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20.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE VIII

 

Nos anos seguintes enquanto Anabela se dedicava de corpo e alma aos estudos, muitas coisas mudaram.

Matilde aceitou uma oferta para o Hospital de St. Mary em Londres e emigrou numa noite fria de dezembro, e Paula e Diogo resolveram pôr fim a um namoro de três anos, casando-se na Primavera seguinte.

Paula continuara no apartamento, após o casamento e inicialmente ela continuara com eles, mas apesar da grande relação de amizade que as duas mulheres tinham criado entre si, Anabela, sentia-se inibida a conviver com os jovens recém-casados. Decidiu deixar o apartamento ao casal e iniciou a procura de outro quarto.

Conseguiu-o em casa de Maria Rosa, uma colega da Universidade. A jovem vivia com os pais, numa casa antiga, na Avenida do Brasil, tinha um quarto livre, que tinha sido do irmão mais velho, que tinha emigrado para a Austrália. Segundo a jovem lhe confessou, os pais faziam um grande sacrifício para lhe pagar os estudos, e pensavam alugar o quarto, para ajudar a equilibrar as contas. Assim, Anabela resolvia o seu problema, e ajudava os pais de Maria Rosa a aliviar as despesas.

Um ano depois, Paula fora mãe de uma linda bebé, e Anabela que já fora a madrinha de casamento da amiga, foi convidada para madrinha da bebé, estreitando cada vez mais a relação de amizade entre as duas.

Aos vinte e sete anos, Anabela terminou o seu Curso de Enfermagem com excelentes notas, tal como já tinha terminado o Curso de Fisioterapeuta quatro anos antes.

E foi precisamente no bar onde fora com outros finalistas festejar o fim do Curso que ela conhecera Óscar.

Ele encontrava-se encostado ao balcão e era um homem bem parecido, alto de cabelos e olhos escuros, e sorriso fácil.

Por momentos os olhos dos dois encontraram-se e o sorriso dele abriu-se mais, enquanto inclinava levemente a cabeça como se estivesse cumprimentando-a.

Anabela, virou a cara envergonhada. Ela não tinha experiência de namoros. Aprendera da pior maneira aos dezassete anos, que uma jovem órfã e sem dinheiro, não servia para namorar a sério. Fora o que lhe dissera o namorado a quem pediu explicações quando ele a deixou depois de com promessas enganosas a ter levado para a cama. Desde aí, ela nunca mais tivera qualquer relação com o sexo oposto a não ser a de uma amizade pura com o marido da Paula, ou com algum colega na clínica enquanto lá trabalhou.

Apesar dos anos que já vivia na cidade, no fundo ela continuava a ser a jovem simples da aldeia. Um dia lera em qualquer lado, que se pode tirar uma pessoa da aldeia, mas não se pode tirar a aldeia da pessoa. E ela sentia que era verdade.


E ontem chegamos aos 60.000 comentários. Obrigado a todos que leem e deixam a vossa opinião.


26.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XV



- Não eras totalmente um desconhecido. Conheço toda a tua família e lembrava-me de ti, embora estejas muito diferente daquela época, como é evidente. Mas tens razão, sim. Na verdade o meu maior sonho, era sair da aldeia. Queria conhecer outras pessoas, outros terras. O facto de ser filha única não me fez mais feliz do que as demais, antes pelo contrário, quase me tornou uma prisioneira, na minha própria casa. Desde que acabei os estudos, nunca mais saí da aldeia. Nunca tive um namorado, nem sequer um amigo. Meus pais não me deixavam ir trabalhar e eu sentia-me sufocar entre quatro paredes. 
Aceitar a tua proposta, foi o abrir da gaiola, e o meu voo para a liberdade.

- Um casamento nunca é um voo para a liberdade, Sofia! 


- Mas era a minha hipótese de ter outra vida, conhecer novos horizontes. Hás de convir, que não tem nada a ver esta casa, e esta cidade, com a nossa aldeia.
Até mesmo a tua mentalidade. Os homens da nossa aldeia, não falam com as mulheres ou com as filhas abertamente, nem lhes dão opção de escolha, como tu o fazes. Eles é que sabem tudo da vida e do mundo, as mulheres servem para lhes dar filhos e para cuidar da casa e da família. Pode ser que eu seja um pouco maluca, mas penso que o horizonte das mulheres na aldeia e talvez no país, não sei, é demasiado negro. Sonhava com uma vida diferente.

- E o amor, Sofia? Onde fica o amor?
- Minha mãe, sempre me disse que o amor vem com a convivência. Que só no dia a dia, enfrentando juntos, alegrias e tristezas, se pode chegar ao amor. 
-E tu, acreditas nisso?

-Não sei. Como te disse, nunca tive um namorado, só convivi com rapazes da minha idade, enquanto estudava, era uma miúda e nunca me senti atraída por nenhum deles. Ainda não tinha feito dezasseis anos, quando terminei o curso, e desde aí praticamente não saía de casa, a não ser para a igreja, e sempre com a minha mãe. Não tenho razões que me permitam acreditar ou não.

Quim levantou-se e aproximou-se da janela. Ficou olhando na escuridão durante alguns segundos.

- E se te disser que não pensava em me casar? E se te disser que os meus tios me pressionaram até ao limite, para que o fizesse?
A sua voz soou rouca, ao fazer a confissão.
- Não entendo. Estás a dizer que te obrigaram? Porque iriam fazê-lo? E porque o aceitaste? És um homem adulto.

- Desculpa, se de algum modo te vou magoar, mas não ficarei de bem com a minha consciência, se não for sincero contigo. Apaixonei-me por uma mulher que eles não consideram digna. No fundo, eu sei que estão certos, mas é como dizem, no coração não se manda. Daí que eles acharam que a maneira de me “meterem juízo na cabeça” seria casarem-me.

Porque é que lhe doeu aquela confissão? Não tinha razão para isso. Não estava apaixonada pelo marido.

- Continuo sem perceber, porque obedeceste. És maior de idade, e por muito que gostes deles, não têm o direito de mandar na tua vida. Nem sequer são teus pais.
- Não entendes. Seria mais fácil se fossem meus pais. Como viste estão velhos, e depositaram em mim todas as esperanças e o amor que teriam dado a um filho. Estou-lhes muito grato e devo-lhes respeito. 
 Se recusasse teria que deixá-los, procurar outra casa, outro emprego. O trabalho não me mete medo, sinto-me capacitado para trabalhar em qualquer lugar, mas  sei que ao fazê-lo,  os mataria de desgosto.
Sofia, levantou-se e caminhou até ele. Pôs-lhe a mão no ombro, e perguntou suavemente:
- E agora? Que pensas fazer?




14.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIX






- Pode ser que seja a maior asneira da minha vida, mas vou confiar em ti, vou cancelar todas as investigações e tentar esquecer o erro cometido pelos médicos, durante o tempo que me pediste. Espero que me dês o teu contacto e me permitas telefonar de vez em quando para saber como estás e que me ligues imediatamente se surgir algum problema. Gostaria que mudasses de médico assistente, não confio nos médicos do Centro, quem erra uma vez pode errar duas. Mas compreendo que isso é uma decisão tua. Estamos no final de Junho, portanto no final de Setembro teremos que decidir o que vamos fazer no futuro em função do nosso filho.
 Disseste que escolheste este método por não estares interessada em nenhuma relação, pelo que suponho não tens namorado, ou amante com quem discutir este assunto, embora me pareça estranho que uma mulher bonita como tu não tenha ninguém na sua vida.
A Teresa pareceu-lhe ver nos seus olhos uma pergunta que não se atrevia a fazer.
- Como te disse, sou filha de mãe solteira, neta de avó divorciada. E quando se cresce com duas mulheres abandonadas, sofredoras e amarguradas, acabamos por nos afastar de toda e qualquer relação com o sexo oposto.
-Sendo assim creio que nos entenderemos. Até porque a minha  decisão está tomada.
 A criança será nosso filho e como pai quero fazer parte da vida dele, antes mesmo do seu nascimento. Isto é, acompanhar-te às consultas, assistir às ecografias, e ao parto. Podemos ser amigos e criar e educar o nosso filho em conjunto. Todavia se depois deste interregno, decidires que a criança é apenas teu filho e me negares o direito de fazer parte da sua vida, podes crer que irei buscar esse direito nos tribunais e que utilizarei todos os meios ao meu alcance para te aniquilar. De acordo?
-Parece-me justo, - disse ela abrindo a carteira e entregando-lhe um cartão. – Na verdade, ambos somos vítimas duma cilada, que a vida nos armou. Cabe-nos lutar para sair dela, com o mínimo de feridas possível. De seguida, levantou-se e ele fez o mesmo aproximando-se dela.
-Posso levar-te a casa? – perguntou
- Obrigado, mas tenho o carro estacionado no parque.
- Então acompanho-te até ele.
Abriu a porta, afastou-se para lhe dar passagem e seguiu-a dizendo ao passar pela secretária da sua assistente.
- Olga, vou lá abaixo acompanhar a senhora, já volto.
- Não era necessário acompanhar-me, - disse Teresa ao entrar no ascensor.
- Sei que não – respondeu, aproveitando o espelho do elevador para a mirar de alto a baixo. Era mais alta do que a maioria das mulheres, bonita e muito elegante. Além disso era inteligente e muito corajosa, ou não teria tomado a iniciativa de o procurar. Quando os seus olhos se encontraram através do espelho, Teresa corou e apressou-se a desviar o olhar, desejando sair rapidamente daquele curto espaço e da proximidade masculina.
Passaram pelo porteiro e pelo segurança e quando à porta ela lhe estendeu a mão para se despedirem, ele disse:
-Acompanho-te ao carro
Ela teria preferido despedir-se dele no escritório. Queria estar sozinha para relembrar a conversa e meditar sobre tudo o que nela disseram.
Pouco depois sim, despediam-se junto ao carro com um simples aperto de mão.
Teresa pôs o carro a trabalhar e arrancou. Ele ficou parado vendo-a afastar-se até que o carro saiu do parque e entrou na estrada. Só então regressou ao escritório.

24.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXI




Parecia distraído com a conversa, mas estava atento à jovem, ao seu rubor, ao estremecimento que aquela carícia lhe provocara, ao esconder do seu olhar nos olhos semicerrados. Estava desejoso de acabar com aquela representação na cama. Porque ele estava convencido que toda aquela inocência, não passava de representação, afinal Isabel não era nenhuma adolescente, e segundo o relatório de Artur, tivera pelo menos um namorado.

- Para onde sigo agora?-perguntou Sérgio ao entrar em Lisboa.

- Para casa da Natália, na rua Alexandre Braga, em Arroios. Conheces? – perguntou Ricardo.

-Arroios sim, mas essa rua, não sei onde fica.

- É logo acima do Jardim Constantino, - elucidou Natália.

Pouco depois, estavam à porta do prédio. O casal saiu do carro e Ricardo pegou na criança adormecida ao colo, para que Natália saísse.

Pouco depois regressavam deixando a menina com Natália, não sem antes Isabel ter feito um milhão de recomendações à amiga, como se ela nunca tivesse tomado conta da criança. Depois deixaram Artur, em casa e por fim, Sérgio deixou-os à porta do prédio onde tinham o apartamento, dizendo na brincadeira que ia aproveitar a limusina para levar a esposa num passeio romântico. Ricardo riu-se e despediu-se com uma forte palmada nas costas de Sérgio.

Tinha parado de chover, e os dois ficaram uns momentos vendo o carro afastar-se.  Depois Ricardo enlaçou a jovem murmurando:

-Vamos.

 Encaminharam-se para a porta no momento em que as luzes da rua se acenderam. Os dias pelo Natal são muito curtos. Apesar do relógio marcar pouco mais que dezassete horas, o dia dera lugar à noite.
Eles entraram no elevador em silêncio. Ricardo estava ansioso por dar livre curso ao seu desejo. Isabel encontrava-se dividida por emoções contraditórias. Desejava tanto fazer amor, como o receava. Pela sua cabeça passava uma infinidade de perguntas. Iria saber corresponder aos desejos dele? Iria ser prazeroso ou iria doer-lhe muito? O que é que um homem experiente nas artes do amor, espera de uma mulher? Estremeceu, e ele apertou-a carinhosamente.
-Tens frio? – perguntou solicito.
- Um pouco – mentiu enquanto o elevador parava no andar da sua nova casa.
Ao chegarem à porta, ele abriu-a, e depois voltando-se passou-lhe um braço pelo pescoço e o outro pelas pernas e pegou-lhe ao colo.
-Que fazes? – perguntou nervosa.
- Cumpro a tradição – respondeu entrando em casa e fechando a porta com o pé. Com cuidado, pousou-a no chão, mas não a largou. Beijou-a apaixonadamente.
 - Estava doido para te beijar, para te ter assim, nos meus braços. Meu Deus nunca um dia foi tão longo.
Ricardo era um homem atraente, que agradava às mulheres. E elas agradavam-lhe. Essa combinação fazia que nunca tivesse tido problemas em satisfazer os seus desejos, quando determinada mulher lhe agradava. Isabel agradava-lhe e muito. Desejava-a mais do que desejara qualquer outra, desde o primeiro beijo naquela noite. Mas de um modo ou de outro, qual virgem envergonhada, ela conseguira evitar a união sexual, durante o tempo que mediou entre o ter aceitado casar com ele, e o dia do casamento. E isso foi exacerbando o seu desejo até ao limite.
Mas agora eram marido e mulher, e ele não conseguia controlar-se mais.


14.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXIII



-O que a Natália pensa disto? – perguntou Isabel no dia seguinte à vizinha e amiga depois de lhe ter contado a conversa tida com Ricardo, no dia anterior
-É uma situação complicada, minha filha. Mas tem mesmo a certeza de que ele não é o pai da Matilde?
-Ele sempre o negou e o teste de ADN confirma as suas palavras. Na prática ambos somos tios dela, mas por causa do registo de nascimento, oficialmente ele é o pai da Matilde. Se ele quiser a menina, e for para tribunal, não tenho meios para contratar um bom advogado, e provavelmente ficarei sem ela, pois entre um pai com condições para lhe dar uma boa vida e educação, e uma tia que vive de um ordenado, não vejo que juiz decidiria a meu favor. Se casar com ele está tudo resolvido, mas como posso casar com um homem que mal conheço?
-Às vezes, Deus escreve direito por linhas tortas. A Isabel fez trinta e três anos em Janeiro. O único namorado que lhe conheci durou três meses. Segundo me disse, quando a sua mãe morreu, ele queria que entregasse a sua irmã à Segurança Social, porque não ia avançar para uma relação séria com a responsabilidade de ter de a criar. Depois disso teve dois pretendentes, que fugiram quando foram confrontados com o problema. Não preciso de lhe repetir que gosto de si como de uma filha. E é como tal que lhe digo, que talvez seja a única hipótese que a Isabel tem, de viver as emoções de uma vida a dois. Claro pode sempre arranjar um amante e viver a sua vida de liberdade, mas como a conheço bem, sei que isso está fora de questão. O homem é atraente, educado, (pelo menos foi o que me pareceu quando falei com ele). O amor pode acontecer com o tempo e a convivência.
- E se não acontecer? Como vou dormir com um homem sem amor?
- Para dormir com um homem não é preciso amor. Quase sempre o que leva um casal para a cama é a atração física, o desejo, ou como os jovens dizem agora, a química. Isso é que nos põe o sangue em ebulição, e faz o nosso corpo desejar experimentar novas emoções. E contrariamente ao que nós sonhamos, essa sensação, nem sempre está associado ao amor. Se a atração física é muito forte, pode nascer um grande amor. Mas não há amor que resista à falta de desejo, ao desinteresse pelo corpo do outro, pelas suas carícias. Não sei se me estou a fazer entender, já estou quase a fazer sessenta anos, e a juventude agora tem outras formas de se expressar que não havia no meu tempo.
A Isabel tem que pensar bem, nos prós e contras daquilo que vai decidir. O que acabo de lhe dizer não deve influenciá-la de modo algum. Limitei-me a dizer-lhe o que eu penso do assunto, porque me pediu a opinião. Pense bem, consulte o seu coração, e tenha a certeza, que seja qual for a sua decisão, eu vou estar aqui para a apoiar, moral ou financeiramente, como faria se fosse minha filha.
-Agradeço-lhe de todo o coração, mas como já lhe disse em outras ocasiões, não quero que gaste o seu dinheiro comigo. Nunca se sabe o dia de amanhã, minha amiga.
- Mãim!!
Isabel levantou-se de um salto e encaminhou-se para o quarto, seguida pela amiga.
- Pronto, meu amor, a mãe já aqui está – disse dirigindo-se à janela e levantando a persiana.


4.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XIII






-Há uns dias fui surpreendido com uma carta muito estranha – disse abrindo a gaveta e retirando a carta que entregou ao investigador. - Com a carta veio esta cópia de registo de nascimento, de uma menina. Como podes ver,  registada como minha filha. Não sei o que pensar porque de uma coisa eu tenho a certeza absoluta. Não conheci essa tal Susana e não sou o pai da miúda. Decidido a prová-lo fiz o teste do ADN. Chegou hoje o resultado, e como eu tinha a certeza, confirma que não sou pai da criança. Mas acrescenta que posso ser um familiar direto e aconselham-me a repetir o exame, para determinar o grau de parentesco. Tinha anunciado à tia da miúda que ia impugnar o registo logo que recebesse o resultado do teste de ADN e agora não sei o que fazer. Se a criança é da minha família não quero abandoná-la a uma vida de privações, quando eu tenho mais do que o suficiente para o resto da minha vida.
Passou o relatório do laboratório ao amigo que o analisou cuidadosamente:
 - De posse do resultado deste teste, podes pedir a impugnação judicial, do teu nome no registo da criança,  apresentando um requerimento fundamentado neste resultado. É melhor arranjares um advogado, ele te aconselhará como deves fazê-lo. Provavelmente o juiz pedirá um novo teste num laboratório indicado pelo tribunal. Acontece que se o resultado se mantiver, a criança é sem dúvida um familiar teu. Por outro lado, se a amiga dessa Susana, que frequentava a Universidade com ela, te reconheceu na foto que lhe mostrei, a pessoa em questão terá que ser uma pessoa muito parecida contigo.
- Mas não sou eu. Eu nem sequer sabia da sua existência, juro.
-  Acredito. De repente passou-me uma ideia pela cabeça. Pode ser maluquice, mas …
- Desembucha, estás a pôr-me nervoso.
-  Tu juras não ter conhecido a mãe da criança, mas ela estava convencida do contrário. Por outro lado, se não te conhecia como sabia o teu nome completo, a freguesia onde nasceste e todos os dados que estão nessa cópia de registo?
-Como hei de saber? – disse Ricardo levantando-se e caminhando até à janela. – Não sou adivinho.
E no entanto só há uma hipótese. Alguém namorou com ela em teu nome e lhe deu os teus dados. Por outro lado atendendo a esse resultado, tinha que ser alguém da tua família e bastante parecido contigo. Diz-me uma coisa? Quando foi a última vez que o teu irmão esteve em Portugal?
Ricardo voltou-se repentinamente.
- Que queres dizer com isso?
- Não me dirás que não é o tipo de coisa que o teu irmão costumava fazer.
- Sim, claro, mas na altura era um miúdo. Agora é um homem, casado e com família. Por pouca simpatia que me tenha, não teria como fazer isso. Depois a Susana era uma miúda. Quase podia ser filha dele. 


22.1.19

QUEM SABE FAZ A HORA... - PARTE III

reedição




Cecília era uma bela mulher. Alta, morena, corpo curvilíneo, e um rosto onde se destacavam dois belos e expressivos olhos castanhos. Boca pequena e carnuda, ladeada por duas pequenas covinhas sempre que sorria. Tinha acabado de fazer trinta e seis anos, e estava em toda a plenitude da sua beleza.
Há muitos anos atrás era quase uma menina, tinha namorado o João. Na verdade ele fora o primeiro e único amor da sua vida, muito embora outros homens tivessem entrado nela.
- Então amiga, arrependida? - perguntou Sandra.
- Bem sabes que não. Mas estou apreensiva. E se depois de me ver, ele não sentir nada? Tenho medo: - disse baixinho. Tão baixinho que Sandra mais adivinhou que ouviu. E perdeu-se de novo nas suas recordações.
No final dos anos oitenta, muitas empresas abriram falência, muita gente perdeu o emprego. O pai de Cecília fora um dos que se viram de um momento para o outro sem emprego. O irmão, que emigrara há anos para o Brasil, insistia para que ele fosse para lá. Artur resistia, apesar das saudades que tinha do irmão, e dos pais que já tinham ido. Por causa da esposa e da filha que não mostravam vontade em sair de Lisboa. Perdido o emprego, e sem grandes esperanças de conseguir outro que lhe permitisse o mesmo nível de vida, não lhe restou outra coisa que convencer a mulher e a filha a fazer as malas.
No Brasil, Cecília levou muitas noites sem dormir. Chorando de saudades. De Lisboa, dos amigos e principalmente do João. Escreveu longas e inflamadas cartas de amor, que nunca enviou. Com o passar do tempo, as lágrimas foram secando. Um dia quase sem dar por isso viu-se noiva do primo. Influenciada pelos pais, pelos tios, e também pelo devotado amor que Alberto lhe dedicara desde o dia em que a conheceu. Para Cecília, tanto fazia. O seu coração tinha ficado lá longe. Só a avó se preocupava. Que ela não parecia uma noiva feliz. Que ela não demonstrava a alegria de uma noiva. Mas ainda assim Cecília casou num dia de Santo António. Um casamento que durou três anos. Três anos dum casamento, onde havia respeito, amizade, e carinho, mas onde nunca houve pelo menos da sua parte, desejo, ou paixão. E não fora aquele fatídico acidente, que vitimara Alberto, talvez Cecília se tivesse resignado àquela vida. Ou talvez não, quem sabe.

31.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXIX


- O que deve fazer uma mulher que ama um homem, para que ele perceba?- Perguntou de súbito Mariana
Maria riu-se.
-O quê? Não me digas que não sabes. Vais dizer-me que nunca tiveste namorado?
-Amigos sim, namorado só o primeiro coleguinha quando fui para a escola.
- Mas tu és linda, tens bom gosto, és simpática. Por onde tens andado?
 -Por aí. Mas não me respondeste.
- Insinua-te. Se ele não for parvo, percebe.
- Insinuar? Como?
-Isso é lá pergunta que uma mulher faça? Mariana, tu não deves estar bem. Deixa cá ver se tens febre, - brincou Maria tentando colocar-lhe a mão na testa.
-Não sejas tonta. E vamos às compras que ainda gostava que me ajudasses a decorar a árvore de Natal.
Na loja Mariana escolheu um par de calças de ganga, e uma camisola de gola alta vermelha,
-Gostas?
-É um conjunto muito bonito.
-Então vai experimentar. É para ti. Prenda de Natal.
- Para mim? Oh! Obrigado. És um anjo, - disse quase arrancando-lhe as peças da mão, esfuziante de alegria.
Quando saíram, Mariana perguntou à amiga:
-E agora? Sapatos ou botas?
- Posso escolher?
Acenou afirmativamente
-Botas.
Entraram na sapataria, e Maria escolheu umas botas de cano alto, sem salto, muito práticas.
Quando regressavam a jovem disse quase chorando.
-Este ano, não esperava ter outra prenda que não a do Luís. Desde que o pai morreu, o dinheiro lá em casa, é muito pouco. Nem quero pensar o que teria sido de nós, se a minha mãe não tivesse vindo trabalhar para a tua casa.
- Não é a minha casa. É do Miguel.
- Mas tu vives lá. Porquê?
- Porque meu pai morreu, e eu estava doente, como sabes.
Calou-se. Maria percebeu que a jovem não queria falar da sua vida, e mudando de conversa disse:
-Tenho tantas saudades do meu pai!
-Também eu Maria ! Também eu!- Repetiu com tristeza.




11.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XIII




- Por mim, -disse pousando o copo vazio, em cima da mesa. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Certo que sou um homem, que desde sempre viveu sozinho, e não é fácil dividir o meu espaço com uma desconhecida. Mas quando faço uma promessa cumpro-a, e eu prometi cuidar de si e ajudá-la. E vou fazê-lo contra tudo, até mesmo contra a sua vontade. Claro que se cooperar, será muito mais fácil para os dois. Fechar-se em casa, horas e horas a chorar, não vai ajudá-la em nada.
Nesse momento a jovem saiu a correr para o quarto. Atirou-se em cima da cama chorando copiosamente.
Miguel deixou-a chorar durante largos minutos. Depois entrou no quarto, sentou na beira da cama e estendeu-lhe um lenço.
- Pronto. Já chega, - disse em voz baixa, num tom carinhoso, como se estivesse a falar com uma criança.
-Tem medo? Acredito que sim. Eu também teria no seu lugar. O futuro pode ser temeroso, mas o passado que se desconhece será bem mais assustador. Se não está preparada, podemos esperar mais uns dias, mas eu no seu lugar ia o mais rápido possível. Já pensou, no sofrimento que pode estar a causar a terceiros? Que os seus pais, irmãos, quiçá o namorado, podem andar por aí desesperados à sua procura?
Calou-se. Mentalmente Miguel interrogava-se. Foi impressão sua, ou sentiu uma estranha tensão no corpo da jovem, quando falou na família?
O silêncio adensou-se. Miguel não sabia que dizer mais para aquietar o coração da jovem. Fez-lhe uma leve carícia na cabeça e deixou que se  acalmasse por esgotamento.
Algum tempo depois, ela levantou o rosto, e olhando-o disse:
- Pode marcar a consulta. Só não sei o que vou dizer ao médico.
-Não se preocupe com isso. Na hora saberá. Agora descanse.
Levantou-se e dirigiu-se ao quintal.
Ai, acendeu um cigarro. Raramente fumava. Mas em horas de grande tensão, era no cigarro que se refugiava. Não conseguia afastar do pensamento a jovem que chorava no quarto. Franziu o sobrolho. E se ela nunca recuperasse a memória? O que ia fazer com ela? Era evidente que não podia mandá-la embora, empurrando-a sabe-se lá para que destino, quiçá de novo para a falésia.
Mas ele também não podia ficar refém dela. Precisava fazer o que sempre fizera. Pintar, viajar, seguir com a sua vida.







16.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXI




Pela primeira vez desde que se tinha tornado um adulto, Cláudio sentiu que o pai lhe estava a esconder alguma coisa.  Conhecia-o bem. Talvez fosse algum problema com o casal, ou quem sabe o médico dissera-lhe alguma coisa sobre a saúde da mulher que ele não lhe queria contar para não o preocupar. Porque com os negócios não era. Nunca tinham corrido tão bem como no ano anterior, e este ano, a menos que acontecesse uma catástrofe natural, como chuvas intensas ou queda de granizo, que naquela época e com as uvas quase na fase das vindimas seria realmente uma grave perda, o ano ia ser muito profícuo.  Porém o tempo estava bom e o prognóstico do IPMA para os próximos dez dias não podia ser melhor. Teria que telefonar ao seu amigo Doutor Ricardo Souto, para saber se havia alguma coisa de errado com a mãe.
Até ele chegaram as onze badaladas do sino da Igreja. Devia ir deitar-se, tinha muito trabalho no dia seguinte. Mas a noite estava quente, o céu estrelado, e não se ouvia outro ruído que não o cantar dos grilos na sua ária de sedução para atrair a fêmea. E as cigarras. Cláudio gostava de ficar ali em silêncio, a sós consigo mesmo e com os seus pensamentos mais íntimos, que ultimamente tinham um nome. Helena.
Porque teria a jovem fugido dele? Porque não lhe dera, nem dera a si própria a hipótese de se conhecerem melhor? Será que tinha alguém a quem não queria trair? Um namorado, um noivo?
Porque havia ela de ter aparecido na sua vida, se não tinha intenção de ficar? E porque raio ele não conseguia esquecê-la? Mal se abstraía do que estava a fazer e logo ela chegava, e se instalava nos seus pensamentos como dona e senhora.
À noite, sozinho no enorme leito de casal, parecia-lhe sentir o seu perfume, a doçura dos seus lábios. Começava a sentir o peso da solidão. Estava na altura de procurar uma companheira. O pior é que até conhecer Helena, não se interessara por nenhuma, e agora, só a jovem lhe interessava. Mas como encontrá-la? Não podia andar, como os arautos da idade média, de cidade em cidade, gritando o seu nome.
Levantou-se aborrecido consigo próprio. Desde quando, ele, Cláudio Guerreiro, pensava parvoíces, tais como andar de cidade em cidade a gritar o nome de uma mulher? O melhor que tinha a fazer era ir deitar-se e tentar dormir. De dia, com os imensos afazeres, é muito mais fácil esquecer. E talvez a recordação da jovem lhe desse tréguas.
Pouco depois dormia profundamente. Acordou sobressaltado com a sensação de que não estava sozinho. Abriu os olhos e ficou espantado ao ver Helena, envergando uma curta e sensual camisa de dormir. Estava de pé junto à cama e sorria para ele.
"Não é possível, estou a dormir, isto é um sonho,"- pensou enquanto esfregava os olhos, esperando que a visão desaparecesse, mas quando os abriu, ficou espantado ao ver a jovem não só não tinha desaparecido, como naquele momento, se deitava a seu lado.
- Que fazes aqui? – Perguntou estupefacto.
- Chamaste-me e eu vim, - respondeu-lhe num sussurro.
Ainda sem entender como era possível, ele estendeu os braços e ela aninhou-se neles. Começaram a beijar-se. Primeiro docemente, depois com toda a força da paixão que os possuía. Beijavam-se, e despiam-se mutuamente, mãos e bocas percorrendo os corpos em carícias loucas, até que não podendo mais protelar o momento. Cláudio entrou nela e os dois iniciaram a dança mais antiga da humanidade.
No momento sublime em que ela gritou o seu nome, acordou encharcado em suor, deitado sobre a almofada. Acendeu a luz. Quatro horas da madrugada. Sentou-se na cama e procurou os chinelos. Precisava com urgência de um duche. 



Gente estão cansados da história? É que está tudo a falar no final!... E a procissão ainda só está no adro. 


A quem pergunta pela minha saúde, estou a fazer fisioterapia e estou melhor, embora longe de estar bem.
Esta tarde, fui a uma consulta de oftalmologia, pois notei que estava a deixar de ver do olho direito e como a mãe tinha glaucoma e o irmão tem glaucoma e quando descobriu já estava cego da um olho e com apenas metade de visão no outro, fiquei assustada e fui logo de manhã marcar uma consulta.
Pois bem o farol direito está com uma catarata que já me está a roubar 50% da visão. Mas não há nenhum sinal de glaucoma.
Aconselhou a operação até ao fim do ano.

12.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVIII


Ele engoliu em seco. Naquele preciso momento deu-se conta de que não queria aquele negócio. Queria a mulher que estava a seu lado, queria o seu amor. Ricardo tinha razão. Tinha que remediar o mal que tinha feito. Tinha que lhe abrir o coração e contar toda a verdade. Só então poderia aspirar ao amor da esposa.Ergueu a mão e acariciou suavemente o rosto feminino. Decidido retomou a palavra. - Penso que temos que ter uma conversa séria. Espero que tenhas paciência para me ouvir, porque mesmo correndo o risco de te perder, acho que chegou o momento de te abrir o coração,- disse ele abraçando o corpo feminino.
 Impressionada com o tom de seriedade que ele usou, Joana limpou as lágrimas no dorso da mão, e aninhou a cabeça no seu ombro, num gesto que ele interpretou como sendo de confiança.
- A minha infância não foi fácil. Cresci com o meu pai, um homem cheio de amargura, porque a mulher que ele amava, fugiu com outro homem, deixando-o para trás com o filho de ambos para criar. Meu pai deu-me tudo o que o dinheiro podia comprar, boas roupas, bons colégios um curso superior. Também me ensinou tudo o que sabia, só não me ensinou a amar porque o seu coração estava morto para o amor.
 Eu era muito pequeno, não tenho nenhuma memória da minha mãe. A única lembrança de um afago feminino, é da minha tia quando nos visitava. Cresci a pensar que as mulheres não prestavam e jurei a mim mesmo, que nunca ia sofrer por causa de nenhuma. Por isso quando o meu pai morreu, eu dediquei-me por completo aos negócios e a ser cada dia mais rico. Nunca levei as mulheres a sério, eram capazes de tudo por dinheiro, e eu tinha muito. De modo que sempre tive as que quis, quando quis. Sei que devo parecer-te muito cínico, mas eu prometi ser sincero e posso ser desagradável, desprezível até, mas não vou retocar o retrato mentindo. Há cerca de dois anos, comecei a pensar que me tinha matado a trabalhar e não tinha um herdeiro a quem deixar o fruto do meu trabalho. Pensei arranjar uma mulher que estivesse disposta a casar comigo, e dar-me um filho, a troco de uma vida de luxo. Conheci uma jovem cujos pais tinham mais pose que dinheiro e pensei que tinha encontrado a mulher ideal, mas ela era muito frívola, e a única coisa que lhe interessava era andar de festa em festa, exibindo-me como se eu fosse um troféu. Cansado, tinha decidido acabar com aquela espécie de relação, quando tu apareceste no escritório, com o nosso filho. Quando vi a foto da tua irmã com o namorado, descobri que o menino era filho do meu primo Paulo Amado, o único filho da minha tia Conceição. Desde pequeno,  quando queria fazer alguma coisa que sabia não ser correta, ele usava o meu nome. Não tens noção das vezes que paguei, por asneiras dele. Por favor, deixa-me continuar, - disse ao ver que ela se mexia inquieta.  
-Sim a tia São, é tão avó do Pedro como a tua mãe. Quando o descobri, pensei que tinha achado a solução para o meu problema. Casando contigo, e adotando o Pedro, eu teria um herdeiro do meu sangue. Por outro lado, tinha a certeza de que ele seria a salvação da minha tia que definhava dia a dia. O Paulo, nunca foi flor que se cheirasse, mas era o seu único filho e ela amava-o muito. 
- Então ela sabia que o menino era seu neto, quando vinha sempre visitá-lo?
-Sabia. E ambos esperávamos que tu a convidasses a vir viver com a tua mãe. O que tu fizeste sem que nenhum de nós tenha tentado influenciar-te.
-E porque tinhas tanta certeza de que o faria?
-Porque tens um coração do tamanho do mundo. E sabendo como a tua mãe sofre pela morte da tua irmã, ias apiedar-te da minha tia. A solução era boa para as duas, e tu além de teres bom coração, és uma mulher inteligente.


30.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE X




- E ela não achou estranho que o namorado da irmã lhe tivesse dado um nome falso? – Perguntou Ricardo quando o empregado se afastou.
- Não. Ela estava nervosa, e ou não pensou nisso, ou terá julgado um pormenor sem importância, uma vez que o homem em causa estava morto.
-Suponho que não lhe disseste que era um teu familiar.
-Claro que não.
-Bom. Confesso que não descortino a razão por que precisas de mim se o assunto está arrumado. Ou não está? – Perguntou o advogado perscrutando o rosto do amigo.
- De facto não. Contratei o Abílio Morais, para investigar a jovem e a família. Segundo o seu relatório, a jovem que morreu era uma moça sossegada que só teve um namorado. O rapaz desapareceu quando soube que ela estava grávida. Isso prova que realmente o bebé é filho do Paulo, e portanto o único membro vivo da minha família, além da sua avó, minha tia, que depois da morte do filho definha dia a dia.
- E…
- E eu pensei que quero aquele bebé comigo, quero proporcionar-lhe uma educação condigna e fazer dele um homem melhor do que foi o seu pai.
A surpresa estampou-se no rosto do advogado, que quase se engasgou com o pedaço de bife que acabava de meter na boca.
- Estás doido? Como pensas conseguir isso? Com que argumentos? Ou será que … pensas comprá-lo? Sabes que isso é crime?
- Não pretendo fazer nada ilegal, até parece que não me conheces. O que pensei é muito simples. Estou a caminhar para os quarenta, sou um homem rico, mas solitário. Pensei propor casamento à tia do menino. Depois de casados adoto o bebé e posso fazer dele meu herdeiro.
Desta vez, a surpresa foi ainda maior.
- Por amor de Deus, Pedro. Vamos acabar a refeição e depois vamos para o meu escritório. Se continuamos esta conversa aqui, vou acabar por morrer engasgado.
-Não tinhas, muito trabalho hoje?
-E achas que vou conseguir fazer alguma coisa depois de teres largado essa bomba?
Pedro não respondeu. O seu rosto não demonstrava nenhuma emoção, apenas os olhos verdes mostravam a determinação que lhe ia na alma.
- Vais querer sobremesa? – Perguntou Ricardo quando o empregado se aproximou para retirar os pratos.
- Só café.
- Dois cafés, e a conta por favor.
Pouco depois, bebido o café e tendo pago a refeição, os dois levantaram-se e seguiram para o escritório do advogado situado a menos de cinquenta metros do restaurante


E estamos a caminho do comentário número 33 000
Muito Obrigada

4.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE III


O jovem médico, parecia não reparar nela e isso acicatou o desejo de o conquistar. Foi muito fácil para Inês, fazer com que João se apaixonasse por ela. O que ele estudava e conhecia nos corações, eram doenças, não sentimentos. Nunca tinha namorado, apenas saíra algumas vezes com colegas, mas apenas nesse plano de amizade. Inexperiente nas técnicas de sedução femininas, João apaixonou-se loucamente por ela. Inês era como uma criança que faz uma birra para obter um determinado brinquedo, e quando o consegue desinteressa-se e procura outro. E assim enquanto ele sonhava com o casamento, ela sem ter terminado o namoro com ele, iniciava um novo romance com um jovem da sua classe social,  filho de um rico empresário. Durante um tempo foi-se divertindo com os dois até que João descobriu e terminou tudo.
Para a sua mãe, foi uma alegria. Ela não gostara de Inês, quando a jovem lhe fora apresentada. Achara-a vaidosa, e pretensiosa, percebera o ar superior e o olhar de desprezo que ela lhe lançara.
“Não vale a pena sofreres por ela. Era um sapato demasiado fino para o teu pé, filho. Ia tentar fazer-te sentir que eras inferior a  ela  a vida inteira. Um dia destes encontras uma boa rapariga, capaz de te amar como mereces” – dissera-lhe a mãe.
Mas não é fácil para ninguém, por todo o seu amor, todos os seus sonhos de futuro numa pessoa, e ser atraiçoado daquela forma. Magoado, jurou a si mesmo que dali para a frente, relações com mulheres, só com aquelas que não tivessem nada mais em mente que uma boa diversão, um bocado bem passado na cama. Estudava que nem um doido, assistia a todos os congressos médicos, e tornava-se a cada dia um nome mais respeitado e admirado na cardiologia. Trabalhava no hospital, tinha um consultório particular, e recebia constantemente propostas para clinicas e hospitais privados. 
Foi nessa altura que conheceu Odete. Ela não se parecia em nada com Inês. Tinha vinte e dois anos, era morena, de cabelos castanhos-escuros e olhos castanhos-claros, quase da cor do mel.

12.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXVII


-Estou…
- Ora viva, Amélia. Que surpresa. Aconteceu alguma coisa? A avó?
- A avó está ótima. Mas aconteceu sim, uma coisa muito importante. Vou-me casar dentro de quinze dias, e queria saber se posso contar contigo, para me levares ao altar. E se tu e a Olga aceitam ser meus padrinhos.
- O quê? Deste-te ao trabalho de me telefonares para me pregares uma peta?
O primeiro de Abril já lá vai há quase um mês.
- Não estou a brincar, Ricardo. É sério.
- Não pode ser. Saí daí há três dias. Uns dias antes tinhas-me telefonado para ir ao torneio com o Martim. E não tinhas namorado, ou tinhas? Não me disseste nada.
-É verdade. Não sabia se era sério, por isso não comentei.
-Mas uma decisão assim tão rápida! Quem é o felizardo? Eu conheço?
-  Não. É um empresário, vizinho da avó.
- Muito me contas. E o Martim? Achas que ele vai ser um bom pai para o teu filho?
- E tu achas que eu ia casar se tivesse a mais leve dúvida disso? Os dois adoram-se. E então, posso ou não contar contigo?
- Estou a ver que é sério, mesmo. É claro que podes contar comigo. E o casamento é que dia exatamente. E onde? É que só chegamos a Lisboa no fim da próxima semana .
- O casamento será na quinta dele. No sábado, dia doze de Maio. Dissestes que chegas sábado?
- Ao meio-dia, ao aeroporto.
- Podemos marcar um jantar para essa noite? Para vocês se conhecerem?
- Onde?
- Na minha casa, claro. Já aviso a avó de que para a semana só venho no domingo.
-Espera um pouco, vou perguntar à Olga. Combinado, - disse apos um curto silêncio.
- Ok. Esperamos-vos às oito. Continuação de boas férias.
Desligou, o telefone com um sorriso. Ricardo e a esposa, ficariam o resto da noite a fazer conjeturas sobre o seu futuro casamento, curiosos para saberem como seria o homem que a levou a renunciar ao celibato. A ela não lhe importava a opinião que o irmão viesse a ter sobre Paulo. Tinha tido muitas dúvidas, é verdade, mas uma vez decidida, ninguém a demoveria.
-Já telefonei ao Ricardo, avó – disse ao entrar na sala. Ele aceitou levar-me ao altar e ser o padrinho. Chega sábado ao meio dia e combinei um jantar para essa noite para que eles conheçam o Paulo. De modo que só viremos no domingo de manhã.
A idosa esboçou um sorriso.
-Gostaria de ver a cara dele quando lhe deste a notícia. Deve ter ficado tão espantado, que a esta hora ainda está de boca aberta.
- Ora avó, ele disse que a viagem era uma segunda lua-de-mel. E ninguém melhor para aceitar um casamento do que os apaixonados.
- Tens razão filha. Vou-me deitar. Foi um dia muito cansativo, e eu já não tenho idade para estas andanças. Amanhã, podias ir só com o Martim e deixar-me aqui.
- Nem penses, avó. Descansas no resto da semana. De resto, tu bem gostas de ficar desenrolando lembranças com a Augusta, que eu bem as vejo.
- Lá isso é verdade. Boa noite.
- Boa noite avó. Dorme bem




E como continuamos em modo Carnaval, cá estou eu para mais um dia de folia...



13.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE III


- Por favor Ricardo, o que te custa ajudar-me?  Tu tens tantos amigos. Será que não tens entre eles nenhum que seja inteligente, simpático e honesto, que não se importe de doar esperma para uma inseminação?
-Estás doida, Amélia. Se queres tanto ser mãe, porque não fazes como as outras mulheres?  Arranja um namorado? Com a tua carinho e esse corpo, garanto não vai ser difícil.
- Não sejas cínico. Sabes bem que perdi a confiança na vossa espécie. Ainda não esqueci a traição de Afonso e creio que nunca esquecerei. Quero ter um filho sim, mas só um filho, não uma relação. Já falei com a minha médica para fazer a inseminação, mas pelos processos oficiais, é muito complicado, posso levar anos à espera. Só tenho duas soluções. Ou arranjo um dador extraoficial, ou tenho que me deslocar ao estrangeiro, coisa que não me agrada.  Caramba, não me digas que não consegues convencer um dos teus amigos.
- Claro que sim. Na próxima vez que sair para os copos, vou perguntar qual deles, quer doar esperma para a maluca da minha irmã, que cismou de ser mãe. Já estou a imaginar a cena. Decididamente estás louca.
- Não sejas ridículo! Primeiro, não dirás que é para a tua irmã, mas para uma amiga e não deves dar nenhuma indicação sobre mim. Também não quero saber nada, sobre ele. Apenas,  quero que seja uma pessoa inteligente, e integra. O resto não me importa. Pensa nisso. Levas o nome da minha médica e o endereço da clinica onde ela trabalha e se fará o processo. Ela me avisará depois. E quero que me jures, que nunca fornecerás a essa pessoa, qualquer informação sobre mim, ou a criança que venha a nascer.
- Continuo a pensar que estás a precisar de tratamento psiquiátrico. A traição do Afonso, deu-te volta à cabeça. Não me conheces, se pensas que vou fazer o que me pedes.
Ricardo saiu sem se despedir. Estava deveras zangado com a irmã. Era três anos mais velho que ela, formara-se em gestão de empresas, e tinha um bom emprego. Gostava demais da vida de solteiro, e não se via como chefe de família, pelo menos por enquanto. A irmã casara-se, antes mesmo de começar a exercer a profissão, mal terminara a faculdade. Desde a infância que tinha em Afonso, todos os seus pensamentos. Casara muito apaixonada e a traição do marido dera-lhe volta à cabeça. Onde é que já se vira, ideia mais estapafúrdia. Claro que não ia atender ao pedido dela. Se queria ter um filho por inseminação, pois que o tivesse sem a sua intervenção.