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21.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVIII



João dormiu pouco e mal não só porque o sofá era pequeno para o seu tamanho, mas porque levou a noite atento à jovem. Às sete horas levantou-se, foi ao armário buscar as suas roupas e dirigiu-se ao outro quarto para tomar banho e vestir-se.

Voltou ao quarto principal e encontrou Teresa já acordada.

- Bom dia. Vou fazer o pequeno almoço, mas gostaria que me dissesses o que devo fazer para ti.

- Na verdade pensava ir tomar banho primeiro.

- Não acho bem ires tomar banho sozinha. É melhor tomares o pequeno-almoço, estás há muitas horas sem comer. Depois às nove horas quando a Sandra entrar, ela vem para cima e ajuda-te com o banho e com tudo o que precisares. Sandra é a enfermeira. E então, o que te apetece comer?

-  Se tiveres cereais podes preparar-me uma taça, mas primeiro preciso tomar o comprimido do enjoo. Só um quarto de hora depois posso comer – disse abrindo a gaveta e mostrando-lhe a lamela de comprimidos.

Ele foi buscar uma garrafa de água e um copo, e depois que ela tomou o comprimido olhou o relógio.

- Se não precisas de mais nada descansa. Quando forem horas trago-te os cereais.

-Não preciso de nada, obrigado.

Ele saiu e já na cozinha preparou duas sandes mistas, encheu um copo de sumo de fruta e sentou-se a comer.  Quando terminou olhou o relógio e viu que ainda tinha tempo para um café. Depois pegou um tabuleiro colocou-lhe em cima uma taça, juntou a leiteira com o leite bem quente, o pacote de cereais um guardanapo e a colher. Com tudo no tabuleiro voltou ao quarto, e poisou-o em cima da mesa de cabeceira. Logo ajudou-a a sentar-se no leito, arranjando-lhe as almofadas atrás das costas e só depois lhe colocou o tabuleiro no regaço.

- Não preparei os cereais antes de os trazer, porque ficariam moles e suponho que gostes deles estaladiços. Enquanto comes, vou telefonar à minha assistente. Qualquer coisa que precises chama, está bem?

- Desculpa o incómodo, - disse de olhos baixos como se o que ia dizer a envergonhasse - mas podes trazer-me, um balde para aqui? Tenho receio de começar com náuseas e não ter tempo de chegar à casa de banho.

Ele saiu e voltou pouco depois com um balde grande que encontrara na arrecadação do material de limpeza.

- É muito grande, mas foi o único que encontrei. Quando a Sandra vier,  verá o que podes precisar e manda comprar, se não houver lá em baixo na enfermaria. Agora se me dás licença vou telefonar à Olga.

Já no escritório pegou no telefone e depois de saudar a sua assistente pediu.

- Liga para o posto médico e diz à Sandra para vir ter contigo. E quando ela aí chegar venham as duas para cima.

- Aconteceu alguma coisa? Estás doente?

- Não. Mas por favor, faz o que te peço e venham o mais rápido possível. 

Desligou o telemóvel e os seus olhos caíram sobre o envelope fechado em cima da secretária. Pensou que tinha que o ler, mas de momento não tinha serenidade para isso. Abriu a gaveta e guardou-o de novo.

 

27.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XI




No dia seguinte, à noite. Sandra estava sentada no sofá, as pernas debaixo do corpo, coberto por um robe de seda azul-celeste. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, e olhava sem ver  a televisão, na qual passava um filme. Ouviu ao longe um som de campainha, mas absorta nos seus pensamentos, nem se apercebeu de que não era no filme, já que a TV estava sem som.
A campainha voltou a tocar, desta vez, mais insistente, e ela pôs-se de pé, e descalça dirigiu-se à porta. Abriu-a um pouco sem tirar a corrente, e arregalou os olhos de espanto ao ver Gabriel do outro lado. Voltou a fechar a porta, tirou a corrente e então abriu-a.
- Boa-noite – saudou ele.
- Boa-noite, - respondeu sem atinar com o motivo daquela visita
- Posso entrar? Preciso falar contigo.
Sem responder, ela afastou-se para o deixar passar, fechou a porta e dirigiu-se para a sala.
 - Desculpa, sei que é tarde, mas como disse preciso falar contigo.Liguei-te algumas vezes mas não atendeste, e temos de conversar.
Olhou-a da cabeça aos pés. Onde tinha ficado a mulher rebelde, bela e sensual que ele vira no dia anterior na pista de dança? A mulher que estava na sua frente,  parecia uma miúda perdida e sem proteção.
 Sentiu um desejo estranho de a abraçar, de lhe dar a proteção que ela precisava, mas não se atreveu sequer a estender a mão para lhe tocar. Cerrou os olhos, confuso. Que raio se estava a passar com ele?
- Deve estar no silêncio, não esperava ligações. Quer tomar alguma coisa? Não tenho bebidas alcoólicas, mas um café ou chá, posso fazer num minuto.
-Aceito um café, obrigado.
- Vou buscar.
Afastou-se em direção à cozinha. Ele recostou-se no sofá e cerrou os olhos. Sentia-se bem ali. A sala era pequena, mas confortável, e tinha um não sei quê de lar que lhe agradou. Minutos depois, ela voltou com uma bandeja onde fumegava uma chávena do aromático café, e um açucareiro. Sem usar o açúcar, ele agarrou na chávena.
- Não me acompanhas?
- Nunca bebo café à noite.
Decorreram uns minutos em silêncio. Depois ele perguntou:
- Foste ver o teu pai?
- Fui.
- E como estava?
- Como queria que estivesse? Cada dia mais desmoralizado, - disse sem evitar que uma lágrima lhe rolasse pela face.
- Olha, é por isso que vim. Falei com o Pedro, um amigo meu, que é investigador da Judiciária. Ele diz que oficialmente não pode fazer nada, houve uma investigação e uma acusação, o julgamento foi feito a sentença está a ser cumprida. Para reabrir o processo seria necessária uma nova prova, ou um indício muito forte de erro judiciário.
- Eu sei. Foi o que me disse o advogado.
- Mas o meu amigo, está disposto a ajudar-nos, embora não de forma oficial, sob uma condição.
Ela levantou para ele os seus belos olhos verdes, num olhar interrogativo, mas não fez perguntas.
- Ele está livre amanhã. Quer conhecer-te, falar contigo. Só depois decide se nos vai ajudar ou não. Penso que ele precisa ter a certeza de que tu estás certa da inocência do teu pai, não sei. Sei que foi a condição que impôs. Achas que nos podemos encontrar, com ele, por exemplo às dezasseis horas?
- Sim, claro que sim? Onde?
- Ainda não pensei. Ele sugeriu um local sossegado, onde pudéssemos falar à vontade.
- Aqui?
-Não, aqui não, - respondeu rapidamente sem nem mesmo pensar, porque lhe repugnava a ideia de levar outro homem para a casa dela.  Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vou pensar e telefono-te amanhã perto do meio-dia. Vai descansar. 
E saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a atordoada. Que se passaria com ele? Será que tinha mesmo acreditado na inocência do pai e ia ajudá-la?
Ou era uma manobra para afastar de si as suspeitas? Não sabia o que pensar mas uma coisa tinha ficado clara. Ele não iria despedi-la. E isso dava-lhe uma certa tranquilidade.


5.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVI





Abriu a porta, entrou e como era seu hábito, cerrou-a com um toque de calcanhar. Tirou o telemóvel do bolso do casaco, despiu-o e pendurou-o no bengaleiro. Então reparou num papel em cima da mesa de entrada. Aproximou-se, e verificou que se tratava da fatura de uma compra de produtos de limpeza, que a mulher-a-dias lhe tinha deixado.
Há anos que tinha aquela empregada, era pessoa em quem tinha confiança total. Tinha cuidado da sua mãe, e anos mais tarde, quando comprara aquela casa, contratara-a com a certeza de que podia estar descansado que a casa estaria sempre impecável.
Raramente a via, ela chegava sempre depois dele ter saído. Levantava a chave no condomínio e voltava a deixá-la lá, quando se ia embora. No final de cada mês, ele deixava o dinheiro ali, e o recibo que ela assinava e deixava no mesmo sitio. E quando era necessário fazer alguma compra, fazia-a e deixava-lhe ali a fatura. No dia seguinte encontrava o dinheiro. 
Foi até à sala, e deixou-se cair no sofá. Não parecia o homem forte e dominador que geria com mão de ferro, os seus negócios. Dirigiu-se à estante mas não pegou em nenhum livro. Ficou parado durante uns segundos, e depois, abriu o armário que ficava na parte inferior da estante, e retirou um saco de pano preto com uns desenhos circulares em cinzento.
Voltou para o sofá. Abriu o saco e retirou uns ténis infantis, azuis-escuros com estrelas nas laterais.
Durante uns momentos, deu-lhes várias voltas nas mãos. Estava pálido, e o seu rosto estava tão tenso que  dir-se-ia  ser de pedra.
Depois pressionou-os contra a palma da mão, e os ténis faiscaram como se tivessem uma corrente luminosa à volta da sola.
Decorreram largos minutos, com o homem fixando as luzinhas como se estivesse hipnotizado. Finalmente abrandou a pressão, e ao apagarem-se as luzes, como que voltou à terra. Respirou fundo e voltou a guardar os ténis no saco de pano.
Se alguém tivesse presenciado aquela cena, decerto ficaria perplexo. Como é que um homem, que todos conheciam como um implacável homem de negócios, ficava assim emocionado à vista de um simples par de ténis?  Que fetiche era aquele?
 Recostou a cabeça no enorme sofá branco, fechou os olhos, e durante um bom tempo, permaneceu assim, relembrando os dois anos que vivera com Teresa. Agora, à distância, dava-se conta de que aquela época da sua vida  fora a única realmente feliz que vivera. Agora que cumprira as juras de criança, que a ambição de riqueza já estava aplacada, chegava à triste conclusão que toda a fortuna amealhada, não servia para comprar um único dia de felicidade.  E afinal para quê? Se a única pessoa a quem gostaria de dar uma vida de luxo, não tivera forças para viver até esse dia.

17.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXV




Eram exatamente nove horas, quando Ricardo tocou a campainha.
Isabel abriu a porta e conduziu-o para a sala.
- Senta-te. Desculpa, não tenho bebidas alcoólicas, mas posso oferecer-te um café.
-Obrigado mas acabei de jantar. Prefiro que me digas o que decidiste.
- Antes de te dar uma resposta temos que esclarecer alguns pontos. Disseste que o casamento será real e não apenas nominal. É assim?
- É. Disse-te que seremos uma família.
- E como sabes, se somos compatíveis? Imagina que casamos e não consigo ter intimidade contigo. Já pensaste nisso? Ou acreditas que és tão irresistível, que não há hipótese de isso acontecer?
- Bom, e onde é que isso nos leva? Queres que façamos a experiência, antes de me dares a tua resposta?
- De modo algum – apressou-se a dizer vermelha que nem papoila. – Mas quero que me beijes. Porque se não formos compatíveis com um simples beijo, não haverá casamento, ou pelo menos não tal como o desejas.
Tinha razão. Por muita vontade que ele tivesse de formar uma família, (e pensava nisso todos os dias, depois da conversa com Artur)  e dar um lar à menina, se entre os dois não houvesse química, um casamento estava fora de questão. Pôs-se de pé e avançou para ela. Apesar do seu metro e oitenta e quatro, não era muito mais alto que Isabel que ultrapassava o metro e setenta. Rodeou-lhe a cintura com um braço e puxou-a para si. Com a outra mão segurou-lhe o queixo e aproximou o rosto do seu. Por uma fração de segundo os seus olhos encontraram-se. Ele queria ler nos olhos dela, expetativa, desejo, algum sentimento que lhe desse uma ideia do que aquela proximidade lhe provocava, mas ela fechou-os e aguardou, os lábios trémulos, o corpo tenso, o momento que se aproximava. Por um momento, ele receou que o seu beijo não fosse tão bom quanto ela desejava. O teste era muito importante para o futuro dos dois, e ele desejava que corresse bem.
Com uma ligeira pressão, fez com que os corpos se tocassem. Ela conteve a respiração e entreabriu os lábios. Ele inclinou a cabeça, e beijou-a. Não um beijo apaixonado, mas um suave roçar dos lábios inicial, para depois intensificar o beijo, brincando com os seus lábios, provocando e tentando dar-lhe o máximo prazer.
De súbito com um suspiro o corpo dela, qual leão adormecido, que desperta faminto, fez com que  levantasse os braços para lhe acariciar a nuca, enquanto se roçava descarado no corpo masculino.
 Ele aprofundou então o beijo, a sua língua invadiu a boca feminina, saboreando a sua doçura, mas a reação foi tão intensa que logo se arrependeu. O que era aquilo? Jamais um simples beijo o excitara tanto. Sentiu um desejo tão forte, que a sua vontade era deitá-la no sofá e fazer amor até cair de cansaço. Aquilo nunca lhe acontecera antes, com qualquer mulher, e ele tivera muitas nos últimos anos. O mais suavemente que pôde,  afastou a jovem que protestou relutante. Voltou-lhe as costas e caminhou até à janela. Não queria que ela visse o estado de excitação em que se encontrava. Durante largos segundos ficaram em silêncio, cada um tentando digerir as emoções que aquele beijo despoletara.
-Creio não haver dúvidas sobre a nossa compatibilidade. A química entre nós não podia ser maior – disse por fim voltando para o sofá. – Então vamos lá saber o que decidiste.
 - Aceito a tua proposta se aceitares as minhas condições. Suponho que terás as tuas aventuras, talvez até uma amante. A partir do momento em que decidirmos avançar para o casamento, terás que ser fiel. Não suporto traições. 
- Sem problema. Se me conhecesses, saberias que considero a traição a coisa mais abjeta da vida.
-Muito bem. O casamento terá que ser o mais intimo possível, uma ida ao registo com as testemunhas exigidas por lei, e nada de lua-de-mel.




30.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE IX


Ricardo estacionou o carro no seu lugar na garagem situada na cave do prédio onde vivia e entrou no elevador que o levaria ao seu apartamento no décimo piso de um moderno edifício no Parque das Nações.
Entrou em casa, poisou as chaves e o telemóvel no móvel de entrada, dirigiu-se à sala e preparou uma bebida. Com o copo na mão foi até à janela. A luz da lua dava reflexos de prata às águas do Tejo. Lá em baixo as pessoas aproveitavam a noite quente de final de Setembro, para andar na rua. Jovens namorados, ou recém-casados passeavam abraçados, indiferentes aos solitários que com eles se cruzavam a caminho de casa ou de algum bar.
Respirou fundo, deu a volta e foi-se sentar no enorme sofá que ocupava a parede fronteira à janela. Bebeu um gole do Whisky, e poisou o copo em cima da mesa. Estendeu as longas pernas, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.  Estava muito cansado. De manhã tivera que ajudar a reparar uma limusina, de tarde por duas vezes tivera que dar uma ajuda na oficina, primeiro com o Porsche, depois com o Bugatti. Os três estavam alugados para um casamento no próximo Domingo e os três enfermavam de pequenos problemas, cuja reparação ele quisera visionar pessoalmente. Pelo meio tivera aquela carta maluca e aquele encontro com uma mulher que dizia que ele tivera uma filha. Lembrou-se da raiva com que tinha saído da empresa para se dirigir à morada da carta. Sentia-se capaz de fazer qualquer disparate. Mas estranhamente a sua raiva não se manifestou devastadora, talvez por causa da referida mulher. Havia nela uma estranha calma, uma espécie de resignação que o impressionou e quebrou um pouco da sua raiva.
Depois, se aquela carta era verdadeira, se aquilo não era um esquema qualquer, se aquela Susana existira mesmo e se suicidara, ela não tinha culpa. Limitava-se a aceitar como verdadeiras as loucuras da irmã. Mal regressara ao escritório, telefonara ao seu amigo Artur Sampaio, deu-lhe o nome da mulher, a morada e pediu uma investigação tão rápida quanto possível sobre ela e sobre uma possível irmã. Artur era um ex-inspetor da polícia Judiciária, reformado, que entretinha as suas horas de ócio, com investigações para os amigos. Em poucos dias ele iria saber tudo sobre elas, tinha a certeza.
 À tarde estivera num laboratório e conseguira marcar o exame de ADN. Antes foi informado de que não era necessário a recolha de sangue, o exame podia ser feito com a saliva dos intervenientes ou cabelos. Eles tinham uns kits com o material de recolha e as instruções, podia levar, fazer a recolha e ir entregar, mas ele era um pouco desconfiado, preferiu marcar o exame de sangue para o dia seguinte e telefonar à tal Isabel a dar-lhe a informação do laboratório e da hora do exame.
Habitualmente chegava cedo a casa, tomava banho e saía para jantar, mas como saíra tarde da empresa, comera duas sandes de carne assada no café restaurante onde os seus empregados costumavam almoçar, pois não lhe apetecia jantar.
Levantou-se, apagou a luz da sala e foi para o quarto. Despiu-se, foi à casa de banho, tomou um duche e lavou os dentes, e voltou ao quarto. Despiu o roupão e completamente nu, deitou-se. Cinco minutos mais tarde, tinha adormecido.


23.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE IX





Chegara finalmente o dia do aniversário de casamento de Francisca e Afonso.
Segundo a vontade dos dois, era uma festa intima, que contava com a presença dos filhos, e netos, da nora e do genro, dos respetivos pais, e dos dois advogados, do escritório do Afonso com as respetivas esposas. 
Simão chegara perto do meio-dia, e os pais estavam muito contentes por tê-lo enfim de volta, após aqueles longos cinco anos.
As prendas que os filhos trouxeram, deixaram-nos encantados, pelo significado de cada uma delas. Uma em especial, tinha-os emocionado. Tratava-se de um quadro, que reproduzia uma foto tirada há muitos anos atrás por Afonso. Francisca, bem mais jovem, estava sentada no sofá, com Ana ao colo, tendo Simão de pé, a seu lado, enquanto João e Marta brincavam no chão à sua frente.
Era um quadro muito enternecedor, e Simão reproduzira fielmente as expressões de cada um, deixando não só os pais mas os próprios irmãos muito emocionados.
Ele próprio, sentia o mesmo. Estava feliz por estar com os irmãos e sentia-se encantado com os sobrinhos. Dos irmãos, Matilde era a que se mostrava mais feliz com a sua presença. Pendurou-se no seu braço e disse que não mais o largaria, se ele não prometesse que voltava para assistir ao seu casamento.
- Claro que virei ao teu casamento, maninha. Mas esperava mais da minha irmã mais nova.
- E que esperavas?- Perguntou sorrindo
-No mínimo que me convidasses para padrinho.
- E como ia fazê-lo se tu nem apareces nem notícias dás? És um mau irmão. – Respondeu como quem amua
- Tens razão, -disse com seriedade. Ultimamente não me tenho portado muito bem convosco. Um pouco pelo trabalho, tenho uma importante exposição dentro de dez dias, mas também um bocado por preguiça. E depois, todas as semanas falo com a mãe, e ela sempre diz que estão todos bem.
- E é sério o que disseste? Queres mesmo ser o meu padrinho?- Perguntou esperançada. E acrescentou. - Eu ficaria muito feliz.
- Pois então, deixa de me enrolar e faz o convite, - disse sorrindo.
Feliz, ela abraçou-o e disse:
- Obrigado mano. És um anjo. Vou contar à mãe.
Ele deu uma volta pelo salão e depois saiu para o jardim.
Apesar de tudo estava contente por ter vindo. Era sempre um balsamo para o seu coração observar como os pais se amavam e eram felizes.
Um amor assim era o seu sonho de felicidade.
Olhou o baloiço, o escorrega novo, e pensou que os pais deviam ter comprado aqueles para os netos. Mas embora estivessem velhos,  ele teria gostado, de ter encontrado os da sua infância.
- Um cêntimo pelos teus pensamentos.
Voltou-se devagar.- Ana sorria-lhe.
- É muito pouco. Merecem mais – disse fixando-a.
Ela riu.
- Estava a observar-te. Estás muito sério. Pensando em alguém que ficou em Paris?
- Não tenho ninguém em Paris.

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22.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE VII





 Dirigiu-se ao sofá. Pegou na camisa anteriormente atirada para ali, sacudiu-a e pendurou-a no bengaleiro, Despiu as calças e fez o mesmo. Depois, encaminhou-se para a casa de banho.
Enquanto escovava os dentes lançou uma mirada rápida ao espelho. Tinha trinta e um anos e sentia-se velho. Nada na vida lhe interessava, a não ser a pintura. Ela era de momento o único sentido que encontrava para a sua existência. Desde que descobrira, a força do amor que trazia dentro do peito, sentia-se o maior dos canalhas.
Como é que aquilo tinha acontecido com ele? Desde menino sempre fora muito responsável. Inteligente e com muito gosto pelas artes. Por isso, na hora de escolher o seu futuro, escolhera Belas-Artes. Depois do curso acabado viera para Paris. Inicialmente, não pensava ficar mais de seis meses. Mas aí os seus irmãos João e Marta casaram. Os dois eram muito unidos. Quando eram crianças, estavam sempre juntos nas brincadeiras. Engraçado que começaram a namorar quase ao mesmo tempo e na hora de casar, tinham decidido fazer a cerimonia, juntos. 
Tudo aconteceu na festa desse duplo casamento, há cinco anos atrás. Ela estava linda. E apresentara-lhe o namorado. Depois, graciosamente abraçara-o e perguntara se não queria dançar com ela. Antes tivesse dito que não. Mas nessa altura, ele ainda não tinha descoberto que a amava. Descobriu-o com a reação do seu corpo enquanto ela confiante se deixava levar por ele, embalada pela música. 
Com a dor que sentiu no peito, quando pensou que nunca seria sua.
Depois daquela descoberta, procurou afastar-se dela. E nessa mesma noite decidiu que ia ficar a viver em Paris. Teve que lutar contra os argumentos do pai, e a ternura da mãe. No dia da partida, quando se despediam, e ele se dispunha a depositar no seu rosto um casto beijo de despedida, a mãe disse qualquer coisa, e ao tentar virar-se o beijo que ele  lhe ia depositar no rosto, aflorou a sua boca. Foi qualquer coisa tão leve como um suspiro, e tão suave como o roçar de uma pena. Ela mal o deve ter sentido, e não lhe ligou qualquer importância, mas ele carregava aquela memória, como um estigma.
Estendeu-se no sofá. Queria dormir. Esquecer tudo o que o atormentava. Mas a memória não lhe obedecia.
Tinham passado cinco anos e desde então, não voltara a casa. Agora tinha de ir. Os seus pais faziam vinte e cinco anos de casados. Eram as suas bodas de prata. Ele não podia faltar. Se o fizesse, eles sentir-se-iam rejeitados. A mãe, ficaria muito magoada. E Afonso, também não merecia. Ele fora para ele o mais amoroso, compreensivo e amigo, dos pais. Nunca em qualquer momento da sua vida, sentiu que ele não era o seu pai biológico. Com o seu irmão João fora igual. Era um homem admirável que sempre se preocupou não só com a felicidade da esposa, como com a dos seus filhos. Por tudo isso ele sabia que tinha de ir. Mas não sabia se teria forças para continuar a amordaçar o coração. Extenuado acabou por adormecer.

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A maioria percebeu que se tratava de Simão.  Parabéns







11.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVII

Não abriu a porta. Bateu com os nós dos dedos.
-Entre
Entrou e fechou a porta atrás de si, ficando na expectativa.
Afonso deu a volta à secretária e dirigiu-se para ela.
-Senta-te. – Disse indicando-lhe o sofá. Esperou que ela se sentasse e fez o mesmo. Continuou.
-Deves estar cansada, não é fácil cuidar de quatro crianças tão pequenas. Podias ter aceitado a ajuda da minha irmã.
-A Graça vai embora depois de amanhã. Tenho que me habituar. E depois tenho a ajuda de Simão, – respondeu.
-Reparei que ele não é como o irmão. Parece triste.
-Sempre foi uma criança mais comedida nos sentimentos. E soube há poucos dias, que o pai morreu. Tinha-lhes dito que andava em viagem, mas ele ouviu uma conversa da avó com uma vizinha e questionou-me.  Tive que lhe contar a verdade. É muito responsável e acredita que tem de cuidar de mim e do irmão.
- E eu? Sou um intruso que odeia?
-De modo algum. Mas não esperes que seja tão espontâneo como o irmão. Ele é cauteloso. Tem de sentir que o chão onde põe os pés, é firme. Mas se percebe que assim é e se entrega, é um menino amoroso.
- Bom, sendo assim espero ganhar a sua confiança em breve. A Ana e a Marta, aceitaram-te como se estivesses com elas desde que nasceram.
- É natural, eram tão pequenas quando a mãe morreu que nem devem recordar-se dela. O mesmo acontece com João que só conheceu o pai por fotografia. O Simão é mais velho,  lembra-se, amava o pai, e tinha por ele uma grande admiração.  
Falavam nas crianças, chamando-as pelos nomes. Nem um nem outro se atreviam a dizer “nossos filhos” o que pressupunha uma intimidade que não havia entre eles, mas também não diziam, os teus filhos, os meus filhos, para que o outro não pensasse que não cumpriam a sua parte no acordo. Francisca quebrou o silêncio que se instalara.
- A Graça disse que me querias falar. Passa-se alguma coisa?
- Amanhã, é o dia dos meus ex-sogros virem passar o dia com as netas.
Propositadamente não lhes falei de ti nem das minhas intenções de voltar a casar. 


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8.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XI


Agora ali estava ela, assustada com a rapidez com que tudo acontecera, mas decidida a cumprir a sua tarefa, tal como se propusera. Acabara de tomar banho e preparava-se para trocar de roupa. Antes porém dirigiu-se à porta e fechou-a à chave. O quarto partilhado com o homem, tinha-a deixado surpresa e inibida. Não estava no contrato. Tinham acordado que ficariam em quartos separados. Aceitara aquele estúpido contrato, como quem aceita uma missão. Pelos filhos, e também pelas meninas. Tinha imensa pena das crianças que ficam sem mãe. Iria tratar delas o melhor que sabia, para que não lhe sentissem a falta. Mas não se sentia capaz de partilhar a sua intimidade com um desconhecido.
Porque no fundo, era isso que Afonso era. Um desconhecido, com quem falara meia dúzia de vezes naqueles três meses que antecederam a cerimónia, com quem assinara um contrato de trabalho. Ou aquele casamento podia ser considerado outra coisa que não um contrato de trabalho? E ela não se sentia capaz de prescindir da sua privacidade, nem era mulher capaz de a partilhar com o patrão, ainda que esse patrão lhe tivesse posto uma aliança no dedo.
Porém Afonso tinha razão. Era capaz de se tornar esquisito para as crianças, que ficassem em quartos separados.  
Olhou à sua volta. O quarto era amplo. Tinha a porta por onde entrara, a porta que dava para a casa de banho e… outra porta?
Vestida, mas ainda descalça, foi até lá e experimentou rodar o puxador. A porta abriu-se e Francisca encontrou-se num quarto mais pequeno,  com um berço de verga, um sofá, uma prateleira com alguns livros, e junto à janela uma escrivaninha e uma cadeira 
“Deve ser o quarto, onde dormiam as meninas nos primeiros meses de vida, para estarem mais perto da mãe” – pensou.
E nesse mesmo momento pensou que aquilo era a solução para o seu problema. Ela poderia ficar naquele quarto. É certo que teriam de partilhar a casa de banho, que teria de passar pelo quarto principal para sair e entrar, já que não havia outra porta, mas ainda assim ficava mais resguardada dos olhares masculinos, era menos constrangedor,   
Agora, só precisava coragem para falar com Afonso


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Nota pode parecer que saltei um capitulo. mas não é assim. O que antecedeu este momento depois do episódio anterior será recordado pelo Afonso


17.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXI


Clara deixou-se cair no sofá, uma lágrima silenciosa rolando pela face. Ele não precisava dizer nada, para que ela soubesse o que tinha acontecido.
Ele desejava-a, isso era mais que evidente, mas a palavra amor assustara-o. Ricardo não acreditava no amor e talvez o seu coração nunca viesse a senti-lo, mas o seu corpo, as suas hormonas, não precisavam de amor para entrarem em ação. E ela amava-o como nunca amara alguém. Não que tivesse uma grande experiência amorosa. Amou Júlio, ou pelo menos pensava que o amava, quando se lhe entregou, e quando aceitou casar com ele. Júlio era pois o termo de comparação, e o que sentia agora, não se podia comparar, era algo avassalador. Um sentimento muito mais forte, um desejo dele que a assustava e envergonhava. Mas dar livre cursos aos seus sentimentos, sabendo que ele não a amava, era oferecer-se como voluntária para sofrer. Por isso chorava. Por ela e por ele.
Levantou-se para sair da biblioteca e então ele virou-se.
- Por favor não te vás embora. Precisamos ter uma conversa séria.
Ela voltou a sentar-se. Cruzou as mãos sobre o regaço e aguardou.
- Penso que já me conheces. Não sou homem de rodeios, nem de dizer aquilo que não sinto, só porque, como agora se diz é politicamente correto. Quando te propus casamento, foi como sabes para que tivesse alguém que tomasse conta dos meus filhos e os pudesse defender de qualquer perigo enquanto estava fora. Não pensava em ti como uma esposa mas como uma empregada, com quem tinha celebrado um contrato vantajoso, mais para mim do que para ti.
Porque eu poderia continuar com a minha vida como até aí, e tu ficavas com a tua vida em suspenso por quinze anos. Mas enfim se tu aceitavas, o problema era teu, para mim estava tudo bem.
Mas depois do casamento nada correu como eu esperava. Desde logo, porque tu não te limitaste ao teu papel de cuidar deles. Começaste a questionar o meu amor por eles, e obrigaste-me a encarar a minha vida por um prisma diferente. 
O que sabia de ti, pelo relatório do investigador, e o que observava diariamente, (o teu amor pelo teu irmão, tão grande que por ele nenhum sacrifício era impossível), a maneira afável como tratavas a Antónia, o carinho que demonstravas pelos meus filhos, a sensibilidade com que trataste da minha partida, não só aconselhando-me, como preparando aquele vídeo que foi o meu suporte, durante os últimos seis meses, cada vez que me sentia psicologicamente mais débil, fizeram com que ganhasses a minha admiração.
A pausa que se seguiu foi longa. Clara não se atreveu a dizer nada. Sentia que ele estava a seguir uma linha de pensamento, e esperou paciente.
- Pelo que te contei, do que foi a minha vida amorosa, deves saber que a minha opinião sobre as mulheres é péssima, e portanto um casamento no papel, não me afetava nada, antes pelo contrário servia-me de escudo contra possíveis tentações. Mas quando embarquei, tu já não estavas no mesmo patamar das outras mulheres. Já eras alguém especial, uma exceção para confirmar a regra.
E durante estes seis meses, as mensagens, que trocámos, fizeram-me repensar toda a minha vida e as minhas ambições para o futuro.
Desde logo, estou a pensar deixar a vida militar, e enveredar por um novo projeto profissional, que não me afaste de casa.
Se ficar em casa, estarei sempre ao lado dos meus filhos, e eles deixarão de precisar de ti para os amparar e proteger, porque eu estarei aqui para isso.
A jovem ficou lívida. Pensou que ele ia rescindir o contrato e sentiu um aperto no coração. Não pelo dinheiro. Estava no contrato que se ele o rompesse ela teria direito aos cem mil euros estabelecidos para o seu final. Porém naquele momento o dinheiro não lhe importava. Dinheiro nenhum do mundo pagava o amor que ela ganhara pelas crianças. E o delas por ela. Era cruel demais.
Mas então ele continuou, como se não se tivesse apercebido da emoção que as suas palavras tinham causado no espírito feminino.
- Mas eu nunca lhes poderei dar, aquilo que tu lhes deste. O amor de uma mãe. Então põe-se a questão da nossa vida pessoal. Tu és uma mulher muito bonita, que despertou a minha libido e o meu desejo. Pelo que ocorreu aqui há minutos, creio que também não te sou repulsivo. Estamos casados. Então porque não transformar aquele casamento de fachada, num casamento real?







10.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XII





Pouco passava das dez da manhã, quando um raio de sol, poisou sobre a face de Miguel, acordando-o.
De momento estranhou ter dormido vestido no sofá, mas logo a lembrança do que tinha acontecido na véspera, e de que não estava sozinho em casa o trouxe à realidade.
Levantou-se, sacudiu as calças, bastante enrugadas, passou a mão pelos cabelos e deu uma olhada rápida ao quarto, cuja porta se encontrava aberta. Estava vazio, a cama feita. Logo, a jovem teria acordado cedo.
Encontrou-a na cozinha
-Bom dia, - saudou olhando-a directamente, nos olhos, numa muda pergunta.
-Bom dia Miguel. Está tudo na mesma, como se tivesse a cabeça completamente oca.
Admirou-se com a sagacidade da jovem. Tinha lido nele como num livro aberto.
- Já comeu alguma coisa?
-Fiz umas torradas e um sumo de laranja.
-Bom. Vou tomar um duche e depois falamos.
- Algum tempo depois, regressou, envolto num roupão, o cabelo pingando, o rosto recém-barbeado.
- Tenho que ir ao quarto. Desculpe, mas é lá que guardo toda a minha roupa.
- Não precisa pedir desculpa. O quarto é seu. Aqui a intrusa sou eu, - respondeu a jovem. Preparo-lhe o pequeno-almoço. Torradas?
-Não. Só um sumo de fruta e café.
Quando voltou, já a jovem tinha o sumo pronto e preparava a cafeteira para o café.
Miguel sentou-se, rodou o copo entre os dedos e perguntou:
- Já tomou alguma decisão?
-Que decisão - retorquiu ela em sobressalto.
- Bom suponho que não estará disposta a ficar o resto da vida, sem  
memória. Penso que o melhor será procurar-mos ajuda especializada. Que me diz de consultar um psiquiatra? Ontem disseram-me que existe um, muito bom, aqui mesmo na cidade, - disse enquanto levava o copo de sumo aos lábios.
Reparou que a jovem estava lívida, os lábios trementes, e os olhos rasos de água..
Sentiu pena dela, mas que raio, ele não sabia como ajudá-la, e o tê-la trazido para casa talvez tivesse sido um erro. Ela era muito bonita, e ele era um homem. Quando os vizinhos soubessem que estava lá em casa, iam começar a falar. Ele nunca se preocupara com a sua reputação, mas ela era diferente. Era quase uma menina. Naquele momento, com o cabelo preso num gracioso rabo-de-cavalo, ninguém diria que tinha mais de dezasseis anos. Sobressaltou-se. E se era menor? Ainda se ia ver metido nalgum imbróglio.





8.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE X






Já era noite, quando Miguel estacionou o seu “carocha “ junto de casa. Enquanto recolhia as compras, olhou para a janela, e franziu o sobrolho ao ver a casa às escuras. Que teria acontecido? Teria a jovem ido embora sem lhe dizer nada? Apressado entrou em casa, acendeu a luz, e respirou aliviado ao vê-la a dormir no sofá com um livro aberto nas mãos.
“Deve ter adormecido de cansaço” pensou pousando os sacos em cima da mesa. Aproximou-se e tocou-lhe ao de leve no rosto. A jovem acordou assustada.
- Deixei-me dormir- disse, em voz baixa, como quem pede desculpa
- Eu vi,- disse ele sorrindo. E acrescentou:
-São horas de jantar, a pizza espera por nós. Separou dois sacos e estendeu-lhos.
- São para si. E pegando nos restantes dirigiu-se à cozinha sem esperar sequer um agradecimento. A jovem foi para o quarto e despejou os sacos em cima da cama. Olhou a roupa, e pela primeira vez esboçou um leve sorriso.
Depois dirigiu-se à cozinha onde Miguel acabara de pôr a mesa, e se preparava para abrir a caixa da pizza.
- Obrigado.
- Não vai passar a vida a agradecer-me pois não? Pense que eu sou seu pai, e como tal compete-me cuidar de si.
Foi ilusão sua, ou a jovem empalidecera? Preocupado perguntou:
-Que foi? Disse alguma coisa que não devia? Ou lembrou-se de algo? Parece que ficou perturbada.
- Não foi nada, disse a jovem sentando-se. Um leve arrepio, mas já passou.
 Miguel não insistiu. Limitou-se a partir e a servir a pizza, que comeram em silêncio. Terminado o jantar, a jovem lavou a loiça e Miguel enxugou-a e arrumou-a no sítio.
Depois, apontando um saco, junto à porta que dava para o quintal, disse:
-Nesse saco, está o detergente que pediu. E também um copo, uma escova e a pasta de dentes. Se precisar de algo mais, terá que me dizer, e amanhã compro. Nunca tive uma mulher em casa, não sei bem que coisas costumam usar. 
Calou-se. Se esperava algum comentário, não o recebeu. Retomou o monólogo. 
- Hoje é Segunda-feira, e às Segundas, é noite de tertúlia com os amigos. Quando quiser pode deitar-se. Não precisa esperar por mim, não sei a que horas, volto. O quarto tem chave, pode fechar a porta por dentro.  
A jovem mantinha-se calada, o que levou o homem a perguntar:
Ouviu o que eu disse?
Fez um aceno afirmativo.
-Então boa noite. Durma bem.
Boa noite Miguel- retorquiu docemente.



2.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE IV


                                          

Numa parede um grande sofá, parcialmente coberto por uma manta alentejana, onde pontificavam algumas almofadas redondas, de croché, amarelas e castanhas, parecendo gigantescos girassóis. Na parece contrária, um grande quadro com dois jovens, vestidos de uma forma esquisita, talvez um traje do século XVIII, ou princípio do século XIX,  e sob ele um aparador. No centro da sala, uma mesa, cujo pé fora um dia, duma máquina de costura. Por toda a sala, quadros espalhados mostravam bem qual a profissão do dono da casa.
Num canto na parede do sofá, uma porta, que Miguel abriu dizendo;
- O quarto.
Depois reparando que a jovem continuava a olhar o retrato acrescentou,
-Eram os meus avós.  
E pegando-lhe na mão disse;
- Venha ver o seu quarto. Como a casa só tem um, enquanto aqui estiver, fica no quarto, eu fico aqui no sofá. Não será por muito tempo, logo vai lembrar de tudo e voltar à sua casa.
Miguel sabia que isso não era certo. A jovem poderia levar muito tempo para recuperar a memória, e ele talvez estivesse a meter-se numa camisa-de-onze-varas, como diria a avó Ermelinda se fosse viva. Mas sem saber porquê, sentia necessidade de animar a jovem, tanto quanto sentia de a proteger.
O quarto era pequeno. Uma cama de ferro, pintada de branco, uma mesa-de-cabeceira antiga com tampo de mármore, sobre o qual um  candeeiro com abajur em bola, e um livro. Havia ainda  um pequeno armário de portas escuras e lisas.
Na parede sobre a cabeceira da cama, um crucifixo de madeira, completava a decoração do quarto.
-Vamos, - disse Miguel, venha ver o resto da casa. Afastou um cortinado junto ao aparador e seguiram por um largo corredor.
Nele em tábuas corridas amontoavam-se dezenas de livros, o que demonstrava o gosto de Miguel pela leitura.
- Esta é a minha biblioteca. Pode ler o que quiser, e quando quiser.
E aqui é a cozinha.
A cozinha como tudo na casa era pequena. Num canto o fogão, e a seu lado uma grade de madeira com algumas panelas e frigideiras penduradas. Encostado à parede interior uma mesa rectangular com duas cadeiras, e sobre a mesa, num nicho na parede, alguns pratos e copos. Na parede que dava para o exterior a um canto uma porta, depois um frigorífico, e quase junto ao fogão, uma janela. Sob esta o lava loiça.