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17.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XX

 



Tinham chegado ao restaurante. Fernando estacionou o carro no parque, saiu e dava a volta ao carro, todavia Laura saiu sem esperar que ele se aproximasse para lhe abrir a porta.

- Vamos entrar? - perguntou pegando-lhe no braço pelo cotovelo. Já estão todos à nossa espera.

Não era difícil saber porquê. Afinal ele tomara o caminho mais longo a fim de prolongar o tempo a sós com a jovem.

Durante o jantar, Aníbal, o pai de Laura; e Fernando fizeram as honras da conversa, enquanto a jovem se mantinha atenta ao jantar do pequeno Miguel e  Sara contava à sua avó o quanto tinha gostado de passar aquela semana com a prima e de como Matilde se sentia feliz por ter enfim o pai e a mãe juntos.

- Sabes, avó, eu tenho muitas saudades do meu pai, mas sei que ele foi para o céu, não voltará. Mas eu e a Matilde estivemos a conversar. Ela diz que o tio Fernando gosta da mãe, e que se eles se casassem, podíamos voltar a ser uma família completa.

- E tu não te importavas se a mãe casasse com o tio Fernando? - perguntou a avó

- Claro que não. Eu gosto muito dele. Mas parece que a mãe não.

- Não te preocupes. A tua mãe também gosta dele. Só que ainda se lembra do teu pai. E isso faz com que não se dê conta do que sente pelo tio Fernando.

- Sabes o que eu penso, avó? Os adultos são muito complicados. Não sei se algum dia  vou querer ser adulta.

Perante a risada da avó, todos os olhares se viraram para ela.

-A minha neta acaba de me dizer que não vai querer ser adulta, pois os adultos são muito complicados, - disse Teresa perante os olhares surpresos dos restantes.

 Naquele momento o empregado trouxe as sobremesas.

Pouco depois, pediam os cafés e a conta, entretanto Miguel já cabeceava os olhitos fechados, morto de sono. Laura levantou-se e pegou-lhe ao colo, mas logo Aníbal estendeu os braços e retirou o neto do colo da mãe, dizendo:

-Nós deitamos as crianças não te preocupes. É melhor que vás com o Fernando, amanhã é o teu primeiro dia de trabalho, podem ter alguma coisa a conversar sobre isso.

Laura não disse nada, embora no seu rosto fosse bem visível o quanto as palavras do pai a contrariavam, enquanto Fernando dizia sorrindo.

-Bom, então despedimo-nos aqui, para que vocês também se possam recolher e descansar.

Abraçou o casal com o mesmo carinho com que um filho o faria, deu um beijo no bebé adormecido, e depois baixou-se para ficar ao nível de Sara, e abraçou a menina dizendo:

- Até outro dia, princesa. Dorme bem. Prometo que levo a tua mãe para casa, sã e salva, daqui a pouquinho.

Esperou até que entraram no carro, e só então se dirigiu ao seu automóvel, seguido pela jovem. Não lhe tocou, pois sabia que ela reagiria mal, zangada como estava com os pais.

Ligou o motor mas em vez de pôr o carro a trabalhar, virou-se para ela e disse:

-Vamos, desabafa essa raiva que sentes. Embora não tenha tido culpa nenhuma na situação, eu aguento.

- Parece que sou um traste de quem eles se quem livrar, - disse ela magoada. E tu também tens culpa. Podias dizer que tinhas um compromisso inadiável, e eu teria ido com eles.

- Mas não tinha e não me agradam as mentiras. E tu sabes tão bem como eu, que eles te querem muito, que não lhes agrada a solidão em que vives e se estão sempre a tentar juntar-nos é porque me conhecem de toda a vida, sabem que nunca amei outra mulher que não fosses tu, e que serei um bom pai para os teus filhos. 

Sei que não te sou indiferente, senti o teu coração bater em uníssono com o meu, senti o teu corpo tremer nos meus braços, quando dançámos juntos no casamento do teu irmão e sinto-o sempre que te toco. Se assim não fosse já te tinha deixado em paz, como o fiz quando me mandaste embora, há quase dois anos.

Também sei que ainda não estás preparada para te entregares a um novo amor, mas eu sou paciente.  E quero que saibas que enquanto estiveres na clínica, podes estar descansada, que não terei nenhuma atitude diferente daquela que teria com qualquer outra assistente.

 Pôs o carro em movimento e dirigiu-se para a residência da jovem.

6.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE III




Depois de hora e meia retida na estrada, Helena estava de novo a caminho da capital. Já era tarde e ficara  indecisa, se devia  ou não entrar na autoestrada, pois a viagem seria mais rápida. Porém chegaria sempre tarde, e como era  hora do jantar, decidiu continuar pela estrada nacional, e parar onde encontrasse um restaurante, junto à estrada, a fim de jantarem, coisa que viria a fazer, dois quilómetros mais à frente.
Depois do jantar, voltou à estrada, não sem antes verificar se o filho sentado atrás na sua cadeira tinha o cinto devidamente colocado.
Apesar de se estar nos primeiros dias de Dezembro, a noite estava estrelada, e fria. Estranhando o silêncio do menino , lançou-lhe um rápido olhar e verificou que tinha adormecido. Baixou um pouco o som do rádio e concentrou-se na condução. Não gostava de o fazer de noite, mas os dias naquela altura eram tão pequenos. Felizmente já não faltavam muito para chegar a casa. Devia estar a uns dez, doze quilómetros de Lisboa, encontrava-se numa longa reta, e há quase vinte minutos que não passava um carro por ela.
De súbito, avistou qualquer coisa na berma da estrada, lá mais  à frente, e pensando nalgum animal que de repente poderia atravessar a estrada, reduziu a velocidade. Porém à medida que se aproximava  verificou  que se tratava de um corpo humano. Mau, um corpo humano deitado na berma da estrada, naquele local solitário, sem nenhum carro ou velocípede  à vista, podia ser uma armadilha. Como médica estava habituada a tomar decisões em fracções de segundos. A estrada estava aparentemente deserta, mas as três árvores e o  tufo de vegetação imediatamente antes do corpo,  podiam esconder alguns meliantes. 
Embora a sua razão lhe gritasse que seria perigoso parar, e lhe aconselhasse prudência, o seu instinto também lhe dizia que podia ser alguém gravemente ferido, e ela era acima de tudo, médica.  Lançou um olhar inquieto ao filho que continuava adormecido e travou um pouco antes de chegar junto ao vulto. Vestiu o colete reflector, e saiu do carro. A medo perscrutou os arredores. Não se via nada, estava tudo silencioso. Receosa abriu a porta traseira e pegou no filho adormecido ao colo, pensando, que podia ser um assalto para lhe roubarem o carro, e não podia correr o risco de o levarem com o filho lá dentro. Devagar aproximou-se do vulto caído na berma da estrada. Parou por momentos e escutou. Não se via nada nem ninguém e o vulto não se mexeu. Convencida de que não se tratava de nenhum estratagema de assalto, pousou a criança no chão e debruçou-se sobre o vulto que jazia de bruços na berma da estrada.

21.6.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XXII

 


Encontravam-se sentados num banco de jardim num dos locais menos frequentados do parque, longe da zona onde estavam os baloiços e os escorregas, que faziam as crianças encher o ar de risos e gritos. Depois de alguma troca de mensagens, Lena aceitara encontrar-se com Gonçalo naquele local, já que não podia convidá-lo para sua casa, e um restaurante ou café, cheio de turistas nas férias da Páscoa, não lhe pareciam ser um bom local por recear exaltar-se com Gonçalo.

Ela não entendia porque ele procedia como se não a conhecesse e insistisse que tinham de falar. Quase lhe disse que não queria qualquer conversa com ele, mas então lembrou-se do enorme desejo que a filha tinha em saber quem era o pai, e conteve-se.

Dias antes, quando se preparava para levar a filha do hospital para casa, perguntara ao médico, se a filha poderia viajar para a aldeia e como ele não vira inconveniente, desde que tomasse os cuidados por ele recomendados, no dia seguinte viajaram para a aldeia, onde Matilde tinha todos os cuidados e mimos da mãe e avós.

E até os primos, já de férias com os avós, embora sem a presença dos pais, que por razões profissionais, só chegariam no fim de semana, respeitaram as limitações dela, limitando-se a fazer-lhe companhia em casa, ou a acompanha-la nos curtos passeios, sem as brincadeiras do costume.

Nesse mesmo domingo, depois do almoço, enquanto a filha descansava na cama, Helena mandara a primeira mensagem a Gonçalo. Nela lhe agradecia o livro que oferecera à filha, o cuidado que tivera com a menina.

Não telefonara, porque receava o desabar dos seus sentimentos e a raiva que sentia por ele fingir que não a conhecia.

Ele respondera. Pedira mais uma vez para falar com ela, era muito importante.

Ela não respondera e Gonçalo enviara outra mensagem. Decidido a resolver o problema que o atormentava há tantos anos, ele suplicara-lhe, pelo amor que ela tinha à filha.

Era uma chantagem sentimental, ela percebeu, mas também decidida a acabar com aquela história, tanto mais que agora sabia que em qualquer lugar ou a qualquer hora se podiam cruzar, ela aceitara.

Ele respondera agradecendo e informando que nessa semana estava no hospital das oito da manhã às quatro da tarde, pelo que só se poderiam encontrar depois dessa hora. Mais mensagens foram trocadas até que o dia, o local, e a hora foram combinados.

Assim ali estavam os dois naquela Quinta feira Santa, sentados num local público, mas suficientemente isolados para poderem conversar.

-Boa tarde - saudou Gonçalo ao chegar ao local indicado estendendo-lhe a mão num cumprimento social, acrescentando em seguida. Obrigado.

 

- Penso que antes de mais me deve uma explicação para esta quase perseguição para que o escute, - disse nervosa, o corpo tremendo com aquele aperto de mão.

Sentaram-se. Por motivos diferentes ambos estavam tensos, sem saber bem o que um podia esperar do outro ligados por um passado comum que apenas um recordavam. Então depois de uns segundos de silêncio, que a Helena pareceram intermináveis ele começou.

Para que perceba a minha insistência e o meu desespero tenho que lhe dizer que há quase 14 anos tive um terrível acidente de moto. Sobrevivi por milagre depois de mês e meio em coma no hospital…

 

23.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXV




Dias depois, Quim foi convocado pelo advogado dos tios para a leitura do testamento. Os tios tinham-lhe deixado tudo. A sua casa, o restaurante e um bom dinheiro. Excetuando uma pequena quantia que destinaram à empregada, e uma cláusula em que determinava que eles deveriam continuar  a mantê-la na casa, já que era quase como família.
O casal, mudou-se então para a casa, que fora dos tios, por cima do restaurante. Quim continuou a ser o chefe, Sofia, tratava de todos os assuntos relativos à gerência. O negócio ia bem, a conta bancária aumentava. Três anos depois, nasceu a  pequena Catarina. E quando esta estava prestes a completar um ano, aconteceu em Portugal, a tantas vezes sonhada revolução, que depôs o regime fascista e colonialista. Era Abril, os cravos floriram e com eles a libertação de um povo, martirizado pela fome e pela guerra.  As imagens correram mundo, e eles viram-nas pela televisão e renovaram as esperanças de poderem voltar a Portugal.
Se a guerra colonial acabasse, Quim podia voltar.  Era o sonho comum do casal. Voltar à terra que os vira nascer, rever parentes e amigos. E então aconteceu. A independência das colonias tornou-se irreversível, mas a paz tão sonhada não. Angola, Moçambique e Guiné, as três maiores colónias, tinham vários movimentos de libertação, e todos queriam o mesmo. Ser o seu movimento aquele que assumiria o poder, e isso teve como consequência que a guerra recrudesceu, levando os muitos portugueses lá residentes a fugiram para Portugal. Mais de meio milhão de portugueses, muitos deles nascidos naquelas possessões africanas, chegaram a Portugal, sem emprego, sem dinheiro, sem outros bens, que não a própria vida. Enquanto o governo procurava dar resposta, aquela avalanche de gente, a precisar de pão, roupas, casa, enfim do básico para sobreviver, alguns acolhiam-se ao abrigo de familiares, ou com algum sacrifício, emigravam para outros países, certos que estavam de não terem futuro em Portugal.  
Quim e Sofia, que na altura planeavam vender a casa e o restaurante, e regressar à terra que os vira nascer, e onde tinham os seus familiares, no intuito de se estabelecerem na terra-mãe, receando que a conjuntura do país naquele momento difícil, não lhes fosse favorável, adiaram  a decisão.
Porém poucos meses depois, Sofia voltou a ficar grávida, e eles ficaram sem outra opção. Se queriam realizar o sonho do regresso, era aquela a ocasião. Quim e Sofia, não queriam que o nascimento do novo bebé ocorresse em França.  Acreditavam que os filhos, iam crescer e sentir que a França era a sua terra, o seu país. Mais velhos, não quereriam ir viver para uma terra que embora fosse a dos seus pais, eles não conheciam, nem sentiam como sua. E os pais, fatalmente iriam ficar onde os filhos estivessem. Por isso era urgente o regresso. Venderam tudo, transferiram para Portugal o seu dinheiro e os três acompanhados de Idalina, a empregada, chegaram à aldeia no mês de Agosto do ano da graça de mil novecentos e setenta e seis.


E continua...

 

19.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIII




Nos primeiros dias de Janeiro, a tia Délia sofreu um  ataque cardíaco, que foi a machadada final na sua frágil saúde. Faleceu no mesmo dia.
Sofia, desdobrou-se no apoio ao marido e ao tio, que estava inconsolável. O restaurante foi fechado durante uns dias, e quando reabriu, Sofia que continuava desempregada começou por dar uma ajuda, na contabilidade, já que o tio não saía de casa e definhava dia a dia, mas acabou por assumir toda a parte de gerência do mesmo. Um mês depois, o tio não suportando mais a ausência da mulher que amara, partiu também. Foi mais um rude golpe para Quim. E mais uma vez a mulher esteve a seu lado, como um forte pilar de apoio.

Foi nessa altura, depois do funeral do tio, depois da demonstração de um momento de fraqueza e vulnerabilidade de Quim, que eles se tornaram verdadeiramente um casal. Foi amor? Ela não sabia. Da parte dela, sim, conhecia os seus sentimentos, há muito tempo estava apaixonada pelo marido. Da parte dele, não sabia. Talvez não passasse da necessidade de mitigar a dor da perda daqueles que amara como pais. Talvez fosse um desejo instintivo, próprio de homem, por uma mulher jovem e bonita, que afinal até era sua esposa.

Sofia não sabia. E para ser verdadeira consigo mesmo, nem lhe importava. Tinha vinte anos, viviam na mesma casa há quase cinco meses. Certo que ele lhe tinha confessado amar outra mulher. Que lhe tinha pedido paciência. Mas ela reconhecia que não era muito paciente. Talvez mais tarde se arrependesse, mas naquele momento entregava-se de corpo e alma compensando com amor, a inexperiência que recorria do facto de ser virgem.

Na manhã seguinte, quando acordou, Quim já se tinha levantado. Sentiu-se um pouco desiludida. Tinha sido a primeira noite que dormira com o marido, teria gostado de acordar com ele a seu lado. Encontrou-o na cozinha, e saudou-o envergonhada pela recordação da noite anterior.
-Bom dia.
- Bom dia, Sofia. Acabei de preparar o pequeno almoço, ia levar-to agora -  disse colocando-lhe a bandeja na mesa à sua frente. E acrescentou: - Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem à noite.
Estava muito sério. Ela sentiu-se gelar. Primeiro acordava sozinha. Depois aquele ar sério do marido. Pensou que ele estava arrependido. Sentiu que alguma coisa se rompia dentro dela. Ia rejeitá-la.

Afinal, casara com ela por causa dos tios, e agora que eles tinham morrido, não havia necessidade de continuar aquela farsa. Pedia o divórcio, e podia enfim, voltar para a sua "boneca". E ela feita estúpida, entregara-se de corpo e alma, sonhando com o seu amor. 
Incapaz de conter a dor que sentia, abriu as comportas do rio interior em que a sua alma naufragava e começou a chorar.





15.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE X




Finalmente esboçou um sorriso, e disse:
- Conheci a tua mãe, ainda ela namorava o teu pai. Era muito bonita. Sais a ela. Chega aqui filha, dá-me um abraço. E sê bem-vinda à família.
A jovem aproximou-se, abraçou a senhora e depositou dois beijos na sua face enrugada.

Conversaram sobre a viagem e quando se despediam, a tia disse:  
- Vem lanchar comigo amanhã, filha. Gostava que me falasses da aldeia, do meu irmão, e dos meus sobrinhos. Tenho para mim que nunca mais os vou ver.
- Não digas isso, tia. Quando estiveres melhor, vão de férias. Escusas de arranjar desculpas, com o restaurante, que eu dou conta do recado.

- Quando se chega à minha idade, as melhoras só vêm com três badaladas e, -sacudiu a mão como se com aquele simples gesto afastasse algo invisível, talvez quem sabe um mau pensamento, - bom deixemos isso que hoje é um dia de alegria, e vós tendes coisas melhores para fazer do que companhia a uma velha. Vão lá jantar, e não te esqueças, que te espero amanhã para lanchares comigo.

Despediram-se beijando de novo a senhora e saíram. 
-Agora vamos à cozinha cumprimentar o tio, -- disse o jovem enquanto desciam as escadas.
Deram a volta ao edifício e entraram na cozinha. Sofia arregalou os olhos de espanto. Nunca tinha entrado numa cozinha de restaurante e achou-a enorme.
Um senhor de idade, deixou ou dois jovens junto do fogão e dirigiu-se a eles. Mais uma vez Sofia sentiu-se observada da cabeça aos pés. Depois o senhor sorriu.

-Tio, esta é Sofia, a minha mulher. E este é o tio Joaquim - apresentou-os Quim.
-És muito bonita! Não te dou um abraço para não te sujar, - disse-lhe sorrindo ao mesmo tempo que lhe estendia a mão.
- Muito trabalho, tio? Precisas de ajuda?
- Não. Vão lá jantar e depois vai para casa que deves ter muito que conversar com a tua mulher, - disse piscando o olho a Quim.

A jovem baixou o rosto, tentando esconder o rubor.
Um dos jovens ajudantes chamou o chefe e ele despediu-se com um aceno.
Saíram e voltaram a entrar desta vez pela porta do restaurante. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto uma junto à janela, onde se via um retângulo com a palavra, Réservé.

Quim conduziu-a por entre as mesas até lá. Puxou a cadeira para que ela se sentasse. 
Enquanto aguardavam a chegada da lista, ela entabulou conversa.
- São muito simpáticos os teus tios. Mas são bem mais idosos do que eu pensava. Disseste que não têm filhos?


 


12.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE IX




Pôs-lhe a mão no ombro e empurrou-a suavemente para a porta.
Sofia, estava espantada. Não só pelo que Quim acabara de lhe dizer, mas pelo jeito dele, pela maneira como a tratava.  Era afável, cordial, preocupava-se com ela, tinha-a deixado descansar. Tão diferente do comportamento dos homens da sua aldeia, para quem os sentimentos das companheiras pouco ou nada importavam. 

 Até ao momento, não parecia lembrar-se que era seu marido. Não procurara nenhum tipo de intimidade. E se por um lado isso a deixava menos constrangida, por outro não deixava de lhe parecer estranho.
Entraram no carro e ele disse:

- O carro não é meu. É do tio, comprou-o para as suas deslocações na procura de novos fornecedores. Mas atualmente já não se sente seguro para conduzir. Daí que seja eu quem anda com ele. São ótimas pessoas, embora às vezes pareçam um tanto inconvenientes. Ficaria feliz se fosses simpática com eles.

-Disseste-me que são como teus pais. Como tal os tratarei, e respeitarei,  fica descansado, - respondeu um tanto agastada pela recomendação.
- Desculpa não quis ofender-te, disse estacionando o carro no parque, e voltando-se para ela, acrescentou:
- O restaurante está cheio, mas a nossa mesa está reservada. Vamos primeiro 
 lá acima, cumprimentar a tia Délia.

Ela saiu e olhou à volta com curiosidade. Depois encaminharam-se para as escadas que davam acesso ao primeiro andar. Realmente a casa devia ser muito espaçosa, pois ocupava todo o espaço por cima do restaurante. 
- Julgava que a tua tia também estava a trabalhar.
- Não. A tia é uma mulher muito doente, só sai de casa para as idas ao médico.

Abriu a porta, e deu-lhe passagem.
Dirigiram-se a uma sala, onde se encontrava uma senhora idosa.
Estava sentada no sofá, com as pernas estendidas apoiadas num pequeno banco. Não parecia ser alta, era magra, e a sua pele branca apresentava-se cheia de sulcos. O cabelo completamente branco, estava preso num carrapito.

-Olá tia. Como te sentes hoje? - perguntou Quim curvando-se para depositar um beijo na testa enrugada da idosa. E acrescentou de seguida:
- Trouxe a Sofia para te cumprimentar.
A anciã cravou nela os seus pequenos olhos, mirando-a da cabeça aos pés.

5.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VI




Saíram do aeroporto, e ele levou-a até ao carro.
-  As casas aqui são caras. Eu vivia com os meus tios.  Mais do que tios, eles têm sido para mim em todos estes anos, uns verdadeiros pais. E queriam que ficássemos a viver com eles, a casa é grande, podíamos perfeitamente viver lá. 
Porém calculei que não te sentisses muito à-vontade, afinal nem os conheces. Pensei que seria melhor  alugar um apartamento para nós e foi o que fiz.  De qualquer modo é perto da casa deles, depois de descansares, vamos até lá para os conheceres.

Sofia não respondeu. Olhava pela janela a bela cidade, e as pessoas que circulavam nas ruas. Reparou essencialmente na maneira como estavam vestidas, e sentiu-se ridícula, no seu fato de saia e casaco, bem abaixo do joelho,  demasiado antiquado, para o que ela observava naquele momento.
- Olha aqui é o restaurante dos tios. Por cima é a casa deles, e naquele prédio azul, lá à frente, fica o nosso apartamento, - informou Quim.

Chegaram pouco depois. Ele ajudou-a a descer, e carregou a mala para casa.
Estavam em frente de um edifício de quatro pisos, pintado de azul.
Pegou-lhe no braço.
- Vem. O nosso apartamento é no primeiro andar. 

Subiram o lance de escadas e ele abriu a porta. Parecia à-vontade. Sofia pelo contrário estava acanhada. Só agora se dava conta da sua real situação. Estava numa terra estranha, com um homem que não conhecia, sem nenhum familiar a quem recorrer em caso de necessidade. Agora frente à realidade, perguntava-se se a ânsia de sair da aldeia, não a tinha feito fazer uma asneira das grandes. 

Entraram em casa.
Ele poisou a mala de viagem na entrada, e começou a levantar as persianas. A casa encheu-se de luz.
- Não fiques aí parada. Vem conhecer a casa. Aluguei-a assim já mobilada, pode não ser muito a teu gosto, mas é confortável. Nunca vivi sozinho, pois como te disse, sempre vivi com os meus tios, e como viste a sua casa é bastante maior que esta, todavia mesmo assim, aluguei-a pensando que gostarias de ter o teu cantinho.
“O meu cantinho? Não deveria ser o nosso cantinho?” – Interrogou-se mentalmente.

1.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE IV

 



Tanta fotografia cansava-a. Mas enfim era a tradição e ela pensava que a mãe já tinha desgostos que chegassem para os próximos dez anos pelo menos. E chegou enfim o carro para a levar até à dependência do Registo Civil.
Bem que ela gostava de uma cerimonia em casa, mas tal não era permitido por lei.

O pai entregou-a ao sogro, que na cerimonia representava o noivo.

E depois do casamento foram até ao restaurante local celebrar o acontecimento com uma pequena festa para a família, e duas amigas com quem a noiva tinha mais intimidade. 
A viagem para França seria dois dias depois, ela já tinha a carta de chamada do marido, que lhe autorizaria a saída do país, pois sem essa autorização nenhuma mulher podia viajar. 

No dia seguinte, era a festa da aldeia, com a procissão dedicada a Nossa Senhora das Dores. Era o primeiro ano que Sofia iria participar apenas como devota, e não como parte integrante da comissão organizadora. Assim, depois do almoço saiu com a mãe para assistirem à celebração da Eucaristia, à qual se seguiria a procissão pelas principais ruas da aldeia. Era uma festa a que acorriam não só os habitantes locais, como das aldeias circundantes, da vila mais próxima, e até de outros pontos do distrito.

Homens e mulheres vestiam os seus melhores fatos, para participarem na homenagem à Virgem. Os homens, sem chapéu, alguns mostrando luzidias calvícies, as mulheres de cabeças cobertas por belos e rendados véus quase todos pretos, exceção feita para as jovens e crianças, que usavam véus brancos, em sinal da sua pureza.

Mas todos sérios e solenes, compenetrados na fé à mãe de Deus. Contudo a imagem mais ternurenta, era a das crianças, vestidas de branco, com alvas asas nas costas, e coroas de flores entrelaçadas nos cabelos.
“Parecem mesmo uns anjinhos” – murmuravam pais e avós enlevados. Outras ainda, iam vestidas com o traje de Nossa Senhora de Fátima, de Nossa Senhora das Dores, S. Francisco, S. Pedro, ou Santa Teresinha do Menino Jesus, que representavam os cinco andores que todos os anos saíam na procissão, acompanhados pela banda dos Bombeiros.

6.11.20

CILADAS DA VIDA -- PARTE LV

 


Faltavam dez minutos para o meio dia, quando David telefonou. Depois de combinarem o restaurante e a hora, vestiu o casaco apertou o nó da gravata e saiu. Ao passar pela secretária de Olga disse:

-Vou almoçar com o David e não volto de tarde. Se puderes, depois de almoço, dá um saltinho lá acima ver a Teresa.

- Vai descansado. A Teresa está bem acompanhada. A Sandra é uma excelente profissional e gosta da muito dela.

-Eu sei. A Teresa também gosta dela. Aliás, disse-me que são as três,  muito carinhosas e simpáticas. Bom, até amanhã.

- Até amanhã. Bom almoço.

- Obrigado

O restaurante onde o irmão, tinha reservado mesa, em Belém foi uma agradável surpresa. O “Caseiro” não era muito grande e nada luxuoso, era mais um restaurante típico para turistas, mas David afirmou, que almoçava lá muitas vezes, por ficar perto do seu escritório e que a comida e atendimento eram muito bons. Só tinha um defeito, estava sempre cheio, e não se proporcionava ambiente para conversas como a que os dois iriam ter. Mas isso não era problema, já que depois do almoço podiam ir para o seu escritório e aí sim, podiam conversar sem interrupções, já avisara Irene a sua a sua assistente, de que  nessa tarde, não estaria para ninguém.

E João teve oportunidade de ver que o irmão tinha razão. O “polvo à lagareiro” pedido por ele estava bem confecionado e muito saboroso e o vinho tinto da casa, leve e frutado foi um ótimo acompanhamento. David escolheu dourada grelhada com legumes que também tinha um ótimo aspeto. A sobremesa e o café foram igualmente bons e o atendimento uma simpatia.

Após o almoço, David disse:

-Não sei onde deixaste  o carro, mas se estiver bem estacionado, talvez não valha a pena ires busca-lo, o meu escritório fica a menos de duzentos metros, é só atravessar a rua, e entrar na rua transversal, mas como ela só tem um sentido, para ires para lá, de carro, tens que dar uma grande volta e entrares por cima.

-Então vamos. Caminhar um pouco, para quem como eu, leva metade da vida sentado, só faz bem.

 O escritório de David não era muito grande, uma entrada ampla, a um canto da qual havia um balcão disposto em quadrado, dentro do qual, uma secretária, um computador, um telefone e uma cadeira giratória. Sob o balcão várias prateleiras, onde se viam algumas pastas de arquivos. No resto da sala dois sofás de couro, colocados de modo a apanhar duas paredes formando um angulo reto. Na parece em frente duas portas e entre elas um painel retratando um pedaço de floresta cortada por um rio.  Uma das portas dava para o gabinete de David, a outra para a casa de banho. David acabara de abrir a porta do seu gabinete, quando a porta de entrada se abriu, e entrou uma mulher alta, morena, de cabelo escuro. Não era muito jovem, usava óculos, e vestia um saia-casaco cinzento e uma camisa branca. João pensou que ela andaria mais ou menos pela idade de Olga.

-Boas tardes, - saudou

-Boa tarde, -responderam os dois homens. Depois David disse:

- Dona Irene, tal como lhe disse esta manhã, não me passe nenhuma chamada e se houver pedidos de consulta marque dia e hora consoante a disponibilidade da agenda. Para todos os efeitos eu estou no tribunal.

E então, entraram no gabinete dele.

11.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXI





Teresa gostou realmente do restaurante. O edifício situado na marginal, com o bar e a esplanada estendendo-se pela rocha, como que entrava no mar delimitando a fronteira entre as praias da Rainha e da Conceição. A sala de refeições era muito agradável, com largas janelas para a praia. A mesa que lhes estava reservada situava-se precisamente junto a uma dessas janelas, donde se podia observar o vai e vem das ondas, transmitindo uma sensação de calma que acabou descontraindo a jovem.

-Preferes carne ou peixe? - perguntou João enquanto consultava a carta. A especialidade aqui são os pratos à base de peixe ou marisco, mas o Bife Tártaro do Mâitre, ou o Carré de borrego assado com maçãs, também são uma delícia.

- Vou escolher o Robalo no forno à Portuguesa, pois receio que os pratos mais elaborados de carne me enjoem e te faça passar vergonha.

- Muito bem, vamos para o robalo. E entradas? Gostas de Ostras?

- Não sei, nunca comi, mas também não será hoje que vou experimentar. Além do receio de enjoar, habitualmente não como muito e se começo com as entradas receio já não comer mais nada. Mas tu, pede o que te apetecer, não tens que te preocupar comigo.

-Desculpa, mas não estou de acordo. És a convidada, portanto a pessoa mais importante nesta mesa. Se receias enjoar com a carne ou com as entradas então não as pedimos. Desejo que relaxes e saboreies a refeição.  E se possível, que te esqueças do papel, que ambos desempenhamos nesta peça, em que a vida nos meteu. Imagina que sou um amigo de longa data, que não vias há muito tempo. Será mais fácil para os ti.

Os olhos de Teresa tinham um brilho húmido, como se estivesse a reter as lágrimas. João estendeu a mão e apertou a dela. Recordou que ela lhe dissera estar sozinha na vida, e sentiu toda a sua fragilidade como se fora a sua própria. Sabia bem o que era sofrer, e não sentir o consolo de um abraço, ou simplesmente uma palavra de ânimo de pai ou mãe. Em silêncio jurou a si mesmo, que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para a proteger.

O empregado chegou, eles fizeram o pedido, e durante breves segundos mantiveram-se em silêncio observando o vai vem das ondas, cada um perdido sabe-se lá em que mundo, presos de que fantasmas. Depois Teresa levantou-se dizendo:

-Desculpa, tenho que ir à casa de banho.

E afastou-se. Mais do que uma necessidade fisiológica, própria do seu estado, Teresa queria esconder dele as lágrimas que não conseguia reter por mais tempo. Precisava dois minutos de solidão para lavar o rosto e recompor-se da emoção que aquele homem lhe provocara. Era aquele o homem, que Gonçalo e o médico do Centro Clínico, lhe descreveram como um homem duro, capaz de tudo para atingir os seus fins? A ela parecia-lhe mais o Príncipe de um conto de fadas. Enxugou o rosto e abanou a cabeça. Não! Não se deixaria iludir. Os Príncipes não existiam na vida real. O que existia eram sapos, capazes de boas representações.

Regressou à mesa no momento em que o empregado se aproximava com o pedido

 

9.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXX

 



Abriu a porta da rua, e João já se encontrava de pé junto do seu automóvel. Vestia umas calças pretas e uma camisa branca de mangas arregaçadas. Ao vê-la puxou os óculos escuros para a testa, e aproximou-se. Indecisa sobre como cumprimentá-lo, numa sociedade onde quase toda a gente usava o beijo social, mas não se sentindo à vontade para o fazer, aguardou que ele tomasse a iniciativa, e João estendeu as mãos e segurou as dela.

- Bom dia, como estás?

- Bem e tu? – retorquiu sentindo que a voz lhe tremia, nervosa com o calor que as mãos dele estavam a provocar no seu corpo. Que era aquilo? Nunca tinha sentido nada igual, só podiam ser as suas hormonas descontroladas com a gravidez.

-Eu estou bem, mas vamos para o carro, está muito calor – disse largando-lhe as mãos e pegando-lhe no braço.

Acompanhou-a ao carro, abriu-lhe a porta e esperou que se sentasse para  a fechar, puxar os óculos escuros para os olhos, dar a volta ao carro e sentar-se ao volante. Ligou o motor e arrancou, ao mesmo tempo que lançava um olhar rápido sobre a sua companheira. Reparou que também ela tinha colocado os óculos escuros, tinha as mãos no colo, uma apertando a outra, e uma postura rígida, como se não estivesse à vontade ou temesse algo. Sorriu.

- Pensei que, dado que estamos no verão, seria agradável almoçar à beira-mar. Reservei mesa no Albatroz em Cascais. Conheces?

-Não.

- O serviço é bom, o ambiente estupendo e a vista espetacular. Acredito que vais gostar.

- Tenho a certeza que sim.

O silêncio que se seguiu foi quebrado quando ele disse:

-Não te conheço bem, mas em relação à última vez que te vi, acho-te abatida. Tens passado mal?

- Até agora não. Apenas tinha muito sono. Mas esta manhã começaram os enjoos, e levei mais de duas horas com vómitos.

- E quando vais ao médico?

-Mês que vem, dia seis. Faço oito semanas, e vou fazer a primeira ecografia.  Parabéns pela tua festa. Vi a reportagem nas notícias, ontem, parece que foi um sucesso - disse para mudar o rumo da conversa, pois não se sentia à vontade para falar da sua gravidez com ele. Era certo que era o pai do seu bebé e que ela lhe tinha prometido que ele faria parte da vida da criança, mas isso não impedia que falar do seu estado, fizesse com que o seu rosto parecesse um tomate e sentisse vontade de se esconder, onde ele não a visse, pelo menos até ao nascimento do bebé. Percebendo ou não o que se passava com ela, João disse:

- Olha Teresa, acredito que esta situação seja difícil para ti; e de certa forma também o é para mim. Afinal somos dois desconhecidos que por um erro médico se vêem obrigados a conviver. Todavia somos os dois adultos, ambos queremos essa criança, e por ela estamos dispostos a lutar.  E como sabes neste caso há duas formas de luta. Ou lutamos um contra o outro, com todos os inconvenientes que isso acarreta, especialmente para a criança, ou lutamos lado a lado para que cresça num ambiente de amor e respeito.  

Tinham chegado ao parque do restaurante, ele estacionou o carro e levantou os óculos escuros, voltando-se para ela, que desapertava o cinto. Esticou o braço e tirou-lhe os óculos. Uma lágrima desprendeu-se dos olhos femininos e deslizou-lhe pelo rosto. Num movimento suave com o dedo grande ele limpou-a.

-Confia em mim, Teresa. Juro-te que não te farei mal, se fores leal comigo. E agora põe um sorriso nesse rosto bonito e vamos entrar que está na hora.

11.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XII


Pouco depois sentados à mesa do restaurante, Gil pergunta ao irmão:
- Como vai a tua relação com a Isabel?
- Que há nenhuma relação. Ela não acredita em mim, pensa que apenas quero seduzi-la para a levar para a cama.
- E tens a certeza de que não se trata disso?
- Absoluta. Desejo-a é claro, é uma mulher muito bonita, e eu não sou propriamente um santo. Mas o que sinto por ela é muito mais do que isso. É uma vontade de estar juntos, de partilhar emoções, de formar uma família. Tenho trinta e dois anos, e nunca soube o que era uma verdadeira família. Sei que a mãe nos amou muito, que era capaz de dar a vida por qualquer um de nós. Trabalhou até ao limite para que nunca tivéssemos fome, e o nosso corpo agradeceu, mas a alma cresceu sedenta de carinho. Não estou a censura-la. A vida era muito difícil na altura, especialmente para uma mulher sozinha com três filhos. Tu foste muito novo para o clube, tinhas um sonho, algo a que te agarrares. A princípio vinhas dormir a casa, mas quase só te via quando já estava a cair de sono.
Depois quando se aperceberam da tua genialidade, passaste a viver lá, só vinhas a casa ao fim-de-semana. Eu cuidava da Laura, para que a mãe continuasse a trabalhar. As suas brincadeiras, não me diziam nada, tínhamos gostos e sonhos diferentes. Tinha saudades tuas. E sonhava com uma família diferente. Com uma mesa onde estivéssemos com os nossos pais.
 E jurei que quando crescesse e arranjasse um emprego, procurava uma mulher e me casava. Sonhava com a minha casa, a minha mulher e um ou dois filhos. Nunca senti inveja de ti, do teu êxito, do muito dinheiro que ganhavas. Todavia senti um pouco de inveja quando te casaste. Ias ter uma família, e eu continuava mais só que nunca, pois a Laura crescera, entrara na Universidade, tinha a sua própria vida, e a nossa mãe já tinha entregado a alma ao Criador, alguns anos atrás.
Porém apesar do meu sonho os anos foram passando e nenhuma das mulheres que conheci, e conheci imensas, embora a maioria nem fosse capaz de recordar o meu nome. Só me procuravam na esperança de que tas apresentasse. Apesar disso nunca senti vontade de formar com alguma delas uma família, pelo contrário repugnava-me a ideia de poder viver o resto da vida com elas. Até conhecer a Isabel. Com ela eu desejo tudo. O corpo, e a alma. Quero adormecer todas as noites no calor do seu corpo, acordar com o seu sorriso. Se isto não é amor, então não faço ideia do que seja o amor. Infelizmente, apesar de acreditar que não lhe sou indiferente, ela não acredita em mim e não sei como convencê-la.
- Se a amas assim e acreditas que ela também gosta de ti, toma uma atitude drástica. Faz qualquer coisa que a surpreenda e lhe dê a certeza do teu amor.
-Que tipo de atitude? Tens alguma ideia?
- Compra-lhe um bonito anel de noivado. Depois convida-a para jantar, leva-a a um bom restaurante e durante o jantar, dás-lhe o anel e pede-a em casamento. Ou se achas que ela não vai aceitar o jantar, leva a Teresa e a Raquel ao escritório, e na presença delas, oferece-lhe o anel, e pede-a em casamento. Com duas testemunhas ela não vai duvidar das tuas intenções.
Tinham acabado de almoçar. Gil chamou o empregado, pagou a conta e saiu seguido do irmão.
Despediram-se já no exterior, com o jovem desejando sorte ao irmão antes de entrar no carro e seguir para o hospital.
Três dias depois, Gil voltou à empresa e desta vez chegou antes da hora de abertura, conforme combinado de véspera com Marco. O doutor Alcides só chegaria perto das onze horas, para que eles assinassem os documentos de doação e alteração do registo da empresa, mas Marco, seguindo o conselho do irmão ia pedir Isabel em casamento, e queria que ele estivesse presente, para que à jovem não restassem quaisquer dúvidas, sobre a seriedade do pedido. Na véspera, marcara uma reunião com as três mulheres, no início do dia, pelo que iriam abrir as portas um pouco mais tarde nesse dia.

22.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXX



Uma semana antes, o tempo, embora frio, estava seco e com dias bonitos.  Ricardo fizera as reservas para o almoço, no restaurante da Adraga, situado na praia do mesmo nome, na zona de Sintra.
Com um excelente serviço e uma esplêndida vista, com a sala virada para o mar, e a esplanada para a serra, com o casario de Almoçageme na encosta, e o Castelo da Pena, lá no alto. Infelizmente não esperava o dia invernoso que nesse momento, se fazia sentir, mas que podia ele fazer? Não podia controlar a natureza, mas tinha encomendado um bom menu, e recomendado que não faltasse o champanhe e um bolo de noiva, ainda que pequeno. 
Apesar de tudo, o almoço foi ótimo, o serviço uma simpatia, e o mar encapelado , não deixava de ter o seu encanto.
Depois de almoço, que se prolongara até ao meio da tarde, como o tempo não estava para passeios, voltaram para Lisboa. Os noivos iam ficar a viver no apartamento dele, no Parque das Nações. Mais tarde, talvez Ricardo vendesse o apartamento e comprasse uma casa noutra zona da cidade, mas de momento o apartamento era o ideal. Possuía, uma suite, dois quartos, uma sala, uma bela cozinha, e uma casa de banho.Uma das condições de Isabel era que não tivessem lua-de-mel. E embora inicialmente isso não lhe tivesse agradado, como o casamento só pudera ser marcado para aquela data, ele acabara por concordar.
Faltavam poucos dias para o Natal, era o primeiro que passariam em família, havia muita coisa para fazer e pouco tempo. Natália ofereceu-se para ficar com a Matilde naquela noite e eles ficariam em casa, depois da noiva ter rejeitado ir passar a noite num hotel. Para ela, aquela ia ser a noite mais importante da sua vida, e queria vivê-la no recesso do seu novo lar, porque acreditava que essa recordação, que esperava fosse boa, energizasse a casa, para um futuro feliz.
Durante o tempo que mediou até ao casamento, não tiveram mais intimidade do que uns beijos e algumas carícias mais apaixonadas, pois ela sempre fazia questão, de que Natália estivesse lá em casa, quando Ricardo chegava. E mesmo quando foi ao apartamento dele para preparar o quarto para a filha, e levar as suas roupas, fez-se sempre acompanhar da menina e da vizinha, com o pretexto de que  a vizinha seria uma boa ajuda.
Na verdade, Isabel tinha medo de estar a sós com o futuro marido. Porque quando ele a beijava, ela perdia a cabeça, parecia que o seu corpo ficava doido, queria sempre mais, e tinha vergonha de si própria. Tinha a certeza, que não fora a presença de Natália, teria feito amor com ele, quase desde a primeira vez que se beijaram. Às vezes perguntava-se o que pensaria Ricardo do seu “assanhamento”, e tinha receio que ele desistisse do casamento, depois de terem feito amor. Por isso fazia tanta questão da presença da amiga, quando estavam juntos. 
Ricardo percebeu que ela não queria fazer sexo antes do casamento, e embora não percebesse tanta timidez, numa mulher com trinta e três anos, fez que não entendia e conteve o desejo intenso que sentia cada vez lhe tocava.
Naquele momento de regresso a Lisboa, Ricardo tinha a mão de Isabel presa nas suas. Com o polegar acariciava-lhe a palma da mão e admirava-se com o rubor da mulher, enquanto conversava com Artur e Natália, que segurava no colo a menina adormecida.




Esta história volta segunda-feira

12.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXI


                                                              
-Bom ainda não acabei a conversa, -disse Ricardo ao saírem do restaurante. – Queres andar um pouco por aqui, a noite está agradável, ou queres regressar e conversamos em tua casa?
-Prefiro regressar, a Natália já passou grande parte do dia com a Matilde, não quero prendê-la mais tempo do que o necessário.
Entraram no carro e minutos depois seguiam a caminho de casa da jovem. Fizeram a viagem de regresso em silêncio. Ela pensando no que ele tinha dito no restaurante, ele ensimesmado na sua ideia e na maneira de a expor de modo a convencê-la. Não lhe passara despercebido que fora a sua proposta que a fizera engasgar-se. Só não sabia se de surpresa, ou de rejeição à ideia. Não tinha sido fácil para ele tomar aquela decisão, mas agora que a tomara, queria muito que ela aceitasse, pois analisando a situação chegara à conclusão que era o melhor para a menina. 
Tinham chegado. Estacionou o carro em frente à casa dela e saiu. Isabel  também o fizera, mal ele parara o veiculo, e os dois encaminharam-se para a porta que se abriu antes que ela metesse a chave na fechadura.
- Estava a ler perto da janela, vi quando chegaram - disse Natália
-A Matilde? – perguntou a jovem.
- Dorme que nem um anjinho. Agora vou. Até amanhã.
-Até amanhã Natália e obrigada.
Ela saiu fechando a porta. Isabel voltou-se para ele.
-Entra para a sala. Já sabes onde é. Eu vou ver a Matilde e já volto.
Sentiu vontade de lhe pedir para ir com ela, mas não o fez. A criança não o conhecia, o vínculo que tinha de estabelecer com a menina,  seria demorado e teria que estar bem desperta. Entrou na sala, mas não se sentou. Minutos depois Isabel regressou. Tinha tirado o casaco, e ele admirou a figura daquela mulher que parecia tão frágil e segundo o relatório do Artur era forte como uma rocha.
-Senta-te, e diz-me então o que decidiste – disse, sentando-se num sofá.
Ele fez o mesmo no outro e inclinando-se para a frente disse:
- Bom, já sabes o que decidi, disse-o no restaurante. Penso que o melhor que podemos fazer pela Matilde, será casar-mo-nos. Tenho um bom apartamento, e uma situação financeira desafogada. Posso vender o apartamento e comprar uma casa quando ela começar a crescer, dar-lhe uma boa educação académica, prepará-la para a vida, Dirás que também o podes fazer, e a julgar pelo que fizeste com a tua irmã tenho que acreditar. Mas terás que levar uma vida de muito sacrifício. E olha para esta casa. Está a precisar de reforma, e embora por agora a possas adiar, vai chegar o dia em que terás mesmo de fazer obras.  Isso é muito caro, e não ganharás suficiente para elas e para cuidares da educação da Matilde. Não acredito no amor e tinha decidido morrer solteiro. Tu renunciaste ao casamento pela educação da tua irmã, e continuarás a fazê-lo pela Matilde. O nosso casamento seria assim como uma espécie de acordo comercial. Além do mais, depois de casados poderás requerer a adoção da Matilde e ela será legalmente filha dos dois.    
Com o nosso amor, vamos fazer dela uma pessoa feliz, e nem precisará saber das suas conturbadas origens.
-És muito generoso, - disse ela irónica. Tantas vantagens, só para mim e para a Matilde. E tu? Que exiges tu em troca de tanta generosidade?



Dois capítulos num dia?  Pois é amigos. É que eu estou muito feliz e tinha que vos contar. Meu marido não andava bem, e fez uma endoscopia há 3 semanas. Na endoscopia, o médico viu um nódulo e mandou fazer biopsia. Tenho andado com o coração nas mãos, pois como a maioria sabe, ele já teve cancro na próstata em 2010. Há meia hora telefonaram-me a dizer que tinha chegado o resultado. E o nódulo é um quisto glandular.