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15.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LV

 

Os dois homens, entraram na sala, enquanto Anabela se dirigia à cozinha para avisar Isilda de que podia levar a merenda à salinha e perguntar se ela precisaria de alguma ajuda para o jantar. Depois subiu ao seu quarto despiu a bata, tomou um duche e vestiu um conjunto de lã cor-de-mel.

Como Isilda dissera que não precisava da sua ajuda, e o dia apesar do frio intenso, se apresentava bonito, resolveu dar uma volta pela quinta. Hesitou entre o casaco de fazenda grossa, castanho e o casaco parka verde-azeitona, acabando por escolher o último por ser mais quente. Calçou as botas e sentindo-se confortável, desceu as escadas e saiu. 

Olhou o relógio. Quatro e meia da tarde. No fim do ano, os dias eram bem curtos e não tardaria a cair a noite. De qualquer modo ela não sairia da quinta, precisava apenas esticar um pouco as pernas e para ser sincera consigo mesma, também não se sentia muito à-vontade com os dois homens. Peter era simpático, extrovertido e um pouco brincalhão, diferente de Tiago que era um homem sério e muito intenso. Curioso como dois homens tão diferentes podiam ter uma relação de amizade, tão forte. Talvez fosse verdade a história de que polos opostos se atraem.

A bem da verdade, não era Peter quem a inibia, mas sim Tiago. Ela não sabia que se teria passado naqueles dois dias que esteve ausente, para as festas de Natal, mas embora Isilda, não se tivesse apercebido de nada especial, ela sabia que alguma coisa acontecera, e tinha de ter sido muito importante, porque o doente que ela deixara, não era o mesmo que encontrara. 

 A indiferença que ela lia nos olhos dele, tinha sido substituída por algo que ela juraria ser... desejo, talvez paixão. A rebeldia tão frequente anteriormente, tinha desaparecido. Tiago estava muito mais calmo, aceitava sem contestar e executava com entusiasmo todos os exercícios que ela lhe mandava fazer. Às vezes, Anabela tinha mesmo de se impor, a fim de que o entusiasmo masculino, não o levasse a cometer nenhum excesso que viesse a prejudicar o que já tinham conseguido.

Tinha de telefonar ao doutor Azevedo. A sua presença ali, já não se justificava, embora Tiago ainda tivesse de fazer mais algum tempo de fisioterapia, já podia fazê-lo em qualquer clínica, pois mesmo que ainda não pudesse conduzir, Joaquim que era um verdadeiro faz-tudo na propriedade, podia conduzir por ele. Afinal era ele que o fazia, sempre que era necessário ir às compras.

A noite caíra e com ela o frio intensificara-se. Anabela levantou o capuz, tentando proteger-se e iniciou o regresso a casa. Talvez Isilda precisasse de ajuda na cozinha.  Na quinta, o jantar era servido mais cedo que na cidade, e eles tinha em casa um convidado.

5.6.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LI

 


Intrigada, Anabela arrumou a sala, guardou a ficha do doente, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a empregada, pondo a mesa para o almoço.

- Bom dia, Isilda. Aconteceu alguma coisa especial nestes dois dias que estive ausente?

- Bom dia, Anabela. Bom foi Natal, e os pais do menino Tiago vieram passar o Natal. Porquê?

- O doutor Tiago, parece bem melhor, mais animado, mais conversador…

-Bem, isso está. Há dias que o meu Joaquim me dizia que ele estava bem melhor, já a movimentar a cadeira sozinho, e a tornar-se mais independente. Mas como sabe eu só entro no quarto quando vou fazer limpeza e isso é sempre pela manhã, ou quando está no banho ou nos exercícios de modo que nunca o vejo. Porém nestes dois dias ele veio comer à mesa com os pais, e realmente parecia outra pessoa, muito diferente de há um mês. Conversou bastante com os pais e eles estavam muito esperançosos, de que em breve o filho voltasse a andar. Por que pergunta?

-Porque anteontem quando fui embora, ele continuava com mau humor, e precisou da minha ajuda para sair da maca para a cadeira. E hoje, não só não precisou dessa ajuda, como estava bem-humorado e conversador.

- Ele soube ontem notícias de outro doutor que estava com ele, lá em África e ficou bastante contente. Mas penso que não foi esse o milagre pois ele já se mostrou simpático e bem-disposto na véspera, durante a consoada.

- Bom, vou até ao quarto, preciso mudar de roupa, e já volto para lhe ajudar.

Despejou a mochila em cima da cama, pôs de lado os dois embrulhos e guardou na cómoda a roupa que trouxera.  Depois de ter lavado a cara e o rosto, pegou nos dois embrulhos e desceu.

-Já na cozinha, entregou a Isilda um dos embrulhos, pôs o outro na cadeira onde Joaquim costumava sentar-se dizendo:

-É uma pequena lembrança de Natal.

-Obrigada. Mas não carecia de estar a gastar dinheiro connosco. E demais não comprámos nada para si.

- Mas que mais me podiam dar, se já me deram tanta atenção e carinho durante estas semanas? De resto como disse é apenas uma lembrança.

A empregada rasgou o embrulho e retirou uma bonita camisola de lã, cor de salmão.

- Obrigada. É tão bonita. E macia – disse encostando a malha ao rosto.

Nesse momento entrou Joaquim e a conversa repetiu-se. E depois de rasgar o seu embrulho, retirou um belo pulôver de lã castanho, que ele agradeceu. De seguida perguntou à mulher.

- Tens o almoço pronto para levar ao doutor?

- Tenho. É só preparar o tabuleiro.

Pouco depois ele levava o almoço ao patrão.

 

 Nota: Não estou a conseguir fazer visitas diárias, não só por causa dos olhos, como também por absoluta falta de tempo. Estamos no fim da época escolar e (da Universidade Sénior, que frequento). E até ao dia 15, há ensaios, festas de encerramento,  passeios, almoços, enfim. Por outro lado, este é também o mês em que eu e o marido, temos de fazer os exames de saúde anuais pois temos consultas a 22, 26 e 27. Comentarei sempre que possível. Provavelmente terei que fazer uma nova pausa. 

10.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXVI

 


Quando às oito horas da manhã, Anabela entrou na cozinha, encontrou a mesa posta para tomar o pequeno-almoço mas apenas Joaquim se encontrava ali.

-Bom dia, - saudou.

-Bom dia, menina - respondeu o homem com tristeza.

-Anabela, por favor! Aconteceu alguma coisa? A sua esposa?

-Está arrumando o quarto do doutor.

-Tão cedo? - estranhou a jovem. E como ele está?

-Mal. Deve ter tido outro daqueles pesadelos.

-Que pesadelos, Joaquim?

- Não sei, menina. Quando ele saiu do hospital, nos primeiros tempos, eu dormia na sala ao lado com a porta entreaberta de modo a atendê-lo se ele precisasse de mim, durante a noite. E quase todas as noites o ouvia gritar, entrava no quarto e encontrava-o em grande sofrimento embora estivesse a dormir.

 Dizem que não se devem acordar as pessoas com pesadelos, mas eu, que Deus me perdoe, acordava-o sempre, pois não tinha coragem de ver o seu sofrimento. Porém, ele nunca comentou comigo o que o atormentava e a menina sabe como é, se ele quisesse contar tentaria ajudar, mas se não o fazia eu não me ia pôr com perguntas. Afinal ele é o nosso patrão, não um familiar.

- Provavelmente tem a ver com o acidente, - refletiu Anabela. Acontece muitas vezes, que pessoas que sofrem acidentes traumáticos, como o que o doutor Tiago sofreu, revivem em sonhos a tragédia. Às vezes, se não têm ajuda psicológica, até durante anos.

- É horrível, o doutor grita, treme como se estivesse a arder em febre, e o suor encharca-o.  E depois que acorda o olhar está esgazeado e ele olha para nós como se não soubesse onde está e não nos conhecesse.

Naquele momento Isilda entrou na cozinha dizendo:

- O doutor fechou agora o chuveiro.

Joaquim afastou-se em direção ao quarto enquanto a esposa lavava as mãos e começava a preparar o pequeno-almoço para o patrão.

Anabela acabou de comer, levantou-se da mesa e disse:

-Vou caminhar um pouco. Estarei de volta antes da hora do tratamento do doutor.

Saiu pensando no que o caseiro lhe contara sobre o doente.  Os pesadelos não eram incomuns em vítimas de acidentes traumáticos. Porém quando se tornavam recorrentes, quebravam o animo do doente e atrasavam a recuperação.

 Tinha de falar com o doutor Azevedo, ele devia insistir com o sobrinho para aceitar a ajuda de um psicólogo.                                                                  

20.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXI

 


Quando o carro parou à porta de casa da jovem, Fernando saiu do carro e acompanhou-a à porta, mas quando ela se voltou para lhe estender a mão, ele passou-lhe uma mão pela cintura, atraiu-a a si e baixando a cabeça beijou-a.  Foi um beijo suave, cheio de ternura, não o beijo apaixonado que gostaria de lhe ter dado, todavia ele sabia que que se queria ter sucesso na difícil tarefa de ganhar o seu coração tinha que ter paciência. Por isso soltou-a.

-Até amanhã. Não te peço que sonhes comigo, mas pensa com carinho em tudo o que te disse.

Esperou que ela entrasse em casa e só então virou costas e dirigiu-se ao seu automóvel.

Laura entrou em casa e encontrou-a às escuras e em silêncio, sinal de que os seus filhos e os avós já dormiam.  Subiu as escadas, mas antes de entrar no seu quarto, passou primeiro pelo quarto de Miguel, depois pelo de Sara. Depois de verificar que os filhos dormiam tranquilamente, entrou então no seu quarto e dirigiu-se à casa de banho onde trocou a roupa que vestira, pelo pijama, escovou os dentes e os cabelos, apagou a luz e foi para a cama.

Estava cansada, tinha que se levantar cedo, mas apesar disso levou muito tempo para adormecer, relembrando tudo o que acontecera naquela noite.  Principalmente tudo o que Fernando lhe dissera e o beijo que mal lhe aflorara os lábios, mas que apesar disso não conseguia esquecer.

E pela primeira vez desde há mais de três anos, esqueceu da sua habitual conversa com o falecido antes de adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Saltou da cama, tomou o duche matinal, vestiu-se, prendeu o magnífico cabelo loiro num carrapito. Não se maquilhou, há anos que não o fazia a não ser para um jantar especial, ou no casamento do irmão, apenas passou um corretor para atenuar as olheiras que denunciavam a noite mal dormida.

Saiu do carro e dirigiu-se à cozinha a fim de preparar os pequenos almoços. Pouco depois os pais juntavam-se-lhe.

Depois de comer um iogurte e engolir uma chávena de café, Laura deixou os pais a comer e foi chamar a filha. Depois foi acordar o filho, vestiu-o, calçou-o, e levou-o para a cozinha a fim de lhe dar a taça de cereais que ele costumava comer de manhã.

Três quartos de hora depois estavam todos prontos para saírem de casa. Laura disse aos filhos que se despedissem dos avós que iam para casa, depois meteu o filho na sua cadeirinha e enquanto Sara se sentava ao lado do seu irmão, Laura abraçava os pais e recomendava ao pai que não exagerasse na velocidade e à mãe que telefonasse assim que chegassem a casa pois ficava em cuidado.

Terminou desejando-lhes boa viagem, entrou no seu carro e acenando um último adeus, pôs o carro em movimento dirigindo-se primeiro à creche para deixar o filho e depois à Escola a fim de deixar a filha. Olhou o relógio. Tinha que abrir a clínica às nove, não sabia se conseguiria chegar a horas. Tudo dependia da intensidade do trânsito. Provavelmente no dia seguinte teria que sair de casa uns dez minutos mais cedo.

20.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XI


Depois Fernando levantou-se e aproximou-se de Laura que se encontrava de costas, olhando através da janela da cozinha.

- É verdade o que a tua mãe disse. Ainda tens as mensagens do teu marido no telemóvel?

-Não. Mas tive-as durante muito tempo e ouvia-as, sim. Ajudaram-me a passar os tempos mais críticos quando me custava a crer que nunca mais o veria. Tu não sabes o que é amar uma pessoa de corpo e alma e de um momento para o outro perdê-la.

- Não, - disse ele com voz rouca, - mas sei o que é amar assim, alguém que nunca me amou. A gente não vive, sobrevive.

E dizendo isto virou-lhe as costas e foi-se embora, deixando-a  sem palavras.

 Laura fechou a porta e regressou à cozinha, pôs a loiça na máquina, e limpou a mesa. De seguida dirigiu-se ao quarto da filha para o limpar, tentando  esquecer-se do que Fernando lhe tinha dito, mas por mais que se ocupasse das tarefas domésticas, não  o conseguiu.

Claro que os pais, principalmente a mãe, também não ajudaram nada. Ela amava os pais, mas estava desejosa de que eles voltassem para casa e a deixassem em paz.

Nunca um dia lhe parecera tão longo. E quando finalmente chegou a hora de se deitar, e se recolheu ao quarto, continuava com mil ideias contraditórias na cabeça.

Tomou banho, vestiu o curto pijama de seda, lavou os dentes e dirigiu-se para o enorme leito onde todas as noites se perdia de saudade. Antes, porém, pegou na moldura com a foto de Nuno que tinha em cima da cómoda e acariciou o seu rosto, enquanto murmurava.

-Sinto-me tão perdida sem ti. Toda a minha família insiste em que te devo esquecer e seguir em frente, procurar um novo amor, dar uma figura masculina ao nosso filho, que não chegaste a conhecer. Sei que o Fernando Novais, aquele nosso amigo de infância, que andava sempre com o meu irmão, me ama, toda a gente o sabe na família, embora eu só o tenha sabido, muitos meses depois da tua partida. Não que mo tenha dito, mas li-o nos seus olhos e por isso o afastei, renunciando a todo o apoio que como psiquiatra me podia dar. Mas agora que o Gonçalo encontrou a mulher da sua vida, casou e foi de lua de mel, pediu-lhe para ele me ajudar com as crianças, vejo-o todos os dias.  

Fez uma pausa enquanto se sentava na cama, com a foto nas mãos e os olhos rasos de água

- A nossa menina, está uma mulherzinha, tão linda e estudiosa que terias orgulho dela. O Miguel é um menino lindo, mas um pouco rebelde. Os meus pais insistem em que ele precisa de uma figura masculina.  E sei que o Fernando seria bom com as crianças, e elas gostam dele. Não quero trair a tua memória, mas não sei que fazer, deixaste-me tão sozinha.

Pousou os lábios delicadamente sobre a foto como se beijasse o rosto do falecido, e de seguida pousou a moldura de novo sobre a cómoda.

Puxou a roupa da cama para trás, deitou-se e apagou a luz.  Já passava da meia-noite e no dia seguinte teria que se levantar cedo para tratar do pequeno almoço das crianças que iam para a escola. Mas não conseguia dormir. Pensava na proposta de emprego do amigo. Sabia que depois que os pais regressassem a Braga e o filho fosse para a creche se ia sentir ainda mais só do que se sentira nos últimos tempos.

6.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XV


O cheiro a café acabado de fazer, acordou Helena. Ficou uns momentos em silêncio, tentando situar-se no dia exato, como quando alguém acorda antes de tempo. Ouviu a voz do filho. A empregada já teria chegado? Não. Era domingo ela tinha o dia livre. 

Logo de seguida ouviu a voz de Fernando. Saltou da cama, e olhou o relógio. Nove horas? Como era possível que tivesse dormido tanto? Vestiu o robe, e foi à casa de banho. Lavou a cara, os dentes, escovou o cabelo, e dirigiu-se à cozinha. 

Sentado à mesa com uma taça de cereais na frente, Diogo, tagarelava com Fernando enquanto ia comendo. Ele escutava a criança com ar divertido, tendo na sua frente um prato vazio e na mão, uma chávena de café. O cabelo húmido e a roupa da véspera, mostravam que já tinha tomado banho.

- Bom dia.
- Bom dia, - responderam em coro. Logo, Fernando  pôs-se de pé e disse:
-Senta-te. Faço-te já umas torradas. O Diogo queria ir acordar-te, mas consegui convencê-lo a ficar comigo. Bebes café, leite, ou as duas coisas?

- Por favor, Fernando, eu trato do meu pequeno-almoço.
- Porquê? Achas que não sei fazer torradas? Devias ter provado uma das que acabei de comer. Deliciosas. Vá lá, senta-te e desfruta das minhas capacidades de cozinheiro. Mas ainda não me respondeste. Café ou leite?
- Café, por favor.
- Mamã, vamos passear hoje? – Interrogou o menino.
-Se comeres tudo, vamos às compras ao Centro Comercial.
- Já estou a acabar. E olha que o tio Fernando, encheu-me a taça. Tu nunca a enches tanto.
- Estás a crescer, campeão. Precisas comer bem, - disse enquanto colocava um prato com duas torradas na frente dela, bem como o recipiente da manteiga e a faca. Virou-se para apanhar a chávena com o café, e por fim sentou-se.

A criança acabou de comer e saiu da mesa. Foi junto dele e perguntou:
- Queres brincar comigo?
Ele estendeu a mão e acariciou-lhe a cabeça. Mas Helena reparou que estava distante.
- Não é a esta hora, que dá aqueles desenhos animados de que gostas tanto, Diogo?
- Vou ver mamã, - disse correndo para a sala, a fim de ligar a televisão.


27.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XI

 



-Porquê, doutora? Porque me trazes para tua casa, e me tratas como se fora alguém da tua família?
- Não sei, - disse sustentando-lhe o olhar. -Talvez porque me sinta responsável por ti, desde que te vi meio morto na estrada, ou porque a época é de fraternidade e me aflige, que não saibas quem és, nem para onde hás de ir. Ou porque sempre me senti, um pouco a Joana D'Arc, e nunca tive oportunidade de o demonstrar. Ou simplesmente,  porque gostaria que alguém me ajudasse se fosse comigo. Mas isso que importa? 

Agora tenho que ir lá acima ao quarto andar, buscar o meu filho, a festa do amigo já terá terminado. Depois acabo de preparar o jantar que na verdade já está feito, é só ligar o forno para o aquecer. Enquanto isso, podes ir para o teu quarto descansar, ou para a sala, tens lá vários livros, ou  se te apetecer, liga a Televisão.

Com os olhos brilhantes de emoção, ele beijou-lhes as mãos e disse:
-És uma mulher incrível, doutora. Oxalá a tua generosidade possa ser recompensada.

 Soltou-a e virou-se para a janela, para esconder dela o desespero que a sua situação lhe provocava.

- Não fiques assim. Tenta relaxar. Quanto mais te esforças, mais frustrado ficas. A tua RM não acusou nenhuma sequela que seja a causa da amnésia. Deves ter tido um choque grande e o teu subconsciente recusa-se a recordar. É como se ele receasse alguma coisa. Quando deixar de recear, recordarás tudo. Agora, vou buscar o Diogo. Deveríamos arranjar-te um nome. Não pudemos dizer-lhe que não te lembras e como te chamas, porque isso iria fazer uma grande confusão, na sua cabeça. Tens predileção por algum?
- Fernando – disse sem pensar, e acrescentou. Foi o primeiro que me ocorreu. Será que é o meu nome?
- Quem sabe? Pode ser. Até já – disse saindo e deixando-o a sós com os fantasmas  que o atormentavam.

Fernando, foi até à sala. Acendeu a luz, e dirigiu-se à estante que ocupava toda uma parede. Muitos livros relacionados com a medicina, diziam bem do interesse da dona da casa. Mas também havia muitos outros. Clássicos da literatura mundial, como Goethe, Balzac, Shakespeare, Dostoiévski, Homero, Dante, Camus, Victor Hugo, Sartre, Ionesco, Steinbeck, entre muitos outros. Mas também os de língua portuguesa, como Camões, Pessoa, Machado de Assis, Jorge Amado, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Virgílio Ferreira, entre um numeroso grupo de bons autores. Escolheu “O Náufrago” de Thomas Bernhard, porque no fundo era assim que ele se sentia. Um náufrago da própria vida.
Sentou-se no sofá e abriu o livro. Mas não teve tempo para iniciar a leitura, porque nesse momento, a porta abriu-se e Helena voltou com o filho.
  



9.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVII

 


No umbral estava um homem mais ou menos da sua estatura, de pele clara, cabelo castanho aloirado, e olhos cinzentos. Vestia umas calças de ganga e um T-shirt imaculadamente branca.

Os dois cumprimentaram-se com um aperto de mão.

-Entra - disse Gonçalo afastando-se para deixar entrar o amigo.

 Fechou a porta ao mesmo tempo que dizia:

-Vamos para a cozinha. Podemos conversar enquanto preparo qualquer coisa para comer. Esqueci-me de jantar. Suponho que tu já jantaste.

- Claro. E tu deves estar pior do que eu pensava para te esqueceres de jantar. Podes começar, que sou todo-ouvidos.

Gonçalo abriu o frigorífico, retirou uma embalagem de queijo, outra de presunto que colocou em cima da mesa. De uma caixa sobre o balcão retirou uma carcaça, abriu-a colocou-lhe dentro uma fatia de presunto e outra de queijo e colocou o pão na tostadeira. Voltou a abrir o frigorífico e tirou um refrigerante.

-Queres tomar alguma coisa? Uma cerveja, ou algo mais forte? – perguntou ao amigo.

- Por agora não. Não me digas que isso vai ser o teu jantar?

-Mais logo, antes de me deitar, como mais qualquer coisa, por agora isto chega, - disse sentando-se à mesa

Fernando não respondeu. Conhecia o amigo desde criança e sabia que alguma coisa tinha acontecido. Alguma coisa que ele tardava a contar o que demonstrava bem como estava perturbado. Paciente esperou que ele desabafasse. Coisa que ele não fez até acabar de comer. Então levantou—se e disse:

-Desculpa ter-te estragado a noite. Dá para perceber que estou meio perdido. Anda vamos para a sala que já te conto tudo. Não queres mesmo tomar nada? -perguntou quando entraram na sala.

A ver o aceno negativo do amigo, esperou que ele se sentasse no sofá e sentou-se no cadeirão em frente. Então Gonçalo começou a falar de todo o desassossego que tomara conta dele desde que duas semanas atrás aquela desconhecida chocara com ele, até aos acontecimentos desse mesmo dia.  Falava baixo, como se estivesse sozinho apenas pensando em voz alta. Fernando não se atreveu a interrompê-lo.

Depois de alguns segundos em silêncio, perguntou:

 - O que pensas disto? O sério e responsável Gonçalo Bacelar, está ou não ficando louco?

- Dizes que a sua presença te perturba, mas, no entanto, isso não te trouxe nenhuma memória dela? O seu rosto não te diz nada?

-Não. Todavia quando ela levantou os olhos para mim naquele dia, foi como se o meu corpo, tivesse sido atravessado por uma descarga elétrica. E hoje? Via-a aflita com a filha e não podia encará-la para que não lesse no meu olhar o desejo que tinha de abraçá-la e consola-la.

-E ela? Parecia---te perturbada?

- Como não? Tu não estarias perturbado, se tivesses um filho doente?

-De certo que sim, mas e no primeiro encontro? Disseste que te pareceu ler surpresa e medo no seu olhar.  Porque ela teria esses sentimentos se não te conhecia de lado nenhum?


27.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE IX


Nessa noite, pegou no último livro de Tomás Reis, "Sonho ao luar," e releu algumas páginas.
Estava quase convencida que tinha descoberto o pseudónimo de Hélder Figueiredo.
Pesquisou o autor, na Internet, mas a única coisa que encontrou, foi o nome dos vários livros, publicados e o nome da editora. Nem uma fotografia, nem a idade, nada que o identificasse. Era muito estranho.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Tomou banho, vestiu -se e foi para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Preocupou-se por não encontrar a avó, que sempre se levantava cedo, e foi ao quarto, onde também a não encontrou. Começava a ficar assustada quando a porta se abriu e a avó entrou com o missal na mão. Tinha ido à missa das sete. Era o dia do aniversário da morte do marido.

Isabel, acabou de fazer as torradas, aqueceu o leite para a avó, e fez um sumo de laranja para ela.
Acabada a refeição deu um beijo na idosa, e saiu apressada, pois faltavam apenas trinta minutos para as nove horas.
Encontrou Hélder com outro homem que lhe apresentou como sendo o seu advogado. Ele estendeu-lhe o contrato que ela leu e assinou. Depois despediu-se e partiu.

- Continuo com o trabalho de ontem? – perguntou quando ficaram sós
- Sim. Preciso desses capítulos acabados. Vou à cidade. Precisa alguma coisa?
- Há pouco papel para impressão.
- Mais alguma coisa?
- Penso que não.

Ele saiu, enquanto ela ligava o computador, a impressora e o gravador, iniciando assim o seu dia de trabalho.
Às onze horas, Antónia, apareceu com um chá e biscoitos.
Porém ela estava demasiado entusiasmada, com o livro, pelo que bebeu apenas o chá e continuou o trabalho.
Quando acabou de imprimir a última folha, desligou o gravador, organizou as folhas imprimidas, furou-as e arquivou-as numa pasta.

Olhou o relógio. Hora de almoço. Desligou o computador. Hélder, ainda não tinha voltado, não podia esperar, ele podia decidir almoçar na cidade 

                                                    

21.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVIII



João dormiu pouco e mal não só porque o sofá era pequeno para o seu tamanho, mas porque levou a noite atento à jovem. Às sete horas levantou-se, foi ao armário buscar as suas roupas e dirigiu-se ao outro quarto para tomar banho e vestir-se.

Voltou ao quarto principal e encontrou Teresa já acordada.

- Bom dia. Vou fazer o pequeno almoço, mas gostaria que me dissesses o que devo fazer para ti.

- Na verdade pensava ir tomar banho primeiro.

- Não acho bem ires tomar banho sozinha. É melhor tomares o pequeno-almoço, estás há muitas horas sem comer. Depois às nove horas quando a Sandra entrar, ela vem para cima e ajuda-te com o banho e com tudo o que precisares. Sandra é a enfermeira. E então, o que te apetece comer?

-  Se tiveres cereais podes preparar-me uma taça, mas primeiro preciso tomar o comprimido do enjoo. Só um quarto de hora depois posso comer – disse abrindo a gaveta e mostrando-lhe a lamela de comprimidos.

Ele foi buscar uma garrafa de água e um copo, e depois que ela tomou o comprimido olhou o relógio.

- Se não precisas de mais nada descansa. Quando forem horas trago-te os cereais.

-Não preciso de nada, obrigado.

Ele saiu e já na cozinha preparou duas sandes mistas, encheu um copo de sumo de fruta e sentou-se a comer.  Quando terminou olhou o relógio e viu que ainda tinha tempo para um café. Depois pegou um tabuleiro colocou-lhe em cima uma taça, juntou a leiteira com o leite bem quente, o pacote de cereais um guardanapo e a colher. Com tudo no tabuleiro voltou ao quarto, e poisou-o em cima da mesa de cabeceira. Logo ajudou-a a sentar-se no leito, arranjando-lhe as almofadas atrás das costas e só depois lhe colocou o tabuleiro no regaço.

- Não preparei os cereais antes de os trazer, porque ficariam moles e suponho que gostes deles estaladiços. Enquanto comes, vou telefonar à minha assistente. Qualquer coisa que precises chama, está bem?

- Desculpa o incómodo, - disse de olhos baixos como se o que ia dizer a envergonhasse - mas podes trazer-me, um balde para aqui? Tenho receio de começar com náuseas e não ter tempo de chegar à casa de banho.

Ele saiu e voltou pouco depois com um balde grande que encontrara na arrecadação do material de limpeza.

- É muito grande, mas foi o único que encontrei. Quando a Sandra vier,  verá o que podes precisar e manda comprar, se não houver lá em baixo na enfermaria. Agora se me dás licença vou telefonar à Olga.

Já no escritório pegou no telefone e depois de saudar a sua assistente pediu.

- Liga para o posto médico e diz à Sandra para vir ter contigo. E quando ela aí chegar venham as duas para cima.

- Aconteceu alguma coisa? Estás doente?

- Não. Mas por favor, faz o que te peço e venham o mais rápido possível. 

Desligou o telemóvel e os seus olhos caíram sobre o envelope fechado em cima da secretária. Pensou que tinha que o ler, mas de momento não tinha serenidade para isso. Abriu a gaveta e guardou-o de novo.

 

3.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE I



A manhã ainda não tinha alvorecido no horizonte quando Teresa se levantou. Enfiou um robe e foi à cozinha onde pôs duas fatias de pão na torradeira, tirou do frigorífico duas laranjas e preparou um sumo. Saboreou o pequeno almoço com gosto.  Quando terminou, lavou o prato e o copo e foi para a casa de banho.
Escovou os dentes, prendeu os seus longos cabelos castanhos no alto da cabeça, cobriu-os com uma touca, despiu-se e entrou no duche. Quando terminou enrolou ao corpo uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta da cómoda, donde tirou um conjunto de roupa interior de algodão aos quadrados.
Retirou a toalha do corpo e vestiu-o. Olhou-se ao espelho. Não eram peças finas, de seda e rendas, mas ajustavam-se-lhe perfeitamente ao corpo, eram cómodas, e isso era o que lhe importava, não pretendia seduzir ninguém. Vestiu umas calças de ganga, e um camiseiro branco. Tirou a touca, desprendeu o cabelo, escovou-o e prendeu-o numa trança. Calçou uns ténis brancos, puxou a roupa da cama para trás, e abriu um pouco a janela a fim de arejar o quarto, saindo em seguida.
Na cozinha, pegou nas chaves da casa, e no telemóvel que meteu no bolso das calças e abrindo a porta que dava para as traseiras, saiu. Contornou a habitação, uma casa térrea, pintada de branco como quase todas as outras da aldeia, passou pela porta principal e seguiu em direção ao fundo da rua.
O sol apenas despontava no horizonte, mas ali acordava-se cedo. A maioria dos homens, já se encontrava nos terrenos, cavando ou regando, que Junho estava no fim, e era necessário aproveitar aquelas horas, já que pelo meio-dia, o calor começava a apertar e de tarde era impossível fazer trabalhos ao ar livre.
- Bom dia Teresa! – saudou uma mulher que dava milho às galinhas no seu quintal.
- Bom dia, dona Arminda. Como vai a senhora?
- Como Deus quer, filha, como Deus quer. Sempre com o coração apertado com muitas saudades da minha Lena, mas que fazer? Deus quis assim, há que aceitar, a Sua vontade!
- É a vida dona Arminda. Cada um procura o sítio onde pode ter melhor vida. O que interessa é que ela e a família estejam bem. E não tarda chega Agosto e estão aí todos para matar saudades. Vou andando. Até logo
- Vai com Deus - respondeu a mulher
 Teresa continuou o seu caminho. Ao chegar ao fundo da rua, a principal da aldeia, virou à esquerda, e entrou num pedaço de terreno onde pontuavam apenas meia dúzia de oliveiras, e a erva crescia solta, por todo o terreno  que se estendia até ao ribeiro, onde tantas vezes em menina se banhara nos dias de maior canícula.
Ao chegar ao leito do mesmo, agora quase seco devido ao calor intenso que se fizera sentir durante todo o mês, sentou-se numa pedra e olhou ao seu redor. Na sua frente do outro lado do ribeiro, para lá dos campos de milho, erguiam-se as montanhas. Atrás de si, o campo inculto que atravessara, e que lhe pertencia, destoava dos campos de outros vizinhos, todos cultivados com os mais diversos legumes, que o cercavam.
-Bom dia, Teresa! Por cá de novo?
Levantou a cabeça. Ali perto um homem de cabelos brancos com umas quantas cebolas numa mão e o boné na outra, os pequenos olhos meio escondidos entre as rugas, mirava-a.

27.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XI




No dia seguinte, à noite. Sandra estava sentada no sofá, as pernas debaixo do corpo, coberto por um robe de seda azul-celeste. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, e olhava sem ver  a televisão, na qual passava um filme. Ouviu ao longe um som de campainha, mas absorta nos seus pensamentos, nem se apercebeu de que não era no filme, já que a TV estava sem som.
A campainha voltou a tocar, desta vez, mais insistente, e ela pôs-se de pé, e descalça dirigiu-se à porta. Abriu-a um pouco sem tirar a corrente, e arregalou os olhos de espanto ao ver Gabriel do outro lado. Voltou a fechar a porta, tirou a corrente e então abriu-a.
- Boa-noite – saudou ele.
- Boa-noite, - respondeu sem atinar com o motivo daquela visita
- Posso entrar? Preciso falar contigo.
Sem responder, ela afastou-se para o deixar passar, fechou a porta e dirigiu-se para a sala.
 - Desculpa, sei que é tarde, mas como disse preciso falar contigo.Liguei-te algumas vezes mas não atendeste, e temos de conversar.
Olhou-a da cabeça aos pés. Onde tinha ficado a mulher rebelde, bela e sensual que ele vira no dia anterior na pista de dança? A mulher que estava na sua frente,  parecia uma miúda perdida e sem proteção.
 Sentiu um desejo estranho de a abraçar, de lhe dar a proteção que ela precisava, mas não se atreveu sequer a estender a mão para lhe tocar. Cerrou os olhos, confuso. Que raio se estava a passar com ele?
- Deve estar no silêncio, não esperava ligações. Quer tomar alguma coisa? Não tenho bebidas alcoólicas, mas um café ou chá, posso fazer num minuto.
-Aceito um café, obrigado.
- Vou buscar.
Afastou-se em direção à cozinha. Ele recostou-se no sofá e cerrou os olhos. Sentia-se bem ali. A sala era pequena, mas confortável, e tinha um não sei quê de lar que lhe agradou. Minutos depois, ela voltou com uma bandeja onde fumegava uma chávena do aromático café, e um açucareiro. Sem usar o açúcar, ele agarrou na chávena.
- Não me acompanhas?
- Nunca bebo café à noite.
Decorreram uns minutos em silêncio. Depois ele perguntou:
- Foste ver o teu pai?
- Fui.
- E como estava?
- Como queria que estivesse? Cada dia mais desmoralizado, - disse sem evitar que uma lágrima lhe rolasse pela face.
- Olha, é por isso que vim. Falei com o Pedro, um amigo meu, que é investigador da Judiciária. Ele diz que oficialmente não pode fazer nada, houve uma investigação e uma acusação, o julgamento foi feito a sentença está a ser cumprida. Para reabrir o processo seria necessária uma nova prova, ou um indício muito forte de erro judiciário.
- Eu sei. Foi o que me disse o advogado.
- Mas o meu amigo, está disposto a ajudar-nos, embora não de forma oficial, sob uma condição.
Ela levantou para ele os seus belos olhos verdes, num olhar interrogativo, mas não fez perguntas.
- Ele está livre amanhã. Quer conhecer-te, falar contigo. Só depois decide se nos vai ajudar ou não. Penso que ele precisa ter a certeza de que tu estás certa da inocência do teu pai, não sei. Sei que foi a condição que impôs. Achas que nos podemos encontrar, com ele, por exemplo às dezasseis horas?
- Sim, claro que sim? Onde?
- Ainda não pensei. Ele sugeriu um local sossegado, onde pudéssemos falar à vontade.
- Aqui?
-Não, aqui não, - respondeu rapidamente sem nem mesmo pensar, porque lhe repugnava a ideia de levar outro homem para a casa dela.  Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vou pensar e telefono-te amanhã perto do meio-dia. Vai descansar. 
E saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a atordoada. Que se passaria com ele? Será que tinha mesmo acreditado na inocência do pai e ia ajudá-la?
Ou era uma manobra para afastar de si as suspeitas? Não sabia o que pensar mas uma coisa tinha ficado clara. Ele não iria despedi-la. E isso dava-lhe uma certa tranquilidade.


26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia? 

12.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVIII



Luísa acordou com a cabeça pesada. Dormira pouco e mal, preocupada com o desconhecido, levantando-se algumas vezes durante a noite para verificar o seu estado.
Saltou da cama, tomou um duche vestiu-se e foi à cozinha, precisava de uma dose de cafeína que a despertasse por completo. Depois iria ver como estava o doente. O doutor Fonseca dissera que voltava de manhã e decerto o faria antes de ir para o seu consultório.
Fez um café bem forte e bebeu-o deliciada. Nada na vida lhe dava mais prazer do que um café bem forte pela manhã. Especialmente quando se levantava com dores de cabeça, como era o caso.
Depois foi ao quarto ver como estava o doente. Encontrou-o muito melhor e a querer levantar-se. Era como se com a transpiração que tivera de noite, tivesse expulsado a doença. Pôs-lhe o termómetro e verificou que não tinha febre.
- Graças a Deus está bem melhor. Pregou-me um susto. Mas não se vai levantar enquanto o doutor Fonseca não vier vê-lo, vou preparar-lhe o pequeno almoço para que possa tomar a medicação.
Torradas e café, ou prefere outra coisa?
- Uma torrada está bem. Na verdade, não sinto fome.
- Teve febre alta, é normal que não lhe apeteça comer, mas precisa fazer um esforço. Daqui a pouco o doutor Fonseca está aí e fica zangado se eu lhe disser que não comeu.
Com efeito pouco passava das nove e meia quando o doutor chegou. Depois de um cuidadoso exame ao doente disse:
- Meu amigo, estou francamente admirado. Nunca vi um doente no seu estado que tivesse recuperado antes de três a cinco dias. Estou em crer que o meu primeiro diagnóstico estava incorreto. Apesar dos seus sintomas serem em tudo semelhantes aos de uma gripe, o problema seria antes um resfriado, agravado pelo stress emocional da perda de memória. Só assim se explica o desaparecimento de todos os sintomas em tão curto espaço de tempo.
- Quer dizer que não corro perigo se sair desta cama?
- Talvez. Mas diga-me, continua sem se lembrar de nada?
- Nada, doutor. É como se uma borracha tivesse apagado toda a minha memória.
-E dores de cabeça, náuseas, tonturas, visão dupla. Sentiu?
- Dores de cabeça, ontem até meio da noite. Hoje já não.
- Muito bem. O período mais perigoso para um possível traumatismo craniano já passou, mas até que faça as 72 horas, quero que avise imediatamente a Luísa, se sentir algum desses sintomas. Entretanto pode levantar-se e fazer a sua vida normal. Continue a medicação mais um dia, por precaução. 
O homem esboçou um esgar trocista. Ele sabia lá o que era a sua vida normal. Ele nem sequer sabia qual era o seu nome!
- E continuo a pensar que devia ir ao hospital, e fazer alguns exames para tentar descobrir o que lhe provocou essa amnésia - disse o clínico ao despedir-se.
Saiu, e ele levantou-se em seguida. Precisava com urgência de um bom duche que lhe tirasse do corpo aquele cheiro a suor, que parecia ter-se entranhado na pele. Ouviu que o médico falava com a dona da casa. Ela não era uma grande beleza, mas o seu rosto redondo, os cálidos e expressivos olhos castanhos, a boca bem desenhada, o nariz ligeiramente arrebitado, o corpo pequeno, mas bem proporcionado tornavam-na uma mulher bonita e interessante. Todavia, não era apenas o aspeto físico que a tornavam tão atrativa. Era qualquer coisa de sublime, que transparecia no seu olhar e que ele não sabia identificar, mas que sentia, lhe ia direto ao coração.