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7.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVIII

 



Eles continuaram o passeio, mas a alegria que Sofia sentira até aí, já não era a mesma. Era como se uma sombra negra pairasse entre eles.
Decorridos uns minutos, ela perguntou suavemente:
-Dói muito?
Ele olhou-a surpreendido. Encolheu os ombros e respondeu.
- Já foi pior.

A resposta deixou-a cheia de esperança.
Talvez ela ainda tivesse hipótese de conquistar o marido.

Aos poucos Sofia ia conhecendo uma realidade muito diferente daquela que conhecera em Portugal. Não só porque fora de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, como pela mentalidade das pessoas, e até pela posição privilegiada de que gozava. Mas o que mais a admirava, era mesmo a diferença de mentalidades. 

Na sua aldeia, as pessoas não tinham presente, viviam presas ao passado, buscando nele, a conformação para os seus problemas diários. Diziam que apesar das dificuldades, que passavam, não se podiam queixar, porque os seus pais tinham vivido muito pior. Não fora o medo da guerra, ou da prisão, e a escassez de trabalho, talvez nem houvesse tanta gente a procurar na emigração a solução para as suas vidas. 

Em França, as pessoas viviam o presente, pensando no futuro. Não queriam pensar no passado, nem encontrar nele,  desculpas para não lutarem por aquilo  que desejavam. Talvez fosse influência da guerra recente. Excetuando os mais jovens, os outros tinham-na ainda bem presente. Ou talvez consequências do movimento grevista, iniciado em Maio do ano anterior. Os salários tinham aumentado consideravelmente, havia mais gente a estudar, e as minorias ganhavam novas regalias.

Num dos seus passeios no dia de folga, foram até à gare de Austerlitz, e Sofia ficou espantada com a quantidade de portugueses que chegavam de comboio. Sabia que era grande o afluxo de conterrâneos, mas nunca imaginou que fossem tantos. Segundo Quim, havia três fatores importantes, que levavam a que a França fosse o país de eleição dos emigrantes portugueses.

 Primeiro, o país aceitava a emigração clandestina, segundo facilitava a legalização e terceiro, não exigia qualificação na mão-de-obra.
Entretanto o frio chegara. Aproximava-se o Inverno, a neve caía com frequência.
Em casa tudo estava na mesma. O "casal" falava de tudo, menos de si próprios.

 Quim era gentil, preocupava-se com o seu bem-estar, mas não demonstrava outro sentimento que não fosse atribuído a uma boa amizade. Ele era um homem vivido, já tinha tido namoradas, talvez amantes. Sofia, era uma menina ingénua que desde que terminara o curso aos quinze anos, praticamente vivera enclausurada em casa.


Notícia
Como a carta do Hospital de Santa Maria nunca mais chega, para ir tirar os pontos que deveria ter tirado a 17/2 e que foi cancelada, na segunda feira mandei um email para saber quando seria a consulta. A resposta foi esta "Exma. senhora dona Elvira Carvalho, o pedido de consulta encontra-se registado a aguardar vagas de marcação, assim que a médica agendar a consulta vai receber a marcação por correio."
E pronto! O remédio é aguentar.

1.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE IV

 



Tanta fotografia cansava-a. Mas enfim era a tradição e ela pensava que a mãe já tinha desgostos que chegassem para os próximos dez anos pelo menos. E chegou enfim o carro para a levar até à dependência do Registo Civil.
Bem que ela gostava de uma cerimonia em casa, mas tal não era permitido por lei.

O pai entregou-a ao sogro, que na cerimonia representava o noivo.

E depois do casamento foram até ao restaurante local celebrar o acontecimento com uma pequena festa para a família, e duas amigas com quem a noiva tinha mais intimidade. 
A viagem para França seria dois dias depois, ela já tinha a carta de chamada do marido, que lhe autorizaria a saída do país, pois sem essa autorização nenhuma mulher podia viajar. 

No dia seguinte, era a festa da aldeia, com a procissão dedicada a Nossa Senhora das Dores. Era o primeiro ano que Sofia iria participar apenas como devota, e não como parte integrante da comissão organizadora. Assim, depois do almoço saiu com a mãe para assistirem à celebração da Eucaristia, à qual se seguiria a procissão pelas principais ruas da aldeia. Era uma festa a que acorriam não só os habitantes locais, como das aldeias circundantes, da vila mais próxima, e até de outros pontos do distrito.

Homens e mulheres vestiam os seus melhores fatos, para participarem na homenagem à Virgem. Os homens, sem chapéu, alguns mostrando luzidias calvícies, as mulheres de cabeças cobertas por belos e rendados véus quase todos pretos, exceção feita para as jovens e crianças, que usavam véus brancos, em sinal da sua pureza.

Mas todos sérios e solenes, compenetrados na fé à mãe de Deus. Contudo a imagem mais ternurenta, era a das crianças, vestidas de branco, com alvas asas nas costas, e coroas de flores entrelaçadas nos cabelos.
“Parecem mesmo uns anjinhos” – murmuravam pais e avós enlevados. Outras ainda, iam vestidas com o traje de Nossa Senhora de Fátima, de Nossa Senhora das Dores, S. Francisco, S. Pedro, ou Santa Teresinha do Menino Jesus, que representavam os cinco andores que todos os anos saíam na procissão, acompanhados pela banda dos Bombeiros.

26.2.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE III

 


Aviso a quem me reconhecer. A foto é minha, só porque eu casei no mesmo ano da protagonista e queria uma foto da época. Esta história, não tem nada a ver comigo.


                                                               III



Agora, passados  dez anos, o rapaz decidira casar. E como muitos outros, queria fazê-lo com uma mulher da sua terra. Escreveu aos pais, dando conta dos seus desejos.
O pai dele, era amigo do pai de Sofia, conhecia-lhe a filha desde que nascera, e fez-lhe saber que gostaria da rapariga para nora. E quando o seu pai lhe  contou, ela limitou-se a perguntar  se casava e continuava na aldeia, ou se ia ter com o marido. E quando soube que era para ir para França, aceitou imediatamente.

Ia fazer vinte anos em breve, tinha a cabeça cheia de sonhos e a alma presa à submissão do regime de então que tirava às mulheres todos os direitos que não fossem o de procriar para manter a espécie. E mesmo com os filhos, eles só eram realmente seus, enquanto estavam no ventre materno, porque uma vez paridos, era o pai que detinha sobre ele, todos os direitos. (1)

Era jovem, queria fugir dessa vida. E só o podia fazer com o pai, ou com o marido. Com o pai era impossível, logo casar-se parecia ser a solução ideal.
Às vezes passava-lhe pela cabeça, a lembrança de que ia efetuar um casamento sem amor. Mas logo afastava essa ideia, pensando que também não amava ninguém, por isso, a lógica era que viesse a amar o marido com o tempo e a convivência. E  entregava-se a Nossa Senhora das Dores, de quem era devota, para que a protegesse da infelicidade.

Não tinha irmãos, coisa rara na época,  em que os casais tinham muitos filhos. Todavia um parto complicado  e uma parteira  que não tinha experiência suficiente, para perceber de início, que alguma coisa não estava bem, para chamar uma ambulância e mandar a parturiente para a maternidade mais próxima, resultou numa situação que quase matou mãe e filha. Quando enfim, resolveu mandá-la para a maternidade já era tarde.  Os médicos conseguiram salvar mãe e filha, mas não conseguiram evitar que a mãe, ficasse incapacitada para ter mais filhos.

A prima acabou de lhe  abotoar os inúmeros botões do vestido de noiva. Nunca iria entender porque o vestido tinha que ter mais de cinquenta pequenos botões nas costas.

Quando a mãe e a tia Ilda entraram no quarto para ver se já estava pronta,  a jovem reparou que ambas tinham os olhos inchados e vermelhos. Sabia porquê. A sua família era extremamente religiosa.
Ela mesma frequentara a catequese, fizera a comunhão solene e fora crismada. E agora ia casar-se apenas no registo. O noivo pediu para ser assim e ela não se importou. 

Nenhuma rapariga na aldeia, se atrevera a casar sem ser na igreja, muito menos as da sua família. Para a mãe, e tias, o casamento pelo registo não passava dum… como é que elas diziam? Ah sim, um amancebamento. As primas colocaram-lhe a tiara e o véu que prenderam à trança enrolada no alto da cabeça. O fotógrafo já aguardava no corredor para entrar no quarto e tirar as  fotografias da noiva, antes da saída para o Conservatório onde se realizaria o casamento. 



(1) Conheci casos, em que o casal não se entendia e por isso separaram-se, mas continuavam casados, pois que em Portugal não havia divórcio.
Cada um seguiu a sua vida e arranjaram outros companheiros. Se a mulher tivesse filhos do novo companheiro, eles só podiam ser registados como filhos do marido, e se este quisesse tirar-lhos, a lei permitia-o. Uma prima minha, esteve nesta situação. Separada do marido, teve dois filhos do companheiro que foram registados em nome do marido, e só depois do 25 de Abril e da legalização do divórcio, pôde mudar o registo dos filhos.

18.11.19

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XV






Nos dias que se seguiram Gil, teve que ir ao aeroporto esperar o pai de Sara e os seus meios-irmãos, e levá-los para um hotel. Apesar da sua casa ter espaço suficiente para os instalar, ele vira-os apenas três vezes em todo o tempo que durou o seu casamento, não tinha com eles um vínculo afetivo que lhe permitisse sentir-se confortável em partilhar com eles a sua casa. Por outro lado, eles eram respetivamente avô e tios da sua filha, e tinham todo o direito de querer vir a Portugal ver a menina quando quisessem. Foi isso mesmo que disse ao sogro, quando o levou ao hospital para que pudesse ver a neta.
Pese a tragédia que se abatera sobre a sua vida, Gil contava com o apoio constante dos seus irmãos. Marco e Laura, que logo que soube do nascimento da sobrinha viajou para Portugal.
Foi Laura quem fez as entrevistas para a ama da bebé, apesar das empregadas de Gil, garantirem que entre as três cuidariam da menina, com todo o carinho, como se de uma neta se tratasse. Mas Laura disse que a criança precisaria de uma pessoa mais jovem para cuidar dela. E dado que era uma bebé prematura, ela exigira e acabara por contratar, uma ama com conhecimentos de enfermagem. Gil ainda nem a vira, apenas sabia pela irmã, que se chamava Inês, tinha trinta anos e era divorciada. Bom a vida da ama não lhe interessava, só desejava que fosse competente. Ela iria ao escritório do advogado assinar o contrato no dia seguinte, e seria a partir desse momento a ama da sua filha. Laura decidira que ela devia ir todos os dias ao hospital e estar com a menina todo o tempo que lhe fosse permitido a fim de que a bebé, se habituasse à sua presença.
Também o doutor Alcides, foi de uma enorme ajuda. Ele estivera presente junto da família, como se de um membro da mesma se tratasse, muito embora Gil pensasse que não o fazia apenas por altruísmo. Não lhe passara despercebido, o agrado do advogado quando lhe apresentara a sua irmã. Nem a troca de olhares que surpreendeu entre os dois por mais do que uma vez. Se isso ia significar ou não alguma coisa, não sabia, mas não lhe desagradava nada se os dois se apaixonassem. Tinha pelo advogado uma relação que ia muito para além da que um cliente tem pelo seu causídico.
Após o funeral, Gil acompanhou a família da sua falecida esposa ao aeroporto, reiterou o convite para virem visitar a bebé quando quisessem, mas o sogro usando de uma franqueza que muito lhe agradou, disse:
- Não será muito fácil, voltar a Portugal tão cedo. A minha família, é grande, os dois rapazes mais velhos, que já estão a trabalhar dão uma pequena ajuda, mas os dois também se preparam para constituir família, e não podem ajudar muito
. Os outros ainda estão na escola, e eu e a minha mulher trabalhamos muito para lhes dar o essencial. E as viagens para Portugal, são caras.
- Mas isso não é problema. Só me dizem quando querem vir, eu trato do resto.
- Eu sei que o senhor é rico e que o faz sem qualquer esforço, mas não. Se o aceitei agora, foi porque era a única hipótese que tínhamos de nos despedir da nossa querida Sara. Nunca mais o farei. Um homem pode ser pobre, mas isso não quer dizer que não tenha orgulho. De qualquer modo, muito obrigado por tudo, e se por acaso um dia for a França com a menina e quiser passar pela minha casa, vou ter muito gosto em poder abraçar a minha neta.
Despediram-se com um forte abraço. Gil ficou no aeroporto até o avião se elevar nas alturas.







23.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE V


A mãe de Sara morrera muito jovem, e o pai, por desgosto ou por falta de trabalho no seu próprio país, que lhe permitisse dar uma vida digna à filha, emigrou para França, deixando a menina com a sua mãe.
A jovem, fora então levada para casa da avó paterna, por quem fora criada e para quem era a menina dos seus olhos. Mas o amor de uma velha avó, não é decerto o suficiente para fazer uma criança feliz e formar uma personalidade forte e segura, por muito grande que seja. Certo que materialmente nunca lhe faltou nada, pois o pai mandava rigorosamente todos os meses, a maior parte do que ganhava, a fim de que avó e neta não tivessem necessidades, mas a nível emocional faltou-lhe o apoio seguro dos pais, e isso fez dela uma jovem tímida e insegura.
 Essa terá sido a razão de não ter singrado na carreira de modelo.
Curiosamente essa mesma timidez e insegurança que a fragilizavam e a afastaram de uma possível grande carreira, foram o catalisador que fizeram com que ele se tivesse apaixonado por ela. Não por uma questão de domínio, mas porque ele, tinha desenvolvido um grande sentido de proteção aos mais fracos, e sentia-se feliz amando-os e protegendo-os. Era assim com os seus irmãos, foi assim com Sara.  
Todavia o casamento mudou por completo a jovem Sara. Gil não sabia se tinha sido o seu amor, se a grande visibilidade, que o facto de ter casado com ele lhe trouxera, mas a verdade é que Sara se transformara numa mulher arrogante e convencida, o que o desgostara e fizera arrefecer a relação. Depois vieram as suas lesões, a decisão de se retirar, a recusa em aceitar uma proposta para comentador desportivo na televisão, a decisão de ir para a universidade, e de levar uma vida anónima de empresário em sociedade com o seu irmão, fazendo da pequena loja de artigos desportivos, a maior do país, e conseguindo a representação nacional de algumas marcas. Todavia a machadada final no casamento, acontecera quando Gil  descobrira que a mulher não engravidava, porque contrariamente aquilo que sempre lhe afirmara, andava a tomar a pílula. Ela não queria ser mãe, para não estragar a figura, mas afirmava que o seu ginecologista lhe dizia que estava tudo bem com ela, que nada a impedia de engravidar, passando-lhe a ideia de que se isso não acontecia, a culpa era dele, que talvez fosse estéril.
Sentiu-se traído e decidiu divorciar-se, mas nessa altura a avó dela morreu, e ele decidiu guardar essa decisão, para outra época menos dolorosa.
Para compensar o fracasso do seu casamento, dedicou-se com mais afinco aos estudos. 
Quando era criança, Gil tinha muitos sonhos. O principal, era poder estudar, ir para a Universidade, formar-se e dedicar-se à escrita. Ele tinha consciência que era um sonho irrealizável, pois era o mais velho dos três irmãos, o que se esperava dele, era que arranjasse um emprego e ajudasse a mãe a criar os irmãos. Para esquecer, Gil dedicava o tempo livre a jogar à bola e depressa o seu incrível talento foi notado pelo olheiro de um clube. As promessas de sucesso, fizeram-no desviar-se do seu sonho principal e dedicar-se de corpo e alma ao futebol, conseguindo apenas terminar o secundário. 
Muitos anos mais tarde, com o fim da carreira e o afastamento dos relvados, podia enfim dedicar-se aos estudos e à escrita. 
 Sempre gostara de escrever, e decidiu escrever um livro que contava a história de vida de dez miúdos de uma rua nos arredores da cidade. Embora os nomes e a localidade fossem ficção era uma história autobiográfica, aqueles miúdos eram os seus amigos de infância. Ele conhecia as suas vidas de quase miséria, os sonhos de cada um, as lutas diárias, as desistências da escola, a violência doméstica, a entrega às drogas, o roubo e por fim a desistência da própria vida, como se conhecia a si mesmo. Dos dez apenas dois tiveram sucesso, ele e Raul Flores que graças ao seu enorme talento para a música, e ao interesse de um professor,  conseguira uma bolsa de estudo e a entrada no Conservatório. E atualmente dirigia uma orquestra em Londres. Dos restantes, um suicidara-se com apenas dezasseis anos, outro estava preso, dois morreram com uma overdose, dois emigraram para França, um estava desaparecido há mais de dois anos, e o último, era o seu irmão Marco, apenas dois anos mais novo do que ele.



4.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XIII






-Há uns dias fui surpreendido com uma carta muito estranha – disse abrindo a gaveta e retirando a carta que entregou ao investigador. - Com a carta veio esta cópia de registo de nascimento, de uma menina. Como podes ver,  registada como minha filha. Não sei o que pensar porque de uma coisa eu tenho a certeza absoluta. Não conheci essa tal Susana e não sou o pai da miúda. Decidido a prová-lo fiz o teste do ADN. Chegou hoje o resultado, e como eu tinha a certeza, confirma que não sou pai da criança. Mas acrescenta que posso ser um familiar direto e aconselham-me a repetir o exame, para determinar o grau de parentesco. Tinha anunciado à tia da miúda que ia impugnar o registo logo que recebesse o resultado do teste de ADN e agora não sei o que fazer. Se a criança é da minha família não quero abandoná-la a uma vida de privações, quando eu tenho mais do que o suficiente para o resto da minha vida.
Passou o relatório do laboratório ao amigo que o analisou cuidadosamente:
 - De posse do resultado deste teste, podes pedir a impugnação judicial, do teu nome no registo da criança,  apresentando um requerimento fundamentado neste resultado. É melhor arranjares um advogado, ele te aconselhará como deves fazê-lo. Provavelmente o juiz pedirá um novo teste num laboratório indicado pelo tribunal. Acontece que se o resultado se mantiver, a criança é sem dúvida um familiar teu. Por outro lado, se a amiga dessa Susana, que frequentava a Universidade com ela, te reconheceu na foto que lhe mostrei, a pessoa em questão terá que ser uma pessoa muito parecida contigo.
- Mas não sou eu. Eu nem sequer sabia da sua existência, juro.
-  Acredito. De repente passou-me uma ideia pela cabeça. Pode ser maluquice, mas …
- Desembucha, estás a pôr-me nervoso.
-  Tu juras não ter conhecido a mãe da criança, mas ela estava convencida do contrário. Por outro lado, se não te conhecia como sabia o teu nome completo, a freguesia onde nasceste e todos os dados que estão nessa cópia de registo?
-Como hei de saber? – disse Ricardo levantando-se e caminhando até à janela. – Não sou adivinho.
E no entanto só há uma hipótese. Alguém namorou com ela em teu nome e lhe deu os teus dados. Por outro lado atendendo a esse resultado, tinha que ser alguém da tua família e bastante parecido contigo. Diz-me uma coisa? Quando foi a última vez que o teu irmão esteve em Portugal?
Ricardo voltou-se repentinamente.
- Que queres dizer com isso?
- Não me dirás que não é o tipo de coisa que o teu irmão costumava fazer.
- Sim, claro, mas na altura era um miúdo. Agora é um homem, casado e com família. Por pouca simpatia que me tenha, não teria como fazer isso. Depois a Susana era uma miúda. Quase podia ser filha dele. 


11.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIX


Horas mais tarde, Paula descansava a cabeça no peito masculino. 
-Estás bem? - perguntou António acariciando-lhe o rosto.
- Melhor seria impossível. Amo-te - respondeu
- Repete. Esperei tanto para o ouvir que ainda me parece um sonho.
- Amo-te, amo-te, amo-te. Desde que entraste no meu escritório, e me inquietaste com aquela promessa de beijo, que não me deste. Já gostavas de mim nessa altura?
-Segundo o teu pai, apaixonei-me por ti, no seu escritório, quando tinhas nove anos.
-Não é possível. Por aquela garota triste e magricela? 
-Bom, eu creio que me apaixonei por ti há cinco anos, dias depois do meu regresso de França, quando me cruzei contigo no banco. Mas estavas noiva, e tentei por todos os meios esquecer-te, embora sem o conseguir. Mas é verdade que sentia um carinho especial por ti naquela época, embora acredite que era mais um amor de irmão. Afinal de contas, tinha uma irmã quase da tua idade. Amanhã, vamos para Sintra, - disse mudando de assunto. Vamos falar com o padre Celso e marcar a data de casamento. Depois vamos comprar o anel de noivado, e à noite vamos falar com o teu pai. Oxalá ele não me dê um tiro.
-O meu pai não é tão mau como pensas. Ele sofreu imenso com a morte da minha mãe e andou perdido durante anos. Sentia-se infeliz e descontava o seu sofrimento em quem o rodeava. Hoje está diferente. Tenho a certeza de que só quer a minha felicidade. Mas não falemos mais do meu pai. Vamos dormir? – perguntou
- Se quiseres, - respondeu ele - a boca buscando a dela, a mão esquerda abarcando-lhe o seio, com o polegar acariciando o mamilo, a mão direita, puxando-lhe o corpo de encontro à sua masculinidade, para que sentisse a sua excitação.
Ela riu baixinho, certa de que afinal nem tinha sono.

                                              *************

Tinha passado um ano desde aquela noite. Um ano que trouxe muitas mudanças mas que foi sobretudo de muita felicidade para o casal. Paula era uma mulher independente, não queria viver à sombra do marido, e ele concordara em que continuasse com a sua firma de eventos. Todavia pouco tempo depois do casamento, Paula  descobriu que estava  grávida de gémeos. Primeira gravidez já com trinta anos, e ainda por cima uma gravidez gemelar, o médico aconselhou muito repouso e pouco stress, pelo que ela chegou a pensar fechar a firma.  Porém um dia em conversa com a cunhada, Gabi disse-lhe que poderiam trabalhar juntas, pelo menos durante a gravidez. Paula assinaria os projetos e ela os executaria. E a verdade é que Gabi, revelou-se uma ajuda preciosa. Parecia ter nascido para aquela profissão, e Paula acabou propondo-lhe sociedade. Quando atingiu os seis meses, o médico exigiu repouso absoluto e dona Teresa, a sogra, mudou-se para a quinta a fim de estar perto dela para a ajudar no que precisasse. Era uma senhora amorosa, que a tratava com imenso carinho e Paula gostava muito dela. 
Naquele momento, a senhora insistia com a jovem, dizendo que tinha de comer o lanche que Alice a empregada preparara e colocara na mesa-de- cabeceira. Na cama, ao lado de Paula, um bebé dormia. De pé olhando-a com amor, António tinha nos braços o outro bebé. 
 Ouviu-se uma leve batida na porta  do quarto e dona Teresa foi abrir. Jorge, Cidália e Miguel entraram no quarto.
-Parabéns, - disse Jorge dando uma palmada amistosa, nas costas de António e dirigindo-se em seguida para o leito a fim de beijar a filha.
Depois voltou para junto do genro, deixando a mulher e o filho junto da jovem mãe.
-Esse é o meu neto? - perguntou mirando a carinha do recém-nascido.
-É o Martim,- respondeu António passando-lhe o bebé para os braços. A Mariana está ao lado da mãe.
Os dois homens encararam-se com um sorriso.  Durante aquele ano o ressentimento fora esquecido, não havia mais animosidade entre eles. Na cama, Paula, colocou nos braços do irmão a sua filha. O garoto pegou-lhe com extremo cuidado, os olhos rasos de água, comovido pela responsabilidade que era segurar nos braços a sua minúscula sobrinha.
Mais tarde quando eles partiram, António colocou os bebés nos respetivos berços, e sentando-se na beira do leito, beijou a mão da mulher.
-Meu Deus - murmurou,- não quero mais filhos. Passei as piores horas da minha vida antes de eles nascerem. Recriminei-me tanto pelo que estavas a passar.
-Não sejas tonto. Havemos de ter quantos Deus quiser. Afinal de contas, não temos problemas financeiros, e não nos falta amor para lhes dar.
- Mas e o teu sofrimento? Os enjoos, os pés inchados, as dores nas costas, as dores do parto? Não é justo.
-As dores da gravidez e do parto de qualquer mãe, é esquecido quando ela aperta o filho nos braços. Ou será que estás com ciúmes deles?- perguntou sorrindo.
Ele curvou-se e beijou-a. Não precisou falar. Aquele beijo disse-lhe tudo o que lhe ia na alma.

FIM

Como amanhã se festeja o dia da mãe em grande parte do mundo, (25 países) esta história não podia terminar de outra forma

19.4.18

RENASCER - XVI




Aviso aos amigos. Amanhã não haverá continuação desta história. 
É um dia especial, um dia de saudade. Se meu pai fosse vivo faria amanhã 100 anos. Os mais antigos conheceram-no através da sua história, e sabem do amor e da admiração que tinha por ele.

14.4.18

RENASCER - XI

- E ela veio de França, sozinha? – Perguntou admirado.
- Não, filho. Vieram os três. Faltam poucos dias para o Natal e sabes como os nossos emigrantes sempre regressam nesta época para passar o Natal em família.
-É verdade, E a mãe? Como tem passado? – Perguntou para mudar o rumo à conversa.
- Agora bem mais feliz. Quando tivemos a notícia da tua morte, todos ficamos muito tristes, como é natural, mas ela foi-se muito abaixo. Não comia, não dormia, vinha de noite para a rua, olhar o céu. Um dia perguntei-lhe porque o fazia tantas vezes, e respondeu-me que estava a tentar descobrir, qual daquelas estrelas eras tu. Cheguei a pensar que ela ia perder o juízo, até fiz uma promessa ao S. Macário para ver se melhorava. Um dia a tua irmã Amália, meteu-a no carro e levou-a a um médico amigo do teu cunhado. Ele receitou-lhe uns comprimidos, e ou fosse por ele, ou milagre do santo, ela começou a melhorar. As tuas irmãs traziam para nossa casa os teus sobrinhos sempre que não estavam na escola, numa tentativa de nos darem um motivo de alegria, mas estava a ser muito difícil.  Oxalá nunca passes por um desgosto destes. Nenhum pai devia passar. É uma dor sem tamanho, é contra natura.
-Ó pai mas eu não morri, por isso vamos mudar de conversa, que para sofrimento já chega.
- Pois não. E todos os dias dou graças a Deus por isso. Mas a tua mãe fez uma promessa à Nossa Senhora dos Remédios, quando partiste, e acho que vai querer que lá vás com ela por estes dias.
- E eu vou, sem dúvida. Mas meu pai, não quer fazer uma paragem, onde houver um café? Apetece-me tanto beber um.
- Está bem. Mas não pudemos demorar. A viagem é longa os dias são curtos, temos pouco mais de hora e meia de sol, e nunca gostei de conduzir de noite.
- Está bem. Dez minutos são suficientes. E o pai, também deve precisar esticar as pernas.
Dez minutos depois, retomavam a viagem rumo a Peso da Régua, onde família e amigos o esperavam.


E então amigos? Alguém me ajuda com o nome deste conto? Ou vai até ao fim sem nome?
Podem deixar as vossas sugestões nos comentários.

22.3.18

A TRAIÇÃO - FINAL





Três anos mais tarde, a festa era grande, naquele hotel, onde se reuniam os familiares de Odete, incluindo os irmãos emigrados em França, e no momento de férias em Lisboa, com as mulheres e filhos, a irmã Laura, e o marido.  Também estavam presentes, a mãe e a tia de João, o psicólogo Manuel, seu grande amigo, e família. Isabel grávida de sete meses, o marido, e o filho de ambos, o pequeno Tiago, radiante, porque a sua mãe "tem na barriga o meu irmão" como faz questão de contar a toda a gente, e alguns médicos com quem João tem mais afinidade, bem como algumas colegas do Infantário onde Odete trabalha. O casal, mais feliz que nunca, festejava o décimo aniversário do seu casamento, e o batizado de Sara, a sua primeira filha.
Primeira sim, porque eles iam ter mais filhos, o segundo já estava a caminho, como Odete segredara nessa manhã ao marido, quando amorosamente descansava nos seus braços. 
Três anos antes, um quarto daquele hotel fora testemunha da reconciliação dos dois. Ali, ambos se perdoaram mutuamente por todos os erros que tinham cometido no passado. Pela falta de confiança de Odete, pelo excesso de trabalho de João. Pelos medos e insegurança dos dois. E quando Odete, quis destruir a carta que tanto sofrimento lhes tinha causado, João pediu para a guardarem, como uma lembrança de que dali para a frente, nada nem ninguém poderia fazer nada contra eles, porque ambos confiariam um no outro, e no amor que sempre os uniu.
- Numa coisa a Inês tem razão, meu amor, – dissera ele. Continuas a ser uma menina ingénua. Acreditaste mesmo que eu não faria tudo para tratar a tua mãe, se te recusasses a voltar a casa? Só utilizei aquele estratagema, porque estava doido de amor por ti, e  desesperado porque me convencera de que não me querias. Mas a cirurgia da tua mãe nunca esteve em risco. Ainda que não fosse a tua mãe. Acima de tudo sou médico, a minha missão é salvar vidas. Além do mais, como diretor clínico dum hospital público, nada me impedia de assinar a ordem de internamento da tua mãe, no "meu" hospital. 
 Nos braços um do outro,  numa catarse mútua, abriram o coração e amadureceram juntos. Ali se amaram sem reservas, enfim livres de todos os mal-entendidos. 
E ali naquele dia de tão fortes emoções, Sara fora concebida. Logo não havia como escolher outro local para festejar aquela data.


Fim

Elvira Carvalho




Amigos a partir de hoje será difícil visitar-vos, já que em Lagos só tenho o Smartphone e 
não sei bem andar pelos blogues com ele.
As postagens para os dias até ao meu regresso estão agendadas. 
Abraço-vos com carinho e desejo boa Páscoa.

9.1.18

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE II


Os mais antigos sabem que esta foto é do meu casamento. Repito-a em cada história que tem um casamento naquela época.






Decidido, foi até Santar, no distrito de Viseu e procurou a jovem que o acompanhara e lhe dera apoio moral nos últimos vinte meses.  
Simpatizaram, namoraram e casaram. Depois emigraram para França, lá trabalharam, tiveram filhos e netos. Fernanda foi uma grande companheira. Era boa esposa e boa mãe, e apesar de reconhecê-lo sabia que não se tinha dado por inteiro e por vezes o remorso assaltava-o. Mas não estava na sua mão, ele não conseguia amar sem reservas, com todo o seu coração. Porque uma parte dele não lhe pertencia. Apesar de tudo, ela foi uma mulher feliz até que o maldito cancro a levou.
Viúvo e prestes a ser reformado, Abílio sonhava voltar ao seu amado Portugal, rever as ruas onde crescera e vivera, sentir o cálido e luminoso sol de Lisboa, passear pela baixa, espraiar o olhar pelo Tejo. Porém os filhos e os netos eram franceses. Lá nasceram, cresceram se fizeram adultos, amaram, casaram. Abílio entendia que os filhos não quisessem alterar toda a sua vida, para irem para um país que nada lhes dizia, e que, não tinha condições, de lhes oferecer empregos, compatíveis com a vida que tinham no seu país natal. Mas como diziam na sua terra, amigo não empata amigo e por isso despediu-se dos filhos e netos, prometendo que passariam as datas mais importantes juntos, quer fosse em Lisboa, ou em França, e rumou a Lisboa, onde alugou uma pequena casa na Graça.
Nos primeiros tempos deambulou pela cidade, admirando-se com as enormes mudanças efetuadas desde a última vez que ali estivera para assistir ao funeral da mãe, trinta anos atrás.( O pai havia falecido, anos antes, enquanto ele estava em Moçambique). Depois disso, sempre que vinha de férias a Portugal, ficava-se pela casa dos sogros em Santar. Viveu feliz durante uns meses, até ao dia em que a solidão se apresentou na sua casa, sentou à sua mesa e deitou na sua cama.  É que a rua onde nascera estava irreconhecível, os amigos de infância tinham desaparecido, e nesta nova Lisboa, ele não conhecia ninguém.
O olhar tonou-se nostálgico, o sorriso foi perdendo naturalidade. Até os filhos e netos, notaram a diferença, nas longas conversas via Skipe.  Para o animar, Alexandre o neto mais velho, aconselhou-o a criar um perfil numa rede social muito em voga, e a procurar os seus antigos amigos pelo nome nessa rede.
“Hoje em dia, avô, só não está nessa rede, quem já morreu, ou não sabe ler. Vais ver que vais encontrar amigos, até talvez os teus antigos colegas de Moçambique”
Animado, Abílio assim fez. E começou uma busca, pelos seus amigos na internet. Conseguiu encontrar alguns amigos de infância, mas apenas três residiam na cidade, os outros estavam espalhados pela Europa, para onde tinham emigrado em busca de melhores condições, tal como ele fizera. E então, antes de procurar os colegas de tropa, ganhou coragem e procurou Ema. 
Encontrou-a a viver em Braga, e enviou-lhe uma mensagem a que ela respondeu no mesmo dia, com o seu número de telemóvel.
Nervoso e ansioso esperou a noite para lhe telefonar. Emocionou-se ao ouvir a sua voz, enquanto lhe contava que vivia com a irmã, e a sobrinha. Que voltara a viver em Lisboa, depois que os pais, morreram, mas que se mudara para Braga, quando a irmã ficara viúva a fim de a apoiar. Não, não tinha casado, nunca tinha encontrado alguém que a levasse a desejar fazê-lo.  Por sua vez, ele falou-lhe do tempo de guerra em Moçambique, das inúmeras cartas que lhe enviara e recebera de volta, de Fernanda, do seu casamento, dos filhos e netos, luso-franceses, e da sua atual vida em Lisboa. 

Continua


Nota:
 Há oito dias com uma dieta rigorosa, que deveria terminar hoje, tive uma nova sessão de vómitos ontem à noite. Hoje estou bem dispostas, mas sinto-me fraca, e sem paciência. Tenho saudades de um bom prato de comida, e não consigo apaziguar o maldito ciático.
Fiquem bem

2.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE II



 




Dirigiu-se à casa de banho. A mãe, arrumou o quarto, abriu o armário e tirou o vestido de noiva que colocou em cima da cama. Depois saiu.
Na sala as irmãs, cunhadas e sobrinhos esperavam. Entrou no quarto de casal, onde o marido andava às voltas com o nó da gravata, e procurou no armário o fato que ia levar ao casamento da filha. Estava muito nervosa. A falar verdade não lhe agradava nada aquele casamento arranjado entre o marido e o pai do noivo. Não se conformava. Nem percebia porque a filha tinha aceitado aquele disparate.  


24.7.14

ISABEL PARTE XIX


                                           foto da net

Isabel permaneceu nos correios durante um bom bocado. Depois de expedir as cartas, dirigiu-se aos expositores de livros, e fingindo escolher um, lá permaneceu por quase meia hora, e quem sabe não teria ficado mais tempo se entretanto não chegasse a hora do encerramento. Tinha medo de voltar a encontrar Miguel. Não se reconhecia. Ela que enfrentara com coragem a morte do marido daquela forma brutal. Que lutara pelos seus sonhos mesmo quando não dormia para cuidar dos pais. Que era feito daquela mulher forte, a quem a vida madrasta não assustava? Quem era aquela mulher que tremia feito criança assustada na presença de um quase desconhecido?
Entrou no prédio e dirigiu-se ao elevador
- Boa tarde menina, - saudou a porteira que se dirigia para a porta da rua com um balde e uma esfregona.
- Boa tarde D. Rosa. Desculpe não a tinha visto. E dizendo isto abriu a porta do elevador.
- Não faz mal menina. Tenha cuidado ao sair do elevador, o chão pode não estar seco ainda.
- Terei cuidado. Até logo e obrigada pelo aviso
- Até logo menina. Vá com Deus.
Isabel fez subir o elevador. Muitas vezes subia a escada. Afinal embora o prédio fosse de 10 andares ela vivia logo no 2º.
A conversa com a porteira tivera o condão de a desviar dos seus pensamentos e sentia-se agora mais calma.
Quando em 2007 ela fora morar para o prédio já a D. Rosa lá estava. Era uma mulher sozinha. O marido morrera há anos e o único filho que tivera emigrara para França. Queria fugir dum futuro sem esperanças. Lá casou e lá foi pai por duas vezes. A princípio vinha sempre a Portugal, todos os anos em Agosto. Depois os filhos começaram a crescer, foram para a escola, arranjaram amigos e foram-se desinteressando das férias em Portugal. Afinal lá é que era a sua terra e lá estava o seu futuro. Se a nora fosse portuguesa, decerto faria pressão para vir ver a família. Mas não era. Aos poucos as visitas foram rareando. A última vez que viu o filho e os netos foi no funeral do marido. Nessa altura o filho insistiu em levá-la, tinha lá boa vida comprara casa nova e até tinha um quartinho para a mãe. Mas ela não quis. Costumava dizer “Vivi aqui toda a vida, quero repousar aqui". E depois eles têm lá a sua vida os seus costumes e eu ia para lá servir de estorvo. São outras terras, outras modas."E burro velho não aprende línguas".Aqui, tenho a sorte de ter este trabalho, tenho a casa, não pago renda, os inquilinos são como amigos, tratam-me com carinho que mais hei-de querer?”
Um dia Isabel perguntou-lhe: - Mas não tem saudades deles?
-Ai menina, se tenho. É uma mágoa sem tamanho. Mas sabe a minha avó sempre dizia. Quando casamos uma filha, ganhamos um filho, quando casamos um filho perde-mo-lo.
- Nem sempre D. Rosa, nem sempre.
- Claro, menina há excepções. Mas do mesmo modo que uma filha puxa o marido para nós, a nora também puxa o marido para a família dela.
Isabel gostava dela. Talvez fosse a solidão das duas que as aproximava.
Tomou um duche rápido, envolveu-se num roupão de seda e dirigiu-se à cozinha.
Não lhe apetecia cozinhar. Procurou no frigorífico as sobras. Tinha um pouquinho de frango assado. Também um restinho de arroz branco. Meia alface, um pimento, e um tomate.
Na dispensa havia sempre uma latinha de milho. Decidida fez uma salada de frango.

Continua

Bom fim de semana.
Tenho andado a caminho de Lisboa, com o maridão que tem andado em exames médicos e que foi ontem operado a uma catarata. A cirurgia correu bem e segunda feira vai ser operado ao outro olho. O tempo para os blogues e visitas tem sido por isso mais curto. As minhas desculpas