20.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIII






Entrou em casa, acendeu a luz, despiu o casaco que pendurou no armário de entrada.  Foi à sala, ajeitou as almofadas do sofá e deu uma olhada ao espaço. Tinha ido para Coimbra no sábado não tinha feito limpezas, mas a sala estava apresentável. Fez uma rápida inspeção à cozinha e casa de banho. Satisfeita com o resultado, procurou o telemóvel e ligou para a mãe, a informar que a viagem tinha corrido bem, já estava em casa. Acabara a chamada quando alguém bateu na porta. Espreitou pelo óculo e abriu a porta ao ver que era Salvador.
- A porta da rua estava aberta, - informou – E o restaurante estava encerrado. Passei na churrascaria e trouxe um frango. Espero que não te importes.
- Não te preocupes. Gosto de frango.
Ele pousou o saco em cima do balcão. Enquanto ela punha a mesa.
- Desculpa ter-te pressionado para jantares comigo. Gostava de saber como te sentes com toda esta história. Estou preocupado contigo.
- E com Ana Clara, não?
- Claro que com ela também. Mas ela tem o meu irmão para a apoiar.
- Olha Salvador, vamos esclarecer as coisas. Tu és quase da família, eu estou-te muito grata, porque graças a ti, descobri a verdade sobre o meu nascimento e ganhei uma irmã fantástica. Mas por amor de Deus não penses em tornar-te responsável por mim. Já sou maior de idade, há muito tempo e já tive na minha vida homens protetores de mais. Três irmãos são mais do que qualquer mulher pode suportar, antes de morrer sufocada.
-Três irmãos?
- Se tu queres assumir esse papel sim.
- De modo algum, fica descansada. E amigo? Posso candidatar-me, ou não há vaga? - Perguntou sorrindo.
Ela acabara de por a comida na mesa. Abriu a gaveta dos talheres, agarrou o saca-rolhas e estendeu-lho juntamente com a garrafa de vinho.
- Abres?
Abriu a garrafa e despejou um pouco de vinho em cada copo.
- Não respondeste à minha pergunta - disse ele
- Sou muito exigente com os meus amigos. Não sei se cumpres os requisitos.
- E tens muitos amigos?
- Não. Fogem todos quando conhecem as condições.
Ele deu uma gargalhada, e ela acabou por rir também. Então perdida a tensão anterior, Anete falou de como se sentia, do facto de continuar a amar os pais e os irmãos da mesma maneira, de sentir que a única coisa importante tinha sido o facto de ter ganhado uma nova irmã. E do estranho que era pensar que há um mês atrás não sabia que tinha uma gémea, e agora sentir a irmã como se fosse uma extensão de si mesma. Terminou perguntando:
- Não achas que é uma loucura?
- Tenho ouvido dizer que isso acontece com todos os gémeos idênticos.
Entretanto acabaram de comer.
- Queres café? Só tenho instantâneo, mas posso por a água ao lume, – disse ela ao mesmo tempo que se levantava.
- Não. - Respondeu. E ficou a vê-la recolher a loiça e metê-la na máquina.
Recolheu os dois individuais, sacudiu-os para o lava-loiça, abriu o tambor da máquina da roupa e jogou-os lá dentro.
- Vamos para a sala? – Perguntou, e sem esperar resposta, passou ao lado dele que se levantava nesse momento e dirigiu-se para lá.

19.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXII


Pouco depois os pais de Anete deram por terminada a conversa com as jovens. Era visível nos seus rostos a emoção que lhes trouxeram as recordações que acabaram de viver. A mãe de Anete, tinha encontrado entre as fotografias guardadas, uma foto de Antónia grávida, pouco antes do nascimento das gémeas, e outra com ela  e Antónia, quando regressavam do registo, cada uma com uma das meninas ao colo.  Mandara fazer duas cópias e oferecera-lhes para que tivessem uma recordação da sua mãe biológica. Depois a conversa generalizou-se até que um pouco mais tarde, Raul disse que era melhor regressarem, o trajeto até Lisboa ainda levava mais de duas horas, e em Novembro, faz-se noite cedo. Foi o sinal, para que entre agradecimentos e abraços, todos se despedissem, e decidissem regressar.  
Desejoso de conversar com Anete, Salvador ofereceu-lhe boleia, mas a jovem disse que ia no seu carro, gorando-lhe as intenções.
Ela foi a última a partir, depois de um último adeus aos pais e ao irmão mais velho, que morando em Coimbra, ficava com a família para o jantar.
Um pouco mais à frente, viu o carro de Salvador parado na berma, mas seguiu em frente. Pelo espelho retrovisor, viu que ele arrancava logo de seguida e apesar do seu carro ser mais potente, se mantinha atrás dela.
Percebeu que ele iria seguir assim até Lisboa, talvez até sua casa, e ficou nervosa. Uma coisa era estar com ele, entre família, onde até se podia permitir brincar, outra coisa era estarem sozinhos.
Ela pressente o perigo, no formigueiro que sente quando acidentalmente as suas peles se tocam, no frio na barriga, quando ele a olha, com aquele olhar profundo que parece procurar-lhe a alma. Tem a certeza que se está a apaixonar por ele, e tem a certeza que isso é a pior coisa que lhe pode acontecer. Está convencida que Salvador, nunca vai querer nada sério com ela. Afinal quem é ela? Uma mulher com quase trinta anos, que já devia ter encontrado o rumo da sua vida, ter um curso, que lhe permitisse uma boa profissão,  casa, marido e filhos, e que não tem nada. Nem sequer uma experiência sexual.
Como é que um homem que se interessasse por ela, ia reagir, à sua timidez, à sua falta de experiência, sabendo que fora casada durante mais de três anos? No mínimo ia pensar que era frígida. E nenhum homem se interessa por uma mulher assim. Claro, ela podia dizer que era virgem. Mas será que alguém acreditaria nisso? Nem mesmo ela acredita, que algum dia seja capaz de falar sobre isso com algum homem. Pois se ainda não teve coragem para o contar à irmã.
Decide parar na estação de serviço de Aveiras, para esticar as pernas e beber um café. Salvador estaciona ao lado, e apressa-se a segui-la.
- Queres alguma coisa? – Perguntou bruscamente quando ele chegou a seu lado.
- Calma. Só quero conversar contigo. Estive fora toda a semana e na casa dos teus pais não deu. Aceitas jantar comigo?
- Sinceramente não me apetece sair. Estou cansada. Prefiro ficar em casa.
- Tudo bem, eu não me importo de jantar na tua casa, - disse com um sorriso. – Podemos encomendar o jantar. Conheço um bom restaurante que faz entregas ao domicílio.
- Não. – Ela quase gritou, o que atraiu a curiosidade da mesa ao lado.
- Porquê? Tens medo de quê? Não foste tu que me disseste que tinhas aprendido a defender-te com os teus irmãos?
- Tu não és meu irmão!- Respondeu agreste
- Graças a Deus. Não deve ser agradável ter uma irmã tão mal-humorada.
Olhou-o. Os olhos cor-de-mel, sustentaram-lhe o olhar, firmes, trocistas, e...
carinhosos?
- Está bem, - cedeu por fim. – Mas levas o jantar.
Voltou-lhe as costas e dirigiu-se ao carro, clamando consigo própria, por não ter sido capaz de resistir.

18.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXI


O almoço, decorreu animado, como se todos se conhecessem há muito tempo e pertencessem à mesma família. A Salvador agradaram-lhe os pais de Anete, desse que os conhecera na semana anterior. E apesar de não se sentir muito confortável com a atitude vigilante dos irmãos dela, não os condenava. A jovem era muito bonita, e provavelmente, ele faria o mesmo se estivesse no lugar deles.
Ele não estava apaixonado por Anete. Ou pelo menos pensava que não estava, embora sentisse um certo carinho por ela. Na verdade apenas uma vez na vida esteve apaixonado, e isso já fora há tanto tempo, que às vezes pensava se realmente amara mesmo Ana Clara, ou se não passou de uma ilusão que ele empolgou transformando num amor platónico e impossível. Perguntava-se muitas vezes, se Raul não se tivesse intrometido, ele teria mesmo chegado ao casamento.
 Anete constituía um desafio para ele. Sabia que era divorciada, mas isso não parecia afetá-la de alguma maneira. Mas seria assim na realidade, ou essa era uma máscara que ela usava para não denunciar os seus sentimentos? Tinha vinte e oito anos, e não tinha filhos. No entanto a maneira carinhosa que usava no trato com os sobrinhos, revelavam um carácter tão maternal, que parecia impossível não ter sido mãe, durante o casamento.  Pensou vagamente que se chegasse a sentir por uma mulher um amor tão grande, que o levasse ao casamento, gostaria de ser pai. Às vezes enquanto brincava com os sobrinhos, pensava como seria se fossem seus filhos. Engraçado pensar assim e nunca lhe ocorrer associar Ana Clara às crianças.
Desejava conhecer melhor Anete. Gostaria que fossem amigos, que saíssem. Sem compromisso. 
- Ei, alguém viu se o Salvador saiu? - A voz de Luís soou trocista.
- Hem.. . Dizias alguma coisa?
- Homem há meia hora, que te estou a pedir se me passas o pão.
- Desculpa, estava distraído. Toma.
- E essa distração tem nome? – Interrogou Ricardo
- Deixem o Salvador em paz, - irritou-se Anete.
- A vossa irmã tem razão, - interveio o pai.- Não foi essa a educação que vos demos. Salvador é nosso convidado, merece respeito.
Terminado o almoço, e depois da loiça se encontrar já na máquina, os donos da casa, reuniram-se com as duas irmãs, para conversarem, e verem as fotos prometidas. As crianças voltaram para a brincadeira no quintal seguidas por Raul. Teresa andava às voltas na cozinha, e Salvador, ficou na sala com Luís.
Durante um longo momento, permaneceram em silêncio, como que estudando-se. Por fim Luís disse:
- A mãe disse que foste tu que deslindaste esta história. Que fazes na vida?
- Sou advogado. Tenho um escritório em Lisboa. E tu?
- Antropólogo. Trabalho na biblioteca nacional. Como é que descobriste a Anete? Procurou-te?
- Não. Tu foste o culpado. Vi-a na rua, e pensei que era a minha cunhada. Se estivesse sozinha não teria tomado atenção. Mas estava contigo, numa atitude carinhosa, e deves saber o que pensei.
- Cálculo, mas eu não te vi. Procuraste-a depois? Foste a casa dela?
- Sossega, nunca fui a casa da tua irmã que me merece o maior respeito. Confia em mim, não lhe farei mal. Amigos?
-Amigos, - disse Luís apertando a mão que Salvador lhe estendia.



17.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXX


Os três homens puseram-se de pé, quando eles entraram, na sala, e por momentos ficaram em silêncio, a olhar para os recém-chegados. Melhor dizendo a olhar Ana Clara. Por muito que tivessem ouvido falar na semelhança entre as duas, ainda assim a surpresa foi grande. Anete encarregou-se de os apresentar, e depois o dono da casa aproximou-se de Ana Clara.
-Sê bem-vinda, filha. Quero que saibas, que estamos muito felizes por te conhecermos, e que esta casa estará sempre aberta para vos receber, - disse estendendo-lhe os braços, onde a jovem se refugiou emocionada.
 Talvez para quebrar um pouco a emoção, Luís disse:
-Tenho que ir à pastelaria onde tomei o pequeno-almoço. Não sei o que me puseram no café que estou a ver dobrado.   
Todos riram e as apresentações prosseguiram em clima mais leve, até que chegou a vez da dona da casa, que entretanto viera da cozinha para cumprimentar as visitas.
- Estás muito bonita. Se existe um outro mundo, onde se pode ver o que se passa por cá, Antónia deve estar tão feliz como eu, por vos ver juntas.
- Anete, disse-me que a senhora conheceu a minha mãe biológica.
- E verdade. Viveu connosco algum tempo. Tinhas três meses quando se foram embora. Andei remexendo as fotografias antigas, e encontrei duas da Antónia. Depois do almoço, mostro-vos.
Entretanto Teresa, fora ao quintal buscar os filhos, para lhes apresentar as crianças recém-chegadas. Com a naturalidade própria da infância, os dois meninos logo quiseram mostrar aos outros o quintal, e os quatro foram brincar, alheios à emoção dos adultos.
Depois as quatro mulheres voltaram para a cozinha, deixando os homens em animada conversa na sala.
Um quarto de hora mais tarde, a campainha tocou e Anete apressou-se a ir abrir. Na sua frente, com um bonito ramo de rosas, Salvador saudou-a sorrindo.
- Desculpa se me atrasei, mas foi premeditado. Queria que a família vivesse a emoção deste encontro sem a presença de estranhos – disse saudando-a com um breve beijo nas faces, saudação social tão em voga nos dias de hoje.
- Tu não és um estranho. És o cunhado da minha irmã.
- Sei, e tu és a cunhada do meu irmão. Não me esqueci, - disse sorrindo.
- Entra, daqui a pouco a família vem ver quem está à porta.
-Obrigado, - disse e estendeu-lhe o bonito ramo.
- São para mim? – Perguntou espantada
- Não, são para a tua mãe. É a dona da casa, e foi dela a ideia de me convidar, segundo me disseram.
Anete levou-o até à sala, para o apresentar aos irmãos. Não pôde deixar de reparar no olhar inquisitivo com que o brindaram, depois de olharem para o ramo de flores. Deu por si a pensar.
“ Não têm emenda. Pobre Salvador, não sabe que acaba de mexer num vespeiro” 
Sorriu dizendo.
- Vou entregar as flores à sua legítima dona. Tenho a certeza que vai querer agradecer-te. E não deixes que os meus irmãos te incomodem.
Saiu, em direção da cozinha, e pouco depois, a dona da casa, vinha saudá-lo.


16.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIX


A casa dos pais de Anete, ficava situada numa zona já na periferia da cidade. A rua era composta quase só por vivendas, separadas entre si por muros encimados por gradeamento. Quase todas tinham na parte da frente, um minúsculo jardim, com algumas flores. Em muitas delas havia pés de roseira, que na altura da floração perfumavam o ar. Raul estacionou o carro, entre o de Ricardo e o de Afonso, que viera passar o dia com a mãe, e que naquele preciso momento voltava a casa, depois de ter ido comprar o jornal. Sabia que havia festa em casa do vizinho, tinha visto Anete com os pais à saída da igreja, e via os carros dos dois irmãos frente à porta. Parou no passeio, espantado ao ver Anete sair dum carro que desconhecia, abrir a porta de trás e desapertar o cinto da cadeirinha de uma criança enquanto o homem do outro lado, fazia o mesmo. Ele tinha visto a jovem entrar em casa com os pais. E agora estava ali? Quem era aquele homem e aquelas crianças? Alguém que tinha conhecido em Lisboa? Estava diferente de quando a vira de manhã, com outro vestido e outro penteado. Engoliu em seco, quando ouviu uma das crianças chamar-lhe mãe. Queria falar, mas não conseguiu articular palavra. Nesse momento, Anete viu através da janela o que se passava. Rapidamente tirou o avental e saiu a receber a irmã, deixando Afonso completamente petrificado. Então a jovem  aproximou-se dele e apresentou-lhos.
- Afonso, apresento-te a minha irmã gémea Ana Clara, o meu cunhado Raul, e meus sobrinhos, Jorge e Miguel. Família, este é Afonso, um grande amigo.
Não o apresentou como ex-marido, não lhe apetecia falar do seu casamento falhado, naquele dia.
Afonso, compreendeu-a e também não referiu o facto. Limitou-se a cumprimentar os recém-chegados, dizendo a Anete.
-Nunca soube que tinhas uma irmã.
- Eu também só o soube há dias. É que fomos adotadas por famílias diferentes. E não fiques em choque. É um segredo de família, tão bem guardado que nem eu sabia. Um dia conto-te tudo. Por favor, não o contes à tua mãe.
- Não contarei. Fica descansada.
- Obrigada – agradeceu a jovem, dando-lhe um beijo breve no rosto, antes de lhe voltar as costas, e dar o braço à irmã para entrarem em casa.
- Prepara-te. Pela reação de Afonso, imagina o que te espera lá dentro, - disse Anete
- Já chegaram todos? Não vejo o carro do meu irmão, - disse Raul.
- Se ele vem, ainda não chegou, - respondeu Anete.
- Como se ele vem? Eu disse ao teu pai que ele vinha. Esteve toda a semana na Madeira, mas regressou ontem.
- Não sabia.O meu pai não me disse nada, provavelmente porque eu também não perguntei.
Entraram em casa, e Anete empurrou a irmã na direção da sala.
- Entra tu primeiro. Quero ver a reação dos meus irmãos.


15.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVIII


Naquele domingo de outono, o sol brilhava, num céu imaculadamente azul, com a temperatura a rondar os vinte e quatro graus, o que levava a crer que o S. Martinho estava a prolongar o “seu” verão para além da data, Anete e seus pais levantaram-se cedo, a fim de assistir à missa das oito. Os pais não perdiam a missa dominical, e ela gostava de os acompanhar.
Depois da homilia, quando se preparavam para regressar, Anete viu-se constrangida a cumprimentar a ex-sogra, que se encontrava na companhia do filho. Arrependeu-se de ter ido com os pais. Devia ter pensado que aquilo podia acontecer. Ela não tinha nenhum problema em cumprimentar o ex-marido. Os dois foram e eram amigos, e na verdade nunca se sentiram de outro modo. Mas Laura, a mãe, culpava-a pelo divórcio, e não lhe perdoava. De modo que foram uns momentos de grande constrangimento.
No regresso, foram para a cozinha, mas enquanto mãe e filha ficavam a tratar do almoço, o pai saiu pela porta que dava para as traseiras da casa, onde havia um quintal. Junto à casa, um largo canteiro, onde se viam plantados vários pés de couve tronchuda, que haveriam de acompanhar as batatas e o bacalhau na consoada. À volta alguns pés de alface. Num outro canteiro do lado direito, várias ervas aromáticas, que a mulher costumava usar na cozinha. Salsa, coentros, manjericão, cebolinho, hortelã, e outras, impregnavam o ar de uma mistura de aromas. Havia ainda um canteiro maior, com couves já adultas, cenouras e nabos. Algumas iriam ser arrancadas daí a pouco, para o cozido à portuguesa que a mulher e a filha estavam a confecionar para o almoço. 
Tinha disposto a parte cultivada do quintal, junto à residência, por forma a ficar mais perto, da torneira na hora de regar. Mais ao fundo, junto ao muro, e aproveitando a sombra de duas macieiras e uma nespereira, ele tinha construído uma casa de brincar, para os netos; e montado um baloiço numa armação metálica. Eles gostavam de brincar ali, quando iam passar o dia lá em casa, e naquele dia com dois novos amiguinhos, não ia ser diferente, pelo que ele se dedicou a verificar se tudo estava em ordem, de forma a evitar qualquer acidente.
Satisfeito com a inspeção, regressava a casa, quando a  porta se abriu e a mulher lhe pediu que escolhesse 3 couves das maiores e uns quantos nabos e cenouras.  Arrancou-as,  lavou-lhes a terra debaixo da torneira e só então as levou para a cozinha, 
Depois, enquanto as duas mulheres continuavam os preparativos para o almoço, ele foi para a sala e ligou a televisão.
Meia hora depois, chegou o filho mais novo. Luís abraçou e beijou a mãe e de seguida abraçou fortemente a irmã. Logo a afastou para a mirar, olho no olho, procurando descobrir se ela estava bem. Anete sorriu, levantou a mão e passou-a pelo rosto recém-barbeado do irmão.
- Não te preocupes, estou ótima.
O irmão relaxou. Deu-lhe um beijo na testa e seguiu para a sala, onde se juntou ao progenitor. Logo depois, chegou Ricardo e a família. O irmão voltou a assegurar que nada mudara entre eles, e a interrogar como ela se sentia. As crianças foram brincar para o quintal, enquanto os homens se entretinham na sala com uma acalorada discussão sobre futebol.
                                                                    



14.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVII


Nunca uma semana decorreu tão veloz para Anete como aquela.
Entusiasmada com a nova vida, o emprego, e a amizade com a colega, Diana, a irmã, com quem falava todas as noites pelo telefone, a perspetiva do almoço em Coimbra que a mãe estava a organizar para juntar as duas famílias, tudo contribuiu para que o relógio lhe parecesse que passava as horas, mais depressa do que o habitual.
Não tinha sabido nada de Salvador. Ele não telefonara em toda a semana, e embora no seu íntimo considerasse que era o melhor, a verdade é que esperara que o fizesse e se sentia desiludida.
Nas longas conversas com a irmã, nunca o seu nome fora nomeado, e ela não se atrevia a fazer perguntas. Tinha a sensação que ele não frequentava muito a casa do irmão. No entanto, nas duas noites em que lá jantaram, ela reparou que os dois irmãos se davam muito bem, o que provava que apesar da diferente vida que levavam, os dois se amavam.
Sabia que ele fora convidado para o almoço. Os pais consideravam-no como membro da família, e estavam-lhe gratos pelo papel que desempenhara naquela história. Não sabia se ele tinha aceitado, mas tinha a certeza de que a mãe lhe diria quando chegasse a casa no dia seguinte. Sim porque a semana de trabalho acabara, no dia seguinte era sábado, e ela já tinha o bilhete para o comboio da manhã. O almoço era no domingo, é certo, mas ela não deixaria a mãe sozinha com os preparativos, tanto mais que Teresa, a mulher do irmão, trabalhava toda a semana, e no fim-de-semana não lhe faltava trabalho para gerir a casa, tratar dos dois filhos, e organizar as coisas para a semana seguinte. Depois no domingo aproveitaria para trazer o carro para a cidade. Fazia-lhe falta para conhecer os arredores de Lisboa, porque a verdade é que nos seus passeios anteriores, nunca foi além de Santarém. E também para as viagens a Coimbra.
 Deu o duche por terminado e depois de secar o corpo, enviou um pijama de algodão cinzento, como minúsculas flores cor-de-rosa, envolveu os cabelos molhados numa toalha que enrolou na cabeça, à laia de turbante, vestiu um robe azul sobre o pijama e foi para a cozinha.
Tirou do congelador uma pizza que meteu no micro-ondas, e marcou os minutos precisos. Logo que ouviu o sinal do aparelho, colocou o prato em cima da mesa, encheu um copo com água e jantou.
Terminada a refeição, arrumou a cozinha e dirigiu-se à sala, onde se sentou num cadeirão em frente do sofá. Pegou no comando da televisão, mas voltou a pousá-lo. Na verdade, não lhe apetecia ver nada. Levantou-se e pegou no livro que tinha comprado no dia anterior. “Um refúgio para a vida” de Nicholas Sparks. Nunca tinha lido nada daquele autor, embora já tivesse visto vários livros expostos na livraria do supermercado onde fazia as suas compras. Porém em conversa com a sua colega de trabalho, sobre livros, ela contara-lhe que era uma grande fã do autor, que eram romances tão bons, que vários  dos seus livros, tinham sido adaptados ao cinema e que ela não perdia um.
Ficou tão curiosa, que nessa mesma noite, quando passou pelo supermercado, resolveu juntar um dos livros dele às restantes compras. Escolheu apenas pelo título, porque “Um refúgio para a vida” era tudo o que ela gostaria de ter.
Pela leitura na parte interior da capa, tomou conhecimento das obras que tinham sido adaptadas ao cinema, confirmando a informação que Diana lhe dera. Embrenhou-se na leitura, e deixou-se absorver de tal maneira, que quando olhou para o relógio era quase meia-noite.



13.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVI


Anete não conseguia concentrar-se no programa televisivo, pelo que desligou o aparelho. Recostou a cabeça no sofá, fechou os olhos, e ficou a pensar em tudo o que lhe tinha acontecido ultimamente, e na volta que a sua vida dera. E pensar que se tivesse continuado a viver em Coimbra, provavelmente nunca em toda a vida ia descobrir a verdade, nem conhecer a irmã. Nem teria conhecido… Salvador.
Pensar nele acelerou o seu coração. Jamais conhecera um homem como ele. Bom a verdade é que ela não tivera hipótese de lidar com outro homem que não fossem os  seus irmãos, ou o Afonso, que para o caso era praticamente o mesmo.  Essa foi uma das razões que a trouxera para Lisboa. Fugir da influência dos irmãos. Na cidade, podia dar-se o caso de conhecer um homem interessante, por quem se apaixonasse e que lhe correspondesse. E nem que andasse procurando com um radar, podia ter encontrado homem mais interessante que Salvador. Porém ele não contava. Interessante, bonito, rico, seguro de si, e com uma carreira de sucesso, era areia demais para a sua camioneta. Nunca se ia interessar por ela. Quando muito se ela o deixasse, era mais um para lhe infernizar a vida, com os seus conselhos e proteção. Não fora assim que ele procedera até agora? Claro que sim. Mesmo o beijo que lhe dera na véspera, e que lhe acelerara o sangue nas veias, não continha paixão nem desejo. Fora mais um beijo de amigo. Só que o seu coração, não conseguia vê-lo como amigo. Então, só podia tomar uma decisão. Restringir ao máximo, os encontros com ele, já que evitá-los na totalidade seria impossível, dado o grau de parentesco com a sua irmã. O telemóvel começou a tocar. Era Ricardo.
 - Estou
- Mana como estás? Os pais acabaram de nos contar. Estamos preocupados contigo.
- Eu estou bem, não se preocupem.
- Não é preciso dizer que não mudou nada, entre nós, pois não?. Continuas a ser a nossa irmãzinha querida.
- Eu sei, Ricardo. Para mim também não mudou nada. Ou sim mudou. Agora tenho mais uma irmã e uma nova família, o que quer dizer que nesta história toda, sou a grande beneficiada. Amo-vos muito. A todos. E como está a minha cunhada e os meus sobrinhos?
-Estamos bem. Mas o importante agora és tu. Juras que estás bem? Não nos estás a enganar?
-Juro. Não se preocupem.
- Olha o Luís está aqui, a querer tirar-me o telefone das mãos. Vou passar-lhe a chamada. Cuida-te Princesa.
- Anete, querida, estamos tão preocupados contigo. Deves estar arrasada. Penso que é melhor tirar uns dias de férias para te dar apoio.
- Não – quase gritou endireitando-se no sofá. Eu estou bem, comecei hoje a trabalhar, sinto-me ótima.
-Olha querida, os pais estão a pensar, darem um almoço no domingo, para juntarem as duas famílias. Dizem que tu lhes perdoaste, mas precisam pedir perdão à Ana Clara. Penso que a mãe te vai ligar amanhã. Cuida-te, Princesa. E se precisares não hesites em me telefonar. 
-A sério?  A única coisa que preciso agora é de ir para a cama. Amanhã tenho que me levantar cedo. Amo-vos.
-Amamos-te mais, maninha.
                                              

12.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXV






O seu primeiro dia de trabalho decorreu melhor do que Anete esperava. Na receção da clínica havia outra empregada, por sinal muito simpática, que se prontificou a ajudá-la de modo a fazer com que a sua integração fosse mais fácil e mais rápida.
Na verdade o movimento na clínica era intenso, e não fora a ajuda de Diana, provavelmente ter-se-ia visto em palpos-de-aranha, para se desenvencilhar das suas tarefas.
No final do dia estava orgulhosa de si mesma, convicta de que mais dois ou três dias e estaria plenamente integrada e apta a cumprir as funções inerentes ao seu trabalho. Mas também estava muito cansada. O medo de errar fizera com que trabalhasse todo o dia em stress, e o corpo ressentia-se. Precisava de um longo e relaxante banho de imersão, a fim de libertar os seus músculos da tensão acumulada. E foi exatamente isso que fez, assim que chegou a casa.
Acabara de vestir o pijama e preparava-se para enfiar o robe, quando o seu telemóvel colocado em cima da mesa-de-cabeceira, começou a tocar.
Era a irmã. Ana Clara que desejava saber, como tinha decorrido o seu dia de trabalho, se tinha gostado do ambiente da clínica e das colegas.
E ela falou-lhe do que constava o seu trabalho, de Diana e da empatia que se gerara entre elas. As duas irmãs falaram ainda um pouco mais, e depois despediram-se, não sem que a jovem tivesse perguntado pelo cunhado e pelos sobrinhos.
Anete, dirigiu-se à cozinha, a fim de preparar o seu jantar, quando o telemóvel voltou a tocar. Desta vez era a mãe, que além de querer saber como tinha decorrido o primeiro dia de trabalho, a informava de que estava à espera dos seus irmãos para jantar, e que nessa mesma noite, iriam contar-lhes a verdade sobre o seu nascimento. Dizia-lhe que provavelmente nessa mesma noite, ou no dia seguinte, eles iriam tentar entrar em contacto com ela. Despediu-se da mãe e desligou o aparelho deixando-o sobre o balcão da cozinha. Sem vontade de cozinhar, preparou rapidamente uma sopa de legumes, e um ovo cozido, enquanto pensava na reação dos irmãos, para com o engano em que os pais os tiveram a vida toda. Não receava que o amor deles por ela fosse alterado, tinha certeza de que isso não aconteceria. Mas sabia que iria ser um choque para eles. Também o fora para ela, embora o facto de ter ganhado uma irmã, compensasse a desilusão de saber a verdade.
Acabada a refeição, pôs a chaleira com água ao lume, para preparar um chá enquanto arrumava a cozinha.
Feito o chá, levou a chávena para a sala, ligou a televisão e sentou-se no sofá, saboreando a bebida.   


A partir de hoje, e até à minha volta, esta história está agendada para sair todos os dias às 8 da manhã.                                              

11.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIV



Foram recebidos em festa. As duas jovens abraçaram-se, emocionadas, sem poderem ocultar as lágrimas de alegria. As crianças, estavam excitadas. Tinham-lhe dito que a mulher que tinham conhecido na véspera era sua tia, e na sua pouca idade, eles não percebiam como isso era possível, do mesmo modo que não entendiam porque as duas eram tão iguais.
O mais pequeno, Hugo de três anos, perguntou:
- Porque é que vocês são iguais?
- Porque somos gémeas, - respondeu Anete pegando-lhe ao colo , numa tentativa de ocultar a sua emoção.
- E porque é que são gémeas?
- Porque nascemos no mesmo dia.
- E porque nasceram no mesmo dia? – Insistiu o garoto.
- Já chega filho, vamos jantar, daqui a pouco está na hora de irem para a cama.
Anete poisou o menino no chão, enquanto o pai dizia.
- Está na idade dos porquês, nunca se cansa.
Depois do jantar, as duas jovens foram deitar as crianças, e os dois irmãos, levantaram a mesa e meteram toda a loiça na máquina para lavar, numa repetição exata do que tinham feito na noite anterior.
Quando os quatro se reuniram na sala, Anete contou à irmã tudo o que os pais lhe contaram nessa tarde. Terminou dizendo que eles lhe disseram que se tivessem sabido que Antónia estava doente, teriam ficado com ela e não deixariam que fosse entregue à instituição.
- Conta-me, como foi a tua vida. Como é ser criada com dois irmãos mais velhos?
- É uma vida muito instável. Às vezes sentes-te uma princesa, outras vezes uma prisioneira, - disse rindo.  Às vezes são tão protetores, que te sentes sufocar.
- E eles já sabem?
- Ainda não. Os pais vão contar-lhes em breve, mas não vai fazer diferença. Para eles vou ser sempre a sua irmã mais nova. Conheço-os bem. Não te admires se te quiserem conhecer e resolverem adotar-te. O Ricardo tem trinta e um anos, é casado, e tem dois filhos encantadores. O Luís está prestes a fazer trinta e é solteiro. Diz que gosta demasiado das mulheres para se prender a uma só. A mãe fica zangada, mas ele ri-se e não liga.
- E tu? Tens namorado, alguém especial?
- Não. - A resposta saiu curta e brusca, e a irmã percebeu que ela não entraria em confidências pessoais, pelo menos na presença dos dois homens.
- Ontem disseste que ias começar a trabalhar amanhã. Não trabalhavas em Coimbra?
- Não. Contrariamente ao que o meu pai desejava, eu não quis entrar para a universidade. Os estudos nunca me entusiasmaram muito, e depois com os meus dois irmãos lá, e com a sua mania de proteção, os estudos eram ainda menos atrativos. Acabei o Secundário e como na altura a mãe andava adoentada, e o trabalho de cinco pessoas era muito cansativo, durante algum tempo assumi o trabalho de dirigir a casa. Mais tarde, tentei empregar-me, mas haviam poucas vagas, para muitos pretendentes. E depois Afonso marcou a data do casamento, havia todo um enxoval para fazer, e o emprego ficou para trás. Mais tarde casei,o meu sogro adoeceu e morreu, depois a minha sogra ficou com uma depressão, não dava para pensar em procurar trabalho.  Divorciei-me há meses, e essa foi a razão de ter vindo para a capital.
Olhou o relógio.
-Meu Deus, onze horas. Tenho que ir.
Pôs-se de pé, sendo imitada pelos outros três. A conversa terminara ali.
Despediram-se, e Ana Clara disse ao acompanhá-la à porta.
- Telefono-te amanhã para saber como correu o teu primeiro dia de trabalho. Boa sorte.
Salvador foi levá-la a casa. À porta, ela estendeu-lhe a mão para se despedirem
- Obrigada Salvador. A tua ajuda foi crucial para desvendar o mistério do meu nascimento. Obrigada por teres trazido Ana Clara para mim.
Ele não respondeu. Com o braço rodeou-lhe a cintura e puxou-a para si.  Como se estivesse em transe, a jovem mergulhou  nos quentes  e doces olhos cor de mel, quando ele inclinou a cabeça, segundos antes de aflorar os seus lábios, com um terno beijo.




Gente continuo com grandes problemas com a Internet, à espera do técnico que virá esta manhã. No sábado passado puseram-me um modem novo. Ontem de manhã já não tinha  Internet e novo. Publicar ou fazer alguma alteração nos posts através do Smartphone é muito complicado.  

10.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIII






E telefonou. Anete contou-lhe que as suas suspeitas estavam certas. Os pais tinham-lhe contado toda a história. E convidavam-no para almoçar com eles. Mas Salvador rejeitou o convite, reforçando o que já lhe dissera, quando a deixara à porta. Aquele era um tempo de descoberta, que ela devia passar só com os pais. Mais tarde, quando a poeira assentasse, não faltaria nem tempo nem oportunidade de se reunirem todos como uma grande família que eram. Combinaram que iria buscá-la às quatro. E desligou.
Digerida que foi a tensão da difícil revelação, os pais quiseram saber tudo sobre a sua nova vida na cidade.
Um pouco antes das quatro, Salvador chegou. A jovem pediu-lhe que entrasse para lhe apresentar os pais e a simpatia foi mútua.
Depois de beberem um chá, acompanhado por uma deliciosa fatia de bolo de chocolate, os jovens despediram-se e iniciaram a viagem de regresso.
- Estás feliz? Não te sentes magoada por te terem ocultado as tuas origens? – Perguntou Salvador, atento à condução do veículo.
-Não. Se tivesse sabido mais cedo, talvez tentasse encontrar a Ana Clara. Ou talvez não o fizesse para não magoar os meus pais. Tive uma vida muito feliz ao lado deles. Sempre me senti muito amada, e se alguma diferença houve em relação aos meus irmãos, foi que sempre fui mais mimada e protegida que eles. Talvez por ser menina. Mas agora sinto-me muito feliz por ter ganho uma nova família. Especialmente por ter uma irmã, com quem partilhar sentimentos e alegrias, que não se partilham com um irmão. E adorei os meus novos sobrinhos.
- Os meus sobrinhos são encantadores, não são?
- Os nossos sobrinhos, - emendou Anete e imediatamente se ruborizou imaginando como seria, se em vez de sobrinhos, fossem filhos dos dois.
Os olhos cor de mel, fixaram-se nela e um sorriso enigmático curvou os seus lábios.
“Será que ele pensou no mesmo” pensou a jovem desviando o olhar.
- Porque te divorciaste? – Perguntou de súbito.
- Já falámos nisso.
- E não te interessaste por mais ninguém?
- Por que queres saber?
 - Agora somos quase família, não? Sou cunhado da tua irmã…
- E eu sou cunhada do teu irmão. E onde é que isso nos leva? A um parentesco por aproximação? Isso não existe. E já tenho protetores de sobra, com os meus irmãos. Não preciso de mais ninguém para me dizer o que fazer, ou como fazer. O que preciso é que me deixem viver em paz.
- Vou tentar lembrar-me disso. Estamos a chegar. Antes de sairmos telefonei ao meu irmão. Eles estão à nossa espera, ansiosos por saber o que os teus pais te contaram. Convidaram-nos para jantar. Precisas passar por casa, ou vamos diretos para casa deles?
- Vamos já. Também estou muito ansiosa. E não quero regressar tarde. Vou começar a trabalhar amanhã, não quero dormir tarde.

Aviso:
A partir de hoje, os capítulos desta história, deixarão de ser bi-diários e passarão a ser apenas uma vez por dia. Espero que não percam o interesse na continuação.


9.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXII


                                                     foto daqui


- E agora? O que vamos fazer?
- Agora, vamos contar a verdade aos teus irmãos. Tu contarás à Ana Clara. Diz-lhe que não pensámos separar-vos. Foram as circunstâncias da vida que levaram Antónia a separar-vos, - disse o pai abraçando-a.
-Regressas hoje, ou ficas alguns dias?- Perguntou a mãe, limpando as lágrimas.
- Vou esta tarde. Arranjei trabalho como rececionista numa clínica de exames médicos. Começo a trabalhar amanhã.
- Então, vou tratar do almoço.
- E eu vou ajudar-te.
Passou a mão pelo rosto triste do pai, num gesto de carinho, e sussurrou antes de seguir a mãe.
- Não fiques assim. Nada mudou nos meus sentimentos. Amo-vos.
 - Queres contar-me como conheceste Ana Clara? – Perguntou a mãe, enquanto metia o tabuleiro com a perna de borrego e as batatas no forno.
- Na verdade, só ontem à noite a conheci. Tudo começou com a visita que o Luís me fez. Ana Clara é casada e tem dois filhos. É professora. Quis o destino que o seu cunhado, passasse pela porta do prédio onde vivo, quando eu e o meu irmão íamos entrar.
Para ele, era a cunhada entrando num prédio, abraçada com outro homem que não o irmão. Pensou que a cunhada tinha um amante.
- Santo Deus, filha. E depois?
- Podia ter sido uma tragédia, se ele contasse ao irmão, mas felizmente Salvador pensou nas crianças, e por elas decidiu abordar a cunhada e fazer-lhe um ultimato para que largasse o amante. Para isso esperou ver a cunhada sair ou entrar do prédio e quando eu saí, abordou-me. A princípio pensei que era um truque para meter conversa, mas quando me ameaçou de que ia telefonar para o “meu” marido, e que eu podia ficar sem “os meus” filhos, pensei que havia alguma coisa estranha. Vi-me obrigada a mostrar-lhe a minha identificação. E mesmo assim estava incrédulo. E quando lhe disse, onde e quando tinha nascido, a coincidência tornou-se ainda mais inacreditável. Eu mostrei desejo de conhecer a sua cunhada, e ele deve ter-lhes falado de mim, pois me convidaram para jantar ontem. E quando nos abraçámos foi inacreditável mãe. Foi como se de repente nos encontrássemos com uma parte de nós mesmas, que andava perdida. Os dois irmãos, falaram até de fazer um teste de ADN, uma vez que Ana Clara, foi adotada, e segundo os seus pais, ela foi entregue à instituição porque a mãe estava muito mal, e ela não falou em mais nenhuma filha. Pareceu-me claro que vocês saberiam de alguma coisa, e disse-lhes que só faria o teste, se aqui não encontrasse uma resposta.
- E ela, é feliz?
-Pelo que me foi dado observar, sim. O amor entre ela e o marido, e bem evidente, e os meninos, que devem ser mais ou menos da idade dos teus netos, são encantadores.
-Ainda bem, filha. Onde quer que esteja, Antónia pode finalmente descansar em paz. Mas disseste que vieste com um amigo?- Perguntou mudando de assunto
- Com o Salvador, mãe. É o cunhado da Ana Clara. Ele sentia-se responsável por toda esta confusão, e decidiu trazer-me.
- E onde está agora? Porque não lhe telefonas e o convidas para almoçar?
- Posso fazê-lo? Vocês não se vão sentir constrangidos?
- Porquê? O que fizemos só te afetou a ti, e tu perdoaste-nos não é verdade?
- Claro, mãe. Vou telefonar.



A RODA DO DESTINO - PARTE XXI



Entre a preocupação de Anete, e os esforços de Salvador, para encorajar a jovem, decorreu a viagem no dia seguinte. À chegada, Salvador despediu-se, pedindo para que Anete lhe telefonasse quando quisesse regressar a Lisboa.
Na hora do regresso ele cumprimentaria os pais dela, agora o assunto, era demasiado íntimo, para a presença de um estranho.
A jovem entrou em casa e depois de abraçar os pais, disse que tinha voltado porque precisava mostrar-lhes algo muito estranho.
Uma jovem, que era uma cópia sua, nascida no mesmo dia do mesmo ano, na mesma cidade de Leiria.
Retirou da mala o telemóvel e mostrou-lhes as fotografias, tiradas em casa de Ana Clara.
- Meu Deus! Exclamou a mãe, ocultando o rosto com as mãos. Deixou-se  cair no sofá e começou a chorar. Anete olhar para o pai, e reparou na sua palidez. Porém ele abriu os braços e ela correu a refugiar-se neles, com a mesma confiança de quando era menina.  Com  a voz embargada  pela emoção, ele disse.
- Senta-te. Chegou a hora de saberes a verdade sobre o teu nascimento. Há trinta anos atrás, tua mãe dera à luz, o teu irmão Luís. Ele não foi um bebé desejado, a tua mãe ficou grávida dele, seis meses depois de o Ricardo ter nascido. A gravidez foi de risco, e o parto muito complicado. O médico informou-nos depois, de que não podíamos ter mais filhos. Eu não me importei, afinal já tínhamos dois, mas a tua mãe teve um grande desgosto, pois sempre sonhou com uma menina. Meses mais tarde, uma amiga da tua mãe descobriu que a sua empregada estava grávida e despediu-a. A jovem era solteira, tinha acreditado nas promessas do namorado, e ele quando soube da gravidez desapareceu. Sabes como é a tua mãe, ficou cheia de pena da moça, e passou a ajudá-la. A jovem estava grávida de gémeos. Eram duas meninas, e ao saber do sonho da tua mãe, Antónia, disse-lhe que lhe dava uma das meninas, pois não teria possibilidades de criar as duas. Entre si combinaram tudo. Depois que as meninas nasceram, fomos com Antónia, ao registo, onde vos registámos. Ela escolheu os nomes, mas só registou Ana Clara como sua filha. E nós registámos-te como se fosses nossa filha biológica. Para evitar um processo de adoção que seria complicado pelo facto de serem gémeas. Antónia temia que ao dar uma para adoção lhe tirassem a outra, e nós temíamos que por termos já duas crianças tão pequenas a adoção não nos fosse concedida.Daí que não apareça no teu registo nada sobre adoção. Depois disso, Antónia ainda viveu connosco algum tempo, mas um dia despediu-se dizendo que o pai tinha morrido, e que ia pedir ajuda à mãe. Não o fizera antes, porque o pai era muito severo e tinha a certeza de que ele não quereria saber dela, nem da menina. Logo depois, a firma transferiu-me para Coimbra e mudá-mo-nos para cá.
Joaquim estava sentado num cadeirão. A filha sentada no chão, a seus pés chorava silenciosamente. Ele falava devagar, com voz cansada, enquanto com a mão tremente acariciava a cabeça da jovem.
- Nunca mais soubemos nada de Antónia nem da filha. Quando começaste a perguntar porque não eras loura como nós, quis contar-te a verdade. Mas a tua mãe disse que tu ias sofrer, que te ias julgar menos amada do que os teus irmãos, e acabámos inventando que te parecias com a minha mãe. Nunca pensei que um dia ias encontrar Ana Clara. E Antónia? Viste-a?
- Antónia morreu pouco depois. A mãe não deve tê-la aceitado, porque ela foi entregar Ana Clara numa instituição para adoção, quando sentiu que lhe restava pouco tempo de vida.
- Meu Deus! Se não tivéssemos perdido o contacto, poderíamos ter ficar com Ana Clara também, - disse a mãe, levantando-se do sofá, os olhos vermelhos do choro.
- Perdoa-nos filha. Fizemos o que pensávamos que era melhor para ti. Amamos-te tanto.
- Não há nada que perdoar, mãe. Sempre me senti amada por vós e isso é o que interessa. Além disso deram-me dois irmãos maravilhosos. E a propósito, como é que eles não sabiam de nada? Ou sabiam?
- Quando tu nasceste, o Luís tinha um ano, o Ricardo vinte e seis meses. Era impossível saberem.




NOTA:
Está encontrado o nome desta história. Normalmente os títulos das minhas histórias, são sempre retirados da própria história. Desta vez eu estava indecisa entre este, e uma frase do Salvador que virá lá mais para a frente e que é "Não se pode amar por dois" 
 Agradeço a todos a vossa colaboração, mas realmente nenhum dos títulos sugeridos se impôs a este. E pronto está escolhido. 
Muito obrigada a todos.


8.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XX





No regresso a casa, os dois mantiveram-se em silêncio, como se cada um se tivesse isolado no seu próprio mundo. A distância entre as duas moradas era curta e àquela hora da noite, as ruas sem movimento foram percorridas em poucos minutos. Salvador estacionou o carro junto ao número setenta e sete, e saiu, para acompanhar a jovem até à porta.
- Não me convidas para uma bebida? – Perguntou, sem vontade de lhe largar o braço
- Não seria uma boa ideia. Serás capaz de entender, como me sinto? As emoções que vivi esta noite, e a hecatombe que vem por aí, se aquilo que pensamos for verdade? Se eu fui trocada na maternidade, quer dizer que durante toda a minha vida usurpei a vida da verdadeira filha de meus pais.  E onde foi parar a filha deles?
-Percebo que deva ser muito difícil. E como fui eu que despoletei esta "bomba", quero estar contigo, para te apoiar no que precisares. Por isso estive a pensar, que te vou levar a Coimbra amanhã. A que horas posso vir buscar-te?
-Eu pensava ir no comboio da manhã e regressar no meu carro à tarde. Deixei-o ficar lá, porque não sabia onde iria morar, mas agora que já me instalei, preciso dele aqui, para quando quiser ir visitá-los.
-Podes deixar o teu carro para outra ocasião. Não sabes como vão reagir teus pais, nem em que estado emocional, ficarás. Não vais conduzir assim. Eu levo-te e trago-te, está decidido. Venho-te buscar às nove horas. Está bem para ti?
- Se fazes mesmo questão, fico-te muito grata.
Levantou o rosto, para lhe dar um beijo rápido na face, e entrou no prédio, sem lhe dar tempo para reagir.
Salvador voltou ao carro, e dirigiu-se ao seu apartamento. Sentia-se culpado por ter despoletado uma situação que por certo ia trazer sofrimento para várias pessoas. Porque havia ele de ter ficado parado num engarrafamento, no local e no momento em que Anete passava com o irmão?  Depois do que viu, não tinha mais hipótese de escapar. Tinha a certeza de que o próprio Raul teria acreditado tratar-se da sua esposa.
A única que ganhava com a situação era Ana Clara. Adotada por um casal sem filhos, nunca soube o que era partilhar com um irmão, alegrias e tristezas, pensamentos e emoções. Ela sim ia ficar muito feliz.
Bom, a roda do destino, estava em marcha. Não havia com pará-la.
Ele apenas podia oferecer a sua ajuda. Para minimizar os estragos.
Entrou em casa, serviu-se de uma bebida. Olhou o relógio. Onze e meia. Era ainda cedo para se deitar. Gostaria que a jovem o tivesse convidado a entrar. Sem segundas intenções nem tentativas de sedução, apenas para conhecer o local onde vivia. Uma casa, diz muito da pessoa que nela habita. E ele gostaria de conhecê-la melhor. Enfim, haveriam decerto outras oportunidades.


Já tenho Internet, depois de me terem posto um modem novo. Estou a retomar as visitas. Entretanto neste capítulo encontra-se o nome que eu pensei para o titulo. São capazes de o encontrar. Se sim, qual é a vossa opinião?
       

7.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIX




Se Raul ficou de boca aberta, ao abrir-lhes a porta, isso não foi nada comparado com a reação que se apoderou das duas mulheres, quando se viram frente a frente. Apesar de terem sido avisadas da grande semelhança entre elas, nada as preparou para a intensa emoção que sentiam. Tão grande que não resistiram a cair nos braços uma da outra, quando se cumprimentaram.
Apenas a roupa as diferenciava, já que até o cabelo, Ana Clara usava naquela noite, primorosamente entrançado.
Até os filhos do casal, dois miúdos traquinas, de três e cinco anos olhavam uma e outra sem saberem que pensar até que João, o mais velho perguntou:
- Pai, temos duas mães?
- Não filho. É só uma coincidência.
- E o que é uma coincidência? – Perguntou o garoto interessado.
- Mais tarde o pai explica-te. Agora são horas de jantar. Vão lavar as mãos e vamos para a mesa.
Após o jantar, que decorreu de forma agradável, Ana Clara pediu licença para ir deitar as crianças, e Anete ofereceu-se para a ajudar.
Enquanto isso, os homens levantaram a mesa, e meteram a loiça na máquina, enquanto conversavam entre si.
- Não achaste muito estranha a emoção das duas?- Perguntou Raul.
- Não. Estou tão convencido que são gémeas, que confesso esperava qualquer coisa do género.
- Será possível?
Acredito que sim. Embora seja muito estranho que no registo de nascimento da Anete, não haja nenhum averbamento de adoção.
- Como é que sabes?
- Porque a obtive no registo.
Raul ligou a máquina e dirigiram-se para a sala. Logo de seguida as duas jovens entraram.
- Custaram a adormecer. Estavam excitados com a novidade, - disse Ana Clara
- Querem beber alguma coisa? Estamos com uma ideia na cabeça, queríamos conversar convosco.
- Não, - disseram em coro.
- Bom,-  continuou Salvador,- não sei bem como dizer isto sem vos escandalizar, mas acredito que vocês são gémeas. Não sei como aconteceu, pode ter sido um erro no hospital, mas estou certo de que um exame de ADN, pode provar isso.  A questão é: Querem vocês saber a verdade, sabendo que ela pode demonstrar que tudo o que viveram nestes vinte e oito anos, não passou de uma mentira?
- Eu quero, - disse Ana Clara. - Meus pais sempre foram muito carinhosos comigo, mas sempre me senti muito sozinha e triste, por saber que não tinha irmãos. Senti uma emoção tão grande esta noite, que foi como se de repente me sentisse completa e em paz. E tu, Anete?
- Também senti uma grande emoção quando te vi. Nada me daria mais alegria do que saber que somos irmãs. Mas nunca teria coragem para fazer esse exame sem falar primeiro com os meus pais. Fui criada com muito amor, por eles e por meus dois irmãos. Se houve um engano no hospital, esse erro pode matá-los de desgosto. Vamos fazer assim. Gostaria de levar uma fotografia tua, se tiveres uma recente, ou se me deixares usar o telemóvel.
- Claro, podes tirá-la.
Anete tirou a foto, e depois pediu a Salvador que lhes tirasse uma outra com as duas juntas. Guardou o telemóvel e despediu-se:
- Tenho que ir. Amanhã mesmo vou falar com os meus pais. Eles vivem em Coimbra, tenho que ir no comboio da manhã, e voltar à tarde. Vou começar a trabalhar na segunda-feira. Adorei conhecer-vos, - disse pondo-se de pé para se despedir.