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10.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVIII




Tiago era, antes de ir para a última missão, um jovem médico de trinta e três anos, um idealista, de um metro e oitenta e cinco, ombros largos e cintura estreita. No rosto moreno, de cabelos castanho-escuro, os olhos azuis, herança da avó materna, pareciam dois pedaços de céu, que faziam suspirar todas as mulheres que o viam. 

Filho único, com pais que o adoravam, com uma namorada que lhe dizia que o amava e que ele sonhava ser a sua companheira de vida e a mãe dos seus filhos e a profissão que sonhou ter desde menino, Tiago tinha todas as razões para se sentir um homem realizado e feliz. Todas menos uma. Não gostava da desigualdade que havia entre os povos africanos, e alguns asiáticos e o resto do mundo.

 Sentia-se um privilegiado e pensava que a sua missão no mundo não era tão egoísta que lhe fizesse ser feliz sem fazer nada, para melhorar de alguma maneira a vida daqueles para quem ela fora madrasta. Fez algumas missões, integrado nos médicos sem fronteiras e nunca se sentiu tão feliz, como ajudando os mais desfavorecidos da sorte.  Na última missão em que se integrou nessa organização, no Malawi, conheceu outros médicos que pertenciam a uma ONG alemã, fez amizade com um deles e disse-lhe que no futuro ainda iriam trabalhar juntos.

A missão correu bem, e no regresso Tiago pediu a namorada em casamento e decidiram casar no ano seguinte. Todavia quatro meses depois, Peter, o médico inglês, com quem fizera amizade no Malawi, telefonou-lhe. Iam partir em breve, para uma missão na República Centro-Africana e perguntou-lhe se ele queria ir.

Tiago não hesitou. Entrou em contacto com a ONG para ser integrado na equipa. Quando o disse à noiva, Sandra zangou-se. A missão acabaria quase na data do casamento e eles precisavam tratar de tantas coisas, não podia deixar todo o trabalho para ela. Tiago respondeu-lhe que os seus pais a ajudariam no que fosse preciso, e de resto a missão terminaria dois meses antes da data marcada, era tempo suficiente para tratarem do que faltasse e não cedeu.

Três meses depois Tiago era atingido pela explosão que o deixou quase morto. Evacuado de avião para o Hospital  na Alemanha,  foi submetido a várias cirurgias, inclusive algumas de origem estética para amenizarem cicatrizes. Esteve quase um mês em coma e mais quarenta e cinco dias até que os médicos decidiram que podia ser transferido para um hospital português.  O rosto não sofrera mais que uma pequena cicatriz na testa e uma maior do lado esquerdo da face que lhe atravessava desde o nariz até à orelha, mas que um cirurgião plástico tinha feito o "milagre" de a transformar em pouco mais de uma linha avermelhada, que provavelmente com o tempo mal se notaria.

A força da explosão apanhara-lhe o lado esquerdo do corpo e as costas. De alguma forma o braço protegera-lhe o peito, mas no ventre, do lado esquerdo as lesões desciam-lhe até à virilha.

Tanto na Alemanha, como em Portugal, os médicos asseguraram-lhe  que voltaria a andar, embora por causa das lesões sofridas no ventre, não tivessem certeza, de que a sua parte genital e o seu aparelho reprodutor voltariam a funcionar. Foi essa afirmação médica, que o deprimiu e lhe tirou a vontade de lutar para recuperar o movimento das pernas. 

De que servia voltar a andar se não voltasse a sentir-se homem. Afinal estava na fase melhor da vida, ia casar, sonhava com filhos. E como ia dar essa notícia à noiva? Não seria capaz. Todavia teria de terminar o noivado e afligia-se com o sofrimento que lhe ia causar. Felizmente, não teve de o fazer, pois Sandra ao saber que estava paralisado, disse-lhe que não tinha jeito para enfermeira, gostava de passear, dançar, era jovem, tinha uma vida inteira pela frente, não se ia prender a um inválido. 

Tirou o anel de noivado, pousou-o na mesa de apoio ao lado da cama e saiu sem esperar resposta, deixando-o a pensar na sua crueldade e em como poderia ter-se enganado tanto com o caracter da jovem.

Certo que ele mesmo já tinha decidido livrá-la daquele noivado, mas nunca o faria da forma tão cruel.




1.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXV




O quarto do doente encontrava-se quase às escuras, apesar de lá fora estar um belo dia de sol, embora frio como são os dias de Dezembro.

- Porque está às escuras? – perguntou a jovem voltando-se para o doutor Azevedo.

- Não sei. Vejo o quarto sempre assim quando o visito, e nunca me deixa abrir os reposteiros.

 Sem mesmo olhar o doente, Anabela dirigiu-se à janela e correu os pesados cortinados, deixando que a luz entrasse no quarto. Depois voltou para junto do médico e aguardou que ele a apresentasse ao doente, que se encontrava meio deitado numa cama articulada.

- Tiago, apresento-te a enfermeira fisioterapeuta Anabela Campos, que a partir de hoje, vai cuidar de ti e da tua recuperação.

- Não te chegou a experiência com as anteriores. Já te disse que não quero nenhuma enfermeira, deixem-me em paz, por amor de Deus.

-Já conversámos sobre isso, mas também já te disse, que nem eu nem teus pais, vamos compactuar com a tua autodestruição. E agora vamos almoçar. Porque não te ajudamos a sentar na cadeira e vais connosco para a mesa?

Tiago soltou uma gargalhada sarcástica e não respondeu.

Anabela fez sinal ao doutor para sair e logo que ficou sozinha aproximou-se da cama e disse:

-Sabe de uma coisa? O Tiago intriga-me. Como é que uma pessoa que sempre se notabilizou por querer melhorar a vida dos outros, não se importando de pôr a sua vida em risco, para salvar desconhecidos, não se preocupa com o mal que está a fazer aqueles que o amam? Imagina o sofrimento dos seus pais e restante família? 

Calou-se à espera de ser contestada, mas perante o silêncio do doente continuou:

Sei que fez a vida negra às enfermeiras que me antecederam e provavelmente está a pensar fazer o mesmo comigo, mas desde já o informo que a única maneira de fazer com que me vá embora, é recuperar a sua vida anterior, que é o mesmo que dizer, voltar a andar. Acredite, se os médicos dizem que o pode fazer, não me vou embora enquanto isso não acontecer, diga você o que disser. Por agora, vou deixá-lo, vou almoçar e só voltarei aqui se me chamar. Mas amanhã logo depois do pequeno-almoço começaremos com os tratamentos. Na sala ao lado se cooperar, ou aqui nesta cama se não o fizer.

Voltou-lhe as costas e preparou-se para sair.

-Feche as cortinas antes de sair, - ordenou o doente.

-Não o farei e mais, darei ordem para que sejam abertas todos os dias de manhã até ao anoitecer. E nem pense em contrariar as minhas ordens, porque tanto o Joaquim, como a mulher, foram avisados de que por agora só a mim devem obediência. 

- E se eu os despedir?

- Porquê? Porque querem o melhor para si? Seria uma injustiça que os jornais adorariam. O homem que todos admiram, o herói que o Presidente da República quer condecorar, não é mais que uma fraude, capaz de despedir empregados, porque não obedecem uma ordem disparatada.  

E sem esperar resposta, saiu fechando a porta atrás de si.

 

10.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XVII

 


-Tudo bem, doutor, a dona Angelina e o senhor Anselmo, já aí estão, mas como só acabam os tratamentos hoje eu vou dizer-lhes para irem primeiro fazê-los, e têm a consulta no fim.

-Obrigado. Vamos, Anabela?– perguntou afastando-se em direção ao seu gabinete.

Paula ergueu as sobrancelhas em sinal de interrogação e a jovem respondeu com um encolher de ombros, apressando-se a seguir o médico.

Já no gabinete, o médico despiu o casaco que pendurou num cabide, pegou na bata que lá estava pendurada e voltando-se para a jovem, disse:

-Sente-se por favor.

Anabela sentou-se sem saber bem, o que esperar daquele encontro, ou porque o velho médico queria tanto falar com ela. Sentou-se e aguardou que o clínico fizesse o mesmo.

- Decerto está curiosa para saber porque quero tanto falar consigo ao ponto de pensar em pedir à Paula que a chamasse, se o acaso não tivesse feito com que a encontrasse hoje.

-Na verdade…

-Já me explico. Mas antes devo dizer-lhe que tenho acompanhado o percurso da sua vida desde que saiu desta clínica para se formar, coisa que fez com brilhantismo. Conheço a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Também sei que tem estado de férias sem vencimento por causa de problemas familiares. Sei, porque ouvi por acaso o comentário da Paula com a Judite, que está a pensar candidatar-se a uma vaga de enfermagem em Londres, porque a família do seu falecido marido lhe tem feito a vida negra. É verdade?

-Sim. Eles culpam-me pelos disparates do filho, quando eu fui uma vítima dos vícios dele.

- Percebo que se queira afastar daqui por uns tempos embora pense que o que devia fazer era dirigir-se à polícia e pedir que eles fiquem proibidos de se aproximarem de si. Mas existe outra solução que lhe vou expor. O meu sobrinho Tiago, médico cirurgião, estava integrado numa ONG, em serviço na República Centro Africana, quando foi gravemente ferido. 

Esteve em coma durante mais de um mês, foi submetido a várias cirurgias e finalmente teve alta no final do mês passado. E embora os especialistas digam que a cirurgia à coluna correu bem e ele pode voltar a andar, o facto é que ele continua sem conseguir mexer as pernas.

 Na verdade, perdeu a vontade de viver, não só, por não poder movimentar as pernas, mas porque tem algumas outras cicatrizes no corpo e a pior de todas, na alma, pois a noiva com quem pretendia casar na próxima primavera rompeu com ele, quando o viu ferido.

Desde então ele isolou-se numa casa que herdou da madrinha, na Lousã, e não quer ver ninguém, nem sequer os pais que estão desesperados.  Já lhe arranjámos três enfermeiras, mas a que aguentou mais tempo, esteve três dias. Ora, eu pensei que se alguém é capaz de lidar com ele e fazer com que recupere a saúde, esse alguém é a Anabela. 


27.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIV


Laura conversou com a mãe, que se mostrou radiante por ela ter aceitado a proposta de Fernando e afirmou cuidar do neto, enquanto ela estivesse ausente.

Assim, pouco depois das nove ela chegava à clínica do psiquiatra e apresentava-se à sua assistente, que não se mostrou surpreendida pois um telefonema do chefe logo de manhã, tinha-a avisado.

Diana era uma jovem morena de estatura mediana, de olhos castanhos e sorriso fácil. O cabelo curto, era igualmente castanho, embora mais claro que os seus olhos. O seu enorme ventre, mostrava que devia estar muito perto do final da gravidez e fazia com que a jovem parecesse mais baixa do que realmente era.

Quando sorria, duas covinhas apareciam no seu rosto que parecia iluminar-se.

Laura gostou imediatamente dela.

- Já era tempo de que o doutor se decidisse a arranjar alguém para me substituir – disse. Mais um pouco e eu entraria de baixa e ele ver-se-ia na contingência de ter que ser ele a explicar o serviço. Podes ir buscar uma cadeira à sala de espera, para te sentares aqui ao pé de mim?

- Claro.

Laura fez o indicado e logo que se sentou, disse:

-Não pareces surpreendida por não vir de nenhuma agência temporária.

-Não. O doutor detestava ter de o fazer. Ele gosta de trabalhar com alguém conhecido, sente-se melhor. E eu sabia que ele te queria aqui, desde que o teu irmão lhe contou que querias regressar ao trabalho, mas não tinhas conseguido vaga numa escola aqui na cidade.

-Conheces o meu irmão?

- Como não? Os dois são tão amigos que quando comecei a trabalhar aqui, e o doutor Gonçalo passava quase sempre aqui no fim das consultas, pensei que eram irmãos. Foi há anos, o chefe já tinha a clínica e alguns clientes, embora na altura ainda fizesse serviço no Hospital de S. José.  O teu irmão tinha acabado o curso e estava a estagiar no hospital de Santa Maria. Segundo me disse deveria ter acabado o Curso mais cedo, mas um grave acidente de moto, interrompeu-lhe os estudos.                                  

Quando acabou o estágio, o teu irmão foi para um hospital no Porto, o chefe decidiu encerrar a clínica e foi para Londres, onde esteve dois anos, num hospital. Ele era na altura um homem muito amargo, eu só o sentia mais alegre, quando o teu irmão o visitava. Bom, vamos então começar?

- Claro, foi para isso que vim, - disse Laura embora tivesse gostado que Diana lhe continuasse a falar de Fernando. Na verdade, ela perdera todo o contacto com ele quando casara e viera viver para Lisboa. Na altura, ele já tinha terminado o curso, e embora já estivesse em Lisboa, ela tinha-lhe perdido o rasto.

- Aqui atrás de mim, está o ficheiro onde se guardam todas as fichas dos clientes por ordem alfabética. O chefe não usa estas fichas, ele escreve tudo no computador. Depois que as consultas acabam, tens que transcrever tudo para as fichas do doente. Isto porque pode haver uma falha do sistema, e sem uma ficha atualizada em papel, ele não teria acesso aos dados do doente.

 É a velha história, os computadores são rápidos e eficientes, mas quando o sistema falha o que salva qualquer negócio, são os registos em papel. Quando fazes a inscrição, se for a primeira vez, abres esta gaveta, tiras uma ficha destas e preenches com o nome e idade do doente. Se já é doente é só procurares no ficheiro.

- Não parece difícil.

-Nada. Tenho a certeza que é bem mais difícil preparar uma aula nova todos os dias.

18.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE X


-Sinceramente não sei.  A minha vocação sempre foi o ensino, não sei se me vejo a fazer outra coisa. Tenho que pensar.

Naquele momento ouviu-se a campainha da porta.

-Devem ser os meus pais. Resolveram ficar comigo até que os noivos voltem da viagem de lua-de-mel.- disse Laura enquanto se dirigia para a porta.

Eram realmente Aníbal e Teresa Bacelar, os pais de Laura. Depois dos cumprimentos iniciais, a jovem disse aos pais:

- O Fernando, prometeu ao Gonçalo que levava e ia buscar as meninas à escola enquanto durasse a lua-de-mel. Voltou para me fazer uma proposta de trabalho temporário enquanto a sua assistente vai de baixa e posterior licença de parto. Já lhe disse que não seria necessário cumprir a promessa, pois com vocês cá em casa, tenho a certeza de que quererão essa tarefa para vocês.

O casal trocou um olhar rápido e foi Teresa quem respondeu.:

-Não tenhas tanta certeza disso. Já estamos na idade em que não nos apetece levantar cedo e queremos aproveitar esta semana em Lisboa para fazer algumas compras, e visitar algumas exposições, enfim aproveitar um pouco este tempo que temos de férias, coisa que não fazemos há muitos anos.

 Se o Fernando prometeu ao Gonçalo fazê-lo, é porque não interfere com o seu trabalho e nós agradecemos que continue a fazê-lo. E como agradecimento podemos depois jantar todos juntos num qualquer restaurante aqui perto.

- Por mim está ótimo, não preciso reagendar a minha agenda, pois logo que o Gonçalo falou comigo, a minha  assistente tratou disso. Além do mais, se a Laura aceitar a minha proposta e vocês cuidarem do Miguel, ela podia ir algumas horas à clínica para que a Diana lhe explique como funciona. A Diana é a minha assistente – explicou

-Eu penso que fazes asneira de não aceitares, filha. – disse a mãe. Eu sei que não teres conseguido colocação em nenhuma escola aqui perto, te deixou triste, mas não é uma tragédia, o Quim deixou-te uma situação financeira razoável e se assim não fosse, eu e o teu pai cuidaríamos para que não vos faltasse nada.

Todavia para a semana o Miguel vai para a creche, o teu irmão volta da lua de mel e a Matilde vai viver com os pais. A Sara estará na escola, e tu ficas todo o dia em casa a fazer o quê? A curtir a saudade e a chorar o dia inteiro?

- Não levo a chorar o dia inteiro, mãe. Aliás se o fizesse tenho a certeza de que o Fernando não me teria oferecido o emprego. Já lhe disse que vou pensar.

-Bom, já é alguma coisa, - disse a mãe. E voltando-se para o jovem perguntou:

-  Fernando, porque não aproveitas esta semana que estamos aqui, para ficarmos com as crianças e convidas a Laura para sair uma noite destas? Não sei mas há anos que ela não sai de casa, uma ida ao teatro, ou ao cinema, faziam-lhe bem.

-Mãe! Não acredito nisto, - gritou Laura corando envergonhada

- Não sei porquê. O Quim não vai ressuscitar, por muito que te feches para a vida e continues a ouvir as suas mensagens todas as noites. Depois, o Fernando foi criado contigo e com o teu irmão, conhece-te desde que nasceste, Não te vai fazer nenhum mal.

- Vamos amor, é melhor irmos dar uma volta, deixa que eles resolvam as coisas sozinhos, estás a constrangê-los – interrompeu o marido dando-lhe o braço e quase a arrastando em direção ao quarto.

O silêncio reinou por longos segundos após a saída do casal.


7.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXI

 



Às oito horas, Nuno tocava à campainha da casa de Luísa. A porta abriu-se, e a jovem saiu. Envergava um conjunto de calça e casaco em seda azul e umas sandálias de salto alto. Os cabelos não muito compridos caíam sobre os ombros e no rosto uma leve maquilhagem. Estava muito bonita.
- Continuas a ser pontual, - disse ao chegar junto dele.
- Há coisas que fazem parte de nós,- respondeu apertando a mão feminina entre as suas. E acrescentou de seguida. – Estás linda.
- Obrigado. Tu também não estás mal, - disse entrando no carro.
Nuno pôs o carro em marcha. Fez-se um silêncio estranho, pesado.
Ele mantinha-se atento à estrada, ela perdida nos seus pensamentos. Tanta coisa que gostaria de lhe perguntar. Tanta coisa que gostaria de lhe dizer. Precisava arranjar coragem. Não podia encarar o futuro sem esclarecer o passado.
-É estranho, que morando na mesma cidade e relativamente perto não nos tenhamos encontrado mais vezes. Regressaste há muito?
- Pouco mais de três meses. E provavelmente o único local que ambos frequentamos, é o supermercado. Não me encontrarás em locais noturnos, só saio à noite quando estou de serviço no hospital.
- Também não frequento esses locais.
- Não? Não deve ser por falta de convites, - disse mordaz
Ela lançou-lhe um rápido olhar e virou a cabeça para olhar a rua por onde circulavam
- Este jantar, é a minha primeira saída noturna,- se é que se pode chamar noturna, quando o sol ainda brilha radioso,- desde há catorze anos.
Ele estacionou o carro junto ao restaurante. Ela abriu a porta, e saiu sem lhe dar tempo a que ele tivesse qualquer ato de cavalheirismo.
Colocou-lhe o braço sobre os ombros e entraram. Deu o nome ao empregado que os recebeu e ele levou-os até uma mesa discreta, de onde retirou um retângulo onde se podia ler, “reservada”.
Sentaram-se e logo apareceu outro empregado que colocou algumas entradas sobre a mesa, e lhes entregou a ementa.
Escolheram caldeirada de marisco acompanhada por um rosé Quinta Romaneira, e só depois que o empregado se retirou, Nuno perguntou:
- Porquê, Luísa?
- Porquê, o quê, Nuno?
- Disseste que eras muito jovem, querias viver a vida e no entanto casaste poucos meses depois. O que é que ele tinha de especial para mudares de ideia?
- Queres mesmo saber? Não achas uma perda de tempo, passados todos estes anos?
- Sim e não respondendo às duas questões. 
Às vezes precisamos escarafunchar na ferida, para retirar tudo o que não a deixa cicatrizar.
- Era muito nova, ainda nem tinha feito dezoito anos. Meu pai obrigou-me a romper contigo, ameaçando mandar-me para casa dos meus avós numa aldeia esquecida no Minho. Ele tratou do meu casamento com o Álvaro, e eu não pude nem soube como impedi-lo
- E não te ocorreu seres sincera comigo? Tu que juravas amar-me, não confiaste em mim para me dizeres a verdade? Que grande amor era o teu – disse amargo.
- Esqueces que eu era quase uma menina – defendeu-se. E não teria sido diferente. Eu era menor, precisava da autorização dele para me casar. Ele tinha cancro, sabia que tinha pouco tempo de vida, e tinha medo de que fosses para África e me levasses contigo. Tinha medo que eu tivesse uma vida de privações por causa do teu idealismo. Por isso me casou com um homem mais velho que ele conhecia há muito tempo e julgava que me faria feliz.
-E fez?
- Não. - A resposta saiu seca e rápida como um tiro.
A chegada do empregado com o pedido, interrompeu a conversa


28.4.21

CRISTINA

 baseado numa história real.



A década de sessenta, rinha começado há pouco, quando Cristina nasceu. Era a primeira e viria a ser a única de um casal que já não era muito jovem para a época. Hoje os tempos são diferentes, as mulheres são mães mais tarde, mas naquele tempo, raramente uma mulher, era mãe do primeiro filho depois dos vinte e cinco anos. Pouco tempo depois do seu nascimento, o pai perdeu o emprego, e passaram por um tempo de crise, já que naquela época, um homem com trinta e cinco anos, já era velho demais para a maioria dos empregos.
Enfim conseguiu um emprego e a situação estabilizou, mas o medo do futuro roubou a Cristina a felicidade de ter um irmão.
A menina cresceu assim, com todos os zelos, mimos e confortos que sempre têm os filhos únicos, mas que não compensam a alegria do abraço de um irmão ou irmã, com quem nos podemos zangar, até brigar, mas com quem sempre acabamos por dar um abraço, partilhar uma brincadeira, ou um segredo.
Muito inteligente, foi crescendo, sempre com boas notas, mas com pouca vontade de estudar. Quando completou o Ensino Secundário, deu os estudos por terminados e entrou no mercado de trabalho. Era uma jovem muito bonita, alta, morena, com grandes olhos escuros e farta cabeleira levemente ondulada, (com o que sempre embirrou pois gostava dos cabelos lisos). Pretendentes não lhe faltavam, mas nunca se entusiasmou com nenhum, vá-se lá saber porquê.
Aos vinte anos Cristina tinha tudo para ser uma mulher feliz. Era bonita, tinha um bom emprego e acabara de comprar um carro. Casamento, filhos, tudo isso estava muito distante, ela tinha uma vida inteira pela frente, tudo viria a seu tempo. Pouco depois de completar vinte e um anos, Cristina adoeceu. Fraqueza muscular, infeção urinária, visão dupla. Recorreu ao médico, fez análises, tomou antibióticos, a infeção cedeu e pouco depois estava bem. Retomou a vida normal, transformou um amigo em namorado, não gostou da transformação, mandou o namorado passear, e foi vivendo o melhor que podia e sabia, dentro dos cânones normais para uma jovem da sua idade, naquela época, com uns pais conservadores.
Dois dias antes dos vinte e três anos, Cristina voltou a adoecer. Novamente a fraqueza muscular, também tremores de movimentos, diminuição da acuidade visual unilateral. Mais uma vez recorreu ao médico que depois de repetidas muitas análises lhe disse que não encontrava nada de anormal, que provavelmente seriam nervos e lhe receitou uns “calmantes fraquinhos”
Duas semanas depois estava bem, e tudo parecia ter voltado ao normal, embora ela notasse que tinha menos força nas pernas. Os anos foram passando, Cristina ia tendo crises cada vez mais frequentes e cada vez mais intensas. Andava de médico para médico, ninguém descobria o que se passava, até que as crises, que inicialmente eram muito espaçadas, começaram a surgir de dois em dois meses, e só passavam com tratamento hospitalar.
Quando naquele dia de Março de mil novecentos e noventa e três, Cristina foi a uma consulta de oftalmologia, estava de novo com visão dupla. Tinha vinte e oito anos e há muito tempo, deixara de ter uma vida normal. O médico depois de a observar, disse-lhe que ela não tinha nada que ele pudesse tratar, mas que ia mandá-la a um neurologista amigo dele, a quem escreveu uma carta que fechou e lhe entregou.
Cristina assim fez. O neurologista depois de ler a carta, fez-lhe imensas perguntas e por fim mandou-lhe fazer uma tomografia, e uma ressonância ao cérebro.
Por essa altura, Cristina namorava já há uns dois anos, e o namorado acompanhou-a a fazer os exames.
Pouco tempo depois, os resultados ficaram prontos e Cristina foi de novo ao neurologista. Este examinou-os atentamente e depois deu o veredito. Cristina sofria de uma doença autoimune, a Esclerose Múltipla. 
Ela, nada sabia da doença mas imaginou que não seria nada bom. Pediu esclarecimentos ao médico que lhe disse tudo o que ele próprio sabia. Se hoje não se sabe muito sobre esta e outras doenças autoimunes, imagine-se naquela época.
Cristina chegou a casa, fechou-se no quarto e chorou. Chorou como nunca tinha chorado na vida. Chorou pelos sonhos, que morreram nesse dia, pela incerteza do seu futuro, pela tristeza de seus pais.
No dia seguinte, decidida acabou o namoro. Disse que nunca seria capaz de aceitar o amor de uma pessoa, sabendo que mais cedo ou mais tarde, ia fazer essa pessoa sofrer. Que não queria correr o risco de pôr no mundo um filho, que não sabia se poderia criar. E não houve quem a demovesse dessa decisão.
Durante alguns anos, Cristina manteve o emprego. Depois a empresa faliu e claro que ela não conseguiu novo emprego. Foi reformada por deficiência com trinta e oito anos.
Hoje Cristina, continua a viver com os seus velhos pais. Sofreu muito, cada vez que surgia um novo surto. Há uns anos que com a mudança de medicação, deixou de ter surtos, mas a doença continua a evoluir, embora de forma mais lenta. Apesar disso é ainda uma mulher muito bonita, apesar dos seus quase sessenta anos. Vive um dia de cada vez, como costuma dizer. Sorri com facilidade apesar de todas as provações que a vida lhe deu. De todos os sonhos que não realizou, de todas as alegrias que não viveu.


Fim


elvira carvalho


Nota: 
Em Portugal surgem 300 novos casos de EM por ano.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinal e do nervo ótico. Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.

Fui chamada para a vacina ontem, mas não ma deram.  Porque como já fiz um choque anafilático, disseram-me que só me dão a vacina com uma declaração por escrito do meu alergologista, em como a posso levar.

Para terminar o dia à beira de um ataque de nervos, uma cena de violência doméstica no terceira andar , que pareciam querer deitar o prédio abaixo e que obrigou à intervenção da polícia. Nem sei se vou conseguir dormir.

5.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XIII

A avó viu-a entrar. Leu-lhe o desespero no olhar. Uma sombra de tristeza, perpassou-lhe pelos olhos cansados. Conhecia aquele filme. Tinha-o visto dez anos antes. E dessa vez ficou cinco anos sem ver a neta. Se a história se repetia, tinha a certeza de que nunca mais a veria. Esperou um pouco e foi ter com ela ao quarto. Ouviu o choro da jovem. Abriu a porta, e sentando-se na cama, perguntou:

- Que aconteceu, Isabel? Há uma hora atrás, parecia que estava tudo bem.
- Ele lembrou-se de mim, avó.
- Lembrou-se? Como assim?
-Disse que se esqueceu de perguntar-te pela tua neta, que sempre estava por cá nesta altura.
- E isso que tem, Isabel? Eram tão amigos, é natural que se lembre. Filha se não te explicas, não consigo perceber, porque é que isso te faz chorar. Afinal a minha neta, és tu.

- É que ele disse que a amava como uma irmã. Como uma irmã, avó. Entendes? Foi assim que ele me viu há dez anos, foi assim que sempre me amou. Em contrapartida, eu sempre o amei como homem. Desde os doze  anos, antes mesmo de saber que era  amor, aquilo que sentia. Não me consigo imaginar com mais ninguém. E não penses que nestes dez anos, não tentei. Eu pensei que se fosse trabalhar com ele, sem ele saber quem eu era, podia fazer com que se apaixonasse por mim. Todavia ou sou a sua secretária, ou a amiga, com quem gosta de conversar. Nunca mostrou qualquer interesse pela mulher que sou. Acreditas que nunca me tocou?

-Nunca te tocou, como?
- Tu sabes que os invisuais sentem as coisas com a ponta dos dedos. Ele nunca me pediu para tocar o meu rosto. Porquê? Porque na verdade, não lhe interessa se sou bonita ou feia, se tenho a pele lisa, ou cheia de rugas.

-Ele não acabou, já o livro? Então o que tens a fazer, é deixá-lo e seguires com a tua vida. Ainda que agora te pareça impossível, um dia acabarás por esquecê-lo. O tempo é um excelente remédio. Não queiras transformar-te numa heroína da Idade Média. Hoje em dia já ninguém morre por amor. Vamos lá, levanta dessa cama vai lavar a cara e vem ajudar-me com o jantar.

Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Embora sentindo-se impotente perante o sofrimento da neta, tinha que ser firme. Gostava do jovem. Conheceu-o de garoto, viu-o crescer e fazer-se homem. Depois os pais morreram, ele ficou sozinho, e de vez em quando, visitavam-se. Confiava tanto nele, que nem se preocupou com a admiração que a neta tinha por ele, nem com os constantes passeios dos dois. Sabia que ele nunca lhe faria mal, nunca lhe passou pela cabeça que o perigo para a neta, viria dos seus próprios sentimentos. Nem mesmo quando mais tarde suspeitou disso, sempre pensou que era uma paixoneta de garota que logo esqueceria. Agora estava assustada com a força daquele sentimento.

9.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVI

 


Depois que os dois se sentaram, João estendeu ao irmão a carta da mãe que ele leu em silêncio.

-Uma carta sincera e emotiva tal como ela era. E que diz muito do amor que te tinha e de quanto sofreu a vida toda, por ter de te deixar. Sabendo que vinhas hoje, trouxe-te um álbum de fotografias, - abriu a gaveta, retirou o álbum e estendeu-lho.

João abriu-o e viu na primeira página a foto de uma jovem morena de baixa estatura. Tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt branca. Tinha um ar sério, ou triste.  Depois uma foto dela com um homem alto. O homem sorria abertamente, mas a jovem continuava com o seu ar sério.

-É a única foto que tenho dos meus pais, - disse David. E nem me lembro dele, morreu quando eu era ainda um bebé. Não havia outras fotos dele, e um dia perguntei à mãe porquê. Ela disse-me que logo depois o meu pai adoeceu e nunca mais quis ser fotografado. Queria que eu o recordasse sempre como o homem alegre e feliz desse dia. Até há pouco tempo pensava que essa, fosse a fotografia do casamento deles, mas hoje sei que ela nunca casou. O marido nunca lhe deu o divórcio e como o meu pai já tinha morrido, ela não se preocupou. Depois há essa foto dela grávida de mim. E por último são fotos minhas e dela comigo. Verás que em nenhuma delas, mostra um ar alegre e feliz como é habitual nos momentos de intimidade entre mãe e filho. Lembro-me de escrever um dia, numa composição sobre a mãe, na escola, que a minha mãe, era uma mulher muito triste, porque sentia muitas saudades do meu pai. Hoje ambos sabemos que não era por saudades dele que ela era assim, embora tenha gostado dele, porque ele a amou e lhe deu um lar, evitando-lhe o desespero que a podiam ter matado.

-Obrigado, por me teres deixado ver estas fotografias. Não sei que pensar do meu pai. Quero acreditar que ele era um homem mentalmente muito doente, porque se não foi por doença, então tenho de pensar que ele era um monstro, que me roubou não só o amor dela, mas toda uma infância normal, e me imbuiu o espírito de ideias que me fizeram crescer e tornar-me um homem cético, em relação ao amor e descrente da lealdade das mulheres. Acreditas que me fez acreditar que a mulher o deixou, porque era uma espécie de ninfomaníaca capaz de seguir qualquer um que lhe permitisse satisfazer os seus inconfessáveis desejos? Isso fez com que crescesse a odiá-la. E com que nunca até agora tivesse olhado para uma mulher sem pensar no que ele me dizia.

-Percebo que a tua vida não tenha sido fácil, mas agora que sabes a verdade, tenta esquecer, és jovem, bem parecido, tens uma excelente situação financeira, ainda estás a tempo de encontrar uma boa mulher e te apaixonares.

- Penso que já a encontrei, David. O problema vai ser convencê-la. Ambos temos uma bagagem emocional péssima, e por isso ambos nos tornámos incrédulos em relação ao amor, à lealdade do sexo oposto, e ambos tínhamos decidido que não daríamos a ninguém o poder de nos fazer sofrer.  É uma história complicada que te contarei se tiveres tempo e paciência para me ouvires.

-Sou um homem muito paciente e tenho todo o tempo que precisares  para te ouvir. Levei trinta anos sonhando como seria bom ter um irmão.

E então João contou-lhe tudo. Desde o cancro no testículo, a reserva de esperma para o futuro, na clínica de Procriação Medicamente Assistida, e  o que lhe tinha acontecido ultimamente, desde que recebera o telefonema da clínica, dando conta do erro cometido, até à emoção do dia anterior, quando a médica lhe mostrou os três minúsculos pontos no ecrã e ouviu o bater dos corações dos seus filhos.

 

9.6.20

ISABEL - PARTE XX





Luís ficou parado a olhar para Isabel, até que ela entrou no edifício dos correios. No fundo dos seus olhos, incrivelmente cinzentos, havia estranheza. Aquela mulher intrigava-o. Estava longe de ser uma adolescente, e contudo parecia uma gazela assustada, sempre que se encontravam. E coisa mais estranha ainda. Corava. Há muitos anos que ele não via uma mulher corar.
Depois retomou o percurso apressando o passo. Acabara de sair do notário, onde fizera a escritura da sua nova casa. Há muito tempo, que Luís não tinha uma casa, no sentido convencional do termo, muito embora os seus pais estivessem sempre a dizer-lhe que a casa deles, era também a sua casa, e que se sentiriam muito felizes, se fosse viver com eles. Mas ele era demasiado independente para isso. Vira na agência um apartamento que lhe agradara, era perto, ali mesmo no quarteirão, e com o metropolitano quase à porta. Uma vantagem para quem não tinha carro nem pretendia comprar. Luís tinha uma auto caravana maravilhosa, que essa fora a sua casa, na vida de aventureiro que levava há anos. 
Abriu a porta do edifício e viu uma senhora idosa a regar as plantas que adornavam o átrio.
- Boa tarde – saudou
- Boa tarde, senhor – respondeu a mulher endireitando-se
- Sou o novo proprietário do 6º C. Suponho que a senhora seja a porteira. Esperava a visita do decorador às cinco horas e atrasei-me. Sabe se alguém me procurou?
- Não senhor. Até agora não. Nem sabia que o andar já tinha novo proprietário.
- Obrigado. Vou então subir e aguardar. Até logo.
- Até logo. Se precisar de alguma coisa é só dizer.
- Para a semana vou tratar da mudança de nome da água, gás e electricidade. Depois falo consigo quando souber o dia que vêm, - disse abrindo a porta do elevador.
Mal entrara no apartamento,  a campainha tocou. Era o decorador.
- Boa tarde. É o senhor Nuno Fraga? Eu sou Pedro Carvalho, o decorador enviado pela agência que o senhor contratou.
- Boa tarde,- respondeu. Entre. Vamos ver o apartamento.
Este era composto por um quarto grande, com roupeiro e casa de banho, um mais pequeno só com roupeiro, uma grande sala com lareira, uma casa de banho no corredor e uma cozinha não muito grande mas bem equipada e com muita luz.
- Tem alguma ideia sobre a qual possamos trabalhar, ou fica tudo por minha conta? – Perguntou Pedro.
- Bom, eu sou sozinho. Pretendo um apartamento simples e confortável. O quarto mais pequeno será onde vou trabalhar a maior parte do tempo, portanto será um escritório. Tudo o resto deixo consigo. O que acontece é que tenho uma certa pressa.
- Bom. Se me deixar tirar agora as medidas, amanhã à tarde apresento-lhe os esboços. Se estiverem a seu gosto, discutiremos então os elementos decorativos, cores, tecidos, quadros etc.
- Muito bem. E depois disso quanto tempo mais?
- Bom, se tudo ficar delineado amanhã, depois é rápido. Numa semana, o máximo duas, fica pronto.
- Combinado. Passo então amanhã pela agência a que horas?
- Às dezassete pode ser?
- Claro. Lá estarei.
Pedro acabara de anotar as medidas. Guardou a fita e os apontamentos na pasta. Dirigiu-se para a porta e estendeu-lhe  a mão.  
- Até amanhã, senhor Fraga.
Até amanhã, Pedro. - Disse apertando-lhe a mão.
Fechou a porta e dirigiu-se à janela. Decididamente gostava do apartamento. Ocorreu-lhe que a mãe ia gostar do lugar. Sorriu. Gostava muito dos pais mas irritava-o a mania, que a mãe tinha, de que ele devia “arrumar-se”. Anos atrás, de cada vez que ele voltava de uma viagem, todos os dias a mãe tinha um lanche com alguma amiga. Nada demais se essa amiga não se apresentasse sempre com uma filha casadoira a tiracolo. Por mais que lhe dissesse que não estava interessado nesses encontros a mãe não desistia. Então, tomara uma atitude radical. A partir daí, passou a  ficar num hotel e a visitar os pais sempre de surpresa. Claro que depressa a mãe percebeu e deixou de se armar em casamenteira. 
Quando os pais soubessem que ele tinha comprado uma casa, decerto iam ficar muito contentes.





Nuno Fraga? Mas não era Luís Teixeira? Será que o homem dos olhos cinzentos é um aldrabão, ou a autora está a ficar choné? Qual é a vossa opinião?

12.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VII


Quando duas horas depois, André voltou, a primeira coisa que viu, assim que Eva lhe abriu a porta, foi o seu rosto congestionado, e os olhos vermelhos e inchados, indicadores claros de ter levado o tempo a chorar. Sentiu um baque no peito. Era tão jovem. Parecia uma menina e já tão sofrida. Sorriu, tentando animá-la.
- Trouxe jantar para os dois. Calculei que não te apetecesse cozinhar. E uma vez que ia sair do hotel preferi fazê-lo antes do jantar. Vou pôr a mala no quarto e já venho. Queres por a mesa? Na cozinha, se não te importas.
Estendeu-lhe o saco, e seguiu com a mala para o quarto. Eva pôs a mesa. Depois abriu o saco, e tirou dele uma garrafa de vinho tinto, um recipiente com frango assado, outro com batatas fritas, um com salada e uma caixa de gelado, que colocou no congelador. Procedia quase como um autómato, pensando quão estranha era a vida. De manhã, ela nem sonhava com a existência de André. E agora ali estava a por a mesa, para um jantar a dois, como se fossem um casal, ou pelo menos amigos íntimos. Curioso é que depois do embate inicial, e sobretudo depois da conversa que tiveram horas antes, ela deixou de recear o que lhe podia acontecer no futuro. Confiava nele? Sim, mas não de peito aberto. Como diria a Irmã Madalena, confiava, desconfiando. Muita água teria que correr debaixo da ponte, até que voltasse a confiar em alguém, em pleno, como confiara no marido.
- Espero que gostes de frango,- disse ele ao voltar minutos depois.- Teria telefonado para te perguntar, mas não tenho o teu número. Pudemos começar? Estou cheio de fome.
Puxou-lhe a cadeira para ela se sentar, e esse pequeno gesto, fez com os olhos femininos, ficassem rasos de água. Nunca ninguém tivera com ela gesto tão delicado, nem sequer o marido no tempo de namoro, muito menos depois de casados. Durante alguns minutos comeram em silêncio. Depois ele retomou a palavra.
- A tua família, já sabe o que se passou?
- Não tenho família!
-Como assim? Ninguém? Nem sequer um parente afastado?
-Não. Fui abandonada à porta de uma instituição católica que acolhe órfãos. E lá vivi até ao casamento. A Irmã Madalena, é o mais parecido que tenho com uma família.
André despejou um pouco de vinho no seu copo, e tentou fazer o mesmo no dela, que o cobriu com a mão dizendo:
-Não obrigada. Prefiro água.
Olhou-a pensativo. Será que estava grávida? Isso justificaria o ter desmaiado no advogado e o não querer bebidas alcoólicas. Ou será que temia que ele a embebedasse, para depois abusar dela?


5.11.19

UMA HISTÓRIA PARA REFLETIR



No Domingo, o Padre da minha paróquia na homilia contou uma história de que muito gostei. Cheguei a casa e escrevi-a
como ele a contou. Como não sabia se a autoria da história, era dele ou de outra pessoa, procurei na Internet e com poucas alterações encontrei-a em vários sites, sempre como sendo de autor desconhecido.  Aqui a deixo tal como ele a contou.




                                                 *************************



Um velho professor foi de férias aos Açores.  Um dia, passeava por um belo jardim, quando um homem jovem aproximou-se dele, cumprimentou-o e perguntou:
- O senhor lembra-se de mim?
O velhote olhou, mas não reconheceu o outro homem.
-Fui seu aluno na primária, lá no continente - diz o homem.  -Também sou professor.
- Olha que bom, - responde o velhote. - E de algum modo eu contribui para que escolhesse essa profissão?
O homem mais jovem pegou-lhe no braço, e disse:
- Venha daí, vamos sentar-nos.
Sentaram-se num banco e o mais novo falou:
-Quando eu andava na segunda classe, um dia um colega chegou à escola com um relógio novo. Era um relógio muito bonito, e eu nem relógio tinha, a minha família era muito pobre, o dinheiro mal chegava para comer. Não sei o que me deu, mas na hora do recreio fui ao vestiário e surripiei o relógio do bolso do casaco do meu colega.
A seguir entrámos na aula e o outro miúdo queixou-se do roubo. O senhor disse que ninguém saía da aula antes do relógio aparecer, e pediu que quem o tirou, o devolvesse. Fiquei apavorado, pensando na vergonha que meus pais iam sentir, na confiança dos colegas que ia perder e não tive coragem de entregar o relógio. Então o senhor mandou que todos nos levantássemos, fizéssemos uma fila indiana e fechássemos os olhos. O senhor ia meter a mão nos bolsos de cada um a fim de encontrar o relógio, mas ninguém podia abrir os olhos sob pena de ser castigado. Fiquei na fila a tremer esperando o momento em que encontrasse o relógio e me denunciasse. Mas o senhor pegou o relógio e continuou até ao fim da fila, e só então disse que podíamos abrir os olhos, já tinha o relógio. Entregou-o ao dono, mas não disse a ninguém quem o tinha. Naquele momento senti que tinha renascido. Eu tinha-me tornado um ladrão, tinha perdido a minha dignidade, e de repente o senhor devolveu a minha dignidade. A sua atitude era uma lição para mim, e naquele mesmo momento jurei a mim mesmo, que ia ser professor. Queria ser como o senhor. 
Calou-se emocionado e por fim perguntou:
-Porque o Senhor nunca me disse nada, nem mesmo quando estávamos sós?
- Meu jovem, - respondeu o velhote com um sorriso. - Até hoje, nunca soube quem tinha tirado o relógio. É que não foram só vocês que ficaram de olhos fechados. Antes de começar a meter as mãos nos vossos bolsos, também eu fechei os meus.




30.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem daquele jovem alto e magro, de uma palidez extrema, que encontrara na primeira consulta, surgiu na sua memória. Voltou-se e perguntou:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas lhe aflorassem aos olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a à sala, fazendo com que se sentasse no sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou - disse sentando-se ao seu lado e segurando a mão da mãe entre as suas.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da progenitora, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde a primeira consulta, as análises e do diagnóstico  médico, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, pensando que assim ela não assistiria ao seu sofrimento, da chegada às Termas,  de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para não ter que contar à jovem que não podia assumir um compromisso porque podia morrer de um momento para o outro. Falou-lhe do desespero que sentia, até porque cada dia se sentia melhor, e da sua decisão de voltar ao médico para fazer novos exames, coisa que fizera nessa mesma tarde. Por fim contou a conversa com o médico, as análises trocadas, e de como se sentia feliz, apesar de sentir pena daquele jovem que só vira uma vez e que morrera tão novo.   A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu tenha de viajar amanhã cedinho para as Termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação dona Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo me pede.



23.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIII

.



- Obrigada. Mas agora temos que ir. Já é tarde e a mamã pode ficar preocupada. Até outro dia.
E afastou-se levando o irmão pela mão. Tão frágil e tão linda que parecia uma boneca. Sacudiu a cabeça, e sentando-se tentou retomar a leitura, mas a imagem da jovem não lhe saía do pensamento. Seria da vila? De alguma localidade próxima? Não, não lhe parecia. Devia ser uma forasteira como ele. A figura feminina não lhe saía da cabeça e deu consigo, depois de almoço, passeando pela praça das Termas e pelo parque junto ao rio, na esperança de a encontrar de novo. 
Para sua desilusão, não voltou a vê-la nessa tarde nem no dia seguinte. 
Tentando esquecer a jovem, dois dias depois, deixou as Termas, dirigiu-se à vila, e por lá passou a manhã. No largo central andou pelo jardim, observou o edifício do tribunal, passou pela Câmara Municipal e vendo aberta a Igreja do Convento de S. José, resolveu entrar. Quando era menino, a mãe, senhora de grande religiosidade, levava-o sempre à missa. Frequentou a catequese e até fez a comunhão solene. Depois aos poucos foi arranjando desculpas até deixar de frequentar a paróquia. A Igreja estava deserta e ele sentou-se num dos bancos, admirando o altar de talha dourada Joanina, decorado por dois pares de colunas torsas e o retábulo enquadrado numa escultura representando Nossa Senhora da Conceição. Num dos nichos, do intercolúnio do mesmo retábulo, havia uma outra escultura representando Santo António. Ali, naquele silêncio, sentiu uma enorme vontade de dirigir uma súplica ao Criador. Não pediu a cura, nem fez promessas. Pediu desculpas pelo seu afastamento e rogou ajuda divina para a sua mãe quando ele partisse.