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17.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE V




Gabriel chegou à academia dez minutos antes do começo do espetáculo.
Encontrava-se acompanhado de um amigo, empresário, com quem tinha alguns negócios, e da esposa do amigo. Tinha recebido o convite na semana anterior, mas acabara por esquecê-lo, só voltando a recordá-lo, quando o amigo lhe telefonara. Na verdade se não fosse por se tratar de um espetáculo beneficente, não teria ido, não era apreciador daquele tipo de espetáculo, danças de salão, para ele, só como interveniente, e com uma bela mulher nos braços. Porém ali estava numa noite de sexta-feira, disposto a passar umas horas aborrecidas, em prol de uma boa causa. Pouco depois as luzes na sala, apagaram-se e um a um os seis pares foram entrando na pista. Recostado na cadeira, com os olhos semicerrados e uma posição indolente, Gabriel não parecia muito entusiasmado.
De súbito, alguma coisa lhe chamou a atenção. Endireitou-se e fixou o olhar no último par que acabara de entrar. Melhor, não no par, mas na bela figura feminina que envergava um lindo vestido vermelho. Havia qualquer coisa de familiar naquela mulher. Seria o tom do cabelo, preso no alto da cabeça, num coque embelezado por uma fita preta, adornada com uma rosa do mesmo tom do vestido?
Quando os pares se posicionaram nos seus lugares, o número seis ficou mais perto do local onde Gabriel se encontrava, e ele assombrado julgou  reconhecer Sandra na esbelta bailarina.
- Não pode ser, - murmurou.
Aquele “monumento” não podia ser o “estafermo” da Sandra. Ou seria? E como dançava, Santo Deus. Ele não conseguia desviar os olhos da bela figura feminina.
Após uma primeira apresentação, em que os seis pares dançaram a Valsa e o Foxtrot, os bailarinos retiram-se e um apresentador fez uma breve explicação sobre a origem das danças de salão. Logo depois entraram dois pares que dançaram primeiro uma Polca e depois o Bolero.
Depois entraram outros dois pares e Gabriel disfarçou um gesto de enfado. Ele queria ver de novo a mulher de vermelho.
Depois de mais duas danças, desta vez a Salsa e o Chá Chá Chá, eis que voltam os últimos dois pares. Começam por dançar a Rumba, e Gabriel não conseguia  desgrudar os olhos da figura feminina, que na pista se movimentava com graciosidade e agressividade, insistente e romântica, num jogo de sedução, visando conquistar o parceiro, que é afinal o sentido da própria Rumba. A dança terminou sob um acalorado aplauso para logo de seguida se ouvirem os primeiros acordes dum Tango.
O Tango era a dança preferida de Gabriel, pelo papel dominante que o homem desempenhava na dança. Mas quando os pares se posicionaram na posição inicial do Tango, ele notou que a bailarina, arqueava ligeiramente o corpo, como que resistindo a deixar-se dominar.
Sorriu. Além de bela, tinha personalidade.

19.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XII



A mesa já estava posta, quando entrou na cozinha. André tinha tirado o avental, e tal como no dia anterior, apressou-se a puxar-lhe a cadeira para que ela se sentasse. Eva pensou que tinha que se acautelar. Aquele homem, com a sua gentileza, o ar travesso, o seu sorriso, era um perigo para o seu coração tão fragilizado. Mentalmente pediu a Deus que a ajudasse. Não se podia apaixonar por ele. Era um aventureiro, uma ave de arribação, que não tardaria a levantar voo.
- Que se passa, Eva? Não gostas do meu  “Spaghetti alla Carbonara”?
Não se atreveu a olhá-lo, como se ele fosse capaz de adivinhar os seus pensamentos.
- Desculpa. Estava distraída.
Saboreou um pouco de comida, e olhou-o surpreendida.
-Está delicioso. 
- Aprendi com a minha “nonna”. Já te disse, ninguém cozinha um "Spaghetti" como ela.
- Disseste que eras meio português. Não tens família cá?
- Tenho. Os meus avós maternos e uns tios. Em Braga, terra da minha mãe. Quando éramos crianças, vínhamos todos os anos, passar o verão em casa dos meus avós. Ainda não fui vê-los desde que cheguei. Quem sabe um fim de semana, queiras ir comigo.
- Eu? – Admirou-se. O que é que eu ia fazer contigo? Não conheço os teus avós. E tentando mudar o rumo à conversa, - disseste “éramos crianças”. Tens irmãos?
- Somos três. Pietro, o mais velho, eu e Giovanna a mais nova. Ambos casados. Entre os dois brindaram-me com cinco sobrinhos.
- E tu? És casado?
- Achas, que tenho perfil de homem casado? As mulheres não gostam de aventureiros como eu. Querem segurança, e eu não me dou com amarras. Ou talvez quem sabe, ainda não tenha encontrado a minha alma gémea.
“Toma juízo, Eva. Avisa o teu coração, que não se deixe enredar”, -pensou ela.
Estavam a terminar a refeição. Eva levantou-se para levantar os pratos e por na mesa a fruta.  Disse:
- Quando estava no orfanato, sonhava com o dia em que tivesse a minha família. Casar, ter filhos, sentir o calor de um lar. Não é que lá, tivesse razões de queixa. As freiras não eram más. Severas na educação, mas também amigas. Especialmente a Irmã Madalena. Mas é triste não saberes de onde vens, se teu pai era um homem bom ou um bandido, se tua mãe, era uma  senhora, ou uma prostituta. Se estão vivos ou mortos. Se tens irmãos. Não tens nada para trás, nem recordações, nem história. Consegues entender isto? É como se fosses a primeira pessoa da história da humanidade. És tu a base da história futura, da tua geração. Quando conheci o Alfredo, pensei que tinha encontrado a minha outra metade. Que juntos, íamos iniciar uma família, ter um lugar na história da vida de que todos fazemos parte. Como pude enganar-me tanto?

  

E porque hoje é o dia do Pai, para todos os que o são, e por aqui passem, o meu desejo de que tenham um dia o melhor possível e que S. José os proteja.

29.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XII


Paula encontrava-se de pé, junto da janela, quando a sua secretária abriu a porta e anunciou o empresário, desviando-se em seguida para lhe dar passagem.
-Boa tarde, - disse ele avançando uns passos no gabinete.
-Boa tarde,- respondeu indo ao seu encontro. Estendeu-lhe a mão, num cumprimento formal.
- Precisas de alguma coisa? – Perguntou a secretária.
- Toma alguma coisa, senhor Ferreira?
-De momento não, – respondeu sorrindo.
-Podes sair Irene. Se precisar de algo, chamo-te.
A secretária saiu fechando a porta atrás de si, e Paula virou-se para o visitante.
- Por favor senhor Ferreira sente-se. Estou muito curiosa com a sua visita. Precisa dos serviços da minha empresa, ou veio analisar a mercadoria?- Perguntou mordaz.
Ele recostou-se na cadeira, rindo. Paula tinha que reconhecer, que era um homem muito atraente, e aparentava estar muito calmo enquanto ela estava extremamente nervosa.
- Vejo que o teu pai já falou contigo, e que estás zangada, - disse tuteando-a. És sempre assim tão frontal? Gosto disso.
-Não me preocupam os teus gostos, - respondeu retribuindo o tratamento.
Ele voltou a sorrir. Tinha um sorriso bonito: odioso mas bonito, reconheceu ela.
- Vamos falar com calma, - disse ele inclinando-se para a frente e fitando-a. O teu pai está arruinado. Tinha uma avultada hipoteca bancária que eu resgatei. Está nas minhas mãos e o meu maior desejo é afundá-lo. E não me olhes desse jeito, como se estivesses a pensar que sou um monstro. Arruinar o teu pai, não paga um décimo do sofrimento que ele me causou. Mas tu podes salvá-lo se quiseres.
- Prostituindo-me?
- Não. Casando comigo.
- Um casamento sem amor, apenas por dinheiro é uma forma de prostituição.
- Lamento que penses assim. Acredito que serias feliz comigo.
Tanto descaramento dava cabo do sistema nervoso de Paula. Tinha vontade de lhe dar um bom murro na cara, para lhe apagar aquele sorriso odioso.
- Nunca poderia ser feliz com um homem que me considera uma mercadoria. És odioso. Faz o que quiseres com o meu pai, se a vingança te faz feliz. Eu não me vendo, -disse levantando-se.
Ele fez o mesmo e os dois ficaram muito próximos.
- Que dramática! Devias ser atriz. Empolgavas o público.
Estava a troçar dela. Enraivecida, levantou a mão para lhe bater mas ele segurou-lhe no pulso e puxou-a para si. Meteu a mão livre na sua nuca e obrigou-a a olhar para ele. Por segundos ficaram assim, enfrentando-se de olho no olho. Ele irónico, ela furiosa.  Lentamente António baixou a cabeça como se fosse beijá-la mas apenas roçou os seus lábios, tão suavemente que ela ficou na dúvida se realmente aconteceu ou se apenas  o imaginou. Depois largou-a e voltou a sentar-se, enquanto ela recuava com as pernas a tremer, sem saber se era raiva ou outra emoção aquilo que sentia. Voltou para a sua cadeira atrás da secretária. Ele retomou a palavra.
- Se estás mais calma, podemos falar agora do que me trouxe aqui.
Olhou-o espantada. Que mais tinha para lhe dizer?


Hoje  (28) o dia foi muito complicado. Fisicamente, com o olho o dia inteiro a chorar, (talvez por causa da troca de medicação)e emocionalmente já que se trata do aniversário da morte do meu pai. Amanhã espero voltar a visitar-vos.



28.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XIV



Deixou-se cair na cadeira, e ocultou o rosto nas mãos. As palavras de Clara foram como um punhal que se lhe cravara no peito. Doera-lhe. É claro que ele amava os filhos. Não em demasia, ninguém ama demais, simplesmente porque não existe medida para o amor. Ou se existia, ele desconhecia. Mas que importava isso? Ele nunca soubera muito de amor, o que sabia, era que daria a sua vida por qualquer um deles, se necessário. Apesar disso, tinha a noção, de que só o seu amor não lhes bastaria. Ele sabia que decisão tomar, para salvar a vida dos seus homens, em caso de perigo eminente, mas não sabia como cuidar de uma criança no dia-a-dia. Ele seria capaz de prestar os primeiros socorros a um dos seus homens que fosse ferido, mas ficava sem ação, quando um dos seus filhos caía e se feria.  No quartel, diziam que ele era um homem frio, a quem nada nem ninguém fazia perder o controlo. Não era verdade. Quantas vezes, apertou os punhos, e cerrou os dentes para não gritar, o que lhe ia na alma?
Aprendera de menino a amordaçar a dor, cada vez que a madrasta mandava para o lixo um brinquedo, só porque reparara que ele gostava muito dele, cada vez que o pai se ausentava do país, e ela o atormentava. Ele aprendera a odiar, numa idade em que as crianças não devem conhecer outro sentimento, que não o amor. A ida para casa da avó materna, fora um alívio, mas também nela não encontrou o amor que o fizesse esquecer o que ficava para trás. A avó perdera o marido e a filha, no curto espaço de um ano, e desde aí fechara-se no seu mundo de sofrimento, recordações e saudade, alheando-se de tudo o que se passava à sua volta. Ricardo crescera assim num mundo inóspito, onde o único oásis era Antónia, a empregada da avó. Ela fora o único ser, que gostara verdadeiramente dele. Ela e o Farrusco, um S. Bernardo escanzelado, que aparecera um dia na quinta e que por lá ficara. Mais tarde, quando ingressara no Colégio Militar, regressara à casa paterna, mas Ricardo nunca tivera coragem de contar ao pai, o que a sua mulher lhe fazia, quando ele não estava por perto. Nem mesmo depois da morte dela, quando ele já tinha vinte anos. Para quê atormentar mais o pai, se o mal já estava feito e era irremediável?
Tendo compreendido o ciúme doentio da madrasta, Ricardo afastara-se gradualmente do pai. Deixou de procurar a sua companhia quando ambos estavam em casa, e procurou estar nela o menos tempo possível. Quando Irene morreu, ele e o pai eram pouco mais que dois conhecidos de ocasião. Talvez por isso, o pai não lhe tivesse contado, quando descobriu que era portador de um cancro no Pâncreas. E como ele se sentia melhor no quartel que em casa, só se apercebeu quando era demasiado tarde. O pai já tinha morrido há onze anos e ele ainda se culpava, por não ter estado presente quando o pai mais precisara dele.
Clara tinha razão. Ele tinha que repensar toda a sua vida. Afinal, acabara por fazer o mesmo que o seu pai. Pusera a vida e o futuro dos seus filhos nas mãos de uma desconhecida, querendo que ela os tratasse e cuidasse como filhos. E se ela fizesse com eles o que Irene, fizera com ele? É certo que o relatório do investigador, dizia que era pessoa estimada por todos e que cuidara do irmão como todo o desvelo, e fora isso que o levara a contratá-la. Mas o irmão era do seu sangue, os seus filhos não lhe eram nada.
Não, Clara não era como Irene. Se o fosse não lhe tinha dito tudo o que lhe dissera minutos antes. Ou diria? Ricardo nunca se sentira tão inseguro.
Sossegou-se ao pensar que Antónia lhe diria se alguma coisa corresse mal. Ela estava com ele, desde que a avó morrera e Ricardo herdara aquela quinta. Na altura, Alfredo o marido dela, trabalhava numa herdade vizinha, e a pequena quinta estava abandonada. Ricardo mandara construir uma casa mais pequena, um pouco afastada da principal, contratara Alfredo como caseiro, e os dois ficaram a viver ali.
Antónia tivera um filho que morreu de meningite com dois anos de idade. Depois disso, ou por impossibilidade, ou por vontade própria, não voltara a ser mãe. Mas o seu instinto maternal era muito forte. Fora o mais parecido com uma mãe que ele tivera.
Ela adorava os seus filhos e tinha a certeza de que lhe diria imediatamente se notasse algum comportamento impróprio de Clara.
Essa certeza, fazia com que partisse mais descansado. Antónia, era a única mulher no mundo em quem ele confiava.


Esta história volta Segunda-feira. E ontem foi dia de novos exames médicos. Resultados só  a 7 de Outubro. Bom fim-de-semana

27.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE VII



Quinze dias depois, Pedro acabara de chegar do Algarve, onde tinha formalizado a compra do Hotel Rio Azul em Albufeira. Não era uma grande unidade hoteleira, mas por algum lado se começa e de momento era o que estava disponível no mercado. cinquenta quartos, distribuídos por três pisos.
Tirou o casaco que pôs nas costas da cadeira, afrouxou o nó da gravata, tirou-a e meteu-a na gaveta, procurando ficar o mais confortável possível, para encarar um dia de trabalho intenso. Há três dias que estava fora, e no dia seguinte viajaria para o Porto para supervisionar as obras de ampliação do restaurante na cidade.  Em cima da secretária, tinha o envelope que no dia anterior Abílio Morais, o investigador a que sempre recorria, quando era necessário, entregara.
Abriu-o e leu atentamente todas as informações. Surpreendeu-se ao descobrir que a jovem Joana, tinha vinte e nove anos. Parecera-lhe muito mais nova e imaginou que fosse a irmã mais nova, de Catarina quando afinal era o contrário. Mas a sua surpresa foi muito maior ao descobrir que Joana tinha estudado restauração e hotelaria, e tinha formação em cozinha e pastelaria. Fora a responsável pela pastelaria, “Sonho de verão”,  no Príncipe Real, até há oito meses, altura em que teve de se despedir para cuidar da irmã  grávida e da mãe que na altura lutava contra um cancro na mama. Depois que a irmã morreu, dedicou-se ao fabrico de bolos e organização de festas de aniversário infantil. Criara uma firma na Internet e trabalhava por encomendas através dela. 
Segundo as informações recolhidas por Abílio, as duas irmãs eram muito unidas, e duas raparigas sossegadas. A mais nova apaixonara-se por um jovem bem-parecido e adiantara-se ao casamento. Quando o namorado soube que estava grávida, desapareceu e nunca mais souberam dele. A rapariga sofrera um grande desgosto, perdera a alegria e a vontade de viver, apesar de todos os esforços da irmã e da mãe, que sempre a apoiaram e animaram. Conseguira levar a gravidez até ao fim, mas dera o último suspiro, mal o filho nascera.
Pôs de lado o relatório e ficou pensativo. As informações coincidiam com o que Joana lhe havia contado naquele dia. Tinha que pensar no que ia fazer, mas ele queria aquele menino. Era da sua família, tinha direito a uma vida melhor do que aquela, que as duas mulheres lhe pudessem dar. Por outro lado, ele não tinha o direito de tirar-lhes a criança. Era tudo o que lhes restava, da filha e irmã que elas amaram. Ouviu-se um toque na porta e Rita entrou, trazendo alguns documentos para assinar.
- Aconteceu alguma coisa digna de registo enquanto estive fora? – Perguntou enquanto assinava o documento que tinha na sua frente.
- Nada a não ser os telefonemas da menina Cristina Barbosa, a perguntar se o senhor já tinha regressado. A propósito se ela telefonar hoje, o que faço?
- Passa-me a chamada. Faça com que este documento siga imediatamente para o seu destino. Depois localize o doutor Araújo e passe-me a chamada. É urgente.
- Mais alguma coisa doutor?
- De momento não, Rita.
A secretária pegou no documento e saiu, deixando-o entregue aos seus pensamentos.


21.5.18

CONVERSANDO COM O LEITOR


Mais uma história chegou ao fim. Terá agradado a uns e não a outros o que é normal, mas foi a história mais difícil que escrevi até hoje, porque eu tinha escrito uma história a ser publicada em 28 dias que se chamava "A promessa". Nela o Carlos casar-se-ia com a Luísa, que carente pela morte do marido se apegaria a ele, enquanto ele cumpriria a sua promessa com o coração sofrendo de amor pela Emília. De vez em quando eu penso escrever uma história que não acabe bem, e esta era uma delas. Acontece que  quando vos pedi um título para a história, a grande maioria escolheu  "Renascer". Então disse-vos que eu escolhera "A Promessa" e perguntei qual dos dois preferiam. "Renascer" foi a vossa escolha clara. 
Esse titulo não encaixava na história que eu tinha idealizado, e vai daí apaguei tudo, a partir do capítulo XV e mudei toda a  trama, acabando  por torná-la diferente e bem mais longa. 
Depois quero dizer-vos que apesar da história ser ficção, baseou-se em alguns factos reais.  
Por exemplo começa por dizer que Salazar já tinha caído da cadeira mas ainda estava no governo. E isso foi real no final de Agosto de 1968, data em que situei o início desta novela.
Já morreu um primo meu, que foi gravemente ferido no norte de Angola, e que esteve vários meses inconsciente num hospital de Angola, após meus tios terem recebido um telegrama com a notícia da morte dele, em Março de 1965. Não era fuzileiro, mas do exército, e não perdeu a memória, mas todo o tempo que esteve em coma, a família chorava a sua morte, e a minha tia mandava rezar missas pela sua alma.  O acidente na ponte da vila de Peso da Régua, também foi real, aconteceu em Maio de 1964, quatro anos antes do Carlos a minha personagem, ter recuperado a memória, exatamente como a Emília lhe diz. 
A decisão da Luísa de manter uma viuvez até ao fim dos seus dias, incompreensível nos dias de hoje, não era caso raro na época. Minha tia Palmira, recentemente falecida, ficou viúva em 1969 com dois filhos pequenos e assim se manteve até à morte. Uma amiga minha casada com um pescador de bacalhau do navio Creoula, Também ficou viúva nos anos 60 com uma menina de dois anos e outra de poucos meses. Vive aqui perto e ainda hoje já bisavó, guarda a memória do marido na viuvez que mantém. 
As festas de Nossa Senhora do Socorro também acontecem em Agosto. Os guardas-florestais, também existiam, meu tio João, foi-o no parque florestal de Monsanto,  e a casa que eu descrevo era a sua casa, bem como a mítica fábrica de gelados  Rajá que ali existia. Esses gelados foram tão famosos na época, que ninguém dizia que ia comprar um gelado, mas que iam comprar um Rajá, fosse qual fosse o gelado, ou a marca. Finalmente a notícia  e a canção no capítulo final que todos sabem foi o sinal para a Revolução do 25 de Abril. Estes são os factos reais em que me inspirei para escrever esta novela. O resto é ficção.
Resta-me acrescentar que a vila de Peso da Régua, ou simplesmente Régua, foi elevada a cidade em 1985.
Espero que tenham gostado.



Um bem haja a todos os que têm perguntado pela minha saúde. Fiz exames na Sexta-feira. O resultado  demora oito dias. Entretanto desde ontem, quase não tenho tantas dores. Penso que o pior já passou. Vamos ver.

3.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XV







Do sítio onde se encontrava, jantando sozinho, coisa rara nele, David viu o grupo que entrava no restaurante, e se dirigia para a longa mesa sobre a qual havia o dístico de reservado.
Lançou sobre o grupo um olhar vago, mas de repente, ficou rígido. Um das mulheres, parecia-se extraordinariamente com Daniela. “Ou era ela?” Interrogou-se mentalmente. Parecia mais nova. E mais bonita, apesar da sua sócia o ser muito. Recostou-se na cadeira, procurando observar o grupo sem dar nas vistas, quando ela virou o rosto para o companheiro, e ele teve a certeza, de que se tratava de Daniela.
Com aquele vestido negro, que lhe moldava o corpo, e o cabelo solto, estava linda. Ficou sem respiração, quando ela se encaminhou para o seu lugar na mesa, e ele pode observar que o vestido deixava a descoberto as costas na sua totalidade. Praguejou baixinho. Como era possível que ela fosse assim para um lugar público?
Quase não comeu, completamente pendente da mulher que se encontrava na outra mesa. Tinha vontade de se levantar, ir até lá, pegar-lhe na mão e trazê-la para junto de si.
Não sabia o que se passava com ele. Desde que a conhecera, nunca mais se interessara por mulher alguma. Só pensava nela, era como uma doença. Queria apertá-la nos braços e beijá-la até a fazer desfalecer de paixão. Amaldiçoou-se. Que raio de sentimento era aquele? Como é que podia ter-se apaixonado por uma mulher que nem sabia se era comprometida?
Daniela estava sentada entre uma mulher e um homem. De onde estava, podia ver que conversava indiscriminadamente com os dois. Logo deviam ser amigos. Se ela tivesse namorado, estaria ali. Pelo menos era o que ele faria se fosse seu namorado.  
De repente soube que queria aquela mulher para ele. Não para uma aventura como costumava ter com as inúmeras mulheres que passaram pela sua vida, mas como a sua mulher, sua amiga, sua amante para o resto da vida.
Sorriu com ironia. Desde quando não sabia o que fazer para conquistar uma mulher? “Desde que te apaixonaste” respondeu-lhe o seu subconsciente.
 De súbito, um homem jovem, alto e louro, aproximou-se da mesa, onde o grupo jantava, e David reparou que Daniela perdia o sorriso. O homem em questão, fez um cumprimento geral, trocou algumas palavras com Daniela, e despediu-se com um aceno.



22.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXV



Surpreendido Quim franziu o sobrolho. Porque chorava? Puxou uma cadeira e sentou-se a seu lado.
-Que se passa Sofia? O que foi que eu disse, para ficares assim? Será que te arrependeste?
Arrependida? Ela? Não, de modo algum. Olhou-o por entre as lágrimas.
-Não é o que disseste. É o que vais dizer…
- O que eu vou dizer? - Franziu o sobrolho, enquanto pensava que as mulheres, eram bem mais complicadas, do que aquilo que ele gostaria que fossem. Especialmente aquela, que era sua mulher. – Não entendo.
-Disseste que temos que falar do que aconteceu. Calculo que me vais dizer que não devia ter acontecido, que estavas cansado, que não desejavas...
Ele estendeu a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para ele.
- Calculas mal, Sofia. Se eu sonhasse que não seria rejeitado, já teria acontecido à muito.
Tocaram sinos no coração de Sofia? Ela seria capaz de jurar, que ouvia os carrilhões de Mafra, em dias de festa.
- Queres dizer que …
- Que aprendi a amar-te, querida! Foste como um delicioso vinho, cujo aroma se foi infiltrando em mim, até me deixares completamente embriagado - disse acariciando-lhe a face com ternura.

14.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXV



Deixou-se cair na cadeira, passando a mão pela testa. A conversa com a irmã, deixara-o nervoso. É claro que ele já tinha reparado na mulher. Nem podia ser de outra maneira se viviam na mesma casa há tantos meses. Para ser sincero, reparara bem demais, para a sua estabilidade emocional.
Pegou no telefone interno.
- Dona Luísa, a partir deste momento não estou para ninguém. E não me passe chamadas. Entendido?
Desligou. Pegou na moldura. Olhou-a relembrando o dia em que a tirou. Tinha chegado a casa e encontrara Francisca na sala a brincar com as crianças. A cena parecera-lhe tão naturalmente íntima, que sem eles perceberem registou o momento no telemóvel.
Depois imprimira-a e colocara-a ali. A fotografia de Olga repousava no fundo de uma gaveta da secretária. O facto da
 irmã, ser amiga de Francisca, e encontrá-la numa época em que ele estava desesperado, foi uma dádiva do destino, talvez arrependido de ter deixado, duas crianças de tão tenra idade sem mãe.
Era admirável, o modo como ela cuidava da casa, como cuidava das crianças. E era tão bonita, que aos poucos a imagem de Olga se foi desvanecendo na sua mente enquanto Francisca se ia instalando no seu coração.
Há já algum tempo que se dera conta disso. Cada dia lhe era mais difícil, ter uma atitude natural junto dela, quando o que realmente desejava era apertá-la nos braços e amá-la até a fazer desfalecer de paixão.
Abriu a gaveta e tirou a cópia do contrato assinado antes do casamento.
A quinta cláusula, dizia expressamente, que nenhum dos contratantes podia molestar o outro com qualquer atitude de cariz amoroso ou sexual, sob pena de o molestado ter direito a rescindir o contrato e a seguir a sua vida liberto de todas as obrigações com o outro.
Que raio de clausula havia ele de ter inventado? Mergulhado na dor da perda da mulher, convencera-se que nunca a esqueceria. Que a sua capacidade de amar morrera com ela.
E, desesperado para resolver a situação, em que se encontrava, temendo que os sogros conseguissem levar-lhe as filhas, parecera-lhe que aquela clausula, era um incentivo para que Francisca se sentisse segura e aceitasse o contrato que ele lhe propunha. 
Como pudera ser tão estúpido? E agora? Agora estava manietado de pés e mãos por aquela maldita cláusula. Não podia sequer imaginar que Francisca pudesse abandonar a casa, se ele se atrevesse a expressar o que lhe ia na alma. O que ia ser da sua vida? E das filhas? Como podiam viver sem ela? 
Voltou a guardar o malfadado contrato na gaveta, fechando-a à chave.




25.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVII

           As duas filhas do Manuel, na última foto antes da saída para a Igreja em 1975


Em Julho, numa nova carta, a filha dizia que o pedido do marido tinha sido deferido, e por isso já não saía da Marinha. O Manuel suspirou de alívio, pois começavam a chegar os navios carregados de gente , anteriormente residente nas colónias e que fugiam da guerra civil que se avizinhava, com os vários partidos de libertação a lutarem todos pelo mesmo objectivo. A cadeira do poder, pós independência.
O resto do ano e os primeiros meses do seguinte, foram de grande preocupação para o Manuel e mulher. Por um lado, tinham a filha mais nova, entusiasmada com os preparativos do casamento, que se realizaria logo que a irmã chegasse. É que em princípio a filha ficará a viver lá em casa após o casamento, e é preciso fazer algumas alterações, porque uma coisa é um casal a viver com os filhos numa casa  e outra bem diferente, são dois casais a viver na mesma casa, mesmo esta sendo bastante espaçosa como a que eles habitavam.
Por outro, todos os dias os retornados traziam novas de histórias de horror e guerra, muitos chegavam apenas com a roupa que tinham vestida, tal a pressa com que fugiram, apenas interessados em salvar a vida. 
As cartas da filha, iam chegando regularmente, mas  se havia um atraso, já eles ficavam numa aflição.
A falar verdade, eles só ficaram descansados, quando em Março de 75, foram ao aeroporto e viram a filha e o genro, saírem do Boeing  707, recém chegado de Angola.
Poucos dias mais tarde, a família está toda reunida para assistir ao casamento da segunda filha do Manuel, que se realizará em Lisboa.
Entretanto a filha mais velha já alugou casa, por sinal a poucos metros da casa paterna. 
Finalmente o casal, tem os filhos todos perto, e pode viver agora um pouco mais descansado.
Quase no final de 75, a filha mais nova anuncia que está grávida. O Manuel e a mulher ficam radiantes com a notícia do primeiro neto. Agora eles já sabem que a filha mais velha, tem mantido ao longo dos seis anos de casada uma luta árdua contra a esterilidade, sem sucesso até à data.