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12.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVIII


Ele engoliu em seco. Naquele preciso momento deu-se conta de que não queria aquele negócio. Queria a mulher que estava a seu lado, queria o seu amor. Ricardo tinha razão. Tinha que remediar o mal que tinha feito. Tinha que lhe abrir o coração e contar toda a verdade. Só então poderia aspirar ao amor da esposa.Ergueu a mão e acariciou suavemente o rosto feminino. Decidido retomou a palavra. - Penso que temos que ter uma conversa séria. Espero que tenhas paciência para me ouvir, porque mesmo correndo o risco de te perder, acho que chegou o momento de te abrir o coração,- disse ele abraçando o corpo feminino.
 Impressionada com o tom de seriedade que ele usou, Joana limpou as lágrimas no dorso da mão, e aninhou a cabeça no seu ombro, num gesto que ele interpretou como sendo de confiança.
- A minha infância não foi fácil. Cresci com o meu pai, um homem cheio de amargura, porque a mulher que ele amava, fugiu com outro homem, deixando-o para trás com o filho de ambos para criar. Meu pai deu-me tudo o que o dinheiro podia comprar, boas roupas, bons colégios um curso superior. Também me ensinou tudo o que sabia, só não me ensinou a amar porque o seu coração estava morto para o amor.
 Eu era muito pequeno, não tenho nenhuma memória da minha mãe. A única lembrança de um afago feminino, é da minha tia quando nos visitava. Cresci a pensar que as mulheres não prestavam e jurei a mim mesmo, que nunca ia sofrer por causa de nenhuma. Por isso quando o meu pai morreu, eu dediquei-me por completo aos negócios e a ser cada dia mais rico. Nunca levei as mulheres a sério, eram capazes de tudo por dinheiro, e eu tinha muito. De modo que sempre tive as que quis, quando quis. Sei que devo parecer-te muito cínico, mas eu prometi ser sincero e posso ser desagradável, desprezível até, mas não vou retocar o retrato mentindo. Há cerca de dois anos, comecei a pensar que me tinha matado a trabalhar e não tinha um herdeiro a quem deixar o fruto do meu trabalho. Pensei arranjar uma mulher que estivesse disposta a casar comigo, e dar-me um filho, a troco de uma vida de luxo. Conheci uma jovem cujos pais tinham mais pose que dinheiro e pensei que tinha encontrado a mulher ideal, mas ela era muito frívola, e a única coisa que lhe interessava era andar de festa em festa, exibindo-me como se eu fosse um troféu. Cansado, tinha decidido acabar com aquela espécie de relação, quando tu apareceste no escritório, com o nosso filho. Quando vi a foto da tua irmã com o namorado, descobri que o menino era filho do meu primo Paulo Amado, o único filho da minha tia Conceição. Desde pequeno,  quando queria fazer alguma coisa que sabia não ser correta, ele usava o meu nome. Não tens noção das vezes que paguei, por asneiras dele. Por favor, deixa-me continuar, - disse ao ver que ela se mexia inquieta.  
-Sim a tia São, é tão avó do Pedro como a tua mãe. Quando o descobri, pensei que tinha achado a solução para o meu problema. Casando contigo, e adotando o Pedro, eu teria um herdeiro do meu sangue. Por outro lado, tinha a certeza de que ele seria a salvação da minha tia que definhava dia a dia. O Paulo, nunca foi flor que se cheirasse, mas era o seu único filho e ela amava-o muito. 
- Então ela sabia que o menino era seu neto, quando vinha sempre visitá-lo?
-Sabia. E ambos esperávamos que tu a convidasses a vir viver com a tua mãe. O que tu fizeste sem que nenhum de nós tenha tentado influenciar-te.
-E porque tinhas tanta certeza de que o faria?
-Porque tens um coração do tamanho do mundo. E sabendo como a tua mãe sofre pela morte da tua irmã, ias apiedar-te da minha tia. A solução era boa para as duas, e tu além de teres bom coração, és uma mulher inteligente.


20.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIV


Nos primeiros dias de Janeiro, a tia Délia sofreu um  ataque cardíaco, que foi a machadada final na sua frágil saúde. Faleceu no mesmo dia.
Sofia, desdobrou-se no apoio ao marido e ao tio, que estava inconsolável. O restaurante foi fechado durante uns dias, e quando reabriu, Sofia que continuava desempregada começou por dar uma ajuda, já que o tio não saía de casa e definhava dia a dia, mas acabou por assumir toda a parte de gerência do mesmo. Um mês depois, o tio não suportando mais a ausência da mulher que amara, partiu também. Foi mais um rude golpe para Quim. E mais uma vez a mulher esteve a seu lado como um pilar de apoio.
Foi nessa altura, depois do funeral do tio, depois da demonstração de um momento de fraqueza e vulnerabilidade de Quim, que eles se tornaram verdadeiramente um casal. Foi amor? Ela não sabia. Da parte dela, sim, conhecia os seus sentimentos, há muito tempo estava apaixonada pelo marido. Da parte dele, não sabia. Talvez não passasse da necessidade de mitigar a dor da perda daqueles que amara como pais. Talvez fosse um desejo instintivo, próprio de homem, por uma mulher jovem e bonita, que afinal até era sua esposa.
Ela não sabia. E para ser verdadeira consigo mesmo, nem lhe importava. Tinha vinte anos, viviam na mesma casa há mais de quatro meses. Certo que ele lhe tinha confessado amar outra mulher. Que lhe tinha pedido paciência. Mas ela reconhecia que não era muito paciente. Talvez mais tarde se arrependesse, mas naquele momento entregava-se de corpo e alma compensando com amor, a inexperiência que recorria do facto de ser virgem.