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26.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVI

Lembram-se da crónica feminina? Pois é, procurei uma noiva de 1979, e olhem o que encontrei.




EPÍLOGO

Três anos depois o casal está estabelecido em Aveiro. Quim tinha ajudado os pais, e sogros, na recuperação das velhas casas de família, para lhes dar uma vida de maior conforto, mas a aldeia era demasiado pequena para os seus sonhos. Ele queria montar um bom restaurante, numa cidade,  mas ao mesmo tempo, queria uma zona relativamente perto da aldeia, de modo a que os pais e sogros, pudessem ter uma certa relação de proximidade com os netos.
Dentro desses parâmetros surgiram dois nomes. Aveiro e Viseu. Estudadas as características das duas cidades, o casal optou por Aveiro, pois tinha, segundo a sua lógica, mais condições para atrair o turismo, pela beleza dos seus canais. E passados três anos, o Restaurante Típico da Beira, é o melhor restaurante da cidade e o mais procurado por turistas e residentes. 
Catarina tem sete anos e já está na escola, Maria tem três anos e é o encanto da irmã, pais e avós.
Mas naquele dia o casal está na aldeia.  E é Setembro de novo. O último da década de setenta.
Sofia, está em casa da mãe, no seu antigo quarto de solteira, às voltas com um vestido de noiva. As crianças, lindas nos seus elegantes vestidos de damas, entram e saem sem se calarem, excitadas pela novidade, e seguidas pela velha Idalina, que zela para que não mexam em nada que as possa sujar.  Sofia acaba de se vestir de noiva, como há dez anos atrás. E como nessa altura as primas, Celeste e Maria João, ambas já casadas, ajudam-na a preparar-se. A mãe entra no quarto para as apressar e está radiante. Não só porque a sua menina vai receber o sacramento do casamento, (e para as suas convicções religiosas, deixará de viver em pecado,) como porque agora ela sabe que não tem com que se preocupar. A filha é uma mulher feliz. E se alguma dúvida pudesse ter, bastava-lhe ver os dois juntos. Como se olham, como estão pendentes um do outro, como se entendem com um único olhar. A ideia do casamento religioso, foi de Quim. Ele queria vê-la vestida de noiva, queria viver a emoção de a esperar junto ao altar.
Ela aceitara. E no fundo, também está muito feliz, apesar de pensar que a cerimonia, não vai aumentar nem diminuir o amor que os une. Mas também ela sente a emoção de se vestir de noiva para ele.
O desejo de se ver refletida nos seus olhos na hora do juramento sagrado. De sentir o calor da sua mão, na troca das alianças. Pequenas coisas que fazem a felicidade de uma mulher, e que ela ainda não vivera.
E depois, ele não lhe tinha dito uma vez, que o juramento perante Deus, era para aqueles que sentiam um grande amor?

Fim


Elvira Carvalho

17.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXIV




Chegaram a casa a meio da tarde, depois de uma paragem na Nazaré onde almoçaram uma deliciosa caldeirada. Não trocaram mais do que meia dúzia de palavras, no resto da viagem. O agradável convívio da tarde e noite de sábado, por certo ficara lá em Aveiro, já que agora se estudavam como dois antagonistas. Odete não conseguia perceber como João fora capaz de a trair. Como fora capaz de abraçar Inês, de se deitar com ela, depois de tudo o que tinham vivido em conjunto. E ficava furiosa consigo, por continuar a sentir-se atraída por ele, e por ter a certeza de que apesar do doloroso espinho que trazia no coração, o marido continuava a ser rei e senhor dentro dele. Tinha absoluta consciência de que teria sido sua, se ele o tivesse tentado na noite anterior. E essa consciência, deixava-a furiosa. Que tipo de mulher era ela afinal? Onde estava a sua dignidade?
Por seu lado, João sentia-se impotente, perante a indiferença da mulher. Não conseguia compreender como ela fora capaz de o abandonar, quando ele se entregou de corpo e alma a ela e ao amor que os unia. Tal como um condenado, conta os dias que faltam para a sua libertação, ele contou um a um todos os que passaram desde que ela se fora. Noite após noite, na solidão do seu leito, contabilizou, mais um dia que acabava sem saber dela. E foram muitos. Mil trezentos e  oitenta e sete dias exatos. Em tempos, pensou contratar um detetive. Desistiu, por pensar que seria indigno violar a privacidade da esposa.
- Finalmente em casa. Sei que deves estar ansiosa por ir ver a tua mãe, mas aconselho-te a tomares um banho e descansares um pouco. Está demasiado calor. Será melhor até para ela que descanse nestas horas de maior calor. O ideal será ires depois da hora do lanche. E eu acompanho-te.
Sentiu de novo vontade de o provocar.
- Porquê? Acaso pensas que me acoberto nas visitas à minha mãe para me encontrar com alguém?
Contraiu-se a expressão masculina. Cerrou os punhos e meteu as mãos nos bolsos das calças, para não ceder à tentação de lhe agarrar num braço e o apertar, como fizera no carro.
-Estás a ser perversa, e não te conhecia essa faceta,- disse com raiva. – Sempre tive um certo carinho pelos teus pais, e penso que dei sobejas provas disso. É natural que me preocupe com a tua mãe e queira ver como está.
- Desculpa. A gravidade da sua doença, e a minha vida atual, afetaram o meu discernimento.
Ele não respondeu. Virou-lhe as costas e dirigiu-se ao escritório. À entrada, voltou-se e disse quase sem expressão.
-No nosso quarto, estão todas as tuas coisas, roupas, calçado, tudo o que tinhas quando partiste.  Fisicamente não mudaste muito, por isso se precisares vai até lá e serve-te. Vou ficar por aqui uma meia hora, - disse fechando a porta atrás de si.
Ficou perplexa. Que homem guarda durante anos as coisas da sua esposa, depois de a ter traído?





15.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XX




Ainda que vivesse uma eternidade, Odete não esqueceria aquele dia em Aveiro, pensava à noite, enquanto se olhava no espelho, já depois de ter escovado os dentes e de se ter preparado para dormir. Tinha sido uma tarde e uma noite fantástica, com João sempre pendente dela, sempre disposto a vê-la feliz. A julgar por aquele dia, qualquer pessoa diria que ele estava apaixonado por ela. Mas ela sabia que isso não era verdade. Quem ama não trai. Devia tratar-se de um jogo qualquer. E o pior é que ela continuava a amá-lo com a mesma paixão de outrora. A distância e a saudade, longe de lhe fazerem esquecer, pareciam ter avivado o seu amor por ele. E agora ali estava ela, preparada para dormir, mas com as pernas a tremer e sem coragem de se dirigir à cama que teria que partilhar com o homem, que ainda era seu marido.
Finalmente saiu da casa de banho e respirou fundo ao ver que estava sozinha no quarto. Apressada enfiou-se na cama, puxou o lençol até ao pescoço adotando a posição fetal, e fingiu dormir. Poucos minutos volvidos, João entrou no quarto, foi direto à cama, e puxando o lençol, deitou-se e apagou a luz.
No seu lado da cama, Odete relia mentalmente a carta de Inês, tantas vezes lida que a sabia de cor, tentando assim afastar o desejo que o partilhar da cama com o marido, despertara no seu corpo.
No outro lado da cama, de costas para ela, João apertava os punhos, amordaçando a vontade de se voltar e abraçar a mulher.  Tinha quase a certeza de que se o fizesse, ela não ia resistir. Mas não ia fazê-lo. Um dia, ela tinha-o amado. E sempre ouvira dizer que onda há cinzas há fogo. Tinha que conseguir avivar esse fogo. Conquistá-la de novo. Só assim podia ter a certeza de que não voltaria a abandoná-lo, logo que a mãe ficasse curada.
 Recordar o que sofrera, naquela altura, dava-lhe força para resistir. Não saber onde e com quem estivera naqueles quase quatro anos, era um espinho cravado na alma, que doía sem parar. Se ele soubesse, talvez amenizasse a sua dor, mas era demasiado orgulhoso para lho perguntar. Teria que ser ela a contar-lhe, quando viesse para ele de livre vontade. Se assim não fosse, seria melhor pedir o divorcio e por de vez um ponto final nos seus sonhos, por muito que lhe doesse.
Cansado acabou por adormecer.
Odete continuava acordada. Fingindo dormir mas atenta a todos os movimentos do marido, soube que ele tinha adormecido quando percebeu a alteração da sua respiração. Relaxou, esticou um pouco as pernas doloridas, e murmurou uma pequena prece ao Anjo da Guarda, hábito antigo, aprendido em criança com a sua avó paterna
Anjo da Guarda / minha companhia
Guardai a minha alma/ de noite e de dia.

13.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVI






Às onze e meia, da manhã de sábado, Odete entrou na casa onde vivera os anos mais felizes da sua vida, e onde iria voltar a viver, a troco da saúde da sua mãe. Não sabia o que lhe reservava o futuro, mas sabia que ia ser doloroso, viver debaixo do mesmo teto que o marido, pois apesar da dor da traição, e do tempo que vivera longe, o seu amor por ele continuava intacto. Por mais que a razão tentasse esquecê-lo o coração não obedecia.
- Bom dia, - saudou-a o marido. Vejo que não esqueceste a chave. Como está a tua mãe?
- Bom dia. Como queres que esteja? Cada vez mais debilitada. Obrigado pelo que estás a fazer por ela.
- Não me agradeças. Os teus pais sempre me trataram como se fosse um filho. A única queixa que tenho deles, é a de não me revelarem o teu paradeiro, mas acredito que por imposição tua. Vai guardar a mala no quarto e prepara o suficiente para uma noite, vamos viajar.
- Não vou a lado nenhum. A minha mãe pode precisar de mim a qualquer momento.
- A tua mãe pode precisar de cuidados médicos e se assim for, a enfermeira avisar-me-á imediatamente e eu tomarei providências. Tenho um colega pronto a atendê-la se for necessário. Vai, faz o que te disse e não demores. Almoçamos pelo caminho.
Mordeu os lábios e engolindo a resposta agreste que lhe apetecia dar, pegou na mala, e dirigiu-se ao quarto de hóspedes. Ele que não pensasse que iam partilhar o quarto.
Mudou de roupa pôs o essencial numa maleta, e regressou à sala.
-Estou pronta, - anunciou
-Vamos, - disse tirando-lhe a maleta das mãos e dirigindo-se para a porta.
Entraram no carro e durante um certo tempo, mantiveram-se em silêncio
- Pode saber-se para onde vamos? - Perguntou ao ver que João entrava na autoestrada do norte.
-A Aveiro ver a minha mãe.
- A tua mãe está em Aveiro? A fazer o quê?
-Logo depois que desapareceste, a tia Margarida ficou viúva, e a minha mãe foi passar um tempo com ela para a animar. Gostou de viver lá e como as duas são viúvas resolveu ficar . Uma faz companhia à outra. Gosta muito de ti e pergunta-me sempre porque não te levo quando vou vê-la.
- Eu também gosto muito dela, foi sempre muito carinhosa comigo.
- Folgo sabê-lo.
O silêncio caiu de novo sobre eles. Intenso, sufocante. João mantinha-se sério, atento à estrada, ela estava espantada. Por que razão a sogra, perguntava sempre por ela? Acaso não sabia que se tinham separado? Será que João tinha escondido isso da mãe?  E porque razão o faria? Teria esperança de que ela voltasse?
Nessa altura, João saiu da autoestrada, na direção de Torres Novas, onde tinha decidido que iam almoçar.


24.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVII


Lembram-se da crónica feminina? Pois é, procurei uma noiva de 1979, e olhem o que encontrei.




EPÍLOGO

Três anos depois o casal está estabelecido em Aveiro. Quim tinha ajudado os pais, e sogros, na recuperação das velhas casas de família, para lhes dar uma vida de maior conforto, mas a aldeia era demasiado pequena para os seus sonhos. Ele queria montar um bom restaurante, numa cidade,  mas ao mesmo tempo, queria uma zona relativamente perto da aldeia, de modo a que os pais e sogros, pudessem ter uma certa relação de proximidade com os netos.
Dentro desses parâmetros surgiram dois nomes. Aveiro e Viseu. Estudadas as características das duas cidades, o casal optou por Aveiro, pois tinha, segundo a sua lógica, mais condições para atrair o turismo, pela beleza dos seus canais. E passados três anos, o Restaurante Tipico da Beira, é um grande sucesso. 
Catarina tem sete anos e já está na escola, Maria tem dois anos e é o encanto da irmã, pais e avós.
Mas naquele dia o casal está na aldeia. E é Setembro de novo.
Sofia, está em casa da mãe, no seu antigo quarto de solteira, às voltas com um vestido de noiva.  

Fim


Elvira Carvalho