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2.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE III





-Tudo o que está estipulado no contrato que fizemos antes do casamento mantém-se. Porém há mais umas coisas que não estão no contrato e gostaria de te dizer. Como deves saber o trabalho de um advogado não é fácil. Às vezes aparecem casos complicados que exigem muito estudo e concentração. Por vezes trago casos para estudar em casa. Este é o meu espaço. Quando aqui estou não gosto de ser interrompido por ninguém e agradeço que mantenhas as crianças longe daqui.
A minha irmã, vai-se embora no fim-de-semana, também tem a casa dela, da qual já está afastada há bastante tempo por minha causa. O meu cunhado tem sido muito compreensivo, há quase um ano que só tem a mulher aos fins-de-semana, mas agora quando for já não volta. Até sexta, ela ajuda-te a apanhar a rotina da casa. 
Pensei melhor relativamente ao que tínhamos combinado de quartos separados.
A mulher estremeceu e ele notou-o.
-Não te preocupes. O casamento mantém-se como está no contrato. Sem intimidade que nem tu nem eu desejamos. Troquei a cama de casal por duas de solteiro. Pensei que era mais natural, as crianças vão crescer e podiam achar estranho, dormirmos em quartos separados. De resto mantenho o que está escrito. Cuidarei dos teus filhos, como se fossem meus, e confio em que farás o mesmo com as minhas filhas.
Calou-se. Como a mulher mantinha os olhos fixos no chão, ele pegou-lhe delicadamente no queixo, forçando-a a olhar para ele.
Reparou que tinha os olhos rasos de água e inquiriu:
- Que se passa? Estás arrependida?
Ela abanou vigorosamente a cabeça, as palavras sufocadas na garganta.
A voz dele suavizou-se.
- Bem sei, que isto não é o casamento com que as mulheres sonham. Mas ambos sabemos que ele não passa de um contrato. Tu não podes criar e educar os teus filhos, sozinha. Eles precisam de um pai. Eu não posso, nem sei cuidar das minhas filhas sem ajuda. Elas precisam de uma mãe. É troca por troca. Parece-me um contrato justo. Vou mostrar-te o quarto. Disse à Antónia, para levar para lá as tuas coisas. Podes tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde, iremos ver os quartos das crianças. Tu me dirás  se queres fazer alguma alteração. Pensa que a partir de hoje, esta é a tua casa.

reedição


16.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX




Eles continuaram o passeio, mas a alegria que Sofia sentira até aí, já não era a mesma. Era como se uma sombra negra pairasse entre eles.
Decorridos uns minutos, ela perguntou suavemente:
-Dói muito?
Ele olhou-a surpreendido. Encolheu os ombros e respondeu.
-Já foi pior.
A resposta deixou-a cheia de esperança.
Talvez ela ainda tivesse hipótese de conquistar o marido.
Aos poucos Sofia ia conhecendo uma realidade muito diferente daquela que conhecera em Portugal. Não só porque fora de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, como pela mentalidade das pessoas, e até pela posição privilegiada de que gozava. Mas o que mais a admirava, era mesmo a diferença de mentalidades. Na sua aldeia, as pessoas viviam presas ao passado, buscando nele, a conformação para o presente. Diziam que apesar das dificuldades, que passavam, não se podiam queixar, porque os seus pais tinham vivido pior. Não fora o medo da guerra, ou da prisão, e a escassez de trabalho, talvez nem houvesse tanta gente a procurar na emigração a solução para as suas vidas. 

29.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXVIII


Soldados portugueses na Guiné. Foto do  Google.



O resto do ano correu sem nada de muito importante na vida do Manuel, a não ser que um dia fez uma visita relâmpago, ao forno do tijolo, onde o filho estava a trabalhar e ficou tão horrorizado com o trabalho e o calor a que o miúdo era exposto que nesse mesmo dia o trouxe com ele para casa, dizendo que aquele trabalho era desumano, pois os homens mais velhos mandavam o miúdo executar as tarefas que a eles menos lhe agradavam. Pouco tempo depois o rapaz haveria de ir trabalhar para uma serração também em Palhais.  A mulher, desde que começara a fazer a tal injecção mensal, que lhe receitam em Coimbra andava bem de saúde. A injecção era cara, mas ele dava por abençoado esse dinheiro. A filha mais velha estava de novo a trabalhar na safra e a do meio continuava a estudar sempre com as melhores notas. A vida melhorara sensivelmente para o Manuel, que continuava a semear cada vez mais coisas no quintal que também era cada dia maior. Criava agora dois bacoritos, que depois de criados mataria. Um ficava para a família o outro vendia e sempre ficava um dinheirinho extra para as injecções da mulher e para algo mais que surgisse de repente. A alimentação para os porquitos, ele conseguia de inverno nas maltas na seca, e de verão nas casas da Telha.  E foi assim que terminado aquele ano de má memória, se iniciou outro que naquele lugar os anos se sucediam sempre iguais e rotineiros.Manuel voltou a entusiasmar-se com o Carnaval, e a elaborar as suas máscaras. 
Enquanto isso, nas colónias ultramarinas, o desejo pela independência é cada vez maior, as hostilidades sucedem-se , na Guiné inicia-se a luta armada, com um ataque do PAIGC ao quartel de Tite. 
Na seca o pessoal com filhos em idade de ir para a tropa, está apreensivo, Temem a chamada dos filhos para esse temido e desconhecido teatro de guerra. A mulher do Manuel preocupa-se pelo futuro do filho, mas ele acredita que até o rapaz ter idade de ir para a tropa, já o caso estará resolvido. Ele pensa que não deve sofrer por antecipação. Com tantas dificuldades que já passara, ele habituara-se a viver um dia de cada vez, preocupando-se apenas com o momento presente. 
Costumava dizer à mulher, "Para quê pensar no futuro, se o presente me é tão pesado, e me dá tanto em que pensar?"



ACABEI DE REGRESSAR: AGRADEÇO TODO O CARINHO DISPENSADO NAS MENSAGENS QUE ME DEIXARAM, E ESTAREI PELOS VOSSOS BLOGUES SE NÃO HOJE MESMO, AMANHÃ DE CERTEZA.