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9.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX

 




Não era pois de admirar que se deslumbrasse com um homem educado e culto, como Quim. E que de seguida se apaixonasse. Por outro lado tinha bem presente a imagem de boneca da mulher loura. Ela não era assim. Não se achava feia, mas reconhecia que não era nenhuma beleza.  

O seu cabelo castanho, era  forte e ondulado, o que sempre lhe desagradou, pois  gostava mais que fosse liso, o corpo um pouco mais alto do que ela gostaria, a sua cintura não se deixava abarcar com duas mãos. Tinha um ar de mulher forte, robusta, o oposto da mulher-boneca por quem ele se apaixonara. Além disso não sabia nada sobre sedução. E se o marido sabia, e ela acreditava que sabia, não o tinha demonstrado, até ao momento.

Três semanas antes do Natal, Sofia ficou doente. Há dois dias que se encontrava constipada, tinha arrepios de frio, não se sentia bem. Mas naquela noite mal tinha passado pelo sono. Tinha fortes dores de cabeça, doía-lhe a garganta, e ardiam-lhe os olhos. De manhã tentou levantar-se mas não conseguiu. Devia estar cheia de febre. Chamou pelo marido, mas ele já tinha saído. 

Voltou a cair num estado de semiconsciência. Não soube quanto tempo esteve assim. Acordou com a necessidade premente de ir à casa de banho. Com grande dificuldade conseguiu levantar-se. Respirava com dificuldade, sentia o corpo todo dorido, como se tivesse levado uma tareia. Tremiam-lhe as pernas e tiritava de frio. Saiu da casa de banho e quase se arrastou até ao telefone. Ligou para o restaurante e pediu ao empregado que a atendeu para avisar o marido de que se sentia doente e não tinha ido trabalhar. Depois voltou para a cama. O esforço deixara-a tão cansada, que lhe parecia que ia sufocar.

Caiu de novo naquele estado letárgico de quem tem muita febre. Não soube quanto tempo passou, não tinha noção das horas.
Sentiu que alguém a chamava.  Abriu os olhos com dificuldade, e viu Quim junto à cama.

-Meu Deus, Sofia, estás a arder em febre, - estava sério, preocupado. - Vou chamar um médico, - disse afastando-lhe o cabelo do rosto.
Voltou pouco depois, com um copo de água e uma aspirina.
- Toma isto, para ver se baixa um pouco a febre, enquanto aguardamos o médico.
Ela tomou o comprimido e fechou os olhos. Cada vez que tossia, era como se lhe rasgassem o peito e as costas.

20.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIII


Uma lágrima desceu silenciosa, até desaparecer no canto da sua boca. Ele estendeu a mão e apertou a dela.
- Que é lá isso? Uma mulher de coragem, não chora. Levanta a cabeça, sorri, e vai em frente. És ainda uma menina, Eva. Não pareces mais velha que a minha sobrinha Isabella, e ela só tem dezasseis anos. Tens uma vida pela frente. Queres um conselho? Tira essas alianças do dedo. Esquece que foste casada, e prepara-te para desfrutar o que a vida ainda tem para te dar.
- Falar é fácil. Mas seguir em frente quando tudo à nossa volta ruiu, é muito mais difícil. Como posso não me inquietar, se não sei o que me vai acontecer quando passarem os seis meses e deixar esta casa? Sem o amparo de pai ou mãe, o que me resta? Voltar para o orfanato?
- Daqui por seis meses, “cara mia”? Quem sabe o que pode acontecer até lá. Vive o dia-a-dia, desfruta o presente e esquece as angústias a longo prazo. Em seis meses pode acontecer um terramoto, cair um meteorito, acabar o mundo.  Olha, porque não vamos amanhã até à outra banda, talvez Setúbal, ou Sesimbra, almoçamos por lá, aproveitamos um pouco de praia, ou simplesmente passeamos pela Arrábida? Não trabalhas ao Sábado, pois não?
- Não. Mas queres mesmo sair comigo?
- Porque não havia de querer? Não sou homem de fazer uma coisa quando quero outra. Ou, se preferires, podemos ficar por aqui, ir até Sintra, ou Ericeira. Dizem que é muito bonito, e provavelmente será melhor por causa do trânsito na ponte. Não sei, tu decides. Gostava de conhecer um pouco dos arredores de Lisboa. Até agora sempre que estive em Portugal, foi no norte, junto da família da minha mãe.
Sentia-se tentada. Afinal tirando a viagem em lua-de-mel, à Madeira, o que é que ela conhecia do país?
- Está bem. Deixemos a Arrábida e Sesimbra para outra altura. Prefiro ir a Sintra. Há muito tempo, que ando a pensar ir até lá.
Começou a passar a loiça por água e a metê-la na máquina. Ele levantou-se.
- Bom, só falta combinar a hora. Dez horas, é tarde?
- Por mim, qualquer hora é boa.
- Dez horas, então.
E saiu deixando-a só. Meia hora mais tarde saía de casa, despedindo-se com um simples até amanhã, deixando a jovem cada vez mais perplexa. Devia haver ali qualquer coisa que lhe escapava. Aquele homem, era demasiado bom para ser real. E ela já passara da idade em que acreditava no Pai Natal.


E o calendário assinala hoje o dia  da Felicidade. É uma ironia que o dia da felicidade, seja assinalado,  quando a doença grassa e mata por todo o lado.
E como hoje começa a Primavera, O meu desejo é que ela renove não só a natureza, mas também a própria vida, acabando com o maldito vírus.  


29.12.19

CONTOS DE NATAL - O PRESENTE DE NATAL ESPECIAL



Faz todo o bem que puderes, usando todos os meios que puderes,
de todas as formas que puderes…durante o maior tempo que puderes.
John W. Desley


Através da montra da drogaria onde ambos trabalhávamos como assistentes de gerência, conseguia ver que Lamar aguardava ansiosamente a minha chegada. Tínhamos acordado no mês de novembro anterior que ele trabalharia no dia de Natal e eu no dia de Ano Novo.
O tempo que fazia era típico de Memphis nesta altura do ano. Lamar e eu tínhamos sempre esperanças de ver um Natal branco, mas este estava a desenrolar-se exatamente como os dos últimos vinte anos: frio, enevoado, sem um único floco de neve à vista.
Quando me apressei a entrar no calor da loja, Lamar pareceu aliviado.
— O dia foi difícil? — perguntei.
Gesticulando na direção da caixa central, resmungou:
— Ontem chegámos a ter filas de quinze pessoas. Nunca tinha visto tanta gente a tentar comprar pilhas e películas fotográficas ao mesmo tempo. Suponho que é uma das alegrias de trabalhar no dia de Natal.
— O que queres que faça hoje? — perguntei.
— Acho que o movimento vai acalmar por volta das seis da tarde. A noite a seguir ao Natal é sempre muito parada. Talvez pudesses pôr em ordem toda a secção de brinquedos.
E, dito isto, inclinou-se para pegar num animal de peluche.
Aquele pequeno cão de peluche tinha-se tornado a nossa mascote. Parecia que estávamos sempre a apanhá-lo do chão. Cinco, talvez dez vezes por dia. Nunca tinha sido um brinquedo bonito e agora era-o ainda menos: o pelo longo e felpudo tinha-se tornado emaranhado e sujo, por causa da poeira do chão e da sujidade das mãos das crianças que lhe tinham pegado, enquanto as mães aviavam as receitas. O brinquedo já tinha baixado de preço muitas vezes, sem sucesso. Naquele mundo de bonecos brilhantes e mágicos, um pequeno cão de pelo sujo não era um brinquedo de eleição. No entanto, todos os miúdos de Memphis devem ter apertado aquele cachorrinho pelo menos uma vez naquele Natal.
A tarde passou-se rapidamente entre devoluções, trocas e vendas de decorações de Natal (com 50 por cento de desconto). Contudo, às seis horas, tal como Lamar tinha previsto, o negócio diminuiu e fui trabalhar para a secção dos brinquedos. O primeiro brinquedo que me veio parar à mão foi, evidentemente, aquele cãozinho peludo de orelhas cabisbaixas. Comecei por pô-lo no lixo e retirá-lo do inventário, mas mudei de ideias e coloquei-o de novo na prateleira. Por razões sentimentais, suponho. De repente, uma voz interrompeu as minhas divagações.
— Desculpe, é o gerente?
Virei-me e vi uma mulher jovem e franzina com um rapazinho de cinco anos junto dela.
— Sou assistente da gerência — disse. — Em que posso ajudá-la?
A mulher baixou os olhos por um momento, depois levantou o queixo e disse num tom de voz áspero:
— O meu filho não teve Natal. Tinha esperanças de que agora tivessem alguma coisa com desconto, algo que eu pudesse pagar.
Confesso que encarava com cinismo os ocasionais pedidos de moedas dos sem-abrigo, mas a voz dela continha um tal misto de sinceridade e mágoa por ser obrigada a fazer aquela pergunta que eu disse:
— Estou agora mesmo a remarcar os brinquedos com o desconto. O que procura?
O rosto da mulher iluminou-se, como se tivesse finalmente encontrado alguém disposto a ouvi-la:
— Não tenho muito dinheiro, mas gostaria de comprar ao meu filho algo de especial.
O rapaz ficou feliz ao ouvir as palavras da mãe. Dirigindo-me a ele, pedi:
— Pega no brinquedo que mais gostarias de ter neste Natal, está bem?
O menino olhou para a mãe, que acenou em concordância. Esperei, curioso por ver qual dos brinquedos mais populares daquela quadra ele iria escolher. Talvez um carro de corridas ou uma bola de basquetebol. Porém, em vez disso, dirigiu-se ao cão velho e peludo e apertou-o com força. Fiz de conta que estava a afastar o cabelo da frente dos olhos, enquanto limpava uma lágrima.
— Quanto custa aquele cão? — perguntou a mãe, abrindo o fecho de um pequeno porta-moedas preto.
— Não custa nada — disse eu. — Até me faz um grande favor se o levar.
— Mas eu quero pagar a prenda de Natal do meu filho — insistiu ela.
— É um dólar — disse eu.
Tirou da carteira uma nota amarrotada e estendeu-ma. Depois virou-se para o filho e disse:
— Agora podes levar o cãozinho para casa. É teu.
Uma vez mais, disfarcei a minha comoção, enquanto o rapazinho sorria, extático. A mãe sorriu também e murmurou um silencioso “Obrigada”, enquanto saíam da loja.
Através da janela, vi-os embrenhar-se na noite que começava a cair em Memphis. Ainda não se via um único floco de neve, mas, quando voltei para o corredor dos brinquedos, percebi que tinha acabado de viver um Natal branco.
Harrison Kelly



Com este conto, encerro este ciclo de contos de Natal. Espero que tenham gostado, escolhi-os porque em todos eles há um pouco de magia, que nos levam a sonhar com um  mundo melhor. 


Regressei há poucas horas. Espero que tenham passado um Natal muito feliz, e agradeço a todos as mensagens de boas festas recebidas. Hoje, domingo tentarei retribuir as vossas visitas.
Bem Hajam.

7.12.19

CONTOS DE NATAL - O URSINHO COR DE CARAMELO


Ah-ha! Finalmente tinha encontrado o presente perfeito para a meia de Eric!
O urso cor de caramelo estava sentado, todo empoleirado, em exibição junto da montra da frente da loja. Numa mão segurava uma bola de futebol, mesmo com os cordões e tudo e, na outra, um capacete! Depois de ter localizado o urso, já sabia que tinha que me esgueirar até lá mais tarde, para o comprar sem ter os mais pequenos à minha volta. Estava tão entusiasmada!


Todos os anos, a nossa família ia para o centro comercial durante uma hora para arranjarmos as prendas de Natal uns dos outros. O meu marido, David, e eu separávamo-nos, levando um ou dois miúdos a fazer as compras para os outros membros da família. Depois, encontrávamo-nos num sítio combinado e trocávamos de miúdos para completar as listas.

Após o almoço, os três miúdos já tinham acabado as suas listas.
David levou então as crianças, cansadas mas felizes, para o carro, onde eu me juntaria a eles depois de completar a minha incumbência específica. Os miúdos tinham-se portado mesmo bem, e eu não demoraria porque sabia exatamente o que queria e onde estava.

Ao entrar na pequena loja, o empregado cumprimentou-me com um alegre sorriso.
— Posso ajudá-la?
— Oh, não, obrigada! — disse eu, toda confiante. — Estive aqui ainda há pouco, e agora escapei-me de volta sem as crianças para comprar o que preciso.
Apressei-me em direção à prateleira, pronta para agarrar no bichinho e ir embora. Imaginem a minha surpresa! O urso não estava lá! Remexi em todos os outros animais de peluche em exposição — mas nada de urso cor de caramelo.
Interpelei o empregado, que respondeu:
— Oh, lamento. Alguém comprou esse urso mesmo há pouquinho, e não temos mais.

Sentia-me derrotada. Tinham sido só umas duas horas! Quem poderia ter comprado aquele urso? Poderia procurar uma outra coisa, mas já tinha estado em praticamente todas as lojas do centro comercial sem ter visto algo que se aproximasse sequer do presente ideal. Além disso, os meus filhos estavam no carro, à espera. Com um enorme suspiro, apressei-me a sair do centro, ao encontro da minha família.

Na manhã de Natal os miúdos abriram todos os seus presentes.
Agora era a nossa vez.
— Mamã, abre primeiro o meu!
Eric irradiava alegria, empunhando o seu presente embrulhado em papel infantil.
— Está bem. O que é que me terás comprado?
— Não te digo!

Era o primeiro ano em que ele nada dizia, ele que geralmente proclamava bem alto os segredos de Natal que sabia!
Abri a embalagem devagar.
— Humm… O que será isto? — provoquei-o.
Ele riu-se.
— Abre e logo vais descobrir!

Assim que o papel se abriu totalmente, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Diante de mim estava o urso cor de caramelo que eu tanto queria para ele!
E ele tinha-o comprado para a minha coleção de ursinhos!
— Gostas?

A sua carinha esperava, ansiosa e orgulhosa.
— Na verdade, eu também queria muito esse urso, mas achei que seria um lindo presente para ti, Mamã!

Engolindo as lágrimas, abracei-o e disse-lhe:
— Adoro, querido. Obrigada. É realmente a prenda perfeita!

Paula F. Blevins


3.12.19

CONTOS DE NATAL - UMA DÁDIVA INTEMPORAL







Comprar um presente de Natal pode ser o evento mais enervante do ano. E fazer compras para a minha mulher revela-se sempre um desafio especial. Os aspiradores são demasiado impessoais, os bilhetes de futebol são pouco funcionais, e os utensílios de cozinha são absolutamente proibidos.
O Natal aproximava-se a passos rápidos e eu estava em apuros. Em desespero de causa, pedi à minha secretária Sally para me ajudar a escolher um presente. Fomos até uma ourivesaria. Trabalhar na baixa tinha as suas vantagens; estar próximo de lojas onde fazer compras era uma delas. No entanto, havia também desvantagens.
Pelo caminho, cruzámo-nos com dois sem-abrigo, encolhidos numa saída de ar quente de um dos edifícios mais próximos. Comecei a atravessar a rua para os evitar, mas o trânsito estava muito congestionado. Mesmo antes de nos aproximarmos, troquei de lado com Sally, para evitar que ela tivesse que se deparar com eles. Iriam certamente pedir dinheiro, fingindo que era para comprar comida, mas qualquer donativo iria por certo acabar por ser gasto em cerveja ou vinho.
À medida que nos aproximávamos, conseguia ver que um deles teria provavelmente trinta e tal anos e que o outro era um rapaz por volta dos treze ou catorze anos. Ambos estavam miseravelmente vestidos. O mais velho tinha um blusão desportivo roto na manga, enquanto o rapaz estava sem qualquer tipo de casaco, tendo apenas uma camisa esfarrapada a separá-lo do vento cortante. “Mais uma ou duas moedas de vinte e cinco cêntimos e eles deixam-nos em paz”, pensei.
— Eu resolvo o assunto — disse eu a Sally, cheio de presunção masculina.
Mas Sally parecia imperturbável à vista dos dois mendigos. Na verdade, parecia até confortável na sua presença. Antes que eles pedissem alguma coisa, foi ela que ofereceu.
— Posso ajudar-vos? — perguntou aos dois.
Fiquei em estado de choque, à espera de ter que salvar Sally de uma situação perigosa, mas ela manteve-se firme. Os dois homens olharam para ela com surpresa e o mais velho disse:
— Sim, minha senhora. Na verdade, precisamos de uma coisa.
“Pronto, aí está a armadilha, a extorsão”, pensei. “Os dois pedintes estão à procura de uma esmola, de um ganho fácil”. Enquanto os observava, podia ver que o mais novo tremia com o vento invernoso, mas que podia eu fazer?
— Pode dizer-nos as horas? — pediu o homem mais velho.
Sally deu uma olhadela ao seu relógio e respondeu:
— Meio-dia e um quarto.
Ele agradeceu e não disse mais nada. Nós continuámos o nosso caminho até à ourivesaria, mas eu tinha que fazer umas perguntas a Sally acerca daquele encontro.
— Porque perguntou se aquele homem precisava de ajuda?
— Ele estava com frio e tinha outras necessidades, foi por isso — respondeu ela, num tom pragmático.
— Mas ele é um vagabundo. Podia ter tentado roubá-la ou algo assim.
— Eu sei tomar conta de mim e, às vezes, temos que confiar nas pessoas.
Chegámos à ourivesaria e Sally rapidamente encontrou o presente perfeito para a minha mulher: uns brincos de diamantes. Enquanto ali estava, comprou um relógio de homem. Não era um modelo caro, mas ela sempre fora poupada. “Provavelmente uma prenda para o marido”, pensei.
Quando regressávamos ao nosso edifício, os dois vagabundos andavam ainda a vaguear à beira da grade do passeio. Uma vez mais, tentei meter-me entre Sally e os dois homens, mas ela não deixou. Para minha surpresa, quando chegámos ao pé deles, retirou o relógio da mala e estendeu-o ao homem mais velho.
— Aqui tem. Tenho a certeza que lhe vai dar bom uso.
Ele ficou tão estupefacto quanto eu.
— Muito obrigado, minha senhora — disse, experimentando o relógio no pulso.
Enquanto ele se afastava, vi que Sally tinha lágrimas de comoção nos olhos.
— Porque fez aquilo?
Sally encolheu os ombros e disse:
— Deus tem sido tão bom para mim que decidi fazer algo de bom por ele.
— Mas ele não merecia.
— Até mesmo os pobres gostam de algo especial. Além disso, Deus fez coisas por mim que não mereço, mas Ele fê-las na mesma.
— Provavelmente ele vai comprar cerveja com aquele relógio.
Sally apenas sorriu para mim e disse:
— E se for? Isso não me diz respeito. O que ele vai fazer com o relógio é um desafio só dele.
Chegámos ao nosso prédio e fomos cada um para o seu escritório. Pus-me a pensar naquele encontro e nos dois homens. Certamente estavam na loja de penhores, preparando-se para obter uma boa “linha de crédito” às custas de Sally.
No dia seguinte, fui almoçar sozinho a uma barraca de hambúrgueres no exterior do nosso prédio. Enquanto caminhava pela rua abaixo, reparei nos mesmos dois homens que Sally e eu tínhamos encontrado. Andavam ainda a vaguear em volta do calor daquela saída de ar quente. O homem mais velho reconheceu-me e disse:
— Desculpe, senhor. Podia dizer-me as horas?
Pronto! Tinha-o apanhado. O relógio da Sally já tinha desaparecido. Exatamente como eu pensara.
— Onde está o relógio que a minha secretária lhe deu ontem? — perguntei, à espera de que ele sentisse remorsos.
Ele baixou a cabeça e admitiu a sua culpa:
— Lamento muito, mas tinha de fazer alguma coisa.
Foi então que reparei na capa para a chuva em torno dos ombros do seu jovem companheiro.
— O senhor não faria o mesmo por um dos seus? — quis ele saber.
Sem palavras, estendi-lhe vinte e cinco cêntimos e continuei o meu caminho.
À medida que caminhava, comecei a pensar no incidente.
Ele tinha vendido o relógio, mas tinha comprado um casaco com o dinheiro. O ato de generosidade de Sally tinha realmente sentido. Assim como as suas palavras: o desafio tinha sido superado.
Quando cheguei à barraca de hambúrgueres, perdi o apetite. Dei meia volta e regressei ao escritório. Os dois homens ainda estavam à beira da grelha. Bati no ombro do homem mais velho e ele levantou os olhos para mim, obviamente enregelado.
Despi o meu sobretudo cinzento e comprido e coloquei-o sobre os seus ombros sem dizer palavra. Enquanto me afastava, dei-me conta de que tinha descoberto o meu próprio desafio. Os poucos passos até ao escritório fizeram-me tiritar de frio, mas aquele foi um dos passeios mais quentes que alguma vez dei na vida.
Harrison Kell

29.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XX




O Natal desse ano, não teve o brilho nem o esplendor daqueles que Sara  organizava, mas em compensação o calor humano esteve sempre presente. Nele estiveram presentes, além de Gil, os seus irmãos, Marco com Isabel e os futuros sogros, Laura com Alcides, cuja amizade parecia desviar-se para dar lugar a outro sentimento, a julgar pelos olhares que trocavam entre si. Estavam também à mesa, Celeste, a empregada que estava na casa há mais de dez anos, viúva, cujos filhos se encontravam emigrados, e Inês e o seu filho, o pequeno Luís, um garoto moreno e franzino, que parecia estar sempre em sobressalto como se temesse algo.
Odete, que tinha sido despedida por Sara, e fora reintegrada depois do acidente, e Maria, tinham tido licença para passarem o Natal em casa com as respetivas famílias.
Mariana que saíra do hospital dois dias antes, dormia docemente no seu quartinho, depois de ter tomado banho e bebido todo o leite do biberão.
Pelas vinte horas, o pessoal do restaurante onde Gil encomendara não só a Ceia de Natal, mas também as refeições do dia seguinte, vieram fazer a entrega, e Celeste ajudada por Inês, (que desde que tinha o filho consigo parecia outra pessoa e ganhara de imediato a confiança das restantes empregadas) puseram a mesa.
A ceia, decorreu, pois, num ambiente de fraternidade. Durante ela, Marco e Isabel disseram que pensavam casar no primeiro domingo de Março, do ano seguinte. E Gil informou que tinha aceitado, a proposta de venda dos direitos do seu primeiro livro "Almas Sombrias" para o cinema e que por isso viajaria logo a seguir ao Ano Novo para Nova Iorque, onde se ia reunir com um famoso guionista, que iria transformar a história do livro no guião para o filme.
-Custa-me muito separar-me da minha filha tão pequenina, mas é impossível viajar com ela. Vou conversar com o guionista, saber como ele pretende fazer a adaptação e iniciar o trabalho com ele. Espero estar fora no máximo uma semana. Depois de termos elaborado o projeto poderei analisar e acompanhar o seu trabalho via Internet. Se por algum motivo a estadia se prolongar vou voltar no fim de semana a fim de estar com ela um ou dois dias. E estarei convosco todos os dias por video chamada. A escritura do prédio para a futura Fundação está marcada para o dia vinte e oito e o doutor Alcides tratará imediatamente de contratar a empresa que combinamos a fim de iniciar as obras do projeto que já aprovei. Há umas pequenas alterações com a sala para consultas, mas isso deixo com a Laura que percebe mais de uma sala de consultas do que eu. Ela tratará com o arquiteto. Quero aquilo pronto o mais rápido possível.
- E como se chamará a Fundação? – perguntou a irmã.
- Mariana Gaspar – respondeu Gil emocionando os irmãos, pois todos comungavam da mesma devoção, pela mulher que lhes dera a vida e que tanto sofrera para os criar.
- Laura, tu estarás aqui em casa enquanto eu estiver fora, ou vais para o teu apartamento? – perguntou um pouco mais tarde.
-É claro que estarei aqui durante a tua ausência, exceto claro o tempo que estiver no hospital, pois como sabes vou começar a trabalhar dia dois de Janeiro.
- Obrigado. Fico mais descansado, contigo aqui, não porque não confie em vós, - disse voltando-se para Inês e Celeste. – Mas as crianças nestas idades adoecem com facilidade, e é sempre bom ter uma médica perto.




E com o comentário do Esteban chegamos aos 44.000 

23.11.19

PARA MEDITAR

Perguntaram ao Dalai Lama...
"O que mais o surpreende na humanidade?"
E ele respondeu:
Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.


Bom fim de semana

2.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XV





Eduardo terminara o seu dia de trabalho. Antes de sair perguntou a Susana se o cunhado estava no escritório. Após a confirmação da secretária, abriu a porta e perguntou:
- Posso entrar?
- Entra e senta-te. Queres alguma coisa?
- Eu e o Júlio marcámos a escritura para o dia vinte e seis. Espero que possas ir connosco. Dia trinta é o aniversário do nosso casamento, e prometi à tua irmã que estaria cá nessa altura para uma comemoração especial.
- Bom, a respeito disso temos que conversar. Quero que essa data seja memorável para os dois. Tira uma semana de férias para poderem ter a lua-de-mel que não puderam ter na altura. É o meu presente, uma bonita festa, com renovação de votos, seguida de uma semana de lua-de-mel, no sítio que escolhas. Só gostava que não dissesses nada à Gabi, a fim de que fosse uma surpresa.
- Isso seria maravilhoso, mas e o Pedro? Não pensaste nele?
- Claro que sim. Pode ficar com a avó. Tenho a certeza de que a minha mãe ficaria encantada, e eu me encarrego de o levar e ir buscar à escola.
- É um sonho, mas um sonho muito caro.
-E para que serve o dinheiro senão para realizar os nossos sonhos? Quando vocês casaram, a minha ajuda não passou de uma ninharia. Nem sequer pude vir assistir ao casamento. Vou fazer de conta que se casam agora. Quero ver a vossa felicidade. Amanhã sem falta, traz-me a lista das pessoas que gostarias de ter presente. Decerto terei de acrescentar algumas com quem privamos mais a nível profissional, pois não seria de bom-tom ignorá-las. Não te esqueças, pois fiquei de enviar a lista para a Paula Maldonado amanhã.
- A Paula Maldonado? Meu Deus António, isto faz parte da tua vingança? Porque se assim é, não quero festa nenhuma.
-Não sejas tonto. Contratei-a, ela aceitou. Sou um cliente como qualquer outro.
- Mas arruinaste a sua família. E fizeste uma exigência absurda. Quando ela souber não quer saber de ti.
- Ela sabe. O pai contou-lhe. E disse-me na cara que não está à venda, e que um casamento sem amor é uma espécie de prostituição.
-Santo Deus. E ainda assim vai fazer a festa? Só se for para se vingar de ti, e não nos metas nisto por favor. Quero uma data feliz, não um motivo de sofrimento.
-Fica descansado que tudo correrá bem. A Paula é acima de tudo uma grande profissional, nunca faria nada que lhe arruinasse a carreira.
- Espantas-me. E o pai dela? Sabes que o Jorge Maldonado tem um filho da idade do Pedro?
- Claro que sei, investiguei a vida dele, lembras-te? Mas como sabes tu disso.
-O Pedro apresentou-mo, no dia em que fui buscá-lo à escola. Parece que é o seu melhor amigo.
- Realmente o mundo é uma aldeia. Bom vai-te lá embora, senão a minha irmã acusa-me de te escravizar. E não esqueças a lista amanhã.
-Não vens?
-Não. Ainda tenho trabalho para acabar.



18.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXI









Afonso foi até ele. Dobrando os joelhos para ficar à altura da criança, perguntou:
-Estás triste? O Pai Natal enganou-se no presente?
-Não. Estou confuso.
- Queres dizer-me o que te faz confusão?
- Um menino na escola disse-me que não há Pai Natal. Que os presentes são os pais que os dão. No entanto tu estiveste sempre aqui. E o Pai Natal veio trazer os presentes. Tento perceber onde está a verdade.
Desde o primeiro momento, Afonso considerara Simão um menino muito especial.  Era muito precoce no entendimento das coisas, muito responsável, ele diria até que demais para a sua idade.
- Queres saber a verdade? E depois guardas segredo?
- Claro.
Afonso falou-lhe então, da lenda do Pai Natal. Disse-lhe que os irmãos acreditavam na sua existência e eram felizes com isso. Mas a verdade é que eram sim os pais que compravam os presentes. Depois pediam a alguém de confiança, que se vestisse de Pai Natal e fosse entrega-los naquela noite. Mas agora ele tinha que guardar segredo. Um dia quando os irmãos fossem maiores também iam descobrir a verdade. Mas por enquanto iam ficar muito desiludidos se perdessem aquela magia.
O menino sorriu feliz.
- Fica descansado. Sei guardar um segredo. E sabes uma coisa? Gosto muito de ti. 
-Também gosto muito de ti, filho – respondeu emocionado, abraçando o menino.
Por fim a noite chegou ao fim, as crianças recolheram aos quartos.
Mariana e Matilde, as gémeas, ficaram na cama de Ana, e esta foi dormir com a irmã. Os adultos trocaram então os presentes, com os pais de Francisca a retiraram-se logo a seguir, pois estavam habituados a dormir cedo. Na sala, Afonso conversava com o cunhado, e Graça aproveitou a ida de Francisca à cozinha, para a seguir.
- Ainda não tive oportunidade de falar contigo. Vejo que vocês se entenderam. Há muito tempo?
-Há dois dias.
-Por isso esse ar atarantado dos dois. Estão em lua-de-mel.
-Oh! Nota-se assim tanto? - Perguntou corando.
- Como não? – Vocês devoram-se com os olhos.
- Meu Deus que vergonha!
- Não sejas tonta, amar não é vergonha. Fico feliz por saber que vocês o são. Merecem-no bem. Estava preocupada convosco. Era evidente para mim que vocês estavam apaixonados um pelo outro. Mas são tão teimosos que temia, nunca viessem a reconhecê-lo.  

reedição




14.11.18

ESTRANHO CONTRATO -PARTE XXIII




Pouco depois Ana acordou. Graça deu um beijo à sobrinha, e um presente que a criança abriu em alvoroço. Um livro de bonecos para pintar e uma caixa de lápis de cor.
Depois despediu-se. Ia fazer umas compras, voltaria à tardinha, quando as crianças viessem da escola, para lhes dar um beijo.
- Ainda vais hoje?
-Prometi ao Eduardo que ia. Até logo.
-Até logo.
Alegre, a criança experimentava os lápis, traçando sobre o caderno riscos de várias cores, Enquanto isso, Francisca pensava em Afonso. Como fora possível apaixonar-se daquele modo por um homem que ela tinha a certeza, nem sequer a via como mulher?
Devia estar feliz. Afonso cumpria escrupulosamente as condições do contrato. Ela comprava o que queria, fosse para a casa, para ela ou para as crianças, ele pagava as contas sem nunca a questionar. Tratava igualmente as quatro crianças sem distinções. E era gentil com ela, no pouco tempo que estavam juntos.
Mas na verdade não era feliz. Porquê? Porque naqueles  meses se apaixonara como uma idiota pelo marido. Apesar do que dissera à cunhada, quando estava sozinha com os seus pensamentos, sempre pensava nele como marido. E atrevia-se até a loucas fantasias, protagonizadas pelos dois. Quantas noites na solidão do seu quarto, sonhava que ele vinha, qual cavaleiro andante, salvá-la do desespero da solidão, a beijava, a acariciava, lhe pegava ao colo e a levava para a sua cama. E aí enlouquecia-a, fazendo-a vibrar como corda de viola. Então sim, seria uma mulher feliz. Mas não. Ele só pensava na falecida.
- Mãe. Toma. É para ti.
Ana estendia-lhe uma folha cheia de riscos coloridos. Abraçou e beijou a criança.
-Obrigado. É muito bonito. Vamos guardar tudo e lavar as mãos.  Está na hora do lanche. E depois, vamos ao parque, 
até à hora dos manos saírem da escola.
A criança bateu as palmas de contente e saiu a correr na 
sua frente.

reedição


6.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVI


                                                

Depois do lanche, percorreram o centro, admiraram a fachada do Palácio Nacional de Sintra, e a paisagem envolvente, de onde se destacava no cimo da serra, o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros.
Já ao findar do dia, encaminharam-se para o carro.
Como a jovem continuava calada, Miguel disse:
-  Estás muito calada hoje. Que se passa? Estás zangada?
Foi como quem ateia fogo ao rastilho. A ira, a deceção, a dor da rejeição, explodiram-lhe no peito fazendo-a levantar a voz
- O que se passa, Miguel? És tu que me perguntas, o que se passa? Tu a quem ontem, confessei o meu amor, abrindo-te o meu coração? Tu que fizeste com que me sentisse a mulher mais reles do mundo, quando me rejeitaste?
Ele sentiu como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Doía-lhe profundamente a mágoa dela.  Sentindo-se penalizado, respondeu sincero.
- Não te rejeitei. Sabe Deus como queria aceitar a generosa dádiva do teu amor. Mas não é possível. Não posso, -  murmurou com amargura.
- Porquê Miguel? Porque não podes? O que te impede? Não me amas? Tens alguém? É isso?
- Não. Não, tenho ninguém.
- Então, não te entendo. Que pode impedir-nos de ser felizes?
Ele parou. Pôs-lhe as mãos nos ombros, obrigando-a a olhar para ele.
- Olha para mim. Olha com atenção. Vês as rugas à volta dos meus olhos? Os fios brancos no meu cabelo? Tenho quase quarenta e sete anos. Tens vinte anos, Mariana. Vinte. Podias ser minha filha…
- Mas não sou! E a diferença de idade não me interessa. O que me importa é o teu amor.
- Hoje, talvez não. Mas, serás capaz de dizer o mesmo daqui a vinte anos, quando estiveres na plenitude da vida, e eu na curva descendente? - Perguntou com amargura.
Tinham entrado no carro, mas continuavam no mesmo sítio.
-Ó Miguel! Quanto sofrimento! – Levantou a mão, e acariciou  a face masculina - A vida é para ser vivida, hoje, neste momento. Daqui a vinte anos, até posso já ter morrido. Aliás, neste mesmo momento, eu podia já ter morrido. No acidente de carro ou naquele dia na falésia.  Ninguém sabe o que será o dia de amanhã. É o presente que interessa. Repara na palavra. Presente. É o hoje que temos para viver como uma dádiva divina, um presente da vida. Vamos vivê-lo e ser feliz. Por favor Miguel. Não nos condenes ao sofrimento.
-Não posso, Mariana. Nem  sabes, quanto o desejo. Mas não posso! Conheço-me bem. Se hoje nos amassemos, eu não suportaria perder-te depois.
Amargurado, pôs o carro a trabalhar e arrancou velozmente.



26.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXI


                                               


Acabara de se arranjar, quando Miguel chegou. Sentiu-lhe os passos no corredor, e apressou-se a sair.
- Bom dia.
- Bom dia Miguel.
Vestia umas calças cinzentas e uma camisa de xadrez. A barba de três dias, dava-lhe um ar rude que não lhe ia bem. E estava mais magro, - pensou a jovem.
-O almoço está pronto, Luísa?
- Vai já para a mesa, senhor.
-Vamos almoçar? Não temos muito tempo.
Na sala a mesa já estava posta. Sentaram-se e logo Luísa trouxe o almoço.
Almoçaram quase em silêncio e depois saíram em direcção à clínica onde ela ia ter a consulta.
- Nervosa?
-Um pouco.
-Desculpa, quase não te ter dado atenção nos últimos dias. Depois de amanhã é a inauguração da exposição. Foram vinte e cinco  telas para escolher, e catalogar. E mais um sem fim de coisas que não podia descurar. Faltam quarenta e oito horas para a inauguração. Depois são mais quinze dias de exposição em que tenho de estar presente. Quando acabar, fico com todo o tempo do mundo para ti.
Sentiu um arrepio ao ouvir a última frase e teve quase a certeza que tinha corado.
Como tinham chegado ao consultório, absteve-se de responder.
A consulta foi  demorada, o médico ouviu-os com atenção, analisou demoradamente a Ressonância Magnética, fez muitas perguntas, e acabou por dizer o que eles já sabiam, ou seja concordar inteiramente com o diagnóstico anterior.
Agendaram com a assistente a primeira sessão de psicoterapia para o final dessa mesma semana, e saíram.
Eram quase cinco horas, a noite caía rapidamente, Tinha-se levantado uma aragem fria. Mariana levantou a gola do casaco.
Solícito, ele perguntou:
-Tens frio?
-Um pouco.
Ele colocou-lhe um braço sobre os ombros, como se quisesse transmitir-lhe o calor do seu corpo. A jovem sentiu que o arrepio que nesse momento a percorria, nada tinha a ver com o frio 
-Vê se a Maria pode ir amanhã, ao shopping, contigo. Precisas fazer compras. O inverno está aí, e tens pouca roupa para enfrentá-lo. Desculpa já devia ter pensado nisso, mas como sabes, não tenho tido cabeça para mais nada que não seja a bendita exposição.
Não se referiu à consulta. Por qualquer estranha, e desconhecida  razão, ambos evitaram falar nela.