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12.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXVII


Anabela estava preocupada. Ela sabia como ninguém que os pesadelos recorrentes podiam destruir uma pessoa. Ela teve pesadelos depois daquela noite em que Óscar lhe encostara uma faca à carótida. Todavia ela procurara ajuda, fizera amizade com a psicóloga e sabia que mesmo afastada de Lisboa, podia recorrer a ela em qualquer altura se necessário mesmo pelo telefone, todavia depois da morte do marido não voltara a ter aquele pesadelo.

Era estranho, ela sempre se considerara uma pessoa de bons sentimentos, e nunca desejara mal a ninguém, muito menos a morte do marido. Só desejava que a deixasse em paz, aceitando o divórcio e afastando-se da sua vida. E no entanto quando soube da sua morte, não sentiu tristeza, antes uma sensação de alívio.

Tristeza sentia e muita, quando se cruzava com uma mãe transportando um bebé ao colo, ou no carrinho, e pensava que ela nunca conheceria a sensação de gerar e dar à luz um filho. Não, que alguma coisa no seu organismo a impedisse de engravidar. 

A ginecologista dissera-lhe que apenas uma trompa ficara danificada, todo o resto do seu aparelho reprodutor estava em ótimas condições. Apenas numa próxima gravidez, ela teria de fazer uma ecografia logo após a primeira falta, para ver se o óvulo estava no útero e não em qualquer outro sítio, para prevenir uma repetição do problema, embora não havendo doenças como a salpingite, associadas raramente se repetia o problema.

Porém ela estava a caminho dos vinte e nove anos, e depois da experiência do seu casamento não tencionava nunca mais, dar a outro homem o poder de transformar a sua vida num inferno como Óscar fizera.

Claro que ela podia recorrer à adoção e sabia que seria igualmente capaz, de amar como sua, uma criança adotada, mas nunca sentiria todas as alegrias e inconvenientes de uma gravidez, nem a sensação de ver pela primeira vez depois do parto, o rostinho do ser, tanta vez imaginado ao longo dos nove meses.

A menos que recorresse à inseminação artificial, porque aí não corria o risco de gravidez ectópica, já que o óvulo seria implantado no útero, mas conhecia casos, em que as mulheres só conseguiam a gravidez desse jeito, depois de três ou mais tentativas. E não se sentia com coragem para sofrer todo o processo de deceção, cada vez que uma tentativa não resultava.

Passou a mão pela testa, como se ela fosse uma borracha com que pretendia apagar os pensamentos e olhou o relógio. Quase dez horas. Apressada voltou a casa.

 

 

 

30.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XII

 




Chegou à cidade no início da tarde. Parara numa estação de serviço para comer qualquer coisa, e logo se dirigiu à esquadra onde se identificou.

Fizeram-na entrar num pequeno gabinete, onde um oficial de meia-idade com os óculos na ponta do nariz examinava uns papéis que tinha na frente.

Depois de ouvir a apresentação que o agente lhe fazia, apresentou-se como sendo o inspetor Chaves, encarregado da investigação da morte do marido dela, pediu que ela se sentasse, retirou os óculos do nariz e depois de lhe explicar onde e como tinham encontrado o corpo de Óscar, iniciou uma série de perguntas acerca do seu relacionamento com o marido, onde estivera etc.

Ficou claro para a jovem, que ele já sabia da queixa de violência doméstica que ela apresentara em tempos, e também das ameaças de morte que o marido lhe fizera. Também sabia que não viviam juntos e que ela queria o divórcio. 

 As suas perguntas foram tão insistentes sobre ela ter deixado o emprego e ter ido para parte incerta que Anabela ficou com a clara impressão de que o inspetor desconfiava que ela estivesse de algum modo ligada à morte do marido. Principalmente quando lhe disse que a morte de Óscar naquela altura tinha sido muito conveniente para ela, pois não teriam de se enfrentar num desgastante caso de divórcio. 

Levantou-se indignada.

-Parece que o senhor inspetor, insinua que eu estive de algum modo ligada à morte do meu marido. Não sei que deduções tirou, a minha vida sempre esteve dentro da lei, e por muito que eu tenha sofrido e acredite que sofri com o meu casamento, eu sou enfermeira, a minha missão é ajudar a salvar vidas, não acabar com elas. Mais, se enveredar por esse caminho, vai deixar que o assassino fique em liberdade para fazer o mesmo com outro qualquer desgraçado que lhes caia em mãos.

-Acalme-se. O meu interrogatório não tem a ver com desconfianças sobre a senhora. Sabemos que seu marido era um viciado no jogo e que ultimamente talvez para pagar as dividas de jogo, se envolvera no tráfico da droga. Suspeitamos que ele tenha usado o dinheiro da venda em proveito próprio em vez de o entregar aos fornecedores. O tiro a meio da testa parece ser uma execução e é um aviso para os outros vendedores. Só tentava perceber se a senhora sabia disto ou se poderia estar de posse de alguma informação que levasse os assassinos a quererem vingar-se em si. Sabe que a sua casa foi assaltada, e o seu recheio praticamente destruído?

- Como havia de saber se acabo de chegar do Algarve, e o senhor ainda não me tinha informado? Além do mais, não é a minha casa desde que me separei do meu marido há vários meses. Vivo num quarto, numa residencial junto do hospital onde trabalho, como o senhor saberá, uma vez que disseram à minha comadre, que já me tinham procurado lá.

-Sei. Mas terá de ir lá a casa, e quando o fizer quero que me avise e um agente vai acompanhá-la. Afinal como viúva terá de ser a senhora a desocupar a casa e entregar as chaves ao senhorio.

E dizendo isto, abriu a gaveta e entregou-lhe as chaves e os documentos encontrados com o corpo.

-Agora pode ir, mas não esqueça de me avisar quando for tratar desse assunto. Não quero que vá sozinha.

-Obrigada. Os meus sogros já foram informados?

-Foram informados ontem. Ah! E o corpo do seu marido encontra-se na morgue do Hospital de S. José.

-Mais uma vez muito obrigado. E com quem devo falar, quando for tratar de entregar as chaves?

- Peça para falar comigo.


DESCULPEM  passei o fim de semana num desespero com uma dor de dentes. O meu dentista só tem consulta dia 21 de Março. Hoje tenho que encontrar um que me atenda, antes que endoideça.

22.11.19

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XVII




-O menino que tem cinco anos estava visivelmente assustado.
-Meu Deus! E o menino ficou lá?
-Segundo a psicóloga, o menino foi entregue a uma família de acolhimento, porque ela tinha medo que ele o descobrisse e lhe fizesse mal para a tingir, porque ele não queria o divórcio.
- Porque não me contaste?
- Porque naquela altura tinhas preocupações mais que suficientes, com o nascimento da Mariana, o funeral da Sara, o teu sogro e cunhados, e as visitas ao hospital. Mas agora que falamos nisso, penso que podias trazer o filho dela para aqui. Esta casa é tão grande que decerto nem ias dar pelo miúdo. A mãe ficaria mais descansada, e sem preocupações o que era uma mais valia para a Mariana. O que dizes?
- Apesar de a levar todos os dias ao hospital, não troquei com ela mais do que meia dúzia de palavras, e sempre sobre o estado da minha filha. Tu é que a contrataste, fala com ela e diz-lhe que se quiser pode trazer o filho para viver aqui. Pode ser que assim se estabeleça um vínculo de amizade entre ela e as demais empregadas. Não me agrada o ambiente entre elas. Outra coisa, desde quando o meu advogado é para ti “o Alcides”? Que se passa com vocês?
Sem responder, a jovem levantou-se e foi até à janela. Pouco passava das quatro, mas dia escurecia rapidamente. Pensou que era normal, afinal faltavam duas semanas para o Natal. Voltou para junto da secretária e sentou-se. Só então respondeu ao irmão.
- Nada mais do que uma boa amizade. Quando, ou se, chegar a ser algo mais, podes ter a certeza que te direi, embora me considere suficientemente adulta para não ter de te dar conta dos meus atos.
- Sabes que só quero que sejas feliz.
- Eu sei, mano - disse Laura abraçando-o. - Sabe Deus como eu também quero a tua felicidade. Mas tenho fé que ainda vais arranjar alguém, que te faça feliz. Quem sabe a Luna? Ou ela é casada?
- Agora és tu que queres governar a minha vida? A Luna é uma boa amiga, uma espetacular mulher de negócios, a melhor agente literária que conheço, mas é também uma mulher muito independente, e eu seria completamente insensato e muito infeliz se me apaixonasse por ela.
Por outro lado, a minha experiência matrimonial não me deixou muita vontade de reincidir. Neste momento o que me preocupa, é a minha filha, os meus projetos, e a tua situação. Já pensaste no sítio onde queres montar a clínica?
- Não. Na verdade, já tenho uma proposta para um hospital particular. Depois o Alcides contou-me o teu projeto de Fundação, e se se concretizar pretendo trabalhar nele.
-Como assim?
- Vai ter um posto médico, não vai?
-Claro. Mas tinha pensado em algo básico, com uma enfermeira, para fazer alguns pensos, dar injeções e sobretudo ensinar às pessoas certos hábitos de higiene, distribuísse escovas e pasta de dentes, e preservativos.



20.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XVI





Dias depois, também Laura se despediu desta vez por pouco tempo. Faltava-lhe apenas uma semana para o término do estágio e não podia deixar de o acabar para que pudesse constar do seu currículo.
Gil dirigia-se todos os dias ao hospital. Via a filha e ia-se embora deixando Inês no hospital, para que pudesse estar com a bebé todo o tempo que lhe era permitido. Quando este terminava, ela apanhava um táxi para se dirigir à residência do seu patrão, onde agora também morava.
Inês era uma mulher de estatura média, de grandes e expressivos olhos castanhos, cabelo curto e de um bonito tom de mel. Apesar de ser magra, tinha as formas bem definidas.  Era educada, com as outras empregadas da casa, mas falava com elas apenas o estritamente necessário, embora tivesse a noção de que elas a achavam arrogante e empertigada.
Inês não se importava com o que elas pudessem pensar. O seu trabalho seria cuidar da bebé e isso ela faria com todo o seu saber e amor. Sim porque ela adorava crianças.
A sua vida, tudo o que passara até chegar ali, era a sua vida e só a ela interessava.
O patrão não lhe fizera perguntas, mas a irmã, sim. E foram tantas as que não respondeu, que se admirou quando ela lhe telefonara a dizer que o lugar era seu. Afinal ela não tinha outras referências que as do hospital pediátrico onde trabalhara, e cujo emprego se vira obrigada a deixar, para se poder esconder de um marido extremamente violento. O que mais a entristecia, era estar separada do filho, Jorge, de cinco anos. Não podia tê-lo consigo, nem levá-lo para casa dos seus pais, pois seria o primeiro lugar onde o ex-marido o procuraria. No centro de apoio onde se acolheram, arranjaram-lhe um lar de acolhimento onde poderia estar um máximo de seis meses, até que ela conseguisse resolver a sua situação.
Apesar do divórcio e da proibição feita ao marido de não se poder aproximar dela, Inês tinha muito medo. Estava cansada de ouvir notícias de homens que matavam as mulheres, apesar de estarem proibidos de se aproximarem delas. Ela não temia por ela, mas pelo que ele podia fazer ao filho, sabendo que isso a faria sofrer muito mais do que qualquer coisa que lhe fizesse a ela.
Alheio a toda esta situação, Gil pensava, se a irmã tinha feito bem em contratar para cuidar da sua filha, uma mulher que parecia estar zangada com o mundo inteiro. Por isso quando a irmã regressou,
não pôde evitar a pergunta.
- Que te levou a contratar aquela mulher para cuidar da minha filha? Que referências te deu?
Os dois irmãos encontravam-se sentados na sala que era simultaneamente biblioteca e escritório, no piso inferior da moradia. Laura encarou o irmão e perguntou:
- O que é que ela fez? Não tem ido ver a menina? Fizeram alguma queixa dela, no hospital?
- Não. Mas está sempre com uma expressão, que parece que todos lhe devem e ninguém lhe quer pagar. E tenho notado que não fez amizade com nenhuma das empregadas da casa.
-Bom, as referências do hospital onde trabalhou, foram as melhores. Sabes que é divorciada? A vida dela não deve ter sido nada fácil. O Alcides foi à morada que ela me deu e sabes o que era? Uma casa de apoio às vítimas de violência doméstica. Como a psicóloga de lá é conhecida dele, conseguiu saber que quando chegou lá com o filho, apresentava várias marcas de espancamento. 

13.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVIII




Calou-se por uns segundos, como se passados todos aqueles anos, as recordações continuassem a ser muito dolorosas.
Ela sentiu vontade de se levantar, e de o abraçar fortemente, para mitigar aquela dor. Mas quando se aprestava para o fazer, ele retomou a palavra.
-Há coisas de que um homem não consegue falar, porque a dor lhe trespassa  o coração e a vergonha lhe rasga as entranhas.
Calou-se de novo por alguns segundos, passou a mão pelo cabelo e retomou a palavra.
 E então contou  como após o divórcio, se sentia motivo de troça de todo o bairro, de como isso destruíra a confiança em si próprio e nas mulheres, e dos cinco anos que passou em Luanda, trabalhando que nem um doido, tentando não só esquecer o passado, mas também juntar o máximo de dinheiro que lhe permitisse montar a sua empresa. 
Falou-lhe do seu primeiro carro que tinha de conduzir de dia, enquanto terminava o curso que abandonara quando casara. Falou dos pais, do irmão, da morte dos progenitores, enfim de tudo o que acontecera com ele até ao momento em que recebera no escritório a carta dela.
Mergulhado no mar tenebroso das lembranças, não deu pela aproximação da mulher, senão quando os braços dela o enlaçaram pelas costas e lhe disse:
- Perdoa, não queria fazer-te sofrer.
Voltou-se e segurando-lhe o rosto entre as mãos, disse:
- Não há nada para perdoar, Isabel. Tens razão, sempre a tiveste. Não podemos querer, que alguém retribua o nosso amor, se não deixamos que essa pessoa o descubra e nós próprios fazemos tudo para não acreditar nele .
- O que queres dizer com isso? - perguntou trémula.
-Vem, vamos sentar-nos e esclarecer tudo o que há para esclarecer de uma vez - disse pegando-lhe na mão e reconduzindo-a ao sofá.
Sentaram-se ambos lado a lado, mas não abraçados. Ricardo não queria perder a cabeça, antes de ter mostrado tudo o que lhe ia na alma, para que nunca mais houvesse uma dúvida a separá-los.
- Impus a mim mesmo duas regras de ouro. Nunca mais fazer sexo com ninguém sem proteção, e nunca mais entregar o coração a mulher alguma. Aproveitaria da vida as oportunidades que ela me desse e era tudo. Por isso eu nunca poderia ter-me envolvido com a Susana. Ela estava na idade em que eu fora enganado, e sei melhor que ninguém a marca que um desengano nessa idade pode deixar.
Quando fiz o teste do ADN, e descobri que a Matilde era minha sobrinha, decidi que ela tinha que ser minha. De um modo que não sei explicar, amei-a imediatamente. Era como se aquela outra criança que tanto amei e nem cheguei a conhecer, viesse agora para os meus braços. Porém eu não queria tirar-ta, e tu não te separarias dela. Estava num impasse quando o Artur me aconselhou a pedir-te em casamento. Hesitei. Tinha medo do que esse casamento me podia trazer. Tentei manter o coração à margem e guiar-me apenas pelo desejo que despertaste em mim. Mas ainda assim prometi a mim mesmo que tudo faria para que a nossa relação fosse agradável. Mas tu não ajudaste muito. Não aceitavas nada do que te oferecia, e aos poucos ias-te afastando de mim. Do modo que amavas a Matilde, sempre pensei que querias ter filhos e esperava que um dia me viesses dizer que estavas grávida.
 Eu não sabia que tomavas a pílula, e fazíamos amor praticamente todos os dias, mas nunca engravidaste. Comecei a pensar que era estéril, e mais dia, menos dia, ias descobri-lo. Cheguei a pensar que já o sabias e era por isso que ias perdendo a alegria e a naturalidade. E foi nessa altura que me dei conta de como te amava e de que ficaria destruído se te perdesse. 
  

12.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVII

Boa noite, amigos.
Hoje falei com o neurologista que acompanha o meu marido. Disse-me que o registo do holter estava normalíssimo. Que amanhã fará a RM, na Segunda feira fará o dopler das carótidas e começará a ir ao ginásio a fim de fazer fisioterapia pelo menos uma semana. no dia 19 fará um ecocardiograma e se continuar tudo bem, virá para casa. Entretanto eu estou com uma tendinite no braço direito. Que mais nos acontecerá neste ano que tem sido tão aziago.






Sentiu que uma garra gelada lhe penetrava no peito e o rasgava de cima, abaixo.
- Perguntou quase num sussurro:
- Queres o divórcio? Estás apaixonada por alguém?
“ Meu Deus! Como pode ser tão inteligente para os negócios e tão burro para as coisas do coração?”- pensou Isabel, sentindo que tinha chegado a hora de abrir o seu coração, e deixar que ele visse o que a trazia atormentada.
-É claro que não quero o divórcio. Mas não sei onde arranjar forças para continuar a aguentar este arremedo de casamento. Perguntaste se estou apaixonada por alguém. É óbvio que estou. Estou apaixonada por um homem que me quer dar segurança material, mas não me dá o seu coração. Estou apaixonada por um homem, a quem dei tudo o que tinha, o meu corpo, o meu coração, os meus pensamentos, os meus sonhos. E o que me deu esse homem, em troca? Sexo. O sexo é bom, tão bom que me deixei deslumbrar e pensei poder viver do prazer que ele me dava. Mas depressa verifiquei que era uma triste imitação daquilo que o meu coração ansiava. O homem por quem me apaixonei, nunca me falou da sua vida passada, dos seus sonhos para o futuro, nada. Eu amo tanto esse homem, que o maior sonho da minha vida, é ter um filho seu. Mas em momento algum, ele mostrou desejo de ter esse filho, e assim tomo a pílula todos os dias, não vá ter uma gravidez que ele não deseje, e acabar com a pouca esperança que me resta, de que um dia sinta por mim, o mesmo amor que sinto por ele.
Estava descontrolada. Chorava copiosamente, mas nem por um momento pensou em se calar. As palavras saíam em catadupa, cheias de amargura.
Ricardo levantou-se. O seu rosto estava tão pálido quanto o de um defunto. As mãos trémulas, ansiavam por acariciar a mulher. Mas de algum modo, sabia que se o fizesse naquele momento, ela rejeitá-lo-ia. Virou-lhe as costas e caminhou até à janela, deixando que ela chorasse até se acalmar. Quando percebeu que o choro tinha perdido intensidade, ele retomou a conversa, sem se voltar para ela, o olhar perdido no Tejo.
Aquele homem de quem te falei, apaixonou-se uma vez quando era ainda estudante, um miúdo que acabara de completar vinte anos. Nessa idade, o mundo é demasiado pequeno para os nossos sonhos, e fazemos tudo em demasia. Comemos demais, bebemos demais, amamos demais. Ele apaixonou-se loucamente, por uma mulher um pouco mais velha, e sentiu-se o homem mais feliz do universo quando num momento, que ele pensava ser de paixão retribuída, fez amor sem tomar precauções. Pouco tempo depois ela disse-lhe que estava grávida. Ele ficou aflito, ainda estava na faculdade, não tinha como sustentar uma casa, mas nem por um segundo, pensou livrar-se dela ou do bebé, que amou desde o primeiro momento. Falou com os pais, e eles assumiram as despesas do casamento, em troca dele transferir a matrícula para a noite, e ir trabalhar com o pai para a oficina, pois nessa altura já era um bom mecânico.
Sem se voltar uma única vez, Ricardo contou tudo o que passou com aquele casamento, o que sofreu, quando tomou conhecimento de como aquela mulher e o tinha enganado, da dor que foi descobrir que aquele pequeno ser que tanto amava e que nunca iria conhecer, por quem aguentou aqueles seis meses de martírio, não era nada seu. 




4.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XL




- Bom-dia. O que aconteceu, para me pedires que viesse aqui hoje, que não me pudesses dizer ontem, na festa dos dois anos da Matilde? - perguntou Artur ao entrar no escritório do amigo.
- Bom-dia. Senta-te. O que tenho para te dizer requer privacidade, coisa que ontem não tínhamos.
- Que se passa? Os negócios vão mal?
- Não. Felizmente por esse lado não há que temer. Notaste algo diferente na Isabel?
- Eu? Não! Mas agora que falas nisso, há dias a Natália, comentou que estava preocupada com ela.
- Preocupada como? - perguntou inclinando-se para a frente e apoiando os braços na secretária. – Que disse exatamente a tua mulher?
-Disse que a Isabel estava diferente e que não era para melhor.
-Então, ela também notou.
- Homem desembucha! O que se passa afinal?
-Isso queria eu saber. Quando casámos, ela era sincera, espontânea, bastava um olhar para nos entendermos. Era como um livro aberto para mim. Depois quase impercetivelmente o livro foi-se fechando. Hoje está completamente fechado e eu não sei como abri-lo. O nosso casamento  ainda não tem seis meses, mas tu sabes que não foi um casamento como os outros.
- Porque não te sentas e conversas com ela? Pode ser preocupação com alguma coisa no trabalho, receio do desemprego, por acaso, o tempo do contrato está a acabar?
- Tenho a certeza que não é nada disso, ela não esconderia isso de mim. Ainda faltam quatro meses para a outra empregada voltar, e além disso sempre lhe disse que se quisesse dedicar-se à casa e à família podia fazê-lo. A nossa situação financeira é ótima. Não, o assunto é mais grave.
- O que temes afinal?- perguntou o amigo
- Um pedido de divórcio. Ela sempre me disse que acreditava no amor, e eu temo que se tenha apaixonado por algum colega no escritório, e esteja a pensar na separação.
- Ela não faria isso. Adora a Matilde, e tu como pai, irias querer ficar com ela.
- Esqueces que pela adoção, ela deixou de ser tia, para ser sua mãe? Em caso de divórcio temos os mesmos direitos. Mas ainda que assim não fosse, eu nunca as separaria. Se isso acontecer, teremos a guarda partilhada. O problema é comigo.
- Como assim? Não entendo. Fizeste alguma asneira? Traíste-a?
- Estás doido? Como podes pensar em semelhante insanidade?
- “O problema é comigo”! O que querias que pensasse?
- Eu não saberia viver sem ela, - confessou em voz baixa.
- Queres dizer que a amas? Mas não eras tu que não acreditavas no amor?
Que dizias que o casamento ia ser uma espécie de contrato?
- Por favor! Preciso de ajuda, não de troça.
- Muito bem. Vamos lá então analisar a questão. Quando e como começaste a notar essa diferença? 
- Foi mais ou menos a seguir ao teu casamento.
- Em Março, portanto. Estamos na segunda quinzena de Junho. E em todo este tempo não a questionaste?
- Algumas vezes, mas ela diz sempre que está tudo bem.
- E não está mesmo? Será que não andas à procura de piolho em cabeça de careca?
- Tenho a certeza. As nossas conversas, já não têm a naturalidade de outrora.

1.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XI



 Porém o namorado tinha regressado dois meses depois do casamento e não pretendia desistir dela nem do filho. E ela só se mantivera em casa durante aqueles meses, enquanto arranjavam casa e a preparavam para se mudar. Terminava pedindo-lhe que a perdoasse e que não lhe dificultasse o divórcio.
Perdoar? Como é que um homem podia perdoar a mulher, que fez dele motivo de chacota para o bairro inteiro? Um misto de sentimentos tomou conta dele. Raiva, vergonha, humilhação. Como era possível ter sido tão trouxa? Mais uma vez, valeu-lhe a compreensão dos pais, que o ajudaram e apoiaram até ao divórcio. Depois ele sentiu que tinha de partir por uns tempos. Queria afastar-se de amigos e conhecidos, que disfarçavam sorrisinhos de gozo quando o viam. Assim, quando soube que uma firma estava a pedir mecânicos para Angola, foi lá e não lhe foi difícil conseguir um bom contrato por cinco anos. Partiu pois numa manhã de Março, poucos dias antes de fazer vinte e dois anos, deixando a mãe lavada em lágrimas. Porém o pai compreendeu e apoiou-o. Apesar da sua pouca idade Ricardo era um excelente mecânico. Desde menino sempre gostara de mexer nos carros e quando saía da escola, em vez de ir jogar à bola com os outros miúdos do bairro, ia para a oficina do pai, ver como ele trabalhava, aprendendo a conhecer o canto do motor, e o significado de cada uma das suas desafinações. Depois já adolescente, trabalhou durante as férias escolares na oficina, e mais tarde todo o tempo que durou o seu casamento. Tinha por isso um bom conhecimento do trabalho, era aplicado, e simpático e em breve ganhou a simpatia do patrão, e dos colegas. Apesar do fascínio que África exercia sobre ele, Ricardo fazia uma vida recatada, gastando apenas a pequena parte do ordenado necessário à sua sobrevivência e transferindo para Portugal tudo o que a firma lhe permitia. Já nessa altura tinha o sonho de criar uma firma de aluguer de carros de luxo.
Terminado o contrato, regressou a Lisboa, apesar do vantajoso prolongamento do contrato, que a empresa lhe propunha  . Tinha quase vinte e sete anos, a cabeça cheia de sonhos, mas nenhum de amor.
Alugou uma pequena garagem, comprou o seu primeiro carro que lhe levou grande parte do seu pecúlio, e anunciou na Internet o aluguer do mesmo. Começou sozinho, com um único carro, sendo mecânico e motorista. Foi um êxito, as encomendas eram superiores ao que ele pensava, e assim ao fim de um ano, comprou o segundo, e contratou o seu primeiro motorista, Sérgio, que mais que um empregado era um verdadeiro amigo. Os anos foram passando, o negócio prosperando cada vez mais, e agora doze anos depois, ele tinha uma dúzia de carros de luxo, e dez motoristas-mecânicos que podiam conduzir os clientes a qualquer parte, mas estavam aptos a reparar de imediato o carro se surgisse alguma anomalia. 
De súbito voltou-lhe à memória aquela criança e o imbróglio em que o tinham metido. Mas ele iria exigir a retirada do seu nome do registo dela, logo que tivesse em mãos o resultado do teste de ADN. E só não exigiria uma indemnização, porque pelo que viu daquela casa, a mãe, ou tia da criança não teria como a pagar.
Estava desejoso, que o seu amigo Artur lhe trouxesse o relatório da investigação que estava a fazer.

20.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE II






Foi direta à sala, onde sabia que encontraria a mãe a ler. Era o seu lugar favorito. Sentou-se a seu lado. Francisca fechou o livro e olhou para ela na expectativa. Não fez perguntas, e Ana teve a certeza de que a mãe sabia o que lhe ia dizer. A mãe sempre sabia o que se passava com ela:
- Mãe, já não vai haver noivado, muito menos casamento. Acabei tudo com o Paulo.
Se esperava que a mãe dissesse alguma coisa, enganou-se. Francisca levantou a mão, acariciou o rosto da filha, e esperou.
-Eu queria, mãe. Começo a desejar estabilizar a minha vida emocional. Ter a minha casa, marido, filhos. Pensei que com o Paulo, isso ia acontecer. Mas não é assim. Na intimidade, a chama não se acendeu, senti-me estranha nos seus braços. E não quero um casamento assim. Não me basta ter um homem apaixonado ao meu lado. Eu quero alguém a quem eu ame com intensidade.
A mãe abraçou-a como fazia quando ela era criança. Ana deitou  a cabeça no seu regaço, e deu largas à sua desilusão, deixando correr as lágrimas. Francisca sentiu um nó na garganta. Apesar dos anos, tinha bem presente o que fora o seu casamento com Jorge. Sabia bem o que era rolar na cama, depois de ter feito amor, pensando que devia estar feliz, mas sentindo apenas que cumprira uma obrigação, que a envergonhava e lhe deixava um aperto no peito que não a deixava adormecer. De forma nenhuma queria isso para a sua menina. Dos seus filhos, Ana era aquela que mais se identificava com ela. A mais sensível. Sentindo que se acalmara, afastou-a um pouco e olhou-a com ternura.
- Se assim é, fizeste bem, Ana. Um casamento é uma coisa muito séria. Bem sei que na atualidade, o divórcio está na ordem do dia. Mas acarreta sofrimento. Deixa cicatrizes. Já contaste ao pai?
- Eu sabia que me ias entender. No fundo, o que eu queria, era um casamento como o vosso. Essa felicidade que transportam no olhar, esse amor visível em cada gesto. Foi sempre assim, ou isso aprende-se com o tempo?
Francisca sorriu: Continuava a ser uma linda mulher apesar de já ter ultrapassado os cinquenta anos.
-No amor, nada se aprende Ana. Ele é espontâneo e avassalador. O tempo não lhe acrescenta, nem tira nada. Somos nós, com as nossas atitudes que o engrandecemos ou o matamos. Compara-o a uma fogueira. Quando começa, as labaredas são altas, o calor intenso. Mas se não fazes nada, à medida que a lenha vai ardendo, as labaredas vão diminuindo de tamanho, o calor vai enfraquecendo até que da fogueira inicial só restam cinzas.
- E é impossível uma fogueira arder só de um lado, - murmurou a jovem desalentada. Para depois acrescentar.
-Contei ao pai, e ficou furioso. Tenho a sensação de que sentia vontade de me bater.
- Está preocupado contigo. É natural. Não te preocupes. No fundo o que nós queremos é que sejas feliz. Estás com muito trabalho? Devias pedir-lhe que te desse umas férias. Precisas espairecer. Porque não fazes uma viagem?
- Agora? E a vossa festa de aniversário?
- Faltam cinco dias. Podias, aproveitar para pôr em ordem algum assunto que tenhas pendente e partir depois da festa.
-Não tinha pensado nisso. Obrigado mãe, fazes com que os meus grandes problemas se tornem menores e menos dolorosos.
Francisca sorriu quando a jovem se inclinou para a beijar murmurando:
-És um anjo.

reedição







20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXVIII


Apesar de Jorge não ter levantado a voz, nem parecer alterado, aquela ordem continha tal força, que o filho não se atreveu a contestá-la. Levantou-se e seguiu o pai até ao escritório, parando à porta, ao ver Jorge abria uma gaveta que que habitualmente estava fechada à chave. 
- Entra. Fecha a porta e senta-te. Quero que vejas uns documentos.
Sem saber que pensar, o jovem obedeceu.
-Lê isto, - disse o pai estendendo-lhe a certidão do seu primeiro casamento.
Ele leu o documento e devolveu-o sem saber o que pensar.
- Antes que comeces a pensar noutra enormidade, a meu respeito, aqui tens o registo do divórcio, e devo dizer-te que a tua mãe, sabia que eu era divorciado quando aceitou casar comigo.
-Não sabia. E não entendo porque me mostras isto agora. 
-Serás capaz de entender, se te disser que a jovem com quem me viste, é filha da minha primeira mulher, e nasceu cinco meses após o divórcio?
Cláudio levantou-se e encarou o pai.
- O que é que estás a querer dizer-me? Que essa mulher é tua filha? E como é que nunca nos disseste nada?
- Eu próprio não sabia. Natália escondeu-me que estava grávida, e como foi viver para Lisboa, eu nunca soube. Quando ela morreu, a filha encontrou esses documentos e resolveu procurar-me. Queria saber se eu era o seu pai, e embora eu tivesse a certeza que o era, desde que me disse a data do seu nascimento, ela insistiu num teste de paternidade. Fui buscar hoje o resultado. Aqui tens.
O jovem leu o teste que provava que Helena Trindade era filha de Jorge Noronha. Envergonhado estendeu o documento ao pai.
- Onde é que ela está?- Perguntou sem se poder conter.
- Voltou à sua casa em Lisboa. Mas espero trazê-la em breve para cá. Tão depressa conte à tua mãe. O que me dói, é saber que conhecendo-me há mais de vinte anos, e depois da nossa conversa naquela noite, foste capaz de  me julgar como um ser, imoral e sem sentimentos, que abandonava a mulher doente em casa e saía para encontros amorosos, ainda mais, com uma miúda. Estou muito dececionado contigo.
- Desculpa pai. Fiquei cego de ciúmes. Lembras-te da jovem que conheci em Coimbra? A mulher por quem me apaixonei e que me deixou com uma carta de adeus? Era ela, a Helena.
- Helena, a minha filha?- Desta vez era Jorge que se mostrava surpreendido. Que coincidência. E continuas apaixonado?
- Que te parece? Não me apetece comer, durmo mal, penso nela a toda a hora e até há  minutos, tinha vontade de te esganar, por julgar que eram amantes.
-Postas as coisas assim, não tenho dúvidas, de que estás apaixonado. Mas lembra-te que para uma relação ser feliz, o amor tem que ser recíproco.
- Tenho a certeza de que não lhe sou indiferente. Mas ela tem medo, não sei se de mim ou do próprio sentimento que lhe despertei.
- O meu casamento com a mãe dela, falhou por causa desse medo, e de um ciúme exacerbado. Para felicidade de ambos, oxalá Helena, não tenha herdado isso da mãe. E agora? Que pensas fazer?
- Agora, enquanto o vinho não terminar a fermentação e não fizermos a trasfega para os barris onde vai envelhecer, não posso fazer nada. Mas logo que a operação termine gostava de ir buscá-la a Lisboa. Mas tens que contar à mãe, o mais depressa possível.
-- Conto fazê-lo depois de amanhã. Faz um mês que foi operada, o médico deve dar-lhe alta. A enfermeira diz que ela está bem, já não preciosa de cuidados especiais, a não ser claro os esforços físicos. Mas quero confirmar com o médico. Agora o melhor é ir para a cama que já é tarde. Boa noite, filho.
- Boa noite, pai. E perdoe-me.
- Não há nada a perdoar. Provavelmente no teu lugar, pensaria o mesmo. 




13.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVI


- Minha filha! Meu Deus! Como é que a tua mãe foi capaz de semelhante maldade? Nunca lhe vou perdoar que me tivesse roubado a alegria do teu nascimento, as tuas gracinhas, o teu crescimento.
- Sem fazermos o exame não podemos ter a certeza.
- Faremos o exame se isso te deixa mais confiante. Por mim, não é necessário. Se nasceste nessa data, não tenho qualquer dúvida. Eu e a tua mãe éramos muito apaixonados, mas ela era muito insegura, achava que não era merecedora do meu amor e tinha uns ciúmes doentios. Disse que eu a traí, pediu o divórcio e foi para casa da irmã em Lisboa. Nunca mais me quis ver, nem ouvir, apesar dos meus esforços. E juro-te que nunca houve tal traição. É verdade que me viu abraçar uma mulher. Era uma prima em segundo grau que estava de partida para o Brasil, sem data de regresso. Não era um abraço de amantes nem beijo nem nada disso. Era uma despedida, duma familiar, que durou até hoje, pois nunca regressou. Tua mãe nunca aceitou sequer as minhas explicações. Mas conhecendo-a como conheci, sabendo do amor que me devotava, tenho a certeza de que nunca me teria traído. Estou em crer que nunca mais quis saber de nenhum homem.
- É verdade, nunca a vi interessada por ninguém.
- E dizes que faleceu há menos de um mês?
-Sim. Quando fui retirar as coisas do seu quarto para dar a uma instituição, encontrei este envelope. Há aqui também as vossas certidões de nascimento e encontrei também isto, - disse estendendo-lhe a caixa com o anel de noivado e a aliança.
Ele abriu a caixa, olhou as joias e voltou a fechá-la. Devolveu-lha
- Eram dela. Agora são tuas. Mas fala-me de ti, filha. Agora que a Natália morreu, com quem vives? E onde? Quero apresentar-te a toda a gente, levar-te lá para casa, mas tens que me dar algum tempo, a minha mulher tem estado doente, tenho que a preparar para esta notícia. Não posso dizer-lho assim de repente, pode sofrer algum choque não sei.
- Não precisa de me apresentar a ninguém. Eu só queria saber quem era o meu pai, já que a minha mãe sempre me disse que eu tinha nascido de uma aventura e que nem ela mesma sabia quem era o meu pai. Gostaria que fizéssemos o teste o mais rápido possível. Depois regresso a Lisboa, não quero atrapalhar a sua vida.
-Como podes pensar assim? Espero que não tenhas herdado a insegurança da tua mãe. A minha casa é a tua casa. Queres fazer o exame, vamos fazê-lo, embora ele seja desnecessário. És minha filha, e tens o direito a participar da minha vida, a conhecer a minha casa e a minha família. Queres fazer o exame na segunda-feira?
-Não tem que ser marcado?
- Não. Sendo particular penso que não. De qualquer modo eu vou agora passar pela clínica e confirmo. Depois telefono-te. Agora tenho de ir. Meu Deus, uma filha. Eu tenho uma filha linda e não sabia.
Pôs-se de pé. Por momentos ficou indeciso. Depois pediu:
-Posso dar-te um abraço?
Sem responder a jovem refugiou-se nos seus braços. As lágrimas rolavam pelas suas faces morenas. Emocionado, Jorge depositou um beijo na testa da jovem.
- Não chores filha. Tudo vai correr bem, vais ver.
Largou-a, e dirigiu-se à porta. A jovem ficou a vê-lo afastar-se.




Gente, vocês querem que eu continue com esta história o fim de semana? Ou querem descansar?

26.6.18

O DIREITO À VERDADE - VII




Terminaram a refeição com o café. Depois, Helena levantou a mesa, levou as loiças para cozinha e meteu-as na máquina. Voltou então para a sala, agarrou na caixa de cartão e sentou-se junto do tio. Sem uma palavra, retirou as certidões e estendeu-lhas.
Este leu-as em silêncio e devolveu-lhas.
- Eu sou filha deste Jorge Noronha, não é verdade?
-Sim.
-O meu pai morreu?
-Que eu saiba, não. Pelo menos, até há uns meses estava vivo. Encontrei-o na Feira Agrícola de Santarém.
- Ele sabe que eu existo?
-Não. A tua mãe não lho quis dizer antes de se divorciarem, e fez-nos jurar que nunca lho diríamos.
- A mim disse-me que não sabia quem era o meu pai.  Contou-me que tinha ido a uma festa com alguns amigos, bebeu de mais, e não se lembrava com quem tinha dormido. Sabias, disto?
-Não. O que nos disse foi que nunca te diria quem era o teu pai. E quando a tua tia lhe disse que não te podia esconder a verdade toda a vida, que ia chegar a hora em que começarias a fazer perguntas, ela respondeu que quando chegasse essa altura, inventaria qualquer coisa para te dizer. Quando a tua tia morreu há dez anos, eras ainda uma criança e depois disso, eu não ia fazer perguntas dessa índole, à tua mãe.
- Descubro com tristeza que não conhecia a minha mãe.  Que mulher esconde da filha, quem é o seu pai? Que mágoa pode desculpar tal facto? Que crime pode ter cometido este homem para que ela lhe ocultasse a minha existência? Ela contou-vos porque se divorciaram?
- A tua mãe disse-nos que foi traída, e que nunca mais queria vê-lo, sequer ouvir o seu nome. Foi ela quem pediu o divórcio. Parece que surpreendeu o marido abraçado a outra mulher. O teu pai não queria o divórcio. Jurou-me que a pessoa em questão era uma familiar, que estava a despedir-se dele porque ia partir nesse dia.  Disse que ia ligar para essa senhora e a tua mãe falaria com ela. A tua mãe não quis ouvi-lo. Eu sei que ela foi uma mulher de coragem, que trabalhou muito, que te amou acima de todas as coisas. Mas a verdade é que ela não tinha um feitio fácil, era muito teimosa e foi intransigente com o teu pai. Durante uns anos ele manteve contacto comigo, mas eu tinha jurado à tua mãe que nunca lhe falaria sobre ti. Tinhas três anos quando ele se casou, com uma viúva que tinha um filho com uns nove ou dez anos. Convidou-me para o casamento e tive que inventar uma viagem de trabalho para que a tua tia não soubesse e não fosse contar à irmã. Conversámos um pouco e ele disse-me que tinha conhecido aquela senhora há seis meses.  Penso que se a tua mãe tivesse acreditado nele, teriam os três, vivido uma vida completamente diferente, com menos dificuldades e decerto mais feliz. Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Não sei se algum dia entenderei os seus desígnios.
- Ainda se escrevem?
- Não. Desde o seu casamento nunca mais soube nada dele até há três meses quando o encontrei na feira de Santarém.




12.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXIX



-  Agora vem a parte mais difícil, porém sinto que tenho de te contar tudo, para que nenhum fantasma possa assombrar-nos no futuro. Como dizia, resolvi apostar no teu amor pela tua mãe e pelo Pedro, para te propor o casamento tal como tu sabes. Na altura resolvi impor o prazo de dois anos, pensando que dois anos era tempo suficiente para me tornar no pai adotivo do Pedro e ganhar o seu amor. Se depois de dois anos te quisesses divorciar, eu contava ganhar a guarda dele, por ter muito melhores condições financeiras que tu. Sim querida, era uma canalhice, mas naquela altura eu pensava que no caso de divórcio, te tiraria a guarda dele. Tal como eu esperava, tu aceitaste as condições impostas e avancei com o casamento. Estava convencido que só o menino me interessava. Não foi assim. Hoje ao pensar no que sucedeu a seguir ao nosso casamento, sei que já nessa altura tinhas derrubado as minhas defesas. Tu não fazes ideia de como eu te desejava. Já me conheces, sabes como sou sexualmente ativo. Desde o dia que combinámos o casamento, não voltei a ter uma mulher. Tinha deixado bem claro o que pretendia do nosso matrimónio, e no entanto respeitei a tua dor e o teu tempo, naquela e em todas as noites que se seguiram. Achas que o faria se não me importasses? Estava tão preocupado em não dar a nenhuma mulher, o poder de me fazer sofrer, que me convenci que o amor não existia, e não soube reconhecê-lo. Dizia a mim mesmo, que o que nos ligava era só sexo, e que o sexo era uma necessidade fisiológica, nada tinha a ver com amor. Apenas me comecei a questionar em relação aos meus sentimentos, quando notei que estavas  diferente. Comecei a pensar que te tinhas cansado da vida que tinhas, e querias por fim ao casamento. Só então me dei conta de como tinhas entrado no meu coração, e de como és importante para mim. Agora que já sabes na verdade quem sou, e como sou, com todos os meus defeitos, talvez possas contar-me o que te aflige. 
- Pese a patifaria que pensaste fazer-me, e agradeço-te teres sido sincero, a verdade, é que comigo sempre foste gentil. Apesar dos meus vinte e nove anos, eu era uma menina que tinha passado por uma experiência terrível, e que nada sabia dos jogos do amor. A tua atitude entrou no meu coração e ele encheu-se de amor por ti. Mas os meses passaram, e tu não davas nenhum sinal de teres qualquer sentimento por mim que não fosse o cumprimento rigoroso do que tinha sido assinado naquele maldito acordo pré-matrimonial. Parecia que para ti só importava o Pedro e agora percebo que afinal era ele que tu querias, e não eu. 
- Não...
- Chiu! Agora sou eu que te peço, deixa-me continuar. Se é hora de abrir a alma e alijar mágoas, que o seja para os dois. Eu estava perdidamente apaixonada, mas tu não me davas nada a não ser as horas loucas na cama. Eu ansiava por amor e tu davas-me presentes, dinheiro e sexo. Suponho que seja o que qualquer homem dá à amante, não à sua esposa. Convidavas-me a acompanhar-te nas viagens, mas não me falavas dos teus projetos, muito menos dos teus sonhos. Nunca me disseste se estavas feliz, se querias ter mais filhos, nunca me disseste uma palavra que trouxesse alguma esperança ao meu coração enamorado. Daí que eu todo este tempo, eu nunca me senti verdadeiramente como tua mulher, mas sim como algo que tu compraste. E é isso que me transtorna e me atormenta.




Bom amigos, devem ter verificado que nos últimos dias têm saído dois capítulos por dia. Isso aconteceu porque eu queria que esta história terminasse dia de Santo António. Daí que felizes ou infelizes, o Pedro e a Joana vão dizer-nos adeus amanhã. Amanhã é dia 13 e dizem os supersticiosos que é dia de azar. Será que a história vai acabar mal?


FELIZ DIA DOS NAMORADOS para os/as amigos/as do outro lado do Atlântico.

11.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVII



Por fim decidiu-se. Fosse o que fosse que estava a acontecer, quanto mais depressa enfrentasse o problema, menor seria a sua angústia. Sentou-se na cama, e acariciou-lhe a cabeça.
- Bom, querida, não precisas chorar, não queres sair, não saímos.
Era a segunda vez que o marido a chamava de querida, e tal como da outra vez, aquela simples palavra soou-lhe como uma carícia. Pedro sempre a tratava pelo nome. Nunca lhe falara de amor nem mesmo nos momentos de maior intimidade.
-Desculpa, -disse olhando-o por entre as lágrimas. Não queria fazer esta figura mas não sei o que se passa comigo.
Ele empurrou-a levemente e estendeu-se na cama a seu lado.
A sua voz soou quase num murmúrio:
-Será que não sabes mesmo, ou não queres contar-me? – Lembras-te da noite do nosso casamento? Também nesse dia estavas a chorar. Nessa noite pedi-te que confiasses em mim e me contasses o que te atormentava. E tu confiaste. Quando foi, ou de que modo te magoei, para que tenhas deixado de confiar em mim?
-Nunca deixei de confiar em ti, -disse num soluço.
-Então o que há de diferente hoje, para que não me contes o que te atormenta?
- Naquela noite o que te contei reportava-se a algo que me atormentava sim, mas era um facto passado. Isto é pior, porque está relacionado com o nosso presente e futuro.
-Então confia em mim, e diz-me. Duas cabeças pensam melhor que uma só. Seja o que for, tem que haver solução.
Como não obteve resposta, ele arriscou num sussurro que ela mais adivinhou que ouviu.
-Estás cansada do casamento e queres o divórcio?
-E tu, estás? – Perguntou por sua vez
-Não. Mas não sou eu que estou a chorar. E tu não o fazes por capricho, gratuitamente. Há dias que noto que estás diferente. Nota-se no teu rosto que alguma coisa te atormenta.
- Tu também estás diferente. Também andas preocupado e não me dizes nada.
- E como queres que não ande preocupado, se dia a dia te vejo mais triste, mais pálida? Os teus olhos perderam o brilho o teu sorriso é forçado, não há alegria em ti. É preciso ser cego para não ver que estás infeliz. Pensei que estavas farta do casamento, de mim, sei lá. Receio que estejas à espera dos dois anos para entrares com o pedido de divórcio.
- E em que é que isso te afeta? O nosso casamento não é um negócio? Os negócios nem sempre correm bem, - disse entre soluços.


Parece que os dois caíram num impasse. Ela não lhe vai dizer que está grávida. A menos que ele abra o coração. Mas será que ele vai ter coragem de lhe contar a verdade escondida por trás daquele pedido de casamento?
O que vos parece?