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26.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVII

 


Tiago aproximou-se da mulher que se encontrava de costas e abraçou-a. Baixou a cabeça e depositou um terno beijo no pescoço feminino, enquanto as suas mãos acariciavam a barriga proeminente de quem está em adiantado estado de gravidez. Sentiu como um empurrando e rindo disse:

-Ena começou cedo, os treinos de futebol, hoje o rapaz.

A mulher riu e iniciou o movimento de se voltar nos braços dele, e exatamente nesse momento Tiago despertou um tanto confuso, sem noção de onde estava.

Passou a mão pela testa suada e pensou que o aquecimento do quarto devia estar muito alto, pois não era normal estar a suar em pleno Natal. Ou seria efeito do sonho. Tentou lembrar de mais alguma coisa mas não conseguia recordar. E que quereria, dizer o sonho que acabara de ter? A mulher grávida era sua mulher, isso ele tinha a certeza. Quereria isso dizer que afinal nada grave acontecera com a sua parte sexual e reprodutora?

Depois de na véspera ter acordado com aquela bendita ereção, ele já sabia que a parte sexual funcionava, mas isso não queria dizer que a parte reprodutora estivesse igualmente bem. E podia ter uma vida sexual satisfatória e ser estéril. Então o sonho seria a confirmação do seu inconsciente de que tudo estava bem, ou apenas a resposta ao enorme desejo que ele tinha de um dia poder ter a sua família? E quem seria aquela mulher? E porque estava de costas? O que quereria dizer tal sonho?

-Bom dia, doutor! - Saudou Joaquim ao entrar no quarto arrancando-o aos seus pensamentos.

-Bom dia, Joaquim. Os meus pais já se levantaram?

-Já sim. Já tomaram o pequeno-almoço e saíram para irem à missa das oito. A senhora sua mãe, queria vir ao quarto, mas o seu pai, disse-lhe que era melhor deixarem-no descansar, viriam vê-lo depois da missa, - disse o caseiro enquanto puxava a cadeira de rodas para junto do leito.

-Acreditas em sonhos, Joaquim? Acreditas que eles nos queiram dizer alguma coisa?

- Sonhos? Acredito que existem, pois já tenho sonhado, muito ao longo da vida. Mas nunca entendi se o que sonhava tinha ou não algum significado para mim.   Quem era muito ligada nisso era a minha falecida sogra. Ela dizia que eles sempre passavam uma mensagem, e que a Bíblia, relata sonhos que avisaram reis de vitórias e derrotas, ainda antes do tempo em que Cristo andava pelo mundo. E as pessoas costumavam procurá-la, quando tinham sonhos que as deixavam intrigadas.

- Que pena que já não esteja entre nós, - disse Tiago dirigindo-se à casa de banho. Nos últimos dias ele começara a ir para o banho sozinho, utilizando a força dos braços para movimentar a cadeira.


24.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXIII





 A empregada saiu e Anabela olhou à sua volta. O quarto era grande com uma mobília rústica compacta onde se destacava uma cama de casal de cabeceira alta. Todos os móveis davam a sensação de solidez e conforto, embota fossem de linhas simples e com muitas gavetas. Numa das paredes, havia uma grande porta envidraçada cujas cortinas abertas deixavam entrar o sol aumentando a sensação de conforto. Aproximou-se e abriu a porta. Dava para uma varanda da qual se podia ver uma maravilhosa paisagem da serra.

Voltou a entrar no quarto e fechou a janela quando bateram à porta. Foi abrir e um homem alto e forte, não aparentando mais de sessenta anos apesar do seu cabelo completamente encanecido, carregando as suas duas malas entrou no quaro e poisando-as disse:

- Bom dia, menina, sou Joaquim, o caseiro e marido da Isilda. O doutor Azevedo pede se pode descer dentro de vinte minutos. Quer apresentá-la ao sobrinho e dar-lhes instruções antes do almoço que será servido há uma hora. Pretende partir depois do almoço.

- Obrigado, descerei daqui a pouco.

Olhou o relógio, colocou as malas em cima da cama, e começou a arrumar as suas roupas e livros que trouxera consigo. De seguida dirigiu-se à outra porta e abriu-a descobrindo que se tratava de uma casa de banho, equipada com uma antiga banheira de pés de leão que nunca devia ter sido usada, e uma cabine de duche. Sob o lavatório um armário branco que depois de aberto verificou estar cheio de toalhas também brancas.

Tudo na casa de banho era branco, desde a pintura no teto até aos azulejos, móvel e moldura do espelho. Parecia, uma coisa de enfermaria, não lhe transmitiu a mesma sensação de conforto do quarto a qual voltou.

Guardou dentro do armário as malas vazias e levou para a casa de banho a bolsa com os produtos de higiene pessoal. Abriu a torneira e lavou as mãos e o rosto. Deu uma olhadela rápida ao espelho e saiu.  Não mudou de roupa, nem vestiu a bata branca que tinha estendida em cima da cama. Teria de falar primeiro com o doutor, pois sabia que havia doentes que não gostavam de que as enfermeiras que os tratavam usassem bata.

Desceu as escadas e encontrou o doutor Azevedo conversando com o caseiro. 

29.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXV

 

- Como conseguiste? - perguntou Helena quando saíram do quarto. Não tem pesadelos com muita frequência, mas quando os teve só acalmou quando o levei para a minha cama.
- Segredo masculino, - disse ele sorrindo.- O Diogo é um menino muito inteligente. Joga com a tua ansiedade, para conseguir o que quer. E todas as crianças, gostam de se meter na cama dos pais, quando acordam de noite.
- Parece que percebes muito de crianças. Será que tens filhos?
- Não o creio. Se os tivesse, a mãe deles já teria entrado em contacto com a polícia, não achas?
-Sim claro. Perdi o sono. Vou beber um copo de leite. Também queres?
- Não. Mas também estou sem sono. Tive outro sonho estranho.

Dirigiram-se à cozinha. Ele sentou-se. Ela abriu o frigorífico despejou o leite no copo e colocou-o a aquecer no micro-ondas. 
- Não queres mesmo um copo de leite? Talvez um chá…
Ele moveu a cabeça negativamente e ela sentou-se à sua frente. Deu um gole no leite, e disse:
- Estou a ouvir-te

Ele contou o sonho como o tinha vivido, até ao momento em que o grito de Diogo o acordou.

- Que te parece. Achas que está relacionado comigo?
- Pode ser. Mas também pode ser, um reflexo do teu inconsciente, ao que o inspetor disse. Ou ainda, um daqueles sonhos que não se relacionam com coisa nenhuma e parecem ser brincadeiras do nosso cérebro. Reconheceste alguém?

- Sim. Na verdade reconheci as pessoas importantes da terra, mas não vi quem era o morto. Nem sequer sei se era homem ou mulher.  Havia um homem que me empurrou, e fechou a urna. Parece que  me queria afastar.
- Isso pode ser interessante. E quem era esse homem? Sabes?
- Não. Só que era pouco mais velho do que eu. E parecia que estava acompanhado da mãe.
- Olha são quatro horas, e a casa está fria. Porque não voltamos para a cama e de manhã pensamos nisso?

 Ele olhou-a intensamente e ela corou ao perceber o desejo nos olhos masculinos, e pensou que a sua ideia de voltarem para a cama podia ser interpretada como um convite.
Levantou-se, e voltou-se para colocar o copo no lava-loiça.

Ele aproximou-se, e pondo-lhe as mãos nos ombros, obrigou-a a voltar-se. Com o olhar fixo no dela, disse:
- Não tenhas medo, doutora. Por muito que te deseje, não vai acontecer nada entre nós, enquanto eu não souber, se sou digno de ti.
Virou-lhe as costas e dirigiu-se ao quarto.



Para os amigos que nos estimam.
Ontem chegou a biópsia do que tiraram do estomago do marido. E graças a Deus não é nada de origem maligna.

25.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE X




Na rua o homem parou, piscou os olhos por causa da luz daquele bonito dia de sol, e respirou fundo. Depois retomou a marcha, seguindo Helena em direção ao carro. Quando o veiculo começou a rodar, ela comentou:

-Amanhã, vamos ao centro comercial. Precisa de comprar algumas roupas.
- Mas como? Não tenho dinheiro!
- Eu sei. Mas posso emprestar-lhe o suficiente para que compre o necessário. Pagar-me-á quando recuperar a sua vida.
- E se isso nunca acontecer, doutora? Não posso viver às custas da sua generosidade.
- Não se preocupe. Quando menos esperar, recupera a memória. Foi pena que não se deixasse hipnotizar. Podia ser que o psiquiatra tivesse descoberto algo.
- Mas não foi culpa minha, juro.
- Chegamos, - disse ela estacionando o carro junto de um prédio de apartamentos. Moro no segundo andar. Vamos?

Acionou o mecanismo da chave para fechar o automóvel, ao mesmo tempo que se dirigia para a entrada do prédio seguida pelo homem. Se a porteira a visse, decerto ia estranhar. Morava ali há três anos, e nunca entrara ninguém na sua casa, a não ser a empregada, e os seus pais, quando vinham passar uns dias com ela. 

Não utilizaram o elevador. Ela nunca o usava, preferindo subir os dois lances de escadas, e naquele dia não foi diferente, até porque pensou, que depois de tantos dias, na cama, ele precisaria de exercício. Abriu a porta, acendeu a luz, pendurou a mala num cabide à entrada e voltando-se para ele que se mantinha em silêncio, disse:
- Venha, vou mostrar-lhe a casa. Aqui é a sala, digamos de recreio. Aqui pode ler, ouvir música, ou ver TV. Aqui é a sala de refeições. É pouco utilizada, como vivo sozinha com o filho, comemos sempre na cozinha. É mais aconchegante. O quarto principal, o quarto do Diogo, e o quarto dos meus pais, que será o seu, enquanto aqui estiver. No armário, estão algumas roupas, para dormir confortável hoje. Espero ter acertado com o tamanho. Aqui  são as casas de banho. Esta é a que uso com o Diogo. 
A porta ao lado, é de outra casa de banho cuja diferença consiste, em que esta tem banheira, e a outra apenas duche. No resto são iguais. Poderá usá-la.
E finalmente a cozinha. 
Voltou-lhe as costas, mas ele pôs-lhe uma mão no ombro e forçou-a a voltar-se. Segurou as mãos dela entre as suas, e perguntou olhando-a com intensidade:




21.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVIII



João dormiu pouco e mal não só porque o sofá era pequeno para o seu tamanho, mas porque levou a noite atento à jovem. Às sete horas levantou-se, foi ao armário buscar as suas roupas e dirigiu-se ao outro quarto para tomar banho e vestir-se.

Voltou ao quarto principal e encontrou Teresa já acordada.

- Bom dia. Vou fazer o pequeno almoço, mas gostaria que me dissesses o que devo fazer para ti.

- Na verdade pensava ir tomar banho primeiro.

- Não acho bem ires tomar banho sozinha. É melhor tomares o pequeno-almoço, estás há muitas horas sem comer. Depois às nove horas quando a Sandra entrar, ela vem para cima e ajuda-te com o banho e com tudo o que precisares. Sandra é a enfermeira. E então, o que te apetece comer?

-  Se tiveres cereais podes preparar-me uma taça, mas primeiro preciso tomar o comprimido do enjoo. Só um quarto de hora depois posso comer – disse abrindo a gaveta e mostrando-lhe a lamela de comprimidos.

Ele foi buscar uma garrafa de água e um copo, e depois que ela tomou o comprimido olhou o relógio.

- Se não precisas de mais nada descansa. Quando forem horas trago-te os cereais.

-Não preciso de nada, obrigado.

Ele saiu e já na cozinha preparou duas sandes mistas, encheu um copo de sumo de fruta e sentou-se a comer.  Quando terminou olhou o relógio e viu que ainda tinha tempo para um café. Depois pegou um tabuleiro colocou-lhe em cima uma taça, juntou a leiteira com o leite bem quente, o pacote de cereais um guardanapo e a colher. Com tudo no tabuleiro voltou ao quarto, e poisou-o em cima da mesa de cabeceira. Logo ajudou-a a sentar-se no leito, arranjando-lhe as almofadas atrás das costas e só depois lhe colocou o tabuleiro no regaço.

- Não preparei os cereais antes de os trazer, porque ficariam moles e suponho que gostes deles estaladiços. Enquanto comes, vou telefonar à minha assistente. Qualquer coisa que precises chama, está bem?

- Desculpa o incómodo, - disse de olhos baixos como se o que ia dizer a envergonhasse - mas podes trazer-me, um balde para aqui? Tenho receio de começar com náuseas e não ter tempo de chegar à casa de banho.

Ele saiu e voltou pouco depois com um balde grande que encontrara na arrecadação do material de limpeza.

- É muito grande, mas foi o único que encontrei. Quando a Sandra vier,  verá o que podes precisar e manda comprar, se não houver lá em baixo na enfermaria. Agora se me dás licença vou telefonar à Olga.

Já no escritório pegou no telefone e depois de saudar a sua assistente pediu.

- Liga para o posto médico e diz à Sandra para vir ter contigo. E quando ela aí chegar venham as duas para cima.

- Aconteceu alguma coisa? Estás doente?

- Não. Mas por favor, faz o que te peço e venham o mais rápido possível. 

Desligou o telemóvel e os seus olhos caíram sobre o envelope fechado em cima da secretária. Pensou que tinha que o ler, mas de momento não tinha serenidade para isso. Abriu a gaveta e guardou-o de novo.

 

12.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VII


Quando duas horas depois, André voltou, a primeira coisa que viu, assim que Eva lhe abriu a porta, foi o seu rosto congestionado, e os olhos vermelhos e inchados, indicadores claros de ter levado o tempo a chorar. Sentiu um baque no peito. Era tão jovem. Parecia uma menina e já tão sofrida. Sorriu, tentando animá-la.
- Trouxe jantar para os dois. Calculei que não te apetecesse cozinhar. E uma vez que ia sair do hotel preferi fazê-lo antes do jantar. Vou pôr a mala no quarto e já venho. Queres por a mesa? Na cozinha, se não te importas.
Estendeu-lhe o saco, e seguiu com a mala para o quarto. Eva pôs a mesa. Depois abriu o saco, e tirou dele uma garrafa de vinho tinto, um recipiente com frango assado, outro com batatas fritas, um com salada e uma caixa de gelado, que colocou no congelador. Procedia quase como um autómato, pensando quão estranha era a vida. De manhã, ela nem sonhava com a existência de André. E agora ali estava a por a mesa, para um jantar a dois, como se fossem um casal, ou pelo menos amigos íntimos. Curioso é que depois do embate inicial, e sobretudo depois da conversa que tiveram horas antes, ela deixou de recear o que lhe podia acontecer no futuro. Confiava nele? Sim, mas não de peito aberto. Como diria a Irmã Madalena, confiava, desconfiando. Muita água teria que correr debaixo da ponte, até que voltasse a confiar em alguém, em pleno, como confiara no marido.
- Espero que gostes de frango,- disse ele ao voltar minutos depois.- Teria telefonado para te perguntar, mas não tenho o teu número. Pudemos começar? Estou cheio de fome.
Puxou-lhe a cadeira para ela se sentar, e esse pequeno gesto, fez com os olhos femininos, ficassem rasos de água. Nunca ninguém tivera com ela gesto tão delicado, nem sequer o marido no tempo de namoro, muito menos depois de casados. Durante alguns minutos comeram em silêncio. Depois ele retomou a palavra.
- A tua família, já sabe o que se passou?
- Não tenho família!
-Como assim? Ninguém? Nem sequer um parente afastado?
-Não. Fui abandonada à porta de uma instituição católica que acolhe órfãos. E lá vivi até ao casamento. A Irmã Madalena, é o mais parecido que tenho com uma família.
André despejou um pouco de vinho no seu copo, e tentou fazer o mesmo no dela, que o cobriu com a mão dizendo:
-Não obrigada. Prefiro água.
Olhou-a pensativo. Será que estava grávida? Isso justificaria o ter desmaiado no advogado e o não querer bebidas alcoólicas. Ou será que temia que ele a embebedasse, para depois abusar dela?


11.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VI



Calou-se. Eva estava confusa. O coração dizia-lhe que o homem era sincero e podia confiar nele, a cabeça lembrava-lhe que o seu coração era muito ingénuo, e já a enganara uma vez, quando a levara a confiar no marido. E enquanto ela se debatia com estas contradições, ele poisou as chaves com que abrira a porta, em cima da mesa, virou-lhe as costas e começou a caminhar para a saída.
O facto de ele pousar as chaves que ela mesma lhe entregara, fez com que a levasse a confiar nele.
-Espera – disse pondo-se de pé. - Vem conhecer a casa. Se quiseres podes mudar-te hoje. 
A casa não é muito grande. Além desta sala, temos aqui uma sala de refeições, e aqui o quarto principal. É o único com casa de banho, - disse enquanto ia abrindo as portas, para lhe mostrar os respetivos aposentos. Esta parte da casa, bem como a cozinha e a casa de banho, foi remodelada e mobilada por nós, antes do casamento. Aqui é uma salinha de leitura,  que comunica com o quarto principal e o quarto de hóspedes. Estas duas divisões, como podes ver, estão mobiladas com um estilo diferente. Clássico, os móveis são antigos, já  estavam assim, quando o Alfredo herdou a casa, da madrinha, e não lhe mexemos, em parte porque o dinheiro para a reforma não abundava, e em parte porque enquanto não viessem os filhos, não precisaríamos delas. Aqui em frente temos uma casa de banho e  a cozinha. Podes ficar com o quarto principal, eu mudo as minhas coisas para o quarto de hóspedes.
-De modo nenhum. Eu fico no segundo quarto. De certeza que posso vir hoje? Não queres mais um dia ou dois para te habituares à ideia?
- Não! Hoje, amanhã, ou daqui a um mês, a dor e a vergonha, do que aconteceu, não diminuirão. Além do mais vai ser uma festa para a vizinhança, a tua presença aqui. Parece que já estou a ouvir os comentários. "Há uma semana enterrou o marido e já meteu outro lá em casa. Se calhar foi por causa dela que ele se matou."
- Se te preocupas com isso, podes dizer que sou da família.
- De modo algum. Não me preocupa o que pensem, estou de consciência tranquila.
- Bom, como já te disse, não quero prejudicar-te.  Peço-te que me desculpes se te pareci rude à bocado. Penso que estavas à beira de um ataque de nervos e foi a melhor maneira que encontrei para te tranquilizar.  Agrada-me a casa. Os hotéis são muito impessoais. Devo dizer-te que saio todas as noites e regresso tarde. Como te disse sou jogador profissional, uma profissão noturna. Procurarei não fazer barulho, quando entrar.
- Farei o mesmo de manhã, para que possas descansar. Agora vai.
Logo que André saiu, ela foi até ao quarto de hóspedes, e trocou a roupa da cama. Depois levou toalhas limpas para a casa de banho, verificou se estava tudo em ordem, e só depois voltou à sala e pegou na carta do marido. Deu-lhe várias voltas, antes de ter coragem de a abrir.
Por fim decidiu-se. E leu.

“Querida Eva:
Deves estar muito zangada comigo. Sei que fui um canalha, traí a tua confiança, destruí os teus sonhos, pus-te em perigo, e não consigo viver com o remorso daquilo que fiz. Não te peço perdão, porque eu próprio não me perdoo. Tenta esquecer que eu existi. Só assim poderás ainda ser feliz. Adeus.”

Escondeu o rosto entre as mãos e chorou amargamente.


24.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXX


- Já não chama. Ou ele desligou o telemóvel, ou ficou sem bateria – disse Marco.
- Nem uma coisa nem outra - disse Laura com voz trémula, esforçando-se para não chorar. - O Gil nunca faria isso. Ele mantinha-se sempre em contacto com a casa desde que a filha nasceu. Meu Deus deve ter tido algum acidente, esta maldita tempestade…
- Não nos precipitemos, o melhor que podemos fazer agora, é irmos à polícia - disse Alcides. Se ele teve algum acidente, eles têm o registo e podemos saber para que hospital foi levado. Posso ir sozinho, ou vamos todos.
- Vamos todos, claro – respondeu Marco.
- Esperem só dois minutos enquanto vou buscar um casaco e calçar uns sapatos – disse Laura dirigindo-se apressada para o quarto.
Meia hora depois estavam no posto de polícia onde um agente depois de os ter ouvido, verificava no computador, se havia algum registo de acidentes durante a noite na autoestrada do Norte.  A tempestade tinha fustigado a Península Ibérica, atingindo a maior intensidade entre a meia noite e as cinco da manhã desde a Galiza até Coimbra. Havia registos de muitas árvores arrancadas, casas destelhadas, rios que galgaram as margens inundando habitações ribeirinhas, mas não havia nenhum registo de acidente na estrada.
- Mas o meu irmão telefonou a dizer que vinha na autoestrada a caminho de casa e não chegou.
-Talvez se tenha apercebido que não podia continuar e tenha pernoitado em algum hotel, - disse o agente.
-Não há hotéis na autoestrada – insistiu Laura.
- Mas há saídas para as localidades.O mais natural é que tenha saído e esteja nalgum hotel, à espera de que passe a tempestade, que apesar de já ter tido, o seu pico máximo de intensidade, ainda está bastante forte lá para o Norte.
 Foi a vez de Marco afirmar:
-Teria telefonado.
-Se conseguisse. Há muitas localidades sem eletricidade, nem telefone. O telemóvel pode ter ficado sem bateria e não haver eletricidade para o carregar. De qualquer modo não posso ajudá-los mais. Aconselho-os a irem para casa e aguardarem, ele pode dar notícias a qualquer momento, - disse-lhes o polícia.
Alcides tirou da carteira um cartão e entregou-o ao agente dizendo:
- Por favor se chegar algum registo de acidente, telefone-me.
Saíram da esquadra e entraram no automóvel para regressarem a casa.
-Laura, porque não telefonas à Celeste? Pode ser que o Gil já tenha dado notícias – disse Alcides.
- Não acredito. A Celeste teria telefonado para mim, imediatamente. Sabe que fiquei muito preocupada.
- De qualquer modo não se perde nada em tentar - disse Marco ao mesmo tempo que marcava o número da casa do irmão
Ao terceiro toque Celeste atendeu:
- Residência do senhor Gil Gaspar, bom dia.
- Bom dia, Celeste, fala o Marco. O meu irmão já deu notícias?
- Não senhor. Não disse nada desde ontem à noite. Estamos todas muito preocupadas.
- Estivemos na polícia e não há registo de acidentes na autoestrada. O tempo está muito mau, talvez esteja à espera que melhore. Entretanto se ele telefonar ligue-nos logo.
-Fique descansado, senhor Marco.


21.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IV





Pousou o telemóvel sobre a mesa-de-cabeceira, e dirigiu-se  à casa de banho.  Despiu-se, enfiou a roupa que acabara de despir,  no cesto da roupa suja, abriu a torneira da água e meteu-se debaixo do chuveiro.  Depois do duche, enxugou-se, enfiou o robe sobre o corpo nu e regressou ao quarto. Retirou do armário umas calças de ganga e um suéter que vestiu. Voltou à casa de banho, pendurou o roupão no cabide atrás da porta  e olhou com desconfiança a imagem que o espelho lhe devolvia. Pese toda a atração que provocava no sexo oposto, Gil nunca se considerara um homem bonito. Podia reconhecer que no conjunto dos seus traços, tinha um aspeto agradável, mas bonito não era. Todavia a imagem que naquele momento, o espelho lhe devolvia, nada tinha que merecesse um segundo olhar.  Certo que continuava a ter um porte atlético, mas os olhos mortiços e rodeados de olheiras, o olhar cansado, a barba incipiente de quem passara o dia sem se barbear, o ricto amargo na boca e o cabelo húmido, estavam longe de lhe dar um ar muito atraente. Respirou fundo, passou os dedos pelos cabelos, puxando para trás uma madeixa rebelde, endireitou a gola do suéter azul, e apertou o cinto nas calças de ganga. Por fim saiu da casa de banho, desceu as escadas e dirigiu-se ao seu escritório. 
O jantar seria às oito como era hábito, ainda tinha tempo para ver o correio, e verificar alguns documentos que precisaria para o dia seguinte. Depois ao serão analisaria a proposta que Luna, a sua agente lhe fizera chegar. Precisava embrenhar-se no trabalho a fim de esquecer por algum tempo, o hospital, Sara e Mariana a sua filha. Gostava de pensar nela dando-lhe o nome que iria ter, e não como uma bebé. Era uma estupidez, o seu lado prático reconhecia-o, mas no seu coração era como se ao pronunciar-lhe o nome lhe enviasse um sopro de vida que a fortalecesse.
Mariana, fora o nome da sua mãe. Uma mulher humilde e trabalhadora que criara sozinha os três filhos, já que o marido, um mulherengo incorrigível, a quem ela ia perdoando todas as traições, acabara por troca-la por outra mulher mais jovem, logo após o nascimento de Laura, a mais nova dos três irmãos. Por isso, ele escolhera esse nome para a filha. Como uma homenagem e um agradecimento à mulher que tanto os amou e tanto se sacrificou por eles. Pena que tivesse morrido tão jovem, sem que ele pudesse dar-lhe a velhice que ela merecia, mas o maldito cancro acabara com ela em menos de um ano, precisamente na altura, em que ele ia assinar o primeiro grande contrato da sua vida. Graças a isso pôde montar a pequena empresa de artigos desportivos, com que o irmão sonhava e pagar a Universidade à irmã.
Depois foram oito anos em que somou verbas astronómicas não só com o futebol, mas também com os contratos publicitários. O nome de Gil Gaspar, tornou-se no toque de Midas. Foi já nos anos finais dessa época dourada que conheceu aquela que viria a ser a sua mulher.
Sara era uma jovem completamente desconhecida, muito bonita e com uma excelente figura, que sonhava vir a ser modelo, e que um agente de publicidade descobrira e convidara para fazer par com ele numa campanha publicitária.
Era uma beleza, mas mais do que isso foi a sua timidez e o seu ar ingénuo que os encantara, a ele e ao fotógrafo.
O anúncio fora um êxito, e a agência convidara-a para alguns desfiles, mas o mundo da moda é um mar de intrigas e interesses, onde é preciso muito mais do que uma carinha bonita e algum talento, para se chegar ao cume. 


8.12.18

E MANUEL SORRIU






E Manuel sorriu
A noite aproximava-se quando o comboio chegou à cidade alemã de Colónia. Desceram muitos passageiros, entre eles um homem e uma mulher que ficaram parados na plataforma como que perdidos. Fazia frio e eles eram uns desconhecidos na grande cidade.
— Vamos procurar um quarto para passar a noite — disse o homem.
— Está bem — respondeu a mulher — Já não vai demorar muito.
O homem fez com a cabeça um sinal afirmativo.
Procuraram incessantemente por um quarto, mas não encontraram nenhum. O Natal estava próximo e já todos estavam ocupados. A dada altura pareceu-lhes que talvez tivessem encontrado qualquer coisa, mas eram pobres e as pessoas viam que a mulher estava grávida e não os aceitavam. A criança não tardaria a nascer. Por fim, um indivíduo, com uma garrafa de cerveja na mão, indicou-lhes um edifício, dizendo:
— Ali, ao virar a esquina, há um abrigo noturno. Quem não tem casa, pode lá dormir.
Chegados, o gerente olhou pela janela.
— Esta é uma casa só para homens — disse. — Não posso aceitar mulheres.
A jovem assustou-se e amparou o ventre com as duas mãos.
— O que foi? — quis saber o marido.
— As dores do parto começaram. Não posso continuar.
Então o gerente teve pena dela.
— Pronto, entre, então. Ali ao fundo da casa tenho mais um quarto.
Conduziu-os através do dormitório dos homens até um quartinho minúsculo. A criança nasceu ao fim de umas horas. Mais tarde, a mulher mostrou o bebé aos homens do albergue.
— Como é que vai chamar-se? — perguntou um.
— Vai chamar-se Manuel — respondeu a mãe.
Os homens admiraram-se com o nome, mas lembraram-se que a jovem viera de longe.
De repente, todos tinham qualquer coisa que queriam oferecer. Um, depois de vasculhar na mochila, tirou quatro flores de papel que ofereceu à mãe, outro foi buscar uma pele de ovelha quase nova e disse:
— Para o Manuel estar sempre quentinho.
— Espera aí — disse um outro. — Devo ter aqui algures uma manta de lã.
Procurou no seu saco de plástico e encontrou a manta. Era uma peça realmente bonita, felpuda e de um vermelho vivo.
— Para o Manuel — disse.
A esposa do gerente entrou para ver a criança.
— Do que vocês se lembram! — disse ela. — Manta, pele de ovelha e flores de papel! Do que a criança precisa é de fraldas, uns casacos de bebé e calcinhas.
— Clara, as coisas da nossa Elisabete não estão ainda na gaveta? — questionou o marido.
— É verdade, Francisco! — exclamou a mulher. — Como é que eu não me lembrei!
Correu a casa e regressou com fraldas, casaquinhos, calcinhas e com um maravilhoso gorro de bebé.
— Toma, para o teu bebé — disse à mãe.
— Olha! — disse um homem muito velho. — Acho que o Manuel sorriu.
Todos viram.
Um dos homens pegou então no realejo.
— Já não toco há muito tempo — disse. — Espero ainda conseguir.
Ouviram-se uns sons muito delicados e os homens começaram a cantar baixinho. E como o Natal estava próximo, cantaram “Noite Feliz!”.
— Agora chega — disse a mulher do gerente. — A mãe e a criança precisam de sossego.
O gerente murmurou:
— Esquisito! Os fulanos nunca estiveram tão calmos aqui no albergue como hoje!
E em seguida acrescentou:
— Não falta muito e ainda vão arranjar o boi e o burro!
Pouco depois, apagou a luz.
Mas alguns dos homens ainda ficaram acordados muito tempo e voltou-lhes à lembrança o tempo em que tinham sido crianças.
Um disse, já meio a dormir:
— É estranho que tudo isto tenha acontecido aqui. Pouca gente vai acreditar, quando contarmos.


Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, OMNIBUS, 2004
(Tradução e adaptação)

13.11.18

ESTRANHO CONTRATO -PARTE XXI




Francisca era muito bonita. A sua pele não tinha brancura da pele de Olga, a sua falecida esposa, mas nem por isso era menos bela. E era uma mulher de fibra. A maneira alegre e doce como tratava das crianças, a alma com que geria aquela casa, como tomava sobre os seus ombros todas as tarefas relativas, aos filhos para que ele não perdesse tempo, era admirável. Ele tinha muito trabalho, mas nem por isso lhe passava despercebido tudo o que se passava em casa. 
De súbito pensou que gostaria de passar os seus dedos pelo rosto adormecido. Sentir se a sua pele era tão macia quanto aparentava. 
Abanou a cabeça, como se assim expulsasse aquele pensamento inoportuno. Depois sem fazer barulho dirigiu-se à casa de banho. 
Pouco depois voltou. De pijama e chinelos, dirigiu-se à  cama e deitou-se. Apagou a luz. 
Não sabia quanto tempo dormiu. Acordou com o choro infantil.
Acendeu a luz. A porta do quarto ao lado estava aberta. Levantou-se. A cama estava vazia. Saiu para o corredor e viu que a luz estava acesa no quarto das filhas
Parou na porta. Francisca tinha Ana ao colo. Acariciava-a e murmurava palavras de conforto.
-Que aconteceu? – Perguntou em voz baixa.
- Não sei, talvez um pesadelo. Mas já está tudo bem. Não tarda a adormecer. Vai descansar.
Voltou para o quarto. Acordou às cinco da manhã. A cama no quarto ao lado continuava vazia. Levantou-se e foi ao quarto das filhas. Ana dormia profundamente, abraçada a Francisca. Fechou a porta sem fazer ruído e regressou à cama.

reedição


                                      

22.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXV




“Dorme bem, -resmungou entre dentes. - Como se um homem o conseguisse fazer quando o corpo arde de paixão. Vamos Ricardo, acalma-te e pensa. Perder uma batalha, não significa perder a guerra. E se é verdade que ela te ama, vai acabar por ceder.”
Com este pensamento, apagou a luz e dirigiu-se ao seu quarto.
Aí chegado foi à casa de banho, despiu-se, abriu a torneira da água fria e meteu-se debaixo do duche. Durante alguns minutos deixou que a água gelada lhe acariciasse o corpo. Depois do banho, escovou os dentes, vestiu umas calças de pijama, e deitou-se.  Pegou no livro que tinha na mesa-de-cabeceira. Leu duas, três vezes a mesma página. Não conseguia concentrar-se. Imaginava Clara deitada, os longos cabelos soltos espalhados pela almofada. E esse simples pensamento anulou o efeito do duche frio.
Não fora assim que ele sonhara passar a sua noite de regresso. Que diabo, afinal estavam casados, ele prometeu-lhe lealdade e fidelidade.
Porque é que ela vinha com aquela treta de amor? Pela sua cabeça, passou como num filme, aquela noite de Junho, quando ele regressou a casa, depois de terminada a missão no Kosovo, onde fora substituir um outro militar que tinha sido ferido. Ele não avisara Marisa da chegada, pois pretendia fazer-lhe uma surpresa. E afinal, o surpreendido fora ele. Chegara ao princípio da noite, e não encontrando ninguém na parte inferior da casa, pensou que a mulher estaria no quarto e começou a subir as escadas. A meio, pareceu-lhe escutar uma voz masculina. Surpreso parou, e escutou. Reconheceu então os gemidos de Marisa e não teve mais dúvidas. Acabou de subir a escada, e abriu a porta do quarto. Na cama, a sua mulher, completamente nua, cavalgava o corpo do amante, como se não houvesse amanhã.
Sentiu que o sangue lhe subia à cabeça, e só o pensamento do filho, o impediu de acabar com os dois naquela hora. Depois, quando já o seu amante tinha fugido, e ela lhe disse que nunca pensara abortar só o dissera para que ele assumisse a responsabilidade do filho que estava à espera, mas que ele não era o pai do menino, sentiu vontade de esganá-la. E até hoje não sabia se não o teria feito, se naquele momento Bernardo não tivesse acordado e desatado a chorar a plenos pulmões. Fora o choro do filho que o impediram de cometer uma loucura.
Não voltou a dormir no seu quarto até ter mudado toda a mobília. E fora nessa altura, no primeiro dia em que voltou ao quarto, que jurou a si mesmo, que nunca mais ia por o seu coração nas mãos de uma mulher. Daí para a frente, ia viver para o filho, para a carreira, aproveitar das mulheres aquilo que elas estivessem dispostas a dar-lhe, e nada mais.
Meses depois, já Marisa tinha morrido, ele foi chamado para uma missão no Mali. Antónia e o marido, mudaram-se para a casa grande, pois foram eles que ficaram com Bernardo durante os meses que esteve ausente. Depois, já com Soraia, pediu dispensa de missões por um ano, em virtude de ter dois filhos pequenos. E foi assim até que findo o prazo, e na iminência de voltar a partir, Francisco, seu advogado, gestor e grande amigo de longa data, lhe aconselhou a tomar a decisão que trouxera Clara e o irmão para a sua vida.
Apesar do relatório que recebera do investigador, Ricardo não pensara que a jovem aceitasse a sua proposta. Tudo bem, ela vinha de um noivado desfeito, mas era muito jovem, para aceitar as suas condições. Uma mulher mais velha, mais vivida, provavelmente mais desiludida da vida, aceitaria aquele contrato como uma bênção. Quase se arrependeu de ter marcado a entrevista. Mas contra o que ele esperara, ela aceitou. E o que aconteceu depois disso foi uma surpresa total. Clara era autêntica com as crianças, não procedia como alguém que executa um trabalho. Também com ele o fora, contestando as suas ideias e princípios.
E ele tinha uma profunda admiração por ela. E um desejo ainda maior.
Mas amor? Amor não, nunca mais. O amor torna os homens, trouxas. E ele jurara que mulher nenhuma, nunca mais o ia enganar. 
Acabou por adormecer, quando o dia já ia despontando, depois de ter dado mil e uma voltas na cama.



20.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE VI



Deixou um quarto para a mãe e dividiu o outro com o irmão que traumatizado com a morte do seu progenitor e o alheamento da mãe, não fazia outra coisa que não fosse chorar. Essa fora a principal razão que a levara a inscrever o irmão nos escuteiros da paróquia de São Pedro de Alcântara. Após a mudança e despedida a última empregada, Clara pensou que precisava de arranjar rapidamente trabalho, pois o dinheiro que sobrara, depois de pagar aos credores, escoava-se rapidamente nas necessidades básicas do dia-a-dia. Porém como fazê-lo se tinha de cuidar da casa, da mãe e do irmão, na época apenas com apenas com sete anos? Ainda restavam as jóias da mãe, mas de modo algum queria desfazer-se delas. Cada uma representava para a progenitora, um momento especial, seria decerto um choque fatal desfazer-se delas.
Infelizmente seis meses depois de terem mudado para a nova casa, a mãe morreu docemente enquanto dormia. Clara havia completado dezoito anos dois dias antes. Foi como se a mãe tivesse esperado que ela atingisse a maioridade para se reunir ao seu amado marido. Assim ela podia assumir a educação do irmão. Se fosse menor, a Segurança Social tê-los-ia separado, e provavelmente acabariam os dois nalguma instituição.
Com o pequeno Tiago na escola, podia enfim arranjar um trabalho, que lhes permitisse viver. E foi o que fez. Arranjou trabalho num café perto de casa. O salário não era muito grande, mas com o abono de família, e as gratificações dos clientes, dava para irem vivendo. Com a vida mais estabilizada, propôs-se terminar o décimo segundo ano à noite, coisa que levou a cabo com a ajuda das vizinhas que lhe tomavam conta do irmão, nas horas em que ela estava na escola.
Mais tarde, fora a uma entrevista e conseguira entrar como escrituraria numa empresa e o salário aumentou substancialmente. E assim foram vivendo os dois, os anos passando, Tiago crescia, sem lhe dar problemas. Tinha dezasseis anos, e ia iniciar o penúltimo ano do Secundário. Quando terminasse essa fase,  teria que entrar no mercado de trabalho, já que de modo algum, Clara conseguiria pagar-lhe a faculdade, a menos que vendesse as poucas jóias da mãe, que ainda lhe restavam, coisa que ela não desejava fazer.Eram a única recordação que tinham dos pais, e uma defesa para a eventualidade de uma doença. E foi então que no refeitório da empresa uma colega lhe chamou  a atenção para um anúncio, no jornal, que na altura considerou absurdo.

“Cavalheiro 35 anos, deseja conhecer senhora dos 30 aos 35 anos, que goste de crianças, meiga e competente, para possibilidade de desempenhar o papel de mãe delas. Assunto sério. Resposta ao apartado 1100 Rossio”

Porém o resto do dia, o anúncio não lhe saiu do pensamento. Ela gostava de crianças. Se o homem pagasse bem, e tendo em atenção que provavelmente iria viver lá para casa, talvez conseguisse pagar a Universidade ao irmão.
Assim, depois de uma noite em que quase não dormiu, decidiu responder ao anúncio. Nunca lhe passou pela cabeça que se tratasse de um casamento, pensou sim que se trataria de um emprego como ama.
Escreveu a seguinte missiva no trabalho durante a hora de almoço.

Exmo. Senhor.
Talvez não devesse perder tempo a responder ao seu anúncio, já que refere a idade entre 30 e 35 anos, e eu tenho apenas 26. Mas como gosto imenso de crianças, e tenho experiência no assunto já que há oito anos, venho criando sozinha, um irmão que tem atualmente dezasseis anos, penso que talvez a questão da idade não tenha uma importância muito grande, e eu possa ser escolhida para cuidar das suas crianças.
Estou na atualidade empregada na firma, Ramos & Ramos Lda em Alcântara, mas não teria problema em pedir a demissão.
Sem outro assunto, termino com os melhores cumprimentos.
Atenciosamente
Clara Mendes de Sá.

P.S. Não envio referências, pois acredito que o senhor não entregará os seus filhos ao cuidado de ninguém, sem antes fazer uma aturada investigação sobre essa pessoa. Pelo menos, era o que eu faria, se fossem meus filhos.

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE V


No seu quarto, Clara trocou a roupa que vestia por um pijama de algodão composto de calções floridos e t-shirt branca. Foi à casa de banho, escovou os dentes, soltou o cabelo e regressou ao quarto disposta a dormir. Tinha por hábito ler um pouco antes de adormecer, mas como se irritara com  Ricardo acabara por não trazer nenhum livro.
Foi até à porta que dava para o terraço. Afastou o cortinado, e olhou.
 No céu uma esplendorosa lua cheia iluminava toda a terra. “Boa noite para acampar”- murmurou pensando no irmão.
Teve vontade de sair para o terraço, mas pensou que todos os quartos deviam dar para ele, e não tinha vontade nenhuma de voltar a ver o dono da casa, naquela noite. Sim, porque apesar da aliança que ele lhe enfiara no dedo, ela nunca perdera a noção de que era apenas uma empregada, que por obrigação contratual, vivia em casa do seu patrão.
Talvez que a aliança lhe desse um estatuto especial, perante o mundo em que ele se movia, mas ali dentro daquelas paredes, era apenas a sua empregada. O contrato que ambos assinaram, era bem explícito. Ela devia proceder como sua esposa, em todos os eventos onde se fizessem representar, e deveria ser uma mãe para as crianças, acompanhando-as como tal até à sua maioridade. Depois assinariam o divórcio e ela era livre de fazer da sua vida o que bem entendesse. Aos quarenta e um anos. Era para todos os efeitos um contrato absurdo, mas tinha as suas contrapartidas. Desde logo tinha uma mesada mensal que era o dobro do que recebia no emprego anterior, tinha casa e alimentação para ela e para o irmão, que assim podia ir para a Universidade, tirar o Curso de Biologia, que era o seu sonho de menino e que ela nunca lhe poderia proporcionar. E o melhor de tudo, cuidar de crianças, era para ela que sempre as adorara, uma forma de realização pessoal. Fechou o cortinado, e deitou-se, mas o sono teimava em não chegar.
De algum recanto da sua memória, as lembranças começaram a sair em catadupa.
Viu-se bem pequenita, num baloiço do jardim, de uma grande moradia,  empurrada pelo seu pai, sob o olhar amoroso da mãe.
Tivera uma infância feliz. Seu pai era um empresário bem-sucedido, e sua mãe uma mulher muito apaixonada. Ambos se amavam muito e a amavam da mesma maneira.
Clara só tinha um problema. Era filha única, e o seu maior sonho era ter um irmão, com quem dividisse carinho e brincadeiras. Era a única menina da sua turma, que não tinha irmãos. Mas para sua felicidade até o irmão chegou, como o melhor dos presentes, três dias antes de fazer dez anos.
Porém antes de completar dezassete anos, a sua vida sofreu uma reviravolta inesperada. Por uma daquelas crises que de vez em quando assolam um país, varrendo a economia, os negócios do pai começaram a correr mal, e ele não foi capaz de travar a falência. Desesperado, sem saber como honrar os diversos compromissos com os credores, conduziu sem destino até que numa estrada montanhosa, não muito concorrida, fez com que o carro mergulhasse no vazio, acabando por morrer na explosão que se sucedeu ao embate.
Embora o coração da mãe ainda batesse, durante quase um ano, após a morte do marido, na verdade a mulher que ela fora, morrera no momento em que recebeu a notícia da morte do companheiro. Apesar da pouca idade, Clara chamou a si a tarefa de cuidar do irmão e da mãe, e ao mesmo tempo limpar o nome do pai. Começou por despedir duas das três empregadas, e por a esplêndida casa da família à venda, o carro topo de gama, que o pai oferecera à mãe pelo seu aniversário, no ano anterior, bem como algumas obras de arte onde o pai aplicara bastante dinheiro ao longo dos anos.
Claro que fora a mãe quem assinara os documentos, mas fora ela com a ajuda do advogado do pai, quem tratara de tudo.
Não foi fácil, a sua vida após a morte do pai. Com o dinheiro das vendas, pôde pagar as dívidas do pai e limpar o seu nome. Depois teve que procurar uma casa modesta para habitarem, o que não foi possível naquela zona onde os alugueres eram bastante caros.
Conseguiu arranjar um apartamento na zona de Alcântara, com dois quartos, sala, casa de banho e uma pequena cozinha.


8.9.18

FOLHA EM BRANCO PARTE L





Dizem que o tempo voa, mas para Mariana, os dias decorriam numa lentidão exasperante. Miguel passava os dias no estúdio, apenas descia para almoçar, sabendo que Luísa e a filha estavam em casa. À noite, não descia para jantar, e quando vinha dormir era já madrugada. Mariana, passava os dias com a amiga, que devido à época de festas que atravessavam, não tinha aulas. 
Ora saíam, ora se fechavam no quarto, ouvindo música, ou perdendo-se em longas conversas. Não era de estranhar que se tivessem tornado inseparáveis. Para Mariana, a amiga, era a única pessoa, mais ou menos da sua idade, com quem convivia desde há largos meses. Maria, admirava a amiga, pelo que ela sofrera, e pelo carinho com que sempre a tratara.
E assim se chegou ao último dia do ano, um invernoso dia de vento e chuva. Luísa e a filha, saíram a meio da tarde, em dias assim era mais difícil apanhar transportes e elas moravam no outro lado da cidade.
-Deixei o jantar preparado, menina. É só aquecê-lo no Micro-ondas, - disse antes de partir.
- Não se preocupe Luísa. Aproveitem, sair agora, parece que a chuva e o vento amainaram um pouco.
Pouco depois a chuva voltava em força.
Sete e meia da tarde, ouviu-se o primeiro trovão.
“Só cá faltava a trovoada” murmurou contrariada.
Correu os cortinados, apagou a luz e dirigiu-se à sala.
Abriu um livro, mas não conseguiu ler. A trovoada estava cada vez mais próxima, e  ela cada vez mais nervosa.
Miguel descia as escadas, quando um relâmpago, fez da noite dia, e o trovão soou ameaçador por sobre as suas cabeças, ao mesmo tempo que a luz se apagava, mergulhando a casa na escuridão.
Ela gritou assustada, e rapidamente ele estava a seu lado abraçando-lhe o corpo tremente.
Tens medo? – Perguntou baixinho
Contigo não.- Respondeu no mesmo tom.
Novo relâmpago, novo trovão, desta vez ainda mais assustador, como se a tempestade que eles traziam no peito, se tivesse  materializado lá fora, no espaço.

Ela apertou o cerco dos seu braços e pediu num sussurro:
-Beija-me, Miguel!
Ele afastou-a ligeiramente
- Não me tentes, Mariana, não me tentes!