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23.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE IX


A certa altura, Óscar aproximou-se e meteu conversa com um dos jovens do grupo de Anabela, que tendo já bebido mais do que devia, o convidou a juntar-se à festa.

Ele aproveitou para se aproximar da jovem, e não mais a deixou, enredando-a na sua teia de sedutor.

Quando Maria Rosa e o namorado lhe fizeram saber que eram horas de regressar a casa e Óscar perguntou se podia acompanhá-los, Anabela não viu inconveniente. Afinal ele tinha-se mostrado muito gentil, coisa a que a jovem não estava muito habituada.

Muito tempo depois, Anabela perguntava-se onde tinha a cabeça para ter confiado num desconhecido tão rapidamente, mas a verdade é que ela parecia ter ficado completamente cega e surda a todas as advertências que os amigos mais chegados lhe faziam, sobre um namoro tão rápido e um casamento relâmpago, mal tinha começado a trabalhar no Serviço de Medicina Física e de Recuperação no Hospital de Santa Maria.

Todavia o casamento foi a maior deceção da sua vida. Em vez do lar e da família com que sonhava, Anabela teve quase três anos de inferno. 

Quando pouco tempo depois do casamento, Anabela começou a notar as alterações bruscas de humor do marido, chegou a pensar se ele não seria bipolar. Chegou até a tentar convencê-lo a procurar ajuda médica.

Viria a descobrir que o problema era outro, acidentalmente através de um pequeno caderno de apontamentos que ele deixara cair sem se aperceber e ela encontrara entre a mesa de cabeceira e a cama, enquanto limpava o quarto. Ele era um viciado no jogo.

  Cedo ela aprendeu a saber quando ele perdia ou ganhava pela maneira como se comportava.

Inicialmente eram apenas as alterações de humor, com o tempo começaram as agressões psicológicas. Depois, o dinheiro que guardava na cómoda para o governo mensal que desaparecia. Verdade que quando ganhava, ele repunha a quantia, às vezes até mais do que levara, mas a incerteza em que vivia, e os maus humores do marido roubaram-lhe a alegria, e faziam com que vivesse com o coração e a alma repletos de tristeza. Os únicos momentos de alegria que tinha, eram os que passava em casa da amiga Paula, com a sua filhinha Patrícia, de quem ela era madrinha.

Estava casada há dois anos quando ficou grávida. Não fora uma gravidez desejada, ela tomava a pilula, mas uma inflamação gástrica e a medicação que fizera, tinham anulado o efeito da pílula.

 Profissionalmente era considerada pelos médicos e colegas como uma excelente profissional. Mas como pessoa continuava a ser uma jovem ingénua. Tanto assim que que se encheu de esperança, julgando que a gravidez ia mudar o marido e fazer dele um homem responsável.

Foi mais um choque a juntar ao que tivera quando descobrira a verdade sobre o marido porque quando lhe contou, ele gritou com ela, disse que não queria filhos, que não tinha paciência para aturar pirralhos, e mandou que ela se livrasse da criança.

 Discutiram e ele deu-lhe um encontrão que a derrubou no chão da cozinha. Quando depois dele sair de casa, telefonou a Paula, ela e o marido imediatamente a foram buscar para sua casa e a aconselharam a pedir o divórcio.

2.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XIX



O almoço decorreu com alguma animação por parte de Arminda, que adorava ter à mesa os seus dois homens, como ela costumava dizer. Filho único e tantos anos, afastado do país, Nuno sempre que tinha o fim-de-semana livre, ia almoçar com os pais. Adorava ver aquele brilho de felicidade nos olhos maternos.

Depois do almoço, pai e filho, deixavam-na entregue aos afazeres domésticos e iam até ao café, onde durante uma hora, tomavam o seu café e se entretinham numa amena conversa. Mais tarde regressavam a casa, viam um pouco de televisão, comentavam os casos mais noticiados da semana, e por fim, volta das cinco da tarde despedia-se e regressava a casa. 
Raramente saía à noite, embora naqueles dias de final de maio, com temperaturas a fazer lembrar o Verão já tão próximo apetecesse dar uma volta.

Não foi diferente naquele dia. Apesar da conversa trivial com a mãe, Nuno não conseguia esquecer o que o pai lhe contara e estava ansioso por estar a sós com ele, para tentar saber mais sobre aquele assunto. Porém não queria perguntar-lhe diretamente.
Desde criança sempre tivera uma grande ligação ao progenitor que soubera sempre impor disciplina, sem descurar o amor. Isso fizera com que além de pai, fosse amigo e confidente para o jovem. Mesmo agora, após tantos anos separados, e sendo ele já um quarentão, sentia uma grande admiração pelo pai e só confiava nele para falar do que lhe ia na alma.

O que o pai lhe contara sobre Luísa, não lhe saía da cabeça, e fazia com que se questionasse sobre as verdadeiras causas que levaram a jovem, a romper a relação que os unia. Seria o caso dela ter sido obrigada pelo pai? Podia ter acontecido já que ela era menor. Mas se assim fosse porque não confiou nele? Porque não lhe contou? Ele teria ido falar com o pai dela, teria lutado por eles, e pelo amor que os unia. Precisava saber a verdade. Ele sempre fora um homem justo. Se estava errado em relação aos factos do passado, não podia de jeito algum continuar com desejos de vingança.

- Estás muito pensativo hoje, - disse o pai quando se sentavam à mesa no café.
O empregado aproximou-se, e eles pediram apenas cafés. Depois, que ele se afastou, Nuno perguntou:
- Dissestes que dizem que a Luísa se atirou do carro. Porque é que que ela faria semelhante coisa?
- Talvez porque a primeira mulher de Álvaro Soromenho se suicidou com seiscentos e cinco, forte. Ele disse que o fez porque estava deprimida. Ora pouco antes da sua morte, a figura de Luísa assemelhava-se em muito à da falecida primeira mulher dele, por isso os vizinhos pensam que ela se tentou suicidar.  Havia tempos que ele dizia a toda a gente que a sua mulher estava com depressão. Depois, o condutor do carro que os seguia, disse que ela se atirou do carro, e que o mesmo saiu desgovernado para a outra faixa onde chocou com o camião. Foi isso que saiu nos jornais da época.

Interrompeu a conversa para corresponder ao cumprimento de um amigo. Logo que o amigo se afastou, retomou a palavra, com um aviso ao filho.
- Se não queres retomar a história onde a deixaste, esquecendo o que se passou pelo meio, tem cuidado Nuno. A vingança, é um pau de dois bicos. Acabamos muitas vezes por descobrir que a ferida que provocámos em nós, é superior à que provocámos no objeto da nossa vingança.


11.11.20

CILADAS DA VIDA PARTE LVII

 


Quatro semanas se passaram depois desta conversa que aproximou emocionalmente os dois irmãos. Quatro semanas em que muita coisa aconteceu na vida deles, e dos que com eles conviviam.

João continuava a passar diariamente as horas em que as enfermeira faziam as refeições com Teresa e fiel ao seu desejo de num futuro próximo pedir-lhe que se casasse com ele, decidiu que ela devia saber como tinha sido a sua vida, quem tinha sido e quem era. Por sua vez Teresa, também abriu o livro das recordações e falou da sua infância na aldeia, da mãe e da avó, ambas desiludidas com o sexo oposto, contara que ela própria tivera uma má experiência amorosa, quando estava na faculdade e que tudo isso contribuíra para a sua decisão de que nunca  iria querer saber de homem algum na sua vida. Essa fora a razão que a levara a querer ser mãe solteira, e a procurar a clínica de Procriação Medicamente Assistida.

Com o convívio diário e com todas as confidências trocadas os dois sentiam que começavam a estar unidos por qualquer coisa maior, mais íntima e mais pessoal do que a responsabilidade de criarem as três crianças.  

Inês ia regularmente todos os fins de semana vê-la, levava-lhe o correio, falava-lhe de como o negócio estava a decorrer e contava-lhe novidades de clientes e empregadas. Às vezes levava o filho e Teresa ficava radiante com o menino que crescia a olhos vistos e aumentava o vocabulário de uma visita para a outra.

Também João tinha ido jantar uma noite com o irmão e a futura cunhada, com quem simpatizou de imediato. Esperava que Teresa fizesse os três meses e tivessem a conversa que decidiria o seu futuro a fim de os convidar a irem passar um dia lá a casa para lhos apresentar e estreitar os laços de sangue que os uniam.

E chegou o dia em que Teresa ia ter a sua consulta das doze semanas. De mútuo acordo, os dois combinaram com Sandra, que ele acompanharia Teresa à consulta, e ele a chamaria depois se a médica achasse necessário dar-lhe novas instruções.

Já na consulta a médica fez-lhe a ecografia das doze semanas depois de lhe ter medido a tensão arterial, a ter pesado e lhe ter feito várias perguntas sobre como se tinha sentido durante aquelas quatro semanas.

Depois de vários minutos em que a observou atentamente disse:

-Está tudo bem com os vossos bebés. Vejam, aqui estão eles, minúsculos ainda, medem apenas cinco centímetros, mas já estão completamente formados da cabeça aos pés.  Vejam.

- Já se consegue ver se são meninos ou meninas – perguntou João.

- Vamos ver – disse a médica e depois de uns segundos apontou o ecrã. -  Este é um menino sem duvida, reparem aqui - disse ampliando a imagem - Este outro tem o cordão umbilical a impedir a descoberta, e este como vêm tem as pernitas cruzadas. Pode ser que se deixem ver na próxima ecografia. Mas às vezes não se deixam ver até ao momento em que nascem

Mas como são gémeos se um é menino, os outros também devem ser, ou não? – perguntou João.

-De modo algum. Os gémeos só são obrigatoriamente do mesmo sexo quando são gémeos monozigóticos.  Ou seja, o óvulo é fecundado por um só espermatozoide que se divide em dois depois de fecundado. São formados na mesma placenta dividem o saco amniótico, possuem o mesmo genoma e o mesmo DNA, e por isso são tão iguais que também se chamam idênticos. Podem distinguir-se apenas pelas impressões digitais, que são diferentes. Os vossos filhos são gémeos dizigóticos uma vez que não dividem a placenta nem o saco amniótico o que quer dizer que houve três óvulos, fecundados por três espermatozoides diferentes e assim tanto podem ser três meninos, como dois meninos e uma menina ou o contrário.

 A consulta está terminada, a Teresa recuperou muito bem, agora o risco de aborto foi reduzido, embora não esteja totalmente afastado e o repouso continue a ser recomendado, já não precisa estar o tempo todo na cama. Claro que não pode fazer esforços como subir escadas ou carregar pesos, deve evitar viagens grandes, mas já pode dar pequenos passeios, apanhar sol por causa da vitamina D. Continua com as vitaminas, o ácido fólico e volta para a consulta das vinte semanas a menos que surja algum problema. Vai continuar acompanhada com a enfermeira?

- Até que os bebés nasçam pelo menos, - respondeu João.

- Isso é bom. Pode sair e mandá-la entrar?


À margem:

Hoje dia 11 deslocar-me-ei ao hospital De Santa Maria para ver como está o olho do transplante, e ver se me vêm o outro que me está a dar grandes problemas.  Vamos ver.

4.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LIV

 


Naquela noite, enquanto Gabriela jantava, e João fazia como de costume companhia a Teresa, a conversa recaiu sobre a ecografia e a emoção que ambos sentiram. E então ele perguntou-lhe se já tinha pensado nas suas vidas quando os bebés nascessem, ao que ela respondeu que lhe prometera falar nisso quando passasse a barreira dos três meses. Faltavam quatro semanas e talvez fosse superstição sua, mas antes das doze semanas não tomaria nenhuma decisão pensando no seu futuro e no das crianças.

- Eu tenho fé que vai correr tudo bem e até já imagino os três meninos…

- E se forem três meninas, - interrompeu Teresa. Fará alguma diferença?

- Nenhuma, - respondeu prontamente. Penso que de forma inconsciente, quando se espera um filho, uma pessoa tem sempre tendência a falar no seu próprio sexo. Um homem fala em meninos, uma mulher em meninas, mas na prática pouco importa. O que realmente conta, é que sejam saudáveis. E vão ser felizes porque se vão ter uns aos outros, vão poder brincar juntos, amar-se e apoiar-se. Crescer sozinho, é muito triste.

- Foi assim contigo?

-Foi. O meu pai era uma pessoa muito severa, e a única amiga que eu tinha era a Olga, que vivia no mesmo pátio mesmo ao lado da minha casa, mas ela tinha quase onze anos a mais que eu. Quando eu tinha cinco anos ela já estava no secundário e tinha mais ou menos o mesmo corpo que tem hoje. É fácil de perceber que as minhas brincadeiras não lhe interessavam.

- E a tua mãe?

É uma história muito complicada, não dá para ta contar agora, a Gabriela deve estar a voltar do jantar. Mas prometo que ta conto em breve.

-Eu também sou filha única, mas nunca fui uma criança solitária, pois na aldeia éramos todos muito unidos. Mas de certo modo tenho pena destas crianças.  Eles nunca vão ter o carinho de tios, primos ou avós. Eu não conheci o meu pai, nem o meu avô, mas a minha avó era uma grande mulher e foi sempre um pilar de apoio para a filha e neta. Os nossos filhos nunca vão ter esse apoio.

- Não. Mas vão apoiar-se entre si e vão contar com todo o amor da nossa parte. E poderão vir a contar com o apoio de tios e primos, pois acabo de saber que tenho um irmão, que me parece ser uma boa pessoa. Em breve conto-te tudo. Desejo que saibas tudo sobre mim, para que, quando chegar a hora de tomares uma decisão, não tenhas dúvidas.

Naquele momento a enfermeira regressou ao quarto, e isso impediu Teresa de responder se é que o queria fazer. Ele despediu-se desejando uma boa noite às duas, e saiu do quarto.

Já no escritório, olhou o relógio. Nove e dez da noite. Não eram horas de ligar ao irmão, provavelmente estaria com a noiva, mas podia mandar uma mensagem.

Escreveu:

“David, já li a carta. Queria estar contigo, gostava que me falasses da mãe e de ti. Conhecer-te. E dar-me a conhecer. Quando puderes dispor de umas horas, avisa-me. João”

Um quarto de hora depois chegou a resposta.

“Amanhã não tenho audiências. Tenho dois clientes de manhã, e a tarde livre. Podemos almoçar juntos. Telefono-te quando estiver livre e combinamos. David”

Pôs de lado o telemóvel, abriu o portátil e dedicou-se a ler os emails recebidos, quase todos de felicitações pelo “Survive II”.

 

1.7.20

ISABEL - PARTE XXXVI







Nessa mesma noite, eram quase nove e meia, quando a campainha da porta tocou. Pensando ser a porteira, Isabel abriu e deparou com Luís. Tentou fechar a porta mas ele  apressou-se a colocar o pé entre esta e o batente impedindo-o.
- Desculpa Isabel, mas vou entrar. Preciso falar contigo. Depois de me escutares, se entenderes que devo sair, prometo que o faço.
Ela não respondeu. Estava espantada. Como é que ele sabia a sua morada? E se ela não lhe abriu a porta da rua como é que a porteira o deixou subir sem ao menos avisá-la? Ele entrou e fechou a porta atrás de si.
- Vem. Já vais entender tudo, - disse como se tivesse lido os seus pensamentos.
Tremente Isabel dirigiu-se à sala seguida por ele.
 - Senta-te Isabel. A conversa vai ser longa. Mas antes, deixa que te dê o livro que deixaste lá esta tarde. Tem uma dedicatória especial.
Estendeu-lhe o livro, que ela pousou sobre a mesinha. Estava pálida e os olhos apresentavam sinais evidentes de choro.
- Lê Isabel. A conversa vai ser mais fácil depois.
Ela abriu o livro e leu:
“Para a mulher da minha vida. Luís” E logo por baixo “Com muito amor. Nuno Luís Teixeira Fraga”
Olhou-o espantada.
- Esse é o meu nome completo. Quando eu era menino, e porque o meu pai se chama Nuno, toda a família me chamava de Luís. Usei esse nome até aos dezanove anos. Depois…
E então, Luís falou de Odete, da sua traição e de como esse facto influenciara a sua vida, e a sua relação com as mulheres, daí para a frente. Falou da sua vida de aventureiro, dos muitos anos vividos no estrangeiro, dos muitos países percorridos na sua auto caravana, do trabalho de jornalista independente até há bem pouco tempo, do êxito do primeiro livro, "Renascer",  da decisão de se dedicar só à sua carreira de escritor, do desejo dos pais em vê-lo de volta ao País.
Isabel quase não se atrevia a respirar. Percebia que o homem estava desnudando a sua alma para ela, e isso era tão grandioso, tão emocionante, que todas as suas dúvidas se dissiparam.
- Quando cheguei, e antes de iniciar a minha nova vida, decidi ir uns dias de férias. Nem sei porque escolhi Lagos, - continuou Luís. Naquele dia, o meu último dia de férias, por causa do nevoeiro não tinha pensado ir à praia, mas sentia-me atraído para lá como se alguma coisa me empurrasse. Quando me cruzei contigo fiquei intrigado. Mas quando tropeçaste e te segurei nos braços, não sei o que me aconteceu, que nunca mais deixei de pensar em ti. Depois, começaram a acontecer muitas coisas estranhas. Passei a encontrar-te em diversas ocasiões. Por vezes nem sequer me vias, mas eu sim. Quando naquele dia chocámos na esquina da rua, e te disse que me chamava Luís, o meu subconsciente já tinha entendido aquilo que eu, só entendi bem mais tarde. Porque hoje, eu sou Nuno para toda a gente, excepto para duas pessoas a quem muito amo. Meus pais, para quem continuo a ser o Luís.
As lágrimas rolavam silenciosas pelas faces de Isabel.
- Na altura nem me apercebi disso, mas hoje vejo que nesse momento, já estava a dar-te um lugar muito especial na minha vida. Quando me apercebi da verdade dos meus sentimentos, falei de ti aos meus pais. Eles estão ansiosos por te conhecer, especialmente a minha mãe que sempre sonhou ver-me casado. Ontem, quando saí do metro, vi-te entrar neste prédio. Espantado, bati à porta da porteira. Acreditas que eu moro no 6º C deste mesmo prédio?
- Não é possível!
- É. E nem imaginas, a minha luta ontem, para não descer e vir ter contigo. Porém tinha um plano e queria cumpri-lo. Tinhas aceitado ir almoçar comigo no Domingo. Sabes onde ia levar-te? A casa dos meus pais. E lá, com eles por testemunha, ia pedir-te para partilhares a minha vida, oferecendo-te em troca o meu amor.
Levantou-se.
-Só não esperava que aparecesses no hotel e estragasses a surpresa!
- Oh! Luís, e eu que pensei tão mal de ti. Sentia-me enganada. Perdoa-me.
Ele estendeu-lhe a mão e puxou-a para si. Apertou-a de encontro ao peito, segurou-lhe o queixo, e com a urgência de quem se buscou por toda a eternidade, aprisionou a sua boca num longo e apaixonado beijo.


FIM


 Elvira Carvalho

8.6.20

ISABEL - PARTE XIX






Tanto o cabeleireiro, como o edifício dos correios, e o seu apartamento,   ficavam no mesmo quarteirão, e por isso Isabel não tinha levado carro. Recordou a conversa recente no escritório. 
Era Sexta-feira,  e ela sabia que este era o dia, que normalmente os jovens escolhem para sair à noite. Isabel, raramente saía à noite.
Não lhe apetecia ver os casalinhos a divertirem-se. Não que sentisse inveja deles. O que sentia era pena dela, e esse era um sentimento de que não gostava. Sabia que era uma mulher bonita. Estava habituada a ver a admiração nos olhares masculinos. Mas aproximava-se dos quarenta e começava a pesar-lhe a solidão. Onde estava a vida com que sonhara na juventude? Onde os filhos que tanto desejara? Todas as suas amigas da faculdade tinham casado, tinham filhos. Algumas até se tinham divorciado e voltado a casar.  Só ela continuava sozinha, presa às suas dolorosas recordações. Bom, para ser sincera consigo mesma, a verdade é que desde aquele dia na praia, as recordações, já não eram tão dolorosas assim. Quem seria, e que estranho poder tinha aquele homem que lhe roubara o sossego, com um olhar e pouco mais? Seria como ela um solitário? Onde viveria? Será   que algum dia voltaria a encontrá-lo?
Absorta virou a esquina e esbarrou em alguém, deixando cair os envelopes. Murmurou uma desculpa e baixou-se para os apanhar. O homem fez o mesmo e ao fazê-lo as suas mãos tocaram-se. Ergueu-se rapidamente e nesse momento ouviu a voz rouca, que ultimamente povoava as suas noites de insónia.
- Você? Vejo que continua muito distraída.
 Os olhos cinzentos do homem fixaram-na com tal intensidade, que ela teve a nítida sensação de que ele lia nela, como num livro aberto. Corou. O homem franziu as sobrancelhas e semicerrou os olhos.
- Desculpe - disse ela voltando-lhe as costas, e tentando afastar-se rapidamente do local.
- Espere! - A sua mão forte agarrou o braço de Isabel, obrigando-a a parar. - Não acha que nos devíamos apresentar? Afinal de contas para quem anda por aí a esbarrar um no outro, não podemos continuar desconhecidos. Chamo-me Luís. Luís Teixeira.
Estendia-lhe a mão. Morena, forte e cuidada. Isabel não teve outro remédio que fazer o mesmo. A voz saiu-lhe quase inaudível.
- Isabel Mendes
- Hum! Isabel! Nome de rainha, - disse ele apertando-lhe a mão.
Foi um aperto caloroso que  a fez tremer da cabeça aos pés como se fosse  atingida por uma descarga eléctrica. Inutilmente tentava acalmar-se. Tinha a sensação de que o homem ouvia as loucas palpitações do seu coração. E ali continuava ele na sua frente a olhá-la fixamente como se quisesse ler, alguma coisa nos seus olhos, felizmente protegidos pelos óculos escuros.
Bruscamente Isabel desprendeu-se e quase correu para o edifício dos correios.
Pouco depois, tendo sido já atendida, Isabel dirigiu-se aos expositores de livros, e, fingindo escolher um, lá permaneceu por quase meia hora, e quem sabe não teria ficado mais tempo se entretanto não chegasse a hora do encerramento. Tinha medo de voltar a encontrar aquele homem. Não se reconhecia. Ela que enfrentara com coragem a morte do marido daquela forma brutal. Que lutara pelos seus sonhos mesmo quando não dormia para cuidar dos pais. Que era feito daquela mulher forte, a quem a vida madrasta não assustava? Quem era aquela mulher que tremia feito criança assustada na presença de um quase desconhecido?

24.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XV







Naquele domingo, Eva levantou-se cedo, mas não saiu de casa. Estava decidida a ter uma conversa séria, com André. Tentava entender as razões da mudança de comportamento dele, mas não encontrava nenhuma. Estava desesperada. Ela já tinha visto um filme semelhante com Alfredo, e sabia como tinha acabado. Toda a segurança que julgara sentir naqueles três meses de sonho, se evaporara.
Tomou banho, vestiu uns calções brancos, e um top azul-claro. Apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo, e calçou umas sandálias sem salto.
Eram dez horas, quando ele apareceu na cozinha. Vestia calças de ganga pretas e um polo vermelho justo, que punha em evidência a sua impressionante figura.
- Bom dia. Não saíste hoje? - perguntou
-Pois, parece que não. Dava-te jeito que tivesse saído? Porquê, André? O que foi que aconteceu entre nós? Pensei que éramos amigos. Que podia confiar em ti. E de repente parece que recuei no tempo. Estou a viver o mesmo pesadelo. Interrogo-me a cada momento, se vou acabar de novo, numa mesa de jogo.
Crispou-se o rosto masculino.
- Não te atrevas a comparar-me com o teu falecido marido, - disse com raiva, dando dois passos e agarrando-a pelos ombros.
- Não? Então explica-me a diferença, - desafiou-o.-  Porque a sensação que eu tenho, é que estás a agir exatamente como ele.
Largou-a. Deixou cair os braços ao longo do corpo, e virou-lhe as costas.
- Não posso. Não agora. Tens que confiar em mim, – disse com voz rouca.
- Deus é testemunha que o desejo de todo o coração, - disse encostando o rosto às costas dele, e passando-lhe os braços à volta do peito. Sentiu o tremor do corpo masculino, o retesar dos músculos e teve a certeza de que não lhe era indiferente. Então porque fugia dela? Eram os dois livres e adultos. E ela desejava-o.
De súbito, ele voltou-se, apertou-a contra si e beijou-a. Um beijo intenso, urgente e sôfrego, como se quisesse arrebatar-lhe a própria alma. As mãos masculinas, inquietas, percorriam-lhe o corpo, em suaves e precisas carícias, que acordavam e faziam vibrar o corpo feminino.
-Quero fazer amor contigo, “cara mia” – sussurrou-lhe enquanto lhe mordiscava o lóbulo da orelha, uma mão apertando-a contra si, a outra acariciando-lhe a pele sob o top.
- Sim, André, sim – gemeu ansiosa.
Então pegou-lhe ao colo e levou-a para o seu quarto.



Informando: Tive uma consulta telefónica com a minha médica hoje, Segunda-feira por causa do que aconteceu na Sexta-feira. Ela está convencida que se tratou de uma vertigem provocada pelo não diretamente pela crise do refluxo tido durante a noite, mas pela má noite e falta de descanso que as dores me provocaram. 
Disse que o desequilíbrio, as coisas a andar à roda e o falta de força nas duas pernas, fazem crer tratar-se disso. Disse-me que ficaria preocupada, se a falta de força fosse só numa das pernas. De qualquer modo disse-me os sinais a que devia estar atenta, além de medir a Tensão Arterial diariamente, falta de força num dos lados, problemas de visão, náuseas, vómitos,  etc. Estou certa de que ela tem razão. 
Obrigado a todos pelo vosso cuidado.

12.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXI


                                                              
-Bom ainda não acabei a conversa, -disse Ricardo ao saírem do restaurante. – Queres andar um pouco por aqui, a noite está agradável, ou queres regressar e conversamos em tua casa?
-Prefiro regressar, a Natália já passou grande parte do dia com a Matilde, não quero prendê-la mais tempo do que o necessário.
Entraram no carro e minutos depois seguiam a caminho de casa da jovem. Fizeram a viagem de regresso em silêncio. Ela pensando no que ele tinha dito no restaurante, ele ensimesmado na sua ideia e na maneira de a expor de modo a convencê-la. Não lhe passara despercebido que fora a sua proposta que a fizera engasgar-se. Só não sabia se de surpresa, ou de rejeição à ideia. Não tinha sido fácil para ele tomar aquela decisão, mas agora que a tomara, queria muito que ela aceitasse, pois analisando a situação chegara à conclusão que era o melhor para a menina. 
Tinham chegado. Estacionou o carro em frente à casa dela e saiu. Isabel  também o fizera, mal ele parara o veiculo, e os dois encaminharam-se para a porta que se abriu antes que ela metesse a chave na fechadura.
- Estava a ler perto da janela, vi quando chegaram - disse Natália
-A Matilde? – perguntou a jovem.
- Dorme que nem um anjinho. Agora vou. Até amanhã.
-Até amanhã Natália e obrigada.
Ela saiu fechando a porta. Isabel voltou-se para ele.
-Entra para a sala. Já sabes onde é. Eu vou ver a Matilde e já volto.
Sentiu vontade de lhe pedir para ir com ela, mas não o fez. A criança não o conhecia, o vínculo que tinha de estabelecer com a menina,  seria demorado e teria que estar bem desperta. Entrou na sala, mas não se sentou. Minutos depois Isabel regressou. Tinha tirado o casaco, e ele admirou a figura daquela mulher que parecia tão frágil e segundo o relatório do Artur era forte como uma rocha.
-Senta-te, e diz-me então o que decidiste – disse, sentando-se num sofá.
Ele fez o mesmo no outro e inclinando-se para a frente disse:
- Bom, já sabes o que decidi, disse-o no restaurante. Penso que o melhor que podemos fazer pela Matilde, será casar-mo-nos. Tenho um bom apartamento, e uma situação financeira desafogada. Posso vender o apartamento e comprar uma casa quando ela começar a crescer, dar-lhe uma boa educação académica, prepará-la para a vida, Dirás que também o podes fazer, e a julgar pelo que fizeste com a tua irmã tenho que acreditar. Mas terás que levar uma vida de muito sacrifício. E olha para esta casa. Está a precisar de reforma, e embora por agora a possas adiar, vai chegar o dia em que terás mesmo de fazer obras.  Isso é muito caro, e não ganharás suficiente para elas e para cuidares da educação da Matilde. Não acredito no amor e tinha decidido morrer solteiro. Tu renunciaste ao casamento pela educação da tua irmã, e continuarás a fazê-lo pela Matilde. O nosso casamento seria assim como uma espécie de acordo comercial. Além do mais, depois de casados poderás requerer a adoção da Matilde e ela será legalmente filha dos dois.    
Com o nosso amor, vamos fazer dela uma pessoa feliz, e nem precisará saber das suas conturbadas origens.
-És muito generoso, - disse ela irónica. Tantas vantagens, só para mim e para a Matilde. E tu? Que exiges tu em troca de tanta generosidade?



Dois capítulos num dia?  Pois é amigos. É que eu estou muito feliz e tinha que vos contar. Meu marido não andava bem, e fez uma endoscopia há 3 semanas. Na endoscopia, o médico viu um nódulo e mandou fazer biopsia. Tenho andado com o coração nas mãos, pois como a maioria sabe, ele já teve cancro na próstata em 2010. Há meia hora telefonaram-me a dizer que tinha chegado o resultado. E o nódulo é um quisto glandular.





10.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVII



De súbito, largou o copo em cima da mesa da sala, e dirigiu-se a passos largos ao quarto de hóspedes, abriu o armário, pegou no saco com a roupa que a jovem esquecera no quarto, meteu o telemóvel no bolso das calças, pegou na carteira e nas chaves e saiu. Foi  à garagem, meteu-se no carro, ligou o motor e arrancou em direção a Lisboa. Olhou as horas. Nove horas. Muito cedo para já estar na cama, e decerto não iria sair no dia do seu regresso. E se tivesse saído, esperá-la-ia à porta até que voltasse. Tinha que ter uma conversa séria e definitiva com ela. Não podia desistir sem ter a certeza dos sentimentos que ela nutria por ele. Era a sua felicidade que estava em jogo. Estacionou junto ao edifício onde a jovem morava, e aproveitou o momento em que um casal de meia-idade saía, para entrar no prédio sem tocar a campainha. Descartou o elevador e subiu os dois lances de escada até ao andar da jovem. Aguardou um momento junto à porta. Não se ouvia nenhum ruído. Será que ela tinha saído? Bom, o melhor era tocar a campainha. E foi o que fez. Depois de uma curta espera, que a ele lhe pareceu interminável, Paula abriu a porta.
- Boa-noite. Desculpa vir a esta hora. Posso entrar?
- Entra - disse franqueando-lhe a entrada. - Não te esperava.
Fechou a porta e dirigiu-se para a sala. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, o rosto sem pintura, e os pés descalços. Vestia uns calções brancos, e um top azul. Todo o conjunto contribuía para lhe dar um ar frágil, e um aspeto de miúda.
Estavam os dois de pé na sala, um em frente do outro. Ele observou-a apercebendo-se da sua tristeza. Sentiu um aperto no peito. Era como se tivesse de novo na sua frente aquela menina tímida e triste que o pai levava para o escritório.
- Vim trazer a roupa que deixaste em Sintra, - disse estendendo-lhe o saco.
 -Obrigada - ela pegou no saco e pousou-o sobre a pequena mesa  em frente - mas não fiques aí de pé. Senta-te.
António deixou-se cair no sofá reparando que os seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse estado a chorar. Sentiu de novo aquele impulso antigo, de a sentar no seu colo e a confortar, tantas vezes experimentado outrora no escritório do pai dela. Também lembrou as palavras do Padre Celso. “Seja sincero consigo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder.” 
-Chega aqui, por favor, - pediu a voz enrouquecida pela emoção, o olhar fixo no dela.
Atraída pela força do seu olhar ela caminhou para ele, como o passarinho caminha para a serpente. Parou na sua frente. Então ele ergueu as suas mãos, colocou-as à roda da cintura dela, e com uma ligeira pressão sentou-a no seu colo.
-Vejo que estiveste a chorar. Estás tão triste e desamparada, como há vinte anos atrás, - disse com carinho - queres contar-me o que te aflige? Não tenhas medo. Estou aqui, e não vou deixar que ninguém te faça mal.


2.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXV



-Não, de modo nenhum. Desde que te conheci só me tens demonstrado que és uma boa pessoa, e o que fizeste ontem à noite, devolvendo a empresa, ao meu pai, apesar do ódio que lhe tens, foi a maior prova disso.
-Então, o que te impede?
-Se for contigo, a imprensa vai começar a especular. Não quero encher as páginas das revistas cor-de-rosa como a tua nova conquista.
-Isso é desculpa. Primeiro não tenho por costume exibir nenhuma conquista, nunca o fiz, sempre que apareci em alguma festa, fui sozinho, ou acompanhado da Gabi e do Eduardo. Segundo, não me parece que seja essa a verdadeira razão. Penso que cometi um erro quando disse ao teu pai que o salvaria se acedesses a casar comigo. Na altura, só pensei em castigá-lo, não pensei que isso podia separar-nos para sempre. Agora dou-me conta, que hoje, mesmo que diga que te amo, como nunca amei ninguém em toda a minha vida, que daria a minha fortuna, para que tivesses por mim, o mesmo sentimento que me inspiras, tu nunca acreditarás em mim. Como o teu pai não acreditou que eu tinha sido assaltado. Se eu fosse um tipo esperto, teria descoberto há muito que não és diferente dele. Mas até os tipos mais lerdos,  cedo ou tarde, acabam por ver o que têm na frente dos olhos. Assim sendo, não precisas inventar mais desculpas. Não voltarei a incomodar-te, nunca mendiguei nada a ninguém, também não o vou fazer contigo.
Atordoada com aquela declaração, Paula não teve tempo de responder, pois nesse momento bateram à porta, e de seguida, dona Teresa entrou.
-Filho, a tua irmã, e a família acabam de chegar.
Paula aproveitou a interrupção para dar por terminada aquela conversa, antes que começasse a chorar.
 -Já passa do meio-dia. Não se devem atrasar com o almoço, o tempo passa a correr e depois não têm tempo de se vestirem antes dos convidados começarem a chegar.
António levantou-se e deu o braço à mãe.
-Vamos lá então, -disse
Paula ficou só no escritório. Deixou-se cair na cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. De todo o discurso de António ela só retivera a declaração de amor. Pudesse ela acreditar nas palavras do empresário, e sentir-se-ia a  mulher muito feliz ao cimo da terra. Mas será que era mesmo uma declaração ou tratava-se apenas de um mero exemplo explicativo? E mesmo que fosse uma declaração, como acreditar num homem capaz de guardar sentimentos de vingança durante tantos anos? Quem lhe diria que ele não tinha desistido de arruinar o pai, por pensar que seria maior a vingança, se casasse com ela? Se ao menos ela soubesse o que o pai lhe tinha feito. Mas como havia de o saber, se nenhum dos dois queria falar nisso? Certo que o empresário deixara escapar qualquer coisa sobre um assalto. Mas ela estava tão atordoada que nem entendera o que ele dissera. Levantou-se e ia dirigir-se à cozinha, quando encontrou a mãe do anfitrião.
-Venha minha querida, ia chamá-la para almoçar.
-Obrigada, dona Teresa, mas é um almoço de família, não quero ser uma intrusa. Prefiro comer alguma coisa na cozinha. 
-De modo algum. Venha, estão todos à sua espera.
A senhora era tão amável e parecia tão sincera, que Paula não tinha como recusar o convite sem ser indelicada.
Entraram juntas na sala. Eduardo levantou-se para a cumprimentar e apresentou-lhe a  esposa e filho. Paula sentiu uma empatia imediata por Gabi, e emocionou-se quando a esposa de Eduardo, a abraçou com carinho. Pedro, o filho do casal era um rapazinho alegre e simpático, que lhe disse ser muito amigo de Miguel, e lhe contou que o irmão falava muito dela.
Pouco depois era servida a refeição. Todos se mostravam alegres e simpáticos, fazendo com que se sentisse da família. Todos, menos António, que se mantinha em silêncio e de sobrolho franzido, respondendo apenas quando era interrogado diretamente.



Passei o dia fora e estive na Alameda. Aqui podem ver algumas imagens se estiverem interessados. 

24.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XI






-Vai-te embora, Ana.
A voz saiu-lhe seca e rude como um tiro. Assustada, a jovem largou-lhe o braço e deu um passo atrás.
- Outra vez? Estás muito instável. Não pensei que depois de cinco anos voltasses assim. Não podes ser o Simão. És apenas parecido com ele. O Simão que eu conheço não me trataria assim. 
Afastou-se a correr, para que ele não visse as lágrimas que embaciavam o seu belo olhar.
Ele ficou no jardim vendo-a afastar-se. Doía-lhe o corpo e a alma. Sentia-se impotente para dominar os seus sentimentos. Apertou os punhos. Que podia fazer? Correr atrás dela e confessar-lhe… o inconfessável? Não podia fazê-lo. Ia odiá-lo. E com ela toda a sua família. Tinha que se dominar. Disfarçar. Fingir.
Mas ele nunca fora bom a fingir. Desde menino sempre quis saber a verdade das coisas e ser verdadeiro com os seus sentimentos e as pessoas que o rodeavam. Sentou-se e fechou os olhos.
Sobressaltou-se ao sentir uma mão no ombro.
- Que se passa, filho? Porque não entras e te divertes como os teus irmãos? Convivem tão pouco.
- Não se passa nada, pai. Estava aqui a recordar. A lembrar da primeira vez que entrei nesta casa, para cá morar. Até aí, vivia com os meus avós.
-Sim? Tinhas cinco anos. Não julguei possível que te recordasses.
-Pois. Mas na verdade até lembro, da primeira tarefa que me deste. Disseste para vir para o jardim com os manos, tomar conta deles, e ter especial cuidado com a Ana porque era ainda um bebé.
- E tu passaste a manhã toda com ela ao colo, - sorriu Afonso
- Ela gostava. E eu sentia-me tão importante com isso.
O pai sorriu e mudando de conversa, perguntou:
-Quando é que pensas, deixar Paris e voltar para casa? A mãe sofre, com a tua ausência.
- Sinceramente ainda não pensei nisso.
- Tens alguém lá que te prenda? – Perguntou encarando-o.
-Não. – Respondeu com firmeza, devolvendo o olhar
- Então filho, juro que não te entendo. Sei que Paris é uma cidade linda, com uma grande concentração de artistas de todo o mundo, muitas tertúlias, muita boémia. Mas será que um homem pode ser feliz só com isso? Já realizaste algumas exposições e todas foram um êxito. O teu nome anda sempre associado ao talento. Então, o quê, ou quem, te mantém exilado da tua pátria e daqueles que te amam?
Engoliu em seco. Mas não respondeu.
Afonso sentiu que havia qualquer coisa que impedia o filho de regressar. Qualquer coisa de muito doloroso. Era advogado há muitos anos. Conhecia a natureza humana. Estava habituado a descobrir nos silêncios, coisas que lhe queriam esconder. E o filho escondia-lhe alguma coisa. Talvez precisasse da sua ajuda e não se atrevesse a pedir. Tinha que estar alerta.
- Vamos Simão. Está na hora do jantar.
E os dois homens entraram em casa.

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21.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE V


No passeio, em frente à casa, a irmã e o noivo esperavam-na.
As duas irmãs abraçaram-se e beijaram-se com carinho, perante o olhar sorridente de Pedro. Depois, Ana beijou o futuro cunhado, e ele apressou-se a abrir-lhe a porta traseira do automóvel para ela entrar. Tendo feito o mesmo com a porta da frente, para que Matilde entrasse, deu a volta ao automóvel e arrancou. Matilde iniciou a conversa, olhando a irmã pelo espelho do carro.
- Há quase um mês que não te via, Ana. Por causa dos preparativos para o casamento, estou pouco tempo em casa, e nunca te vejo quando lá vais. Sabes, queria a tua ajuda para comprar a prenda para o aniversário de casamento dos pais. Não sei que comprar. E estamos quase em cima da festa. Que me aconselhas?
- Não sei. Talvez algo que simbolize o amor deles, mas também a união da família. Eu fiz um álbum com uma seleção de fotos de vários momentos da nossa e da vida deles.
- Caramba que ideia gira. Tenho a certeza de que vão adorar. Mas dentro desse espírito o que eu podia fazer? Podia dar uma coisa diferente a cada um, mas queria qualquer coisa igualmente simbólica para os dois, por se tratar de aniversário de casamento. O problema é que não me ocorre nada A Marta diz que lhes vai oferecer um quadro com o retrato da filha. Eles adoram a neta, vão gostar de certeza, e o João vai-lhes oferecer uma viagem aos Açores, tipo segunda lua-de-mel.
- Porque não compras uma jóia? – Interrompeu Pedro. Podias oferecer à tua mãe uma pequena medalha, para usar no fio, por exemplo um coração, e ao teu pai, sei lá uns botões de punho com um coração igual. Ou ele não usa?
- Que ideia genial. Bom, ele não usa botões de punho no dia-a-dia, mas em cerimonias sim.
- E eu posso ajudar-te com a despesa, - disse a irmã. Vocês têm muitos gastos com o casamento, as jóias não são baratas, e eu até nem gastei dinheiro com a minha prenda.
-E não te importas?
- Não, claro que não. Olha, podemos fazer o seguinte. Trocamos as prendas. Tu dás o álbum e eu vou comprar as jóias.
- Mas foi trabalho teu…
-E quem sabe disso?
-És um amor!
O carro acabara de estacionar junto ao restaurante. Já à mesa, enquanto esperavam ser atendidos, Ana perguntou:
- E Simão? Sabes se ele vem à festa? Tem dado notícias?

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Bom já deu para perceber que a Matilde, é a filha que a Francisca anunciou esperar no último episódio






18.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXII


- Deixa-me ver se entendi. Propões-me que me torne tua mulher. Por quanto tempo? Um dia, um mês, os quinze anos do contrato, ou até que deixes de me desejar, – perguntou zangada.
- Não entendo essa raiva. É claro que se tratará de um casamento para o resto das nossas vidas. Já te disse que nunca antes senti vontade de voltar a unir-me a uma mulher.
-E o contrato? Que farás ao contrato que assinámos? Nele estava escrito que era um casamento nominal e que terminaria quando os meninos atingissem a maioridade.
- Claro que esse contrato seria anulado. Destruiríamos o documento.
- Esqueces uma coisa muito importante. És um homem muito rico. Esse documento é a tua defesa em caso de eu decidir divorciar-me em qualquer momento. Sem ele, e em caso de divórcio, eu posso ficar com muito mais do que cem mil euros. Posso despojar-te de metade dos teus bens. Já pensaste nisso?
- Não preciso. Tu não és assim. 
- Nunca se sabe. A ambição existe e por dinheiro se cometem muitos crimes.
- Tu não. Eu confio em ti.
- Não chega, Ricardo.
- Não entendo.
-Sei que não. No fundo ao dizer que confias em mim, não fazendo nenhum contrato que te salvaguarde em caso de divórcio, estás a demonstrar que a tua falta de fé nas mulheres é mais aparente que real. Sim, eu sei, sou uma exceção já me disseste. Devia sentir-me lisonjeada. Por outro lado nem a tua fortuna, nem a tua confiança, são suficientes para me levarem para a tua cama. Repara que digo a tua cama, e não a tua vida, porque nela eu já estou, embora não da maneira que de modo diferente ambos desejamos. Na verdade, eu dormiria contigo hoje mesmo, ainda que fosses o homem mais pobre do planeta em toca de uma só palavra.
-Pedes-me o impossível Clara. Por muito que o meu corpo te deseje, o meu coração está seco.  
-  É uma pena, Ricardo. Por ti e por mim.  Olha, está na hora de ir buscar as crianças à escola, para o almoço. Vens comigo, ou esperas aqui por elas? – Perguntou levantando-se e pondo um ponto final na conversa.
-Claro que vou contigo, - respondeu apertando os punhos com raiva.
Aquela mulher tinha o poder de o desconcertar.  
Ricardo conduziu em silêncio até à escola. Mal tinham saído do carro quando ouviram o toque da campainha escolar e viram a auxiliar de educação dirigir-se ao portão onde já aguardavam alguns pais e avós que iam buscar os filhos e netos para almoçar.
Clara apresentou à funcionária o pai dos meninos e pediu-lhe se ela avisava a educadora que os seus filhos não voltariam naquela tarde, em virtude do regresso do pai. Entretanto as crianças iam-se aproximando e ao reconhecerem o pai quase atropelaram a Auxiliar, para se atirarem para os braços dele, que se baixara para os receber.
Foi uma cena emocionante. Quando Ricardo se levantou com um filho em cada braço, e se encaminhou para o carro, Clara sentiu vontade de chorar. Como era possível que um homem com tão grande amor filial fosse incapaz de amar uma mulher? Como era possível que o seu coração estivesse seco como ele lhe dissera?
Depois do almoço, aproveitando que a tarde estava ensolarada e a temperatura a antecipar a Primavera que se aproximava, Ricardo e os filhos, foram passear pela quinta. As crianças queriam mostrar ao pai os pintainhos recém-nascidos. E as rosas em flor. Mais tarde haveriam de brincar no parque enquanto contavam ao pai as imensas coisas que tinham aprendido durante a sua ausência. Enquanto isso, Clara refugiara-se no seu quarto, inquieta sobre o seu futuro.








17.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXI


Clara deixou-se cair no sofá, uma lágrima silenciosa rolando pela face. Ele não precisava dizer nada, para que ela soubesse o que tinha acontecido.
Ele desejava-a, isso era mais que evidente, mas a palavra amor assustara-o. Ricardo não acreditava no amor e talvez o seu coração nunca viesse a senti-lo, mas o seu corpo, as suas hormonas, não precisavam de amor para entrarem em ação. E ela amava-o como nunca amara alguém. Não que tivesse uma grande experiência amorosa. Amou Júlio, ou pelo menos pensava que o amava, quando se lhe entregou, e quando aceitou casar com ele. Júlio era pois o termo de comparação, e o que sentia agora, não se podia comparar, era algo avassalador. Um sentimento muito mais forte, um desejo dele que a assustava e envergonhava. Mas dar livre cursos aos seus sentimentos, sabendo que ele não a amava, era oferecer-se como voluntária para sofrer. Por isso chorava. Por ela e por ele.
Levantou-se para sair da biblioteca e então ele virou-se.
- Por favor não te vás embora. Precisamos ter uma conversa séria.
Ela voltou a sentar-se. Cruzou as mãos sobre o regaço e aguardou.
- Penso que já me conheces. Não sou homem de rodeios, nem de dizer aquilo que não sinto, só porque, como agora se diz é politicamente correto. Quando te propus casamento, foi como sabes para que tivesse alguém que tomasse conta dos meus filhos e os pudesse defender de qualquer perigo enquanto estava fora. Não pensava em ti como uma esposa mas como uma empregada, com quem tinha celebrado um contrato vantajoso, mais para mim do que para ti.
Porque eu poderia continuar com a minha vida como até aí, e tu ficavas com a tua vida em suspenso por quinze anos. Mas enfim se tu aceitavas, o problema era teu, para mim estava tudo bem.
Mas depois do casamento nada correu como eu esperava. Desde logo, porque tu não te limitaste ao teu papel de cuidar deles. Começaste a questionar o meu amor por eles, e obrigaste-me a encarar a minha vida por um prisma diferente. 
O que sabia de ti, pelo relatório do investigador, e o que observava diariamente, (o teu amor pelo teu irmão, tão grande que por ele nenhum sacrifício era impossível), a maneira afável como tratavas a Antónia, o carinho que demonstravas pelos meus filhos, a sensibilidade com que trataste da minha partida, não só aconselhando-me, como preparando aquele vídeo que foi o meu suporte, durante os últimos seis meses, cada vez que me sentia psicologicamente mais débil, fizeram com que ganhasses a minha admiração.
A pausa que se seguiu foi longa. Clara não se atreveu a dizer nada. Sentia que ele estava a seguir uma linha de pensamento, e esperou paciente.
- Pelo que te contei, do que foi a minha vida amorosa, deves saber que a minha opinião sobre as mulheres é péssima, e portanto um casamento no papel, não me afetava nada, antes pelo contrário servia-me de escudo contra possíveis tentações. Mas quando embarquei, tu já não estavas no mesmo patamar das outras mulheres. Já eras alguém especial, uma exceção para confirmar a regra.
E durante estes seis meses, as mensagens, que trocámos, fizeram-me repensar toda a minha vida e as minhas ambições para o futuro.
Desde logo, estou a pensar deixar a vida militar, e enveredar por um novo projeto profissional, que não me afaste de casa.
Se ficar em casa, estarei sempre ao lado dos meus filhos, e eles deixarão de precisar de ti para os amparar e proteger, porque eu estarei aqui para isso.
A jovem ficou lívida. Pensou que ele ia rescindir o contrato e sentiu um aperto no coração. Não pelo dinheiro. Estava no contrato que se ele o rompesse ela teria direito aos cem mil euros estabelecidos para o seu final. Porém naquele momento o dinheiro não lhe importava. Dinheiro nenhum do mundo pagava o amor que ela ganhara pelas crianças. E o delas por ela. Era cruel demais.
Mas então ele continuou, como se não se tivesse apercebido da emoção que as suas palavras tinham causado no espírito feminino.
- Mas eu nunca lhes poderei dar, aquilo que tu lhes deste. O amor de uma mãe. Então põe-se a questão da nossa vida pessoal. Tu és uma mulher muito bonita, que despertou a minha libido e o meu desejo. Pelo que ocorreu aqui há minutos, creio que também não te sou repulsivo. Estamos casados. Então porque não transformar aquele casamento de fachada, num casamento real?