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18.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE X


-Sinceramente não sei.  A minha vocação sempre foi o ensino, não sei se me vejo a fazer outra coisa. Tenho que pensar.

Naquele momento ouviu-se a campainha da porta.

-Devem ser os meus pais. Resolveram ficar comigo até que os noivos voltem da viagem de lua-de-mel.- disse Laura enquanto se dirigia para a porta.

Eram realmente Aníbal e Teresa Bacelar, os pais de Laura. Depois dos cumprimentos iniciais, a jovem disse aos pais:

- O Fernando, prometeu ao Gonçalo que levava e ia buscar as meninas à escola enquanto durasse a lua-de-mel. Voltou para me fazer uma proposta de trabalho temporário enquanto a sua assistente vai de baixa e posterior licença de parto. Já lhe disse que não seria necessário cumprir a promessa, pois com vocês cá em casa, tenho a certeza de que quererão essa tarefa para vocês.

O casal trocou um olhar rápido e foi Teresa quem respondeu.:

-Não tenhas tanta certeza disso. Já estamos na idade em que não nos apetece levantar cedo e queremos aproveitar esta semana em Lisboa para fazer algumas compras, e visitar algumas exposições, enfim aproveitar um pouco este tempo que temos de férias, coisa que não fazemos há muitos anos.

 Se o Fernando prometeu ao Gonçalo fazê-lo, é porque não interfere com o seu trabalho e nós agradecemos que continue a fazê-lo. E como agradecimento podemos depois jantar todos juntos num qualquer restaurante aqui perto.

- Por mim está ótimo, não preciso reagendar a minha agenda, pois logo que o Gonçalo falou comigo, a minha  assistente tratou disso. Além do mais, se a Laura aceitar a minha proposta e vocês cuidarem do Miguel, ela podia ir algumas horas à clínica para que a Diana lhe explique como funciona. A Diana é a minha assistente – explicou

-Eu penso que fazes asneira de não aceitares, filha. – disse a mãe. Eu sei que não teres conseguido colocação em nenhuma escola aqui perto, te deixou triste, mas não é uma tragédia, o Quim deixou-te uma situação financeira razoável e se assim não fosse, eu e o teu pai cuidaríamos para que não vos faltasse nada.

Todavia para a semana o Miguel vai para a creche, o teu irmão volta da lua de mel e a Matilde vai viver com os pais. A Sara estará na escola, e tu ficas todo o dia em casa a fazer o quê? A curtir a saudade e a chorar o dia inteiro?

- Não levo a chorar o dia inteiro, mãe. Aliás se o fizesse tenho a certeza de que o Fernando não me teria oferecido o emprego. Já lhe disse que vou pensar.

-Bom, já é alguma coisa, - disse a mãe. E voltando-se para o jovem perguntou:

-  Fernando, porque não aproveitas esta semana que estamos aqui, para ficarmos com as crianças e convidas a Laura para sair uma noite destas? Não sei mas há anos que ela não sai de casa, uma ida ao teatro, ou ao cinema, faziam-lhe bem.

-Mãe! Não acredito nisto, - gritou Laura corando envergonhada

- Não sei porquê. O Quim não vai ressuscitar, por muito que te feches para a vida e continues a ouvir as suas mensagens todas as noites. Depois, o Fernando foi criado contigo e com o teu irmão, conhece-te desde que nasceste, Não te vai fazer nenhum mal.

- Vamos amor, é melhor irmos dar uma volta, deixa que eles resolvam as coisas sozinhos, estás a constrangê-los – interrompeu o marido dando-lhe o braço e quase a arrastando em direção ao quarto.

O silêncio reinou por longos segundos após a saída do casal.


17.5.22

POESIA ÀS TERÇAS - LUÍS RODRIGUES

                                         Foto e poema de Luís Rodrigues

A minha nudez



Despi-me para mim próprio ___ 

___ no meu todo que conheço 



na contemplação das cicatrizes

compreendi o percurso do corpo 

as imensas colisões do meu corpo

os rasgões passajados

no peito as notícias do passado

no ventre a marca de várias fomes 



da fragilidade dos ossos 

nada pude apreciar

essa é a surpreendente 

resistência do oculto 

do alicerce osso mente ___ 

___ e tudo o mais vive 

ao sabor desta relação estrutural



Despi-me para mim próprio 

e o que vejo é o mapa

de um velho território quase deserto

minas abandonadas

riachos sem fio de água 

árvores de tronco seco



mas de tudo um perfume apaziguador 

e pó 

a minha nudez

em pó.


Luís Rodrigues

Brancas Nuvens negras

 

 


16.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE IX

 


E não tinha mesmo. Foram precisos dois anos para que ela apagasse do telemóvel as mensagens do marido e o seu número do telemóvel. E mais meio ano para que começasse a pensar em pôr o filho numa creche e voltar ao mercado de trabalho.

Entretanto os pais e o irmão iam fazendo pressão sobre ela, dizendo-lhe que era muito jovem, para ficar sozinha o resto da vida, que se devia dar a si própria e ao amor uma nova hipótese.

Laura, não queria pensar em nada mais do que retomar a sua carreira de professora e cuidar dos filhos. A morte repentina do marido deixara-a tão traumatizada que ela não queria voltar a pensar noutro relacionamento de amor que não fosse o maternal.

Ouviu a campainha, e dirigiu-se à porta para a abrir. Sabia que era Fernando que estava de volta, era demasiado cedo para serem os pais.

- Entra. Estava na cozinha, mas não sei o que tens por hábito comer de manhã. Café com leite, sandes ou torradas, iogurtes, sumo de frutas, ou algo mais substancial?

- O que quiseres. Embora saiba que é errado, raramente tomo o pequeno almoço. Bebo um café de manhã, e por volta das dez, ou dez e meia a minha assistente leva-me uma sandes e um galão que pede no café que fica ao lado do consultório. Tu já comeste?

- Comi com as crianças. Tens aí, pão, manteiga, queijo, fiambre e fruta, - disse assinalando a mesa posta. Podes escolher o que te apetecer enquanto eu aqueço o leite e faço o café.

- Enquanto o fazes, vou lavar as mãos. Quando voltar fazes-me companhia, preciso conversar contigo – disse ele afastando-se.

Voltou pouco depois, sentou-se e esperou que Laura se sentasse na sua frente para começar.

- O Gonçalo disse-me que já inscreveste o Miguel  numa  creche, onde entraria  já no início de Outubro. Também me disse que tencionavas recuperar a tua carreira este ano letivo, mas não conseguiste colocação em nenhuma escola perto de casa. E que por isso estavas muito aborrecida. Eu tenho uma proposta a fazer-te que talvez te interesse.

- Uma proposta? De trabalho? Que eu saiba não és diretor escolar, nem dono de nenhum colégio.

-Bom, não se trata de ensino, mas é temporário e podia interessar-te para não estares o tempo todo sozinha em casa a remoer mágoas.

-Do que se trata?

A minha assistente está grávida e vai ter bebé já em Outubro pelo que no fim deste mês vai entrar de baixa, e depois terá a licença de maternidade. Serão seis ou sete meses no máximo de ausência, o que me obrigará a recorrer a uma agência de trabalho temporário para conseguir uma substituta.  

Se estiveres interessada, podes aceitar o lugar, a mim dá-me jeito porque não tenho que trabalhar com uma desconhecida e estarás livre antes do fim do ano letivo para voltares à tua carreira. Que me dizes? 

12.5.22

BELAS FRASES DE SABEDORIA



Ontem estive a manhã toda no hospital do Barreiro à espera de uma consulta de cardiologia, por causa dos picos de hipertensão arterial. 
Todos os exames que fiz estão normais. O médico não encontra razão para o que me acontece a menos que seja stress. receitou Sedoxil. 
Não me admira que seja, os olhos estão cada vez pior, o marido não está bem, a pequena Margarida também tem estado doente.
Esperemos por melhores dias.



11.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VIII



Laura ficou na porta vendo o carro afastar-se, perguntando-se mentalmente porque tinha acedido ao convite que Fernando fizera a si próprio. Fechou a porta agradecendo a Deus que os pais iam chegar daqui a pouco e passar com ela a semana. Assim não teria de voltar a aceitar a visita diária do jovem.

 Não sabia o que se passava com ela, mas não se sentia bem na sua presença, ficava sempre inquieta, como se de algum modo a presença dele a incomodasse. E não devia ser assim, Fernando era o melhor amigo de Gonçalo, quase um irmão e durante toda a sua infância e adolescência, os três estavam sempre juntos, ora na casa deles ora na do Fernando, pois eram vizinhos e os seus respetivos pais amigos de longa data. Mas depois ela foi para a Universidade, conhecera Quim e afastara-se não só do vizinho, mas até da própria família. 

Foi como se os dois tivessem criado um mundo mágico, onde só existiam eles. Mais tarde após o casamento, com a ida para Lisboa essa separação foi ainda mais real.

 Apesar de Fernando continuar a ser um grande amigo de Gonçalo, Laura só o via ocasionalmente quando ia visitar o irmão, já que Fernando foi um grande apoio para Gonçalo após o grave acidente de mota, que quase lhe roubara a vida e o obrigara a longos meses de internamento hospitalar. 

Depois que o irmão recuperou, nunca mais o viu, até à morte repentina do marido.

Aí quando ela julgou endoidecer de dor, Fernando por vontade própria, ou a pedido de Gonçalo, esteve sempre lá, tentando apoiá-la com todo o seu conhecimento e amizade.

Esse apoio manteve-se na altura do parto e nos primeiros meses de vida do Miguel.

Mas um dia ela agradecera-lhe todo o apoio recebido até aí, disse-lhe que estava bem melhor e que desejava ficar sozinha com os filhos. Depois disso Fernando afastara-se e só voltaram a ver-se depois que o irmão encontrara Helena e a filha e começara a preparar o casamento.

Laura, não se lembrava bem de quando descobrira que Fernando tinha por ela um sentimento que nada tinha a ver com a amizade. Não que até à véspera, ele tivesse dito alguma coisa, mas se há coisa que não escapa a uma mulher é o desejo refletido no olhar masculino.

 A princípio ficou sem saber como proceder, o coração ainda cheio da imagem de Quim e da dor da sua ausência. Aceitara a companhia e ajuda de Fernando, como aceitara do irmão, ou dos pais. Nunca lhe passara pela cabeça que o amigo de infância pudesse ter por ela outro afeto que não fora uma amizade profunda de quem foi criado junto, quase como uma irmã.

 Tinha receio de magoá-lo, mas não podia fingir que desconhecia o que acabara de descobrir.  Por isso lhe pedira que não voltasse e ele afastara-se sem sequer tentar contestá-la. 

Talvez por perceber que não tinha qualquer hipótese de que ela viesse a corresponder ao seu sentimento.


10.5.22

POESIA ÀS TERÇAS - EUGÉNIO DE ANDRADE




OS AMANTES SEM DINHEIRO


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


Eugénio de Andrade


9.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VII

 


Fora difícil terminar o curso grávida e longe da casa paterna, pois Quim terminara o curso no ano anterior, não tinha mais família do que o tio e padrinho, advogado em lisboa, que lhe pagara o curso e lhe oferecera trabalho no seu escritório, com possibilidades de chegar a sócio mais tarde. Por isso, contra a vontade dos seus pais, partiram para a capital logo após o casamento. E o facto de terem que viver com os tios do marido durante os primeiros tempos, também não era o seu sonho, mas ainda assim nunca se arrependera.

O marido compensava em amor, as saudades que ela tinha dos pais e irmão.

E também porque não dizê-lo os tios de Quim tentaram com todo o carinho apoiá-los naqueles tempos difíceis. E até mesmo após o nascimento de Sara eles foram para a bebé uns verdadeiros avós.

Quando a bebé fez dois anos resolveram pô-la na creche e ela conseguira ser professora num colégio particular e começaram então a pensar comprar uma casa ali perto, tinham algumas economias e Quim tinha uma boa carteira de clientes. Foi nessa altura que ao regressar do tribunal, Quim entrou no escritório do tio para lhe dar a notícia de mais um caso resolvido com sucesso e o encontrou de cabeça em cima da secretária.

 Inicialmente pensou que o tio se teria deixado dormir e já se retirava, quando alguma coisa lhe fez voltar atrás para o acordar. Embora o corpo ainda estivesse quente o tio já estava morto conforme constatara o pessoal médico da ambulância que Quim chamara. O advogado Jorge Simões sofrera um ataque súbito de paragem cardiorrespiratória consoante o resultado da autópsia relatava.

Deu uma volta na cama e olhou o relógio. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Travou o despertador e com cuidado para não acordar o filho, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho a fim de se despachar com a higiene matinal antes de ir acordar as meninas.

Depois de um duche rápido, vestiu-se e foi chamar a filha e sobrinha, seguindo depois para a cozinha a fim de preparar os pequenos almoços e os lanches para elas levarem.

Às sete e trinta e cinco, as duas garotas já tinham comido os cereais, lavado os dentes, preparado as mochilas, encontrando-se prontas para saírem, quando ouviram o som de um carro chegando.

- É o tio Fernando, temos que ir, -disse Sara dirigindo-se à mãe para lhe dar um beijo sendo imitada pela prima.

Laura acompanhou-as à porta fazendo as recomendações habituais. Fernando que tinha saído do automóvel, aproximou-se e disse:

-Convidas-me para o pequeno almoço? Não tenho clientes de manhã e não gosto de comer sozinho. Vou levá-las e volto, pode ser? – perguntou com uma expressão gaiata.

A jovem não soube como negar, apenas assentiu com um movimento de cabeça.

Fernando agradeceu sorrindo e voltou para o carro onde as jovens já aguardavam ansiosas.


6.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VI

 




- Bom, a conversa está muito agradável, o café delicioso, mas é tarde, precisas descansar e eu ainda tenho que ir buscar o carro. Obrigado por me teres permitido passar estes momentos tão agradáveis contigo e espero que possamos repeti-los em breve, em nome da nossa antiga amizade.

Dirigiu-se para a porta, seguido pela jovem. À saída, depois de uma leve hesitação, curvou-se e depositou um beijo breve no rosto dela. E de seguida saiu dizendo:

-Até amanhã. Venho por volta das sete e meia para levar as meninas à escola. Prometi ao Gonçalo que o faria todas as manhãs, até que eles voltem da lua de mel. Para que não tenhas de acordar o Miguel tão cedo.

- Obrigado. Mas não seria preciso. Meus pais vão ficar comigo esta semana e tenho a certeza que gostariam de levar as netas à escola.

-Podem ir busca-las à saída. Promessa é para cumprir e eu prometi ao teu irmão que as levaria - disse encaminhando-se para a porta seguido pela dona da casa.        

 Depois de fechar a porta, Laura, apagou a luz da cozinha e dirigiu-se ao seu quarto não sem antes abrir a porta do quarto da filha e verificar que tanto ela como a prima já dormiam. Fechou a porta com cuidado, e só então entrou no seu quarto. Lentamente, como quem cumpre um ritual, dirigiu-se à comoda, pegou na moldura com a foto do falecido Quim e ficou durante alguns momentos em silêncio, olhando a foto do homem que tanto amara.

Com um suspiro recolocou a foto no lugar, pegou na camisa de dormir e dirigiu-se à casa de banho a fim de se preparar para dormir. O dia tinha sido física e moralmente muito cansativo, e no dia seguinte precisava levantar cedo, pois era dia de aulas.

Apesar do cansaço, adormeceu alta madrugada e o pouco que dormiu foi povoado de sonhos estranhos em que as imagens do casamento do irmão se confundiam com as do seu próprio casamento para logo depois se ver a chorar abraçada ao marido morto. Acordou assustada com um choro aflitivo, saltou da cama e correu para o quarto do filho.

Pegou no menino ao colo e abraçou-o murmurando palavras carinhosas tentando acalmá-lo e fazê-lo calar de modo a que não acordasse a irmã e a prima que dormiam no quarto ao lado.

Quando por fim se calou, mudou-lhe a fralda e tentou deitá-lo, mas Miguel agarrou-se ao seu pescoço de tal modo que decidiu levá-lo para a sua cama.

O menino adormeceu de seguida, mas ela já não conseguiu reatar o sono, aberta que fora a sua gaveta de memórias. Conhecera Quim, no primeiro dia de aulas, apesar de ele andar noutro curso e estar mais adiantado. Fora amor à primeira vista, tanto assim que poucos meses depois já não podiam viver um sem o outro, e embora pensassem casar apenas no fim do curso, uma gravidez não programada, acabara por antecipar a cerimónia.

4.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE V


Laura despiu o filho mudou-lhe a fralda e vestiu-lhe o pijama deitando-o em seguida sempre sob o olhar atento de Fernando. Deu-lhe um beijo e depois de o cobrir saiu do quarto apagando a luz.

Sentia-se nervosa com a presença do jovem. Noutros tempos tinham sido amigos, quase irmãos. Não compreendia porque agora não conseguia agir com a mesma naturalidade desse tempo.

- Meninas, - disse ao entrar na sala e vendo a filha e sobrinha em animada conversa - horas de ir para a cama. Amanhã é dia de escola. Quero a luz apagada e silêncio dentro de dez minutos. E não esqueçam de lavar os dentes.

As crianças levantaram-se e depois de beijarem os dois, seguiram para o quarto rindo baixinho.

Laura dirigiu-se à cozinha a fim de fazer o café e Fernando seguiu-a.

- Surpreendeu-me a tua reação na festa, - começou ele. É verdade que pensas mesmo aquilo que disseste? Queres passar o resto da tua vida sozinha?

- Tenho dois filhos, e dez anos de recordações. Não estou sozinha.

- Um filho é diferente de uma filha. O Miguel vai sentir a falta de uma presença masculina na vida dele. Não podes querer que ele tenha a mesma veneração pelo Joaquim que tem a Sara. Ele nunca conheceu o pai. E ainda que assim não fosse, tens apenas trinta e três anos, quando chegares aos cinquenta, a Sara terá acabado a Universidade, provavelmente estará casada e na sua casa, o Miguel estará na Universidade e quando acabar iniciará a sua própria vida e tu estarás sozinha. Já pensaste nisso?

Os dois estavam sentados à mesa na cozinha, bebendo o café e conversando quase com a mesma naturalidade de muitos anos atrás. Era a primeira vez que o faziam desde que ela entrara na Universidade e conhecera Joaquim.

- Foi o meu irmão que te encomendou o sermão? – perguntou Laura. Ou é o psiquiatra que está a dar-me uma consulta não solicitada?

- Nem uma coisa, nem outra. Parece teres esquecido a amizade que nos uniu durante muitos anos.

- Desculpa. Mas estou cansada do tema. Os meus pais e o meu irmão, não estão comigo cinco minutos, que não me falem de que devo esquecer o homem que foi a razão da minha vida e me deu dois filhos.

- Eu não te digo que devas esquecê-lo, afinal foi o teu primeiro amor e é o pai dos teus filhos, é natural que tenha sempre um lugar no teu coração. Mas o coração humano tem uma enorme capacidade de amar, e há sempre lugar para um novo amor. Tenho a certeza, que seria aquilo que o Quim quereria. Um homem que ama como ele amou, na hora da partida, só deseja que a mulher amada, possa voltar a ser feliz.

-É curioso que saibas tanto sobre o amor, tu que és um solteirão empedernido, que nunca teve, pelo menos que eu saiba, um relacionamento mais sério.

- O facto de não ter um relacionamento não quer dizer que não tenha amado. Às vezes o coração prega-nos a partida de se enamorar de alguém que já vive outro amor, - disse levantando-se. E continuou antes mesmo que Laura tivesse tempo de dizer alguma coisa:

3.5.22

POESIA ÀS TERÇAS - OLAVO BILAC





ORA DIREIS OUVIR ESTRELAS

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

OLAVO  BILAC


Biografia  AQUI

2.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE IV

 

Saíram do salão onde a festa continuava a decorrer, em silêncio, mas logo que chegaram à rua, Laura disse:

-Obrigado por me acompanhares. O meu carro está aqui, já podes voltar para a festa e divertir-te. Passaste o tempo todo ao meu lado.

-Não entendeste, Laura. Vou levar-vos a casa, embora o faça no teu carro. É noite e tens três crianças contigo. A condução de noite é mais perigosa, qualquer distração com as crianças pode ser fatal.

 --Mas… como fazes para voltar? Tens aqui o teu carro.

-Não te preocupes, apanho um táxi, e venho buscá-lo.

Estendeu a mão e depois de uma breve hesitação, Laura entregou-lhe a chave.

Ele deu a volta ao carro, sentou-se ao volante, e abriu a porta do pendura quando ela, depois de sentar o filho na cadeirinha, apertar o cinto de segurança, e verificar se a filha e sobrinha, tinham apertado os cintos, fechou a porta traseira. Depois pôs o motor a trabalhar e arrancou suavemente.

Apesar da distância não ser muito grande, os dois adultos fizeram-na quase sempre em silêncio. O pequeno Miguel, adormecera mal o carro se pusera em movimento e Laura tinha o corpo um pouco virado a fim de observar a filha que ao contrário do irmão se mantinha em animada brincadeira com a prima.  Fernando concentrava a sua atenção na estrada.

- A Matilde e a Sara dão-se tão bem que parecem ter sido criadas juntas, - disse ele ao entrar na rua onde Laura morava.

- As crianças são assim. Fazem amizade rapidamente.

Ele estacionou o carro em frente à porta e disse:

-Vai abrir a porta. Eu tiro o Miguel da cadeirinha e levo-o.

Matilde e Sara, saíram do carro e correram para a entrada rindo de qualquer coisa e Laura seguiu-as para lhes abrir a porta.

Fernando retirou o bebé adormecido, aconchegou-o ao peito com ternura,

fechou a porta do veículo e seguiu para casa.

Lá dentro, Laura estendeu os braços para receber o filho adormecido, mas ele disse baixinho. Se me disseres onde é o quarto dele, levo-o para lá.

Em resposta ela abriu uma porta, entrou e acendeu a luz, mostrando um quarto infantil, com uma cama, uma cómoda, uma banqueta alta estofada e uma cadeira. Laura retirou da comoda, uma fralda e disse baixinho apontando a banqueta.

-Deita-o aqui, preciso mudar-lhe a fralda. Se aceitares um café, podes esperar na sala, eu não demoro.

Ele abanou a cabeça dizendo:

-Espero-te aqui

 


 

1.5.22

1º DE MAIO, DIA DAS MÃES E DIA DOS TRABALHADORES

Neste dia que em Portugal se convencionou ser o dia da mãe, (pessoalmente eu não sou adepta dos dias de... qualquer coisa, muito menos dia da mãe, pois o somos todos os dias até ao último dia da nossa vida.) desejo a todas as amigas que o são, e àquelas que ainda têm a felicidade de contar com a presença física das vossas mães, um dia muito feliz.

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?


Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.


Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!


                                                        Miguel Torga 


1º de Maio foi instituído como o Dia Mundial do Trabalho, num congresso socialista em Paris em 1889, em memória dos mártires de Chicago, das reivindicações operárias que nesta cidade se desenvolveram em 1886 e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o mundo todo.

Ei-los aqui:

Mártires de Chicago: Parsons, Engel, Spies e Fischer foram enforcados, Lingg (ao centro) suicidou-se na prisão.


Meu Maio
A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!

Vladimir Maiakovski

29.4.22

29 DE ABRIL DE 2007 - 15º ANIVERSÁRIO DO SEXTA

 

POEMA PARA UM EMIGRANTE
                                                                                                                                  

Eu queria chamar-me Manuel
e viver tranquilo na minha terra
ir á tardinha com os amigos ao café
e falar do tempo sem pensar que a seca
trará a flor da fome ás searas queimadas.


Eu queria chamar-me Manuel
e ter uma casa, água e luz,
poder fazer um filho livremente
sem pensar na subalimentação
física, nem intelectual


Eu queria chamar-me Manuel
ter emprego e não pensar
que os salários estão atrasados
e talvez o desemprego esteja á espreita
e a fome seja o jantar do próximo mês.


Eu queria chamar-me Manuel
e continuar a pensar Abril,
como a esperança da minha terra.
Eu queria chamar-me Manuel..
e sou apenas o emigrante.

Elvira Carvalho


Foi com este poema, na altura sem foto (eu sabia lá como pôr uma foto) que este blogue nasceu há precisamente 15 anos. Desde então muita coisa aconteceu, muitos amigos passaram por esta casa, alguns ainda por aqui andam, outros partiram atraídos por outras redes sociais, e outros ainda partiram para aquela viagem que ninguém quer fazer mas que mais cedo ou mais tarde todos fazemos.  A esses recordo-os com carinho e muita saudade. Todavia hoje é dia de festa e para ela estão convidados todos que que por aqui passem.




Obrigado Noname