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23.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXII

 


-Boa tarde Olga.  Alguma novidade? – perguntou o empresário ao passar pela secretária da sua assistente.

- Comunicaram do armazém para avisar que já seguiu a encomenda do Survive II, para a Holanda. E o dr. Afonso diz que precisa falar contigo, por causa do contrato dos estagiários.  Mas diz-me, como correu a consulta da Teresa, está tudo bem com ela e os bebés.

- Vem, falamos no meu gabinete, - disse abrindo a porta.

Uma vez lá dentro, João despiu o casaco e pendurou-o num cabide, afrouxou e tirou a gravata, e pendurou-a também.

-Senta-te mulher, - disse ao ver que Olga  continuava de pé. - Estou cansado de te dizer, que quando estamos sós, não tens que aguardar ordem para te sentares.

Ela obedeceu e esperou que ele falasse.

A médica disse que está tudo bem. A Teresa, está com bom peso, e os bebés já estão formados. Até já vimos que um é menino. Os outros dois tinham o sexo escondido. Parece que daqui para a frente é só crescerem e desenvolverem os órgãos internos. Imaginas o que é um bebé que da cabeça aos pés, mede cinco centímetros?

- Mais pequeno que qualquer boneco. Os meus parabéns. E a gravidez continua a ser de risco?

-Sim, mas segundo a médica, parece que a partir de agora o risco de aborto diminuiu e embora a Teresa tenha que continuar com muito descanso não precisa passar o resto da gravidez de cama a não ser que surja qualquer problema. Pelo menos por agora pois também lhe disse que depois das vinte e quatro semanas é provável que volte a estar o tempo todo deitada, para tentar aguentar os bebés o máximo de tempo possível, pois se nascerem muito antes das trinta e seis semanas, provavelmente precisarão de incubadora. E sabes a novidade maior. Convenci a Teresa a casar comigo. Finalmente vou saber o que é pertencer a uma família, a minha.

- Que bom João.  Fico tão feliz por ti, que tenho vontade de abraçar-te.

- E o que esperas para o fazer? - retorquiu pondo-se de pé.

Ela também o fez e os dois abraçaram-se emocionados.

- Lembras-te do que te disse a primeira vez que me falaste da Teresa depois da primeira visita dela? - perguntou Olga com a voz embargada, enquanto se sentava de novo. 

-Sinceramente, não.

-Eu disse: "Deus os fez, Deus os juntou" Acredito nisso, sabes? E acredito que vão ser uma família feliz. E para quando é o casamento?

- Por tudo o que te disse, o mais breve possível. Espero que dentro de duas, três semanas no máximo. Amanhã vou começar a tratar de tudo, e espero que me ajudes, pois, receio esquecer-me de algo importante. Vai ser uma cerimónia íntima, com pouco mais que os padrinhos, lá em cima no átrio. Depois dos bebés nascerem, casamos pela igreja e fazemos então a festa que não é possível agora, dadas as circunstâncias. E, claro, que conto contigo para minha madrinha.

-E eu sinto-me honrada pelo convite. Parece-me que tens tudo mais ou menos delineado, por isso só tens que me dizer o que queres que eu faça.  A propósito, não me mostraste o anel de noivado.

- Meu Deus, o anel. Como é que me esqueci disso? Anda, veste o casaco e vamos à ourivesaria.

-Agora? Esqueceste o doutor Afonso?

- Olha, liga para o departamento jurídico e passa-me a chamada.

Minutos depois estava em contacto com o advogado.

- Boa tarde, Afonso. Que se passa com os estagiários?

- Estão a terminar o estágio. E dos três, dois são mesmo muito bons e gostava de continuar com eles, o problema é que só temos vaga para um.

- Traga-os amanhã ao meu gabinete às dez e resolvemos isso. Agora preciso sair.

15.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXV


Ouviu a campainha. Vestiu o casaco, pegou na mala, abriu a porta e saiu.
-Olá.- Disse ele, ao mesmo tempo que se inclinava e lhe aflorava a testa com um beijo breve.
- Foste pontual. Não me quero demorar.
- Não te preocupes, - disse abrindo-lhe a porta do carro.
- Onde vamos?
-A minha casa.
“Mau. Se ele pensava em levá-la para sua casa no intuito de uma tarde na cama, nunca lhe perdoaria”
- Não te preocupes. Confia em mim.
Era como se ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Chegaram a um luxuoso condomínio. Um segurança, abriu o portão e o carro rolou até se deter em frente de um bonito edifício de dois pisos.
Ajudou-a a descer, e conduziu-a pelo braço até casa. Abriu a porta, e desviou-se para lhe dar passagem. Quase de uma forma inconsciente fechou a porta com o calcanhar. Teresa, não se atrevia a falar. Deixou que lhe despisse o casaco, e a conduzisse à sala.
Pegou num comando e fez correr o reposteiro que cobria a enorme janela, inundando a sala de luz. Ela viu que estava numa divisão de grandes dimensões. Reparou na parede coberta de livros, atrás de um dos sofás. No móvel bar, e na brancura dos enormes sofás. Em frente de um deles, uma mesa de vidro. Sobre ela um par de ténis de criança, e um álbum.
- Senta-te Tê. Trouxe-te aqui para te mostrar algo, que nunca pensei mostrar a ninguém.
Sentou-se e ele sentou-se a seu lado. Pegou no álbum, abriu-o e entregou-lho.
Ela viu vários recortes de jornal. Eram muito antigos. Leu o primeiro.
Relatava um crime. Uma mulher vítima de maus tratos, matara o marido. E tinha uma foto de um homem estendido no chão. Leu outro. Falava do mesmo crime. Sem compreender o que se passava, virou a página. E viu mais recortes. Com ligeiras variantes, mais ou menos sensacionalistas, os recortes traziam todos a mesma notícia.
Numa delas havia uma foto de criança. Dizia-se que era o filho do casal, que devia ser enviado para numa instituição estatal.  Numa outra dizia-se que a mulher aguardava julgamento em prisão preventiva, e que o filho fora acolhido por uns tios.
Sem saber o que pensar olhou para Rui.
- Eram os meus pais. Eu sou essa criança.- Disse com voz rouca.
Sentiu-se zonza. Como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O que viu nos olhos do homem, era terrível. Estendeu a mão e colocando-a sobre a masculina, apertou-a suavemente. Ele continuou
 - Por mais que me esforce, não me recordo de ter visto algum dia o meu pai sóbrio. Em contrapartida sempre me lembro de ouvir os seus gritos e o choro da minha mãe, quando ele lhe batia.

3.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XV


Tinha chegado a hora de saída.
- Não podes ficar um pouco mais? Ainda temos um bom par de horas para acabar isto. – Disse ele quando viu que ela começava a arrumar a secretária.
- Terá que ficar para amanhã.
- Tens alguém à tua espera?
- E se tiver? O que é que isso tem a ver com o trabalho?
- Podíamos acabá-lo esta noite.
- Não faço serões. Mas se quiseres ficar, estás à vontade. Afinal a firma é tua.  E tens aí todos os documentos. Até amanhã.
Pegou no casaco e na mala e saiu sem lhe dar tempo a responder.
Chegou ao carro ao mesmo tempo que a amiga.
- Estive toda a tarde a pensar em ti – disse Luísa, antes mesmo de pôr o carro a trabalhar. - Estiveram quase duas horas, juntos. Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu que está a analisar o perfil de competência e capacidade de resposta de cada um dos empregados. Especialmente dos chefes, e fiquei com a impressão que se os relatórios que pediu hoje não forem o que espera, vão rolar cabeças.
- Parece estar determinado a levantar a empresa. Isso é bom para todos. Arranjar novos empregos é cada dia mais difícil. Mas e foi só isso? Ainda não te reconheceu?
- Reconheceu-me no primeiro instante que me viu, ainda que fizesse os possíveis para me deixar na dúvida. Hoje foi diferente. Provavelmente porque estávamos sozinhos.
- Queres falar sobre isso?
- Não importa. Parecia querer falar do passado, talvez justificar o injustificável, mas não lhe dei margem para isso. Deixei bem claro que só poderemos falar de trabalho.
- E ele, aceitou?
- Penso que sim, - disse encolhendo os ombros. Pediu-me a pasta dos mapas de pessoal e levamos o resto da tarde a analisar o perfil de cada um.
Tinham chegada à porta de casa de Luísa e como sempre, Tiago já estava à porta com o filho e o afilhado esperando-as.
Cumprimentaram-se, beijou o filho, abriu a porta traseira do carro para o acomodar, instalou-se ao volante e arrancou com um aceno de mão para os amigos. Era aquela a sua rotina diária.
Conduzia devagar, aquela hora, o trânsito era sempre muito intenso, enquanto escutava o filho dizer todo feliz, que tinha sido escolhido para representar um dos Reis Magos, na Récita de Natal com que a escola ia encerrar as atividades do primeiro período, dentro de duas semanas.




18.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE I

reedição


O homem abriu a porta, e fechou-a atrás de si com um toque de calcanhar. Carregou no interruptor e o espaço encheu-se de luz. Estava numa pequena sala de entrada, com um único móvel de madeira escura, com tampo de mármore encimado por um quadro a óleo.
Junto à porta um bengaleiro.
 Despiu o casaco e pendurou-o. Depois em passos largos encaminhou-se para a divisão seguinte.
Acendeu a luz, e sem se deter caminhou até um pequeno bar e segurando um copo serviu-se de uma dose de Uísque. De um pequeno frigorífico incrustado e dissimulado no bar, retirou e colocou no copo, duas pedras de gelo.  Com o copo na mão sentou-se num dos brancos sofás que compunham a sala. 
O homem que devia andar perto dos quarenta anos, era alto, e bem constituído. Tinha uns olhos escuros e cabelos pretos, mas nas suas têmporas, apareciam já alguns fios brancos. O rosto, moreno, dir-se-ia ter sido esculpido por um talentoso escultor dada a sua perfeição.
Vestia roupas de corte elegante de bom tecido. Decididamente era um homem rico, e bonito, capaz de ter tudo o que desejava, mas naquele momento, recostado no sofá, de olhos semicerrados e aspeto cansado, não aparentava ser um homem feliz. Pelo contrário, se por ali houvesse um pintor, em busca do tema ideal para retratar a solidão, decerto acharia que tinha encontrado o modelo perfeito.
Apesar do seu porte atlético, parecia demasiado pequeno na grande sala com os dois enormes sofás brancos, a parede atrás de si completamente coberta de livros, o bar do seu lado esquerdo, e o reposteiro que cobria toda a parede da frente possivelmente envidraçada.
Ouviu-se o som de um telemóvel. O homem abriu os olhos e procurou o aparelho. Lembrou que o tinha poisado, no móvel da sala de entrada.
Sem vontade, levantou-se e foi até lá. Atendeu. Era Diogo, o advogado.
-Que se passa? – Perguntou com brusquidão.
- Queria lembrar a hora da reunião amanhã com os donos da “Tudilar”
- Que é às dezassete, já me tinhas dito.- Replicou aborrecido. Espero que tenhas tudo pronto, Quero efetuar a compra amanhã. Estou a pensar viajar de novo em breve.
- Está tudo em ordem. Creio que não vai haver problema. Eles estão com a corda na garganta. É a venda ou a falência.
-.Está bem. Espero-te no meu escritório às quinze para revermos isso.
- Lá estarei, Mário.







27.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE VI






Olhou o relógio. Onze e meia. Dobrou a carta e meteu-a no bolso do casaco.
- Vou sair, qualquer emergência liga-me para o telemóvel – disse ao passar pelo gabinete da sua secretária.
Meteu-se no carro e dirigiu-se à morada indicada. Estacionou o carro no lado contrário da rua. Ao sair, observou o prédio. Notava-se que já tinha alguns anos mas estava bem conservado. Trinta e nove r/c direito dizia o envelope. Tocou a campainha. Uma senhora de meia-idade com uma criança ao colo, abriu-lhe a porta.
-Bom dia. A senhora é Isabel Sarmento?- perguntou.
- Se deseja falar com a Isabel ela foi ao centro de emprego, mas deve estar a chegar.
-Muito bem, eu espero no carro. Virou-lhe as costas e dirigiu-se à porta, mas quando a abriu viu uma mulher jovem do outro lado, e perguntou:
- Isabel Sarmento?
- Sim. Deseja alguma coisa?
- Falar consigo. O meu nome é Ricardo Medina.
A mulher ficou lívida e Ricardo teve a sensação que ela podia desmaiar a qualquer momento.
- Ri…cardo? O senhor é o Ricardo? Não pode ser! – balbuciou quase sem voz.
- Claro que não pode ser, - disse irritado. Como é que se atreveu a dar o meu nome a uma criança sem minha autorização?
-Senhor, - ela retorquiu, - não pudemos discutir este assunto no átrio do prédio. Se puder entrar, esclarecemos o assunto.
Abriu a porta e convidou-o a entrar. Indicou-lhe a sala. Natália, saiu da cozinha com a menina ao colo, e esta ao ver Isabel estendeu os braços para ela chamando, mãe, mãe… Isabel deu-lhe um beijo e disse: 
- A mãe agora não pode, meu amor. Natália por favor importa-se de lhe ir dando o almoço enquanto eu atendo este senhor?
-É bonita a sua filha - disse ele tentando ser amável.
- Não é minha filha, embora lhe queira como tal. É a Matilde e segundo a Susana, é sua filha.
Irritou-se de novo.
-Já lhe disse que não conheço nenhuma Susana. Porque não a chama e esclarecemos este assunto de uma vez por todas?
-Susana suicidou-se há dez meses. Se me der licença eu vou buscar a carta que ela me deixou. 
Retirou-se deixando-o atordoado. Que brincadeira mais idiota. Ele nunca conhecera nenhuma Susana. Tinha tanta certeza disso como tinha de saber que o sol nascia todos os dias.
Isabel voltou e estendeu-lhe a carta. Depois disse-lhe como uns pescadores encontraram o corpo irreconhecível entre as rochas e como o reconhecimento fora feito pelas roupas que ela vestia.
-Lamento - disse ele. Que idade tinha a sua irmã quando supostamente manteve uma relação comigo? E quando foi isso?
-Vinte anos. Há pouco mais de dois anos Susana disse que namorava consigo. Nunca a vira tão feliz e fiquei contente. Mas pouco tempo depois, disse-me que tinham acabado, caiu em depressão, e quando descobrimos que estava grávida já era tarde para um aborto. A menina tem quinze meses.


Amigos hoje vou sair bem cedinho para o Algarve, devo chegar já bem tarde, pelo que não estranhem a minha ausência.



21.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... PARTE II

reedição





-João, estás-me a ouvir? Fala a Cecília, não te lembras de mim?
- Bom... gaguejou João enquanto tentava descobrir, quem raio era aquela Cecília, que parecia conhecê-lo tão bem.
- Estou a ver. Não te lembras de mim é o que é. Devia ficar zangada sabes? Não te lembrares da tua primeira namorada...
- Cecília Pedrosa? - Perguntou incrédulo
- Ah! Afinal lembras-te, - disse soltando uma sonora gargalhada.
João raciocinava a mil. Cecília Pedrosa. Mas então ela não estava no Brasil? E como é que se lembrara de lhe telefonar? E como obtivera o número do seu telefone?
- Cheguei ontem do Brasil. E acabo de encontrar a Sandra que me deu o teu número.
“Diabos, parece que escutou os meus pensamentos”, pensou.
- Olha, - continuou Cecília do outro lado. Estamos aqui em Alcântara, num bar que tu conheces bem, segundo diz a Sandra. Não queres vir ter connosco?
Sandra era a irmã do Zé. O bar só podia ser o que costumavam frequentar. Sandra era uma boa amiga. Não daria o seu número, a qualquer uma.
E depois Cecília tinha sido a sua primeira namorada, ainda antes da faculdade. Mas depois fora para o Brasil e nunca mais soubera dela... 
- Então João, - a voz do outro lado soava com impaciência
- Eu vou - numa fracção de segundo João resolvera arriscar. Afinal era noite de Sexta-feira, no dia seguinte poderia dormir até tarde.
Desligou o telefone e dirigiu-se à casa de banho para um duche rápido. Enquanto se barbeava, surpreendeu-se com uma pergunta.
Estaria casada? Sacudiu a cabeça. Claro que não. Uma mulher casada não telefona a um ex-namorado, convidando-o a sair.
Continuaria bonita? Há tantos anos que não se viam. 
Vestiu umas calças de ganga e uma camisola de gola alta, enquanto fazia mentalmente as contas.
"Deve estar com trinta e seis anos", murmurou vestindo o casaco.
Fechou a porta e caminhando a passos largos dirigiu-se ao elevador.



Bom amigos, esta história é como viram ontem uma reedição. Tem uns quatro anos e apenas quatro episódios. Alguns leitores mais antigos lembram-se. Continuo a não ter nada novo para vós, a não ser a certeza de que não serei operada hoje uma vez que não me telefonaram da clínica na Sexta-feira, a dizer que o tal especialista que o cirurgião pediu, está disponível esta segunda. 

5.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLV


O empregado conduziu-os à mesa, e estendeu-lhes a ementa, retirando-se em seguida
Voltou pouco depois, com as entradas. Perguntou se já tinham escolhido, tomou nota do pedido e afastou-se. 
Mariana olhou à sua volta. O restaurante estava completamente cheio. Gente que conversava e ria, famílias pequenas e outras mais numerosas, todas irmanadas na mesma alegria. Poucos casais.
Talvez recém-casados, no seu primeiro Natal a dois. Imaginou-se assim, recém-casada com Miguel, e involuntariamente corou.
- Está calor aqui dentro,- disse tentando disfarçar.
Terminado o almoço, seguiram em direcção à Boca do Inferno, depois pela marginal até à praia do Guincho. Seguiam devagar admirando a paisagem, que naquele lugar, é de cortar a respiração.
Miguel estacionou perto da praia, e ficaram algum tempo olhando as ondas de espuma branca,  que se desfaziam no areal.
Retomaram a marcha começando a subir a serra,  na estrada para o cabo da Roca, porém um pouco mais à frente, Miguel entrou numa estrada estreita, rodeada de vegetação, típica  da serra e foram sair junto do Palácio da Peninha. Estacionou aí e saíram para admirar a paisagem, verdadeiramente deslumbrante.
De volta ao carro, seguiram pela mesma estrada. Logo a seguir, encontraram o desvio para o Palácio da Pena e Castelo dos Mouros, porém seguiram em direcção ao centro, passaram pela Quinta da Regaleira, uma maravilha , misto de natureza, e talento do homem, seguindo depois para o centro histórico.
O passeio era maravilhoso, mas os dois continuavam tensos e mudos.
Estacionou à saída do centro.
Saíram.  Na rua, estava bastante frio. A jovem levantou a gola do casaco.
-Tens frio?
Ela moveu a cabeça em sinal afirmativo. E ele passou-lhe o braço pelos ombros, como se quisesse protegê-la do frio, com o calor do seu corpo. Um acto natural e tantas vezes repetido ao longo daqueles meses, mas que agora lhe transmitia uma emoção diferente.  Quebrando o silêncio, que desde a manhã, persistia em acompanhá-los disse:
- Vamos lanchar. Conheces os travesseiros de Sintra?
- Só as queijadas.
 -Experimenta os travesseiros. São uma verdadeira delícia.
Mariana, sentia cada vez mais dificuldade em aparentar uma calma que não sentia. Ela não entendia que ele estivesse a lidar com ela, como se fosse uma miúda, depois da confissão que lhe fizera na véspera, e pensou que não estava nada interessada nos travesseiros. Porem, não disse nada.
- Quando vamos ao Algarve? – Perguntou ele mudando o rumo da conversa.
-Penso que logo no dia 2. No dia 4 tenho a sessão de psicoterapia, a que não quero faltar.
Tinham chegado à pastelaria. Procuraram uma mesa vaga, mas tiveram que se contentar com um lugar ao balcão.




21.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXXI




 Feliz Isabel apresentou-lhe o seu rebento, Tiago. Depois mudou-lhe a fralda e colocou-o nos braços da amiga enquanto preparava o biberon. Mais tarde, o bebé de novo na caminha, as duas almoçaram e por fim Odete despediu-se com um abraço e um pedido.
- Deseja-me sorte!  
Chegou ao hotel e escreveu uma longa carta ao marido. Falou do intenso amor que lhe devotara desde que o conhecera, do medo que sentia que ele se cansasse dela por ser uma mulher com poucos estudos e ele ser um médico brilhante, o que a levou a querer estudar. Depois  recordou tudo o que acontecera desde aquela noite em que encontraram Inês. A perseguição que ela lhe movera, as vezes em que lhe disse que estivera com ele, que se amavam e que ele só estava esperando uma oportunidade para lhe pedir o divórcio. O pouco tempo que ele estava em casa também contribuiu para que se sentisse insegura. Contou-lhe o telefonema que recebera de Inês, uns minutos antes de ele entrar naquele dia fatídico. E de como nesse telefonema, Inês lhe dissera que ele não estivera de plantão no hospital mas tinha ido dormir com ela, e que podia provar, com a carta que lhe dera e ele guardara no bolso interior do seu casaco. Lembrou do sofrimento que sentiu, quando depois de ele adormecer, revistou o casaco e achou a carta no bolso interior, tal como Inês dissera.
Falou do seu desespero, da sua dor ao imaginá-lo nos braços de Inês, de como procurou refúgio em casa da irmã, incapaz de o ver com outra mulher. Da luta que travou com os seus sentimentos antes de o procurar por causa da doença da mãe, da surpresa que sentiu, quando percebeu que ele não tinha contado à mãe a situação real do seu casamento. Terminou confessando que sempre o amou e sempre o amaria, e perguntava-lhe, o que faria ele se a situação fosse inversa. Se lhe dissessem que ela o traía e ele encontrasse nas suas coisas uma missiva tão comprometedora.
Juntou a fatídica carta de Inês que ele trouxera para casa naquele dia, no bolso do casaco, e que ela guardara religiosamente, meteu tudo num envelope do hotel, foi a casa e colocou a carta no quarto bem visível junto da moldura com a foto do casamento. Depois passou pela igreja onde foi cumprir uma promessa que fizera no dia da cirurgia da mãe.
Depois, com toda a fé que albergava no seu coração, suplicou ao Altíssimo que a ajudasse a recuperar o amor do marido.
Foi ver a mãe, com quem passou um bom pedaço de tempo a conversar, e por fim voltou ao hotel onde aguardou ansiosa pela reação do marido.



Já devem ter reparado que esta história está a ir muito depressa.  Poucos têm sido os dias que não saem dois capítulos.
Acontece que quinta feira vou para o Algarve e lá não tenho pc, o que torna difícil a publicação. É certo que podia deixar agendada como das outras vezes, mas para a semana é Semana Santa, e eu não queria continuar a história, e não achava justo deixar-vos com ela a meio. Por isso peço desculpa.


24.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXVIII



- Foi demorado o almoço hoje, - disse Diana ao vê-la entrar acelerada mesmo em cima da hora.
Anete lançou um olhar pela sala. Ao ver que não havia ninguém para atender, disse baixinho:
- Estive a almoçar com o meu ex-marido.
- Uau! Deu-lhe a saudade? Não me digas que vais ter uma recaída.
- Deus me livre! Afonso é um homem muito bom, dará um excelente marido, mas não para mim. Já te contei que nos divorciámos de comum acordo e que somos amigos.
- Sim, claro. Mas o que é que ele queria?
Naquele momento entrou uma utente e Anete não pode responder. Nem mais tarde, porque em breve a sala estava cheia e não houve mais tempo para conversas.
À noite ao saírem, Diana insistiu:
- Então, não me vais contar?
- Afonso queria que eu soubesse que se tinha apaixonado. Não queria que eu soubesse por outras pessoas.
- Que simpatia! – Ironizou a amiga.
- Não sejas irónica. Eu fiquei muito feliz por ele. Sei que te pode fazer confusão, mas eu gosto muito do Afonso. É o melhor amigo dos meus irmãos, fomos criados juntos e amo-o quase tanto como aos meus irmãos.
- Não te entendo mulher. Se é assim porque se casaram?
- Foi um arranjo entre famílias. Como andávamos sempre juntos, eles pensaram que ia ser um casamento feliz. E nós fomos na onda.
- E perdeste grande parte da juventude. Até amanhã. Vem aí o meu autocarro, - disse começando a correr para a paragem que se encontrava uns cinquenta metros mais adiante.
- Até amanhã, Diana.
Anete continuou a sua caminhada. A paragem do metro era um bom bocado mais abaixo. Ela gostava de caminhar à noite pela rua, de olhar as montras iluminadas. Faltava pouco mais de um mês para o Natal, e as montras mostravam os mais variados artigos entre motivos alusivos à data.
Anete caminhava devagar, e de vez em quando, parava junto a uma montra que se mostrava mais apelativa. Não tinha pressa, não tinha ninguém à sua espera. A noite estava fria. Aconchegou ao pescoço a gola do casaco e retomou a marcha.  Pensava no Natal. Nos anos anteriores, passara com os pais a noite de Natal, e com a sogra o dia. Como seria o Natal deste ano?
Desceu a escadaria para o metro pensando em Afonso. Tinha ficado contente por saber que estava apaixonado. Oxalá tudo desse certo. Ele merecia ser feliz.
Ao entrar em casa olhou o relógio. Oito horas. Levara hora e meia para chegar a casa, um trajeto que de manhã fazia em meia hora. Despiu o casaco, e foi para a cozinha. Preparou uma omeleta de presunto e queijo, uma salada de alface e jantou.

7.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XVIII


Olhou-se ao espelho enquanto escovava os longos cabelos escuros, recém-lavados. Ainda estava indecisa sobre como levá-los ao jantar. Soltos ou presos?
Tinha aceitado o convite para jantar que Salvador lhe fizera no dia anterior. Ele dissera que era um jantar informal, em casa do irmão.
Anete, tinha ficado feliz por conhecer a sua família. Salvador agradava-lhe. Nunca se tinha sentido assim entusiasmada por outro homem. Mas não podia iludir-se. Ele decerto contara à família que tinha encontrado alguém muito parecido com a cunhada, e e eles sentiram a mesma curiosidade que ela sentia. Tinha que ser isso. Se ele tivesse interesse em levá-la a jantar, o faria para qualquer outro lado onde estivessem sós. Depois no dia em que saíram juntos, e ele a acompanhou a casa, nem sequer tentou beijá-la.
Acabou de escovar o cabelo, e olhou-se de novo ao espelho. Não decididamente não ia levar os cabelos soltos. Com mãos experientes, puxou-os para o seu lado direito e começou a entrança-los.
Com a trança pronta repousando sobre o ombro direito, mirou-se de novo no espelho. Gostou do resultado. Olhou o relógio. Sete horas. Salvador dissera que vinha buscá-la às sete e meia. Em cima da cama repousava a roupa que escolhera para aquele jantar.
Passou uma sombra nos olhos para lhes dar mais profundidade, um ligeiro toque de cor nas maçãs do rosto, e um pouco de brilho nos lábios. Nunca gostara de grandes maquilhagens, e nem aquele jantar se prestava a isso.
Terminada a maquilhagem envergou o fato que escolhera. Era composto por umas calças, e um casaco de seda, azul celeste, cujo decote em bico pouco pronunciado realçava o colo sem se tornar indiscreto.
Optou por uns sapatos pretos, de salto em cunha e não muito altos.
O Outono ia adiantado, dentro em pouco chegaria o Inverno, as noites estavam frias, pelo que retirou do armário um casaco comprido castanho-mel.
A campainha tocou nesse momento. A jovem enfiou o casaco, pegou na mala, e saiu abotoando o agasalho enquanto descia as escadas.
Sentiu-se reconfortada com o olhar de admiração masculino, e sorriu enquanto ele pousava ao de leve os lábios na sua face, numa saudação social.
-Boa-noite. Estás muito bonita.
- Obrigado. Tu também estás muito bem.
E estava. Com as calças antracite, a camisola de gola alta branca que ressaltava o rosto moreno, e o casaco desportivo de cor  de camelo, cujo tom se confundia com a cor dos seus olhos. 
A curta viagem até à casa dos seus anfitriões decorreu em silêncio, cada um entregue aos seus próprios pensamentos. Só quando estacionou o carro, Salvador falou:
-Antes de entrar, gostaria de te pedir que não lhes contasses como nos conhecemos. Isto é, não gostaria que eles soubessem das minhas suspeitas sobre a fidelidade da minha cunhada.
- Por quem me tomas? -Perguntou zangada.  - Nunca iria falar sobre uma coisa dessas.                                                                         

6.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE I


- Aqui tem senhor!
O homem levantou a cabeça, e olhou a mulher que na sua frente lhe estendia uma pasta. A sua secretária. Caramba, cada vez que olhava para ela, ficava a pensar, o que teria passado pela cabeça do gestor dos recursos humanos, para lhe enviar aquela … ele nem sabia bem como classificar a mulher que estava na sua frente.
- Obrigado. Pode deixar aí, se precisar de si, chamo.
A mulher deixou a pasta em cima da secretária e afastou-se em direção ao seu gabinete de trabalho. Ao chegar à porta, parou e disse.
- Recordo que tem uma reunião com o seu advogado para daqui a meia hora.
Abriu a porta e saiu.
O homem ficou por momentos a olhar a porta fechada. Com tanta mulher bonita, no mundo, porque haviam de lhe ter mandado aquela como secretária?
No seu gabinete, Sandra retomou o trabalho. Tinha vinte e seis anos, o cabelo castanho arruivado, estava apanhado num coque, e vestia um fato saia e casaco cinzento, que seria considerado o último grito da moda… cem anos atrás.
No rosto redondo, e sem qualquer tipo de maquilhagem, pontificavam dois belíssimos olhos verdes, a única coisa que chamava logo a atenção nela, mas que talvez sabendo-o ela mantinha quase sempre meio oculto, como se estivesse permanentemente preocupada com os seus pés. Parecia uma figura saída de algum quadro de museu.
Pelo menos era o que Gabriel, o seu atraente chefe pensava. Mas de uma coisa ele estava certo. Jamais tivera uma secretária tão eficiente… no trabalho. A anterior era um desastre como secretária. Parecia que todas as suas aptidões estavam voltadas para a cama.
O homem sorriu ao recordar-se de Lucia. Deu-lhe um certo trabalho, separar-se dela. Era realmente muito boa na cama. Mas um homem não pode ser escravo dos seus apetites sexuais, e por muito que gostasse de mulheres, não tinha nenhuma vontade de se prender a nenhuma. Pelo menos, Sandra era uma excelente secretária, e com ela não corria riscos.

27.6.17

SONHO AO LUAR -PARTE XV




Hélder entrou em casa. Tirou o casaco que pendurou no bengaleiro, e olhou para todos os lados, analisando cores e móveis. Respirou fundo. A sua casa. Era a primeira vez que a via, desde que partira há dez anos. E estava bem diferente após a remodelação que sofrera há meses. Antônia à porta, olhava-o espantada. Como é que ele tinha vindo sozinho? E onde estava o cão?

18.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXI



 Pouco depois, ouviu a campainha, e vozes. Logo em seguida, o médico entrou no quarto.
Fez uma série de perguntas, viu a febre, os ouvidos, os olhos, a garganta, e auscultou-a meticulosamente.
Por fim deu a consulta por terminada e saiu com Quim. Ouviu-os falar, mas não entendeu o que diziam.
Pouco depois, o marido voltou. Sentou-se na beira da cama:
-Sofia, o médico quer que vás fazer um Raio X e Análises. Ele suspeita de pneumonia. Vamos ter que ir ao hospital. Consegues levantar-te?
Não esperou resposta. Levantou-se, retirou do armário um conjunto de calça e casaco de lã, um casaco comprido e um cachecol, que colocou em cima da cama. Abriu a gaveta da comoda e retirou um conjunto de sutiã e cueca de seda rosa, que colocou igualmente em cima da cama.  Verificou que ela continuava deitada. Puxou a roupa para trás, meteu um braço sob os seus ombros, e o outro sob os joelhos e sentou-a na cama.
- Queres que saia um pouco para te vestires, ou precisas que te ajude?
- É melhor saíres, - disse sem o olhar, sentindo o rosto a arder, sem saber se da febre, ou de vergonha.