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13.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVIII







Nessa mesmo dia, depois do almoço, que pela primeira vez desde que se mudara para aquela casa, Teresa fez mais cedo, para comer à mesa com João, ele lembrou a promessa que ela fizera de tomar uma decisão após os três meses.

- Muito bem, - disse ela – promessas são para se cumprir. Se tiveres um tempo livre, podemos fazê-lo em seguida, na sala.

- Mas não te queres deitar agora, para descansares um pouco?

- Não. Há seis semanas que praticamente não saio da cama. Estou cansada do descanso, - disse sorrindo.  Vou só ao quarto para tomar as vitaminas, e avisar a Sandra de que pode ir almoçar, uma vez que ela não quis vir almoçar connosco. Espera-me na sala.

Ele ficou ali, a vê-la afastar-se pelo corredor, o olhar perdido na saia rodada de flores miudinhas, dançando à volta das esbeltas pernas da jovem.

Pouco depois as duas estavam de volta, e enquanto Sandra se dirigia à cozinha, Teresa encaminhou-se para ele que lhe deu o braço e disse:

-Vamos para o escritório. Tens lá o mesmo conforto e temos maior privacidade. Sandra, – disse dirigindo-se à enfermeira - pode usar a sala depois do almoço, se quiser ver TV ou ler. Não precisa estar metida no quarto, uma vez que a Teresa lá não está.

Já no escritório-biblioteca, depois da jovem se ter acomodado no sofá, ele puxou um cadeirão e sentou-se frente a ela.

Por momentos ficaram os dois calados, como se nenhum deles soubesse como começar uma conversa, que punha em jogo a vida de cinco pessoas. Então Teresa começou:

-Há uns meses atrás, eu tinha um sonho. Queria muito ser mãe, mas por tudo o que já te contei, e não vou repetir, decidi ser mãe solteira. Tinha e tenho uma boa situação financeira, uma habitação que embora não se possa comparar com esta casa é um bom apartamento como viste, e está situada numa excelente zona. 

Tenho uma casa e um terreno numa aldeia no Norte, perto do rio e a menos de um quilómetro de umas termas bastante frequentadas. Cheguei a pensar vender a pastelaria, e a casa e construir nesse terreno, uma pensão rural. Nas termas existem bons hotéis, mas há muitos locais perto, que são cada vez mais procurados pelo turismo e não há nada de turismo rural nem lá nem nas localidades mais próximas. 

Claro que eu não estava a pensar conhecer o pai do meu filho, nem dividir com ele a sua educação e muito menos, que em vez de um bebé, viessem três e, portanto, sinceramente não sei como dar volta a esta situação. E tu, que pensas?

- Durante estas seis semanas conversámos muito, contei-te coisas que nunca me atrevera a contar a ninguém de modo que me conheces suficientemente bem para que não te escandalize o que vou dizer. Quando entraste no meu escritório e me disseste que trazias no ventre o meu filho, imediatamente pensei que iria propor-te casamento.

 Acredito que a educação de uma criança não fica completa, vivendo apenas com um dos progenitores. Por razões que bem conheces, não acreditava no amor, não confiava nas mulheres, e pensei que quando chegasse a hora te proporia o casamento como se de um negócio se tratasse. Era bom para o bebé viver com os dois, e a relação de amizade de que falavas não me convencia, pois, amigos não vivem juntos, e eu não aceitaria ver o meu filho, apenas quando tu estivesses disposta a permiti-lo.

 Por outro lado, imaginava que em qualquer altura, podias arranjar  um companheiro, ou muito simplesmente mudares de ideia e desaparecer com a criança e  eu não queria o meu filho a ser criado por outro homem, muito menos ver-me envolvido numa longa batalha judicial pela guarda da criança.


Amigos, estive ontem e vou estar hoje a descansar os olhos. 

Espero que no sábado, já esteja suficientemente bem para 

voltar ao vosso convívio.

6.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVIII


- Não conheço a tua irmã, mas vou dar o meu melhor, para que seja uma festa memorável.
-Quer isso dizer que voltas a confiar em mim?
- Será difícil de entender, que embora pareça, que me conheces bem, eu não me lembro de ti? Meu pai disse-me que o tinhas arruinado, e que exigias casar comigo para o tirar do buraco onde tu mesmo o tinhas metido. Tu apareces na minha empresa, e dizes que só lhe fizeste semelhante proposta, porque sabias que eu não ia aceitar. O que me leva a pensar que era uma nova forma de te vingares dele, por algo que te fez e que não me contas. Dizes que porás de parte a vingança a troco da realização da festa da tua irmã. Confiante aceito fazer a festa, e três dias depois, executas a hipoteca. Parece um jogo do gato e do rato, sendo eu o rato. Estou muito cansada, tenho trabalhado, quase noite e dia. Põe-te no meu lugar e responde à tua própria pergunta.
- Não confias, mas sendo a profissional responsável que és, farás a melhor das festas que fizeste até hoje.
Abriu uma gaveta, retirou um envelope grande, e estendeu-lho:
- Vê o que há nesse envelope.
Ela retirou do envelope uma série de documentos e analisou-os. Tratava-se de toda a documentação da “Casa Nova”.
-São os documentos que meu pai te entregou?- Perguntou encarando-o.
- Como vês estão aí todos, inclusive o resgate da hipoteca do teu pai, ao Banco. Com ela na mão a empresa volta a ser do teu pai, pois possuí-la, prova que a dívida foi paga. Pois bem se me prometes que não lhos dás antes da festa da Gabi, são teus.
-Quer dizer que se eu te fizer essa promessa os posso levar?
-Exatamente isso.
-E quem te diz, que não vou sair por aquela porta, entregar os documentos ao meu pai e desistir de fazer a festa da tua irmã?
-Acredito na tua palavra. Sei que cumprirás o que me prometeres.
Ela voltou a guardar todos os documentos no envelope e estendeu-lho.
- Podes voltar a guardá-lo. Entendi a lição. Desculpa o destempero com que entrei aqui, e a minha dúvida. Não voltará a acontecer. Tenho que ir. Estou a acabar os pormenores de uma festa para depois de amanhã, no Estoril. No dia seguinte, entro em contacto contigo para que me digas onde se realizará a festa, já que no “email” que mandaste não especificaste o local, e só depois de o ver posso organizar tudo.
- Muito bem. Fico há espera. Enviei – te o número do meu telemóvel pessoal.  
Levantaram-se os dois ao mesmo tempo. Ela estendeu-lhe a mão, que ele apertou entre as suas, como se a acariciasse. Ela corou e apressou-se a retirar a mão. Voltou-lhe as costas, dirigindo-se à porta e saiu fechando-a suavemente atrás de si.
Pensativo António voltou a sentar-se. Cada dia gostava mais da jovem. Dava parte da sua fortuna, para que ela sentisse por ele, a mesma emoção que lhe despertava. Tinha elaborado aquela estratégia com a intenção de ganhar a sua confiança. Sabia que ela estava desiludida com os homens. Sabia que  fora traída. E isso devia ser um espinho cravado no seu peito. Para ganhar o seu amor tinha que ganhar primeiro a sua confiança.


30.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIII





-Mas, que pode ter trazido aqui, o todo-poderoso António Ferreira, que não a sua maldita vingança?
- Continuas muito nervosa, e isso não se coaduna com uma profissional do teu gabarito. Se me conhecesses um pouco, saberias que nunca viria até aqui, para saborear uma vingança da qual não fazes parte.
- Como não, se fizeste semelhante oferta ao meu pai?
-Se por um momento sequer, imaginasse que eras capaz de aceitar, nunca teria feito essa oferta. Não me interessaria por semelhante mulher.
Encarou-o incrédula.
-Meu Deus! O homem é louco!
Ele distendeu os lábios num sorriso que não chegou aos olhos.
-Talvez o seja, mas deixa-me continuar. Não sei se sabes, mas não costumo frequentar festas. Tenho vivido apenas para o trabalho e penso que está na hora de desfrutar um pouco mais das coisas boas da vida. Minha irmã celebra no fim do mês dez anos de casamento. Quando ela casou, a minha vida não era tão abastada como hoje, e apesar de ter ajudado como pude para que tivesse um dia bonito, não foi possível fazer grande coisa. Agora pretendo oferecer-lhe a festa que não teve na altura. Uma coisa para ela recordar a vida inteira. Por isso vim. Para contratar a melhor produtora de eventos do país.
-Estás a  dizer-me, que vieste aqui contratar os meus serviços para realizar a festa das bodas de estanho da tua irmã?
- Qual é a admiração? Estou habituado a contratar sempre os melhores serviços do mercado.
-Sinceramente espanta-me que me julgasses capaz de trabalhar para ti, depois de arruinares a minha família.
- Nem mesmo se eu te prometer desistir de me vingar do teu pai?
- Como assim se já o arruinaste? Se como disseste tens a hipoteca da firma e ele não tem com resgatá-la?
-Imagina que cumpro a promessa que fiz a teu pai, não em troca de casares comigo, como lhe fiz crer, mas de que realizes essa festa?
- Farias isso?
- Podes crer. Proporcionas um dia de sonho à minha irmã, e eu salvo o teu pai.
- Deves amar muito a tua irmã! Mas…como posso ter certeza de que farás o que dizes?
- Não terás. Ou confias em mim e arriscas, ou não confias, - disse mergulhando o olhar, no mar revolto do olhar feminino.
Incapaz de sustentar muito tempo o olhar masculino, ela pegou num bloco e numa caneta e perguntou:
- Como queres que seja essa festa? Para quantos convidados? Com ou sem renovação de votos? O casamento foi civil ou religioso?
- Obrigado por teres aceitado. Com renovação de votos e o casamento foi religioso. Amanhã mando-te por "email" a lista dos convidados, e o nome do restaurante que fornecerá o "catering", que claro será um dos meus. O resto deixo com a tua imaginação e tenho a certeza que será uma festa muito bonita.



13.1.19

ELISA II

reedição
Elisa viu-se nessa altura obrigada a contar a verdade aos pais. Tinha que deixar o filho com alguém para ganhar-lhe o sustento. E quem melhor que os pais? O pai só lhe disse que devia ter contado antes. E que tomaria conta do neto, como se fora um filho. Elisa deixou o filho lá na aldeia e veio para Lisboa ser criada de servir. Não pensava em namorados. Tudo o que juntava mandava para os pais, para o sustento do filho. Mas um dia conheceu o António. António era moço de Lisboa, com muito mais experiência de vida, e não foi difícil dar a volta à cabeça da jovem. Prometeu-lhe casamento, criar-lhe o filho, dar-lhe até o seu nome. Elisa ia viver com ele, e logo que acabasse a tropa, tratavam do casório. E mandavam vir o filho. Elisa acreditou. E um tempo depois deu-se conta que estava outra vez grávida. Quando António soube da gravidez, os seus modos alteraram-se. Começou a chegar cada dia mais tarde, com a desculpa de que tinha serviço no quartel. E um dia deixou de aparecer. Elisa foi ao quartel. Queria saber o que se passava. Mas lá disseram-lhe que ele tinha pedido para ser transferido. E começou novo calvário para Elisa. Quando o adiantado estado de gravidez não a deixava já trabalhar, recorreu à instituição de Santa Zita, que a ajudou até que a menina nasceu, bem como nos primeiros tempos, até que ela conseguiu com a ajuda da instituição arranjar trabalho.
A vida de Elisa foi uma vida de escravidão ao trabalho para criar os filhos. Porque depois da morte da mãe, teve que ir buscar o filho mais velho, para junto de si. Foi pai e mãe dos filhos.
Nunca mais quis ouvir falar de homens na sua vida.
Quando os filhos cresceram, Portugal tornou-se pequeno para os seus sonhos. Só pensavam em emigrar para o Brasil. O sonho duma vida melhor fez com que juntassem todos os tostões para a viagem. E lá foram deixando a promessa de mandarem ir a mãe tão logo tivessem casa e trabalho.
A principio as cartas do Brasil chegavam todas as semanas. Eram cartas cheias de novidades e promessas. Depois passaram a ser de mês a mês. A vida corria bem, a filha tinha até casado, e só estavam esperando mudar de casa para mandar a passagem. É que a casa era pequena. Mais tarde nascera a neta, a despesa era maior. Depois o filho casou, tinha mais despesas. Aos poucos Elisa apercebeu-se que tinha perdido os filhos quando se despediu deles em Alcântara.
Por fim as cartas deixaram de chegar. O olhar perdeu-se no horizonte, o corpo foi-se vergando ao desgosto e ao peso dos anos.
Elisa foi hoje a sepultar...
Nunca vi um funeral tão triste. Meia dúzia de vizinhos, ninguém de família. E enquanto a terra caía sobre a urna, eu pensava se os filhos iriam  algum dia  arrepender-se do abandono a que votaram a mãe.
Elisa foi hoje a sepultar... 
E enquanto jogo uma flor sobre a sepultura murmuro uma prece:
Senhor, se é verdade que existe o paraíso, tem piedade desta tua serva, que já teve o seu inferno...

 Elvira Carvalho


Este conto foi mais uma reedição, pois a minha saúde continua muito periclitante. O olho está melhor, mas a constipação trouxe uma tosse que não me deixa ir à cama há três noites.
Peço-vos desculpa.







2.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLII


Miguel não conseguia desviar os olhos da jovem. Desde o primeiro dia, sempre a achara muito bonita, mas também sempre a vira como uma adolescente. Nunca assim, tão bela, tão feminina, tão mulher.
Depois do jantar, Mariana tomou a iniciativa. Escolheu um CD de música romântica, e quando se ouviram os primeiros acordes, estendeu-lhe a mão dizendo:
-Vem, apetece-me dançar.
Ele enlaçou-a, e ela passou os braços à volta do pescoço masculino, fechou os olhos e deixou-se levar. Dançaram largo tempo, em silêncio, embalados mais pelas emoções, do que pela música, cada um sentindo no seu, o desejo pelo corpo do outro. Para ela, que cedo descobrira o seu amor por Miguel, e o fora alimentando de sonhos para o futuro, a noite era a concretização de um desses sonhos. Para ele que começou por ter pena da jovem, que se foi afeiçoando a ela, sempre olhando-a como uma miúda, que se sentira um pouco pai da jovem, confundindo sentimentos, o que estava sentindo agora, era como um pesadelo, não fazia sentido, era uma aberração e um sacrilégio. Por isso, quando sentiu os dedos femininos na sua nuca, movendo-se numa suave carícia, empurrou-a com firmeza.
-Basta! Já chega!
Passou a mão pela testa, e deixou-se cair no sofá.
Ela não desistiu. Sentou-se no braço do sofá, e inclinou-se para ele.
Porquê Miguel? Não gostas de dançar? – Perguntou baixinho, provocando,  com aparente ingenuidade.
O perfume dela, envolvia-o, inebriava-o. Tinha vontade de abraçá-la e beijá-la até à exaustão.
Em vez disso cerrou os punhos, apelando a toda a sua força interior.
- Não brinques, comigo.
- Não estou a brincar, Miguel. Não percebes que te amo? Que estar nos teus braços me faz a mulher mais feliz da terra?
Levantou-se de um salto, todos os músculos retraídos.
- Não sabes o que dizes. Não devias ter bebido…
Levantando-se, aproximou-se dele:
-Não é o álcool que me dá a volta à cabeça. São os teus olhos, a tua presença, o teu cheiro. Tu é que me dás a volta à cabeça, me inebrias e me pões tonta. Porque resistes?
Miguel travava uma dura batalha consigo mesmo. Por um lado, as palavras de Mariana, soavam aos seus ouvidos como um canto de sereia, e iam ao encontro dos seus instintos masculinos.  E se o desejo de se deixar ir, de a apertar nos seus braços e mostrar-lhe como ele era capaz de amar, era grande, por  outro lado, o seu código de honra, o facto de saber que ela não tinha mais ninguém no mundo, e a promessa que a si mesmo fizera de a proteger  impediam-no de tomar outra atitude que não fosse a rejeição.
Esforçando-se por se controlar, disse com voz rouca:
- É muito tarde.Vai dormir. Amanhã  conversamos.
E voltando-lhe as costas, encerrou-se no quarto.



Recordo que amanhã não haverá esta história.

17.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVIII


Horas depois, Miguel continuava sem conseguir dormir. Perguntava-se até onde o levaria uma promessa feita num momento de compaixão. Não se preocupava com os gastos. Não era rico, mas tinha o suficiente para não se preocupar com isso. Porém, nunca na sua vida, se tinha deparado com uma situação semelhante. E era muito desgastante. A ida ao médico não contribuíra em nada para melhor as suas expectativas. Bem pelo contrário. E se a família da jovem a encontrasse, e o acusasse de ser o causador do seu estado? Como podia defender-se? E se ela era menor? E se… e se… e se… Acabou por adormecer de cansaço, no meio de tanta cogitação. 
Acordou com alguém batendo à porta. Já era dia. Olhou o relógio.
Oito menos dez. Abriu a porta, e deparou-se com Adélia, a mulher que costumava fazer-lhe a limpeza da casa.
- Bom dia menino!
-Bom dia Adélia. Desculpe, esqueci que era quarta-feira, -disse afastando-se para deixar passar a mulher. Ela entrou. Se viu o sofá aberto, e as almofadas em cima da mesa, decerto que viu, mas nenhum comentário saiu da sua boca. Dirigiu-se à cozinha e Miguel foi atrás.
-Adélia, peço-lhe que não faça muito barulho. E não tente ir  ao quarto por enquanto. Está lá uma jovem dormindo.
A mulher, sorriu. Tinha mais de sessenta anos. Conhecera, Miguel era ainda rapariguita, quando sua mãe trabalhava lá em casa, e Miguel bebé de colo, ia com os pais, visitar a avó, já viúva. Às vezes, os pais deixavam o bebé lá em casa com a avó, por algumas horas, e Adélia adorava brincar com ele. Mesmo depois da trágica morte dos pais, num estúpido acidente, Miguel continuou a aparecer de vez em quando para dar um abraço à avó. Depois que esta morreu, a casa levou muito tempo desabitada. Um dia Miguel apareceu por lá, mandou fazer algumas obras à casa, que estava quase em ruínas, e desde aí vinha todos os anos, sempre no final do verão. Desde a primeira vez, que a contratara. Ia duas vezes por semana quando ele estava e uma vez por mês durante o resto do ano. Tinha por ele um amor quase maternal, e  uma fidelidade canina.
- Quero pedir-lhe outro favor. Não comente com ninguém a presença da jovem. Ela está doente, não tem ninguém, e eu tento ajudá-la. Não queria que fizesse maus juízos.
- Por quem é, Menino. Até parece que não me conhece, -disse ela um tanto agastada com a recomendação.- Quer que lhe faça o desjejum, ou come mais tarde?
- Não tenho fome. Como mais tarde. Vou tomar um duche.
- Então, se não se importa, eu vou levantar o sofá e vou para casa. Volto mais tarde. De qualquer modo pouco posso fazer com a menina a dormir.
-Faça com entender, Adélia.







11.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XIII




- Por mim, -disse pousando o copo vazio, em cima da mesa. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Certo que sou um homem, que desde sempre viveu sozinho, e não é fácil dividir o meu espaço com uma desconhecida. Mas quando faço uma promessa cumpro-a, e eu prometi cuidar de si e ajudá-la. E vou fazê-lo contra tudo, até mesmo contra a sua vontade. Claro que se cooperar, será muito mais fácil para os dois. Fechar-se em casa, horas e horas a chorar, não vai ajudá-la em nada.
Nesse momento a jovem saiu a correr para o quarto. Atirou-se em cima da cama chorando copiosamente.
Miguel deixou-a chorar durante largos minutos. Depois entrou no quarto, sentou na beira da cama e estendeu-lhe um lenço.
- Pronto. Já chega, - disse em voz baixa, num tom carinhoso, como se estivesse a falar com uma criança.
-Tem medo? Acredito que sim. Eu também teria no seu lugar. O futuro pode ser temeroso, mas o passado que se desconhece será bem mais assustador. Se não está preparada, podemos esperar mais uns dias, mas eu no seu lugar ia o mais rápido possível. Já pensou, no sofrimento que pode estar a causar a terceiros? Que os seus pais, irmãos, quiçá o namorado, podem andar por aí desesperados à sua procura?
Calou-se. Mentalmente Miguel interrogava-se. Foi impressão sua, ou sentiu uma estranha tensão no corpo da jovem, quando falou na família?
O silêncio adensou-se. Miguel não sabia que dizer mais para aquietar o coração da jovem. Fez-lhe uma leve carícia na cabeça e deixou que se  acalmasse por esgotamento.
Algum tempo depois, ela levantou o rosto, e olhando-o disse:
- Pode marcar a consulta. Só não sei o que vou dizer ao médico.
-Não se preocupe com isso. Na hora saberá. Agora descanse.
Levantou-se e dirigiu-se ao quintal.
Ai, acendeu um cigarro. Raramente fumava. Mas em horas de grande tensão, era no cigarro que se refugiava. Não conseguia afastar do pensamento a jovem que chorava no quarto. Franziu o sobrolho. E se ela nunca recuperasse a memória? O que ia fazer com ela? Era evidente que não podia mandá-la embora, empurrando-a sabe-se lá para que destino, quiçá de novo para a falésia.
Mas ele também não podia ficar refém dela. Precisava fazer o que sempre fizera. Pintar, viajar, seguir com a sua vida.







23.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLV



Os quinze dias que Helena passou na quinta foram maravilhosos. Ela diria sem medo de mentir que tinham sido os mais felizes de toda a sua vida.
A mãe de Cláudio tinha sido uma surpresa. Dado o quase metro e noventa do filho, Helena tinha imaginado uma mulher alta e forte, e Carmo era exatamente o oposto. Não ultrapassaria o metro e meio, e o seu aspeto era frágil e delicado, embora tanto o marido como o filho lhe dissessem que o seu aspeto era enganador e que ela era uma força da natureza. Desde o primeiro momento, a jovem sentiu que Carmo a recebeu com muito carinho, sem reservas, como se ela pertencesse à família desde sempre. Depois porque o tio aceitara ir passar uma semana lá, e ela verificou que havia realmente uma saudável amizade entre o pai e o tio, e teve a certeza de que se os dois homens não tinham privado durante todos aqueles anos, foi porque o tio se sentia culpado de não contar ao amigo que ele tinha uma filha. E não podia fazê-lo, por via da promessa que fizera à cunhada. O tio estava mais sereno e até já falava em vender a casa em Lisboa e se tornar sócio do amigo.
O seu romance com Cláudio não podia ir melhor, ele levara-a a percorrer a quinta, falara-lhe do seu trabalho, dos seus sonhos, e dissera-lhe que gostaria de casar o mais depressa possível.  Como quem casa quer casa,  se ela estivesse de acordo, ele gostaria de viver na quinta e podiam construir aí a sua casa. As crianças teriam mais espaço para brincar e sempre  podiam contar com a ajuda dos avós. Entretanto até que a casa ficasse pronta, alugariam uma casa em Viseu, ou Nelas, ou, caso ela não se importasse, poderiam continuar a viver com os pais, durante o tempo que levassem a construir a casa deles.  O que interessava é que casassem rápido, ele não aguentava mais. Os abraços e beijos, não lhe matavam a fome, que tinha dela.
Helena gostou que ele contasse com os seus desejos, em relação à maneira como e onde iam viver, e disse que não se importava de ficar a viver com os pais durante o tempo necessário à construção, mas queria ter a certeza, de que iria acabar o seu curso e ter a sua profissão, fora de casa, não se via o dia inteiro na quinta apenas dedicada ao lar. Ele respondeu-lhe que os dois teriam liberdade para viverem os seus sonhos, o verdadeiro amor, liberta não subjuga.
- E que faço com a casa em Lisboa?- Perguntou.
-Nada. Não precisamos desse dinheiro, a casa está numa excelente zona, será muito agradável poder contar com ela quando quisermos dar uma escapadinha à capital. Servirá também para os pais, ou para o tio Alberto, passarem alguns dias quando lhes apetecer. Isto claro se o teu tio, levar adiante a ideia de vender a casa dele e se tornar nosso sócio.
Definidos que foram todos os pormenores, Helena ia voltar a Lisboa. Ia buscar o seu enxoval, tratar da sua transferência para a Universidade de Viseu, e depois voltaria.

21.5.18

CONVERSANDO COM O LEITOR


Mais uma história chegou ao fim. Terá agradado a uns e não a outros o que é normal, mas foi a história mais difícil que escrevi até hoje, porque eu tinha escrito uma história a ser publicada em 28 dias que se chamava "A promessa". Nela o Carlos casar-se-ia com a Luísa, que carente pela morte do marido se apegaria a ele, enquanto ele cumpriria a sua promessa com o coração sofrendo de amor pela Emília. De vez em quando eu penso escrever uma história que não acabe bem, e esta era uma delas. Acontece que  quando vos pedi um título para a história, a grande maioria escolheu  "Renascer". Então disse-vos que eu escolhera "A Promessa" e perguntei qual dos dois preferiam. "Renascer" foi a vossa escolha clara. 
Esse titulo não encaixava na história que eu tinha idealizado, e vai daí apaguei tudo, a partir do capítulo XV e mudei toda a  trama, acabando  por torná-la diferente e bem mais longa. 
Depois quero dizer-vos que apesar da história ser ficção, baseou-se em alguns factos reais.  
Por exemplo começa por dizer que Salazar já tinha caído da cadeira mas ainda estava no governo. E isso foi real no final de Agosto de 1968, data em que situei o início desta novela.
Já morreu um primo meu, que foi gravemente ferido no norte de Angola, e que esteve vários meses inconsciente num hospital de Angola, após meus tios terem recebido um telegrama com a notícia da morte dele, em Março de 1965. Não era fuzileiro, mas do exército, e não perdeu a memória, mas todo o tempo que esteve em coma, a família chorava a sua morte, e a minha tia mandava rezar missas pela sua alma.  O acidente na ponte da vila de Peso da Régua, também foi real, aconteceu em Maio de 1964, quatro anos antes do Carlos a minha personagem, ter recuperado a memória, exatamente como a Emília lhe diz. 
A decisão da Luísa de manter uma viuvez até ao fim dos seus dias, incompreensível nos dias de hoje, não era caso raro na época. Minha tia Palmira, recentemente falecida, ficou viúva em 1969 com dois filhos pequenos e assim se manteve até à morte. Uma amiga minha casada com um pescador de bacalhau do navio Creoula, Também ficou viúva nos anos 60 com uma menina de dois anos e outra de poucos meses. Vive aqui perto e ainda hoje já bisavó, guarda a memória do marido na viuvez que mantém. 
As festas de Nossa Senhora do Socorro também acontecem em Agosto. Os guardas-florestais, também existiam, meu tio João, foi-o no parque florestal de Monsanto,  e a casa que eu descrevo era a sua casa, bem como a mítica fábrica de gelados  Rajá que ali existia. Esses gelados foram tão famosos na época, que ninguém dizia que ia comprar um gelado, mas que iam comprar um Rajá, fosse qual fosse o gelado, ou a marca. Finalmente a notícia  e a canção no capítulo final que todos sabem foi o sinal para a Revolução do 25 de Abril. Estes são os factos reais em que me inspirei para escrever esta novela. O resto é ficção.
Resta-me acrescentar que a vila de Peso da Régua, ou simplesmente Régua, foi elevada a cidade em 1985.
Espero que tenham gostado.



Um bem haja a todos os que têm perguntado pela minha saúde. Fiz exames na Sexta-feira. O resultado  demora oito dias. Entretanto desde ontem, quase não tenho tantas dores. Penso que o pior já passou. Vamos ver.

14.5.18

RENASCER - XXXVI







E hoje foi um dia especial. estive em Lisboa no lançamento de uma antologia de poesia, onde participo com dois poemas,
Mostro aqui o livro bem com a primeira parte dos poemas, pois os dois ocupam quatro páginas.








14.4.18

RENASCER - XI

- E ela veio de França, sozinha? – Perguntou admirado.
- Não, filho. Vieram os três. Faltam poucos dias para o Natal e sabes como os nossos emigrantes sempre regressam nesta época para passar o Natal em família.
-É verdade, E a mãe? Como tem passado? – Perguntou para mudar o rumo à conversa.
- Agora bem mais feliz. Quando tivemos a notícia da tua morte, todos ficamos muito tristes, como é natural, mas ela foi-se muito abaixo. Não comia, não dormia, vinha de noite para a rua, olhar o céu. Um dia perguntei-lhe porque o fazia tantas vezes, e respondeu-me que estava a tentar descobrir, qual daquelas estrelas eras tu. Cheguei a pensar que ela ia perder o juízo, até fiz uma promessa ao S. Macário para ver se melhorava. Um dia a tua irmã Amália, meteu-a no carro e levou-a a um médico amigo do teu cunhado. Ele receitou-lhe uns comprimidos, e ou fosse por ele, ou milagre do santo, ela começou a melhorar. As tuas irmãs traziam para nossa casa os teus sobrinhos sempre que não estavam na escola, numa tentativa de nos darem um motivo de alegria, mas estava a ser muito difícil.  Oxalá nunca passes por um desgosto destes. Nenhum pai devia passar. É uma dor sem tamanho, é contra natura.
-Ó pai mas eu não morri, por isso vamos mudar de conversa, que para sofrimento já chega.
- Pois não. E todos os dias dou graças a Deus por isso. Mas a tua mãe fez uma promessa à Nossa Senhora dos Remédios, quando partiste, e acho que vai querer que lá vás com ela por estes dias.
- E eu vou, sem dúvida. Mas meu pai, não quer fazer uma paragem, onde houver um café? Apetece-me tanto beber um.
- Está bem. Mas não pudemos demorar. A viagem é longa os dias são curtos, temos pouco mais de hora e meia de sol, e nunca gostei de conduzir de noite.
- Está bem. Dez minutos são suficientes. E o pai, também deve precisar esticar as pernas.
Dez minutos depois, retomavam a viagem rumo a Peso da Régua, onde família e amigos o esperavam.


E então amigos? Alguém me ajuda com o nome deste conto? Ou vai até ao fim sem nome?
Podem deixar as vossas sugestões nos comentários.

7.7.17

ROSA - PARTE IX


Esta foto mostra uma mesa, da Seca de Bacalhau da Azinheira. A foto não é minha, retirei-a da net,  mas conheço
este sitio como a mim mesma.  Ao fundo à direita é a malta dos homens, que eu já mostrei em fotos minhas. À esquerda um dos armazéns de recolha do Bacalhau. As trabalhadoras, são a Idalina  (que foi a porteira, depois da reforma da minha mãe) e a Vitória. Com ambas trabalhei alguns anos. A foto é antiga, hoje a Seca está desativada, o espaço das mesas de seca, está preenchido por árvores, e não se sabe ainda se o local, virá a ser uma reserva museológica. Por enquanto está aberto apenas para visitas de estudo.




IX




No dia seguinte, quando viu Amália lavando roupa no tanque foi até lá para ajudar. E também, porque queria conversar com a futura cunhada, longe de interrupções.
Pegou numas calças, mergulhou-as no tanque e disse:
- Vim ajudar com a roupa, Amália.
- Não carece Rosa.
- Mas eu quero ajudar. E também queria falar consigo. Saber se é verdade que o seu irmão, quer casar comigo e porquê.
- Saber se é verdade? Tens dúvidas?
- Foi muito estranho o que aconteceu.
- Vai-te habituando. A vida tem muitas coisas estranhas. Tu por exemplo, não te pareces em nada com o que tenho ouvido falar das mulheres que levam a vida que levavas.
Sem se conter, Rosa deu livre curso às lágrimas. Amália ficou espantada.
- Que se passa agora? Porquê esse choro? Não disse nenhuma mentira, ou disse? Não estavas numa casa de “meninas”?
Ela assentiu com a cabeça e depois perguntou:
- Posso confiar em si?
- Claro, mulher! Afinal vamos ser cunhadas. Mas antes deixa de me tratar por você. Que diabo, não estou a tratar-te por tu? Faz o mesmo.
Então, Rosa abriu o seu coração e contou tudo desde aquela fatídica tarde no monte.
-Juro-lhe, por tudo quanto há de mais sagrado, que digo a verdade – terminou Rosa ao perceber o ar incrédulo da outra.
- Pois então agradece a Deus, que te livrou de um destino que não desejavas. Às vezes ELE escreve direito por linhas tortas.
E então falou-lhe da ida de João para os Açores, da promessa que ele fizera e de como a família se sentia preocupada com a mulher que ele iria arranjar. Nunca lhes passou pela cabeça, dissuadi-lo. Isso não! Promessa é sagrada. O Sr. Padre, sempre lhes dissera “Muitas graças a Deus e poucas graças com Deus” e terminou:
 -Vamos rapariga lava aí essas lágrimas e prepara-te para enfrentares a vida que te espera. Não será fácil. Somos pobres, vivemos do trabalho quando o há e quando não. O que eu quero dizer é que aqui se trabalha seis meses por ano e tem que se guardar para os outros seis meses. Felizmente, o João tem trabalho todo o ano na fábrica, e já se inscreveu para a C.U.F. Se tiver a sorte de entrar, vai ser muito bom. Lá ganham melhor, fazem muitos turnos. Não tens nada para a tua casa e nós não poderemos ajudar grande coisa. Talvez uma panela ou uns pratos. Se quiseres trabalhar, segunda-feira podes ir ao escritório da Seca. O trabalho é duro mas sempre podes comprar alguma coisa para a casa.
- É claro que vou.  Trabalho, foi coisa que nunca me meteu medo. Obrigada por me acolher e me aconselhar.
- Então, agora vamos lá fazer o almoço que está na hora. À tardinha uma de nós vem apanhar a roupa.


R:  à GI  
Antigamente os homens não iam buscar mulheres ao bordel para casar. Eram muito ciosos da virgindade da mulher. Com medo da guerra, João fez uma promessa e cumpriu-a.




21.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXXVI



Aquelas duas semanas, tinham sido muito intensas para Luís, dividido entre o trabalho temporário que estava fazendo, a preparação do seu novo livro, cujo lançamento seria já no fim do mês, e o acompanhamento sempre que possível do trabalho de decoração da sua nova casa. O trabalho, no centro comercial, nada tinha a ver com jornalismo, mas Luís precisava dele para estudar as rotinas das pessoas que trabalhavam no local, já que algumas das personagens da novela que estava a escrever, viveriam grande parte da trama num sítio assim. De qualquer modo, o patrão, um empresário amigo do seu pai, sabia que ele só estaria ali um, ou no máximo dois meses, e não foi por favor que acedeu, antes pelo contrário, pois  a transferência do seu homem de confiança tinha-o apanhado desprevenido e sem tempo para preparar de forma conveniente um  substituto. Assim, sempre dispunha de algum tempo para encontrar um bom director. Chegava à noite cansado e sem vontade de fazer outra coisa que fosse tomar um bom banho e dormir. Escusado será dizer que a promessa de telefonar à mãe e ir jantar com os pais, foi completamente esquecida.
Porém e apesar de tudo, não raras vezes se surpreendia a pensar em Isabel. Por onde andaria ela? Onde viveria, o que faria? Tentava afastar estes pensamentos, mas eles permaneciam lá como erva daninha sempre pronta a estender as suas raízes.
Naquele dia tinha acabado de preparar com o editor, o lançamento do seu segundo livro, o fim do mês era já na próxima semana.  A sua vontade era continuar incógnito, mas segundo o editor, seria um erro. Os leitores acharam muito interessante um primeiro livro de um autor que queria permanecer incógnito. Mas um segundo nas mesmas condições, podia parecer que se tratava de snobismo, e desprezo por eles, leitores.. E isso podia ditar o fracasso do livro. Outra boa notícia desse dia foi a chegada do director comercial para o lugar que ele ocupara naqueles quase dois meses. Claro que ele continuaria por lá mas agora rescindido o contrato, só algumas horas por dia, porque a novela teria que estar pronta no fim de Novembro para estrear em Março.
Escrever uma novela é muito diferente de escrever um livro. Ele escrevia o livro, e apresentava-ao editor para a publicação. A novela teria que ser aprovada pela direcção de programas, depois, haveria a escolha do elenco, o que resultava de imensos castings. A escolha do roupeiro e adereços, que compõem cada personagem, os cenários, enfim um mundo de coisas antes de começarem as gravações. Mais tarde a campanha de lançamento e só depois a estreia. Ou seja antes do primeiro episódio ir para o ar eram meses e meses de trabalho intenso. E depois o trabalho continuava, pois depois da novela ir para o ar, eram as audiências que comandavam. Se o sucesso fosse grande, teria que esticar ao máximo a trama, e os duzentos episódios, poderiam ir até aos trezentos. Se fosse um fracasso, teria que reescrever grande parte da trama, matar alguns personagens, introduzir novos personagens etc.
Na verdade, ele não pretendia dedicar-se a esse tipo de escrita, aceitara fazer aquela, como se fosse um desafio.
Por tudo isso e porque acabara de se mudar para o seu apartamento, finalmente pronto, Luís sentia-se um homem realizado.
Aprestava-se para regressar a casa, quando a viu entrar no centro. Ou o destino lhe estava a dar uma ajuda, ou estava a brincar com ele. Reparou que ela não o tinha visto.
- Boa tarde Isabel, – saudou, pondo-se a seu lado.




19.12.15

QUANDO UM COMENTÁRIO VIRA POST






O amigo Rogério  do blogue CONVERSA AVINAGRADA deixou-me este comentário que achei um delícia e não resisti a partilhar convosco. Pensei erradamente que a receita era sua, mas o Rogério acaba de me informar que a receita é do blogue SEARAS DE VERSOS. da poetisa Lídia Borges. 








!Receita para adoçamento de melancolias


Ingredientes:

· - toda a melancolia disponível
· - mel
· - um pau de camélia
· - amor condensado
· - sorrisos ao natural
· - ternura q. nunca b.
· - uma vagem de sol
· - um noz de luar


(De véspera, coloque a tristeza de molho para que largue o excesso de acidez.)

Comece por colocá-la em pequenas porções na centrifugadora e bata até obter um suco bem fluído.

Junte duas colheres (de sopa) de mel bem cheias, um pau de camélia de preferência com rebentos em estado de promessa rosada. Envolva bem.

Em seguida adicione umas gotinhas de amor condensado e uma chávena de sorrisos. (Atenção: não use sorrisos cristalizados, opte por sorrisos ao natural, para não ter surpresas menos doces no final.)

Não esqueça a ternura (levemente açucarada), sem medida, em castelo firme, batida.

Prove. Se estiver ainda amargo, acrescente um pouco do sumo do sol contrapesado com uma pitada de luar para não enjoar.


Verta para uma forma (em forma de coração, de preferência) e leve a corar em forno brando. Depois de desenformado polvilhe com uma mãozinha de versos granulados.

Sirva em finas fatias a quem passar, a quem quiser provar…

Bom apetite