-na impedido de ir às compras pelo que o frigorífico estava praticamente vazio. Foi até ao quarto, pegou no telemóvel, e pediu uma” pizza”. Pouco depois a campainha tocou. Paula pegou na carteira e dirigiu-se à porta. Espreitou pelo óculo pensando tratar-se do entregador de “pizzas” e surpreendeu-se ao ver quem estava do outro lado. A campainha soou de novo enquanto ela hesitava se abria ou não a porta, mas o segundo toque acabou por convencê-la. Aconchegou o robe ao peito e abriu a porta.
-Boa noite. Posso entrar?
Como resposta ela afastou-se para lhe dar passagem, fechou a porta e encaminhou-o até à sala dizendo:
- Não te esperava.
- Talvez devesse ter avisado. Mas se o fizesse será que me recebias?
- Talvez não. Não costumo receber visitas em casa, a não ser de familiares. Mas senta-te. Queres beber alguma coisa?
- Não, obrigado
- Então dá-me cinco minutos por favor! Volto já.
Deixou-o só e dirigiu-se ao quarto, onde trocou rapidamente de roupa. Já era embaraço suficiente receber o empresário em sua casa. Mas recebê-lo de roupa de dormir, era demais.
-Bom, - disse ao entrar na sala envergando um conjunto de calça e túnica. – O que é tão urgente que não podias, guardar para amanhã?
António abriu a pasta e retirou um envelope que ela reconheceu.
- Amanhã é o último dia do mês. O teu pai deverá estar no meu escritório às onze horas. Vou ficar em Sintra esta noite e não penso ir amanhã ao escritório. Vim trazer-te todos os documentos da firma do teu pai bem como o resgate da hipoteca, e um cheque que deve cobrir as necessidades imediatas da empresa.Com o resgate da hipoteca e esse cheque, ficarão liquidados todos os prejuízos que ele terá tido por minha causa. Peço-te que lhos entregues amanhã de manhã. Diz-lhe que a partir de agora, está por sua conta, eu não voltarei a interferir nos seus negócios.
- Desististe da vingança, mas não perdoaste. Por isso não o queres ver, - disse ela
-Desisti da vingança por ti. E também pela Cidália, porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto te ama.
 - Que sabes do Miguel? Nunca te falei dele.
- O meu sobrinho Pedro é o seu melhor amigo, e os amigos falam uns dos outros. O teu irmão, não esconde de ninguém o amor e a admiração que tem por ti. Por vocês desisti. Pelo teu pai, não o teria feito. Talvez um dia eu consiga esquecer o que me fez sofrer e o possa perdoar. Mas por enquanto não consigo, e por isso não quero voltar a vê-lo.
Tocaram a campainha e Paula levantou-se.
-Desculpa, tenho que ir abrir, tinha encomendado uma “pizza” para o jantar. Deve ser o empregado da pizaria.
Era mesmo o jovem, com a “pizza”. Paula pagou, fechou a porta e foi colocar a caixa na cozinha voltando de seguida à sala.
- Porque não me contas, o que o meu pai te fez?- perguntou.
- Porque és demasiado importante para mim, e não te quero envolver nesta história. Estive em Sintra esta tarde. Pensei que ainda te encontrava, mas segundo Alice tinhas saído há um quarto de hora. Fizeste um trabalho fantástico. Sei que vais lá estar amanhã, mas tinha que resolver este assunto hoje. Por isso vim.



E com o comentário da Ailime chegámos aos 40.000

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXIX



Como combinado, no dia seguinte Paula apresentou-se nos escritórios do empresário com todo o plano da festa em três dimensões. Conheceu Eduardo com quem simpatizou de imediato, respondeu a todas as questões que lhe foram apresentadas e viu o plano aprovado sem restrições.
Voltou a referir que na sua opinião, Gabi devia ser informada da festa, afinal ela ia ser parte integrante da mesma e podia haver pormenores com que ela não estivesse de acordo, mas o marido, assumiu a responsabilidade e de resto ao fim de dez anos de vida em comum, ela acreditava que ele devia conhecer a mulher, melhor que ninguém.
Os dias que se seguiram foram então de trabalho intenso para as duas amigas, que começaram com três jardineiros que alteraram e melhoraram o aspeto do jardim, preparando-o de acordo com o planeado.
Não voltou a ver António, apesar de todas as noites, ele lhe ter telefonado. Quando parava para pensar, Paula comparava o empresário a uma aranha, que pacientemente vai tecendo a teia em volta da sua vítima. O pior é que apesar de pensar assim, cada dia se sentia mais atraída para ele, ao ponto de se surpreender a olhar para o relógio, à espera da hora em que lhe telefonaria. Sabia que ele já tinha regressado do Algarve, mas o certo é que apesar de lhe telefonar todas as noites mostrando-se interessado pelo andamento dos trabalhos, não apareceu na casa, nem mesmo naquele dia, véspera da festa. Em contrapartida, nessa tarde, quando depois de ter terminado todo o trabalho de decoração dos espaços, estava apenas verificando se não tinha esquecido algum pormenor, Eduardo aparecera na quinta, e mostrou-se maravilhado com todos os pormenores, especialmente com a decoração à volta da piscina. 
Paula sentia-se dececionada. E desiludida consigo mesma. Seria possível que estivesse a apaixonar-se por um ser capaz de alimentar durante tantos anos sentimentos tão mesquinhos, como os que ele nutria pelo seu pai? Como podia ela, ser tão competente na sua vida profissional e ao mesmo tempo, uma tão grande nulidade no campo sentimental?
Entrou em casa, fechou a porta e atirou a chave para cima da mesinha de entrada. Estava cansada. Precisava com urgência de um banho que lhe retemperasse as forças. Dirigia-se para o quarto, quando o seu telemóvel tocou. Olhou o relógio. Não era a hora a que “ele” costumava ligar. Retirou-o da mala e olhou o visor. Era Cidália.
-Estou?
- Graças a Deus que atendeste. Estou tão nervosa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sabes que dia é hoje? É o penúltimo dia do mês. Amanhã às onze horas o teu pai tem que estar nos escritórios da Imobiliária “A casa dos seus sonhos”. para legalizarem a transação. Está desesperado. Estes dias, depois que lhe entregou os documentos têm sido um pesadelo. Não percebo porque não trataram logo da escritura legalmente. Isto tem sido uma tortura.
-Tem calma. Quem sabe o empresário reconsidera e volta atrás.
- Não o fará. E o que me preocupa, é que vejo o teu pai desesperado e tenho receio de que faça alguma asneira.
-Cuida dele, Cidália. Não deixas que perca a cabeça. Tenho a certeza que tudo se resolverá a contento, amanhã. Agora se me dás licença estou cansada e a precisar de um banho com urgência. Amanhã falamos. Beijo.
Desligou a chamada inquieta e desejosa que o dia seguinte chegasse.


22.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVIII




-E pronto, agora que já sabes o que se passa o que te parece?
- Tens a certeza que ele desistiu de arruinar o teu pai?
-Quando soube que ele tinha recebido os documentos da “Casa Nova”, pensei que me tinha enganado  e sabes como sou. Procurei-o e disse-lhe que ele não tinha palavra, que não era confiável. E então ele entregou-me todos os documentos que restituem ao meu pai a “Casa Nova” pedindo-me apenas que não lhos entregasse até ao fim do mês.
-Mas então os documentos já estão contigo?
- Não. Eu devolvi-lhos. Entendi que se ele confiava em mim, também devia confiar nele.
- Bom, espero que não te tenhas enganado. Se o homem está a ser sincero e vai mesmo desistir da vingança, só pode estar apaixonado por ti.
- Ou quer fazer de mim o instrumento de vingança, contra o meu pai, por pensar que isso é maior vingança do que arruiná-lo. Mas isso não importa. O importante, é que faça uma festa de sonho para a irmã dele, de modo a que cumpra o nosso contrato, e me entregue os documentos. Depois com um pouco de sorte nunca mais o vejo.
- Não acredito. Mas como não o conheço, não me quero aventurar em palpites. Por isso é melhor dedicar-mo-nos ao trabalho. Enquanto eu analiso as fotos, vai-me dizendo qual a tua ideia.
- Bom, eu pensei fazer a cerimónia de renovação de votos aqui na parte da frente da casa. Ao fundo junto ao muro ficará o altar. Dos dois lados as cadeiras para os convidados. Como estamos a entrar no Verão as temperaturas estão altas, pensei num cenário tropical, com tendas brancas abertas, ladeadas por vasos com palmeiras.
-Quantos convidados?
-Oitenta.  
Durante duas horas as duas amigas mergulharam no trabalho. Enquanto Paula ia expondo a sua ideia, Margarida ia fazendo o plano, tomando nota do que precisavam fazer, do material que iam necessitar e anotando os números do telefone das empresas onde adquiri-los. Depois passaram à parte de trás da casa onde decorreria a festa propriamente dita, com muita música e comida.
 - Aqui temos um bom espaço. Colocamos as mesas perto da casa numa só tenda. O grupo musical pode ficar debaixo do alpendre e a pista de dança ao fundo junto à piscina.
- Eu poria as mesas junto à piscina, protegidos por chapéus de sol, com uma única tenda atrás, onde seriam colocados os menus a serem servidos 
-Boa ideia. Eu tinha pensado deixar os menus na cozinha, mas assim ficariam mais perto. E a música?  
- O ideal seria conseguirmos a colaboração do Inácio Assis. É um músico fantástico, tem uma bela voz, e está na moda. Estaria mais de acordo com o tipo de festa que estamos a pensar do que o grupo musical que costumas contratar, -disse Margarida.
- É verdade, mas nunca trabalhei com ele nem sei se está livre nesse dia, ou mesmo se faz este tipo de trabalho.
-Falo com ele amanhã. É amigo nosso. Se não tiver nada marcado para esse dia, decerto aceita. Convém-lhe conhecer um empresário como o António Ferreira, com tantos restaurantes onde se realizam muitas festas ao longo do ano.
- Depois me dirás, se aceita ou não. Vamos jantar agora e acabamos depois?
-Vamos, -respondeu a decoradora.


21.4.19

DOMINGO DE PÁSCOA

Páscoa é tempo de renovação, de paz, de amor ao próximo. Que cada um de nós seja capaz de sepultar ódios e rancores, e de coração liberto amar o outro, como a si mesmo.
Bom Domingo. Sejam felizes.

20.4.19

TRÍDUO PASCAL - SÁBADO SANTO

O tempo é de Vigília e oração, preparando para  com a Ressurreição de Cristo. Tempo de preparar o nosso espírito para a nossa própria Ressurreição, emergindo, como pessoas mais justas, tolerantes e cheias de amor pelo nosso semelhante.

18.4.19

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO


Inicia-se hoje o Tríduo Pascal.Chama-se assim o conjunto de três dias, celebrados pelo Cristianismo, que começa na Quinta-feira Santa com a Missa de instituição da Eucaristia e lava pés, continua na Sexta-Feira Santa, com a Adoração da Santa Cruz, e a Vigília Pascal no Sábado de Aleluia.É no fundo, a celebração em memoria da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, segundo os Evangelhos.

Para os cristãos, é tempo de reflexão de interiorização do Bem e do Mal, e de procurar-mos  o caminho do Bem.






17.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVII



- Boa tarde Irene. Por favor liga à Margarida Souto, e pergunta-lhe se ela pode ir jantar comigo esta noite. Preciso da sua ajuda para a festa do António Ferreira, - disse Paula mal entrou na sua empresa.
Sem esperar resposta da secretária dirigiu-se ao seu gabinete, ligou o computador e passou as fotos do jardim da casa em Sintra para o mesmo.
Estudava as imagens quando Irene a interrompeu.
- Tenho a Margarida na linha. Ela quer falar contigo.
- Obrigada. Passa a chamada, - disse.
- Guida? Boa tarde.
-Boa tarde, Paula. A Irene diz que precisas de mim com urgência. Onde é o incêndio?
- Em Sintra no fim do mês. Uma boda de estanho, que deve ser de sonho, mas o tempo é muito curto. Só para teres uma ideia, só hoje conheci o espaço e tenho que ter o plano pronto amanhã para que o cliente aprove ou não, porque depois de amanhã ele vai viajar. Se puderes vir jantar comigo esta noite, vemos as fotos, e trocamos ideias. Pode ser?
- O Gustavo está no Porto, pelo que não tenho nenhum programa combinado. Conta comigo. Queres que vá agora já para aí, ou encontra-mo-nos mais tarde em tua casa?
- Podes vir já? A sério? Isso seria o ideal.
-Ok. Dentro de meia hora o mais tardar estou aí.
- Obrigada. Fico à espera.
Desligou a chamada e voltou a estudar as fotos. Vinte e cinco minutos mais tarde, a sua secretária introduzia no gabinete a decoradora.
Margarida era uma mulher de pouco mais de trinta anos. Possuía um rosto agradável, era de baixa estatura, e um corpo mais roliço do que os códigos da moda ditavam. O seu maior encanto era a simpatia que irradiava como uma auréola de toda a sua figura. Paula conhecera-a dez anos atrás, na Universidade, quando Margarida começara a namorar Gustavo, seu amigo e vizinho. A empatia entre as duas foi instantânea e em breve eram grandes amigas, apesar de não frequentarem o mesmo curso. Mais tarde quando a jovem casara com Gustavo, ela fora convidada para madrinha e desde aí os laços de amizade entre os três, estreitaram-se ainda mais.
Margarida fora sua confidente, quando se apaixonara por Adolfo com quem curiosamente a amiga nunca simpatizara. Costumava dizer que não vislumbrava sinceridade nos seus olhos. Quatro anos mais tarde, Paula viria a dar-lhe razão.
-Bom, aqui tens o bombeiro de serviço, - disse com um rasgado sorriso, depois de beijar a amiga.
-Vem ver estas fotos. São de um local onde tenho que realizar uma boda de estanho no final do mês.
- É uma bela casa. É de alguém que conheço?
- Talvez. Conheces o empresário António Ferreira?
- O “rei da Cozinha Portuguesa”?- perguntou a decoradora, que lançou um assobio de admiração perante o sinal de assentimento da amiga. - Mas o homem é casado? Nunca o vi acompanhado.
- A festa é para a irmã dele. Mas senta-te que conto-te tudo. Além da tua ajuda, preciso desabafar.

Esta história volta Segunda-feira. Uma Santa e Feliz Páscoa para todos 


16.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVI




Ficámos muito ricos, voltamos a Portugal, criamos vários negócios e aumentámos em muito a nossa fortuna. Mas eu continuava com a obsessão de me vingar daquele homem, e não descansei enquanto não o arruinei. Pareço-lhe um monstro?- Perguntou fixando os seus olhos negros no rosto afável do Padre.
- Apenas humano. Mas acredito que não encontrou na vingança, a satisfação com que sonhou durante todos esses anos.
- Acabei por não a levar até ao fim, embora ele pense que sim. O homem em questão é o pai da jovem que acabou de sair. Não tem sido nada fácil para mim, Padre. Tenho vivido os últimos cinco anos dividido entre o amor que sinto por ela e o ódio pelo pai. Agora estou decidido. Vou devolver-lhe tudo no final do mês, embora ele ainda não saiba. 
- Porque lhe perdoou, ou por causa da jovem?
- A verdade é que não sei. Durante anos, odiei-o e só sonhava com o dia em que me pudesse vingar dele. Acreditava que o meu pai morrera, por sua causa, apesar de saber que a saúde dele já estava muito periclitante quando tudo aconteceu. Minha mãe sempre me disse que o médico já a tinha alertado para a possibilidade de uma recidiva fatal, logo após ele ter tido o Acidente Vascular Cerebral. Ela sempre acreditou que a sua morte nada teve a ver com o facto de eu ter sido despedido por suspeita de roubo. Hoje interrogo-me se ela não estaria certa. 
Por outro lado, não fora a atitude cruel daquele homem, eu nunca teria emigrado, não teria conhecido o Júlio, não teríamos feito aquele boletim,e provavelmente hoje teria uma vida medíocre, e sem interesse.
- Já é bom que tenha conseguido compreender isso. Mas existe alguma coisa que ainda não está muito clara no seu espírito, não é verdade?
- Trata-se da jovem que esteve aqui há pouco, e que é filha desse homem.  Estou profundamente apaixonado por ela,talvez até tenha estado a vida inteira, pois nunca me interessei verdadeiramente por outra mulher. E parte da raiva que sentia por esse homem, era também por ela, e pelo desinteresse com que ele a tratava. Todavia penso que posso ter destruído as hipóteses de a conquistar, por causa da minha sede de vingança contra o seu pai. Que me aconselha, Padre?
- Esqueça o passado e foque-se apenas no presente. Por muito que faça, nunca conseguirá mudá-lo. E corre o risco de estragar o presente e o futuro. Seja sincero consigo mesmo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder. Mas se assim não for, esqueça e procure ser feliz com outra pessoa. O amor conquista-se, não se compra, por muito dinheiro que o amigo tenha. Já viveu grande parte da vida, preso a más recordações e a sentimentos de vingança. Liberte o coração de rancores e permita-se ser feliz.
-Obrigado, muito obrigado por me ter escutado, Padre. Acredite que me sinto bem melhor agora do que quando aqui entrei.
-Volte quando quiser. Estou sempre por aqui e estarei pronto a escutá-lo quando sentir necessidade de falar com alguém.
Estendeu-lhe a mão, que António apertou calorosamente, sentindo que mais do que um padre, tinha encontrado um amigo.
Saiu da Igreja e dirigiu-se ao carro, pensando que o sacerdote tinha razão. Aquela vingança não tinha sentido.
Pôs o carro em movimento, mas em vez de se dirigir à empresa, foi direto para casa. Precisava meditar sobre o que acontecera naquele dia e por as ideias em ordem.


15.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXV



Meia hora mais tarde os dois despediam-se de Alice a governanta, depois de António ter dado o código de acesso à jovem e ter dado ordens à governanta para acatar os pedidos dela como se fossem ordens suas, seguindo para a igreja cada um no seu carro.
Paula não conseguiu demover António de ir à igreja e ele não a conseguiu convencer a deixar ali o automóvel e ir com ele no seu veículo.
Na Igreja, procuraram pelo pároco, e uma velhota disse-lhes que o Padre  estava na sacristia, pelo que se dirigiram para lá. O Padre Celso  era um homem jovem que os acolheu com cordialidade, e posto ao corrente do que pretendiam aceitou imediatamente dizendo que numa época, em que os jovens, cada vez mais fugiam do sacramento do matrimónio, e na maior parte dos casos aqueles que a ele recorriam, não o conseguiam manter por muito tempo, era sempre com enorme alegria que ele fazia a confirmação de votos vários anos depois. Tudo tratado, com dia e hora marcados e depois de ter recebido uma boa contribuição para as obras paroquianas, os dois despediram-se do pároco, e saíram despedindo-se à porta da igreja.
-A que horas, queres que eu esteja no teu escritório amanhã?
- Se puder ser por volta das duas, ótimo. Como te disse depois de amanhã, vamos a Faro tratar de uns negócios e seria bom que falasses com o meu cunhado antes.
-Vou tentar ter tudo pronto esta mesma noite. Até amanhã, - disse estendendo-lhe a mão, no tradicional gesto de despedida.
António, segurou-lhe os dedos e depositou-lhe um cálido beijo na palma da mão que a estremeceu da cabeça aos pés. Depois sem uma palavra abriu-lhe a porta do carro, esperou que entrasse e colocasse o cinto, e só depois a fechou. Afastou-se um pouco, quando a jovem arrancou, esperou que o carro desaparecesse na curva e voltou a entrar na igreja. Sentou-se num banco quase junto à porta, e inclinando-se para a frente apoiou os cotovelos no joelhos e meteu a cabeça entre as duas mãos abertas. Fechou os olhos e fez uma retrospetiva da sua vida. Lembrou da doença do pai, da acusação de Jorge Maldonado, do seu despedimento, da ida para França, dos sacrifícios do desejo de vingança, de tudo o que tinha passado até aí. De súbito sentiu uma mão que lhe pousava suavemente no ombro. Abriu os olhos, e viu o rosto jovial do Padre Celso que o olhava com bondade.
- Precisa de ajuda, meu amigo? Quer conversar?
- Como assim, padre? Uma confissão?
- Não tem que ser necessariamente uma confissão, pode ser só uma conversa, se achar que lhe faz bem desabafar.
- Padre eu tive uma educação religiosa, mas desde que deixei os escuteiros aos dezoito anos, não voltei a entrar numa igreja até hoje. Meu pai adoeceu quando me preparava para entrar na Universidade, tive que abandonar todos os meus sonhos e procurar emprego para ajudar em casa, já que a minha irmã era pequena e minha mãe deixou de trabalhar, para cuidar do meu pai. Mais tarde fui acusado de roubo, despedido, e não conseguindo arranjar outro trabalho, vi-me obrigado a emigrar, depois de ter visto meu pai morrer sem lhe poder provar que não era um ladrão. Revoltado, pensei que Deus era injusto, que me tinha abandonado e afastei-me da igreja e d' Ele. Durante anos, trabalhei como um condenado, para conseguir uma vida melhor.
Doze anos depois, um colega de trabalho com quem partilhava a casa convidou-me a fazer o Euromilhões, numa dessas semanas de muito dinheiro. Nunca tinha jogado, e não acreditava que nos saísse alguma coisa de jeito, mas o Júlio convenceu-me e fizemos uma única aposta. Estavam em jogo cento e oitenta milhões, e houve apenas duas apostas certas. Uma delas era a nossa.


Aviso, dada a solenidade que se aproxima esta semana só serão publicados três capítulos desta história.