26.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE IX







Saiu do comboio em Lagos e apanhou um táxi para a casa paterna.
O motorista, homem novo e simpático, saiu em direção à cidade, e ao atravessar a velha ponte, chamou-lhe a atenção para a outra ponte metálica e levadiça, que dá acesso à marina, talvez pensando que se tratava de uma turista.
A jovem sorriu e apressou-se a esclarecer, que era natural de Lagos, e conhecia bem a cidade, donde se tinha ausentado apenas há três anos.
Havia muito movimento, o carro rodava devagar, pela longa Avenida dos Descobrimentos, conhecida dos lacobrigenses pela marginal, rumo ao Forte Ponta da Bandeira, donde subiria depois, para a parte alta da cidade, já que era aí a casa paterna da jovem. Reparou que a praça do Infante, em frente à Igreja de Santa Maria estava diferente, e comentou-o com o motorista.
-É o espelho de água inaugurado há dois anos. Do lado de lá, entre o Mercado de Escravos, a Igreja e o Armazém Regimental, fazem-se festas populares, em alguns fins-de-semana, entre Junho e Setembro.
O táxi continuou, a marcha até à Avenida das Comunidades Portuguesas, para depois seguir em direção à Torraltinha, local onde os pais de Beatriz viviam. Aí chegados, a jovem pagou a corrida e dirigiu-se a uma casa térrea, onde tocou a campainha.
A porta abriu-se, e um homem alto, de meia-idade, perguntou:
-Perdeste a chave?
- Não me atreveria a usá-la. Nem sequer sabia se me ias receber, -disse, com as lágrimas rolando pela face.
O pai abriu os braços e ela deixando cair a mala, aninhou-se neles.
- Perdoa-me – soluçou
- Se alguém tem que pedir perdão, esse alguém, sou eu, pela minha intransigência. Nós, os pais, esquecemos muitas vezes, que vocês têm direito a viver a vossa vida, mesmo quando achamos que vão cometer um erro. Entra. E nunca mais penses em tocar à campainha. Esta casa também é tua. A mãe está na cozinha.
Estavam os dois visivelmente emocionados. O pai empurrou-a para dentro enquanto apanhava a mala da jovem e fechava a porta.
Beatriz foi direta à cozinha, e deixou-se cair nos amorosos braços que a mãe lhe estendia.





Sabem de uma coisa? Já tenho pc. E o melhor de tudo, vou-vos contar.
Desliguei todos os cabos e abri-o. Estava a aspirar-lhe o pó, quando reparei numa pilha, redonda, tipo das dos relógios mas maior Retirei-a e pedi ao marido para ir à Vorten, ver se encontrava uma igual. Ele trouxe-a, meti-a lá, fechei a tampa e liguei os cabos. E não é que está a funcionar perfeitamente?   




25.4.17

DIA DA LIBERDADE - 25 DE ABRIL - SEMPRE







LIBERDADE


Ontem
Olhavas e fingias que não vias.
Os órfãos e viúvas de guerras inglórias
O desespero dos emigrantes clandestinos
As terras abandonadas pelo terror da fome
A força sacrifício dos ideais feitos homens
Encerrados e torturados nas prisões do meu país

Acordaste numa manhã de Abril
Espantado
Porque nas nossas mãos
A revolta era cravo rubro
Nas nossas gargantas
O medo era um hino à Liberdade
Nos nossos braços enlaçados
A força da esperança no futuro.
Acordaste...
E como quem muda de camisa
Puseste-te ao nosso lado.

Era o tempo
de fingires ser democrata...

Com a Liberdade por companheira
Entre avanços e recuos
Fomos fazendo a nossa história
Mas como joio insidioso, 
Abafando o trigo
Ias minando a caminhada
Encerrando escolas, 
Fechando fábricas.
Cortando subsídios
Aumentando o desemprego
Empurrando-nos para a emigração
Aprisionando os nossos sonhos, 
No desespero e desencanto.
Fomentavas a descrença
Para desunir o Povo


Podes continuar a tentar.
Tal como a noite tenta todos os dias
apagar o esplendor do sol
Porque hoje
O povo tem mais
Do que o sonho e a esperança
Conhece o sabor da Liberdade
Reconhece o sabor a sal
Das lágrimas
O odor do sangue derramado
Daqueles que por ela, deram a vida.

E não se deixa enganar!

elvira carvalho


E agora deixo aqui o poeminha feito pela minha neta de 8 anos pelo mesmo tema, trabalho feito para a escola.

Portugal, o 25 de Abril, a Liberdade

Portugal é um país
À beira do oceano
Onde o céu é mais azul
E o sol mais brilhante.
As pessoas são alegres
Porque são livres.
Mas nem sempre foi assim.

No século passado
O povo vivia
Em permanente tristeza
Gente sem pão
Sem paz
Sem liberdade.
Os homens
Partiam para a guerra
Ou emigravam
As mulheres esperavam-nos
Saudosas
Ou choravam-lhes a morte.
E as crianças cresciam
Sem pai.
E muitos acabavam presos
Pois não tinham liberdade
Para protestar
Da vida que tinham.

Até que numa madrugada
De Abril
Os militares cansados
Da guerra
Fizeram a revolução
Derrubaram o governo
Acabaram com a guerra
Abriram as prisões
Fizeram novas leis
E o povo soube enfim
O que era a liberdade.



Mariana Carvalho  


Bom Feriado

24.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE VIII






Uma semana depois, Beatriz encontra-se no quarto. Em cima da cama tem uma mala de viagem aberta onde guarda algumas roupas. Durante aquela semana, 
o seu rosto ganhou cor e um aspeto mais saudável. Foi uma semana complicada, entre idas ao banco, às finanças, ao médico e à companhia de seguros, em que se fartou de preencher papéis, mudar o registo da água, luz, gás. E por fim a muito dolorosa ida ao cemitério.
Agora tudo tratado, preparava-se para ir passar uns dias a Lagos com os pais. Recuperar forças e coragem para enfrentar a vida, procurar um emprego, que as poupanças no banco não eram muito grandes, e se bem que não pagava renda de casa, havia todas as outras despesas inerentes à manutenção da mesma, sem falar na alimentação.
Acabou de encher a mala. Da gaveta de mesa-de-cabeceira, retirou a primeira página de um jornal, onde se viam dois carros totalmente destruídos, guardou-a por cima da roupa e fechou a mala. Olhou para o relógio. O intercidades com destino a Faro, saía da gare do Oriente, às dez e dois. Eram nove e um quarto. Ia chamar um táxi. Preferia ir mais cedo do que se atrasar no trânsito e não chegar a horas. Verificou mais uma vez a mala de mão.  Não esquecia  de nada. Desligou as torneiras do gás, e o contador da água, mas não o contador da luz, porque tinha carne e peixe no congelador, tinha que deixá-lo ligado. Telefonou para a central a pedir um táxi, pegou na mala de viagem e na mala de mão e finalmente saiu, para esperar o carro na rua.
Chegou à estação às nove e cinquenta. O comboio já lá estava . Procurou a carruagem a que pertencia o bilhete comprado no dia anterior pela internet, e ocupou o seu lugar deixando a mala de viagem ao seu lado, pois o esforço de colocá-la no lugar correspondente na prateleira superior do comboio, podia ser demasiado perigoso, para a sua recente cirurgia.
Entreteve-se com o movimento dos restantes passageiros que iam entrando, até que o comboio deu sinal de partida. A carruagem tinha bastantes lugares vagos, mas provavelmente ainda iria encher pois efetuava várias paragens. E embora o calendário mostrasse que estavam no final de Janeiro, o tempo estava agradável e os comboios para o Algarve costumam lotar em qualquer época do ano.
Pouco depois o revisor avisou-a, que tinha que sair em Tunes e apanhar a ligação do regional para Lagos.
Estava nervosa. Há quase três anos, que não via os pais. E apesar do que a mãe lhe tinha dito, ela continuava a temer a maneira como seria recebida pelo pai.


Amanhã como já devem calcular, não haverá esta estória, pois a história do dia merece outra postagem. E ela cá estará.




23.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE VII




Limpou as lágrimas, chamou a empregada, pediu a conta e pagou.
- Vamos? – Perguntou pondo-se de pé.
- Claro, - respondeu a amiga, levantando-se e seguindo-a.
Entraram no carro, e enquanto iniciava a marcha, Clara disse:
- Tomei a liberdade de telefonar à tua mãe e contar o que se passou. Deves compreender que o teu estado era muito grave e não se sabia as implicações que podia ter. A tua mãe ficou desesperada, e contou ao teu pai. Saber-te em perigo, deixou-o cheio de remorsos com a sua intransigência. Queriam vir ver-te, mas eu disse-lhes que não valia a pena uma viagem tão longa, tu não estavas capaz para visitas. Tenho-lhes dado notícias todos os dias, mas ontem não lhes disse que já tiveste alta. Queria ver-te um pouco melhor, para que sejas tu a ligar-lhes e a dar-lhes a notícia.
Beatriz não tinha palavras. A emoção sufocava-a. Era a melhor notícia que podia ter recebido. Tinham chegado à dependência bancária.
Desapertando o cinto, voltou-se para a amiga e disse:
- Importas-te de esperar um pouco enquanto lhes telefono?
- Não, mulher. Estes dias, estou por tua conta, - disse sorrindo.
Marcou o número da mãe, e aguardou nervosa:
- Sou eu mãe, -disse engolindo um soluço quando ouviu a voz da mãe, no outro lado. – Fisicamente, estou bem, já tive alta médica, mas estou muito triste.
Calou-se escutando o que a mãe dizia.
- A Clara contou-me. Tenho tantas saudades vossas.
Escutou de novo
- Agora não posso, mãe. Tenho que tratar de várias coisas, banco, seguro, finanças, legalizar a minha situação. Mas assim que trate disto vou aí passar uns dias. Preciso tanto do teu colo. Dá um abraço ao pai por mim… Não mãe, não quero falar com ele pelo telefone. Quero olhar-lhe nos olhos, quando lhe falar. Agora desculpa, tenho de desligar. Beijos, mãe.
Desligou a chorar. Estava demasiado sensível, tudo a emocionava, tudo lhe dava vontade de chorar.
Clara esperou um pouco, e depois estendeu-lhe um lenço.
-Seca essas lágrimas ou vais entrar no banco com os olhos inchados e vermelhos. O pior já passou. Agora é olhar para a frente e enfrentar de novo a vida.

Sem pc e não tendo programadas as postagens automáticas torna-se difícil continuar.
O filhote emprestou-me a sua tablet. Mas a ver até onde sou capaz de ir com isto eu que sou um calhau com olhos com estas tecnologias.
Bom domingo

22.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE VI






Clara chegou às nove da manhã. Mal tocou a campainha, Beatriz vestiu o casaco pegou na mala e saiu.
Saudou a amiga, e entrou no carro.
- Conseguiste descansar? – Perguntou Clara.
- Mais ou menos. Importas-te, se formos primeiro a algum lado onde possa comer alguma coisa. Ontem não tive coragem de ir às compras.
- E não jantaste?
- Bebi um chá e comi duas bolachas.
- Francamente. Precisas alimentar-te como deve ser. Estiveste mal, perdeste muito sangue. Olha, vamos parar aqui. Conheço o lugar, é sossegado e servem bem.
Estacionou o carro e dirigiram-se para o interior da pastelaria. Bastante gente ao balcão, mas apenas duas mesas ocupadas. Escolheram uma junto à janela, um pouco afastada das outras.
Depois de atendidas por uma simpática empregada, Clara perguntou:
- Já decidiste o que vamos fazer hoje?
- Tenho que ir às finanças, e ao banco, mas antes gostava de saber algumas coisas que não batem certas na minha cabeça. Sei que pagaste o funeral do Jorge e do bebé. Já fazemos contas, quando for ao banco. Mas como soubeste do acidente? Quem te avisou?
- Os bombeiros. Lembras-te, que pouco depois de engravidares te disse, que devias por no telemóvel, nos números de emergência, o meu com o do Jorge? Parva o caso de precisares de alguma coisa e ele estar por exemplo em viagem? Foi por isso que os bombeiros me contataram, depois de ligarem o número do Jorge e ouvirem-no a tocar no local. Na verdade quando chegaste ao hospital, eu já lá estava. O Jorge, e a mulher do outro carro só chegaram um tempo depois, tinham ficado encarcerados. O choque foi muito violento. Segundo os bombeiros, o teu marido vinha em excesso de velocidade, não segurou o carro na curva e saiu fora de mão. Tens que contatar o seguro, eu não o podia fazer, só com procuração.
- Meu Deus! E a mulher do outro carro? Sabes alguma coisa?
- Segundo o que vinha no jornal, era professora, e deixa uma filha menor de três anos.
- Pobre criança!
Estava desolada. As lágrimas irromperam nas faces magras e sem cor.
- Coragem, amiga! Precisas de força, não os trazes de volta mortificando-te dessa maneira.
- O jornal, tens o jornal?
- Não. Mas pode conseguir-se, pedindo um exemplar desse dia à redação.



Estou com problemas no pc. Provavelmente vai ter que ir para a oficina. Parece que as férias lhe fizeram mal.
Bom fim-de-semana



21.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE V


Dormiu várias horas seguidas. Acordou com o toque do telefone.
Acendeu a luz e atendeu. Era Clara para saber como ela estava, e se precisava de alguma coisa. Acabaram combinando a hora para se encontrarem na manhã seguinte.
Clara era uma boa amiga. Era da sua terra, tinham sido amigas desde crianças. Depois o pai da jovem, fora trabalhar para Lisboa. A princípio ia todas as semanas ao Algarve. Depois arranjou uma casa na margem sul e a família mudou-se. Porém as duas jovens nunca perderam o contacto. Já adolescentes chegavam a trocar as férias. Clara ia passar duas semanas à casa de Beatriz, e na volta vinham as duas, para que a última passasse o resto do mês em Almada na casa da amiga.
Beatriz, não tinha chegado a conhecer os sogros. Eles já tinham morrido, quando conheceu Jorge. Segundo ele, o pai morrera de ataque cardíaco, a mãe de desgosto, pela perda do companheiro de toda a vida.
Já era noite. Tinha que fechar as persianas. Foi até à janela. Lá fora o céu estava estrelado. Havia poucas pessoas na rua. Quase todas jovens. Fechou a persiana e foi fazer o mesmo nas outras divisões.
Voltou a percorrer a casa. Como se não soubesse bem o que fazia, ou o que fazer. Pensou ligar para os pais. Será que eles tinham sabido da sua situação? Eles não lhe tinham perdoado, o facto de ter fugido com o namorado. O pai, homem rude e de princípios rígidos chegara mesmo a dizer que para ele a filha morrera.
Sem forças para contrariar o marido a mãe limitara-se a chorar.
Não vieram ao casamento, apesar de os ter convidado, mas ainda assim ela mandara-lhe a fotografia do casamento na igreja e o número de telefone.
Algum tempo depois a mãe ligou-lhe. Sem o marido saber. E foi assim nos últimos tempos. Quando a saudade apertava e a mãe estava só em casa, ligava para a filha.
Beatriz nunca o fazia. Tinha receio de provocar a ira do pai.
Se a mãe tinha ligado nos últimos tempos, ela não sabia. Tinha saudades deles. Queria contar o que se tinha passado. Receber o carinho e apoio deles. Mas receava a intransigência do pai.
Era melhor esperar pelo dia seguinte. Aconselhar-se com a amiga.


20.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE IV





Casaram três meses depois. E ficaram a viver  naquele apartamento, que ele tinha herdado dos pais, e que tinha sido remodelado há pouco tempo, pois que pensava vendê-lo antes de a conhecer.
Pouco tempo depois do casamento, já Beatriz se dava conta que o marido, estava mais para sapo do que para príncipe. Jorge tinha tanto de sedutor como de imaturo e irresponsável. E as discussões começaram. Ao fim de dois anos, saturada e convencida, que o marido nunca deixaria de ser um garoto mimado, ela começava a ponderar a hipótese de divórcio, mas nessa altura descobriu que estava grávida e decidiu esperar até a criança nascer. Quem sabe a paternidade fazia de Jorge um homem mais responsável, na vida pessoal, já que profissionalmente parecia outro homem.
Três semanas antes, o marido insistira para que o acompanhasse à festa anual da empresa. Sem muita vontade, e para não arranjar outra briga, ela acompanhou-o. Porém durante a festa, ele bebeu demais, e mesmo na sua presença, não se coibiu de galantear outras mulheres. Magoada, Beatriz pediu para regressarem a casa. Alegou que não se sentia muito bem. Jorge abandonou a festa de má vontade, e mal entraram no automóvel, começou a discussão.
Ela não deu resposta, e isso em vez de o acalmar, exasperou-o.
Não se lembra, de outra coisa depois disso. Apenas dum enorme estrondo, como se um trovão rebentasse sobre a sua cabeça. E mergulhou na escuridão.
Depois só recorda, a voz de Clara, muito distante, conversando com ela, qualquer coisa que não entendia. Com esforço abriu os olhos e a amiga, imediatamente tocou a campainha, a chamar a enfermeira.
Mais tarde veio o médico. Só nessa altura, Beatriz ficou sabendo que o marido chegara ao hospital já sem vida. E que ela fizera uma rotura do baço, tivera que ser operada, tinha várias feridas, perdera muito sangue, e apesar de todos os esforços médicos, fora impossível salvar o bebé. Estivera dezasseis dias em coma.
Levantou-se. Guardou o pote das bolachas, lavou a chávena, e foi à casa de banho, onde lavou o rosto. Olhou-se no espelho. Parecia ter envelhecido dez anos.
Abriu a única porta que se mantinha fechada e acendeu a luz. Era um quarto de bebé, completamente decorado e pronto para receber um bebé que já não ia chegar. Sentia-se perdida. Tinha decorado aquele quarto com tanto amor. Fechou a porta com raiva. Revoltada com a vida, e as suas partidas.



Estou de volta. Agradeço a todos os amigos que passaram por aqui e comentaram durante os 15 dias que eu estive fora. Bem hajam amigos.
Hoje mesmo retomarei as visitas às vossas "casas".
Esta estória, não começou muito bem. Mas às vezes os maus começos dão ótimos fins. Será o caso desta estória?


19.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE III


Saiu da sala e entrou na porta ao lado. Abriu a persiana, e encontrou-se no quarto, onde a cama de casal merecia destaque, a par do enorme roupeiro de portas de correr em espelho, que davam a ilusão dum tamanho muito maior ao já espaçoso quarto. Voltou à cozinha e abriu as cartas. Faturas da luz, gás, e das telecomunicações. Não se preocupou, eram pagas por débito direto, já teriam saído da conta.
Pensou que teria que ir ao banco, encerrar a conta conjunta, e abrir outra pessoal. Ir às finanças, ao registo, legalizar a sua situação como viúva. Tanta coisa para fazer e ela sem forças físicas nem morais, para isso. Teria de pedir a Clara, se ela poderia ir com ela resolver esses assuntos.
Colocou a publicidade no receptor para a reciclagem, e guardou as faturas na gaveta que guardava para elas. Sentia-se extremamente cansada, resultado das quase três semanas em coma. Deveria comer qualquer coisa, mas não tinha pão em casa para fazer uma torrada, e era impensável ir à rua comprá-lo. Pôs a chaleira ao lume com água. Abriu um armário e retirou um pote de vidro, meio de bolachas de água e sal, e um pacotinho de chá de cidreira. Tirou uma chávena, colocou-lhe dentro o pacotinho, despejou-lhe em cima a água que entretanto fervera, e levando a chávena para a mesa sentou-se.
Enquanto bebia o chá, a gaveta da memória abriu-se, e as lembranças voaram livres à sua roda, como borboletas em prado florido. E eram tantas e tão intensas, que o ar na cozinha se tornou rarefeito, e ela sentiu um aperto no peito. De forma inconsciente a sua mão direita desceu e acariciou o ventre liso, enquanto as lágrimas rolavam pela face pálida.
Três semanas antes ela estava grávida de seis meses. O seu casamento não estava muito bem, mas a criança que crescia no seu ventre era muito amada, e ansiosamente esperada. Porém naquele fatídico dia, Jorge tinha uma festa, da empresa. Ela bem que não queria ir. Mas ele insistiu tanto que acabou fazendo-lhe a vontade.
Jorge era um homem bonito e bem-sucedido. Ela conhecera-o num bar em Lagos, cidade onde vivia e onde ele fora passar férias. Foi uma paixão fulminante, que ela confundiu com amor. Os pais opuseram-se ao casamento, mas ela não lhes deu ouvidos. Era maior de idade, não precisava do consentimento deles.
Veio viver com ele, para Lisboa, mesmo sem ter casado.

18.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE II

O quadro é obra minha. Foi uma prenda de casamento para a Beatriz. Rsrsrs.



Sentiu um baque no peito. Apesar de não ser ela quem conduzia o carro no momento do acidente, sentia-se culpada por ele. Se não tivesse aceitado ir aquela festa, quem sabe o marido teria também ficado em casa. Se quando viu que ele estava demasiado embriagado tivesse insistido para virem de táxi, quem sabe teria convencido Jorge a deixar lá o carro. Mas de que adiantava agora, todas aquelas hipóteses, se já nada podia voltar a ser como dantes?
Desapertou o cinto de segurança, abraçou a amiga, e ainda antes de abandonar o carro disse:
-Telefona-me à noite para combinarmos a hora amanhã.
Com passos trémulos, encaminhou-se para a entrada do prédio. Oxalá não encontrasse nenhum vizinho. Não se achava com forças para conversas. Abriu a porta de entrada, a caixa de correio, da qual retirou três cartas e muita publicidade, e subiu ao primeiro andar, onde morava.
Abriu a porta, acendeu a luz, e fechou de novo a porta com duas voltas de chave.
Viu-se numa pequena saleta de formato quadrado, com uma pequena mesa de apoio, encimada por um grande espelho. Cinco portas eram visíveis da entrada, mas apenas três se encontravam abertas.
Beatriz entrou na primeira e dirigiu-se à janela, para abrir a persiana.
Estava numa grande e espaçosa cozinha, com armários e eletrodomésticos embutidos, em forma de L. Impecavelmente brancos, com tampo de mármore granitado preto. Na parede oposta, uma mesa branca, retangular com tampo de mármore igual ao balcão. Sobre ela, uma fruteira em vidro com três maças, três peras e três laranjas duas das quais já apodrecidas. Completava a cozinha, seis robustas cadeiras brancas com acento de palhinha.
Ela apanhou as laranjas, e abrindo a porta do armário jogou-as no caixote do lixo. Deu graças por tê-lo despejado antes de saírem. Se não o tivesse feito, depois destas três semanas de ausência, o cheiro na cozinha seria insuportável.
Poisou o correio na mesa e saindo entrou na porta ao lado. Abriu a persiana e a luz iluminou uma sala grande, com um móvel de cerejeira ocupando toda a parede. No centro um televisor, que pelo tamanho mais parecia um pequeno ecrã cinematográfico. 
Por cima e nas laterais, vários livros, alguns bibelôs, e duas molduras.
Na parede contrária, um grande sofá preto, sobre o qual várias almofadas em forma de coração, vermelhas. Por cima do sofá uma grande tela com desenhos geométricos. Ao lado do sofá uma lareira.
No chão de mármore, uma grande carpete preta, e sobre ela uma mesa baixa de ferro forjado preta, com tampo de vidro. Sobre esta, uma cabeça de cavalo pintada de negro.




17.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE I



                                           



A mulher que percorria o enorme átrio do hospital, caminhava com passos inseguros. Era alta, e a pele morena, apresentava uma palidez típica de pessoa que está doente, ou acaba de sair de algum grave problema de saúde.
O sol forte do meio da tarde, saudou-a à saída. Percorreu com o olhar o espaço, talvez procurando alguém que não estava. Parecia indecisa.
Talvez não se sentisse com coragem para encetar uma caminhada.
Ensaiou uns passos para descer a rampa junto à porta do hospital e eis que um carro se aproxima e trava junto dela.
Aproximou-se, abriu a porta e entrou. A mulher ao volante desculpou-se ao mesmo tempo que a saudava carinhosamente.
- Desculpa, ter-me atrasado. O trânsito está infernal. Como te sentes hoje?
- Destroçada. Como se me tivessem arrancado as entranhas.
O carro arrancou e por momentos fez-se silêncio. Notava-se que a jovem fazia um grande esforço para não chorar.
Clara, a mulher ao volante do carro, perguntou:
- Deram-te alta, apenas? O médico não te aconselhou acompanhamento psicológico?
-Sim. Deu-me até uma carta para levar. Mas não sei se vou. Preciso repensar toda a minha vida.
-Porque não vais uns tempos para o Algarve, para casa dos teus pais? Mudar de ambiente, poderia ser benéfico nesta altura.
- Não sei. Sabes que casei contra a vontade deles, que não gostavam do Jorge. Meu pai rejeitou-me. Nunca mais lá voltei. Gostava de lá ir, apenas uns dias para lhes dar um abraço. Quando se vê a morte tão perto, é que damos importância, aos verdadeiros afetos. Mas não sei sequer se me receberiam.
O carro tinha chegado a uma rua, na periferia da cidade. Parou num dos estacionamentos vagos junto a um edifício de três andares.
- Vou subir contigo Beatriz.
-Não. Agradeço-te imenso, tudo o que fizeste por mim durante este tempo. O carinho e a amizade que me dispensaste. Uma irmã não teria feito melhor. Cem anos que viva, nunca me vou esquecer. Mas quero enfrentar isto, sozinha. Amanhã, se puderes, vens tomar um café comigo. Preciso saber tanta coisa. E fazermos contas, já que foste tu quem pagou os funerais.
Desatou a chorar. A amiga abraçou-a.
- Vês, porque é melhor, eu subir contigo, Beatriz? Não estás em condições de ires sozinha. E não te preocupes com as contas, isso tem tempo, não me está a fazer falta.
- Não. Já estou melhor. Diz-me só, e o outro carro? Que aconteceu aos ocupantes?
- Era uma mulher. Teve morte imediata.



13.4.17

PÁSCOA FELIZ



AMIGOS a partir de hoje, até dia 17, não haverão postagens novas. Páscoa é tempo de Renovação. Então com um novo coração, pleno de amor,  desejo-vos uma Santa e Feliz Páscoa, junto dos vossos familiares e amigos. Que ELE esteja convosco.
Na segunda feira iniciarei mais um conto-novela, que já está programado, mas continuarei sem vos poder visitar, pois que só regresso no dia 20.

6.4.17

PENSAMENTO DO DIA


Um muito obrigado a todos pelo vosso carinho ontem. Que Deus vos abençoe.
Amigos, vou de férias. A partir de hoje as postagens serão automáticas,  lá não tenho internet e pelo Smartphone não consigo  comentar-vos. 
Quando voltar, há uma nova estória para publicar.
Até lá desejo a todos uma Santa e Feliz Páscoa.

5.4.17

FELIZ ANIVERSÁRIO ... VEZES TRÊS



Parabéns Amor.  Agradeço a Deus todos os dias, por ter-me abençoado com teu amor.


BENDITO SEJA O DIA


Bendito seja o sol, por dar luz ao dia.
Benditas as flores que perfumam a natureza. 
Bendito o sorriso no rosto da criança, 
Pela sua inocência
Pela sua alegria. 
Bendita a água da fonte, 
Por saciar a nossa sede.
Benditas sejam as árvores que purificam 
o ar que respiramos, e nos dão
frutos e sombra. 
Benditas sejam a lua, e as estrelas
Que dão luz à noite
E iluminam os nossos sonhos. 
Benditos sejam o céu, a terra e o mar
Que possibilitam a nossa vida
Bendito seja o olhar dos apaixonados
Pelo amor que irradiam.
E bendito seja o dia de hoje
Pelo teu aniversário.



Também neste dia, mas no longínquo ano de 1972, nos casamos na catedral de N.ª S.ª de Fátima em Nampula.
Já mostrei fotos do primeiro casamento, lembram-se? Deixo aqui, agora, as do segundo. Mudei o corte do cabelo, o vestido, a cidade. Mudei até de continente. Só não mudei de marido, porque já tinha o melhor que havia.

na Igreja
No carro

                                          Em casa



Por último para um amigo, um bloguer que também hoje é aniversariante, e que até é um Querido, 😄 os meus parabéns. Longa vida com saúde e alegria.






4.4.17

INÊS




Naquele fim de tarde, Inês estava sentada à beira mar, os olhos fitos no horizonte, onde céu e mar se pareciam fundir num abraço.
Era uma jovem e bonita mulher, e o seu corpo elegante, ostentava uma proeminente barriga de grávida, que de vez em quando ela acaricia com nostalgia. Da gaveta da memória, saltam recordações, que se espalham à sua volta, dançam ao seu redor, como borboletas loucas. E de repente se juntam, e o mar não é mais mar, mas uma tela gigante, onde se projeta um filme. Mas este não é um filme qualquer. É um filme onde ela tem um dos papéis principais. É… a película, da sua vida. E lá está João, com o seu maravilhoso sorriso, que lhe ilumina a face e lhe põe um brilho no olhar, capaz de fazer inveja à estrela mais brilhante. E o seu rosto enche por completo todo o ecrã. Desvia o olhar para a areia à sua volta, e o rosto dele sai da tela, espalha-se pela areia, beijando os seus pés nus, rodeando o seu corpo saudoso.
João, o grande amor da sua vida. O homem com quem casou, o amante que lhe ensinou todos os segredos do amor, que lhe despertou os sentidos, e os desejos.
João fora a Primavera, que fizera desabrochar e resplandecer a rosa que habitava, num recôndito da sua alma. 
Ao lado de João, Inês tinha tudo para ser uma mulher feliz.
E contudo não o era.  João era militar, várias noites por obrigação ficava no quartel, e essas noites eram uma tortura para ela.                                 
Não que ela fosse uma mulher insaciável, que não pudesse passar uma noite sem fazer amor. Nada disso. Mas era nessas noites de solidão, que os fantasmas da guerra e da profissão do marido, se vinham deitar com ela, e a amedrontavam de tal modo que a faziam passar a noite insone.
E um dia, o que mais temia aconteceu. João foi destacado para uma missão no Kosovo. O tempo que a missão durou, foi de angústia, temor e saudade. Apesar de todos os dias falarem ao telemóvel, estes demoravam a passar e as noites de insónia, na solidão do leito de casal pareciam eternas.
O dia em que ele voltou foi de enorme alegria. O mês de férias que se seguiu, foi intensamente vivido pelo casal, numa espécie de segunda lua-de-mel. Um mês depois de João ter retomado o serviço no quartel, o seu comportamento começou a mudar. Primeiro eram dores de cabeça, depois cansaço, falta de apetite. Decorridos apenas dois meses, João não parecia o mesmo. Tinha emagrecido, estava sempre cansado, enjoado e por vezes tinha vómitos. Foi ao médico no quartel e depois fez imensos exames, foram-lhe dados alguns medicamentos, mas apesar disso não melhorava, antes pelo contrário, ia piorando, todos os dias um pouco, de tal modo que duas semanas depois da primeira consulta, foi hospitalizado. O cabelo caía, a cor desaparecia rapidamente do seu rosto e os vómitos e diarreias tornaram-se frequentes. Os médicos não respondiam às perguntas do casal, como se houvesse qualquer coisa estranha, que eles não queriam, ou não podiam divulgar.
Pouco menos de um mês durou o internamento de João que faleceu numa tarde de chuva no hospital militar.
Louca de dor, Inês fechou-se no quarto sem querer ver nem falar com ninguém. Não suportava a ausência do marido, não podia, nem queria, viver sem ele.
Compadecida a mãe tentava arrancá-la daquele desespero. E foi num desses momentos que Inês  desmaiou nos braços da mãe. Apavorada, pensando que a filha pudesse ter sido contagiada  pelo marido e ter a mesma doença, chamou o médico.
Este, depois de a examinar, disse sorrindo que não era nada grave. Apenas uma nova vida vinha a caminho. Inês ia ser mãe.
Foi um balsamo para o coração sofrido da jovem. A esperança de vir a ter nos braços um filho, fruto do grande amor que a unira ao marido, encheu de paz o seu espírito revoltado. E fez as pazes com a vida.
Por esses dias Inês recebeu um relatório do quartel. Segundo esse relatório, João morrera vítima de um envenenamento radioativo.
Apavorada Inês correu para o seu médico. Fez imensos exames, para ver como estava o bebé, mas estava tudo bem com ele. Claro que o médico não excluía a hipótese de problemas futuros, mas não passavam de hipóteses e de momento estava tudo bem.
A mãe de Inês dizia: “quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela”.
Por isso, hoje, a jovem acaricia a sua proeminente barriga, acreditando que a criança que carrega no ventre, é a janela que Deus abriu para ela.


Elvira Carvalho