Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta silêncio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta silêncio. Mostrar todas as mensagens

2.7.24

SAUDADES - ELVIRA CARVALHO




 SAUDADES


Tenho saudade

Do tempo em que a minha casa

era um palácio.

Tinha por rei o Amor

e  por rainha a Felicidade.

Tenho saudade, 

do tempo que passava

Sentada no chão

Com a cabeça nos teus joelhos,

sentindo a doce carícia

dos teus dedos no meu cabelo,

tão suaves como brisa de verão.

E em silêncio vivíamos

o amor que nos unia.

Tenho saudades, amor

dos passeios de mão dada

dos sorrisos cúmplices

em palavras trocadas.

Agora a nossa casa

já não é um palácio.

Os reis partiram contigo

as paredes perderam o calor

e um silêncio de chumbo

espalhou-se pela casa,

trazendo consigo a dor

 e a saudade. 

Elvira Carvalho

21.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLI



Na casa o silêncio era rei absoluto. Estendido sobre a cama Tiago pensava em Anabela. Por mais que pensasse, desde que ela chegara à quinta há quase um mês, a vida na casa mudara. Isilda e o marido, falavam dela com carinho e admiração e inicialmente isso exacerbara a sua raiva, pois ele já tinha decidido que mais valia deixar-se cair no abismo da morte, do que lutar por uma vida em que estivesse morto como homem, pois mesmo que recuperasse o movimento total das pernas, nunca se sentiria mais do que um meio homem, um eunuco.

Porém ela conseguira impor a sua vontade e ele não podia deixar de admirar a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Tiago sentia-se perdido entre sentimentos complexos por aquela mulher, que não tendo uma beleza de estrela de revista era na verdade muito bonita. Por um lado havia uma grande admiração, um desejo de ganhar a sua amizade, por outro uma raiva sem fim, porque ele sabia que nunca mais podia aspirar a ter uma vida normal. Afinal tinham passado 5 meses depois do acidente, e nunca mais tinha tido uma ereção, nem sequer quando acordava de manhã com vontade de urinar.

A conversa de dias atrás com Anabela, mostrara-lhe uma mulher muito sofrida, embora ela não quisesse adiantar muito sobre a sua vida, pelo que Tiago telefonara ao tio e conseguira saber que era viúva e que o marido aparecera morto, segundo a polícia por um gangue qualquer.

A noite sem dormir, e o silêncio que reinava na casa, fizeram com que quase sem dar por isso Tiago caísse no sono.

E desta vez não foi o pesadelo que lhe veio ensombrar o descanso, mas Anabela. No sonho ele estava a trabalhar numa clínica onde ela era enfermeira. E não uma enfermeira qualquer, mas a sua assistente, em todas as cirurgias. E mais do que isso, eles estavam apaixonados. Naquele dia ele acabara de a pedir em casamento e de lhe colocar no dedo um lindo anel com uma esmeralda, a pedra preferida dela. E depois eles beijaram-se. O gosto dela era inesquecivelmente doce. O seu cheiro a champô e sabonete enlouquecia-o. E o beijo foi intenso, cheio de amor e paixão como são os beijos de quem está prestes a casar-se.

De súbito, o beijo era na testa, e a voz de Anabela, parecia-se demais com a voz da sua mãe.

-Tiago, meu filho, acabámos de chegar.  Como estás?

A custo ele abriu os olhos para ver a figura da mãe, inclinada sobre ele. Ia responder um tanto irritado, por ter sido obrigado a sair do sonho, quando uma sensação estranha o fez olhar para baixo e abrir os olhos de espanto, ao mesmo templo que estendia a mão e puxava rapidamente a colcha para cima, antes que a mãe se apercebesse da enorme ereção que indiscreta levantava as calcas do pijama.

 

17.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXX


Apesar do cansaço, Anabela tardou a adormecer. Estava habituada ao ruído constante da cidade, durante praticamente toda a noite. Estranhava o silêncio da casa, no meio da quinta, afastada da estrada principal. Ali só o galo que vira, durante o passeio pela quinta, à tarde, no galinheiro, rodeado de galinhas, como um sultão no harém, podia cantar, mas ainda faltavam umas horas para a madrugada.

Por outro lado, não podia esquecer o doente no andar inferior, nem a sua estanha atitude. Depois de tudo o que o doutor Azevedo e o Joaquim lhe contaram sobre o  jeito intratável com que reagia às profissionais que a antecederam, ela preparara-se mentalmente para uma luta diária. Porém depois do mau génio demonstrado quando ela lhe fora apresentada, a atitude do doente mudou por completo.

 Quando nessa noite lhe levara o jantar, esperava outra demonstração de fúria e má educação do doente, mas em vez disso ele mostrara que sabia ser um homem educado. Que pretenderia com a nova atitude? Esperava que ela baixasse a guarda para então lhe infernizar a vida? Devia ser isso, ou então Nossa Senhora dos Milagres passou por lá e ninguém mais deu por isso. Sim porque ela não acreditava que tivesse sido o seu sermão, que lhe tivesse mudado a atitude. Nunca acreditara em vitórias fáceis, talvez porque na sua vida nada fora fácil.

Por tudo o que lhe contaram, Anabela sentia uma profunda admiração pelo homem que tanto se preocupava com os desvalidos da sorte, a ponto de largar a sua vida de conforto e pô-la ao serviço de quem nada tinha. Por outro lado, não podia deixar de se compadecer, pela sua situação atual.

Porém, esse era um sentimento, que não podia de modo algum deixar transparecer na frente dele. Se Tiago se apercebesse de qualquer tipo de compaixão, ia lutar contra a sua vontade, fazendo-lhe a vida negra e atrasando consideravelmente a sua recuperação. Se não suportava a compaixão dos que ele amava, pais e tio, muito menos suportaria a sua, que era uma desconhecida.

Anabela preocupava-se com a magreza excessiva do doente, com os músculos enfraquecidos e atrofiados, pelo longo tempo no leito. Acreditava que durante o tempo no hospital, lhe tivessem feito alguma fisioterapia, porém há dois meses que ele estava na quinta enfiado na cama, sem qualquer espécie de tratamento.

 E segundo Joaquim, só saía da cama, pela manhã para o duche diário. Ela já vira a casa de banho, sem banheira, apenas o chão liso, de modo que a cadeira de rodas se deslocasse até debaixo do chuveiro.

 Enquanto ele estava no banho, Isilda entrava no quarto, fazia a cama e aspirava o chão. Quando Tiago saía o empregado ajudava-o a meter-se de novo na cama, arrumava a cadeira e ia buscar o pequeno-almoço

Deu uma volta na cama, ajeitou o travesseiro e deixou-se invadir pelo esquecimento, nos braços tentadores de Hypnos.

 

 


16.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXV


Levantou-se e foi até á janela. Por momentos o silêncio pesou sobre eles. Depois Luísa levantou-se e foi até ele. Pôs-lhe a mão no ombro.

- Olha para mim, Nuno. Olha-me bem nos olhos e diz-me o que vês? É por acaso compaixão? Eu olho para ti e vejo o homem maravilhoso que sempre foste. Um homem bom, um idealista que pôs toda a sua vida ao serviço dos outros, salvando dezenas ou centenas de vidas. Um excelente médico que ainda há pouco tempo salvou a vida dos meus alunos. Um homem que apesar de tudo ainda me olha com amor. Isto é o que vejo, e será o que qualquer pessoa verá. A prótese? É mais um testemunho da excelente pessoa que és.

-É fácil falar assim. Estás a ver-me vestido, e graças a Deus que me adaptei bem, nem sequer claudico, ninguém imagina que não estou inteiro. Mas já me imaginaste na intimidade, quando formos para a cama? Já te imaginaste a fazer amor com um aleijado?

- Parece-me que o aleijão está mais na tua cabeça do que na perna. Imagino que o teu orgulho, não te deixou ter acompanhamento psicológico. Desde quando um homem é, ou deixa de ser inteiro, por uma perna ou um braço amputado? Se tivesses uma doença mental, que não fosses capaz de reconhecer o bem do mal, que fosses incapaz de sentir qualquer sentimento, aí sim, dir-se-ia que não estavas inteiro. Tens medo de ir para a cama comigo? Acaso pensas que eu também não tenho medo? Que eu não penso se tudo o que passei não me tornou numa mulher frígida? Disseste há pouco que o amor que nos uniu, ainda está latente entre nós. Eu sei que sempre te amei, embora tivesse perdido as esperanças de algum dia voltar a encontrar-te. Mas a vida se encarregou de nos conduzir a esta encruzilhada, e só vejo dois caminhos a seguir. Ou  damos uma hipótese, ao amor que ainda nos une, fazendo renascer os sonhos que tivemos em comum, de sermos felizes, ou nos recolhemos cada um à sua toca e levamos o resto da vida a lamber as próprias feridas.  

Calou-se. Ficaram assim frente a frente, fitando-se, olho no olho, durante largos minutos.
- Tens coragem para arriscar? – perguntou ele com voz rouca
- Pensas que te abriria o coração desta maneira se assim não fosse? Mas não se trata apenas de mim. Nem tu, nem eu sabemos como vou reagir na intimidade. Tu também tens muito a arriscar.  Agora é melhor que te vás. Pensa em tudo o que falámos, aqui, esta noite. Esquece os teus complexos. Interroga o teu coração e a tua mente, e vê se tens coragem para arriscar a única hipótese que ainda temos de ser felizes. E quando tiveres a certeza do que queres, sabes que estou sempre aqui.

Ele não respondeu. Encaminhou-se para a porta. Aí chegado, rodeou-lhe a cintura com um braço e puxou-a para si. Lentamente baixou a cabeça, e aprisionou a boca feminina, num beijo  que ele desejava fosse uma terna despedida, mas que se tornou intenso e apaixonado ao encontrar correspondência.
Subitamente largou-a, e saiu batendo a porta.



26.11.21

JOANA

( Nota, esta historia foi escrita e publicada em 2013. Na altura em dois capítulos. Reedito-a agora num só capítulo.)

De súbito o silêncio no quarto foi quebrado por um entrecortado gemido. Logo de seguida, Joana acordou. Às escuras sentou-se na cama, tentando não acordar o homem que dormia a seu lado.

Passou a mão pela testa, onde gotas de suor atestavam a aflição do pesadelo que acabara de ter. Suspirou. A luz da lua entrava pela porta semiaberta da varanda. Estendeu o braço, apanhou o roupão de cetim, e vestiu-o. Enfiou os chinelos e dirigiu-se à varanda. Sentia-se sufocar. Ficava sempre assim quando tinha aquele pesadelo. Na varanda olhou para baixo. A rua estava deserta.
 
Olhou o céu e pensou vagamente, se o céu da sua terra seria assim.  Ouvia falar muito da beleza das noites de África. Mas ela não se lembrava. Também pudera, tinha dois anos quando se dera a revolução dos cravos e logo depois o pai que era militar, regressou. Por isso Joana não se lembrava da sua terra. E a bem da verdade só muito raramente se lembrava que não era de Lisboa. 

Lançou um breve olhar para o quarto. Lá dentro o marido dormia tranquilamente. Joana suspirou e pensou que era melhor assim. Ela já tinha a noite estragada, não remediava nada se ele acordasse. Na verdade, seria até pior; pois a solicitude do marido só ia fazê-la sentir-se mais inútil, mais culpada.

 Era uma bonita mulher. Quase beirando os quarenta, tinha uma aparência de menina que a fazia parecer bem mais nova. Corpo bem modelado, pele morena. Os cabelos castanhos-claros tinham reflexos dourados que contrastavam com os olhos escuros. Era uma bonita mulher, mas tinha um problema.  Era estéril. O seu ventre, era terra árida, que não dava fruto. Esse era o problema que lhe roubava o sono.

Joana, - recordou como conheceu o marido. Tinha acabado o curso de Administração. Durante os estudos nunca conheceu ninguém que verdadeiramente lhe interessasse. Acabado o curso, e quando procurava uma empresa à qual se candidatara, cruzou-se com um garboso polícia, que lhe chamou a atenção. Ainda hoje não sabe se foi o seu jeito, se o fascínio da farda que lhe despertou a atenção. Uma semana depois, tinha-o à sua espera. Sem a farda, quase nem o reconheceu. Mas falaram-se e apaixonaram-se. Foi tudo muito rápido. Menos de um ano e casavam-se, numa bonita cerimónia numa aldeia lá para os lados da serra da Estrela, donde os seus pais eram naturais.

Tinham combinado que durante um ano não teriam filhos. Era um tempo de conhecimento e namoro que se concediam. E foi um ano de sonho. Ricardo era um homem apaixonado, bem-humorado, além de  partilhar as tarefas caseiras.

Aquele ano passou a correr e logo, logo estavam a fazer planos para o nascimento do primeiro filho. Mas o tempo foi correndo e o filho não vinha.

Desesperada Joana procurou ajuda médica. Ricardo acompanhou-a, e fez com ela toda a panóplia de exames que o médico pediu. E quando os resultados chegaram, veio a confirmação de que ela era estéril. O médico explicou-lhe que talvez não fosse irremediável. Afinal agora havia uma série de medicamentos novos que já tinham resolvido muitos casos como o dela. Joana sentiu que alguma coisa morria dentro dela. Desde pequena que sonhava ser mãe. Sentir dia a dia uma pequena vida a crescer dentro de si. Sentir o fruto do seu amor nos braços.

Quis morrer juntamente com os seus sonhos. Nessa altura Ricardo impôs-se com todo o seu carinho a sua solicitude, e a sua esperança.

"Deixa lá, somos jovens podemos esperar. Desses tratamentos, algum há de resultar, e um dia ainda teremos o nosso bebé" dizia-lhe enquanto tentava esconder o seu próprio desânimo.

E já lá iam dez anos. Dez anos de luta, de tratamentos, de esperança, e desespero. Um dia, um outro médico falou-lhes em inseminação artificial. Apesar de ser caríssimo avançaram para a inseminação. Não resultou à primeira. Raramente resulta - diziam-lhes familiares e amigos. É preciso insistir. 


Todavia  Ricardo decidiu que não se iriam submeter a uma segunda. Era por demais dolorosa, aquela espera, aquele morrer da ilusão.

Foi pouco depois que começaram os pesadelos da Joana. No sonho ela via-se no cemitério a assistir ao funeral do marido. E acordava desesperada. Aconselhada por uma amiga, consultou um psiquiatra. Que lhe disse, que o que ela tinha era um medo inconsciente, de que devido ao facto de não ser mãe, o marido a deixasse. Esse medo era trazido à superfície durante o sono, com o pesadelo da morte do marido. Porque, - disse-lhe o psiquiatra, - a morte era a separação que ela temia. Aconselhou-lhe uma conversa franca com o marido e uma possível adoção.

Joana, não se importava de ter um filho adotivo. Era uma criança a quem ela daria todo o imenso amor que lhe ia no peito. Porém pela primeira vez, Ricardo não esteve do seu lado. Ele negou-se redondamente a adotar uma criança. Disse que se Deus não quisera dar-lhes um filho, que não iam afrontar a Sua vontade, que a amava da mesma maneira e outras coisas que nem se lembra. E desde então voltaram os pesadelos.

Limpou as lágrimas e voltou ao quarto, enquanto num recanto qualquer da memória, ouvia a voz da avó recitando uma passagem da Bíblia.
-Árvore que não dá fruto, corta-se pela raiz...


FIM

Maria Elvira Carvalho

7.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Mais um mês se passou, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado. 
Gabriel  que viajara para o estrangeiro, já estava ausente há quatro dias, quando o inspetor se apresentou naquela tarde, no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar essas dívidas. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento das mesmas.
- Então e agora? – perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- E isso ainda vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não posso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular, a pedido do Gabriel, de quem sou amigo desde criança. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade, na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E eu só posso contar com o meu ordenado.
- Todavia vai ter que nomear um, para que possa tratar do caso e apresentar ao juiz as provas que inocentam o seu pai. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu lhe entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai vai poder provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até, ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes importantes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me telefone logo que possível.


28.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XII






No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando a hora da reunião.
Gabriel, chegou um pouco antes da hora marcada, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Cinco minutos mais tarde chegou Sandra. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. O empresário ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana anterior. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel  apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fez. Parece que andou por aqui, vasculhando o escritório dele, tentando encontrar alguma prova para ilibar o seu pai. Isso quer dizer que está convencida que seu pai é mesmo inocente. Posso saber o que lhe dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim própria, senhor.
- Muito bem. Porém deve saber, que na maioria das vezes, as nossas certezas são falsas. Às vezes a pessoa tem tentações a que não consegue resistir.
- Não o meu pai. E se o senhor não acredita que ele está inocente, não vai ajudar-me em nada. O melhor é ir-me embora, - disse levantando-se.
- Por favor sente-se e acalme-se. O Gabriel pediu-me ajuda e eu vim. Isso significa que quero ajudar. Deve compreender que na minha profissão, somos desconfiados por natureza e não conheço o seu pai. Tudo o que lhe possa perguntar, será o mesmo que perguntaria em qualquer outro caso em que estivesse envolvido, na certeza de que procurarei acima de tudo a verdade. Nem por amizade ou mesmo laços familiares eu falsearia um resultado. Entendeu? 
-Sim. Peço desculpa!
-Não precisa. Sei que para si a situação é muito dolorosa. Voltando à nossa conversa. Que mais lhe disse o seu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse-me que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha roubado o dinheiro.
-E ele desconfiava de alguém em particular?
- Não.
- E a Sandra? Desconfiou de alguém?
Ela enrubesceu e olhou para Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, talvez estivesse magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- Sim. Quando descobri que o senhor Gabriel Santana, comprou a parte do seu sócio, poucos meses depois da condenação do meu pai, acreditei que ele poderia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte.
- E por isso conseguiu o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. A empresa onde trabalhara até pouco tempo antes, mudara a sede para o norte do país e eu não podia afastar-me de Lisboa, por causa das visitas ao meu pai e então despedi-me. Procurava emprego, quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- É muito bonita, Sandra. Esperava apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado? - perguntou o inspetor olhando para o amigo com estranheza. 
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


E porque amanhã é um dia de festa, não haverá esta história. Mas por favor não faltem. Estão todos convidados.


24.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Mas tem que haver alguém, que ficou com  esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe por quem, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu? Foi dele a ideia de me espiares?
- Não! Ele nem sequer sabe que deixei o meu emprego anterior, e que sou agora a sua secretária. E ele não desconfia de ninguém em particular. Fui eu que desconfiei do senhor, quando soube que tinha comprado a parte do seu sócio, pouco tempo depois, e era agora o único dono da empresa.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim - concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar seriamente em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, na segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. Quase quatro anos a lutar contra aquela dor. Anos em que se deitava e se levantava a pensar em como estaria o pai. No dia seguinte era dia de o visitar. Esperava duas semanas por aquele dia  e quando ele se aproximava ficava à beira de um ataque de nervos, por não saber como ia encontrá-lo. Era deprimente e desanimador. E o pior, era ter que fingir que estava tudo bem para que o pai não ficasse ainda mais abatido.
 Por outro lado, ter sido descoberta era como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser apanhada, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar, que só não era total, pela preocupação constante com o pai.
Mas agora tinha outra preocupação. E se Gabriel a despedisse? Atualmente havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de lhe ter dito que desconfiava dele e andara a vasculhar no seu escritório – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou um pouco  sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.



26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia? 

25.12.19

CONTOS DE NATAL - UM NATAL CHEIO DE TERNURA



Há já muitos anos que o ursinho se mantinha quieto na prateleira de madeira. A fita vermelha que trazia ao pescoço perdera a frescura de outrora e o pelo amarrotado e coberto de poeira começava a ficar cinzento. Os seus olhos, porém, continuavam a brilhar tanto como quando uma criança pegara nele ao colo pela primeira vez.

Naquela noite, o ursinho pôs-se a caminho. Saiu do quarto em silêncio e deixou a casa. O vento gelado que soprava na rua fê-lo estremecer, mas o pequeno urso apertou as pontas do laço e, com o passo acelerado, chegou ao armazém abandonado e esperou.
À semelhança dele, todos os ursinhos da cidade se tinham posto a caminho. Pé ante pé, tinham todos saído dos baús de brinquedos, das caminhas fofas, das caixas enfeitadas e das montras iluminadas para mergulhar na noite.
Foram chegando um a um: havia ursinhos elegantes, fofos, rechonchudos, magricelas, grandes, pequenos, e malandros com asas de anjo. Quando o último chegou, o sino da igreja bateu as doze badaladas.
O ursinho cumprimentou-os a todos e acenou com a cabeça. Era o sinal.
Centenas de patinhas de veludo atiraram-se ao trabalho: os ursinhos treparam a telhados, varandas, caleiras, chaminés, goteiras e correram para dentro das casas. Em seguida, aspiraram o ar com os seus delicados focinhos e foram direitos aos presentes que se encontravam debaixo dos pinheiros.
Começaram a abrir os embrulhos todos: em sacos muito grandes, guardaram frascos de perfume, lápis de cor, carrinhos e patins. Nada foi esquecido, nem sequer um lenço de seda ou uma gravata.
Depois, em cada caixa, em vez de prendas, deixaram um bilhete com frases escritas pelas suas patitas. Em seguida, foram esconder os verdadeiros presentes num local secreto. E, tão silenciosamente como tinham chegado, voltaram para as suas prateleiras, camas, caixas, montras e baús, como se nada tivesse acontecido.
No dia seguinte, as pessoas ficaram dececionadas com a partida que lhes fora pregada!
Ao encontrarem bilhetes escritos dentro dos embrulhos, as crianças desataram a chorar. Para onde teriam levado as prendas?
Mas, sentadas debaixo do pinheiro, a pouco e pouco começaram a reler os bilhetinhos, que diziam coisas como «Gosto muito de ti», «Penso em ti», «Em breve, irei visitar-te».
Foi então que todos pensaram nas pessoas que não podiam estar com eles naquela noite de festa e que deviam sentir-se ainda mais sós do que nos outros dias.
Decidiram vestir os casacos e pôr-se a caminho.
Foram ver a avó que vivia sozinha, uma tia que estava no hospital, um vizinho que tinha a família longe…
Ninguém ficou esquecido. Só depois se puderam ouvir risos nas casas iluminadas e uma cidade inteira a cantar “Feliz Natal!”
Depois da festa, as pessoas dormiram felizes e em paz, pois acabavam de viver um Natal maravilhoso. E, enquanto sonhavam, patinhas de veludo vieram repor os presentes debaixo dos pinheiros…
O ursinho de pelo desgrenhado e laço vermelho continua à espera na prateleira. Mas o pó do pelo cinzento desapareceu e os seus olhos brilham agora como nunca.
Bruno Hächler
Un Noël de tendresse
Zurich, Editions Nord-Sud, 2000
(Tradução e adaptação

FELIZ NATAL

27.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVII

No dia seguinte acordou cedo. Tinha dormido vestido sobre a cama. Despiu-se e tomou um duche retemperador. Depois olhou-se ao espelho demoradamente. Não por vaidade, mas tentando descobrir algum sinal da doença que o minava. Mas não. Tinha um ar saudável capaz de fazer inveja a qualquer um. Fez a barba, e escolheu uma roupa simples e desportiva. Olhou o calendário. Era sexta-feira. O médico daria consulta às sextas? Tinha que ir lá rapidamente. Pegou uma maçã e saiu para a rua. A mãe dissera que vinha logo de manhã, de táxi. De Santarém ao Barreiro, não demorava muito. Logo, logo estaria aí, pensava enquanto comprava o jornal. E não se enganou, pois ao voltar encontrou a mãe no momento da chegada. Não se conteve e depois de a abraçar pegou-lhe ao colo e rodopiou com ela como não fazia há muito. Finalmente em casa, a mãe queria saber de tudo. Como estava a tia, se tinha gostado da terra, se tinha encontrado alguma cachopa bonita, um nunca mais acabar de perguntas. E andava à sua volta mirando-o, como se de um monumento se tratasse.
E ele falou. Contou como gostara da terra, e da tia. Falou da dona Célia, do pequeno Pedro e da Rita. E desta, falou com tal entusiasmo que a mãe adivinhou logo a paixão no seu peito. Quando ele se calou a mãe ficou em silêncio olhando-o. Depois levantou-se e dirigiu-se à cozinha, tentando ocultar uma lágrima, que teimosa queria escapar dos seus olhos. Pedro percebeu porque a mãe não queria fazer comentários. Ela julgava que ele se declarara e não era correspondido. O almoço decorreu em silêncio.A mãe entristecida com o suposto desgosto do filho, e este só pensando na sua visita ao médico. 



14.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE VI





- Um cancro, Doutor? - a voz saiu-lhe a medo, certo da resposta.
O médico assentiu em silêncio. Depois...
- Mais concretamente, uma leucemia. Existem vários tipos de leucemia e alguns são agudos, e estes são muito rápidos. Creio que é o seu caso atendendo a ser a primeira vez que se queixa e aos valores que as análises apresentam.
O silêncio que se seguiu parecia de chumbo. Por fim, Pedro perguntou:
- Não se pode fazer nada?
 –Com estes valores é impossível. Se me tivesse procurado mais cedo, eu podia enviá-lo para um hospital em Lisboa, onde lhe fariam um mielograma,  para terem uma noção exata do estádio em que se encontrava a doença, e com transfusões de sangue e quimioterapia, podiam controlá-la, até fazer um transplante de medula, única hipótese de cura.  Neste momento é demasiado tarde. A doença está na fase terminal, só um milagre o poderia salvar. Lamento, não sabe o que me custa dizer-lhe isto, mas como o senhor disse, tem direito à verdade. Segundo o laboratório diz aqui, porque os resultados eram muito graves eles tiveram o cuidado de os confirmar. Se quiser pode procurar outro médico. Num caso destes, está no seu direito de duvidar do meu diagnóstico.
- Obrigado Doutor, confio no senhor, não tenciono consultar mais ninguém.
Naquele momento, Pedro sentia vontade de gritar, de bater no médico, de destruir o mundo. À raiva inicial, seguiu-se uma enorme vontade de correr para casa, esconder a cara no regaço materno, e chorar como fazia em criança, quando alguma coisa o fazia sofrer. Por fim, sentindo a cada momento as forças a desmoronar dentro de si, perguntou:
- Quanto tempo? Quanto tempo me resta?
 – Não sei, ninguém pode dizer com precisão. Algumas semanas, um mês, no máximo uns três meses.
- Obrigado, Doutor, muito obrigado.
Levantou-se e dirigiu-se para a porta, sob o olhar consternado do clínico
 – As suas análises -lembrou o médico.
 Saiu sem se voltar, como se não o tivesse ouvido.  




14.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIV







No dia seguinte às onze horas o telemóvel tocou.
- Falaste com ele? – Perguntou ansioso
- Acabei de o fazer.
- Disseste-lhe que sou seu pai, e que quero vê-lo?
- Sim.
- E ele?
- Ficou muito feliz. Nunca tinha percebido o desejo que ele tinha, de ter um pai, presente. Queria saber quando vens. Disse-lhe que vinhas jantar.
Fez-se silêncio do outro lado.
- Que foi? Arrependeste-te? Devia imaginar! - Indignou-se ela ao pensar na decepção do menino.
- Muito mal me julgas, - disse com tristeza. - Escuta, não tens com quem deixá-lo após o almoço? Quero mostrar-te uma coisa, antes de me encontrar com o nosso filho. É muito importante para mim, para ele, para todos nós.
Que poderia ser tão importante assim? E que relação poderia ter com Martim? E, com quem deixar o menino num domingo, dois dias antes do Natal? Será que os padrinhos poderiam ficar com ele?
- Então? Posso ir buscar-te?
- Não sei. Vou telefonar à Luísa. Se ela não puder ficar com ele, não poderei ir. Telefona-me dentro de meia hora.
Desligou, e marcou o número da amiga.
- Luísa?
- Olha que milagre! Pensei que te tinhas esquecido de nós.
- Não. Aconteceram muitas coisas. O Rui descobriu o Martim
- O quê? Como foi isso?
- Depois conto-te. Agora o que interessa é que o Martim já sabe que o pai voltou, que vai chegar esta noite para jantar, mas o Rui quer que eu vá sair esta tarde com ele. Diz que é muito importante, algo que tem para me mostrar ou dizer, antes de conhecer o filho. Tenho medo, de que possa ser alguma coisa genética, sei lá. Estou apavorada. Podes ficar com o Martim?
- Claro que sim, mulher. Estava a pensar levar o André ao circo esta tarde. Aproveito e levo os dois. E não te preocupes. Não deve ser nada de importante.
- Obrigada. Nem sei como te agradecer. O Martim vai ficar radiante quando souber que vai ao circo.
Desligou o telefone e chamou o filho
- Chamaste mamã?
- Sim filho. A madrinha vem buscar-te a seguir ao almoço. Vai levar-te ao  circo com o André.
- Que bom! -Gritou o garoto, batendo as palmas.
Voltou para a sala, onde estava a ver os desenhos animados.
O telemóvel voltou a tocar.
- Então?
- Vem buscar-me às duas e meia.
- Obrigado.
Desligou o aparelho com uma interrogação:
Aquele obrigado, soara-lhe como um soluço contido, ou fora ilusão sua?