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18.12.19

CONTOS DE NATAL - UMA BONECA DO PAI NATAL







A mãe de Alice morreu quando ela tinha cinco anos de idade. Apesar de os seus nove irmãos e irmãs serem muito carinhosos, não conseguiram, obviamente, substituir o amor de uma mãe. Alice, que é hoje minha mãe, contou-nos que em 1925 a vida era muito difícil e que a sua família era tão pobre que nem sequer podia dar-lhe uma boneca pelo Natal.
Alice transformou o cuidado dos outros no objetivo da sua vida e foi sucessivamente tomando conta do pai, do marido, dos filhos e dos netos. A minha mãe acreditava que poderia compensar a sua infância triste através da dedicação à própria família. Contudo, continuou a sentir que havia na sua vida um vazio por preencher.
Em Dezembro de 1982, eu trabalhava num banco local. Uma tarde, quando estávamos a decorar a árvore de Natal e a cantar canções natalícias, uma das nossas clientes aproximou-se de mim com algumas bonecas que fazia à mão. Decidi encomendar uma para a minha filha, Katie, que tinha quase cinco anos de idade, e perguntei à minha cliente se poderia fazer uma boneca especial para a minha mãe – uma boneca com cabelos grisalhos e óculos: uma boneca-avó. O meu desafio criativo foi logo aceite.
Quando um amigo me disse que o pai – que costumava fazer de Pai Natal em vários eventos de caridade – pretendia visitar-nos na manhã de Natal para entregar a Katie os seus presentes, pensei logo que esse poderia vir a ser um dos dias mais memoráveis da vida da minha mãe.
O dia de Natal chegou e, na hora combinada, também chegou o Pai Natal, que trazia o saco que eu lhe tinha previamente feito chegar. Katie ficou surpreendida e feliz com a visita e a minha mãe estava a apreciar a reação da neta. Foi então, que, antes de sair, o Pai Natal olhou de novo para dentro do saco e retirou mais um presente. Quando perguntou quem era a Alice, a minha mãe foi totalmente apanhada de surpresa. O Pai Natal entregou-lhe o presente, que estava acompanhado de uma carta que ele leu em voz alta:

Querida Alice,

Antes do início da viagem deste ano, enquanto quando arrumava o meu trenó, encontrei este embrulho que devia ter sido entregue no dia 25 de Dezembro de 1925. O presente que está dentro envelheceu, mas achei que gostaria na mesma de o receber. Peço-lhe desculpa pelo atraso na entrega.

Um beijo,

Pai Natal.

A reação da minha mãe foi uma das cenas mais emotivas a que assisti na vida. Sem conseguir falar, apertou contra o peito a boneca que tinha esperado 57 anos para receber, enquanto lágrimas de alegria lhe rolavam pelas faces. Aquela boneca, oferecida pelo Pai Natal, fez da minha mãe a mais feliz das “crianças”.

Alice Ferguson




Estou de saída para o Algarve, onde espero passar o Natal se entretanto não receber nenhuma chamada do hospital. Se tem sido difícil visitar-vos com o problema dos olhos, agora vai ser mais difícil porque lá não tenho computador.
Os contos de Natal continuarão a sair todas as noites pois foram programados há muito para saírem neste mês. Tentarei sempre que possível passar pelos vossos blogues, embora como todos saibam apenas com o telemóvel é difícil.


23.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE IX





Chegara finalmente o dia do aniversário de casamento de Francisca e Afonso.
Segundo a vontade dos dois, era uma festa intima, que contava com a presença dos filhos, e netos, da nora e do genro, dos respetivos pais, e dos dois advogados, do escritório do Afonso com as respetivas esposas. 
Simão chegara perto do meio-dia, e os pais estavam muito contentes por tê-lo enfim de volta, após aqueles longos cinco anos.
As prendas que os filhos trouxeram, deixaram-nos encantados, pelo significado de cada uma delas. Uma em especial, tinha-os emocionado. Tratava-se de um quadro, que reproduzia uma foto tirada há muitos anos atrás por Afonso. Francisca, bem mais jovem, estava sentada no sofá, com Ana ao colo, tendo Simão de pé, a seu lado, enquanto João e Marta brincavam no chão à sua frente.
Era um quadro muito enternecedor, e Simão reproduzira fielmente as expressões de cada um, deixando não só os pais mas os próprios irmãos muito emocionados.
Ele próprio, sentia o mesmo. Estava feliz por estar com os irmãos e sentia-se encantado com os sobrinhos. Dos irmãos, Matilde era a que se mostrava mais feliz com a sua presença. Pendurou-se no seu braço e disse que não mais o largaria, se ele não prometesse que voltava para assistir ao seu casamento.
- Claro que virei ao teu casamento, maninha. Mas esperava mais da minha irmã mais nova.
- E que esperavas?- Perguntou sorrindo
-No mínimo que me convidasses para padrinho.
- E como ia fazê-lo se tu nem apareces nem notícias dás? És um mau irmão. – Respondeu como quem amua
- Tens razão, -disse com seriedade. Ultimamente não me tenho portado muito bem convosco. Um pouco pelo trabalho, tenho uma importante exposição dentro de dez dias, mas também um bocado por preguiça. E depois, todas as semanas falo com a mãe, e ela sempre diz que estão todos bem.
- E é sério o que disseste? Queres mesmo ser o meu padrinho?- Perguntou esperançada. E acrescentou. - Eu ficaria muito feliz.
- Pois então, deixa de me enrolar e faz o convite, - disse sorrindo.
Feliz, ela abraçou-o e disse:
- Obrigado mano. És um anjo. Vou contar à mãe.
Ele deu uma volta pelo salão e depois saiu para o jardim.
Apesar de tudo estava contente por ter vindo. Era sempre um balsamo para o seu coração observar como os pais se amavam e eram felizes.
Um amor assim era o seu sonho de felicidade.
Olhou o baloiço, o escorrega novo, e pensou que os pais deviam ter comprado aqueles para os netos. Mas embora estivessem velhos,  ele teria gostado, de ter encontrado os da sua infância.
- Um cêntimo pelos teus pensamentos.
Voltou-se devagar.- Ana sorria-lhe.
- É muito pouco. Merecem mais – disse fixando-a.
Ela riu.
- Estava a observar-te. Estás muito sério. Pensando em alguém que ficou em Paris?
- Não tenho ninguém em Paris.

reedição







12.7.17

ROSA - FINAL

Foto de um grupo de retornados. Em 74, em poucos meses, meio milhão de portugueses regressaram das colónias. Chegavam de barco ou de avião, na sua maioria de "mãos vazias". Fugiam da guerra deixando para trás tudo o que tinham. Esta foto não é minha, (até porque nessa altura eu estava em Luanda) Foi retirada da Internet 

                                       XVI 

Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
Por outro lado, João recuperara o antigo emprego, o filho conseguira trabalho na Siderurgia Nacional, a filha mais nova fora trabalhar para a Timex, até o filho doente, estava melhor agora, graças a uma "bomba" que o médico já tinha receitado à muito, mas que ela nunca conseguira dinheiro para comprar. A sua vida estava muito melhor, ela podia enfim descansar um pouco, deixando o trabalho a dias e ficando em casa a cuidar do marido e dos filhos solteiros. Podia também cuidar dos netos, deixando as filhas mais descansadas e mais libertas de despesas. Porém, sobre ela pairava, como uma sombra, o medo pelo filho ainda lá longe, em Angola. Principalmente porque não havendo a PIDE, nem censura, tudo o que se passava em África chegava a Portugal. Rosa sabia que o governo, estava a negociar a independência, mas todos os dias chegavam a Portugal “os retornados” que falavam do medo que sentiam, da guerrilha entre os movimentos de independência, e alguns residentes pró colonialistas.  Falava-se de mortes, do recolher obrigatório, da incapacidade dos militares impedirem os indígenas que os saqueavam. E o seu filho continuava lá em comissão. Por outro lado, os políticos pareciam não se entender, os governos provisórios sucediam-se, e Rosa tinha muito medo que tudo voltasse ao mesmo, ou como diziam alguns, que a seguir à ditadura fascista, se seguiria uma ditadura comunista. O marido, dizia-lhe que isso sim seria um sonho, mas Rosa, que era uma mulher sem instrução, e tudo o que aprendera na vida, ficara-lhe  gravado na memória pelo sofrimento, achava que ditadura nunca seria coisa boa, fosse ela fascista ou comunista. E lembrava-se do que a avó sempre dizia quando ela era pequena e nem bem sabia o sentido das palavras. “Atrás de mim virá, quem bom me fará” Tinha medo. Muito medo de ainda vir a achar que os anos para trás, é que tinham sido bons. Naquele verão, mais de um ano após a revolução, o país parecia caminhar para uma guerra civil, e ela tinha medo do que o futuro lhe podia ainda reservar.  Medo que só perdeu, quando em Novembro de 75, pode enfim abraçar o filho que regressara são e salvo, após a Independência de Angola. E quase no final desse mesmo mês,  a viragem histórica do país, que afastou o espectro da guerra civil.
Agora sim, Rosa era uma mulher feliz.

                                         
 Fim

Maria Elvira Carvalho


24.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVII


Lembram-se da crónica feminina? Pois é, procurei uma noiva de 1979, e olhem o que encontrei.




EPÍLOGO

Três anos depois o casal está estabelecido em Aveiro. Quim tinha ajudado os pais, e sogros, na recuperação das velhas casas de família, para lhes dar uma vida de maior conforto, mas a aldeia era demasiado pequena para os seus sonhos. Ele queria montar um bom restaurante, numa cidade,  mas ao mesmo tempo, queria uma zona relativamente perto da aldeia, de modo a que os pais e sogros, pudessem ter uma certa relação de proximidade com os netos.
Dentro desses parâmetros surgiram dois nomes. Aveiro e Viseu. Estudadas as características das duas cidades, o casal optou por Aveiro, pois tinha, segundo a sua lógica, mais condições para atrair o turismo, pela beleza dos seus canais. E passados três anos, o Restaurante Tipico da Beira, é um grande sucesso. 
Catarina tem sete anos e já está na escola, Maria tem dois anos e é o encanto da irmã, pais e avós.
Mas naquele dia o casal está na aldeia. E é Setembro de novo.
Sofia, está em casa da mãe, no seu antigo quarto de solteira, às voltas com um vestido de noiva.  

Fim


Elvira Carvalho