16.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIX




Eles continuaram o passeio, mas a alegria que Sofia sentira até aí, já não era a mesma. Era como se uma sombra negra pairasse entre eles.
Decorridos uns minutos, ela perguntou suavemente:
-Dói muito?
Ele olhou-a surpreendido. Encolheu os ombros e respondeu.
-Já foi pior.
A resposta deixou-a cheia de esperança.
Talvez ela ainda tivesse hipótese de conquistar o marido.
Aos poucos Sofia ia conhecendo uma realidade muito diferente daquela que conhecera em Portugal. Não só porque fora de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, como pela mentalidade das pessoas, e até pela posição privilegiada de que gozava. Mas o que mais a admirava, era mesmo a diferença de mentalidades. Na sua aldeia, as pessoas viviam presas ao passado, buscando nele, a conformação para o presente. Diziam que apesar das dificuldades, que passavam, não se podiam queixar, porque os seus pais tinham vivido pior. Não fora o medo da guerra, ou da prisão, e a escassez de trabalho, talvez nem houvesse tanta gente a procurar na emigração a solução para as suas vidas. Em França, as pessoas viviam pensando no futuro. Não queriam pensar no passado, nem encontrar nele,  desculpas para não lutarem pelo futuro que desejavam. Talvez fosse influência da guerra recente. Excetuando os mais jovens, os outros tinham-na ainda bem presente. Ou talvez consequências do movimento grevista, iniciado em Maio de sessenta e oito. Os salários tinham aumentado consideravelmente, havia mais gente a estudar, e as minorias ganhavam novas regalias.
Num dos seus passeios no dia de folga, foram até à gare de Austerlitz, e Sofia ficou espantada com a quantidade de portugueses que chegavam de comboio. Sabia que era grande o afluxo de conterrâneos, mas nunca imaginou que fossem tantos. Segundo Quim, havia três fatores importantes, que levavam a que a França fosse o país de eleição dos emigrantes portugueses. O país aceitava a emigração clandestina, facilitava a legalização, e não exigia qualificação na mão-de-obra.
Entretanto o frio chegara. Aproximava-se o Inverno, a neve caía com frequência.
Em casa tudo estava na mesma. O "casal" falava de tudo, menos de si próprios. Quim era gentil, preocupava-se com o seu bem-estar, mas não demonstrava outro sentimento que não fosse atribuído a uma boa amizade. Ele era um homem vivido, já tinha tido namoradas, amigas. Sofia, era uma menina ingénua que desde que terminara o curso aos quinze anos, praticamente vivera enclausurada em casa.

17 comentários:

Os olhares da Gracinha! disse...

A pouco e pouco ... vão conhecendo! Bj

✿ chica disse...

Tenho pena dela que sente um pouco de amor por ele e ainda nada vê...Tomara consiga! bjs, chica

Edumanes disse...

Está difícil. A Sofia resta-lhe a esperança. Todavia, o tempo passa. Quim, não ata nem desata. Continua pensando na Joana. Só em ficção, porque na vida real, não sei se Sofia, ainda continuaria a ter esperança de poder ser feliz com um homem que se calhar pensa mais na Joana do que nela Sofia!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Li de um fôlego todos os episódios desta sua nova história e adorei. O enredo é muito bonito e causa bastante suspense.
Vamos aguardar os novos desenvolvimentos.
Um beijinho,
Ailime

maria disse...

Enfim... e pensar que a realidade descrita, até aqui, é um retrato fiel daquela época!!!

Prata da casa disse...

Uma boa amizade está-se a formar.
Bjn
Márcia

Rui disse...

Ora bem, Elvira. Acho tudo normal, tudo dentro de uma lógica e de acordo com a época e num país de emigração, tudo bem !
Há no entanto uma coisa que me deixa na dúvida e apreensivo :
Neste último parágrafo, fico com a impressão de que, apesar da enorme amizade e de uma certa paixão até por parte da "noiva", passado um mês de vida em comum, fico com a impressão que a relação entre eles não passa de uma boa amizade, sem qualquer outro sentimento. Continua uma menina ingénua desde os 15 anos, praticamente enclausurada em casa ! ... Será isso normal ? ... ou passou-me qualquer coisa ?...
(??)

Abraço

Roselia Bezerra disse...

Boa noite, querida Elvira!
Nada mal casar-se com um grande amigo... to gostando...
Bjm muito fraterno

Tintinaine disse...

A coisa continua lenta, mas eu não desisto. Tantas vezes hei-de vir aqui que o Jaquim se há-de decidir a avançar!!!

Majo Dutra disse...

Muita água vai passar debaixo da ponte...
Estou a gostar.
Abraço, Elvira.
~~~~~~~~~~

Elisa Bernardo disse...

Passei para vir matar saudades, saber de si, e mandar lhe um grande beijinho

Odete Ferreira disse...

Amiga: gosto das particularidades que estás a introduzir na narrativa, no que respeita ao sócio- político de ambos os países; gosto também da relevância dada à atração da Sofia pelo que é diferente, a tal diferença de mentalidades que, no caso do Quim, a levou a admirá-lo e a amá-lo.
Bjo :)

Pedro Coimbra disse...

Ainda estão em fase de negação.
Um abraço, bfds

Roaquim Rosa disse...

bom dia
já não há muito mais para dizer a não ser aguardar e esperar que a Luisa ganhe essa batalha.
JAFR

aluap Al disse...

Os pensamentos da Sofia fazem todos o sentido, afinal aprendemos na escola que nós portugueses somos o caldeamento de várias raças e os árabes terão deixado um pouco da sua resignação e conformismo, que fez de nós um ser agarrado às tradições, sem espírito de iniciativa, durante muitos séculos.
As pessoas das aldeias passavam toda a sua vida (se não iam à tropa) entre os horizontes arejados em que nasceram e o grande sonho era deixar aos filhos, melhorado, se possível, o que já herdaram dos seus pais.
Claro que isto está desactualizado, pois a partir da década de 60 e 70 o desejo de aventura aliado a uma verdadeira necessidade em melhorar "a negra vida", uns influenciando outros, muitos portugueses seguiram com a sua vida noutros lugares. Não esquecendo a Guerra Colonial que também determinou algumas partidas de jovens em fuga da tropa.
Este episódio retrata bem essa época, muitos emigrantes a chegar a França de comboio.

Fernanda Maria disse...

Bem, acho que a Sofia tem que se insinuar um pouco mais para conquistar o marido :)

beijinho

Rosemildo Sales Furtado disse...

Acredito que a falta de reciprocidade por parte do Quim, com relação ao amor que a Sofia sente por ele, só aumentará a emoção e o amor dela, quando ele descobrir que a ama e declarar seu amor para ela.

Abraços,

Furtado