19.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVIII


Um mês se passara, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado.
Gabriel viajara para o estrangeiro, há quatro dias, quando o inspetor se apresentou no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar as dívidas de jogo. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento dessas dívidas.
- Então e agora? – Perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- Vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não poso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E nós só podemos contar com o meu ordenado.
- Bom, vai ter que nomear um, para que possa tratar disto. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai pode provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me ligue.


18.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e duas horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar ali, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Mas para ter acesso ao dinheiro ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura. Só com todas essas informações, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que ele soube a senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha unica, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- Obrigada. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – Perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


17.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI





Pouco passava das dezassete quando o inspetor ligou.
Sandra passou a chamada para Gabriel, e ficou ansiosa para saber se havia alguma novidade, mas não se atreveu a entrar no gabinete sem ser chamada. Pouco depois a luz na sua secretária acendeu-se e ela levantou-se e entrou no gabinete dele. Não perguntou nada, mas a interrogação estava patente nos seus olhos.
- Nada de concreto, mas parece que o Pedro detetou qualquer coisa numa das vídeo gravações, e deseja um esclarecimento. Combinei ir a sua casa, logo à noite. Queres ir?
- Não. Não trabalhava cá na altura, não sei como poderia ser útil. Precisas de alguma coisa?
- Não. Sabia que estavas ansiosa, por isso te chamei. Nada mais por agora.
Ela saiu. Estava quase na sua hora de saída, devia começar a arrumar as coisas, mas só pensava, no que seria, que o inspetor tinha encontrado. Algum dia, conseguiria provar a inocência do pai, e limpar o seu nome? Coitado do pai. Estava cada dia mais abatido, cada dia mais desiludido com a justiça. Por isso ela não contou nada ao pai, nem mesmo quando ele lhe disse que um inspetor o tinha visitado, e feito uma série de perguntas. Tinha medo de lhe criar ilusões que não se concretizando, só serviriam, para um maior sofrimento.
Por fim fechou o computador, arrumou as pastas, fechou gavetas, e pegando na mala, saiu.
Ainda precisava passar pelo supermercado, para fazer umas compras. Depois iria mergulhar na rotina de todos os dias. Desde que seu pai fora condenado, a vida de Sandra virou do avesso. Teve que abandonar o seu sonho de vir a tornar-se professora de dança, e procurar emprego.  As visitas ao pai, o desejo de conseguir provar a sua inocência,o  emprego na empresa onde o pai trabalhara, e por fim aquela apresentação na academia, que voltou a baralhar tudo, mostrando-lhe uma faceta do seu chefe, com a qual nunca sequer sonhara, mas que calou fundo na sua alma sofrida e a conquistou.
Acabara de arrumar a cozinha. Olhou o relógio. Dez horas. Será que ele vinha esta noite? E se viesse traria boas notícias? Como respondendo à sua pergunta a campainha fez-se ouvir e ela apressou-se a abrir a porta.




Que vos parece? Descartado Gabriel, quem terá feito o desfalque. Alice? O ex sócio de Gabriel? Ou Sandra está completamente enganada com respeito ao pai?


À MÉDIA LUZ - PARTE XV






Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. Parecia, porque não raras vezes, durante aqueles dias, Gabriel visitava Sandra à noite. Chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto ela ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora. Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que nunca houvera nada entre eles, nem sequer o mais casto dos beijos. Durante as horas de expediente, as suas relações eram as de qualquer chefe com a sua empregada. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia ali, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar. Porém conhecia-se bem demais. Sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, levantava-se e ia embora.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Estava apaixonada por ele, desde que compreendera que Gabriel não só tinha nada a ver com o desfalque, como estava decidido a ajudá-la a descobrir a verdade. Mas não acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, sabe que ele também a ama, embora ele próprio talvez ainda não o saiba. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Gabriel sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de marido e mulher. Por isso vivem assim,a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E já se passaram quinze dias e o inspetor ainda não deu qualquer sinal de vida.


16.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIV





- Estou a ver. E porque mudou de ideias?
- O senhor Gabriel descobriu-me. Na academia de dança.
- À sim, essa parte já conheço. E então o que fez, além de ser a secretária do chefe?
- Eu, - voltou a olhar o rosto de Gabriel, como que pedindo desculpa. – Revirei as gavetas do escritório, e pesquisei as pastas.
- E…
- Nada, senhor.
- Sabe que me espanta a sua ingenuidade? Então pensa que se o Gabriel, tivesse feito o que pensou, ele deixaria as provas aqui à espera que alguém as viesse procurar?
Voltou-se para Gabriel.
- Já tinhas câmaras de vigilância na altura do desfalque?
- Já.
E tens todas as gravações guardadas, ou são apagadas ao fim de algum tempo?
-Creio que estejam todas guardadas, mas sinceramente não sei. É a empresa de segurança que trata disso. Mas já te digo. É só chamar o segurança de serviço.
- Quem mais podia ter acesso à conta da empresa, sem seres tu, e o teu sócio?
- Naquela altura, a firma não funcionava como agora. O contabilista e a secretária, tinha acesso à conta.
- A secretária? Tua ou do teu sócio? E o que foi feito dessa secretária?
-A Alice assessorava-nos aos dois. Era uma senhora de meia-idade, que estava na firma desde a sua fundação. Faleceu há dois anos. Ataque cardíaco.
Bateram à porta e o segurança entrou.
- Boas-tardes.
 - Boa-tarde, Francisco. Gostaria de saber o que fazem vocês às cassetes de video vigilância.
- Estão todas arquivadas por ano e mês, lá no depósito. Desde o início até às do mês passado.
- Obrigado. Pode retirar-se.
- Pensas que pode estar lá qualquer coisa que escapou aos investigadores? – Perguntou Gabriel.
- Não sei. Mas pode acontecer, se a data do desvio não coincidir com a data em que vocês deram por isso. Diz-me uma coisa, tens confiança no teu ex-sócio?
- Absoluta.
O inspetor, ficou por momentos pensativo. Depois disse olhando para Sandra.
- Estou disposto a ajudar. Vou ter que analisar as cassetes da video vigilância, desde o dia em que foi detetado o desvio até três meses antes. Espero que as tenhas todas amanhã à tarde. Passarei por aqui a recolhê-las. Peço que mantenham segredo absoluto sobre as nossas intenções, e não quero que ninguém saiba que a Sandra é filha do contabilista. Para todos os efeitos, tudo tem que continuar como até hoje. Entendido?
-Sim - disseram os dois em uníssono.
- Então creio que podemos ir. – Voltou-se para Gabriel. – Não te esqueças de ter as cassetes separadas para eu levar amanhã à tarde. Sandra, talvez tenha que ir visitar o seu pai. Ele está onde?
- Em Monsanto.
-Muito bem. Vamos?
E os três encaminharam-se para a saída, onde se despediram e partiram cada qual para seu lado.


15.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII







No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria no seu escritório, na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando o horário.
Chegou um pouco antes da hora, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Logo depois, Sandra chegou. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até quase aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. Gabriel ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fizeste. Parece que andaste por aqui, vasculhando, tentando encontrar alguma prova para ilibar o teu pai. Isso quer dizer que estás convencida que teu pai é inocente. Posso saber o que te dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim mesma, senhor.
- Muito bem. E que mais te disse teu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha o dinheiro.
-Teu pai desconfiava de alguém em particular?
- Não senhor.
- E tu? Desconfiaste de alguém?
Ela enrubesceu e olhou o rosto de Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, sentiu que estava magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- A princípio pensei no senhor Gabriel Santana. Soube que poucos meses após a condenação do meu pai, comprou as acções do sócio, e pensei que podia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio vendesse.
- E por isso conseguiste o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. Eu estava desempregada quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- És muito bonita, Sandra. Esperavas apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado?
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


14.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XII




Sandra estava sentada no sofá, as pernas debaixo do corpo, coberto por um robe de seda azul-celeste. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, e olhava sem ver  a televisão, na qual passava um filme. Ouviu ao longe um som de campainha, mas absorta nos seus pensamentos, nem se apercebeu de que não era no filme, já que a TV estava sem som.
A campainha voltou a tocar, desta vez, mais insistente, e ela pôs-se de pé, e descalça dirigiu-se à porta. Abriu-a um pouco sem tirar a corrente, e arregalou os olhos de espanto ao ver Gabriel do outro lado. Voltou a fechar a porta, tirou a corrente e então abriu-a.
- Boa-noite – saudou ele, fechando a porta atrás de si.
- Boa-noite, - respondeu e dirigiu-se para a sala, sem uma pergunta, como se fosse normal, a visita dele aquela hora.
- Desculpa, sei que é tarde, mas precisava falar contigo.
Olhou-a da cabeça aos pés. Parecia uma miúda. Uma miúda perdida e sem proteção. Sentiu um desejo enorme de a abraçar, de lhe dar a proteção que ela precisava, mas não se atreveu sequer a estender a mão para lhe tocar. Cerrou os olhos, confuso. Que raio se passava com ele?
- Quer tomar alguma coisa? Não tenho bebidas alcoólicas, mas um café ou chá, posso fazer num minuto.
-Aceito um café.
- Vou buscar.
Afastou-se em direção à cozinha. Ele recostou-se no sofá e cerrou os olhos. Sentia-se bem ali. A sala era pequena, mas confortável, e tinha um não sei quê de lar que lhe agradou. Minutos depois, ela voltou com uma bandeja onde fumegava uma chávena do aromático café, e um açucareiro. Sem usar o açúcar, ele agarrou na chávena.
- Não me acompanhas?
- Nunca bebo café à noite.
Decorreram uns minutos em silêncio. Depois ele quebrou o silêncio:
- Foste ver o teu pai?
- Fui.
- E como estava?
- Como queria que estivesse? Cada dia mais desmoralizado, - disse sem evitar que uma lágrima lhe rolasse pela face.
- Olha, é por isso que vim. Falei com um amigo meu, que é investigador da Judiciária. Ele diz que oficialmente não pode fazer nada, o julgamento foi feito a sentença está a ser cumprida. Para reabrir o processo seria necessária uma nova prova, ou um indício muito forte de erro judiciário.
- Eu sei. Foi o que me disse o advogado.
- Mas o meu amigo, está disposto a ajudar-nos particularmente, sob uma condição.
Ela levantou para ele os seus belos olhos verdes, num olhar interrogativo, mas não fez perguntas.
- Ele está livre amanhã. Quer conhecer-te, falar contigo. Só depois decide se nos ajuda. Penso que ele precisa ter a certeza de que estás certa da inocência do teu pai, não sei. Sei que foi a condição imposta por ele. Achas que nos podemos encontrar, por exemplo às dezasseis horas?
- Sim, claro que sim? Onde?
- Ainda não pensei. Ele sugeriu um local sossegado, onde pudéssemos falar à vontade.
- Aqui?
-Não, aqui não, - respondeu rapidamente sem nem mesmo pensar, porque lhe repugnava a ideia de levar outro homem para a casa dela.  Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Telefono-te amanhã perto do meio-dia. Vai descansar.







O pc, continua periclitante. Vamos a ver se se aguenta.



13.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XI






- Estou! 
-Pedro Matias?
- Sim.
-Gabriel Santana. Lembras-te de mim?
-Gabriel, que milagre. Há quanto tempo, não sabia de ti.
- Olha, queres jantar comigo? Preciso conversar contigo.
- Comigo ou com o inspetor?
- Para falar verdade, penso que preciso dos dois.
- Bom, bom, tens que pagar dobrado, - deu uma risada. E a que horas? Às oito? Sim, sim sei onde é. Lá estarei.
- Obrigado.
Desligou o telemóvel e ficou pensativo. Se na manhã do dia anterior lhe dissessem que passaria parte de sábado a pensar num facto ocorrido há quase quatro anos, ele diria que era uma loucura. Porém ali estava ele, depois de uma noite mal dormida, cheia de pesadelos, em que a sua secretária e a bailarina se sobrepunham até formarem uma só pessoa, que lhe apontava o dedo acusando-o nem bem sabia porquê. Por isso ligara ao amigo. Pedro era inspetor da Judiciária. Mas era também um bom amigo apesar de ultimamente os seus caminhos não se terem cruzado. Mas no passado, tinham sido companheiros de estudos e de borga. Se alguém, de alguma forma podia ajudá-lo, esse alguém era Pedro.
Recostou-se na cadeira recriminando-se. Estava demasiado preocupado com um caso que a polícia já resolvera. Que não era assunto seu. Porém a imagem chorosa da jovem, não lhe saía da cabeça. Tentava dizer a si mesmo que era uma questão de justiça, mas será que era assim? Tinha que ser sincero consigo mesmo e pensar se ele agiria da mesma forma se não tivesse visto a transformação que a jovem sofrera. Se antes daquela noite, quando ela se apresentava no emprego, feita “quadro de museu” lhe tivesse contado aquela história, ele ajudá-la-ia? Para ser honesto consigo mesmo, tinha que reconhecer que talvez nem a tivesse ouvido. Procurou umas pastas de quatro anos antes, folheou-as, tirou uns apontamentos e voltou a guardá-las.
Fechou o computador, vestiu o casaco, guardou o telemóvel, e as chaves no bolso, pegou nos óculos escuros e saiu fechando a porta. No caminho para o carro saudou o segurança com quem se cruzou e finalmente saiu.




PEÇO  DESCULPA, pela minha ausência. O meu pc, está em agonia, desliga-se de 5 em 5 minutos. Vou continuar a tentar, mas o mais certo será ele ir amanhã para o hospital...


À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Eu acredito. Mas tem que haver alguém, com acesso a esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe quem o fez, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu?
- Não. Ele não desconfia de ninguém. Fui eu que pensei, porque o senhor comprou a parte do seu sócio, pouco tempo depois.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim- concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. No dia seguinte era dia de visita ao pai. Estava sempre à espera do dia da visita e quando ele se aproximava ficava nervosa por não saber como ia encontrá-lo. Sentia-se impotente para o ajudar. Por outro lado, sentia como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser descoberta, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar.
Mas ainda não sabia o que ia ser da sua vida agora. E se ele a despedisse? Havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de ter dito que desconfiava dele e o espiara – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.


E bom ontem ultrapassamos os 27000 comentários.   Vocês são fantásticos.
Do coração. Muito obrigada


12.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE IX






Abriu a porta e desviou-se para lhe dar passagem. Ela acendeu a luz, e ele olhou com curiosidade para o apartamento. Sandra encaminhou-se para a sala. Depositou a mala numa cadeira.
- Sente-se. Posso oferecer-lhe um café?
- Agora não, obrigado. Não estamos numa visita social. Estou à espera do que tenhas para me dizer.
- É complicado. O meu nome é Sandra Martins Machado. O apelido Machado diz-lhe alguma coisa?
- Não. É um apelido vulgar. Porquê?
- Porque há pouco mais de três anos, o seu contabilista Joaquim Machado, foi acusado e condenado por ter feito um desfalque na sua empresa.
- Sim. E o que é que isso tem a ver contigo?
- Joaquim Machado é meu pai. Nunca fez qualquer desfalque e está preso. É inocente, e vocês acusaram-no.
Desatou a chorar. Ele levantou-se. Começava a perceber a dor e a raiva da jovem, mas ainda não entendia o que é que ela tinha ido fazer para a firma.
- Desculpa, não fomos nós que julgamos e condenamos o teu pai. Nós só demos parte do desfalque. O resto foi trabalho da polícia, e do tribunal.
- O meu pai está inocente. Era incapaz de roubar um cêntimo que fosse. E se houve desfalque alguém o fez. Não ele, que morre um pouco todos os dias, de vergonha.
- E se houve? O que queres dizer com isso? Julgas que não houve desvio daquela verba? Que nós fizemos uma participação falsa à polícia?
- Não. Acredito que tenha havido o desvio dessa verba. Mas qualquer outro o podia fazer. Até mesmo um dos dois sócios.
- Estás doida?
- Será? Porque é que o senhor comprou a parte do seu sócio, menos de um ano depois de meu pai ser preso?
- Boa! Agora entendi. Quer dizer que pensas que eu desfalquei a empresa, para obrigar o meu sócio a vender, a sua parte, e ficar com a totalidade da firma? Era isso que procuravas, infiltrando-te como minha secretária, e vestida daquele jeito ridículo? Uma prova para me acusares?
Tinha-se levantado, e passeava pela sala como leão enjaulado. Estava verdadeiramente zangado. Mais do que isso. Estava furioso.
 Ela começava a pensar que se excedera.
- Desculpe, - balbuciou. Mas o senhor pediu sinceridade. Por outro lado, já não sei o que fazer para provar a inocência do meu pai.
Ele parou. No meio da ira que o invadia, pensou vagamente que era extraordinária, a garra com que ela defendia o progenitor. Mais, pensou que gostaria que ela confiasse nele  com a mesma fé que depositava no pai.
-Suponho que não acreditarás se te disser que não tenho nada a ver com esse desvio, - disse com ironia.


11.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos, Gabriel não gostava de ver uma mulher a chorar.  
Sentia-se atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua insignificante secretária era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão. Nunca se sentira tão desconcertado. Principalmente porque sentia um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la. Por outro lado, sentia-se enganado, enraivecido e com vontade de denunciá-la à polícia.
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem vim. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro foi fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar..
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia, e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento que o deixou atônito.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
-Não. Vim com a Inês.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não. Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tem qualquer interesse o que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão cansada!
- Chegamos.
Ele estacionou, saiu e deu a volta ao carro. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Ele abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!

À MÉDIA LUZ - PARTE VII



Sentaram-se. Ela voltou o rosto para a pista, para não ter de o olhar. Ele irritou-se. Inclinou-se para a frente e vociferou.
-Vais ou não falar, raios! Que diabo te passou pela cabeça para ires para o escritório, armada em camafeu? Para me ridicularizares?
- O regulamento da empresa, é omisso quanto a vestuário, Além disso sempre exerci exemplarmente a minha função de secretária,- disse com raiva.
- Olha para mim, Sandra. Quero entender o que se passa. Estás há seis meses como minha secretária. Sabes tudo o que se passa naquela empresa. E hoje descubro por acaso que me tens andado a enganar. Quem és tu? Uma espia comercial? Quem está por trás de ti?
-Espia comercial? O senhor não está bom da cabeça - disse nervosa.
Ele sorriu. Mais do que um sorriso parecia um esgar.
- Então é isso. Não negues, ficaste nervosa. Como é, queres falar ou denuncio-te à polícia?
- Faça como entender. Mais um, menos um pouco importa. Mandar inocentes para a prisão deve ser a sua especialidade – disse com raiva. 
Todos os músculos do homem se tornaram rígidos com o insulto. A sua voz soou cortante. 
- Levanta-te. Sem fitas nem escândalo. Vamos até ao jardim. Aqui está muita gente.
-E se eu não quiser ir?
- Desafias-me?
Ela não respondeu. Levantou-se e dirigiu-se ao jardim, seguida de perto por ele.
Afastaram-se da porta, procurando um local mais sossegado.
- Senta-te e fala. Que indireta foi aquela lá dentro?
- Não sei. Não me lembro.
As mãos dele cravaram-se como garras nos ombros femininos, apertando com tal força, que as lágrimas lhe chegaram aos olhos.
- Por favor, - suplicou. Está a magoar-me.
Afrouxou a pressão.
- Não brinques comigo, Sandra. Aquela firma, é minha, lutei muito por ela, e privei-me de muita coisa para que chegasse ao que é hoje.  Não vou permitir que ninguém me roube o que é meu. Quero saber, quem te paga, e o que é que tinhas que dar em troca.
- Ninguém me paga, para que eu revele seja o que for da sua maldita empresa. Sou uma espia, sim.  Mas trabalho por conta própria. Há seis meses que tento encontrar uma coisa muito importante na sua empresa. Infelizmente sem o conseguir. I
Ocultou o rosto nas mãos e desatou a chorar.

10.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE VI





Depois de um intervalo, os seis pares voltaram à pista, e em conjunto dançaram sucessivamente o Samba, o Merengue, o Maxixe, e o Mambo.
Quando terminaram, o público foi informado de que podiam utilizar a pista para dançarem, a festa ia continuar e ainda iam sortear um prémio entre todos os bilhetes vendidos. O casal amigo de Gabriel queria ir dançar, e ele disse-lhes que não se preocupassem consigo que ia até ao bar.
Encaminhou-se para o extremo do balcão pediu uma bebida e ficou observando os pares que evoluíam na pista, ou se espalhavam pelas mesas. Esperava ver de perto a mulher de vermelho. Para tirar da cabeça, a ideia absurda de que podia ser Sandra. Por muito familiar que lhe tivesse parecido o seu perfil, uma mulher com aquele corpo, não podia ser aquele ser ridículo, que os recursos humanos lhe tinham arranjado como secretária.
De súbito a sua atenção fixou-se na mulher elegantemente vestida, com um vestido negro, o cabelo castanho, com uns reflexos avermelhados, solto sobre os ombros, que junto ao balcão pedia um refresco. Aproximou-se dela, e então teve a certeza absoluta, de que se tratava da sua secretária.
 Pôs-lhe a mão sobre o ombro, e murmurou-lhe quase ao ouvido:
-Se, eu sofresse do coração, tinha tido um enfarte esta noite.
Ela soltou-se rapidamente, os enormes olhos verdes cravados nos dele.
-Que faz aqui? – Perguntou o rosto vermelho, a voz tremente
-Quem diria, que tinhas tantos dotes. Deixa-me advinhar, secretária e atriz de dia, bailarina e que mais de noite? – Perguntou sarcástico.
Ela levantou a mão com evidente intenção de o esbofetear, mas ele foi mais rápido, e prendeu-lhe o pulso dizendo:
- Nem sonhes. Pega a tua bebida e vamos sentar-nos.
- Não sei quem lhe disse que estava aqui, mas não vou consigo a lado nenhum.
-Tens a certeza? Queres ver-te envolvida  num escândalo? Por mim fica à vontade. Se não te importas de sair amanhã nos jornais como uma das minhas amantes que resolveu fazer um escândalo numa festa de beneficência…
-Era capaz disso? – Perguntou furiosa, os belos olhos verdes faiscantes
- Tens dúvidas? - Perguntou com voz rouca, segurando-lhe o braço e empurrando-a para uma mesa, com uma certa gentileza que contrastava com o que lhe dissera.

À MÉDIA LUZ - PARTE V




Gabriel chegou à academia dez minutos antes do começo do espetáculo.
Encontrava-se acompanhado de um amigo, empresário como ele, e da esposa do amigo. Tinha recebido o convite na semana anterior, mas acabara por esquecê-lo, só voltando a recordá-lo, quando o amigo lhe telefonara. Na verdade se não fosse por se tratar de um espetáculo beneficente, não teria ido, não era apreciador daquele tipo de espetáculo, danças de salão, para ele, só como interveniente, e com uma bela mulher nos braços. Porém ali estava numa noite de sexta-feira, disposto a passar umas horas aborrecidas, em prol de uma boa causa. Pouco depois as luzes na sala, apagaram-se e um a um os seis pares foram entrando na pista. Recostado na cadeira, com os olhos semicerrados e uma posição indolente, Gabriel não parecia muito entusiasmado.
De súbito, alguma coisa lhe chamou a atenção. Endireitou-se e fixou o olhar no último par que acabara de entrar. Melhor, não no par, mas na bela figura feminina que envergava um lindo vestido vermelho. Havia qualquer coisa de familiar naquela mulher. Seria o cabelo preso no alto da cabeça, num coque embelezado por uma fita preta, adornada com uma rosa do mesmo tom do vestido?
Quando os pares se posicionaram nos seus lugares, o número seis ficou mais perto do local onde Gabriel se encontrava, e ele assombrado julgou reconhecer Sandra.
- Não pode ser, - murmurou.
Aquele “monumento” não podia ser o “estafermo” da Sandra. Ou seria? E como dançava, Santo Deus. Ele não conseguia desviar os olhos da bela figura feminina.
Após uma primeira apresentação, em que os seis pares dançaram a Valsa e o Foxtrot, os pares retiram-se e um apresentador fez uma breve explicação sobre a origem das danças de salão. Logo depois entraram dois pares que dançaram primeiro uma Polca e depois o Bolero.
Depois entraram outros dois pares e Gabriel disfarçou um gesto de enfado. Ele queria ver de novo a mulher de vermelho.
Depois de mais duas danças, desta vez a Salsa e o Chá Chá Chá, eis que voltam os últimos dois pares. Começam por dançar a Rumba, e Gabriel não desgrudava os olhos da figura feminina, que na pista se movimentava com graciosidade e agressividade, insistente e romântica, num jogo de sedução, que visava conquistar o parceiro, que é afinal o sentido da própria Rumba. A dança terminou sob um acalorado aplauso para logo de seguida se ouvirem os primeiros acordes dum Tango.
O Tango era a dança preferida de Gabriel, pelo papel dominante do homem na dança. Mas quando os pares se posicionaram na posição inicial do Tango, ele notou que a bailarina, arqueava ligeiramente o corpo, como que resistindo a deixar-se dominar.
Sorriu. Além de bela, tinha personalidade.

9.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE IV

Há seis meses que era a secretária de Gabriel Santana. Sabia da fama de predador sexual,  do patrão. Daí tivera a ideia de se apresentar o mais insignificante possível. Naqueles seis meses, já revistara aquelas gavetas dezenas de vezes, sem nunca ter encontrado nada que o pudesse incriminar. Sabia é claro, que qualquer prova estaria no cofre. Mas quem sabe, às vezes um esquecimento lhe deixasse ver qualquer coisa que a levasse a confirmar as suas suspeitas de homem sem escrúpulos, capaz de tudo nos negócios, mesmo que isso não tivesse nada a ver com o pai. Mas serviria pelo menos para saber que estava certa nas suas suspeitas. Mas não. Tudo certo, tudo legal. E ela sentia-se impotente, e tão cansada. Não sabia por quanto tempo mais aguentaria aquela pressão. E o pior, hoje é sexta-feira, há uma festa na academia de dança para angariação de fundos, todos vão ter que estar presentes, e ela sente-se devastada. No dia seguinte, irá visitar o pai, e é sempre muito doloroso, ver como ele se encontra. Olhou o relógio. Ele não voltou o resto do dia, por certo já não voltará, decerto encontrou algum rabo de saia. Não interessa, está na hora de saída, precisa ir.
Às vinte e duas horas tem que estar na academia, precisa tomar um banho relaxante e descansar um pouco.
Acabava de abrir a porta para sair, quando ele chegou:
- Onde é que vai? Venha ao meu gabinete!
Ficou furiosa.
- O meu horário de trabalho terminou há cinco minutos.
-Mas, preciso de si agora. Pegue o bloco e acompanhe-me.
Era arrogante e prepotente. Ela sentiu que o sangue lhe subia ao rosto.
-Desculpe senhor, mas terá que ficar para segunda-feira. Hoje não me posso atrasar.
Fitou-a furioso.
- Para quê tanta pressa? Decerto não é para nenhum encontro amoroso, - disse olhando-a depreciativo.
- O que faço nas minhas horas livres, só a mim me diz respeito. Boa -tarde.
Virou-lhe as costas.
- Se sair agora considere-se despedida! – Disse-lhe quando ela já atravessava a porta.
Voltou-se e pela primeira vez desde há seis meses, fitou-o bem nos olhos.
- Não creio que a lei me obrigue a trabalhar depois da hora de expediente, senhor. Mas podemos sempre recorrer ao tribunal de trabalho.
E saiu deixando-o perplexo e furioso.


8.9.17

À MÉDIA LUZ PARTE III


E ali estava ela num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Percebera que era um mulherengo incorrigível, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. Mas isso pouco lhe importava. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Mas ela não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse´
O único homem que lhe interessava, era o pai, e encontrava-se preso por um crime que não cometera.
Suavizou-se o rosto com a recordação do pai por quem sentia um carinho a roçar a adoração. Não se lembrava da mãe. Morrera quando ela era ainda bebé. Uma gripe, uma pneumonia, agravada por problemas respiratórios de que já padecia. O pai fora pai e mãe para ela. Sacrificara a sua vida à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor, dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de micro empresas. Para que ela pudesse estudar. Quando soube de como gostava de dançar, e de como gostaria de saber fazê-lo, não hesitou em escrevê-la numa academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento. Era o homem mais nobre e recto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai. Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia como reabrir o processo.


7.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE II





O advogado chegou e ela introduziu-o no gabinete. A reunião durou pouco mais de vinte minutos, não devia ser nada sério, já que ela não foi chamada, para tomar qualquer nota. Depois saíram os dois.
Sandra terminou os documentos que ele lhe pedira e entrou no gabinete para os deixar em cima da secretária.
Com mãos trementes, experimentou as gavetas. Estavam abertas.
Febrilmente foi verificando uma a uma, procurando nem ela sabia bem o quê. Qualquer coisa, que pudesse utilizar como uma prova.
Não encontrou nada. Passou a mão pela testa, e suspirando dirigiu-se para a porta.
Tinha sido uma estupidez, pensar que poderia encontrar alguma coisa ali “à mão de semear”.
As provas se as havia, e ela acreditava que sim, estariam bem guardadas no cofre, e fora do seu alcance.
Uma lágrima rolou pelo seu rosto, e ela limpou-a com raiva. Lembrou-se do pai. Do seu olhar triste, do tremor das suas mãos, segurando as dela, e jurando-lhe inocência. Ela acreditava nele. Sabia que estava inocente. Mas estava há quase quatro anos, preso por desfalque. Fora condenado a dez anos, tinha ainda quase dois até chegar a meio da pena e tentar ganhar a liberdade condicional. Seu pai, era o contabilista daquela firma. E dela tinha desaparecido mais de meio milhão de euros. E os livros tinham sido rasurados, para emendar as contas. O que como era óbvio condenou o pai. Ele jurara que não o tinha feito, mas era evidente que quem o fizera,soubera bem como fazer, para o incriminar.  
Sandra sentia-se revoltada, queria provar a inocência do pai, mas não sabia como fazê-lo, por onde começar, nem de quem desconfiar, pois segundo o pai, haveria várias pessoas que o podiam ter feito. Porém quando soubera que Gabriel Santana, comprara a parte do seu sócio, e era agora o único dono da empresa, começou a pensar que teria sido ele a desviar aquela importância, para fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte. Daí até se candidatar ao lugar de secretária, quando viu o anúncio, foi apenas questão de minutos. Felizmente para ela, a entrevista correra muito bem, sempre foi uma profissional competente e dedicada, como o atestava o seu anterior patrão, e não foi difícil conseguir o lugar.

6.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE I


- Aqui tem senhor!
O homem levantou a cabeça, e olhou a mulher que na sua frente lhe estendia uma pasta. A sua secretária. Caramba, cada vez que olhava para ela, ficava a pensar, o que teria passado pela cabeça do gestor dos recursos humanos, para lhe enviar aquela … ele nem sabia bem como classificar a mulher que estava na sua frente.
- Obrigado. Pode deixar aí, se precisar de si, chamo.
A mulher deixou a pasta em cima da secretária e afastou-se em direção ao seu gabinete de trabalho. Ao chegar à porta, parou e disse.
- Recordo que tem uma reunião com o seu advogado para daqui a meia hora.
Abriu a porta e saiu.
O homem ficou por momentos a olhar a porta fechada. Com tanta mulher bonita, no mundo, porque haviam de lhe ter mandado aquela como secretária?
No seu gabinete, Sandra retomou o trabalho. Tinha vinte e seis anos, o cabelo castanho arruivado, estava apanhado num coque, e vestia um fato saia e casaco cinzento, que seria considerado o último grito da moda… cem anos atrás.
No rosto redondo, e sem qualquer tipo de maquilhagem, pontificavam dois belíssimos olhos verdes, a única coisa que chamava logo a atenção nela, mas que talvez sabendo-o ela mantinha quase sempre meio oculto, como se estivesse permanentemente preocupada com os seus pés. Parecia uma figura saída de algum quadro de museu.
Pelo menos era o que Gabriel, o seu atraente chefe pensava. Mas de uma coisa ele estava certo. Jamais tivera uma secretária tão eficiente… no trabalho. A anterior era um desastre como secretária. Parecia que todas as suas aptidões estavam voltadas para a cama.
O homem sorriu ao recordar-se de Lucia. Deu-lhe um certo trabalho, separar-se dela. Era realmente muito boa na cama. Mas um homem não pode ser escravo dos seus apetites sexuais, e por muito que gostasse de mulheres, não tinha nenhuma vontade de se prender a nenhuma. Pelo menos, Sandra era uma excelente secretária, e com ela não corria riscos.