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31.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XIII

 


Na sexta-feira de semana anterior à Semana Santa, Matilde acordou maldisposta e a queixar-se da barriga. Como pertencia aos escuteiros e estivera três dias acampada com o grupo, inicialmente a mãe pensou que a má disposição fosse efeito de qualquer coisa que teria comido no acampamento. Foi fazer um chá e telefonou á Rita avisando que iria mais tarde, logo que a filha se sentisse melhor. Todavia quando regressou com o chá encontrou-a a tiritar de frio, e quando lhe mediu a temperatura verificou que estava com trinta e nove graus de febre. Deu-lhe um comprimido antipirético, aconchegou-lhe a roupa e disse-lhe para dormir um pouco mais.

Uma hora depois, ouviu-a gemer. Foi ao quarto e encontrou-a toda encolhida com as mãos na barriga e a chorar. Voltou a medir a temperatura e estava com quase quarenta graus. Assustada ajudou-a a vestir-se e a sair de casa até ao carro, saindo para o hospital no limite da velocidade.

Foi atendida por uma médica que depois de um breve exame, perguntou há quanto tempo ela tinha dores de barriga, ao que Matilde respondeu que tinha começado no último dia de aulas, mas não se queixara com receio de que a mãe não a deixasse ir acampar.

- É grave doutora? – perguntou Helena.

- Parece—me uma apendicite. Vai fazer umas análises e uma ecografia, depois será observada pelo cirurgião, e dependendo da gravidade da situação poderá ter que ser operada de urgência, pois como deve saber um apêndice infetado é muito perigoso. Mas não se preocupe. Ultimamente estamos a operar por laparoscopia, não tem perigo e recupera rapidamente. Mas o principal agora é fazer os exames que eu pedi. Vou pedir a um maqueiro que a leve, ela não pode ir a caminhar. Assim que chegarem os resultados, consoante a gravidade da situação um colega lhe dirá se terá de ser ou não submetida a uma cirurgia de urgência.

- Não será a doutora?

-O meu turno está prestes a terminar, os resultados levam algum tempo a chegar. Mas fique descansada. Qualquer dos médicos da equipa é tão ou mais competente que eu.

- E posso acompanhá-la, até fazer os exames? – perguntou Helena preocupada.

-Claro que sim, mãe. E não esteja tão aflita por favor. De todos os problemas que a Matilde poderia ter, apendicite é dos mais simples.

Entretanto chegou o maqueiro, a enfermeira passou a menina da marquesa onde se encontrava deitada para a maca e os três dirigiram-se ao laboratório.

Enquanto percorriam os enormes corredores que ligavam as urgências ao laboratório, Matilde não parou de gemer e de apertar a mão da mãe. A parte racional de Helena, repetia-lhe o que a médica dissera sobre a apendicite, mas os olhos viam o sofrimento da filha e o seu coração de mãe, estava num grande desassossego.

Quase três horas mais tarde, Matilde estava na maca, com a mãe a seu lado, separada de outros doentes por cortinas de poliéster, no espaço, fora dos gabinetes de atendimento médico. Esperavam o resultado dos exames quando um médico se lhes dirigiu, e fez algumas perguntas. Ao vê-lo, Helena quase ficava em choque, pois o médico em causa era Gonçalo Bacelar. Fazendo um esforço sobre-humano, conseguiu olhá-lo e questionar o estado de saúde da filha.  Ele voltou-se e encarou-a. Tinha uma expressão estranha, e Helena teve a certeza de que ele a teria reconhecido, embora não o desse a entender.

- A Matilde está com uma apendicite aguda, vai ser operada de urgência, a enfermeira Ilda vai prepará-la para a cirurgia e levá-la para o bloco operatório, onde uma equipa médica já está à espera dela.

E voltando—se para a menina, disse:

- Vai correr tudo bem, não te preocupes, nem fiques com medo. Dormes um bocadinho e quando acordares já passou, vais ver que não custa nada. E tu tens cara de ser uma menina corajosa.

Virou costas e afastou-se depois de deixar em cima da maca a papeleta com o nome e os resultados dos exames.

A enfermeira começou então a empurrar a maca dizendo:

-Venha comigo, mãe. Vou prepará-la para ir para o bloco e terá que guardar as roupas dela.

 

 Tenho mais dois dias de tratamento intensivo e depois começo a reduzir e aos pouco vou voltar ao vosso convívio. Ainda tenho posts programados para esta semana, mas espero estar de volta antes do fim de semana. Estou-vos muito  grata pelo vosso carinho e compreensão. 

9.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX

 




Não era pois de admirar que se deslumbrasse com um homem educado e culto, como Quim. E que de seguida se apaixonasse. Por outro lado tinha bem presente a imagem de boneca da mulher loura. Ela não era assim. Não se achava feia, mas reconhecia que não era nenhuma beleza.  

O seu cabelo castanho, era  forte e ondulado, o que sempre lhe desagradou, pois  gostava mais que fosse liso, o corpo um pouco mais alto do que ela gostaria, a sua cintura não se deixava abarcar com duas mãos. Tinha um ar de mulher forte, robusta, o oposto da mulher-boneca por quem ele se apaixonara. Além disso não sabia nada sobre sedução. E se o marido sabia, e ela acreditava que sabia, não o tinha demonstrado, até ao momento.

Três semanas antes do Natal, Sofia ficou doente. Há dois dias que se encontrava constipada, tinha arrepios de frio, não se sentia bem. Mas naquela noite mal tinha passado pelo sono. Tinha fortes dores de cabeça, doía-lhe a garganta, e ardiam-lhe os olhos. De manhã tentou levantar-se mas não conseguiu. Devia estar cheia de febre. Chamou pelo marido, mas ele já tinha saído. 

Voltou a cair num estado de semiconsciência. Não soube quanto tempo esteve assim. Acordou com a necessidade premente de ir à casa de banho. Com grande dificuldade conseguiu levantar-se. Respirava com dificuldade, sentia o corpo todo dorido, como se tivesse levado uma tareia. Tremiam-lhe as pernas e tiritava de frio. Saiu da casa de banho e quase se arrastou até ao telefone. Ligou para o restaurante e pediu ao empregado que a atendeu para avisar o marido de que se sentia doente e não tinha ido trabalhar. Depois voltou para a cama. O esforço deixara-a tão cansada, que lhe parecia que ia sufocar.

Caiu de novo naquele estado letárgico de quem tem muita febre. Não soube quanto tempo passou, não tinha noção das horas.
Sentiu que alguém a chamava.  Abriu os olhos com dificuldade, e viu Quim junto à cama.

-Meu Deus, Sofia, estás a arder em febre, - estava sério, preocupado. - Vou chamar um médico, - disse afastando-lhe o cabelo do rosto.
Voltou pouco depois, com um copo de água e uma aspirina.
- Toma isto, para ver se baixa um pouco a febre, enquanto aguardamos o médico.
Ela tomou o comprimido e fechou os olhos. Cada vez que tossia, era como se lhe rasgassem o peito e as costas.

27.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXI


Entraram na cozinha
-Sente-se. Vou preparar umas torradas, ou prefere outra coisa? – perguntou Luísa enquanto abria o saco do pão.
- Não se incomode, não tenho fome.
Ela voltou-se e olhou-o. Tinha o rosto entre as mãos e parecia não se encontrar bem. Aproximou-se.
- Não se está a sentir bem? -perguntou
- Parece que a cabeça me vai explodir a qualquer momento.
- Se está assim, não devia ter-se levantado. Deve ter apanhado demasiado frio, ontem pode estar a ficar com gripe. Volte para a cama, eu vou preparar um chá e já lho levo. Entretanto na casa de banho há um termómetro. É melhor ver se tem febre.
Ele não respondeu. Levantou-se e saiu da cozinha.
“Devia levá-lo ao hospital. Pode estar com uma pneumonia, ou quem sabe um traumatismo. Deve ter batido com a cabeça, para ter aquela ferida no rosto. Oxalá não me esteja a meter em problemas.” - pensou Luísa enquanto preparava o chá.
Lá fora a chuva continuava a cair sem dar tréguas, embora a tempestade já não se fizesse sentir como na noite anterior. Pelo menos o vento parecia ter amainado.
Pôs o chá num tabuleiro com umas bolachas e dirigiu-se ao quarto.
A porta estava aberta e o homem estava em cima da cama, completamente vestido e a tremer de frio.
- Pôs o termómetro? – perguntou poisando o tabuleiro sobre a mesa de cabeceira.
-Ele meteu a mão dentro da camisa e retirou-o. Estendeu-lho.
- Não admira que esteja com frio, está com quase quarenta graus.  Vamos despir e meter debaixo da roupa, disse baixando-se e tirando-lhe os sapatos e as meias.
 Depois ajudou-o a sentar-se na cama e tirou-lhe o casaco que colocou nas costas da cadeira.
-Veja se consegue despir o resto, enquanto eu vou buscar um antipirético a ver se baixamos essa febre – disse saindo do quarto.
Demorou um pouco mais do que o necessário, esperando que ele se conseguisse despir sozinho. Não se sentia à vontade para ter de o despir.
Quando voltou ao quarto, as calças e a camisa estavam em cima da cama e ele estava debaixo das mantas.
- Muito bem, agora vamos beber o chá que já está quase frio e tomar estes dois comprimidos. Se até ao final da manhã não melhorar, chamo a ambulância e vai para o hospital – disse enquanto o ajudava a sentar e lhe chegava aos lábios a chávena de chá.
- Por favor, senhora, hospital não – disse agarrando-lhe o pulso com força fazendo com que quase entornasse o chá.
- Porque não? Não compreende que pode estar mal? Ter feito um traumatismo craniano, ou estar com uma pneumonia. Por muito boa vontade que tenha, não sou médica, nem enfermeira, não tenho conhecimentos para saber a gravidade do seu estado. Além disso diz que não sabe quem é não se lembra de nada. Precisa de cuidados médicos.
-Não. Isto vai passar. Não quero ir para o hospital. Por favor, prometa que não me manda para lá…
-Não posso prometer-lhe isso. Se melhorar e a febre passar tudo bem, caso contrário não quero arcar com a responsabilidade do que lhe possa acontecer – disse saindo do quarto antes que ele voltasse a protestar.



28.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVII


Ana nem soube bem como chegou a casa. Sentia o corpo tremente como se estivesse cheia de febre. Como era possível que a sua vida se tivesse desmoronado assim em tão pouco tempo. Três meses antes ainda ela era uma rapariga alegre que saía quase todas as noites com um belo homem, que dançava, ria e sonhava com um futuro risonho, mais ou menos próximo. Depois, foi a desilusão, o perceber que Paulo nunca seria o homem da sua vida. Uma nova desilusão a juntar às duas anteriores. E agora, a sua vida tinha-se transformado num caos, um doloroso emaranhado de sentimentos que ela não sabia destrinçar.
Amara o irmão, como não tinha amado mais ninguém na vida. Ele era o seu ídolo, o seu anjo da guarda. Agora o irmão tinha morrido. Sim porque depois do amor que vira nos seus olhos, e sobretudo depois daquele beijo carregado de paixão, era uma imoralidade continuar a pensar nele como irmão.
Mas podia ela matar o irmão por uma ilusão de amor, que não sabia se não passaria disso mesmo?  A verdade é que o beijo, despertara-lhe sensações até aí desconhecidas. Mas isso seria amor? O que ia ser da sua vida daí para a frente? Saber que Simão se mantinha longe do país e da família por culpa dela, fazia-a sentir-se culpada, mas ao mesmo tempo, dava-lhe uma sensação de plenitude, saber que alguém a amava até aquele ponto.
Mas se depois de morto, o irmão, ela não fosse capaz de amar Simão como uma mulher ama o homem da sua vida?
Como poderiam conviver em família? Fosse como fosse sentia-se como um algoz, capaz de acabar com a felicidade de todos.
A meio da tarde do dia seguinte, ainda não tinha saído. Tinha os olhos vermelhos de chorar, estava mal-encarada, não tinha dormido nem comido nada desde o dia anterior.
Mas tinha tomado uma decisão. Tomou banho, carregou um pouco a maquilhagem, para disfarçar as olheiras, e bebeu um copo de leite frio. Pegou nas chaves do carro, na mala e saiu. Ia procurar refúgio junto da mãe. Francisca sempre a compreendera.

Reedição

Amanhã vou a Lisboa, fazer os exames na clínica onde serei operada aos faróis se o cirurgião lá for da mesma opinião que aquele que me viu aqui no Barreiro.



                                            

31.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXIX


- O que deve fazer uma mulher que ama um homem, para que ele perceba?- Perguntou de súbito Mariana
Maria riu-se.
-O quê? Não me digas que não sabes. Vais dizer-me que nunca tiveste namorado?
-Amigos sim, namorado só o primeiro coleguinha quando fui para a escola.
- Mas tu és linda, tens bom gosto, és simpática. Por onde tens andado?
 -Por aí. Mas não me respondeste.
- Insinua-te. Se ele não for parvo, percebe.
- Insinuar? Como?
-Isso é lá pergunta que uma mulher faça? Mariana, tu não deves estar bem. Deixa cá ver se tens febre, - brincou Maria tentando colocar-lhe a mão na testa.
-Não sejas tonta. E vamos às compras que ainda gostava que me ajudasses a decorar a árvore de Natal.
Na loja Mariana escolheu um par de calças de ganga, e uma camisola de gola alta vermelha,
-Gostas?
-É um conjunto muito bonito.
-Então vai experimentar. É para ti. Prenda de Natal.
- Para mim? Oh! Obrigado. És um anjo, - disse quase arrancando-lhe as peças da mão, esfuziante de alegria.
Quando saíram, Mariana perguntou à amiga:
-E agora? Sapatos ou botas?
- Posso escolher?
Acenou afirmativamente
-Botas.
Entraram na sapataria, e Maria escolheu umas botas de cano alto, sem salto, muito práticas.
Quando regressavam a jovem disse quase chorando.
-Este ano, não esperava ter outra prenda que não a do Luís. Desde que o pai morreu, o dinheiro lá em casa, é muito pouco. Nem quero pensar o que teria sido de nós, se a minha mãe não tivesse vindo trabalhar para a tua casa.
- Não é a minha casa. É do Miguel.
- Mas tu vives lá. Porquê?
- Porque meu pai morreu, e eu estava doente, como sabes.
Calou-se. Maria percebeu que a jovem não queria falar da sua vida, e mudando de conversa disse:
-Tenho tantas saudades do meu pai!
-Também eu Maria ! Também eu!- Repetiu com tristeza.




3.7.17

ROSA - PARTE IV



                                     Foto DAQUI

No dia seguinte, o patrão mandou um gaiato, filho de um seu empregado, perguntar porque Rosa não tinha ido buscar o rebanho. Na velha cama de ferro, sobre o colchão de palha de centeio, a jovem ardia em febre. Esteve assim três dias. Durante todo esse tempo a velha avó não saiu de casa sempre atenta à neta. Matou a única galinha que tinha, para lhe fazer um caldinho, e obrigou-a a beber litros de chá, misturando várias ervas que combatiam a febre e cuja composição aprendera com a sua avó que era pessoa muito entendida, em chás, espinhela caída, quebranto e outras coisas mais. No fim do terceiro dia, enfim a febre cedeu. Mas ainda esteve mais dois dias, prostrada na cama sem força nem vontade de se levantar. Parecia impossível que tivessem passado apenas cinco dias desde aquele dia. Bastante mais magra, as faces sem cor, os olhos sem brilho, ninguém reconheceria nela a rapariga alegre que fora até uma semana atrás. Nunca contou à avó o que lhe aconteceu. Não tinha sido necessário e ela morreria de vergonha, se tivesse de o dizer a alguém.  Só respondera com um seco não, quando a avó lhe perguntou se tinha sido alguém da aldeia. Depois a Avó disse:
- Deus queira que não tenhas ficado "prenha".
Sentiu-se apavorada. Não podia ser. Ela não queria ser mãe assim.
- Deus não o permitirá – murmurou. E logo mais resoluta: - Não saio mais com o rebanho. Nunca mais vou para o monte. Nunca mais. Será que a Ti‟Zefa, não precisa de ajuda lá para a casa grande? Ela já está tão velhinha…
- Descansa filha. Amanhã falo com ela. Tenho a certeza que se ela pedir ao patrão uma ajuda, ele te contrata. Se não logo se verá.
Mas não chegou a falar. O seu velho coração cansado de muitos anos de labuta parou nessa mesma noite.
No funeral, esteve a aldeia inteira e só nessa altura, Rosa teve a noção exacta do quanto a sua avó era estimada pelo resto da aldeia.
Depois do funeral, Rosa deu uma volta pela casa, juntou os poucos pertences e guardou os brincos antigos de ouro, único bem que a avó possuía. Guardou num cesto de vime as suas roupas, que a bem da verdade era bem pouca coisa, e tudo o resto deu a uma vizinha. Depois, entregou as chaves ao Sr. António, que era o dono da casa, e preparou-se para seguir até S. Pedro, onde pensava vender os brincos e comprar um bilhete de comboio para a capital.
Antes disso, porém, despediu-se da Ti’Zefa que fez questão de lhe arranjar uma merenda para o caminho, porque “precisas de comer, rapariga ou, não tarda, juntas-te à tua avó”




18.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXI



 Pouco depois, ouviu a campainha, e vozes. Logo em seguida, o médico entrou no quarto.
Fez uma série de perguntas, viu a febre, os ouvidos, os olhos, a garganta, e auscultou-a meticulosamente.
Por fim deu a consulta por terminada e saiu com Quim. Ouviu-os falar, mas não entendeu o que diziam.
Pouco depois, o marido voltou. Sentou-se na beira da cama:
-Sofia, o médico quer que vás fazer um Raio X e Análises. Ele suspeita de pneumonia. Vamos ter que ir ao hospital. Consegues levantar-te?
Não esperou resposta. Levantou-se, retirou do armário um conjunto de calça e casaco de lã, um casaco comprido e um cachecol, que colocou em cima da cama. Abriu a gaveta da comoda e retirou um conjunto de sutiã e cueca de seda rosa, que colocou igualmente em cima da cama.  Verificou que ela continuava deitada. Puxou a roupa para trás, meteu um braço sob os seus ombros, e o outro sob os joelhos e sentou-a na cama.
- Queres que saia um pouco para te vestires, ou precisas que te ajude?
- É melhor saíres, - disse sem o olhar, sentindo o rosto a arder, sem saber se da febre, ou de vergonha.  

17.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XX




Não era pois de admirar que se deslumbrasse com um homem como Quim. E que de seguida se apaixonasse. Por outro lado tinha bem presente a imagem de boneca da mulher loura. Ela não era assim. Não se achava feia, mas reconhecia que não era nenhuma beleza.  O seu cabelo castanho, era  forte e ondulado, o que sempre lhe desagradou, gostava mais que fosse liso, o corpo
 um pouco mais alto do que ela gostaria, a sua cintura não se deixava abarcar com duas mãos. Tinha um ar de mulher forte, robusta, o oposto da mulher-boneca por quem ele se apaixonara. Além disso não sabia nada sobre sedução. E se o marido sabia, e ela acreditava que sabia, não o tinha até ao momento demonstrado.
Duas semanas antes do Natal, Sofia ficou doente. Há dois dias que se encontrava constipada, tinha arrepios de frio, não se sentia bem. Mas naquela noite mal tinha passado pelo sono. Tinha fortes dores de cabeça, doía-lhe a garganta, e ardiam-lhe os olhos. Tentou levantar-se mas não conseguiu. 

21.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXIX


- O que deve fazer uma mulher que ama um homem, para que ele perceba?- Perguntou de súbito Mariana
Maria riu-se.
-O quê? Não me digas que não sabes. Vais dizer-me que nunca tiveste namorado?
-Amigos sim, namorado só o primeiro coleguinha quando fui para a escola.
- Mas tu és linda, tens bom gosto, és simpática. Por onde tens andado?
 -Por aí. Mas não me respondeste.
- Insinua-te. Se ele não for parvo, percebe.
- Insinuar? Como?
-Isso é lá pergunta que uma mulher faça? Mariana, tu não deves estar bem. Deixa cá ver se tens febre, - brincou Maria tentando colocar-lhe a mão na testa.
-Não sejas tonta. E vamos às compras que ainda gostava que me ajudasses a decorar a árvore de Natal.
Na loja Mariana escolheu um par de calças de ganga, e uma camisola de gola alta vermelha,
-Gostas?
-É um conjunto muito bonito.
-Então vai experimentar. É para ti. Prenda de Natal.
- Para mim? Óh! Obrigado. És um anjo, - disse quase arrancando-lhe as peças da mão, esfuziante de alegria.
Quando saíram, Mariana perguntou à amiga:
-E agora? Sapatos ou botas?
- Posso escolher?
Acenou afirmativamente
-Botas.
Entraram na sapataria, e Maria escolheu umas botas de cano alto, sem salto, muito práticas.
Quando regressavam a jovem disse quase chorando.
-Este ano, não esperava ter outra prenda que não a do Luís. Desde que o pai morreu, o dinheiro lá em casa, é muito pouco. Nem quero pensar o que teria sido de nós, se a minha mãe não tivesse vindo trabalhar para a tua casa.
- Não é a minha casa. É de Miguel.
- Mas tu vives lá. Porquê?
- Porque meu pai morreu, e eu estava doente, como sabes.
Calou-se. Maria percebeu que a jovem não queria falar da sua vida, e mudando de conversa disse:
-Tenho tantas saudades do meu pai!
-Também eu Maria ! Também eu!- Repetiu com tristeza.