Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta médico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta médico. Mostrar todas as mensagens

29.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXIV

 




Nessa tarde, depois de ter ajudado o doente a deitar-se, Anabela deu início aos tratamentos isométricos, entregando-lhe dois pequenos pesos e dizendo-lhe:

- Faça duas séries de dez levantamentos. Atenção se sentir dor nas costas ou no braço esquerdo pare imediatamente.

-Deve estar a brincar, fazia cinco vezes esse peso.

-Acredito que sim. Mas o que me interessa não é o que fazia, no passado, mas o que terá de fazer agora. Como médico, o senhor sabe melhor que ninguém o estado em que se encontra, e que qualquer tipo de dor que sinta, vai agravar e não melhorar o seu estado. Por isso faça o que lhe digo e não esqueça de parar à mínima dor. Não é hora de se armar em herói.

-Tudo bem, sargento, - resmungou o doente, enquanto Anabela lhe voltava as costas, para que ele não notasse o seu sorriso.

Ela sabia por experiência própria como eram renitentes os doentes que trabalhavam na saúde, médicos ou enfermeiros. Eles sempre achavam que não precisavam de ajuda, que o que eles pensavam é que estava certo.

Tiago deu-se imediatamente conta de como os seus músculos estavam fracos ao iniciar o tratamento e verificar como era difícil levantar aqueles pesos, quando antes do acidente levantava pesos superiores, apenas com o dedo mínimo. Quando terminou as duas séries grossas gotas de suar perlavam-se a testa.

Anabela retirou-lhe os pesos e sem comentar o esforço evidente que ele fizera durante o tratamento, mandou que durante um minuto apenas inspirasse e expirasse lentamente. Ela sabia que não podia continuar com os exercícios sem que o doente descansasse e restabelecesse o ritmo cardíaco.

Com essa atitude, ganhou da parte de Tiago, que esperava uma observação jocosa sobre o seu cansaço evidente e o que afirmara anteriormente, uma nova atitude de respeito.

Depois de uns minutos, Anabela voltou a aproximar-se desta vez com uns pequenos elásticos.

Agora vamos fazer mais duas séries de dez exercícios com este elástico. Vai estica-lo enquanto se sentir confortável. À mais pequena dor, pare. Quando acabar irei fazer mobilização às suas pernas. Enquanto não fortalecer suficientemente o corpo não poderá usar os elásticos para exercitar com eles as pernas.

Mais tarde enquanto fazia a mobilização às pernas do doente, informou.

-Já dei à Isilda a lista dos ingredientes a incluir na sua alimentação. E quando terminar, vou à cidade comprar vitaminas e proteínas que considero necessárias para o ajudarem a ganhar força que o ajude a restabelecer-se mais depressa.

Ele não respondeu e pouco depois ela dava os exercícios por terminados e ajudava-o a ir para a cadeira de rodas e para a cama.

1.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXV




O quarto do doente encontrava-se quase às escuras, apesar de lá fora estar um belo dia de sol, embora frio como são os dias de Dezembro.

- Porque está às escuras? – perguntou a jovem voltando-se para o doutor Azevedo.

- Não sei. Vejo o quarto sempre assim quando o visito, e nunca me deixa abrir os reposteiros.

 Sem mesmo olhar o doente, Anabela dirigiu-se à janela e correu os pesados cortinados, deixando que a luz entrasse no quarto. Depois voltou para junto do médico e aguardou que ele a apresentasse ao doente, que se encontrava meio deitado numa cama articulada.

- Tiago, apresento-te a enfermeira fisioterapeuta Anabela Campos, que a partir de hoje, vai cuidar de ti e da tua recuperação.

- Não te chegou a experiência com as anteriores. Já te disse que não quero nenhuma enfermeira, deixem-me em paz, por amor de Deus.

-Já conversámos sobre isso, mas também já te disse, que nem eu nem teus pais, vamos compactuar com a tua autodestruição. E agora vamos almoçar. Porque não te ajudamos a sentar na cadeira e vais connosco para a mesa?

Tiago soltou uma gargalhada sarcástica e não respondeu.

Anabela fez sinal ao doutor para sair e logo que ficou sozinha aproximou-se da cama e disse:

-Sabe de uma coisa? O Tiago intriga-me. Como é que uma pessoa que sempre se notabilizou por querer melhorar a vida dos outros, não se importando de pôr a sua vida em risco, para salvar desconhecidos, não se preocupa com o mal que está a fazer aqueles que o amam? Imagina o sofrimento dos seus pais e restante família? 

Calou-se à espera de ser contestada, mas perante o silêncio do doente continuou:

Sei que fez a vida negra às enfermeiras que me antecederam e provavelmente está a pensar fazer o mesmo comigo, mas desde já o informo que a única maneira de fazer com que me vá embora, é recuperar a sua vida anterior, que é o mesmo que dizer, voltar a andar. Acredite, se os médicos dizem que o pode fazer, não me vou embora enquanto isso não acontecer, diga você o que disser. Por agora, vou deixá-lo, vou almoçar e só voltarei aqui se me chamar. Mas amanhã logo depois do pequeno-almoço começaremos com os tratamentos. Na sala ao lado se cooperar, ou aqui nesta cama se não o fizer.

Voltou-lhe as costas e preparou-se para sair.

-Feche as cortinas antes de sair, - ordenou o doente.

-Não o farei e mais, darei ordem para que sejam abertas todos os dias de manhã até ao anoitecer. E nem pense em contrariar as minhas ordens, porque tanto o Joaquim, como a mulher, foram avisados de que por agora só a mim devem obediência. 

- E se eu os despedir?

- Porquê? Porque querem o melhor para si? Seria uma injustiça que os jornais adorariam. O homem que todos admiram, o herói que o Presidente da República quer condecorar, não é mais que uma fraude, capaz de despedir empregados, porque não obedecem uma ordem disparatada.  

E sem esperar resposta, saiu fechando a porta atrás de si.

 

10.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XVII

 


-Tudo bem, doutor, a dona Angelina e o senhor Anselmo, já aí estão, mas como só acabam os tratamentos hoje eu vou dizer-lhes para irem primeiro fazê-los, e têm a consulta no fim.

-Obrigado. Vamos, Anabela?– perguntou afastando-se em direção ao seu gabinete.

Paula ergueu as sobrancelhas em sinal de interrogação e a jovem respondeu com um encolher de ombros, apressando-se a seguir o médico.

Já no gabinete, o médico despiu o casaco que pendurou num cabide, pegou na bata que lá estava pendurada e voltando-se para a jovem, disse:

-Sente-se por favor.

Anabela sentou-se sem saber bem, o que esperar daquele encontro, ou porque o velho médico queria tanto falar com ela. Sentou-se e aguardou que o clínico fizesse o mesmo.

- Decerto está curiosa para saber porque quero tanto falar consigo ao ponto de pensar em pedir à Paula que a chamasse, se o acaso não tivesse feito com que a encontrasse hoje.

-Na verdade…

-Já me explico. Mas antes devo dizer-lhe que tenho acompanhado o percurso da sua vida desde que saiu desta clínica para se formar, coisa que fez com brilhantismo. Conheço a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Também sei que tem estado de férias sem vencimento por causa de problemas familiares. Sei, porque ouvi por acaso o comentário da Paula com a Judite, que está a pensar candidatar-se a uma vaga de enfermagem em Londres, porque a família do seu falecido marido lhe tem feito a vida negra. É verdade?

-Sim. Eles culpam-me pelos disparates do filho, quando eu fui uma vítima dos vícios dele.

- Percebo que se queira afastar daqui por uns tempos embora pense que o que devia fazer era dirigir-se à polícia e pedir que eles fiquem proibidos de se aproximarem de si. Mas existe outra solução que lhe vou expor. O meu sobrinho Tiago, médico cirurgião, estava integrado numa ONG, em serviço na República Centro Africana, quando foi gravemente ferido. 

Esteve em coma durante mais de um mês, foi submetido a várias cirurgias e finalmente teve alta no final do mês passado. E embora os especialistas digam que a cirurgia à coluna correu bem e ele pode voltar a andar, o facto é que ele continua sem conseguir mexer as pernas.

 Na verdade, perdeu a vontade de viver, não só, por não poder movimentar as pernas, mas porque tem algumas outras cicatrizes no corpo e a pior de todas, na alma, pois a noiva com quem pretendia casar na próxima primavera rompeu com ele, quando o viu ferido.

Desde então ele isolou-se numa casa que herdou da madrinha, na Lousã, e não quer ver ninguém, nem sequer os pais que estão desesperados.  Já lhe arranjámos três enfermeiras, mas a que aguentou mais tempo, esteve três dias. Ora, eu pensei que se alguém é capaz de lidar com ele e fazer com que recupere a saúde, esse alguém é a Anabela. 


18.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVI

 


Acordou encharcado em suor, com uma tremenda dor na perna esquerda. Cerrou os punhos, grunhindo uma maldição. Sabia que estava a ser vítima da DMF, a dor do membro fantasma. Tinha-a sentido várias vezes ao longo daqueles quase dois anos, primeiro com frequência, depois mais espaçadamente. Como médico sabia que na maioria dos casos a DMF desaparece por volta dos dois anos e ele estava quase a fazer dois anos que tinha sido amputado, daí que pensava já ter passado essa fase.
As picadas eram horríveis, sentia como se lhe estivessem a coser a perna a sangue frio.
Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e retirou um comprimido que engoliu mesmo sem água. Depois mergulhou a cabeça na almofada para abafar os gemidos. Maldita dor.

Meia hora depois, a dor cessou. Nuno sentou-se na cama. Dormira nu, as noites estavam quentes, e ele sempre gostara de dormir assim. Pegou nas canadianas e dirigiu-se à casa de banho. Tomou um duche enxugou o corpo, e colocou a prótese que todas as noites tirava, desinfetava e deixava na casa de banho, pronta para usar após o duche matinal 

Habitualmente fazia uma hora de ginásio antes do duche. Para isso tinha montado aparelhos especiais numa das divisões do apartamento, de modo a cumprir um plano de fortalecimento muscular adaptado ao seu caso.
Porém naquele dia, por causa da DMF, não foi ao ginásio. Vestiu-se e saiu. Era sexta-feira, dia de consultas externas, não tinha cirurgias marcadas, só precisaria ir ao bloco se aparecesse alguma urgência. 
Tomaria o pequeno-almoço, na pastelaria perto do hospital, pois também era à sexta-feira, que a sua mãe chegava logo de manhã para receber o pessoal da empresa de limpezas, que lhe tratava da casa e das roupas, e ele evitava sempre encontrar-se em casa a essa hora.
No dia seguinte fazia quinze dias que literalmente tinha fugido da casa de Luísa, e ainda não tinha tomado uma decisão embora estivesse cheio de saudades dela. 
Pensava que o ser humano é muito complexo. Durante anos ele vivera, amaldiçoando  a jovem e sem qualquer desejo de a reencontrar.

Mas bastou encontrá-la, saber que ela não terminara com ele por ser uma leviana como ele julgara, nem por vontade própria, que o que acontecera tinha sido uma armadilha do destino, na qual os dois acabaram presos, para esquecer todo o rancor acumulado, todo o sofrimento, que o fizera expor-se ao perigo com absoluto desprezo pela vida, e apenas desejar estar junto dela, amá-la e protegê-la.

Mas e ele? Quem o protegeria, da compaixão ou até quem sabe se de sentimento pior, da parte dela, quando visse o seu coto em vez da perna? Não aguentava aquela tensão. Até ao fim do dia, ia tomar uma decisão. A vida não espera, nem se pode adiar.

12.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXX





Nunca a semana da Páscoa foi vivida de forma tão intensa por Helena e pela sua família. 

Matilde estava nas nuvens por finalmente conhecer o pai e por ele ser um homem tão bonito e simpático. "avó, sabes que conheci o meu pai? E que ele quer casar e viver connosco? Nunca mais me vou sentir inveja das minhas amigas porque elas têm pai e mãe e eu não. É verdade,"- disse ao ver a cara de surpresa da avó, a quem Helena ainda nada tinha contado, pois fora imediatamente ao quarto da filha quando chegara.

-Ainda não contaste aos avós? - perguntou Matilde olhando a progenitora.

- Não, filha. Acabei de chegar. Agora porque não te levantas e vais dar um passeio com os teus primos? Depois temos que ir ao posto médico para ver esse penso. Lembras--te do que o doutor Nuno disse? 

Deu um beijo na filha e saiu do quarto acompanhada pela mãe que parecia ter perdido a fala de tão surpreendida que estava. 

Pouco depois, já na cozinha, Helena punha a mãe a par de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, desde que Matilde tinha ido para o hospital e Gonçalo a vira até ao que ele lhe tinha contado no dia anterior.

- E agora, Helena? Decerto aceitaste o pedido de casamento do rapaz.

- Não. A mãe não compreende, ele não se lembra de mim, nem do que vivemos. Quer casar por uma noção de honra arreigada no seu espírito, relativamente à filha. Mas ele pode reconhecê-la, dar-lhe o seu nome e ser o pai dela sem que seja obrigado a um casamento sem amor. 

- Não entendo Lena. A Matilde viveu quase treze anos sem pai. E agora queres que ela viva essa alegria apenas pela metade, como se fosse filha dum casal divorciado?

-E que outra coisa posso fazer, mãe. Casar com um homem que me conheceu há dois dias, que nada sabe de quem sou, dos meus sonhos e desejos?

- Um homem que amaste ao ponto de te entregares a ele, e que terás continuado a amar estes anos todos apesar de pensares que ele era um cafageste. E não me venhas dizer que o esqueceste, porque se assim fosse terias casado há dez anos quando o Roberto Martins te pediu em casamento. 

O rapaz é jeitoso, tinha um bom emprego no banco, é filho de amigos nossos e até queria perfilhar a Matilde. Foram dois anos de muita insistência. E o que é que nos  dizias quando eu, a Rita e a Sofia te aconselhávamos a aceitares o  rapaz? Não serias capaz de aceitar um casamento sem amor. 

- E é por continuar a pensar assim que não posso aceitar este casamento, a mãe não entende? O que importa que eu continue a amá-lo se ele não me ama? Se para ele sou alguém que conheceu há oito dias?  A história de que alguém ama por dois é muito bonita para ser cantada, mas completamente irreal na vida.

- O que eu sei, é que vocês viveram uma intensa paixão e a tua filha é a maior prova disso.  Se a vida vos afastou na altura, talvez seja porque eram muito novos e talvez esse amor não tivesse futuro com ambos sem saberem bem o que queriam. 

E se o destino vos juntou de novo agora, por alguma razão foi. De resto, tu estás solteira, ele também, ambos já passaram a casa dos trinta, e o tempo não para. Se ele quer casar, casa-te e dá à tua filha a família com que sempre sonhou. É o que qualquer mãe faria.

-Talvez seja. Mas para além de ser mãe, eu sou mulher. E depois do que vivi naquele mês, não posso contentar-me com um casamento por dever.

- Às vezes penso que a minha neta encara a vida com muito mais realismo do que tu. Não sei a quem é que tu sais, nem eu nem o teu pai tivemos algum dia a cabeça cheia de sonhos como tu. E sabes que sempre fomos felizes juntos. Quantas vezes pensas que teu pai me disse que me ama? Cem, duzentas?

 Pois fica sabendo que mo disse uma única vez, antes de casarmos. E eu preciso que ele mo diga? Para quê se eu vejo o amor que me tem cada vez que me olha? E se em tudo o que faz, está patente esse amor? Eu sei que ele me ama de corpo e alma, e ele sabe que é retribuído da mesma forma.

Sabes que mais? Vai ver onde andam as crianças, o almoço está quase pronto, o teu pai não tarda está aí.  E pensa bem no que fazes, para não te arrependeres depois.     



11.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVIII

 




- Queres dizer que ela é a mulher que procuro?

-Nada disso! Estou apenas a raciocinar em voz alta. E dizes que a criança é parecidíssima com a Laura? Que idade tem essa menina? Viste a data de nascimento?

-Claro. Faz em Maio, treze anos. Não estás a pensar que essa criança pode ser minha, estás?

-Porque não? Eu estava presente no hospital, quando o Ricardo te perguntou se continuavas apaixonado por aquela jovem, e falou de como vocês passaram as férias grudados um no outro.

-Não! Tu conheces-me. Eu nunca seria irresponsável ao ponto de engravidar uma jovem, quando ainda não tinha condições de casar com ela. De certeza tomei precauções para que isso não acontecesse.

 -Tu és médico. Sabes melhor que ninguém que não há nenhum método cem por cento infalível. Essas coisas acontecem. Pensa no que aconteceu com a tua irmã. Pensas que ela queria engravidar naquela altura?

 - Mas como é possível, se houve uma paixão tão intensa assim, eu continuar a não me lembrar dessa época?

- É possível! O nosso cérebro, é um enorme armazém, cheio de milhares e milhares de memórias. Elas não são todas guardadas da mesma maneira. Há milhares de coisas que vivenciamos um dia e que nunca mais recordamos porque o nosso cérebro as arquiva como sem importância, outras que recordamos durante uma época e outras que recordamos toda a vida, porque elas são arquivadas em diversos zonas consoante a importância que lhes damos nos momentos em que as vivemos. Não te vou falar dos vários tipos de amnésia, porque já falámos disso há bastante tempo e tenho a certeza que tens investigado todas, suas causas e sintomas. Sabes que quando a amnésia é provocada por um trauma psicológico, stress, ou álcool ela pode terminar em qualquer momento logo que a vida do paciente volte ao normal. Mas quando é provocada por um trauma físico, como uma pancada na cabeça, um AVC, um tumor, ou qualquer outra agressão, a zona do cérebro que foi afetada, pode não recuperar nunca e nesse caso, as memórias armazenadas nessa zona desaparecem para sempre tal como documentos desaparecem quando devorados por um incêndio.

- E não posso fazer nada? Meu Deus, não posso viver nesta incerteza o resto da vida.

 - Claro que podes. Deste o primeiro passo. Convence-a a escutar—te. Sê sincero.

- Mas admitindo que seja ela, e que a menina possa ser minha filha. Que direito tenho eu de entrar assim sem mais nem menos na vida delas? E se ela tem alguém? O facto de não ser casada, não quer dizer que não viva numa relação feliz.

-Ou não. E não podes sabê-lo sem falares com ela.

-Se ela quiser falar comigo! E se isso não acontecer?

-Está tão atormentado, que quase não raciocinas. Estás de serviço amanhã?

- Não! Estou livre este fim de semana.

- Dá no mesmo. Podes sempre ir lá logo de manhã. Leva um Kit de ADN, e faz a recolha.

Se como penso a menina for tua filha, ela não poderá deixar de te ouvir. Tens o direito de poder ver e acompanhar o crescimento e educação dela, mesmo que ela tenha outra relação e não queira saber de ti como possível marido. E se não tiver ninguém, depende de ti quereres ou não conquistá-la de novo.

 -- Meu Deus, Fernando! Não posso admitir que aquela menina linda possa ser minha filha, e pensar que podia levar a vida inteira sem ter conhecimento disso.

-Tens que o admitir se fizeres o teste de ADN e for esse o resultado. E ela não poderá tirar os teus direitos de pai.

-Mas como vou fazer o teste de ADN sem a sua autorização? Isso é ilegal!

-É? Mas não dizem que os fins justificam os meios?  De resto se o resultado for negativo, ela nunca saberá que o fizeste. E se for positivo, não terá coragem de participar de ti. Pensará que a filha não lhe perdoaria se soubesse que acabou com a tua carreira, e as mulheres pensam sempre nos filhos antes de qualquer outra coisa.  E agora se te fosses vestir e fossemos dar uma volta por aí?

 - Desculpa, sei que a tua intenção é boa, mas não tenho vontade nenhuma de sair.

-- Bom então agora aceito aquela cerveja que me ofereceste há bocado. Também não estou com muita vontade de sair. Tens estado com a Laura? Como é que ela está?

Gonçalo levantou—se e foi à cozinha buscar a cerveja. Não lhe passara despercebida a tristeza na voz do amigo.


27.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XI




Teresa saiu do médico com as pernas a tremer e sentindo-se agoniada.
Não que o resultado dos exames fosse diferente do que esperava. Estava realmente grávida e estava tudo bem com ela, e salvo qualquer imprevisto, que pode sempre surgir durante uma gravidez, tudo iria correr bem, não fora o facto de ter sido informada, que o pessoal do Centro Clínico de Procriação Medicamente Assistida, tinha cometido um erro grave, e ela estar a conceber um filho, cujo pai não era dador. Para piorar a situação, o homem tinha feito a recolha para seu uso exclusivo no futuro, e ao ter sido informado do engano, queria saber quem era a recetora, nem que fosse através dos tribunais, e uma vez aí, nunca se sabia o que podia acontecer.
E agora? O que ia fazer? Podia fingir que não sabia de nada, mas segundo o médico, o homem era poderoso, e estava disposto a tudo. A direção do Centro, receava que o escândalo de semelhante erro, os levasse à descredibilização total e por consequência à falência e ao encerramento. Apesar de lhe garantirem que não iam revelar a sua identidade, ela não acreditou. Quando vissem que o homem não cedia e iria mesmo para os tribunais, iriam entrar em acordo e denunciá-la-iam para se salvarem. E o que aconteceria depois, com ela e o bebé?
Quando se sentiu mais calma, pegou no telemóvel e marcou um número.
-Inês, estás em casa? – perguntou assim que a amiga atendeu.
- Estou. Estás bem? O que aconteceu? – perguntou Inês que estranhou a voz da sua interlocutora.
- Não dá para falar pelo telefone. Posso ir agora aí?
- Claro, mulher. Isso nem se pergunta.
- Até já.
Desligou, pôs o carro a trabalhar e um quarto de hora depois tocava a campainha da casa da amiga. Esta abriu a porta e assustou-se. A Teresa que tinha na sua frente, pálida e de olhos vermelhos pelo choro, em nada se parecia com a aquela, que nas vésperas estivera em sua casa, radiante de felicidade. Pensou imediatamente que o exame médico afinal provara que a amiga não estava grávida. Já tinha ouvido falar de mulheres que desejavam tanto um filho, que acabavam tendo sintomas de gravidez sem que estivessem grávidas.  Mas Teresa não manifestara qualquer sintoma que ela soubesse. E fizera dois testes que deram resultado positivo. Poderiam os testes dar um resultado errado? O melhor era não se por a adivinhar e saber o que se passava na realidade.
- O Martin está a dormir? – perguntou Teresa, depois de cumprimentar a amiga.
- Está. Mas entra, vamos para a sala e conta-me o que te aflige. Talvez te possa ajudar.
Teresa encaminhou-se para a sala, e a dona da casa seguiu-a depois de fechar a porta. Já sentadas, a jovem disse:
- Como sabes tinha consulta marcada para hoje no Centro de PMA, com  o médico, que efetuou o processo. Assim que cheguei e antes de entrar no consultório foi-me feito um exame ao sangue, que penso seja o normal nestes casos. Esperei um pouco pela entrada no consultório, o médico fez-me algumas perguntas entre as quais se eu já tinha feito o teste de gravidez e depois a assistente preparou-me e ele foi examinar-me. Confirmou a gravidez, e voltou para a secretária e enquanto eu me vestia, ouvi-o falar ao telefone. Mal eu voltei para a cadeira a porta abriu-se e entrou outro homem que me foi apresentado como sendo o diretor do Centro Clínico.
-Sim, mas até agora não vi razão para teres ficado assim. Não podes abreviar?
- O diretor disse-me que tinha havido um erro grave, falou uma série de coisas a que nem prestei atenção, tão nervosa fiquei, só entendi que eu ia gerar um filho de alguém, que não tinha feito doação, mas sim reserva para o futuro, por se encontrar doente, e ir ficar estéril. Entendes?
-Sim, mas o que tens a ver com isso, o erro não foi teu.
- E achas que isso interessa ao homem? Não. Ele quer saber tudo sobre mim. O seu advogado já ameaçou o Centro de que se não souber quem está a gerar o seu bebé, vai para os tribunais a imprensa etc. Em resumo pode criar um tal escândalo que poderá não só fechar o centro por falta de credibilidade, como tornar a minha vida num inferno. E o pior é que os médicos dizem que o homem é tão poderoso que não terá qualquer problema em fazê-lo.
-Mas quem é esse homem?

20.5.20

ISABEL - PARTE VI




Porém elas continuavam lá, como se tivessem sido gravadas a fogo.
No espaço de três dias toda a sua vida desabou. Isabel tinha completado há pouco dezanove anos, era uma mulher feliz, cujos sonhos e projetos, eram sempre a dois. De repente um acidente estúpido acabou com a vida de Fernando e quase acabou com a sua. Relembrou o momento em que acompanhada pelo pai, foi na manhã seguinte ao hospital, na esperança de uma boa notícia e foi informada de que o marido não tinha sobrevivido e se encontrava em morte cerebral. Lembrava-se vagamente do médico explicando-lhes que a pancada na cabeça fora muito forte, o cérebro sofrera um grande inchaço e a pressão exercida pelo capacete dera origem a hemorragia cerebral. No entanto eles mantinham-no artificialmente vivo, porque precisavam de falar com ela sobre a doação de órgãos. Foi-lhe explicado que a morte repentina de um homem jovem e saudável, como Fernando, podia ser a salvação de várias pessoas, que aguardavam um transplante como única salvação. Ela não gostaria de poder salvá-las, autorizando a doação dos órgãos do marido?
Isabel ficou tão chocada que gritou com o médico e saiu correndo do gabinete.
Depois o pai conversou com ela. Fez-lhe ver que ao marido morto, os seus rins, fígado ou coração não faziam qualquer falta. E podiam ser a diferença entre a vida e a morte para outras pessoas. Além disso Fernando era um homem generoso, ele gostaria de saber que a sua morte não teria sido em vão. Ela acabara por concordar e assinar os documentos que o médico lhe apresentara. Depois não se recordava de mais nada.  
 Foi o seu pai que tratou de todos os trâmites para o funeral. Fernando já não tinha pais apenas os tios de Albufeira que foi preciso avisar.  Isabel esteve sempre acompanhada pelos pais e sob o efeito de fortes calmantes. Talvez por isso, ela não se recordava do derradeiro momento, aquele em que se despediu do marido no cemitério.
Por mais de quinze dias, ficou em casa dos pais, no seu quarto de solteira. Depois um dia pegou nas chaves e voltou a casa.
Foi estranho e muito doloroso entrar na habitação, onde cada canto falava de amor e sentir-se morta por dentro. Mas apesar da sua juventude,  Isabel era muito mais forte do que seria de supor, numa mulher que até aí fora protegida de todas as adversidades.
Separou as suas coisas pessoais e meteu-as numa maleta para levar para casa dos pais. Tudo o resto, móveis, enxoval, e as roupas de Fernando iriam para uma instituição de caridade. Ela queria encerrar aquela etapa da sua vida.
Falou com os pais que como sempre a apoiaram e ajudaram e dois meses depois entregava as chaves da casa ao senhorio e regressava a casa à casa paterna e ao seu quarto de solteira.





19.5.20

ISABEL - PARTE V


                                     Foto do google


Dirigiu-se ao aparelho e levantou o auscultador.
Do outro lado uma voz desconhecida perguntou se era a casa do senhor Fernando Cardoso, e depois de ouvir a confirmação, a voz identificou-se. Era da Polícia e perguntou se podia falar com a esposa do senhor Fernando Cardoso. Trémula, pressentindo algo grave, Isabel respondeu que era a própria.
Então, a voz informou-a que o senhor Cardoso tinha tido um acidente, e tinha sido transportado para o hospital da área da sua residência.  
Por pouco não saiu de casa a correr sem desligar o fogão, de tal modo ficou aflita.
Apesar de morar a menos de cem metros da casa dos pais, não lhe ocorreu passar por lá. Dirigiu-se imediatamente à praça de táxis e entrando no primeiro da fila pediu, para a levarem ao hospital.
Chegara ao hospital e dirigira-se correndo à recepção. Lá lhe disseram que sim, Fernando Cardoso dera entrada no hospital. A sua moto fora abalroada por um carro em despiste.  
- Aguarde um momento por favor. Vou avisar o médico que já chegou.
A recepcionista pegou no telefone interno e fez uma chamada. Depois voltou-se e disse:
Entre por essa porta à esquerda, siga o corredor e bata na quarta porta. O médico está à sua espera.
Seguiu as instruções. O coração batia desordenadamente, os olhos rasos de água, a voz presa ela sentia-se esmagada como se o mundo tivesse desabado sobre si. Bateu à porta.
- Entre – ouviu-se uma voz masculina
No gabinete encontrava-se um médico sentado atrás de uma secretária e a seu lado uma médica de pé.
- É a senhora Cardoso? - perguntou  o médico 
Incapaz de responder Isabel assentiu com a cabeça.  
- Eu sou o médico que atendeu o seu marido.  O estado dele é muito grave. Sofreu fracturas múltiplas, contusão cerebral, e hemorragia interna por rompimento do baço. Está neste momento no bloco operatório.
Vamos...
Não ouviu mais nada, sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés, e de repente tudo à sua volta desapareceu e ter-se-ia estatelado não fora a pronta assistência de um dos médicos.
Acordou estendida na marquesa, com a médica debruçada sobre si.
-A cirurgia terminou? – perguntou entre soluços.
- Ainda não. Tenha calma, a equipa de cirurgiões que está com ele é excelente e vai fazer tudo para o salvar - respondeu a médica estendendo-lhe um comprimido e um copo de água. E acrescentou:
- Vai ter que ser corajosa. As primeiras setenta e duas horas serão determinantes. O seu marido é jovem, mas não lhe podemos esconder que o estado dele é realmente muito grave. Hoje não poderá vê-lo. Deve ir para casa descansar mas não deve ir sozinha. Está muito nervosa. Podemos avisar alguém? 
 Ela não se recordava de ter dado o número do telefone dos pais, mas decerto o tinha feito já que pouco depois o pai estava no hospital, junto dela.
Também não se recordava de ter ido para casa. Decerto o calmante era bastante forte.
Apesar de continuar nublado, o tempo estava a aquecer, a praia a encher-se de gente e Isabel continuava vestida. Começava a sentir muito calor e a desejar chegar rápido junto da toalha para se despir. Passou a mão pela testa, como se quisesse com esse gesto, afastar as lembranças que a estavam a atormentar naquele dia.




19.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XL




A refeição decorrera em silêncio, e chegara ao fim, quando o telemóvel tocou.
- Desculpa-me - disse Luísa levantando-se e pegando no telemóvel. – É a dona Aurora, esposa do médico. Deve ser algo importante, vou atender.
-Estou…
- Boa tarde. Luísa, ligue a televisão e veja as notícias. É muito importante, penso que estão a falar do homem que a Luísa salvou naquela noite.
- Vou já ver. Muito obrigado por ter ligado. Mais tarde telefono.
Desligou o telemóvel e disse dirigindo-se para a sala:
- Vem. Parece que estão a falar de ti no noticiário.
Ligou a televisão. Estava no intervalo. Sentaram-se e esperaram que acabasse a publicidade.
Logo de seguida, apareceu no ecrã o rosto de um conhecido jornalista.
“E agora voltamos ao caso do escritor Gil Gaspar e ao seu misterioso desaparecimento, na noite da tempestade Júlia, quando se dirigia da Universidade do Minho, onde dera uma conferência, para a sua residência nos arredores de Lisboa.
Inicialmente a família e a polícia suspeitaram de rapto, Todavia essas suspeitas iniciais, foram postas de parte pela judiciária à medida que os dias passavam sem que surgisse um pedido de resgate. E embora a família dissesse que ele regressava pela A1, a operadora do seu telemóvel tinha o último  registo do sinal do seu telemóvel na IP3, a alguns quilómetros de Penacova. Não se sabe, se o escritor saiu da autoestrada, enganado pela quase total falta de visibilidade, ou se teria pensado pernoitar nesta vila até que a tempestade passasse. O que se sabe é que ele desapareceu algures antes de chegar a Penacova. 
Até hoje, as investigações da polícia encontravam-se num impasse, já que não havia registo de nenhum acidente naquela noite, nem na autoestrada, nem no IP3."
Luísa ouviu um gemido e ao voltar-se viu que Gil se dobrara para a frente apertando a cabeça nas mãos trementes.
- Que se passa? Meu Deus, estás a tremer. Sentes-te mal?
- É a minha cabeça. São milhares de imagens a passarem por mim tão rápidas que algumas nem consigo ver bem. E a dor de cabeça voltou. Horrível, como se alguma coisa esteja a explodir cá dentro.
-Vou buscar um Benuron. Queres que tire o som à televisão?
- Não. Temos que ouvir o resto. Meu Deus, o bebé que estava sempre a  aparecer na minha cabeça, é a minha filha Mariana.
Entretanto o locutor informava agora que a polícia recebera nessa manhã um telefonema de um homem que costumava pescar no Mondego, e que encontrara um carro Mercedes preto espatifado lá no fundo da ravina, bem perto do rio. A polícia já informara a família que o carro era o do escritor. Encontrava-se de porta aberta, e tinha no porta luvas a carteira com dinheiro e documentos, e caído junto aos pedais, encontrava-se o seu telemóvel, desligado e sem bateria. Do escritor não havia rasto, a polícia suspeitava que pudesse ter saído atordoado, ou ter sido projetado e caído no rio, pelo que no local já se encontrava uma equipa de mergulhadores.
"Um nosso repórter também já se encontra no local, e entraremos em contacto com ele após mais um breve intervalo de apenas trinta segundos." – disse o jornalista e logo a emissão deu lugar à publicidade.
Luísa foi à cozinha e trouxe um copo de água e um comprimido, que lhe estendeu em silêncio.
- Não é preciso, obrigado. Já vai passando. Meu Deus a minha família deve estar numa aflição. A quantos estamos hoje?



Nota: Para quem não leu ontem, chamo a atenção para o post informação publicado à tardinha.


31.1.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIII


A tarde já ia a meio quando o clínico estacionou junto da cerca que rodeava a casa. Há mais de duas horas que parara de chover, e o vento acalmara bastante, soprando agora com pouca intensidade. A tempestade passara, mas demoraria ainda algum tempo até que os seus efeitos no rio, nas árvores arrancadas pela raiz e nas casas destelhadas desaparecessem.
-Boa tarde, doutor, - saudou Luísa ao abrir a porta ao médico.
-Boa tarde Luísa. Peço desculpa pela demora, mas tive que ver dois doentes de última hora. Onde está o doente?
-Por aqui doutor - disse encaminhando o médico para o quarto.
O homem agitava-se febril apesar do antipirético que tinha tomado ainda não havia quatro horas. Depois de um rápido olhar ao doente, o clínico perguntou:
-O que lhe aconteceu? Há quanto tempo está assim?
Não sei doutor. Era quase uma da manhã quando o Tejo começou a arranhar a porta e a ladrar aflitivamente. Fui ver o que se passava, e encontrei-o meio inconsciente à entrada da cerca.
-Não pensou chamar uma ambulância e mandá-lo para o hospital?
- Não me ocorreu, só pensei que precisava de um banho e uma bebida quente. Hoje disse-lhe que ia fazer isso e ele suplicou-me angustiado que não o mandasse para o hospital.
- Muito bem, vou examiná-lo.
- Obrigado. Aguardo lá fora, se for necessário alguma coisa basta chamar.
Saiu do quarto fechando a porta atrás de si. Não soube quanto tempo esperou até que o médico saiu, mas a espera pareceu-lhe interminável. Uma vez na sala, o médico disse:
- Parece tratar-se de um estado gripal, mas continuo a pensar que devia ir para o hospital. Lá lhe fariam exames para despistagem de outro tipo de problemas, coisa que eu não lhe posso fazer aqui.
-Será que a gripe foi causada pela tempestade de ontem? Quando o encontrei estava gelado e encharcado.
- Não Luísa, a gripe como deve saber é transmitida por um vírus. O que aconteceu ontem podia ter-lhe provocado hipotermia e matá-lo de frio, ou provocar-lhe um resfriado, mas não lhe causaria a gripe.  A chuva, o frio e mais do que isso, a exaustão, podem sim ter acelerado a progressão do vírus que ele já teria em incubação. E então minha amiga, chamo a ambulância?
- Não sei doutor, não podia medicá-lo e aguardávamos até amanhã, para ver se melhorava? Parece ter pavor do hospital, fez-me prometer que não o mandaria para lá.
- Muito bem, vou aviar a receita e  trago-a cá, já que não convém a Luísa, deixá-lo aqui sozinho. Quando eu voltar, vai seguir à riscas o que lhe digo, e amanhã volto a observá-lo. Se melhorar pode continuar o tratamento, aqui em casa, mas caso contrário eu mesmo chamo imediatamente a ambulância. Nunca se sabe quando não está uma pneumonia em desenvolvimento atrás de uma gripe. Também devo avisá-la de que o vírus da gripe é altamente contagioso. E pode já estar contagiada.
- Nunca tive gripe, nem quando há três anos o meu irmão, esteve aqui bastante mal e fui eu que cuidei dele, como o doutor decerto se lembrará.
- Já não me recordava dessa gripe do seu irmão. Mas não se deve fiar muito nisso. O organismo nem sempre tem as mesmas defesas. Então já sabe, siga à risca as instruções que lhe dei nessa altura. Vou à farmácia e volto já com os medicamentos.



29.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXII




Meia hora depois, voltou ao quarto. O homem dormia embora se movesse agitado. Luísa voltou para a cozinha, a cabeça mergulhada num oceano de interrogações. Porque mostrara ele uma tão grande aversão pelo hospital? Teria algum trauma de infância? E quem seria?  Ele dizia que não se lembrava de nada. Mas seria verdade? Ou esconderia a sua identidade por motivos que só Deus saberia? E o que fazia, perdido numa noite de tão grande tempestade? Ter-se-ia evadido de alguma cadeia? "Que estupidez, mulher. Os prisioneiros não têm fatos daqueles nem camisas de seda", - murmurou. 
Mas porque não tinha com ele quaisquer documentos? Teria tido algum acidente? Mas se assim fosse não ficaria na estrada à espera de socorro? A sua casa não ficava propriamente perto da autoestrada, e a estrada que dava acesso até à sua porta, estava assinalada como troço sem saída. O melhor mesmo era telefonar ao doutor Fonseca, e se o médico entendesse que devia ir para o hospital chamava a ambulância e pronto. Por muito que o homem não quisesse ir, ela não ia arriscar. Vamos que ele lhe morria em casa? Ia ver-se metida numa série de problemas.
Pegou no telemóvel e procurou nos seus contactos o nome do clínico. Foi atendida pela sua assistente
-O doutor Fonseca está com uma doente, e não gosta de ser interrompido. Pode deixar-me o seu contacto que o doutor liga-lhe depois.
Luísa deu-lho. Ela conhecia o médico, quase desde que tinha ido viver para aquela casa. Um dia, estava a pintar junto ao rio, quando a dona Aurora, esposa do médico, a encontrara numa das caminhadas que fazia diariamente por ali. Era uma senhora muito simpática. Parara a ver a evolução da tela que  pintava e depois elogiara o seu traço, as cores, enfim, o seu trabalho. A partir dali encontraram-se muitas vezes e Aurora sempre parava junto dela para dois dedos de conversa. Até que um dia a convidou para lanchar em sua casa, e Luísa que não conhecia ninguém na zona, aceitou agradecida. 
Trocaram confidências. Aurora sentia-se muito só. Ser mulher de um médico, fora de uma cidade grande, ou mesmo de uma vila importante, não era fácil. Fonseca era o único médico num raio de vários quilómetros para norte, e para sul até Penacova. A qualquer hora do dia ou da noite era chamado e há anos que não tinham férias.  “Como Deus não quis que tivesse filhos, só posso esperar que o meu António, se resolva a reformar-se, para não ter que viver os meus últimos dias tão só como sempre vivi” confessara-lhe uma vez. Um dia apresentara-lhe o marido. Era um homem de média estatura, meio careca, de sorriso fácil e ar bonacheirão que inspirava simpatia e confiança. Tinha a certeza que o médico lhe ligaria, logo que possível e isso deixou-a um pouco mais tranquila.
Meia hora mais tarde o médico retornou a chamada.
-Bom dia, Luísa. Aconteceu alguma coisa? Viu a minha mulher?
- Bom dia doutor. Não vi a sua esposa. Deveria tê-la visto?
-Esta manhã ela estava muito preocupada consigo por causa da tempestade, e disse-me que se o tempo melhorasse, ia até aí ver se estava bem.
- Não veio, e nem é aconselhável que venha com este tempo. Já lhe telefono, para que fique descansada. Doutor tenho aqui um doente a arder em febre. Seria possível o doutor vir examiná-lo.
-Claro que sim. Tenho ainda um paciente para consulta, mas logo que termine vou para aí.
Muito obrigado, doutor. Então até logo.




No  ultimo capítulo vocês perguntavam porque o Gil não queria ir para o hospital se não se lembrava de quem é.
Talvez que no seu subconsciente as memórias das cirurgias que sofreu em tempos, ou do tempo em que a sua esposa morta, esteve ligada às máquinas para salvar a vida da filha que tinha no ventre, se imponham apesar de conscientemente não ter recordações. A mente humana é muito complexa.





7.10.19

CONVERSA DE AUTOCARRO


Na Sexta-Feira, depois de mais uma sessão de fisioterapia, apanhei o autocarro com de costume para regressar a casa. Na paragem seguinte entram várias pessoas que se vão sentar na parte de trás do autocarro portanto por trás de mim que me encontrava no primeiro banco logo a seguir à porta de saída. Quando o carro arrancou, oiço uma voz forte e mesmo sem querer ouvi o seguinte:
Voz forte : - Só mesmo à chapada.
Voz masculina, mais suave: - Temos que respeitar as mulheres.
Voz forte - Eu respeito as mulheres. Respeito-as mais do que elas se respeitam umas às outras. Só sabem falar da vida umas das outras, a minha vontade quando oiço certas coisas é dar-lhes um par de chapadas.
A voz suave disse qualquer coisa que eu não consegui entender e a voz forte retorquiu:
-Ó pá não me lixes, paciência tem limites.

Na paragem seguinte saiu muita gente, os dois saíram de certeza porque não voltei a ouvi-los. E vim para casa a pensar que há homens com uma noção muito errada do que é o respeito.


                                       *************

Vamos a ver se esta semana consigo pôr as visitas em dia. Por mais que o deseje, a coisa não está fácil. O olho direito anda muito choroso, o esquerdo não vê.  Telefonei ao médico a perguntar se podia pôr as gotas de Frisolona que ponho no esquerdo nos dois olhos, ele disse que não, mandou comprar gotas de Ocular para pôr no direito e mandou-me descansar

30.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem daquele jovem alto e magro, de uma palidez extrema, que encontrara na primeira consulta, surgiu na sua memória. Voltou-se e perguntou:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas lhe aflorassem aos olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a à sala, fazendo com que se sentasse no sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou - disse sentando-se ao seu lado e segurando a mão da mãe entre as suas.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da progenitora, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde a primeira consulta, as análises e do diagnóstico  médico, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, pensando que assim ela não assistiria ao seu sofrimento, da chegada às Termas,  de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para não ter que contar à jovem que não podia assumir um compromisso porque podia morrer de um momento para o outro. Falou-lhe do desespero que sentia, até porque cada dia se sentia melhor, e da sua decisão de voltar ao médico para fazer novos exames, coisa que fizera nessa mesma tarde. Por fim contou a conversa com o médico, as análises trocadas, e de como se sentia feliz, apesar de sentir pena daquele jovem que só vira uma vez e que morrera tão novo.   A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu tenha de viajar amanhã cedinho para as Termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação dona Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo me pede.