31.12.17

FELIZ ANO NOVO


O novo ano, vem gatinhando pela estrada das horas, e está quase a chegar
E então no dia de hoje e para vós, escolhi uma receita, de um excelente cozinheiro 
de palavras. 
Carlos Drummond de Andrade.


RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



FELIZ ANO NOVO, AMIGOS. QUE 2018 SEJA PARA VÓS AQUILO QUE QUEREIS QUE ELE SEJA.

30.12.17

UMA CEIA INESPERADA







Numa noite gelada de Dezembro, dois pobres cães vadios procuravam abrigo debaixo de uma grande árvore de Natal erguida no meio de uma praça, com uma vistosa iluminação que podia ser observada até do céu. Debaixo dos ramos da árvore e próximo do calor das lâmpadas fortes, eles conseguiam ter algum conforto, protegendo-se da chuva e do frio intenso.
Disse um dos cães para o companheiro:
— Há quanto tempo andas nesta vida?
— Desde o Verão passado. Os meus donos foram de férias e, como acharam que dava muito trabalho arranjar quem tomasse conta de mim, abandonaram-me. Foi assim que me tornei vadio, embora seja um cão de raça.
— Quer então dizer que é o primeiro Natal que passas na rua?
— Sim, é o primeiro. E tu?
— Para mim já é o terceiro. Eu não sou um cão de raça, sou um vira-lata, e tinha uma dona que gostava muito de mim. Eu era a sua única companhia. Um dia ela adoeceu e acabou por morrer.
— E o que foi que te aconteceu?
— Os filhos da minha dona não quiseram ficar com este encargo e puseram-me na rua. Já por cá ando há algum tempo, remexendo nas lixeiras, bebendo água das poças e das sarjetas e fugindo das camionetas da Câmara que trazem homens com redes para nos apanharem.
— Pois olha que eu ainda não me habituei a esta vida e nem sei se alguma vez me habituarei. Ainda estou muito zangado com os meus donos por me terem feito o que fizeram. Pareciam gostar muito de mim, gabavam-se muito da minha beleza e da minha raça, mas acabaram por me abandonar, dizendo aos filhos que alguém me roubou quando eu passeava sem coleira.
— Já ouvi contar muitas histórias como a tua, e olha que cada vez há mais. As pessoas são egoístas e quando nos põem em casa não pensam nas responsabilidades que têm para connosco.
— Mas parece que com os gatos isso não acontece, e repara que eu não gosto nada de gatos.
— Estás enganado. Também há muitos gatos abandonados e há alguns pontos em que podemos nos entender, já que os nossos problemas são os mesmos quando se trata de abandono.
— Então e qual é o teu desejo para esta noite de Natal?
— Para dizer a verdade, o que eu desejava é que estas lâmpadas se transformassem em ossos saborosos e numa refeição quente. Se isso acontecesse, eu até era capaz de acreditar que há um céu para os cães.
Mal ele acabou de pronunciar estas palavras, caíram sobre eles vários ossos e duas latas de comida apetitosa. Ambos se refastelaram com a abundância e com a qualidade da refeição que iria marcar para sempre a memória que ambos guardariam daquela noite de Natal.
Certamente haverá quem diga que nunca as lâmpadas coloridas de uma árvore de rua se poderiam transformar em comida para cães abandonados. Mas também é verdade que os cães não costumam falar, e os desta história, para que nos lembremos sempre da solidão dos que são condenados a tornar-se vadios, falaram durante um bom bocado. Vale esta história para que não esqueçamos os que não têm teto, neste ou nos próximos Natais.
José Jorge Letria


FELIZ ANO NOVO

29.12.17

AOS MEUS AMIGOS

A todos os amigos que me acompanharam neste ano que está a terminar, especialmente a todos que nunca deixaram de passar por aqui sempre que estive ausente, mesmo sabendo que eu não poderia retribuir a visita, já que onde estava não tinha computador, eu desejo que o ano que se aproxima, venha prenhe de saúde, alegria, paz, amor, e tudo o resto que cada um necessita.
Regressei ontem à noite, cansada e com a companhia da maldita dor ciática, que se me deixa uns dias melhores, outros me atormenta ao ponto de quase não me conseguir mexer.
Espero que hoje mesmo consiga visitar os vossos espaços.
Um grande abraço para todos e a minha eterna amizade.

28.12.17

UMA CADELINHA CHAMADA NATAL


O ano do meu décimo aniversário foi também o primeiro ano em que toda a nossa família tinha emprego.
O meu pai fora dispensado do seu emprego de sempre, mas encontrara trabalho de pintura e carpintaria um pouco por toda a cidade. A minha mãe costurava vestidos elegantes e fazia tartes para fora, e eu trabalhava depois das aulas e aos fins de semana para a Srª. Brenner, uma vizinha que fazia criação de cães da raça cocker spaniel. Eu adorava o meu trabalho, principalmente o ter de cuidar e de alimentar ninhadas de travessos cachorrinhos. E, com um certo orgulho, dava tudo o que ganhava à minha mãe para ajudar nas despesas. Mas o trabalho era tão divertido que tê-lo-ia mesmo feito sem receber qualquer pagamento.
Durante esses “tempos difíceis”, sentia-me perfeitamente à vontade ao usar vestidos de lojas baratuchas e calças de ganga já muito coçadas. E dizia adeus aos cachorrinhos que partiam para as famílias abastadas sem qualquer pena.
Mas tudo isso mudou quando uma ninhada chegou ao canil.
Eram seis e seriam os últimos cachorros disponíveis para venda até ao Natal.
Quando os ia alimentar pela primeira vez…, o meu coração balançou. Uma cachorrinha de pelo brilhante e avermelhado, com tristes olhos castanhos, abanou a cauda e inclinou-se para a frente para me saudar.
— Parece que já tens aqui uma amiga! — sorriu a Srª. Brenner. — Vais ficar encarregada da alimentação dela.
“Natal,” murmurei, segurando a cadelinha bem junto a mim. Senti imediatamente que ela era especial. E cada dia reforçava mais ainda um inexplicável laço entre nós. O Natal aproximava-se e, uma noite ao jantar, dei por mim toda entusiasmada a enaltecer, pela centésima vez, as qualidades especiais da Natal.
— Ouve, filha.— O meu pai pousou o garfo. — Talvez um dia possas ter um cachorrinho só teu, mas os tempos agora são difíceis. Sabes que fui dispensado na fábrica. Se não fosse o trabalho que tive este mês com a remodelação da cozinha da Srª. Brenner, não sei o que faríamos.
— Eu sei, Pai, eu sei — murmurei.
Não conseguia suportar a expressão de dor na cara dele.
— Vamos ter de enfrentar com coragem este novo ano — suspirou.
Na véspera de Natal, só a Natal e um macho grande sobravam.
— Vêm buscá-los mais tarde — explicou a Srª. Brenner. — Conheço a família que vai levar a Natal — continuou ela. — Vai ser criada com imenso amor.
“Ninguém poderá amá-la tanto como eu”, pensei. “Ninguém.”
— Poderias vir amanhã de manhã? Vou desmamar alguns cachorrinhos novos no dia a seguir ao Natal. Limpas o chão com óleo de pinheiro e montas uma caminha fresca para a nova ninhada. Poderias fazer-me o enorme favor de alimentar também os cães do canil? Vou ter a casa cheia de visitas. Oh, e pede ao teu pai que passe aqui contigo. Uma das portas de um armário da cozinha precisa de um ligeiro ajuste. Que belo trabalho ele tem feito!
Acenei com a cabeça, mal conseguindo concentrar-me nas palavras. Os novos cachorrinhos seriam lindos, mas nunca haveria outra Natal. Nunca! A ideia de outra pessoa a criar a minha cachorrinha era demasiado difícil de aguentar.
Na manhã de Natal, depois da missa, abrimos os nossos escassos presentes.
A minha mãe reinventou o avental que eu lhe tinha feito com as minhas economias, dando-lhe um estilo de vestido parisiense. O meu pai delirou com a pulseira de relógio que lhe ofereci (nem sequer era de couro verdadeiro, mas ele substituiu logo a sua pulseira já puída e ficou a admirar a nova como se fosse de ouro). Deram-me um lindo livro e eu abracei os dois.
Nem sequer tinham presentes para dar um ao outro. Que Natal tão triste! Mas os três fingíamos que assim não era. Depois do pequeno-almoço, o meu pai e eu mudámos de roupa para ir a casa da Srª. Brenner. No curto passeio, cumprimentámos e conversámos com os vizinhos que passavam, mas evitávamos deliberadamente os assuntos “Natal” e “cachorrinhos”.
O meu pai acenou-me um adeus enquanto se dirigia para a porta da cozinha dos Brenner.
Fui diretamente à casota dos cachorrinhos, no pátio de trás. Estava tudo estranhamente silencioso: nada de rosnados, de tímidos latidos e nem sequer o farfalhar do papel. Tudo parecia tão triste e sombrio como eu! O meu cérebro deu ordem para começar a limpeza, mas lá no fundo do meu coração só queria sentar-me no chão vazio e gritar.
É engraçado olhar para trás, para os dias da infância. Alguns acontecimentos são vagos, os detalhes são incompletos e as caras indefinidas. Mas lembro-me tão claramente de voltar para casa nessa tarde de Natal! De entrar na cozinha, com o aroma do assado a cozinhar lentamente no fogão… Lembro-me da minha mãe a clarear a garganta e a chamar pelo meu pai, que apareceu subitamente à entrada da sala de jantar.
Com a rouquidão na voz, ele sussurrou: “Feliz Natal, filha!” E, sorrindo, pousou suavemente a Natal, embrulhada num laço vermelho, nos meus braços. O amor dos meus pais por mim misturou-se com o meu amor arrebatador pela Natal e jorrou do meu coração, como uma radiante fonte de alegria. Nesse momento, aquele Natal tornou-se, sem sombra de dúvida, o Natal mais belo que jamais vivi!
Toni Fulco
Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
(Tradução e adaptação)

27.12.17

O NATAL E OS PINHEIROS DE NATAL





Alguns pesquisadores e estudiosos das tradições cristãs dizem que a árvore de Natal surgiu por volta do ano 1530, na Alemanha com Martinho Lutero.   
De acordo com a lenda, Lutero caminhava pela floresta e ficou encantado com a visão de um pinheiro coberto de neve e sob o brilho das estrelas no céu. Quando chegou em casa, tentou reproduzir para seus familiares a linda imagem que havia visto, usando galhos de um pinheiro, algodões (para simbolizar a neve) e algumas velas e outros adereços, imitando as estrelas.
Outra versão alega que as árvores de Natal, da forma como são conhecidas atualmente, surgiram na Alemanha entre o século XVI e XVIII. A tradição só chegou nos Estados Unidos e aos outros países europeus no século XIX.
No Brasil, o costume entre os cristãos de enfeitar árvores de Natal só apareceu no começo do século XX.
Mas segundo a Wikipédia a árvore de Natal já era usada no terceiro milénio antes de Cristo, pelas civilizações antigas, que consideravam as árvores como um símbolo divino, pois segundo eles, as árvores eram o elo de ligação das divindades mitológicas , com a terra.  Então nas festas de solstício de inverno, cortavam pequenas árvores, que levavam para casa, e as enfeitavam de forma semelhante ao que hoje fazemos. Foi, baseados nessa tradição que os germânicos, começaram a colocar presentes para as crianças, sob o carvalho sagrado de Odin.
Ainda sob o pinheiro de Natal existem muitas lendas, algumas bem bonitas. Se quiserem dar uma espreitadela AQUI e AQUI, encontrarão duas muito bonitas, que quem sabe, os vossos netos gostarão de ouvir.

26.12.17

A AVÓ E O S. NICOLAU





Vou contar uma história que se passou quando eu era criança. A história do S. Nicolau e da avó.
A minha avó era pequena e franzina e a mim parecia-me muito velhinha. Não por ter rugas ou cabelo branco, mas pela roupa que usava, sempre escura e de um corte antiquado. Também andava sempre com um avental preto, até mesmo ao Domingo. O avental dos domingos era de seda e fazia barulho ao andar.
Todos os anos, no princípio de Dezembro, a avó vinha para nossa casa. Passava o Inverno connosco na cidade. Assim que a avó chegava, começava para mim a época de Natal. Ao crepúsculo das tardes de Inverno, sentávamo-nos as duas diante do fogão de cerâmica. Era um fogão grande e verde e irradiava um calor muito confortável. Nos outros quartos, os fogões eram de ferro e raramente se acendiam.
O fogão tinha uma portinhola por detrás da qual havia uma placa de ferro onde se podia assar maçãs. Ao assar, o cheirinho espalhava-se pela sala, e a avó ia-me lendo histórias em voz alta. Também fazíamos prendas de Natal.
Mas a nossa melhor brincadeira era “Vamos a Belém”, que todos os anos repetíamos. Durava vários dias, talvez semanas até, e deixava a casa em pantanas.
Nada estava a salvo quando andávamos à procura do equipamento para a nossa viagem. Precisávamos de lençóis para a nossa tenda – em que outro sítio se poderia dormir durante a longa viagem para a Terra Santa? Precisávamos de caixas e caixotes para fazermos um barco – de que outra forma poderíamos nós atravessar o Mediterrâneo? Precisávamos de cadeiras e de cobertores para fazermos animais de carga que nos transportassem a nós e à nossa bagagem.
Nessa altura, o meu pai acabava sempre por sentir que lhe faltava qualquer coisa: o martelo, o alicate, os pregos ou o rolo da corda. Uma vez até disse que lhe tinha desaparecido a câmara-de-ar da bicicleta. E tinha razão. Tínhamos precisado dela à última hora para as nossas provisões de água. O caminho passava pelo deserto e já se sabe que os viajantes passam sede por lá, se não levarem água suficiente.
Era sempre uma longa viagem cheia de peripécias. Em terra, tínhamos de vencer lutas com bandidos e animais ferozes. No mar, passávamos por tempestades que quase afundavam o nosso barco. Uma vez, salvei a avó pela saia, mesmo no momento em que ia ser cuspida borda fora
Mas acabávamos sempre por chegar sãs e salvas a Belém. E, como por magia, sempre no dia 24 de Dezembro!
Quando a avó estava em nossa casa, também se passavam coisas misteriosas. Uma vez, ao meter-me na cama, encontrei um grão de ouro na minha almofada. Grãos de ouro! De onde é que vêm os grãos de ouro? Só podem vir das asas dos anjos! Algum anjo devia ter passado a voar sobre a minha cama!
Quando perguntei à avó, ela sorriu, mas não respondeu.
Certa manhã, apareceu uma estrela pendurada no tecto por um fio transparente. Ninguém sabia quem a tinha lá posto. Também ninguém soube explicar como é que o minúsculo presépio feito numa casca de noz fora parar no meio dos meus lápis de cor.
O facto mais maravilhoso era a minha avó conhecer o S. Nicolau. Ela conhecia-o mesmo! Eu sei! Eu estava lá quando ele falou com ela, lá no parque.
Já disse que a avó era antiquada. Mas não era só antiquada na roupa. No resto também. Falava muitas vezes do tempo em que tudo escasseava e ela achava que as pessoas deviam ser mais poupadas no dinheiro e nas coisas.
A avó era-o. Por isso queria trazer o ramo seco que estava caído no caminho.
– Ainda serve para o fogão – disse ela. – Apanha-o, por favor.
Mas eu não queria.
– Não! – disse eu. E, quando ela tentou apanhá-lo, eu afastei-o.
– Nós não apanhamos lenha. Vão levá-la a casa.
Na altura, não sabia porque tinha sido tão impertinente com a avó, mas agora penso que foi por causa das pessoas que passavam. Não queria que pensassem que precisávamos de andar a apanhar a lenha da rua.
A avó hesitou. Reparei que não sabia o que fazer.
De repente, à nossa frente, apareceu um homem idoso. Estava ali como por magia. Alto e respeitável, com uma barba branca e olhos a brilhar.
– Faça favor, minha cara e honrada senhora – disse ele com uma leve vénia. A voz era grave e sonora.
Estremeci como se tivesse sido atingida por um raio. Aquela voz! Aqueles olhos! Aquela barba branca comprida! Só podia… era, de certeza… Nem me atrevia a continuar a pensar. “Minha cara e honrada senhora”, tinha ele dito à avó. Tinha-lhe feito uma vénia e a avó sorrira e agradecera-lhe.
Depois desapareceu. Tão repentinamente como aparecera.
No caminho para casa, não abri a boca. Tropeçava nas pedras do passeio e nas tampas do saneamento, e dentro de mim ia uma grande confusão.
Agora ele viu – pensava eu. – Agora ele já sabe como é que eu às vezes me porto.
A avó caminhava ao meu lado, em silêncio. O ramo meio seco ia a arrastar pelo chão. À porta de casa, não aguentei mais. Enterrei a cara nas pregas da gabardina da avó e desatei num pranto.
A avó deixou-me chorar. Não fez nada para me consolar, e eu pensava: “Agora vai ficar zangada comigo para sempre e aquele… aquele desconhecido do parque, também.”
Mas então reparei que ela se tinha debruçado sobre mim. Sentia a sua respiração quente nos meus cabelos e ouvia-a falar-me muito baixinho. O que dizia, não percebi, porque ainda soluçava com muita força. Não conseguia parar.
A avó então afastou-me um pouco dela e perguntou:
– Queres levá-lo para cima? Já é um pouco pesado para mim.
Claro que percebi imediatamente que se referia ao ramo e por um momento, sustive a respiração. Depois remexi no bolso, tirei um lenço e assoei as lágrimas que tinha no nariz.
– Dá cá! – disse. Peguei no ramo seco e subi ruidosamente as escadas.
Metemo-lo logo no fogão de cerâmica e ouvia-o a crepitar e a estalar.
“Será que ele sabe que fui eu que o carreguei para cima?”, pensava eu. A avó acenou-me com a cabeça e riu-se. Vi então que estava tudo bem outra vez e fiquei muito feliz com isso.
Fonte 

25.12.17

O SONHO DO MENINO JESUS

O menino nasceu de um sonho
tecido como um novelo
feito com os fios de luz
de uma estrela no cabelo.
O menino olhou em volta
para ver mais adiante
e aquilo que encontrou
foi raro e deslumbrante.
Era um rei pequenino
de um reino apenas sonhado
e traçou o seu destino
num presépio acanhado.
Os poderosos de então,
fossem judeus ou romanos,
queriam-no bem vigiado
por muitos e muitos anos.
Mas ele, que nasceu livre,
em liberdade quis crescer,
seguido por gente boa
que com ele ia aprender.
E o seu maior milagre,
o que tem maior valor,
foi ter mostrado ao homem
a força que há no Amor.
José Jorge Letria

23.12.17

FELIZ NATAL AMIGOS



A todos os que durante este ano me acompanharam eu desejo um Santo e Feliz Natal, com todos os que vos são queridos.  O meu vai ser passado com um convidado indesejado que chegou esta semana. Uma crise ciática que me deixou sem me conseguir mexer durante 3 dias
Graças a Deus e às injeções de Diclofnac e Relmus, estou melhor, mas longe do que desejaria.
Pedi o pc à sobrinha para vos deixar esta mensagem, pois tudo o que tem sido publicado ficou agendado antes da viagem.
A todos um abraço de amizade, e os votos de Boas Festas.

22.12.17

HOJE É NATAL





O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.
— Ó avô, o que é que trazes?
— Tem calma, tem paciência, que logo te mostro! – aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.
— Anda lá, diz-me só a mim, que eu não digo a mais ninguém!
— As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia. Não sejas chato!
— Diz-me, que eu prometo guardar segredo! – insisti.
Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que de lá de dentro saísse qualquer coisa de mágico: um avião que voasse – vrrruuum, vrrruuummm – ou uma coisa assim… capaz de fazer pasmar os meus amigos.
Mas não. Apareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarradoscom fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.
— Avô, que prenda me vais oferecer?
— Que prenda me vais dar a mim?
Não lhe respondi. A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.
— E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?
— Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não, nunca mais te calas. Isso é uma luz para o Natal!
— É de ligar à electricidade? É de acender? É uma estrela para pôr no presépio? – perguntei, agitado.
— Não. Isto é o Espírito do Natal! – exclamou o meu avô, com mistério na voz.
— Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar, sai um génio que faz tudo o que a gente quer? Ó avô és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!
Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado, quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe:
— Venham para a mesa!
O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos.
O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.
As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:
— Te te te tzzéééé! ! ! – e abriu a porta e as luzes.
Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhoses, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.
A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava línguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.
Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e ao canto construiu uma Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro, porque pensava ele que as árvores não se deviam abater.
Disse-me uma vez:
— Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!
O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:
— Que engraçado! Nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia. Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!
Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.
E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocado azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.
Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.
Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções como se fosse um rei.
Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.
Mas não, para mim, aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.
— Ah, já me esquecia… Olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito do Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste? – pediu-me o avô Fernando.
O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.
Subi a correr as escadas que davam para o meu quarto e senti que os bichos carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:
— O que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira ou uma história do meu avô? Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.
E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse: “Diz-me, Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!”
Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:
— Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!
Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:
— Então, vens ou não?!
Desci as escadas a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.
Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal. Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.
Desenrolou, desenrolou, até que… apareceu uma simples vela de cera branca.
— Oooohhhh! Uma vela! – disse de mim para mim, muito desiludido.
Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela e colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:
— Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para mim estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua… está a tua… avó que Deus tenha…
O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.
O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.
Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:
— Então, então, pai, hoje é Natal! – falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.
— Vamos à ceia! – disse, por fim, o avô, ainda com a coragem engasgada.
Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.
O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.
Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizessem roer de inveja os colegas da rua. O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.
Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre, “cabisbundo” e “meditabaixo”, ria-se, ria-se até mais não. A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:
— Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês? Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lenta mente, ora para um lado, ora para o outro.
— Vês alguma coisa?
— Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!
— Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a saudade do amor, da amizade e da partilha das coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal. Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida. Queres que te conte?
— Conta, avô, conta!
— Mas olha que é uma história triste! Mas verdadeira!
— Não faz mal! Mesmo assim, conta!
A minha mãe e o meu pai aproximaram-se do sítio onde nós estávamos. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e, com uma voz quente e pausada…
— No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina. Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.
Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:
— Hoje é Natal!
A pouca distância de minha casa, havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha e o chão de terra batida.
O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado.
Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.
E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos: a Rosa e o Domingos.
Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada foi, um dia, transformada em pássaro negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte de D. Luís para o rio Douro.
Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda e um barqueiro que por ali andava viu-a e, remando rapidamente, retirou-a do rio, ainda com vida.
Da segunda vez que se quis matar estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma rajada empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrodilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito.
Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu duas vezes.
E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.
Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda da lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas “almas caridosas” lhe davam.
Passavam muito mal e, quando se vive assim, nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falar de prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristecer a vida de quem tem pouquinho.
— Natal é um dia como os outros! – dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.
Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, já fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves-galegas.
Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada, por lhe gastarmos da mercearia.
Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.
Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal…
— E se fôssemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos para cearem com a gente? – propôs o meu pai.
A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca da Ti Adelaide Tintureira.
Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.
Sem saber o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da minha cozinha.
Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes, acesos de alegria.
Eram os da Ti Adelaide Tintureira que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.
Quando acabámos de comer e de jogarmos o rapa a pinhões, vim cá fora e, pelo intervalo das folhas de uma laranjeira, vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.
Agora, quando olho para o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.
Quando o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.
 Fonte A

21.12.17

A LENDA DA FONTE DA PEDRA




(Curiosa esta lenda, que põe Portugal no caminho da Sagrada Família na fuga para o Egito. Mas lendas são isso mesmo, lendas)


Reza a História que, quando Herodes perseguiu São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus, eles fugiram para o Egipto. No seu percurso, passaram pela Serra da Avoaça e N. Senhora quis descansar porque estava muito cansada. Todos tinham sede  mas não se via nenhuma nascente por perto. S. José, vendo uma pedra ao pé deles, virou-se para o burro e ordenou:
– Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu  mas a pedra não tugiu!
S. José ordenou novamente:
– Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e desta vez a pedra gemeu!
S. José ordenou pela terceira vez:
– Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e a pedra chorou!
E desta forma puderam os três matar a sede. A partir daí, a nascente passou a chamar-se Fonte da Pedra e possui propriedades terapêuticas; nomeadamente, a água cura os cravos, isto é, as verrugas das mãos.
Ainda lá estão as três marcas na pedra:
A primeira está seca (não tugiu).
A segunda deita um fio de água (gemeu).
A terceira é a nascente (chorou).
Enquanto descansavam, Nossa Senhora resolveu estender a toalha sobre uma pedra para comerem algo, que a fome apertava. Pois desde então nunca mais o musgo cresceu nessa pedra, como ainda hoje se pode comprovar!
Porém, chegou a hora de continuarem a viagem e arrumaram tudo. Quando começaram a andar, Nossa Senhora prendeu o manto no mato que crescia na zona e rasgou-o. Como castigo de tal atitude, decidiu que nunca o mato cresceria, seria sempre pequeno. E assim é, visto que ainda hoje se diz que o mato é como o da Fonte da Pedra, quando se pretende explicar que é de pequena estatura.
Tinha a Sagrada Família retomado a sua marcha, quando chegaram a um terreno onde várias pessoas semeavam a terra. E pergunta S. José:
– Então que semeais aqui?
– Semeamos centeio
– Pois voltai amanhã, que pão colhereis!
E assim aconteceu: no dia seguinte, as pessoas voltaram e encontraram o terreno repleto de centeio maduro, pronto para a ceifa.
Mais à frente, Nossa Senhora e S. José encontraram outro grupo de pessoas que semeavam igualmente um terreno. E, de igual forma, pergunta S. José:
-Então, que semeais vós aqui?
Sendo estas pessoas de má índole, responderam:
– Semeamos pedras!
– Pois voltai amanhã, que pedras colhereis!
E no dia seguinte, quando as pessoas tornaram ao terreno, encontraram-no cheio de pedregulhos. Diz-se que foi na Pedriça de Unhais, onde ainda se podem ver as pedras.
Entretanto, o rei Herodes não se conformou com a fuga da Sagrada Família e mandou soldados no seu encalço. Estes seguiram o mesmo percurso da Fonte da Pedra e chegaram ao local onde o primeiro grupo de homens ceifava o terreno de centeio. Os soldados resolveram informar-se e perguntaram às pessoas:
– Viram passar um homem a conduzir um burro, onde ia uma mulher com um menino ao colo?
– Vimos, sim senhor! – responderam os ceifeiros. – Passaram aqui quando estavámos a semear este terreno!
Ao ouvir tal, exclamaram os soldados:
– Oh! Estavam a semear?! Então já passaraam há muito tempo! Já não os vamos conseguir apanhar!
E voltaram para trás, desistindo da perseguição.
Lenda popular de Alvoco da Serra, concelho de Seia
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