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11.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE IV



Antes da partida, sabendo que não teria dinheiro para alugar uma casa na cidade onde as rendas eram caríssimas, e viver até conseguir um emprego, procurou na Internet algum anúncio que lhe permitisse ter um local para viver sem gastar muito, enquanto procurava emprego e a agência não conseguia vender a casa.

Acabou por ter sorte ao encontrar um anúncio de um casal idoso, que ofereciam um quarto, em troca de pequenos serviços como acompanhá-los ao médico, ir ao supermercado fazer as compras, ir à farmácia etc.

Telefonou para casa do casal, e depois de uns minutos de conversa, combinou uma ida lá a casa, pois a senhora não se queria comprometer sem conhecê-la pessoalmente e ter algum tipo de referência.  Na aldeia toda a gente a conhecia, assim Anabela falou com o padre, seu confessor desde criança e ele escreveu-lhe uma carta de recomendação para o casal. Com ela na mão apanhou o comboio para a cidade e dirigiu-se à casa, uma moradia nos arredores, onde teve uma longa conversa com a senhora que ficou muito impressionada depois de ler a carta do pároco e a aceitou.

Depois de combinarem todos os pormenores, voltou à terra fez a mala, entregou as chaves de casa na agência, despediu-se do padre e de duas jovens amigas com quem tinha frequentado a escola, primeiro na aldeia, depois na vila até terminarem o secundário. Fora uma amizade de anos, mas sempre souberam que em breve se separariam, mesmo que a “avó” Arminda não tivesse falecido, pois Olga e Olívia iam para a Universidade em Coimbra para continuarem os estudos e ela iria procurar um emprego na vila, que a tornasse menos “pesada” para a idosa. Despediram-se, pois, prometendo manter contacto, mas as três sabiam que as vidas diferentes que levariam daí para a frente, fatalmente acabaria por as afastar.

Nos primeiros dias em casa do casal, Anabela tentou conhecer as suas rotinas e suas necessidades de modo a organizar o tempo para que pudesse dirigir-se ao Centro de Emprego e inscrever-se. Também soube que o supermercado local, aceitava jovens para trabalhos temporários aos fins de semana e assim foi lá e preencheu os impressos para se candidatar.

Durante dez meses Anabela dividiu o seu tempo entre acompanhar o casal ao centro médico ou às compras e em fazer alguns trabalhos de limpeza mais pesados, (que verdade seja dita, dona Ema, a idosa, gostava de ser ela a cuidar da casa,) os trabalhos de fins de semana no supermercado, e os cursos no Centro de Emprego. A casa na aldeia ainda não fora vendida e Anabela acreditava que dificilmente o seria, ninguém queria ir viver para um sítio, onde não haviam outros meios de sobrevivência, que o trabalho agrícola. Ela sabia que a única hipótese de venda seria para algum emigrante, que terminada a sua vida profissional quisesse voltar à terra onde nascera.

Se ela tivesse dinheiro suficiente, talvez investisse no turismo rural. A casa era grande e de boa construção além do espaço enorme que tinha nas traseiras que podia ser aproveitado para duas ou três cabanas individuais. O clima era ótimo e a serra e o rio a poucos metros de distância, proporcionavam bons e agradáveis passeios. Mas para isso era preciso muito dinheiro que ela não tinha.

E com este pensamento finalmente adormeceu.

 



18.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE I




Bom, não sei quando terei uma nova história para vos apresentar, dado o estado dos meus olhos, além de outros problemas, como o provocado pelo antibiótico para a infeção urinária que me vai obrigar a procurar hoje mesmo nova ajuda médica e o tempo limitado que posso estar no pc. De modo que vem aí uma outra história das mais antigas. Os leitores de 2016 recordar-se-ão dela, embora haja na história pequenas alterações. Porém os leitores mais recentes, não a conhecem até porque foi uma das que acabei por apagar pouco tempo depois da sua publicação. É uma historia pequenina apenas 7 episódios.



                                                         I
A noite estava muito fria. Era inverno. Lá fora a temperatura devia rondar os zero graus. A um canto junto à janela, a braseira aquecia a sala. As janelas de vidro, estavam abertas, contrariamente às persianas corridas que apenas deixavam passar uma nesga de ar gelado, contudo necessário para a renovação de ar, por causa da braseira acesa.

 Na sala um casal via televisão. A mulher de cabelos grisalhos, e olhar parado, brincava com os dedos como se neles tivesse um qualquer objeto, que mexia e remexia.  Devia ter uns setenta anos, era de baixa estatura, e figura roliça. O rosto ostentava ainda restos do que teria sido um rosto senão belo, pelo menos muito gracioso. Os olhos que teriam sido brilhantes e vivos, eram verdes, como dois 
lagos de águas paradas.

Junto dela, o homem ligeiramente mais velho, alto e magro, calvo, de olhos escuros e barba grisalha. A televisão transmitia um programa de variedades, mas o casal parecia nem dar por isso. O homem olhava a mulher com um misto de amor e piedade. Parecia estar pendente dela, enquanto ela se mostrava totalmente ausente.


Ele conhecera-a nos bancos da escola. Foi a sua primeira e única namorada. Porque fora a única mulher que ele amara na vida, além da sua mãe. Casaram-se muito jovens. Ele estava na tropa em Leiria, quando soube que tinha sido destacado para a guerra nas colónias. Foi um choque, e resolveram casar à pressa, porque ele tinha medo de morrer, sem viver o amor que sentia por ela.

 Tinha vinte e um anos, ela acabara de fazer dezoito.

Dois dias depois de casados, ele voltou ao quartel donde só saiu na hora do embarque com destino a Angola.

Chegou a Luanda num longínquo dia de Março de mil novecentos e sessenta e quatro. Depois de dois dias na cidade, que mal deram para umas cervejas no famoso café Rialto e um passeio pela ilha, lá foi com o destacamento para as margens do Lungué-Bungo, no leste de Angola, e por lá ficou vinte e seis meses, apenas com um mês de férias ao fim de um ano.


Como ele gostaria de ter vindo  à metrópole nesse mês, rever a terra, os amigos, e principalmente a sua amada Alzira. Infelizmente o dinheiro não abundava e teve que se contentar com uma ida até ao Luso, (a cidade mais próxima, do acampamento, embora ficasse a quase 200 quilómetros ), duas ou três idas ao cinema e uns copos com outros camaradas também de férias.

Às vezes sentia a tentação de se deitar com alguma das belas mulatas que viviam perto do acampamento.
Afogar nuns momentos de prazer, as saudades de casa, os medos das emboscadas, a dor da perda de algum companheiro menos afortunado.
Porém, lembrava-se da esposa, e embora não tivesse pretensões de santidade, pensava que umas horas de prazer com uma desconhecida, não substituiriam o amor, nem mitigariam a saudade que tinha, da mulher que amava.

E o desejo, não era mais forte do que ele, que moldara a sua força na anterior vida de pescador, em bravas lutas com mares encapelados...


23.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXV




Dias depois, Quim foi convocado pelo advogado dos tios para a leitura do testamento. Os tios tinham-lhe deixado tudo. A sua casa, o restaurante e um bom dinheiro. Excetuando uma pequena quantia que destinaram à empregada, e uma cláusula em que determinava que eles deveriam continuar  a mantê-la na casa, já que era quase como família.
O casal, mudou-se então para a casa, que fora dos tios, por cima do restaurante. Quim continuou a ser o chefe, Sofia, tratava de todos os assuntos relativos à gerência. O negócio ia bem, a conta bancária aumentava. Três anos depois, nasceu a  pequena Catarina. E quando esta estava prestes a completar um ano, aconteceu em Portugal, a tantas vezes sonhada revolução, que depôs o regime fascista e colonialista. Era Abril, os cravos floriram e com eles a libertação de um povo, martirizado pela fome e pela guerra.  As imagens correram mundo, e eles viram-nas pela televisão e renovaram as esperanças de poderem voltar a Portugal.
Se a guerra colonial acabasse, Quim podia voltar.  Era o sonho comum do casal. Voltar à terra que os vira nascer, rever parentes e amigos. E então aconteceu. A independência das colonias tornou-se irreversível, mas a paz tão sonhada não. Angola, Moçambique e Guiné, as três maiores colónias, tinham vários movimentos de libertação, e todos queriam o mesmo. Ser o seu movimento aquele que assumiria o poder, e isso teve como consequência que a guerra recrudesceu, levando os muitos portugueses lá residentes a fugiram para Portugal. Mais de meio milhão de portugueses, muitos deles nascidos naquelas possessões africanas, chegaram a Portugal, sem emprego, sem dinheiro, sem outros bens, que não a própria vida. Enquanto o governo procurava dar resposta, aquela avalanche de gente, a precisar de pão, roupas, casa, enfim do básico para sobreviver, alguns acolhiam-se ao abrigo de familiares, ou com algum sacrifício, emigravam para outros países, certos que estavam de não terem futuro em Portugal.  
Quim e Sofia, que na altura planeavam vender a casa e o restaurante, e regressar à terra que os vira nascer, e onde tinham os seus familiares, no intuito de se estabelecerem na terra-mãe, receando que a conjuntura do país naquele momento difícil, não lhes fosse favorável, adiaram  a decisão.
Porém poucos meses depois, Sofia voltou a ficar grávida, e eles ficaram sem outra opção. Se queriam realizar o sonho do regresso, era aquela a ocasião. Quim e Sofia, não queriam que o nascimento do novo bebé ocorresse em França.  Acreditavam que os filhos, iam crescer e sentir que a França era a sua terra, o seu país. Mais velhos, não quereriam ir viver para uma terra que embora fosse a dos seus pais, eles não conheciam, nem sentiam como sua. E os pais, fatalmente iriam ficar onde os filhos estivessem. Por isso era urgente o regresso. Venderam tudo, transferiram para Portugal o seu dinheiro e os três acompanhados de Idalina, a empregada, chegaram à aldeia no mês de Agosto do ano da graça de mil novecentos e setenta e seis.


E continua...

 

19.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIII




Nos primeiros dias de Janeiro, a tia Délia sofreu um  ataque cardíaco, que foi a machadada final na sua frágil saúde. Faleceu no mesmo dia.
Sofia, desdobrou-se no apoio ao marido e ao tio, que estava inconsolável. O restaurante foi fechado durante uns dias, e quando reabriu, Sofia que continuava desempregada começou por dar uma ajuda, na contabilidade, já que o tio não saía de casa e definhava dia a dia, mas acabou por assumir toda a parte de gerência do mesmo. Um mês depois, o tio não suportando mais a ausência da mulher que amara, partiu também. Foi mais um rude golpe para Quim. E mais uma vez a mulher esteve a seu lado, como um forte pilar de apoio.

Foi nessa altura, depois do funeral do tio, depois da demonstração de um momento de fraqueza e vulnerabilidade de Quim, que eles se tornaram verdadeiramente um casal. Foi amor? Ela não sabia. Da parte dela, sim, conhecia os seus sentimentos, há muito tempo estava apaixonada pelo marido. Da parte dele, não sabia. Talvez não passasse da necessidade de mitigar a dor da perda daqueles que amara como pais. Talvez fosse um desejo instintivo, próprio de homem, por uma mulher jovem e bonita, que afinal até era sua esposa.

Sofia não sabia. E para ser verdadeira consigo mesmo, nem lhe importava. Tinha vinte anos, viviam na mesma casa há quase cinco meses. Certo que ele lhe tinha confessado amar outra mulher. Que lhe tinha pedido paciência. Mas ela reconhecia que não era muito paciente. Talvez mais tarde se arrependesse, mas naquele momento entregava-se de corpo e alma compensando com amor, a inexperiência que recorria do facto de ser virgem.

Na manhã seguinte, quando acordou, Quim já se tinha levantado. Sentiu-se um pouco desiludida. Tinha sido a primeira noite que dormira com o marido, teria gostado de acordar com ele a seu lado. Encontrou-o na cozinha, e saudou-o envergonhada pela recordação da noite anterior.
-Bom dia.
- Bom dia, Sofia. Acabei de preparar o pequeno almoço, ia levar-to agora -  disse colocando-lhe a bandeja na mesa à sua frente. E acrescentou: - Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem à noite.
Estava muito sério. Ela sentiu-se gelar. Primeiro acordava sozinha. Depois aquele ar sério do marido. Pensou que ele estava arrependido. Sentiu que alguma coisa se rompia dentro dela. Ia rejeitá-la.

Afinal, casara com ela por causa dos tios, e agora que eles tinham morrido, não havia necessidade de continuar aquela farsa. Pedia o divórcio, e podia enfim, voltar para a sua "boneca". E ela feita estúpida, entregara-se de corpo e alma, sonhando com o seu amor. 
Incapaz de conter a dor que sentia, abriu as comportas do rio interior em que a sua alma naufragava e começou a chorar.





31.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVII

 




Um mês mais tarde, o “casal” tinha adquirido rotinas e viviam aparentemente felizes. Sofia estava empregada numa loja de moda, ia para o emprego e regressava de metro, jantava no restaurante e aguardava pelo marido para regressarem a casa. Passavam os sábados juntos, já que o restaurante encerrava nesse dia, e ela só trabalhava até à uma. Depois do almoço, davam uma volta pela cidade, e às vezes pelos arredores. 

Quim era um homem culto e um excelente guia e ela gostava de o ouvir. Jantavam em casa. E depois do jantar, iam ao cinema, ao teatro, ou simplesmente ficavam em casa, vendo televisão e conversando.
Ao domingo o restaurante estava aberto, ele ia trabalhar. Ela levantava-se cedo, tratava das tarefas da casa, ia à missa, almoçava no restaurante e passava parte da tarde com a tia Délia.

A tia era simpática e  boa conversadora e Sofia tinha-se afeiçoado a ela.
Pena que cada vez se encontrasse mais debilitada.
Jantava com os tios e só descia à hora que o marido costumava sair. E seguiam juntos para casa.

Decorrido esse mês, Sofia estava completamente apaixonada pelo marido. Cada dia o admirava mais, gostava da paciência com que lhe explicava coisas, que ela nunca entendera, como a politica por exemplo. Tinha aprendido mais com ele naquele mês, do que na sua vida inteira. Sentia-se fascinada pela mentalidade do marido, tão diferente da dos homens da sua aldeia. E cada dia era maior o seu desejo de que ele reparasse nela como mulher.

Por essa altura, conheceu a mulher por quem ele se apaixonara. Encontraram-se num sábado, quando passeavam pelas margens do Sena. Ela estava sentada num café quando os vira. Levantou-se e dirigiu-se a eles. Era uma bela mulher, pequena, de aspeto delicado, tez branca e cabelos loiros. A sensação que Sofia teve foi de que se tratava de uma boneca de porcelana, tal a imagem de delicadeza e fragilidade da outra. 

 Sofia soube imediatamente quem ela era, não porque o marido lhe dissesse. A mão de Quim apertou de forma inconsciente, durante uma fração de segundo, o ombro de Sofia, quando a  viu, e isso foi tudo.
-Olá Quim. Não há quem te veja. Disseram-me que te casaste. É claro que não acreditei, - disse ela pestanejando exageradamente. 
- É bom que acredites Joana. Porque é verdade, - respondera-lhe ele aparentemente calmo.

A “boneca” fez um trejeito com os lábios, como se fizesse beicinho e dignou-se olhar para Sofia. Pendurou-se no braço de Quim e perguntou:
-Apresentas-me?
-Não. E se me dás licença, estamos com pressa.
Sem qualquer espécie de decoro, ela esticou-se, deu-lhe um beijo na face, e afastou-se dizendo:
- Telefona-me.





Esta história voltará depois da Páscoa.  Para todos desejo um resto de boa semana e uma Santa Páscoa, tão feliz quanto possível.

10.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXI




Cinco dias depois, Teresa e os bebés deixavam o hospital, acompanhados pelo pai, que amparava a esposa e carregava um dos bebés no ovo, seguidos  pela enfermeira Sandra, que passara os dias anteriores, sempre junto de Teresa no quarto da maternidade hospitalar e por uma ama, cada uma carregando um ovo com um bebé .

 Por sua vez, João  embora tivesse que ir todos os dias à empresa despachar os assuntos mais urgentes, e entrevistar as possíveis amas, também passara com ela grande parte dos dias, e aos poucos foi perdendo o medo que inicialmente tinha de pegar nos filhos, aprendeu a mudar as fraldas, e até a dar o biberão ao terceiro bebé.

Teresa, tinha a sensação de que não fazia mais nada senão dar de mamar. Os bebés mamavam oito vezes ao dia, e a meio de cada mamada tinha que utilizar a bomba para extrair leite, (colostro) naqueles primeiros dias, para o terceiro. Para facilitar a rotina amamentava sempre dois ao mesmo tempo e João ou Sandra, quando o empresário não estava, dava o biberão ao terceiro.

E foi incentivada por Sandra e pelas enfermeiras de serviço a tentar dormir todo o tempo que podia a fim de poder descansar.

Entretanto os bebés, já saíram do hospital registados. Parecia impossível, mas os dois tinham deixado a escolha dos nomes dos bebés para depois do nascimento, pelo que na hora do registo, João lembrara as palavras da médica no momento em que a menina nascera e dissera que ela se devia chamar Vitória, mas Teresa dissera que o nascimento dos três tinha sido uma vitória por igual e que ela tinha pensado em Maria, por ser devota da Virgem e por a Ela ter rogado muita vez para que os meninos nascessem saudáveis e não precisassem ficar na incubadora quando ela tivesse alta.

Quanto aos meninos, o pai gostaria de que um deles se chamasse David, numa homenagem ao irmão que conhecera há tão pouco tempo e com quem descobrira uma ligação que nunca julgara possível. Até estava a pensar convidá-lo para padrinho. Por seu lado, a mãe desejava que um deles tivesse o nome do pai, pelo que acabaram por ser registados João e David como o pai e o tio. E não era difícil distingui-los, pois apesar de parecidos, não eram gémeos idênticos, mas fraternos.

Em casa, esperava-os Olga, com a outra ama que João já contratara. Tal como ele decidira, havia um quarto preparado para as amas, ao lado do quarto dos bebés e a cama que estivera no quarto de casal, onde dormira a enfermeira Gabriela durante a gravidez  de Teresa, fora levada para o quarto deles, onde a enfermeira passaria a dormir.  Ela chamaria as amas sempre que precisasse de ajuda para os levar a mamar, para os mudar, ou para os acalmar.

Depois que os bebés foram deitados nas suas caminhas, e Teresa se encontrava deitada e sozinha no quarto com o marido, este notou que ela se mostrava apreensiva, pelo que perguntou o que a preocupava.

- Disseste que ficavas aqui, mas levaram a cama para o quarto dos bebés, para a Gabriela. Onde é que tu dormes? – perguntou.

- Contigo. Afinal somos casados há quase cinco meses, Teresa.

- Mas…

- Sei o que estás a pensar. Mas pensa no seguinte. Nós não somos um casal normal. Não namorámos, não noivámos, não tivemos qualquer intimidade, a não ser um ou outro beijo e uma carícia dirigida aos bebés na tua barriga de grávida. 

Não sei se o que sentes por mim, mas posso dizer que desde o início senti uma grande atração por ti, que o meu primeiro pensamento no dia em que te conheci, foi de desejo e que ao longo destes quase nove meses essa atração não só cresceu, como se tornou num sentimento muito mais forte e íntimo que penso seja  aquilo a que chamam de amor.

Assim pensei que pudemos começar a criar laços de intimidade desde agora, aproveitando o tempo de resguardo da melhor maneira. Alem disso gostaria de estar contigo sempre que tenhas de amamentar de noite, gostaria de ser eu a dar o biberão a um dos bebés. Mas se não estás preparada, posso ficar num dos outros quartos. Penso que devia ter-te dito isto no hospital, mas estavas sempre acompanhada.

- Tens razão João, desculpa a minha timidez, afinal, nunca dormi com um homem.

- Sou o teu marido, querida. E de momento vou ficar feliz por partilhar a tua cama.  Por ora será apenas isso, um dia no futuro partilharemos a cama, os sentimentos e tudo o que a vida nos permitir que partilhemos.

- Mas e a Gabriela, e as amas?

- O que é que tem?

- Não vão ficar intimidadas para trazerem os bebés ao quarto, contigo aqui?

- Não te preocupes. Olha, temos aqui um radio transmissor, que nos avisará quando eles acordarem. Então levanto-me, e aguardo levantado que elas venham trazê-los. Não me encontrando deitado, ninguém se vai sentir intimidado.




27.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXIV


Naquele dia, a ida à consulta foi mais demorada, pois Teresa teve que fazer análises, antes de poder ser atendida pela médica.

Mais tarde, já na consulta, a doutora não se mostrou nada surpreendida ao saber que os dois eram agora um casal. Disse, que ao ver a emoção dos dois, aquando da ecografia anterior, e o modo como ambos se olhavam, pensou que o destino deles seria o casamento. Depois explicou-lhes que as análises que tinha feito eram, a de anticorpos anti-toxoplasmose, e da diabetes, e que estava tudo bem.

A ecografia, foi mais demorada, a médica estava muito atenta a cada um dos bebés, sem fazer comentários, o que estava a pôr o casal muito nervoso.

Finalmente disse-lhes que os bebés estavam ótimos, não apresentavam qualquer deficiência,  os órgãos abdominais, estômago, intestinos e fígado estavam completos e os bebés mediam agora quase  quinze centímetros, da cabeça às nádegas e pesavam cerca de duzentos e cinquenta gramas. Era um pouco menos do que um bebé único com o mesmo tempo, mas estava muito bem para trigémeos. E mostrou-lhes o sexo dos bebés no ecrã. Dois meninos e uma menina. 

-A partir de agora,  disse a doutora Laura, eles já distinguem o bater do seu coração e o som da sua voz. Também vêm e experimentam emoções e partilham consigo. as suas mudanças de humor e as suas sensações, razão porque deve evitar ao máximo emoções fortes.

Teresa queixou-se da barriga já bastante grande e do peso a mais e a médica riu-se dizendo-lhe que três bebés não se podiam desenvolver no espaço de um e quanto ao peso ainda ia aumentar mais uns bons quilos Pois a partir de agora os bebés iriam crescer com muito mais rapidez do que até aí. 

-E a propósito - acrescentou - muito cuidado com as guloseimas, em que o Natal costuma ser farto.  

Disse-lhe ainda que a partir de agora, iria ter muito mais sono, e provavelmente baixas de tensão arterial quando deitada de barriga para cima, ou sentada, devido à pressão do útero na artéria aorta e veia cava quando o corpo está nessas posições.

Acrescentou ainda que era cada vez mais importante o repouso, não podia fazer esforço absolutamente nenhum.

Teresa aproveitou para perguntar:

-O meu cunhado vai casar, dentro de quinze dias e desejava que fossemos os padrinhos. A doutora acha que eu posso ir? 

- Se fosse uma gravidez normal, eu diria que sim desde que não estivesse muito tempo em pé e evitasse as emoções intensas. No caso da Teresa, com uma gravidez múltipla, não aconselho. Nessa data já estará com vinte e duas semanas e daqui para a frente o tempo é muito importante. 

Tem que aguentar esses bebés no útero o máximo de tempo possível, para que os seus órgãos internos ganhem maturidade e quando realizarmos a cesariana, eles estejam capazes de funcionar normalmente e não oferecerem riscos de sobrevivência para os bebés. O ideal seria como já lhe disse na última consulta, conseguir chegar às trinta e seis semanas, embora isso seja raro nas gravidezes múltiplas.  O facto de estar a toda a hora acompanhada de uma enfermeira, sossega-me. 

A propósito, deve ser a enfermeira que a acompanha, a colocar-lhe o cinto de segurança sempre que tenha de andar de carro. Uma má posição do cinto, pode causar danos graves aos bebés. E, a partir de agora quero vê-la de quinze em quinze dias.

E pronto, por hoje é tudo, aqui tem a marcação da próxima consulta, as receitas foram enviadas para o seu email.

O casal despediu-se, e saiu. Na sala de espera, Sandra perguntou se precisava entrar.

- Desta vez não - disse João encaminhando-se para a saída. -  A doutora Laura já nos fez todas as recomendações, e disse-nos que devia ser a Sandra a colocar o cinto de segurança na Teresa, pois se colocado de forma incorreta pode trazer danos aos bebés. Acompanhe a Teresa, enquanto eu vou buscar o carro.

2.3.20

SERIA UM CRIME PERFEITO, SE...


REEDIÇÃO




                                                    Foto DAQUI


Já não eram um casal jovem, mas estavam ainda longe da velhice. Ele alto e magro, de rosto fechado e pouco dado a conversas. Pendia-lhe do pescoço, presa por uma alça negra, uma máquina fotográfica que a miúdo usava, e parecia ser a única coisa que lhe dava prazer, enfastiado que estava com a tagarelice da mulher. Estavam de férias em Vila Real e encontravam-se a visitar o parque do Alvão. Por vaidade, ou talvez não, frequentemente ela pedia ao marido que a fotografasse. Coisa que ele fazia, sem qualquer esgar de alegria, como quem cumpre uma tarefa. Se entre eles algum dia houve amor, há longo tempo tinha desaparecido. Viviam juntos, por quê? –  Ele já se tinha interrogado mais do que uma vez. Hábito, falta de vontade de encarar um divórcio, medo da solidão. Agora ela tinha inventado aquela viagem de férias, para o norte, em vez de como era habitual nos outros anos irem para o Algarve. E o que mais o aborrecia, eram as demonstrações de carinho em público, que não tinham correspondência em privado, e que só tinham surgido depois que se hospedaram no hotel.
 Ela, quase tão alta como ele, elegante e sorridente. Era por natureza, alegre, e extrovertida.
Caminhava feliz, surpreendendo-se com a paisagem agreste do parque, seguindo o trilho das fisgas do Ermelo, local de altas escarpas que ela vira na pesquisa que fizera na Internet. Na cabeça o plano que delineara, desde que vira a notícia de uma turista que ali morrera por acidente enquanto tirava umas fotografias, três meses atrás.
 O amor pelo marido, morrera há muito tempo. Há mais de dois anos que ela tinha outro amor, no coração, com o qual queria viver, sem peias, nem esconderijos. Mas para isso ela precisava livrar-se do marido, já que era dele todo o dinheiro, e em caso de divórcio, não acreditava que ele lhe desse algo mais do que aquilo que tinham desde que se casaram. O resto era dele, estava no contrato nupcial. O dia anunciava-se de grande canícula, um daqueles dias que os transmontanos chamam de inferno, pois àquela hora, pouco passava das nove da manhã, já estava bem quente.
Finalmente chegaram às escarpas, de onde se via um panorama magnífico. Os dois, quase  na berma da escarpa, olham o vale lá no fundo e o belo horizonte. O marido tira várias fotos. E quando se preparava para sair do local, eis que a mulher se coloca bem na frente dele pedindo que lhe tirasse um retrato. O marido argumenta, que está demasiado perto, não fica nada de jeito, e aí ela pede para ele recuar um passo. Ele recua, ela avança e a situação mantém-se já que a distância é a mesma. Depois de ter recuado por três vezes, e de ela ter avançado outras tantas, ele não pode recuar mais, pois sabe que está na beira do abismo, e pode cair a qualquer momento. Inesperadamente a mulher estica o braço com violência e empurra o homem que se desequilibra mergulhando no abismo, ao mesmo tempo que a máquina se dispara.
A tremer, a mulher aproxima-se da beira das escarpas. O corpo do marido repousa lá no fundo, entre enormes pedaços de rocha. Mas a malfadada máquina ficou ali. Caída numa saliência da escarpa, uns três metros mais abaixo. Ela pensa que a máquina fotografou o crime. Se alguém a encontra, e será fácil a polícia encontra-la quando investigar a morte do marido, ela está perdida. O plano tão bem delineado, será facilmente descoberto através da maldita fotografia. Só havia uma solução. Difícil sim, mas não impossível. Então toma uma decisão. Devagar, com imenso cuidado, começa a descer a escarpa, o medo apertando-lhe o peito, o coração batendo desenfreado. Está quase a apanhar a máquina. Um pequeno esforço mais e pode regressar pelo mesmo caminho e livrar-se daquela prova que a incriminará. Mas eis que no momento em que apanha a máquina,  a pedra sobre a qual apoia o pé direito resvala, fazendo com que perca o equilíbrio,  e ela vai estatelar-se lá em baixo bem ao lado do marido.
Horas mais tarde, um turista dá o alarme, polícia e bombeiros chegam ao local. O casal está morto. A mulher segura ainda a máquina fotográfica. 
Na tentativa de descobrir o que se passou, a polícia visiona as fotografias. Pensa que deviam ser um casal muito apaixonado, dada a quantidade de fotos feitas pelo marido, em que aparece a mulher, sempre sorridente e feliz.
E a polícia chega à ultima fotografia... 
que regista apenas um pedaço de céu incrivelmente azul.


Fim




Elvira Carvalho

25.6.19

UM PRESENTE INESPERADO _ PARTE XXXII



Como todas as mulheres que estão prestes a conhecer os segredos do sexo pela primeira vez, Isabel, tremia de receio e de excitação. Pensou vagamente que Natália tinha razão. O que levava um casal para a cama era o desejo. O seu corpo reagia com intensidade às carícias do marido fazendo com que ela se arqueasse para se unir mais ao corpo masculino e desejasse ainda mais do que ele lhe dava.
Suavemente, como se o corpo dela fosse algo, simultaneamente precioso e sem peso, Ricardo voltou a pegar-lhe ao colo, e levou-a para o quarto.  Colocou-a na cama e voltou a beijá-la. Saboreando-a, e levando ao rubro o seu desejo, as suas mãos percorrendo-a, acariciando e despindo-a sem lhe dar tempo a reagir ou sequer a sentir-se envergonhada.
Todavia ela reagia sim. As suas mãos, ora o ajudavam na tarefa de se despir a si próprio, ora lhe acariciavam o peito, as costas a nuca. Parecia tanto ou mais desejosa de fazer amor, do que ele.
Finalmente, quando a excitação já era insustentável, os dois  tornaram-se fisicamente um só, na mais ancestral dança do planeta.
- Estás bem? -perguntou ele mais tarde, deitando-se de costas, o corpo ofegante e transpirado.
- Estou -respondeu ela deitando confiante a cabeça no peito dele, que estendeu o braço e aconchegou o seu corpo ao dela. 
 Nenhum dos dois disse mais nada. No silêncio que se seguiu, cada um  tentava analisar o sublime momento que tinham acabado de viver.
Para Ricardo, Isabel fora uma grata surpresa, um presente inesperado.
 Verificara que aquilo que ele julgava ser uma representação por parte dela, era apenas inocência, pois Isabel fora virgem até minutos atrás.
 Não que lho tivesse dito, todavia não era preciso que o fizesse, ele tinha experiência mais que suficiente, para que não desse por isso. Compreendia agora, a razão do comportamento dela, antes do casamento. O que ele julgara tratar-se de um jogo, era afinal timidez genuína, fruto da sua inocência. Todavia apesar disso, ela compensava a nítida falta de experiência com uma tal paixão, que o deixou empolgado. Isabel era uma mulher maravilhosa, o que fizera pela irmã e pela sobrinha, provavam-no sem sombra de dúvida. E Matilde era um encanto. No último mês, tivera ocasião de brincar com ela, acompanhara-a nas atividades diárias, como o banho ou o ir dormir, e um carinho muito grande, fora nascendo entre os dois. Amava a menina e sentia que ela também gostava dele.
Se ele confiasse nas mulheres, diria que tinha ganhado uma família. Mas podia ele confiar em Isabel? Agora que ela descobrira, os prazeres do sexo seria capaz de se contentar, com um casamento que não escolhera?Amar a menina era fácil. Amar Isabel era outra coisa. Ela dissera-lhe que acreditava no amor. E se um dia se apaixonasse por outro? O que seria dele se caísse na asneira de pôr de novo o seu coração em jogo? Aos vinte e poucos  anos, um homem leva vários anos para se recompor, e seguir em frente. Aos quarenta, a vida acaba ali. Ele ia fazer tudo, para terem um casamento feliz. Tudo, menos por o seu coração em jogo. Como dizia o seu pai. "À primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer. " 
Enquanto Ricardo se perdia  nestas reflexões, Isabel corava só de pensar no que acabara de viver. Para ela, Ricardo fora tudo o que sempre sonhara que devia ser. Um homem maravilhoso, que soubera despertar toda a sensualidade, que ela nem sabia que tinha. Sentia o seu corpo lânguido, e os olhos fechavam-se com vontade de um sono retemperador. Mentalmente como numa prece, repetiu os votos de casamento.”Juro amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”


Com este capítulo dou por terminada a primeira parte desta história. Amanhã começará a segunda parte. Vamos ver no que isto vai dar.


27.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE X



Meia hora mais tarde, Paula tinha delineado o que seria a festa de aniversário de casamento de um conhecido casal da alta sociedade portuguesa, e tomava notas sobre tudo o que ia precisar, para o evento, quando Irene a sua secretária a interrompeu.  
-Acaba de chegar a encomenda que fizeste para a festa de Cascais. E ligaram dos escritórios da imobiliária “Um sonho, uma casa” para marcarem uma entrevista contigo. Parece que é o próprio dono que quer negociar contigo a realização de um evento.
Paula ficou a olhar para a sua secretária surpreendida. A sua primeira reação seria dizer que tinha a agenda preenchida para os próximos meses. Parece que de um momento para o outro, tudo à sua volta tudo girava em volta daquele homem. Primeiro foi a visita da madrasta, depois o pai, agora era o próprio empresário.
-Tinhas-me dito – continuou a secretária, alheia aos seus pensamentos, - para não fazer marcações para as próximas três semana, que ias tirar umas férias, quando terminasses a festa no Estoril, dos Ferraz, mas como é um empresário importante, não sei se queres adiar as férias, pelo que pedi para ligarem mais tarde, porque não estavas e tínhamos a agenda cheia para o mês todo. Se voltarem a ligar o que é que eu faço?
-Diz-lhe que poderei atendê-lo, amanhã às quinze horas.
- Mas amanhã não ias estar todo o dia lá no salão de festas,em Cascais, por causa da festa dos Couceiro, no próximo Domingo?
- Ia. Mas tenho interesse em saber o que esse senhor quer. O salão pertence à paróquia, vou falar com o padre e pedir-lhe se posso ir à noite acabar o que faltar.
- Bom, tu é que sabes. Mas estás a pensar desistir das férias? Tens trabalhado demais.
- Enquanto conseguir executar os trabalhos dentro do prazo, não é demais. Leva esta lista e confere se não falta nada do que pedi na encomenda que vieram entregar. E depois põe tudo na mala do meu carro.
Irene saiu e Paula voltou a enfronhar-se no trabalho. Durante mais de uma hora, fez esboços, tomou nota de materiais, viu preços. Por fim numerou cada esboço, cada lista de material, voltou a fazer contas e acrescentou ao esboço o orçamento. Tudo pronto carregou no botão da secretária.
- Já conferi a encomenda e já está no teu carro, - disse Irene ao avançar para a secretária da sua chefe.
- Tens aqui estes três esboços, orçamentados. Envia-os por fax, para o escritório do senhor Ferraz, para aprovação. Pede urgência na resposta a fim de que possamos ter tudo pronto para a festa.  Leva estas listas, cada uma está numerada com o mesmo número do esboço. Dependendo do que eles escolherem, fazes a encomenda do material. Contactas os fornecedores do costume. Depois é necessário contactar os jornalistas das principais revistas cor-de-rosa. Vê se consegues algumas para essa data.
-Muito bem. Vou mandar os esboços agora e depois do almoço, contato os jornalistas. Não deve haver problema, uma festa destas à borla, ninguém rejeita. O resto só depois de saber qual o esboço que eles vão aprovar. E o “catering”, é o mesmo do costume? Tratas tu disso?
-Não. Desta vez o cliente não quer os nossos serviços a esse nível. Diz que já tem tudo tratado, logo é menos uma preocupação que temos. Vou almoçar e depois sigo para Cascais. Em princípio, não volto hoje ao escritório. Qualquer urgência, liga-me.
-Ok. Bom trabalho.



NOTÍCIAS
Como sabem, estive ontem à tarde a fazer exames médicos por causa do olho e as notícias não são de modo algum aquelas que eu gostaria. A retina mantém-se colada, mas a córnea continua muito maltratada. O Professor, diz que eu tenho um suporte de silicone que será para retirar numa nova cirurgia, se a córnea recuperar o suficiente para colocar a lente. Se isso não acontecer, só com transplante da mesma posso ter esperanças de voltar a ver como deve ser. Entretanto como há apenas um mês que fiz a segunda cirurgia, vamos ter esperanças que a córnea recupere até ao dia 14 de Maio, altura em que vou voltar a fazer exames e à consulta. Entretanto mandou parar com as gotas de antibiótico que estava a fazer e mudou para gotas de cortisona.

1.12.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... -Interrompeu-se abruptamente.- O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante todos aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

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Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem assistiu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho



18.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXX




Aquele Natal seria memorável para todos, naquela casa, onde para além dos moradores, se encontravam os pais de Francisca. E esperavam a qualquer momento a chegada de Graça e do marido. A felicidade do casal, era por demais evidente. Tão evidente que os pais de Francisca acreditaram finalmente no grande amor que a filha lhes descrevera como razão para um casamento tão rápido. 
Afonso tinha encomendado o serviço do mesmo restaurante que os tinha servido no dia do casamento e esperava-se a sua chegada com o jantar. Mais tarde viria o Pai Natal com os presentes para as crianças, que estavam excitadíssimas com a festa.
Pouco antes das oito Graça chegou. E protagonizou a maior surpresa da noite, ao trazer com ela duas meninas de seis anos, que apresentou como suas filhas. Eram-no legalmente desde o início do mês.
Perante o espanto da família, Eduardo contou que devido a uma anomalia  genética, ele não podia ter filhos. Sabendo como a mulher adorava crianças, e de como se sentia frustrada, nos seus anseios maternos, tinha-se decidido pela adoção. As duas meninas eram gémeas, estavam há muito tempo na instituição, porque ninguém se atrevia a adoptar as duas de uma só vez, e era cruel demais separá-las. Para eles não era problema, e foi por isso mais rápida a adoção,não precisaram ficar em lista de espera. Tinham guardado segredo, pois tinham receio de que alguma coisa não corresse bem, durante o processo. Elas eram amorosas e eles nunca estiveram tão felizes.
- Deviam ter-nos contado. Elas vão sentir-se excluídas, quando o Pai Natal chegar com os presentes.
- E porque é que pensas que te pedi o nome da empresa que contrataste? - Disse Graça. - Entrei em contacto com eles, e no dia em que aqui estive, fiz as compras e fui lá entregá-las.
- Pensaram em tudo. Mas que surpresa!
Entretanto as crianças já brincavam juntas. A princípio as meninas pareciam pouco à vontade, mas logo Marta, com a sua natural espontaneidade  tratou de fazer com que se integrassem na brincadeira.
Jantaram às nove, primeiro porque os mais pequenos tinham que jantar cedo, depois porque o serviço de restaurante por ser noite de Natal, encerrava às dez e meia, e os empregados teriam que sair a essa hora.
Pouco passava das dez, quando o Pai Natal chegou, carregado de presentes para alegria dos miúdos.
No meio da confusão, Afonso notou que Simão estava pensativo. Ele tinha recebido uma mala de pintor, um cavalete, tintas acrílicas e três telas. Adorava pintar e na sua carta ao Pai Natal, apenas pedira, material de pintura.



Pensavam que tinha acabado? Pois ainda não.  

reedição




20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

9.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXIV






Um ano passara desde que se tinham mudado para a nova casa, onde agora viviam. O pequeno Pedro era desde há oito meses, filho do casal, a dona Ermelinda estava bem de saúde, embora continuasse a fazer exames periódicos, pois determinadas doenças uma vez contraídas nunca são dadas como curadas. A dona Conceição, tia do Pedro, era apaixonada pelo menino e por causa dele, tornara-se visita constante da família e como a senhora tinha perdido o seu único filho e vivia sozinha, Joana, acabara por lhe propor mudar-se para o andar de baixo. A casa era muito grande só para a sua mãe, e as duas senhoras irmanadas na mesma dor, confortavam-se mutuamente. Exatamente o que Pedro e a tia desejavam, mas eles continuavam a guardar segredo, sobre o seu parentesco com o pai biológico do filho.
Aparentemente corria tudo bem na família, mas não passava de aparência.  Joana, que se apaixonara pelo marido, logo nos primeiros dias após o casamento, sentia que alguma coisa o preocupava. Alguma coisa que ele não queria partilhar com ela. Era como se entre os dois houvesse uma parede invisível, mas impenetrável. Pedro era um excelente pai, aproveitava todos os tempos livres para brincar com o filho, passear com ele, inventava histórias engraçadas para lhe contar. E o menino adorava-o. Havia uma tal ligação entre os dois que Joana chegava a ter ciúmes do filho. Com ela, era educado, gentil, preocupava-se em saber se precisava de alguma coisa, se não estava a trabalhar de mais, se necessitava de uma nova empregada, enfim, preocupava-se com as suas necessidades materiais, mas não fora as noites onde se mostrava um amante apaixonado, Joana diria que o sentimento que ele tinha por ela, não era diferente do que sentia pela sua tia, ou pela sogra. Essa sensação entristecia o seu coração, apagara o brilho dos seus olhos, e transformara o seu riso alegre, em sorrisos breves. E fazia com que dona Ermelinda andasse cada dia mais preocupada com a filha.
Naquela manhã, a jovem, que há uns dias se sentia diferente, fizera o teste e descobrira que estava grávida. Noutras circunstâncias daria pulos de alegria, mas apreensiva como andava em relação ao casamento, o facto só lhe trouxe maior preocupação.
A relação entre o marido e o pequeno Pedro, era tão intensa, que Joana temia que ele não quisesse mais filhos, e que visse o novo bebé como um intruso.  
- Que se passa, Joana? Estás a bater essas gemas há dez minutos.
Parou a batedeira e pegou na farinha, para a juntar às gemas batidas com o açúcar.
- Nada, mãe, não te preocupes!
- Não me enganas. É com o teu marido? Aborreceram-se? Sim porque com o Pedrinho, não é. Transpira saúde.
- Já te disse que não é nada. Apenas hoje não me sinto muito bem. Devo ter dormido mal.
- Na tua idade, só se dorme mal por duas razões. Ou estás preocupada ou doente. Se está tudo bem com o teu marido procura um médico. Não estás bem encarada, e há muitas doenças silenciosas. Lembra-te. Mais vale prevenir.
-Está bem mãe. Se não melhorar, vou ao médico. Agora, se quiseres ajudar-me, vai moldando os brigadeiros...



E aqui estou eu... num dos eventos que vos disse ontem.