22.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE I


-Entre.
A porta abriu-se e a mulher que se encontrava de costas, junto à janela voltou-se e encaminhou-se para a secretária.
Cumprimentou o homem que acabara de entrar, e indicou-lhe uma cadeira. Passou a mão pela testa e perguntou:
- Então? Descobriu-o?
O homem, de meia-idade, baixo e calvo, apresentava-se bem vestido, mas parecia incomodado, como se não estivesse habituado a andar de fato e gravata em pleno mês de Julho.
- Sim. Segundo os meus contatos, o nosso homem encontra-se hospedado em Moçambique. Contactei a nossa embaixada, e tenho aqui todos os dados. Está numa Missão em Nampula. Tenho aqui todos os possíveis contatos, morada e telefone da Missão, bem como da Arquidiocese de Nampula, a que a Missão está subordinada, disse estendendo-lhe algumas folhas de papel.
-Muito bem. Por agora é tudo. No escritório dar-lhe-ão o cheque com os seus honorários. Entrarei em contacto consigo se voltar a precisar dos seus serviços.
Ele levantou-se e estendeu-lhe a mão, que ela apertou dando a reunião por terminada.
O homem saiu fechando a porta atrás de si. A mulher, jovem e bonita, vestia um fato de calça e casaco cinza, e prendia os cabelos escuros num coque no alto da cabeça. O seu rosto de traços suaves, tinha no momento um ar crispado, como se estivesse profundamente irritada, ou sob uma grande pressão.
Pegou nas folhas que o detetive deixara sobre a secretária e deixou-se cair na secretária, com um profundo suspiro.
Estendeu a mão e colocando os óculos leu as folhas. Quando acabou recolocou os óculos em cima da secretária, e premiu uma campainha.
Ouviu-se uma leve batida na porta e de seguida ela abriu-se para deixar passar Madalena, a sua secretária. A jovem estendeu-lhe a folha de papel.
- Veja se consegue entrar em contacto com essa Missão. Quando o conseguir passe-me a chamada. Se não o conseguir até à hora de saída, tente de novo amanhã. Preciso de entrar em contacto com alguém de lá com urgência.
- Vou já tratar disso, - disse a empregada


20.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXXI




Levantou o rosto e mergulhou o olhar naqueles olhos cinzentos que tanto a impressionaram desde o primeiro dia. E durante uns momentos permaneceu assim, lendo nos seus olhos a sinceridade do que lhe tinha contado. Por fim, aninhou-se nos braços dele.
Segurando-lhe o rosto ele disse:
-Tenho uma proposta para te fazer.
- Para passar as férias convosco?
- Não. A proposta é, aceitas casar comigo, sabendo que te ofereço de prenda de noivado, uma filha? 
-Preciso tempo para pensar, -disse brincando, para esconder a intensa emoção que se apoderou dela.
- Dez segundos chegam? – Perguntou ele, entrando no jogo.
Não esperou por resposta. Apertando-a contra si, disse, desta vez muito sério.
- Quero que fiques comigo e com a Matilde, o resto da minha vida, mas não como ama. Quero que sejas parte das nossas vidas, que sejas minha mulher, minha amante, minha companheira. Amo-te Beatriz, e vou amar-te todos os dias da minha vida. Prometo-te.
Ela não conseguia falar. Estava afogada pela emoção. Apoiou a cabeça no seu peito e chorou
-Não chores, querida. Não há razão para isso. – Murmurou-lhe ao ouvido
-Eu sei. Mas é que me sinto muito feliz.
-E choras sempre que estás feliz? -Perguntou soltando-lhe o cabelo.
- Não sei. Já não me lembro desde quando não me sentia tão feliz, -declarou com seriedade
César pensou que ela não devia ter sido feliz no anterior casamento. Mas não fez perguntas. Limitou-se a abraçá-la e a beijá-la com paixão.
Beatriz não se retraiu. Retribuiu o beijo de igual para igual, com toda a sua energia e necessidade, apertando o seu corpo contra o dele, de tal modo, que se o desejo fosse pássaro, sairia voando pela sala, tal como voaram as suas roupas, na ânsia de apagar o fogo que os devorava, ali mesmo no sofá da sala. Mais tarde, apaziguado o corpo, aquietado o coração, Beatriz pensava que César tinha chegado até ao mais íntimo do seu ser. Com a sua ternura, com o seu ardor, a sua vontade de lhe dar prazer. Cada carícia, cada toque dos seus lábios, ficara gravada a fogo no seu corpo e na sua alma. Ela tinha sido casada durante quase três anos, e só agora sabia verdadeiramente o que era fazer amor. Pensou que se Jorge fizesse amor com ela, daquela maneira, ter-se-ia sentido destroçada com a sua morte.
- Em que pensas? - Perguntou ele, acariciando-lhe o rosto
- No que aconteceu. César, não pensas que sou uma mulher fácil, pois não?
- Porque havia de pensar isso, Beatriz? És uma mulher jovem, saudável,  é natural que tenhas desejos como eu, ou qualquer outra pessoa. Se te julgasse uma mulher fácil, não me teria apaixonado nem iria casar contigo.
Fez uma breve pausa, durante a qual não deixou de olhá-la nem por um segundo. Depois continuou:
 Quero que saibas, que ficaria aqui contigo o resto do dia, mas minha querida, antes de vir, contei à minha família, que te amava, e vinha tentar convencer-te a casares comigo. E prometi-lhes que te ia levar para jantar.

Epílogo


Casaram no final do ano, na presença de todos os familiares.
Meses antes, César tinha conhecido Clara e Nuno. E não pôde deixar de sorrir, quando a jovem lhe disse, que sempre acreditou, que só se ele fosse cego, não se apaixonaria por Beatriz. E logo ali combinaram que ela e o marido seriam os padrinhos da noiva na cerimonia. Depois, durante as férias, estiveram em Lagos, onde César conheceu os futuros sogros. Ele gostou da afabilidade, com que os receberam, e eles ficaram encantados com a pequena Matilde, e trataram-na como se fossem os seus verdadeiros avós. E agora ali estavam, ele no altar, e a jovem caminhando para ele, pelo braço do pai. E era evidente a felicidade dos noivos, bem como da pequena Matilde, radiante no longo vestido rosa, muito compenetrada no seu papel de menina das alianças.

Fim


Elvira Carvalho

Esta estória termina aqui. Mas não fiquem tristes. Está a sair da forja um Jogo Perigoso, que espero vos agrade. A partir do dia 22



19.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXX


A mulher continuava em coma. Já tinham passado dez dias e os médicos continuavam com prognóstico reservado. Era como se a mulher, não sentisse vontade de viver, e o seu subconsciente, não soubesse se devia partir ou ficar. 
O homem sentiu que alguma coisa se fragmentava no seu peito, com a ideia de que ela se deixasse ir. Sentiu que se tal acontecesse, o remorso ia persegui-lo toda a vida. E então fez aquilo que o seu coração lhe ordenava. Pegou-lhe na mão e suplicou:
- Volta! Não te deixes ir. Por favor, preciso que voltes!
Assustado consigo mesmo e com o que sentia, saiu dali jurando não voltar. Não entendia o que se passava com ele, não achava normal, aquela obsessão por uma mulher, que não lhe saía da cabeça, ao ponto de relegar a memória da falecida esposa. Tentou concentrar-se na sua vida e no sofrimento da sua filha, mas uma semana depois não resistiu a telefonar para o hospital e sentiu uma estranha alegria, quando lhe disseram que aquela jovem tinha saído do coma e que estava a recuperar. 
Convencido que o seu desejo de saber que estava bem, era apenas a vontade de libertar o remorso, pelo seu desejo inicial de vingança, pôs um ponto final naquela estória e dedicou-se de corpo e alma ao trabalho e à filha, que teve de tirar do infantário, pois com a morte da mãe, ela regredira imenso, tinha começado com pesadelos, voltara a fazer xixi na cama, fazia grandes birras e no infantário tornou-se agressiva com os coleguinhas. Com a ajuda da avó a criança ficou um pouco mais calma, mas os pesadelos persistiam.
O homem, quase tinha conseguido esquecer a imagem daquela mulher, quando uma das suas empregadas se despediu e ele pediu ao centro de emprego, candidatas para a substituição. E adivinha quem era, a primeira candidata a aparecer para a vaga.  Ele ficou impressionado. Como era possível, que entre centenas de mulheres inscritas no Centro de Emprego, logo lhe tinham mandado aquela?
Seria obra do destino? Ele não sabia. Mas vê-la ali, na sua frente, despoletou nele um imenso desejo de a conhecer melhor. Saber que tipo de pessoa era na realidade.  A avó da menina, esperava outros netos e tinha de se ausentar em breve. Ofereceu-lhe o lugar de ama da sua filha. Um mês decorrido a menina, deixara de ter pesadelos, e estava de novo feliz. E ele descobriu que ela era uma mulher maravilhosa e apaixonou-se por ela.
As lágrimas rolavam silenciosas pela face de Beatriz. A vida tem estórias que o mais louco dos romancistas não se atreveria a escrever.
Ele abraçou-a com carinho. Com os lábios secou as suas lágrimas, como se ela fosse uma criança.
- Pára de fugir e de te sentires culpada! Primeiro, porque não eras tu quem conduzia o carro naquele dia fatídico, segundo, porque perdeste infinitamente mais do que eu. Os caminhos do destino são sem dúvida misteriosos e eu acredito que os nossos tinham que se encontrar, para seguirem juntos daqui para a frente.


OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIX


-Senta-te. Vou contar-te uma estória. Outrora dois jovens, enamoraram-se e casaram. Ela era professora, ele publicitário. Ele era jovem e estava muito apaixonado. Ela tinha dois amores. Estava tão apaixonada por ele, como pela sua carreira. E a vida de professora não é fácil no nosso país. Durante anos foi colocada em escolas longe de casa, passava a semana toda fora, só vinha a casa aos fins-de-semana, ou de quinze em quinze dias. Ele sentia a solidão, desiludia-se, não era aquela a vida com que tinha sonhado. O amor arrefecia e começava a questionar-se. Não estava preparado para viver uma vida inteira assim. Então decidiu que era tempo de discutir a relação e decidir o futuro. Conversaram, ele não queria continuar a viver daquela maneira, impôs condições, e ela compreendeu as suas razões. Deixou o ensino oficial, e aceitou ser professora no ensino particular num colégio perto de casa. Pouco tempo depois ficou grávida. Teve uma menina. Durante quase dois anos esteve sem trabalhar, mas não era a mesma. Definhava dia a dia. Ela não sabia viver longe das aulas e do ensino. Penso que se tivesse de escolher entre a profissão e o casamento, optaria pela profissão. Procurou um infantário para deixar a filha e retornou à escola. Naquele fatídico dia de Dezembro, ela vinha de uma reunião por causa das notas, do primeiro período quando foi abalroada por um carro em alta velocidade, e contramão. Teve morte imediata. O marido ficou doido de dor e raiva. Procurou saber quem tinha provocado o acidente, jurou vingança. Soube que o condutor do outro carro morrera igualmente no local. Mas ele não ia sozinho. Ia uma mulher com ele. Cheio de ódio, o homem procurou essa mulher. Só pensava em vingança. Foi ao hospital, fez-se passar por irmão dela, conseguiu informações. Disseram-lhe que chegara em perigo de vida com uma hemorragia interna, que tinha perdido o bebé, que  fora submetida a uma cirurgia de urgência, estava em coma e com prognóstico reservado. Atendendo ao facto de ter dito que era irmão dela, deixaram-no vê-la por breves minutos. A visão do sofrimento daquela mulher, de rosto lívido, o cabelo espalhado na almofada, os cateteres, a sonda, a máquina de suporte de vida, toda aquela parafernália de tubos que a envolviam, aplacou a raiva do homem. Saiu dali desorientado, sentindo-se um monstro. O que tinha pensado era uma insanidade. Aquela mulher perdera, além do marido, um filho, e podia até morrer. Pensou, que tamanho teria o seu sofrimento se perdesse a sua filha e a raiva que o consumira, transformou-se em compaixão. Decidiu esquecer a mulher, dedicar-se à filha, tocar a vida para a frente.  Porém nos dias que se seguiram, não conseguia apagar da memória a visão dela abandonada e exangue no leito do hospital. Por isso uns dias depois voltou lá.
 Calou-se por momentos. Ela olhava-o espantada. Não conseguia articular palavra.


18.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVIII







Sonhava que estava casada com César e estavam de férias os três, num local paradisíaco, onde César a fizera sentir-se mulher, em toda a plenitude da sua paixão. Acordou sobressaltada com a certeza de que estava irremediavelmente apaixonada. 
Tentando esquecer passara a manhã, nas limpezas. Depois tomara banho e almoçara. Arrumara a cozinha, e preparava-se para ir passar a ferro, a roupa da semana, quando a campainha tocou. Perguntou quem era. A resposta deixou-a desconcertada. Olhou para si. Tinha vestido umas calças de ganga justas, e um top azul sem mangas. O cabelo comprido, apanhado no alto da cabeça, e os pés descalços. Adorava andar descalça, e em casa durante o tempo quente, andava sempre assim. Não estava propriamente vestida para receber visitas, mas não podia deixá-los à espera enquanto se arranjava. Abriu a porta e ficou surpresa. Não esperava encontrar César sozinho.
-Olá. Posso entrar?
- E a Matilde?
-Ficou em casa da tia com os primos e a avó. Tenho que ir buscá-la para me deixares entrar?
- Entra – disse desviando-se para ele passar, - pensei que vinham os dois.
- Não me atendeste o telefone ontem. Disse-te que tínhamos de falar, e parece que não me levaste a sério. E como precisamos fazê-lo, prefiro assim, tu e eu sem interrupções.
Não respondeu. Voltou-lhe as costas e entrou na sala. Foi até à janela. Não queria olhar para ele. Tinha a certeza que estaria mais corada que pimentão maduro. Disse:
-Não há o que falar. Tu e eu, não temos nada em comum, a não ser o facto de sermos os dois viúvos, e o amor que temos pela Matilde.
Aproximou-se dela, rodeou-lhe a cintura e fez com que se virasse. Os olhos cinzentos mergulharam nos dela.
-És capaz de repetir isso, olhando-me assim? É claro que não, - disse quando ela desviou o olhar. Sei que te sentes tão atraída por mim, como eu por ti.
- Atração, não é amor. Os desejos do corpo, não são sentimentos. E não se pode pensar numa vida em comum baseado nisso.
- É claro que não. Mas a atração e o desejo, fazem parte do amor que sinto por ti.
-Não acredito, que se esqueça um grande amor, em tão pouco tempo. Berta, disse que amavas muito a tua mulher.
-É verdade. Amava, no passado. Laura está morta e o passado, enterrado com ela. Resta uma terna recordação, que me vai acompanhar toda a vida. E uma filha que muito amo. Tu e eu estamos vivos.
Inclinou-se para a beijar. E estava quase a fazê-lo quando ela colocou a mão espalmada entre os dois e disse quase num sussurro.
- Não pode ser! Eu sou culpada da morte dela!
E sem se poder conter, escondeu o rosto entre as mãos e deu livre curso às lágrimas.
O homem não pareceu surpreendido. Esperou em silêncio que se acalmasse. Depois pegou-lhe na mão e puxou-a para o sofá.



Quero agradecer a todos os amigos que vieram ao Sexta durante a minha ausência. Que acompanharam esta estória embora alguns já  se mostrem cansados, pelo que ver se me lembro de deixar as próximas estórias mais curtas. De qualquer modo a história está quase a acabar, estando prometida para amanhã uma surpresa.
Mais uma vez  Muito obrigada a todos


17.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVII




Quase nem jantara. Não conseguia pensar noutra coisa, que não na conversa dessa tarde. Há seis meses atrás quando saíra do hospital, era capaz de jurar, que não queria saber de homens nem de relacionamentos amorosos, nos próximos anos. Três meses depois, conheceu César e a menina. E naqueles três meses as barreiras foram caindo. E não podia ser. É verdade, que a simpatia dele, a gentileza com que a tratava, a confiança que punha nela, foi calando fundo no seu coração. Que já se surpreendera a pensar que pareciam uma família, e como seria bom se isso fosse realidade. Mas não sonhava que ele estivesse interessado nela. E francamente custava-lhe a crer, no contrário. Se era apaixonado pela mulher, e se o acidente fora pouco antes do Natal…
Não podia ser. O mais certo, era ter pensado, que dado o carinho que ela e a filha partilhavam, seria a pessoa certa para fazer o papel de mãe da menina.
Mas isso não chegava para um casamento feliz. E ela já tinha a sua quota de experiência, num casamento falhado.
Tão perdida estava nos seus pensamentos que se assustou com o toque do telemóvel. Era a mãe.
- Olá mãe. Aconteceu alguma coisa?
- Saudades, filha. Eu sei que estás a trabalhar há poucos meses, não terás férias este ano, mas não podias vir passar connosco um fim-de-semana?
- Não sei, mãe, talvez consiga ir uns dias em Agosto. Para a semana digo-te alguma coisa. Dá um beijo ao pai, por mim.
Desligou. Ainda tinha o aparelho na mão, quando tocou de novo. Nem queria acreditar. César? Nunca lhe ligara, sem ser quando estava com a menina.  Não atendeu. Falariam na Segunda-feira. Tinha que ordenar os seus pensamentos, analisar sentimentos. E depois? Dependendo do que decidisse teria que lhe contar quem ela era. Não podia, nem queria ter tal segredo a vida toda. Nunca seria feliz. Porque a vida havia de ser tão complicada? Porque tinha que arranjar trabalho exatamente naquela família? E porque é que ele havia de ser tão interessante? Talvez devesse despedir-se. Mas o pensamento de deixar Matilde, era insuportável. Era como se perdesse de novo o filho. Clara tinha razão. Ela bem que a avisara, que estava a transferir para Matilde, o amor que não pudera dar ao bebé.
Doía-lhe a cabeça de tanto pensar.




Mais logo estarei de volta se Deus quiser, e hoje mesmo visitarei as "vossas casas" 
Agradeço do coração, a todos os que tenham passado por aqui, nestes dias da minha ausência.

16.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVI






Os três dias passaram sem nada de relevante, a não ser a secreta alegria que Beatriz sentiu quando ele regressou. E Julho terminou, numa Sexta-feira, e nessa noite César disse-lhe para ficar mais um pouco precisavam conversar.
- Consegui entregar, o último trabalho que tinha para este mês. Em Agosto vou fechar a agência, e vou de férias. Gostaria muito que viesses connosco, a Matilde gosta muito de ti, vai sentir a tua falta. E …eu também, - concluiu com um entoação que a fez enrubescer até à raiz do cabelo.
Engoliu em seco. Não podia. Cada dia se sentia mais atraída por ele, e viam-se tão pouco, como podia passar um mês na sua companhia?  Sem deixar de a olhar, como se exigisse nesse olhar uma resposta, aproximou-se dela.
- Podemos contar contigo?
- Será uma mudança do meu local de trabalho ?- Perguntou tentando impôr distâncias.
-Tens alguém que o impeça? Um namorado? – Perguntou ele, como se não tivesse percebido.
- Não. Sou viúva!
Não mostrou qualquer surpresa. Como se o soubesse. Ela não lhe tinha dito. E o cartão de cidadão não faz referência ao estado civil. Teria mandado alguém investigá-la? Decerto que sim. Era lógico, doutra forma como se explicaria que confiasse tanto nela? 
- E então? Os dois somos maiores, não temos ninguém a quem prestar contas. Deves ter reparado que me sinto atraído por ti. Vocês, mulheres, percebem isso. A minha filha já te conquistou. Será que me vais dar oportunidade de fazer o mesmo?
Aquilo era uma declaração? Se não era, parecia. Sentiu que lhe faltava o chão.
- Não pode ser. Não pode haver nada entre nós…
- Porquê? Há alguma razão lógica para isso?
Tinha levantado um pouco a voz, e Matilde que brincava com o seu ursinho, veio agarrar-se às calças do pai.
- Por favor César, não é o local nem a hora para esta conversa. Está na hora da Matilde jantar. E também se está a fazer tarde para mim.
Ele pegou na menina ao colo.
- Porque não jantas connosco? Continuamos esta conversa depois. É importante. Depois chamo um táxi para te levar a casa.
-Não. Falamos na Segunda.
E pegando na mala saiu apressada, como se fugisse dos seus próprios sentimentos.



15.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXV



Eram dezassete horas, quando chegaram ao apartamento de Beatriz. Matilde mostrava-se muito admirada, como se nunca tivesse passado pela sua cabeça, que a ama também tinha uma casa.
A jovem procurou no guarda fato, uma pequena mala, onde colocou algumas peças de roupa, o secador de cabelo e os artigos básicos de higiene. Depois, para satisfazer a curiosidade da menina mostrou-lhe a casa. Desculpou-se com o não se lembrar onde tinha a chave, para não lhe mostrar o quarto do bebé, que mantinha fechado desde que saíra do hospital. Não queria ouvir as perguntas da criança, nem ter de lhe dar explicações.
Eram quase vinte horas, quando César telefonou.
Quis saber se estava tudo bem, e ela respondeu que sim e disse que ia passar o telefone à menina.
Não ouvia o que o pai lhe dizia, mas ouvia a menina falar dela, e sem saber porquê sentiu-se incomodada.
Que se passava com ela? Porque é que ultimamente pensava tanto nele? Não podia estar a interessar-se por ele, conhecia-o há menos de três meses. Certo que foram meses em que se viram todos os dias. Mas quase não se falavam. Tudo o que ela sabia sobre ele, fora Berta que lhe contara. Por ela soubera que ele sofrera um grande desgosto com a morte da mulher. Deviam amar-se muito, por isso era normal que não procurasse outro relacionamento. Sorriu ao lembrar o que Clara lhe tinha dito numa conversa anterior “mulher, vocês estão no mesmo barco. Deviam remar juntos.” No mesmo barco estariam, mas não pelo mesmo motivo. Ele estaria por recordação a um grande amor, ela estava por desilusão. Nunca remariam para o mesmo lado.
- Bia, o pai quer falar contigo – disse a menina estendendo-lhe o telefone
- Estou…
Silêncio. Será que ele tinha desligado? Repetiu:
- Estou…
- Sim, tinha deixado de ouvir, julguei que a chamada tinha caído. Ligo amanhã antes de me ir encontrar com o cliente. E quero agradecer-te. Obrigado … Bia.
E desligou, deixando-a a olhar o telefone como se ele fosse um bicho raro. Bia? Porque é que a  chamara assim? Certo que a menina, a tratava por Bia desde a primeira semana. Mas ele? E agradecera-lhe. Que raio havia para agradecer? Ficar com a menina? Estava no contrato. Cuidar bem dela? Era a sua obrigação. Se ele soubesse, que ela estava implicada no acidente que o privara da mulher…


14.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIV


Passou todo o dia a pensar nele. Havia pouco mais de dois meses que tinha começado a cuidar de Matilde. Cuidava dela, com todo o carinho, não só porque gostava muito de crianças, e tinha acabado de perder um filho, como porque desde que tivera a certeza de que a mãe dela morrera naquele fatal acidente provocado pelo marido, indiretamente se sentia culpada da orfandade da menina.
O pai, era um homem bonito, simpático, mas para ela era o patrão, e não podia pensar nele de outro modo.
Por outro lado, ela não pensava em qualquer homem como possível companheiro, a experiência com o casamento anterior, não lhe deixara desejos de repetir a dose. Tinha ficado vacinada.
Contudo sentia que havia qualquer coisa estranha entre ela e César. Ela não sabia exatamente o quê, mas sentia-o. Era como uma estranha energia que a  atraía para ele.  Talvez fosse a maneira como ele a olhava, como se houvesse uma dúvida permanente, entre a confiança com que tinha posto a sua casa e a sua filha, aos cuidados dela, e alguma coisa que ele temia, ou se recusava a aceitar. 
Como eram quase dez horas quando César se despediu da filha, nesse dia não houve passeio com a criança, tendo ficado a manhã confinada às habituais brincadeiras no jardim. Depois do almoço, e enquanto Matilde dormia a sesta telefonou à amiga.
Contou-lhe a novidade.
-Quer dizer que vais ficar aí três dias? Sem ires a casa?
-Não. Quando a Matilde acordar, depois do lanche, levo-a a passear, e vamos a casa. Preciso trazer roupas, e alguns artigos de higiene.
- Começas por levar algumas coisas e acabas por te mudar para aí.
- Não sejas tonta. Foi uma regra que aceitei, e que está no contrato.
- Não te amofines, estava a brincar. E ele? Tudo na mesma? Não arranjou namorada?
- Como queres que saiba? Sou apenas uma empregada.
- Uma empregada especial. Essa estória de te entregar a casa e a filha… será um teste?
- Já me estou a arrepender de te ter telefonado. Estás impossível hoje!
-Pronto, não digo mais nada. Mas posso pensar, não? Olha, vou fechar a loja uns dias em Agosto. Todos os anos nessa altura, é uma pasmaceira, ninguém compra nada, a loja só não leva o dia entregue às moscas, porque eu e o Nuno, estamos cá. Penso ir para Lagos. Olha, depois falamos, tenho agora aqui uma cliente.
-Vende muito. Adeus

13.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIII


Um mês depois, a rotina estava instalada naquela casa e nos hábitos de Beatriz e de Matilde.
Obtida a autorização para sair com a menina dos limites casa-jardim, e aproveitando os dias de imenso calor que se faziam sentir, naquele mês de Julho, a jovem preparava um lanche e todos os dias saíam de casa pouco depois das nove e regressavam perto do meio-dia.
Iam ao parque, ou à praia, ao jardim zoológico, onde a criança adorava ver os animais, e onde foram várias vezes, visitando o jardim por fases, pois o tempo diário de que dispunham, era manifestamente insuficiente para ver o zoo.
Matilde parecia outra menina, estava alegre, e muito mais descontraída que há dois meses atrás quando Beatriz a conheceu.
Com o pai da menina, não tinha voltado a conversar, viam-se todos os dias, mas pouco mais falavam do que uma banal saudação.
Decerto a filha lhe contaria o que faziam ou por onde andavam, mas a Beatriz ele não fazia perguntas, e ela agia com a menina exatamente como agiria se  fosse sua filha.
Naquela manhã César, disse-lhe que precisavam conversar, e encaminhou-se para o escritório. Ela seguiu-o deixando Matilde com a cozinheira.
- Sente-se Beatriz. Chamei-a porque estou com um problema. Preciso viajar, e a minha irmã nega-se a deixar a minha mãe vir tomar conta da Beatriz. Não sei se sabe, ela teve gémeos, e está muito nervosa, diz que não consegue tratar dos filhos, sozinha. Sei que lhe falei na possibilidade de ter que ficar algum dia com ela de noite, e me disse que não havia problema. Mas não é uma noite. Serão duas, ou talvez três. 
- Não tem problema, eu fico com ela. Se o senhor confia em mim, ao ponto de deixar a sua casa e a sua filha à minha guarda, eu garanto que cuidarei delas como se minhas fossem.
Ele voltou a olhá-la daquele modo indefinido que a deixava perplexa. Depois disse:
- Se eu te confio a minha casa e a minha filha, não achas esquisito o  nosso tratamento cerimonioso. Trata-me por César. – E reparando no ar renitente da jovem acrescentou, - por favor.
- Como queiras, - respondeu.
- Vou preparar a mala. Ainda vou ao escritório assinar uns documentos e parto de seguida. Depois de amanhã à tarde, estarei de volta se tudo correr bem.



12.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO -PARTE XXII


Saía do duche quando o telemóvel tocou. Enrolou o corpo num toalhão, colocou uma toalha à volta da cabeça, em forma de turbante e preparava-se para ir atender quando o aparelho deixou de tocar.
Passou um creme hidratante no corpo e vestiu um pijama, composto de calção e top. Depois ligou o secador, e dedicou-se a secar o cabelo. Tinha cabelo comprido, forte e negro, que ultimamente, por causa do emprego, e também porque estava muito calor, usava sempre entrançado.
Tendo terminado, pegou no telemóvel para ver quem lhe ligara. Clara. Tinha ficado de lhe ligar na véspera e como saíra mais tarde, esquecera. Fez a ligação. Atendeu ao primeiro toque.
-Olá. Já ia ligar-te de novo.
-Desculpa não ter atendido. Estava no banho.
- Ficaste de ligar ontem e não o fizeste. E agora não atendeste. Já estava a ficar preocupada. Está tudo bem?
- Está. Ontem saí já depois das nove, o patrão saiu mais tarde para acabar um trabalho.
-O patrão faz serão e tu é que sais mais tarde? – Ironizou a amiga.
- Não sejas tonta. Sabes bem que só saio quando ele chega. Não posso deixar a menina sozinha.
- Estou preocupada contigo. Estás a apegar-te demasiado a essa criança. Eu sei, que devido aos acontecimentos anteriores, era previsível, mas receio que vás sofrer muito quando se separarem. Já pensaste que de um momento para o outro, ele pode decidir pô-la numa creche?
- Não me parece que o faça tão cedo.
- Mais uma razão. Quanto mais tempo, estiveres com ela, mais te vai custar depois. Os homens não ficam muito tempo sozinhos, especialmente quando têm filhos. Ele já demonstrou interesse por ti?
- Claro que não. Estás doida?
- Não sei porquê. És jovem, bonita, educada. E se ele não se apaixonar por ti, apaixonar-se-á por outra qualquer.  Quando menos esperares aparece com uma namorada. E achas que alguma vai aceitar uma mulher como tu perto do homem que ela quer? Arranja logo maneira de pôr a menina na creche e correr contigo.
-Não façamos conjeturas sobre o futuro; como diz meu pai, o que for há-de soar.
- Tenho medo por ti amiga. Já sofreste o suficiente com tudo o que te aconteceu. Mas deixemos isso. Conto contigo no sábado. Vamos até à Caparica. Há quase um mês que não te vemos.
- Sábado?
- Sim. E nem penses arranjar desculpa, ou vou aí buscar-te.
-Está bem. Mas basta ires buscar-me a Cacilhas. Mando-te uma mensagem quando estiver no barco.


11.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXI





Fez o jantar enquanto Matilde dormia. Depois, da sesta, lancharam e durante mais de uma hora brincaram como se fossem duas crianças. À apanhada e às escondidas. Às seis horas, acabaram as brincadeiras, fez um sumo de fruta para a menina, que não quisera fruta ao lanche, deu-lhe banho, e estava a vestir-lhe o pijama quando Cesar chegou. Surpreendeu-se. Ainda não eram sete horas, e não ouvira o carro.
Abraçou e beijou a filha, ouviu o relato das brincadeiras que tinham tido, e depois disse-lhe:
- Agora vai brincar um pouquinho com os teus bonecos que o pai precisa falar com a Beatriz.
- Acabei mais cedo hoje o trabalho. Reitero os meus parabéns pelo trabalho que está a fazer com a minha filha. A Matilde, está mais alegre, deixou de ter pesadelos, e já não chora de noite, nem chama pela mãe.
- Não é minha intenção fazer com que esqueça a mãe.
- Acredito. 
-Peço-lhe que pense no que lhe disse, sobre ela precisar de estar com outras crianças. É muito importante para um correto desenvolvimento da sua personalidade.
-Se é melhor para ela, pode fazê-lo. Na verdade, ela já esteve num infantário. Minha mulher era professora, não podia cuidar dela, e nunca quis uma ama, pois também pensava que a menina precisava conviver com outras crianças. Mas quando ela morreu, a Matilde não entendeu a ausência da mãe, chamava por ela a toda a hora, só queria ir dormir, se a mãe lhe fosse contar a estória, fazia grandes birras, não queria ir à creche, tornou-se agressiva com as outras crianças. Estava desesperado, pedi ajuda à minha mãe, que se mudou para cá para me apoiar. E deixou o infantário. Mas um dia, quando for mais velha, e tiver superado completamente esta fase, vai voltar para lá.
Sentiu um aperto no peito. Adorava aquela menina. Não sabia se por se sentir indiretamente responsável pela sua orfandade, se porque transferiu para ela, o amor pelo filho que não chegou a nascer. Pensar que um dia, talvez não muito distante, se separaria dela, era algo insuportável.
César perscrutava o seu rosto. Viu a sombra que perpassava o olhar feminino, o rosto que empalidecia, os lábios trementes. O rosto dela, era como um espelho, onde se refletiam todas as emoções. Ele sabia como ela se tinha apegado à menina. E sabia porquê. Sabia muito mais dela, do que aquilo que ela poderia imaginar.
O silêncio que se seguiu, foi quebrado pela voz da menina:
- Bia, tenho fome!
- Vamos jantar, filha, - disse ele, pegando na menina ao colo. - Está na hora da Beatriz sair. A menos que queira jantar connosco claro.
- De modo algum. Preciso fazer umas compras- apressou-se a dizer.
Aproximou-se para beijar a menina, sentindo-se intimidada com a proximidade ao corpo masculino.


10.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XX


Como sempre que Matilde ouvia o carro do pai, saiu disparada para a porta, para o receber. Era notório que pai e filha se adoravam.
Beatriz ficou à porta vendo como eles se abraçavam. Depois César, iniciou a subida dos cinco degraus com a menina ao colo e o olhar fixo nela. Não era a primeira vez que a jovem notava o olhar intenso do homem fixo em si. 
Apressou-se a ir para a cozinha a fim de ir buscar a refeição. Era a primeira vez que o fazia, habitualmente era Berta quem o servia.
- Tomei a liberdade de confeccionar uma salada fria, já que hoje está muito calor. Espero que goste.
- Já almoçou?
- Almoço sempre com a Matilde. Crianças na idade dela precisam a aprender a comer novos alimentos, e o maior incentivo para experimentarem, é ver outras pessoas comendo. Se precisar de alguma coisa, estou na cozinha.
Saiu deixando a menina na sala com o pai. Meia hora mais tarde, voltou para a buscar. Estava na hora da sesta e o sono já se fazia sentir.
Reparou que o patrão comia com aparente gosto e sem saber porquê sentiu-se feliz.
Deitou a menina, e ficou no quarto contando-lhe uma estória até que ela adormeceu. Não esperava encontrar César na cozinha e surpreendeu-se.
- Já levantei a mesa. Vou tirar um café. Aceita um? – Disse ele.
- Sim. Obrigado.
Ele meteu a cápsula na máquina, tirou o café e perguntou:
-Com ou sem açúcar?
- Sem, por favor.
Pousou a chávena na mesa, e voltou-se para tirar outro café.
Com a mão a tremer, Beatriz pegou na chávena. Sentia-se intimidada. Sentia-se sempre assim perto dele. Sentia-se observada. E não conseguia decifrar o olhar masculino. Porque é que não se ia embora? Não tinha imenso trabalho na agência?
Ele acabou de beber o café e pousou a chávena no balcão. Por momentos pareceu que ia dizer qualquer coisa, mas avançou para a porta e disse simplesmente:
- Até logo!


9.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XIX



Havia várias embalagens de carne e peixe no congelador. Retirou dois peitos de frango que descongelou no micro-ondas, e temperou, pensando fazer uma salada de frango. A criança gostava de frango e numa salada podia incluir os vários elementos essenciais à sua alimentação, além de ser uma comida fresca, dado que o dia estava infernalmente quente. Além disso era colorida, o que também sempre atrai as crianças. E uma gelatina de morango para sobremesa.
Fez a gelatina, que pôs no frigorifico, e temperou a carne.
Enquanto esta tomava o gosto dos temperos, pôs um chapéu na cabeça da menina, e saíram para o jardim, a fim de que aproveitasse o baloiço, enquanto a sombra da casa o protegia dos raios intensos.
Por uma hora brincaram ao ar livre, até que o sol começou a chegar aquela zona, e Beatriz deu a brincadeira por finda. Em casa, lavou-lhe as mãos e a cara para a refrescar, fez-lhe ingerir água e foi buscar as pedras do lego para que se entretivesse, enquanto ela preparava o almoço, pois embora César só chegasse mais tarde, a menina estava habituada a comer ao meio-dia. E já eram onze horas.
Grelhou os peitos de frango e preparou uma salada com massa, legumes cozidos, e ovos, juntou-lhe pepino e pão torrado em pequenos cubos, e alface cortada em juliana, e pepino em finas rodelas. Por fim temperou com azeite e iogurte, e pôs a mesa para ela e para a menina.
Receou que Matilde pudesse rejeitar a comida, as crianças geralmente não gostam muito de legumes, mas era essencial que os comesse.  
Talvez pelo colorido do prato, ou por ser novidade a criança comeu bem todos os ingredientes, exceto a alface e o pepino. Beatriz não se preocupou, com o tempo habituar-se-ia a eles. 
Dava o almoço à menina, ao mesmo tempo que ela própria, ia comendo,  fazendo questão de que ela visse que gostava da comida, dizendo-lhe como estava saborosa,  incentivando-a a assim a comer. 
Terminada a refeição, pôs a mesa na sala, e esperou o patrão chegar para temperar a salada dele, acrescentando um pouco de sal, pimenta, e sumo de limão, antes de servir.



Estarei ausente, a partir de hoje e até ao próximo dia 17. Esta estória, continuará a sair todos os dias, pois está programada para isso, mas não conseguirei retribuir as visitas. Peço-vos que me desculpem. Grande abraço para todos.


8.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XVIII




Tinha o corpo dorido, das voltas que dera na cama, atormentada pela descoberta da tarde anterior. Tomou um duche rápido, que a revigorou um pouco, secou a farta cabeleira, que entrançou como fazia habitualmente desde que saíra do hospital. Vestiu umas calças justas de ganga preta e uma blusa creme sem mangas, escolheu umas sandálias de meio salto, confortáveis para quem está calçada o dia inteiro, e para correr, nas brincadeiras com Matilde. Não usava maquilhagem. Apenas um creme de proteção solar e nada mais. Eram sete e meia, tinha o tempo exato para fazer o pequeno-almoço, duas torradas e um copo de leite quente, comer e apanhar o autocarro para chegar ao emprego, antes das nove. Era a sua rotina desde há três semanas.
Aquele era o último dia de Junho, o Verão fazia-se sentir em todo o seu esplendor.
 A garota acordava cedo, por norma quando ela e Berta chegavam, já andava correndo pela casa, e às vezes até já encontravam o pai, a dar-lhe a papa de cereais. Mal elas chegavam, ele ia para o escritório, e havia dias, quando Berta chegava uns minutos antes, que ela só o via à noite.
Naquele dia porém, Berta ainda não tinha chegado, ele preparava-se para fazer a papa de cereais, e parecia, aborrecido.
-Bom dia, -saudou
- Bom dia, - respondeu ele. - Ainda bem que chegou. A Berta tinha-me avisado que hoje não podia vir trabalhar e eu esqueci completamente. Consegue desenvencilhar-se sozinha? Terá que cozinhar para as duas, eu almoço por lá, perto da agência.
- Não se preocupe. Não serei tão boa cozinheira como a Berta, mas não morreremos de fome. E não precisa almoçar fora, tanto mais que a Matilde está habituada a vê-lo ao almoço.
- Faria isso? – Perguntou cravando nelas os seus olhos cinzentos.
- Sem problemas, - respondeu sorrindo
- Então deixo-as sós, tenho imenso trabalho.
Inclinou-se para beijar a filha, e saiu.
Beatriz acabou de preparar a papa para a menina, pôs-lhe o babete, deu-lhe a colher e sentou-se a seu lado, incentivando-a a comer, ao mesmo tempo que lhe contava uma história. Há quinze dias atrás, era preciso dar-lhe a papa. Ia fazer três anos, era uma boa idade para aprender a comer sozinha. Pelo menos a papa e as sopas. Em breve aprenderia as outras coisas.
Depois da papa, lavou-a e vestiu-a e deu-lhe um livro de colorir e os lápis de cores. Matilde adorava pintar e ela ficava livre para arrumar o quarto e ver o que havia no frigorífico que pudesse utilizar para o almoço.


7.5.17

DIA DA MÃE


A todas as mulheres do mundo, que sendo Mães, souberam dignificar essa sagrada missão.  Que deixam pelo caminho sonhos por realizar, para realizarem os daqueles a quem deram a vida, esquecendo-se que para além de mães, também são mulheres.Que tanta vez escondem as suas lágrimas, para verem os seus filhos sorrirem.  Que tanta vez se não deitam, para velar o sono dos seus filhos, eu deixo um E-N-O-R-M-E OBRIGADO.  E o desejo de um dia feliz.

6.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XVII






Já tinha dado o lanche a Matilde, e dedicavam-se a uns jogos didáticos, quando o telemóvel tocou. Era César, avisando que tinha surgido um imprevisto, ia chegar mais tarde, se ela podia ficar com a filha. Claro que sim, isso estava no contrato, mas ainda que não estivesse, não deixaria a criança sozinha.
Mais tarde, deu banho à menina, deu-lhe o jantar, e quando viu que ela estava com sono, deitou-a. Contou-lhe uma estória, mas ela caiu no sono logo às primeiras palavras. Aconchegou-lhe a roupa, deu-lhe um beijo, e saiu.
Foi à cozinha, e preparou uma refeição leve pois já passava muito da sua hora de jantar, e o estômago começava a mostrar-se impaciente.
Tinha acabado de comer quando César chegou. Desculpou-se pela hora, agradeceu-lhe o ter ficado e convidou-a a repartir o jantar que Berta deixara para ele. Ela disse que acabara de comer duas torradas e um chá e que não queria mais nada. Informou que a menina tinha adormecido há quarenta   minutos, pegou na mala e no casaco para sair, mas César disse-lhe que acabara de chamar um táxi, era melhor esperar um pouco.
-Aproveito para lhe dar os parabéns pelo trabalho que está fazendo com a minha filha. Ela está entusiasmada consigo e está diferente, mais alegre, e mais interessada.
- É uma menina muito inteligente, aprende com grande facilidade e é muito meiga. Não custa nada cuidar dela. No entanto penso que lhe falta a convivência com outras crianças. Gostaria de levá-la a passear ao parque público. Sei que tem no jardim, um baloiço e um escorrega, mas faltam-lhe outras crianças da idade dela.
- Mas aqui perto não há nenhum.
- Eu sei. Mas há transportes. As crianças nestas idades, entusiasmam-se com os transportes. O senhor é o pai, é quem decide, mas as crianças não devem ser criadas como flores de estufa, que morrem quando saem para o ar livre.
César olhava-a fixamente, e ela incapaz de decifrar aquele olhar, sentiu-se incomodada.
O táxi chegou nesse momento, e ela aproveitou para se despedir.



Esta estória interromper-se-à amanhã, para uma homenagem às mães.

5.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XVI



Três semanas depois, Beatriz ganhara a confiança e o carinho da menina, e cada dia estavam mais unidas. Também ganhara a confiança de Berta, que a tratava com simpatia e amabilidade. Ao contrário do que pensara, quando soube que Berta estava há mais de trinta anos ao serviço da família, esta não vivia lá em casa. Era casada, tinha filhos e netos. Entrava todos os dias às nove horas e saía a meio da tarde, deixando já o jantar pronto. Às sextas-feiras, vinham duas empregadas de uma empresa de limpezas, que faziam uma limpeza geral á casa. Durante o tempo que Matilde fazia a sesta, Beatriz entretinha-se cuidando de pequenas coisas da casa, como se fosse a sua casa. Não que tivesse que o fazer, mas porque não gostava de estar parada, e cuidar de uma casa fora coisa que sempre fizera desde que casara. Também decidira diversificar a ementa. Para isso perguntara à cozinheira, quem decidia as refeições. Ela informara que quando a senhora era viva, decidia todos os dias o que seriam as refeições. Depois que morrera, o “menino” não se preocupava com isso e ela cozinhava dentro daquilo que sabia que ele gostava.
Beatriz aproveitou para saber do que morrera a senhora e ficou pálida quando Berta lhe contou que fora num acidente.
Sentiu um baque no peito. No dia da entrevista, César dissera que a mulher morrera havia pouco tempo. No acidente em que estivera envolvida, o ocupante do outro carro era uma mulher, e morrera, deixando órfã, um criança de poucos anos.  Não podia ser. O destino não ia ser tão cruel com ela, que a colocasse exatamente na casa da mulher a quem causaram a morte.
Não podia ficar naquela dúvida. Tinha que saber. Apavorada perguntou, quando e onde fora o acidente. E a resposta foi exatamente aquela que o seu coração já adivinhara. Sem se poder conter, deixou que as lágrimas deslizassem pela face pálida.
Berta ficou aflita. Não entendia a reação da jovem, por uma pessoa que nem conhecera. Sabia que havia gente muito sensível, e Beatriz devia ser uma dessas pessoas de extrema sensibilidade. Apressou-se a fazer-lhe um chá de tília, que ela bebeu tentando acalmar-se.
-Bia, - chamou Matilde que entretanto acordara.
Levantou-se rapidamente, passou o lenço pelos olhos e dirigiu-se ao quarto da menina. Agora sentia-se ainda mais responsável por ela.


4.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XV





Cerca das dezasseis telefonou a Clara.
- Então? – Perguntou a amiga, quando atendeu
- Então o quê, mulher desconfiada, - riu Beatriz
- Vá lá conta-me tudo. Ou queres matar-me de curiosidade?
- Já tenho emprego, começo amanhã, vou ser assim uma espécie de ama e educadora de uma menina linda, numa casa que me pareceu bem bonita. Hoje almocei lá, conheci a avó paterna da menina, e a cozinheira da casa.
- Sim. E o pai da criança?
- O que é que tem o pai dela?
- Pode não ter nada, ou ter tudo. De manhã disseste que era viúvo. É assim, estilo ator de cinema, ou tipo trolha?
Beatriz soltou uma gargalhada.
- Tu és impossível. Sabes que não reparei bem nele? É alto, moreno, corpo atlético. Cabelos pretos e olhos cinzentos.
- E não reparaste nele? Então não me contes nada, quando reparares, não se dê o caso de me dar alguma coisinha má, -disse rindo.
A jovem não susteve outra gargalhada.
- Duas gargalhadas dessas em tão pouco tempo. Pareces mesmo muito feliz. Há muito tempo que não te ouvia rir.
-É claro que estou. Adoro crianças, e aquela é linda. O salário é muito bom. E saio desta inatividade cheia de más recordações.
-Certo. E folgas?
- Sábados e Domingos. A não ser que o patrão esteja em viagem.
Nesse caso ficarei com a menina.
- E viaja muito?
- Como queres que saiba? Só sei que essa cláusula está no contrato. Antes de desligar, devo dizer-te que as tuas desconfianças me fizeram recear e desconfiar quando o automóvel rodou para a periferia da cidade. E afinal , não havia razão para isso.
- Ainda bem amiga. Mas era meu dever alertar-te. Mais vale prevenir…
- Bom, tenho que desligar, preciso ir fazer umas compras. Beijo
- Vai dando notícias. Beijo.
Desligou, pôs o telemóvel na bolsa, abriu uma gaveta da cozinha de onde retirou um saco de plástico cuidadosamente dobrado que meteu na bolsa, verificou o dinheiro que tinha na carteira, vestiu o casaco e dirigiu-se ao supermercado. Precisava abastecer-se de algumas coisas, pois não sabia quantos dias iria jantar em casa.
Voltou para casa, arrumou as compras e ligou à mãe para lhe contar as últimas novidades. 
Findo o telefonema, aqueceu no micro-ondas um resto de comida da véspera e jantou.